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Santos me hospedou

História de: Ramon Luis Poglete Contardo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2005

Sinopse

Infância no Chile. A Faculdade de Egenharia Eletrônica e a revolução. A fuga com amigos para o Brasil. Primeiros tempos de exílio em São Paulo e a dificuldade de emprego por não ter documentos. Trabalho em hotel e outras oportunidades. Convite para a gerência do Hotel Atlântico, em Santos, em 1979. Descrição da trajetória do hotel e de histórias de clientes. A administração do hotel. O casamento com uma brasileira. O filho, jogador do juvenil do Santos Futebol Clube.

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História completa

Família
Meu nome é Ramon Luis Poglete Contardo. Eu nasci no dia 2 de agosto de 1956, em Santiago do Chile. O nome do meu pai é chama Ramon Luis Poglete Goigochea e da minha mãe Rosa Lira Contardo Diaz. Meu pai sempre trabalhou na área de hotelaria, ele começou como garçom e chegou a ser maître de hotel, lá no Chile. Ele trabalhou em vários hotéis. Inclusive chegou a ser maître da presidência da República, na época o presidente era Eduardo Frei. Mas ele trabalhou no Hotel Criollon, no Carrera. Minha mãe era do lar, cuidava da casa. Tive pouco contato com os meus avós, porque eles são espanhóis.

Infância
Minha infância foi no Chile. Eu sempre lembro daqueles momentos gostosos de criança. Minha casa, nós éramos de classe média, não tinha muito luxo, mas era uma família muito unida, existia muito amor. Eram só meus pais, eu e minha irmã. E me recordo muito de meus amigos, o bairro onde eu morava, perto da Cordilheira, o Chile fica entre o Pacífico e a Cordilheira. E aquelas correrias pela rua, subindo montanha... Lá se esquia muito e nós fazíamos muito isso também. Era uma época muito bonita.

Estudos na Congregação Salesiana Dom Bosco
Eu estudei na Congregação Salesiana Dom Bosco, fiz o primário e o segundo grau lá. São padres muito rígidos, até demais, e eu tive uma base muito sólida, muito boa, que com o tempo me fez bem. Inclusive, na época, nós tínhamos a parte do colégio e a parte do seminário, e eu cheguei a ter colegas que depois se formaram padres salesianos.

Vinda para o Brasil
Morei no Chile até os 17 anos. Na época, o país estava passando por um processo político meio complicado. Já fazia faculdade e lá é um país muito politizado. Nós tínhamos um governo socialista, que foi eleito pelo povo, e tinha gente que estava contra esse governo e conseguiu fazer um golpe militar. Quem assumiu na foi o Pinochet. Eu fazia faculdade de engenharia, estava no primeiro semestre. E lá você participa muito de política, fazia parte de um partido político. Mas só que nós não éramos ativistas. Mas nesse período começou a acontecer o seguinte: companheiros meus começaram a sumir. Um dia sumia um, outro dia outro... E eu falei: "Está na hora de eu sair daqui porque vai acontecer alguma coisa". Foi quando eu saí, primeiro fui para a Argentina, para Venezuela e depois para o Brasil. E nunca mais saí daqui. Eu vim com mais três amigos para o Brasil, com a bênção do pai e da mãe, logicamente. Mas sabíamos que muita coisa ia nos acontecer, éramos muito conscientes. Esses meus amigos não estão mais aqui: um mora na Suécia, dois nos Estados Unidos e outro voltou para o Chile. Cada um seguiu seu caminho diferente. O único que criou raízes no Brasil fui eu. Eu entrei no país por Uruguaiana, em Porto Alegre. Fiquei uns quatro dias. Eu não conhecia ninguém, não falava a língua e não tinha dinheiro. Foi aquele negócio de aventureiro: você consegue as coisas pelo seu sacrifício. Depois fui para Curitiba, fiquei um dia, e vim pra São Paulo. Lembro que foi no dia 26 de outubro de 1976, cheguei na rodoviária da Estação da Luz.

