Busca avançada



Criar

História

Saudades da verdadeira felicidade: No Rio Tietê eu podia remar!

História de: Leonardo Munkeviz
Autor: Patricia Vaz
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Leonardo Munkeviz narra sobre uma São Paulo de construções, naturezas, bairros, hábitos e relações que não existem mais. Filho de Alena Munkevizzuti, mãe solteira, que chegou ao Brasil em 1928 para trabalhar no café, e que somente depois de muitos anos veio do interior para São Paulo, capital, cidade onde se arrumou como doméstica. Uma pessoa sem instrução e por vezes muito agressiva. 

Eles moravam na Rua Dr. Melo Alves, região do Jardins, na época, um cortiço populoso. Lembra que era um terreno muito fundo, um quarto de um lado, uma cozinha do outro e ao centro um quintal imenso onde moravam várias famílias. Para ir à cozinha, era necessário atravessar todo o quintal, e o banheiro era comunitário, um único banheiro para todo pessoal. Formavam-se filas para almoçar, filas para ir ao banheiro, toda hora havia uma fila nesse cortiço.

Um dia sua mãe pegou uma doença muito séria e foi internada no recém-inaugurado Hospital das Clínicas. Leonardo achava que ela sairia logo, mas passaram-se meses, e ele ficou sozinho no cortiço, com nove anos, sem ninguém, num aperto tremendo. Uma parte de seus vizinhos o ajudaram, e na mesma rua arranjou seu primeiro emprego, auxiliar de sapateiro. 

De qualquer maneira, guarda boas lembranças do bairro, primeiro, seu cachorro, um cachorrinho preto e branco de três patas. Recorda que estudava no grupo escolar que ficava na rua Colômbia, no fim da Rua Augusta, esquina com a Rua Estados Unidos, e ele o acompanhava até a escola. Na saída, lá estava ele, o esperando, e assim ambos voltavam juntos para casa. 

Também guarda boas lembranças dos amigos que fez e ressalta a interação de diferentes classes sociais que existia. Os meninos jogavam taco aproveitando cabos de vassouras e as bolas de tênis que varavam os muros do Clube Paulistano. As disputas juntavam meninos do cortiço e também os “riquinhos” dos Jardins. Conta que esses meninos não iam ao cortiço, no máximo os chamavam do portão para jogar, no entanto, ele tinha total acesso às casas dos colegas, entrava, cumprimentava pais e empregados, pegava uma banana... Casas sem muros, com grandes quintais e pomares com frutas para todos os lados. Desses vizinhos, conheceu o locutor Pedro Luiz, que morava na rua Melo Alves, ele o levava ao Pacaembu para assistir aos jogos do São Paulo, onde assistia as partidas na cabine, de camarote. 

Sua mãe saiu do hospital e algum tempo depois eles tiveram que se mudar, pois o cortiço havia sido vendido. Foram para a Vila Madalena, Rua Purpurina, sua segunda residência. Lembra com detalhes do caminho do bonde, que passava em frente a sua casa, descia a Fradique Coutinho, subia a Teodoro Sampaio, entrava a direita onde era o cemitério Araçá, descia toda a Consolação até chegar na Xavier Toledo.

Leonardo narra também sobre os diversos trabalhos que teve, e percebe-se que desde cedo aprendeu a ser um bom vendedor. Trabalhou como entregador de vestidos de uma loja da Barão de Itapetininga, como boy do jornal O Diário Popular, até que a vida lhe levou para a zona norte de São Paulo trabalhar no ramo de madeiras e construção civil. Conta que sua primeira venda de madeira foi no bairro Jaçanã, do lado do Parque Edu Chaves, e ainda se lembra de seu cliente, um italiano, Viuvo Atroto. Em seu primeiro dia como vendedor, conta que vendeu três caminhões de madeira, 

Conheceu a zona norte desde seu início. Diz que naquela época, no Parque Edu Chaves, tudo era luz de lampião, água de poço, fossa, não tinha nada. E ele com 17 anos mobilizou seus poucos vizinhos para trazer luz para sua rua.  Lembra que eles contrataram uma empresa para colocar os postes na Conceição Cipriano, uma iniciativa particular. A rua era uma avenida de terra e tinha os postes todos de madeira, mas especificamente onde ele morava, uma ruazinha, uma travessa, a luz não chegava, então eles cotizaram o empreendimento com o pessoal e trouxeram os postes. Diz que a água encanada veio depois, e ainda mais para frente chegou o esgoto.

