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Segurança de quê?

História de: Thaysa Eduarda Rodrigues Prado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/07/2019

Sinopse

Thaysa Eduarda Rodrigues Prado nasceu em Monte Azul Paulista, no dia 21 de outubro de 1987. Seus olhos brilham de entusiasmo ao falar de sua família, sempre unida e que lutou muito. Enredo de diferentes empreendimentos, mudanças de cidades, sonhos e desilusões. Lembra do ensino médio em Santa Cruz do Rio Pardo, inicialmente difícil, dinheiro escasso, moravam no fundo de uma casa, mas onde depois as coisas se acertaram. A família se empenhou em uma padaria, o que gerou muito trabalho, assim como boas risadas entre as fornadas de pães e panetones criados por sua mãe. Posteriormente, em Bebedouro, trabalhou em um Bob’s, o que de acordo com ela lhe desenvolveu um senso coletivo e crítico às questões trabalhistas vivenciadas. Desse perfil descoberto, acabou se enveredando na área de Segurança do Trabalho. Iniciou seu curso em Bebedouro e a vida a levou a terminá-lo em Ribeirão Preto. Uma aposta, dinheiro contado, mas que felizmente tudo deu certo. Já com o diploma de técnica de segurança nas mãos, enviou muitos currículos, mas ninguém lhe chamava, chegou a ouvir que “a vaga era para homem” ... Foi por meio de um curso no SENAC de meio ambiente que conheceu seu atual sócio, também técnico de segurança. De tanto pedir para trabalhar com ele, conseguiu participar de sua primeira construção. Diz que, em um ambiente dominado por homens, teve que se impor para exercer seu trabalho. Sobretudo por ser da área de segurança, onde é vista por muitos como “chata”. Thaysa perdeu seu pai recentemente, o que a fez revisitar toda sua trajetória, hoje, se sente encontrada na área da construção civil e tem clareza de que quer viver o presente.

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História completa

Meu nome é Thaysa Eduarda Rodrigues Prado, nasci em Monte Azul Paulista, dia 21 de dezembro de 1987.

Os meus avós maternos são de São Paulo. A gente tinha contato, não muito, mas estavam sempre presentes em alguns momentos na minha casa. A gente morava no interior e eles em São Paulo, e a questão de se locomover, naquela época, ônibus... Nós íamos para lá e vice-versa. A gente viajava muito para lá e às vezes meus avós vinham para Bebedouro. Engraçado, a gente estava falando sobre isso nesses dias, em um grupo meu, da família, relembrando a minha avó, foi aniversário dela esses tempos atrás, e a gente estava relembrando, e falamos: “Cada um conta um fato que lembra da vó”. E a gente lembrou um muito engraçado, a gente sempre brincava na rua de casa e uma vez ela estava chegando, virando a esquina, assim, eu e meus irmãos vimos e saímos correndo pra ajudá-la a pegar as malas e foi muito bom, porque ela sempre vinha com presentes, né? (risos)

 E com meus avós por parte de pai, eu tive uma convivência um pouco maior por causa de estar passando mais férias, assim, por ser mais interior. Lá é uma cidade pequena do interior e então a gente passava as férias escolares lá. A gente tinha um vínculo um pouco maior. Era em Santa Cruz do Rio Pardo. Minha avó morava em uma rua que era sem saída e a gente tinha muitos amigos, brincava na rua, então era aquela festa. Tinha a vizinha que toda vez que sabia que a gente chegava ia fazer bolachinha de nata, que a gente amava.

A gente nunca teve essa conversa muito íntima com meus avós. Eles não eram tão... por exemplo, os pais do meu pai tinham alguns problemas familiares, enfim, mas por a gente ser pequeno, e pelas poucas coisas que eu conversei com meu pai, eu só lembro que minha avó trabalhou em uma fábrica da Estrela, de bonecas - tem uma boneca que é da minha tia e está comigo. Já o meu vô, por parte do meu pai, é militar. Por parte da minha mãe a minha avó trabalhou na Febem, em São Paulo, muito tempo. E o meu avô era oficial de Justiça. Mas nunca soube muito a fundo sobre eles.

Os meus dois avós são vivos. Só as minhas avós que faleceram. A minha avó, por parte da minha mãe, faleceu quando eu ainda era pequena, eu tinha em torno de uns sete anos, então não tive tanta convivência para lembrar. E por parte do meu pai, minha avó faleceu quando eu já tinha uns 18 ou 19 anos. Com ela já tive mais convivência. Morei um tempo na casa dela. Eu tinha uma relação de férias, era aquela coisa: estou chegando de férias, vou pra casa dela (risos). Isso, quando a gente era criança.