Chegada a São Paulo
Eu imaginava outra coisa de São Paulo, eu via aquelas fotos, das metrópoles, tipo Avenida Paulista e quando cheguei naquele bairro, confesso que fiquei meio decepcionado. Então pensei: "O que eu faço?" Peguei a mala e fui caminhando, atravessei a Avenida Prestes Maia e vi uma casa que estava escrito assim: "Aluga-se vaga para rapazes". Aí entrei numa vila muito bonita na Rua Mauá para conversa com a pessoa. Eu não sabia o que era "vaga". "Rapazes" eu sabia que era muchacho para nós. Lembro que entrei naquela pensão e a mulher falou: "Esse aqui é o quarto". Vi três beliches, mas imaginava que era um quarto, com banheirinho. Eu perguntei: "Mas é aqui?" Ela falou: "É aqui". "Está bom, é pouco dinheiro, eu fico aqui." Me lembro que eu peguei a cama de baixo e de noite chegaram cinco policiais. Fiquei olhando, eles me perguntaram um pouco o que eu falava e eu perguntei: "Vou morar aqui, tá?" Eles eram do interior e estavam fazendo curso de oficial em São Paulo. Resumindo: fiz uma grande amizade com eles, eles perceberam que eu era recém-chegado, não conhecia ninguém. Inclusive eles me levaram para passear, conhecer São Paulo. Meu primeiro emprego aqui, por não ter documentos, e assim era difícil conseguir trabalho, foi num barzinho da esquina que era de um português. Trabalhei uns dias na copa, ajudando o dono para ter um dinheiro para me sustentar. Nesse barzinho apareciam algumas pessoas que diziam o que faziam. Um dia chegou um que disse: "Precisamos de pintores". E eu fui trabalhar com isso. Eu lembro que nós pintamos uns prédios. A única coisa que eu não fazia, porque eu sempre fui fortinho, era se pendurar por fora, naquelas cordas pra pintar os prédios, eu só fazia a parte interna. Como eu tinha estudado um pouco engenharia eletrônica, procurei um emprego nessa área e consegui numa firma que construía aparelho eletrônicos no Alto da Lapa. Eu entrava às 6 horas da manhã e pegava um trem que tinha na Estação da Luz até o Alto da Lapa. Descia na Estação da Lapa e andava uns seis quarteirões de subida. De manhã até que era gostoso. O problema era voltar à tarde, porque era um trem que vinha todo mundo pendurado, e tinha uns lugares por onde ele passava que era até engraçado, começavam a jogar pedras naquele trem. Na época se comentava muito que em São Paulo tinha gente que caía do trem. Eu achava engraçado, porque para mim era tudo novidade.

Primeiro trabalho em hotelaria
Depois de alguns meses trabalhando nessa firma de aparelho eletrônicos, surgiu uma possibilidade de eu trabalhar em um hotel, que era justamente um horário à noite, de porteiro. Falei: "Bom, acho que vai dar pra conciliar os dois: saio de manhã, vou direto para a empresa, descanso um pouco de tarde e à noite vou para o hotel". E assim que foi. No começo, tudo bem. Só que começou a ficar muito cansativo. Então decidi sair da empresa de eletrônica e comecei a trabalhar na parte hoteleira aqui em São Paulo, que foi o começo da minha vida no hotel. O hotel se chama Alfa Hotel e fica na Avenida Ipiranga com a Santa Ifigênia. Essa foi minha escolinha do ramo. Já estava falando um pouco melhor o português, eu falo algumas línguas, então para mim tinha essa facilidade. E eu me lembro que na época o que precisava para trabalhar em hotel era falar algumas línguas a mais. Eu gostei da área, e a partir daí minha vida começou a melhorar em São Paulo. Também já tinha saído daquela pensão, aluguei uma quitinete na Avenida Tiradentes, em frente à Estação Ponte Pequena [atual estação Armênia] do metrô. Eu estava com intenção de que meus pais viessem para o Brasil. Isso foi no ano 77, 78... Hotelaria e comércio Eu sempre gostei de comércio. Inclusive na minha profissão eu sempre tentei comercializar. Porque em hotelaria você faz uma venda. O cliente chega, você tem que cativá-lo, e você está vendendo um produto muito difícil, que é um apartamento. Porque você não pode colocar no estoque e vender amanhã. Você precisa vender na hora. Enquanto eu trabalhava no hotel, eu também mexia com comércio. Eu reparava que em São Paulo não tinha coisas para minha idade. Então comprei uma máquina de churros. Se vocês forem a São Paulo, na esquina Avenida Ipiranga com a São João, tinha um negócio que vendia churros. Era eu que estava lá... Os churros eram uma novidade, porque eram aqueles recheados, porque na Espanha, o churro não é recheado, é feito de outra maneira. E a novidade aqui era a maquininha que permitia fazer um churro recheado.

Vinda da família de origem
Nessa eu já tinha trazido minha família para o Brasil. Na verdade eles vieram passear e acabaram ficando. Eu ainda não tinha conseguido documentos brasileiros. Tudo bem, hoje posso falar que está tudo legalizado, mas na época não conseguiria um emprego sem carteira de trabalho. Tive que negociar no interior, precisava pagar não sei quanto, e a carteira era completamente legalizada. Foi que meu primeiro emprego, guardo como recordação essa carteira de trabalho. Depois, com o tempo, consegui minha residência brasileira, casei, minha mulher é brasileira, tive filhos.