Leonardo ainda conta sobre seu casamento, sua parceria, a construção de sua casa, seu crescimento profissional e patrimonial,  e dá uma aula sobre a história da zona norte de São Paulo, a relação da cidade com os rios, a linha de trem, o abastecimento da cidade com o projeto da Cantareira, a importância dos hospitais para o bairro, além de relembrar costumes que não existem mais, como as corridas de cavalo no Parque do Trote, na Vila Guilherme. 

Agora, com praticamente 80 anos, Leonardo faz uma profunda reflexão sobre sua trajetória e o sentido de sua vida. Permanece muito ativo, faz suas compras no supermercado, aproveita os netos, continua apaixonado por construção e ainda faz constantes intervenções em sua casa. Utilizando suas palavras, termina sua entrevista dizendo: O que eu vou falar aqui, o que eu escrevi, é exatamente me reportando lá para o meu início, na profundeza da minha juventude, digo que cheguei a essa conclusão: "Saudades do quarto e cozinha, do imenso quintal, da água de poço, do cachorro vira-lata, do portão sem tranca, da mandioca enraizada. Da cascata de chuchu, das abóboras no chão, de andar descalço, do banho no rio, da roupa sem grife, saudades de ser e não do ter, saudades da verdadeira felicidade." É isso para mim, um resumo, não dá para voltar, mas apesar de tudo, apesar dos meus bens materiais, ainda tenho essa essência e quero mantê-la.


Tags

História completa

O Clube de Regatas Tietê dava para o rio Tietê, e lá ficavam os barcos ancorados - E eu não sei nadar... Tenho piscina em casa e não sei nadar, porque com seis anos de idade, quase morri afogado em Santos e fiquei com um trauma - Mas com os amigos, nós íamos lá remar no rio. Subia naquele barco, que loucura, nem tinha boia, se tivesse que cair na água ia ficar por lá mesmo. Eu, o Chicão e mais um amigo, remávamos em direção ao Corinthians, daí passávamos por baixo do... Saía do Bem-te-vi... da Marginal, lembrando que não havia a Marginal, tinha o rio. A Ponte das Bandeiras já existia, e mais para frente, tinha a ponte do trem, desse que ia para o Jaçanã. Ainda existe essa ponte de ferro? Não sei.

A ponte passava em cima do Tietê, e justamente naquele trecho do rio, era muito difícil você ultrapassar com o barco, pois a correnteza ali era maior por causa do desvio, na verdade, não era bem a correnteza, mas por causa das pedras, do desvio, das colunas da ponte, se criava uma corrente, mas a gente passava. E nós seguíamos dando risada o tempo todo, brincando o tempo todo.

Teve um dia que nós fomos para o lado do Tamanduateí, da Casa Verde, e começou a escurecer. A gente não conseguia chegar e tal, e demorou muito, mas chegamos. Eram as loucuras que nós fazíamos que eu não faria outra vez, muito menos agora. Imagina? Sair remando sem saber nadar? É muita loucura! Tudo bem que eu tinha meus amigos, e acho que eles iam me salvar, não? 

O barco era daquele tipo skiff, aquele estreitinho, não era um barco do tipo canoa de índio, larga, pesada. Normalmente, nós íamos em dois. E era um sucesso com as meninas, elas adoravam! Interessante que você só remava e não parava em outro lugar, era ir e voltar, não era um programa como ir a um lugar para beber uma água, ficar, só fazíamos isso, era ir e voltar. E não estávamos sós, havia muito outros barcos. Sempre tinha uns três, quatro ancorados e mais dois remando, sempre tinha um pessoal remando. 

 

Nessa época, ninguém mais nadava no rio, ele já era poluído, e mesmo porque, no clube havia várias piscinas. Eu, particularmente, não tinha direito a piscina, mas tinha acesso ao restaurante, podia remar... Isso eu podia!

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+