Também no natal, mas às vezes era em Santa Cruz, às vezes íamos pra São Paulo ou às vezes ficávamos, mesmo, na nossa casa, só a nossa família. Não tinha tanto... Às vezes dava certo de ir, mas também, se não dava, eu e minha família sempre foi muito unida. Minha família que eu digo é: eu, meus pais, meus irmãos. Então, era tudo muito entre a gente, se desse...

O meu pai é uma pessoa... Eu o perdi faz pouco tempo, faz um ano e pouquinho... uma pessoa muito guerreira, batalhadora, me ensinou muita coisa, aprendi muito, valores de vida. Minha mãe sempre com a gente, em tudo. Ela era em casa e então criou a gente perfeitamente, com todo carinho de mãe e ela é um exemplo de mulher, que passou por muitas coisas, que se reinventou, que melhorou, cresceu, que sempre estava com a gente, com os seus filhos, cuidando do esposo. Meus irmãos... Eu sou a caçula. Tenho dois irmãos mais velhos. Dois homens. Com meu irmão do meio, a gente tem pouca diferença de idade. Meu irmão mais velho... eu tenho 31 e ele vai fazer 40, amanhã. Então, tem uma diferença um pouquinho maior, era ele que meio cuidava da gente, ajudava minha mãe a cuidar, assim. Era nosso protetor (risos). Ele é o irmão mais velho protetor, meu irmão do meio se colocava em enrascada na escola e ele ia salvá-lo, e cuidava da irmã, né? Sempre muito, muito atencioso com a gente. Ele é do primeiro casamento da minha mãe, mas não tem diferença. Meu pai sempre o criou como filho dele. É um vínculo que não tem distinção.

Eu nasci em Monte Azul, mas meus pais eram de São Paulo. Os meus irmãos nasceram em São Paulo, só depois que meu pai foi para o interior. Meu pai trabalhou com telecomunicação e informática. Ficou um tempo na empresa da Cargill, por muitos anos. E aí fomos para o interior. Só eu que nasci no interior. E ele trabalhou mais de dez anos lá. Depois a gente foi galgando com a vida, ele foi mandado embora e a gente foi morar em Santa Cruz. Moramos dois anos e meio em Santa Cruz, tivemos uma padaria com meu avô, com minha tia. Depois retornamos para Bebedouro, tentamos um negócio lá de uma loja de pesca. A gente foi sempre batalhando e tentando, e eu fui tomando rumo nos meus estudos até terminar a escola, e me encontrei em um curso de Segurança do Trabalho. Trabalhava e estudava. E aí não sei.    

Em Monte Azul, eu só nasci. Nunca mais fomos morar lá, mas ainda temos amigos de infância... E Ribeirão foi um ato meu.  É uma caminhada minha. Só minha (risos). É que a gente foi e voltou porque, na verdade, é uma caminhada muito família. A gente sempre estava junto, então se ele vai, a gente foi, depois a gente volta.

Minha mãe morou em São Paulo. Meus pais são de São Paulo, se conheceram em São Paulo, trabalhavam em um banco, se conheceram em um banco, e foi onde eles começaram a se envolver. Tudo começa aí. Eles se odiavam, não gostavam um do outro, minha mãe achava meu pai chato e virou amor (risos).

Minha mãe trabalhou muitos anos no banco, junto com meu pai, em São Paulo, e quando ela conheceu meu pai, ela já tinha o meu irmão mais velho, que era de um outro casamento.

Eles se envolveram e assim começou a caminhada deles de viverem juntos. Depois, ela também saiu do banco e tentaram empreender. Toda sorte de empreendimento, quando a gente teve padaria, loja, estava todo mundo junto: eu, meus irmãos, minha mãe, meu pai. Sempre todo mundo unido na mesma sintonia. Mas minha mãe, quando voltou, quando veio com meu pai, virou dona de casa para ficar com os filhos.     

Minha infância foi em Bebedouro. Nasci em Monte Azul e cresci em Bebedouro. Lembro muito. Estava vendo minha casa antiga ontem no Google, mostrando para uma amiga (risos). Morávamos no Furquim, bairro de Bebedouro. A minha casa, antigamente, era uma edícula. Era quarto, sala, banheiro, uma cozinha e um quintal muito grande. E a gente cresceu lá, batalhando, ali, sempre. Depois, meu pai começou a construir a casa da frente. A gente fala casa da frente. A casa maior, onde eu tinha meu quarto, meu irmão tinha o quarto dele, e a gente também junto na construção dessa casa, todo mundo junto (risos). Vamos contratar o pedreiro e meu irmão batia massa, levava o tijolo. Eu era muito pequena quando teve esse processo.