Mudança de emprego. Ida para a Rede Eldorado
Depois de um tempo, fui para a cadeia Eldorado. Me ofereceram um emprego muito melhor, era chefe da recepção. Era uma rede de hotéis, com o Hotel São Luís, Village Eldorado de Atibaia, e vários outros. Uma vez eu estava na recepção e em um determinado momento estava com a cabeça abaixada, embaixo do balcão. Lá trabalhavam dois recepcionistas, o chefe da recepção e gerente da recepção, então éramos em quatro. Eu senti que alguém passou na minha frente, só que não percebi quem foi. Quando eu levantei, não tinha mais ninguém. Só sei que passou uns dez minutos e me chamaram no departamento pessoal do hotel. Subi e falaram: "Você tomou uma suspensão de três dias". Eu perguntei: "Mas por quê?" Então me responderam: "Porque um dos diretores passou e você estava dormindo em cima do balcão". Eu falei: "Peraí, eu não estava dormindo, eu me abaixei para uma posição para descanso". Não ia discutir muito, tomei três dias de suspensão, injustamente. Quando voltei me chamaram de novo. "O diretor, sr. José Davi quer falar com você." Pensei: “Estranho, não conheço José Davi, não sei quem é”. Entrei numa sala muito bonita, com um senhor forte, de óculos, sério, que falou: "Quem deu essa suspensão pra você fui eu". "Por quê?" "Porque eu passei naquele dia e vi você e foi uma maneira de nos conhecermos." Fiquei sem entender nada. “Será que ele gostou de mim?” Ele falou: "Bom, eu vou falar o que eu quero de você. Comprei um hotel em Santos, que está fechado, e eu preciso de uma pessoa com experiência e com vontade de trabalhar. Primeiro, para acompanhar a reforma e depois implantar todo o sistema dentro do hotel. Eu acho que você tem as condições." "Olha, tudo bem, mas primeiro eu gostaria de conhecer o hotel."

Primeira ida para Santos
Só tinha ido uma vez a Santos. Eu tinha conhecido dois amigos, que também eram chilenos, e nós combinamos de ir para Santos. Sem dinheiro, tudo duro. Falei: "E vamos comer o quê?" "Nós compramos uns franguinhos e levamos." No botequinho da esquina tinha aqueles frangos, aquelas embalagens. Colocamos tudo numa sacolinha e depois naquela parte onde se guarda as malas no ônibus. Só que eles não sabiam que tinha que descer a serra cheia de curva. E nós estávamos entusiasmados porque era um dia lindo de sol. De repente nós escutamos o pessoal reclamando lá na frente. Não entendíamos muito o que eles diziam. Os frangos foram para frente e caíram numa curva. Fingimos que não éramos os donos dos frangos e ficamos sem comer. Acho que tomamos um refrigerante e voltamos, porque estávamos sem dinheiro. Mas foi muito gostoso. Na verdade eu não fomod para Santos, fomos pra São Vicente, porque lembro que em Itararé tem uma pedra, não naquela ilha e nós tiramos foto lá. Sabe aquele pessoal que vem do interior e sai tirando foto? Depois que eu vim conhecer Santos, vi que eu tinha ido para São Vicente.

Atlântico Hotel
Quando cheguei em Santos, conheci o Atlântico Hotel. Foi paixão à primeira vista. Isso foi em dezembro de 1979. Ele ainda estava fechado. Só sei que quando eu coloquei o pé naquele hotel, eu senti uma coisa estranha: “É aqui que eu vou ficar”. Tanto que passaram vinte e poucos anos e eu continuo no Atlântico Hotel. E foi muito gostoso, porque o hotel tinha sido fechado por outra empresa e precisava passar por uma reforma muito grande. Precisava de muito trabalho, muita insistência e paciência, porque o hotel era antigo. Nós não podíamos mexer na parte externa porque era tombado pelo patrimônio histórico. Então, só fizemos só a parte interna. Fomos tocando as obras, foram praticamente oito meses para a reforma e depois ele começou a funcionar. Fazia mais ou menos um ano que ele estava fechado. Era de uma empresa que chamava Motel Clube Brasil, de Minas Gerais. Eles não eram donos do imóvel, só do ponto comercial. Parece que eles tiveram problemas com os donos e tiveram que sair de lá. E ninguém queria alugar o Atlântico, porque era um hotel muito grande, dava medo. Era um desafio muito grande, que esse diretor, José Davi, assumiu. Depois de uns anos o José Davi faleceu, e quem ficou cuidando do hotel no lugar dele foi a sua esposa, depois teve outro sócio, inclusive eu também fiz parte da sociedade. E hoje tem uma pessoa só, por coincidência um espanhol, o Pepe. O hotel passou por muitas reformas e hoje você pode falar que ele acompanha os padrões da hotelaria moderna. Essa era uma das minhas metas quando cheguei aqui em Santos.

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