Eu não tenho muito o que lembrar desse período. Lembro mais das coisas depois de um tempo, mas a parte do meu irmão ajudando, essas coisas, não tenho muito essa lembrança, mas a gente sempre se senta e conversa disso. E aí virou a casa dos sonhos, porque a gente montou do jeito que meu pai quis. Meu avô, o pai dele, é construtor, e então meu pai sempre gostou muito de rabiscar e ele planejou a casa, tudo certinho, e foi, construímos a casa, e aí cada um teve o seu quarto, tudo bonitinho, não era mais a casa do fundo. A casa do fundo virou um espaço de vídeo game, de música, onde a gente sentava pra ficar conversando aos domingos, ia lá ouvir uma música, cada um colocava uma música que gostava e ficava lá por horas, conversando naquele ambiente onde a gente cresceu. Eu morei lá até vir pra Ribeirão, até os meus 22 pra 23 anos.

Em Bebedouro, eu estudei na Coeb. Estudei em quatro escolas lá. Estudei em escola particular e em escola pública em alguns momentos. Inicialmente, de pequena, foi no Soares, onde eu tinha aula de música, era uma escola particular, depois teve um momento que a gente teve que ir para a escola pública, mas sempre foi muito bom, sempre fui muito bem na escola, sempre tive muitos amigos, sempre boa aluna.

Não tenho muita ênfase. Só, realmente, momentos na escola que eu fazia parte de um time de futebol uma época, que me chamaram. Um dia me viram jogando no gol e acharam que eu era boa nisso (risos): “Está faltando uma goleira. Vamos lá jogar?” “Vamos”. Aí eram os Jogos da Primavera. Eu joguei uma vez: “Acho que eu não sou boa nisso, não”. Mas eu quebrei um galho.

A escola, para mim, nunca foi... os meus amigos nunca foram da escola, em si. Eu só tinha vínculo ali. Eu sempre fui criada com os meninos da minha rua. Então, eu tinha um vínculo maior com eles. A escola, pra mim, era realmente só o momento que eu ia lá. Eu tinha amizade com o pessoal da sala, sempre tive amizade com todo mundo, sempre fui muito comunicativa, de ajudar e procurar ajuda. Sempre fui boa em Matemática, sempre tirei boas notas em Matemática. Eu gostava de Matemática. Tinha muito cálculo. Eu gostava de ficar pensando, às vezes, assim.

Se eu era mais de exatas? Acho que só naquela época (risos).

Eu gosto de música, participei da fanfarra da escola, no Soares. Então, lá a gente tinha aula de flauta, que me instigou, acho, a ter um pouco mais de contato com a música. A mãe da minha mãe gostava muito de cantar. A gente gosta de música, tenho familiares que são músicos. Tem uma prima minha que canta, um primo meu que é engenheiro musical na Austrália. Meu irmão, hoje, também está sempre tocando um violão. Só que eu gosto, mas não sou boa. Tentei, já, tocar violão. Não dá (risos). Só tocava na fanfarra, lá. E tudo bem.

Já no ensino médio eu mudei de cidade, fui para São José do Rio Pardo. Uma grande transformação.

Eu morei em Santa Cruz, foi onde eu comecei o colegial. E não foi uma fase tão boa pra mim, morar lá. É meio ruim de falar porque, com a parte do meu pai, eu não tenho tanta afinidade. Posso dizer isso. Com meu avô. Foi um momento e algumas situações não tão legais, assim. No colegial, eu estudava, morei um tempo, três meses, com meu vô e com a minha vó. Foi uma experiência não tão boa, mas ok. Aí meus pais foram para lá, né? Aí eu comecei a morar com os meus pais, a gente morava em casas de aluguéis, passamos por algumas dificuldades, onde a gente morou em uma casa de fundos, que a gente dormia no colchão, no chão, não tinha geladeira, eu chegava da escola, minha mãe sempre trazia alguma coisa da padaria pra eu comer, para jantar. Moramos em três casas lá. Só na terceira casa que a gente ficou mais bem instalado, aí a gente já tinha cada um o seu quarto, com cama, guarda roupa, uma cozinha. Uma vida mais digna, vamos dizer assim. Então, para mim, foi um processo muito ruim, porque meu pai sempre me dava tudo, em questão... eu tinha tudo, não me faltava nada. Não que faltou nessa época, mas você morava em uma casa e tal e de repente você vai morar de um jeito que você não entende.       

E eu fui primeiro por causa da escola, porque, como estava nesse processo: “Vamos tentar sociedade com meu vô?” Meu pai meio que não queria, e minha mãe: “Não, vamos dar uma chance, ele parece que mudou, vamos dar uma chance pro seu pai”. Só que não. Não mudou. Foi difícil. Fato é que eu tive que ir na frente, caso contrário eu iria perder o ano letivo. Então, enquanto eles estavam terminando de arrumar as coisas pra mudar - e como meu irmão mais velho ia continuar na casa e a gente ia para Santa Cruz - eles estavam no processo lá de regularizar as coisas, deixar tudo certinho, então eu já tive que ir pro começo das aulas.

Mudei para a casa do meu avô e, quando chegou minha família, nós fomos para os fundos de uma casa, que a gente pagava aluguel. E isso com a padaria funcionando. Era a dois quarteirões, a padaria.

Na padaria a gente fazia de tudo. Não tinha muito... ficava no caixa, ajudava o padeiro a colocar os pães na esteira, assava pão e, como a gente entregava muito pão, em várias casas, meu pai ia, a maioria das vezes de madrugada, pra assar, e depois ele ainda terminava de entregar. E a gente ia trocar os turnos, para ele poder ir para casa descansar. E eu estudava à noite, depois minha mãe subia, eu ia pra casa tomar banho, ia pra escola, mas eu fazia de tudo na padaria. Todo mundo fazia de tudo. Era uma sociedade, porém, sempre quem estava trabalhando era eu, minha mãe e meu pai. E o pessoal que era o padeiro e o confeiteiro.

O meu irmão do meio estava lá em alguns momentos, teve um momento que ele voltou pra Bebedouro, que eu não vou lembrar muito bem qual, mas ele ficou um tempo na padaria e depois, em um momento, ele voltou pra Bebedouro.

A padaria era muito... Teve uma época que um amigo meu trabalhou com a gente, o Diegão, sempre muito engraçado, a gente sempre dava muita risada, era muito boa essa parte, quando ele estava trabalhando, foi uma fase bem legal quando ele passou lá com a gente. Teve a fase com uma prima minha, que trabalhou com a gente também, que foi muito bom. A gente estar lá também: eu, minha mãe, meu pai, também, sempre teve uma boa relação da gente tentando dar certo, né? E fazendo as coisas. Minha mãe gosta muito de cozinhar e ela sempre inventava alguma coisa lá com o padeiro, uns pãezinhos deliciosos, que o pessoal sempre adorava comprar (risos). Usava a imaginação, né, naquele momento. Ela gosta de inventar. A gente fala que ela sempre gosta de acrescentar à receita, nunca consegue seguir uma receita. Sempre tem que ter o toque Célia de ser.

A padaria virou durante um tempo. A gente a pegou bem falida. Quando a vendemos, ela já tinha um fluxo bem legal de clientes. A gente fabricava panetone, que o pessoal gostava muito. Tinha uma tia que ia ajudar a gente a embalar... Deu muito certo até quando teve que dar. Aí teve brigas familiares por causa da sociedade... com o avô, com a minha tia, e aí acabou... Voltamos para Bebedouro.

Eu fiz o ensino médio inteiro em Santa Cruz. A escola era pública. Inicialmente, eu comecei à tarde, tinha amizade com bastante gente, teve pessoas que me marcaram bastante. No período da tarde, tinha a Talita e a Camila, foram duas meninas que passaram, assim, na minha vida, e foi bem legal. Depois eu passei pra noite e foi onde eu conheci o Diegão, que é meu amigo até hoje. É uma amizade que... - a Talita também - uma pessoa que a gente sempre, às vezes, conversa. O Diegão, eu vou lá e a gente sempre dá muita risada, muita conversa, sempre tem tudo pra falar, né? E aí eu o conheci no período da noite. Também tinha a Carol, que é uma amiga minha. Essas são as duas pessoas que mais marcaram a minha passagem por lá.

E eu fui uma boa aluna, assim, de vez em quando eu dava aquela dormidinha, porque já era noite e eu trabalhava o dia inteiro. Mas eu não sei, acho que o ensino noturno é muito mais tranquilo, o pessoal, parece. Não era uma bagunça, era interiorzinho, né? Santa Cruz do Rio Pardo é menor do que Bebedouro. O pessoal ia trabalhar, depois ia pra estudar. Era muito tranquilo, assim. Era engraçada minha turma, até.

Nessa época que eu morei lá, eu peguei amizade com umas pessoas que andavam de skate, e eu gostava e comecei a aprender a andar. Então, eu tinha esse meu grupo de amizades da escola, que também levava pra fora de lá, que era a Carol e o Di, e também eu tinha esse meu grupo de amizade, que era um pessoal que a gente andava, ia para as cidades vizinhas andar de skate, andava de skate por lá mesmo. Então, por ser uma cidade pequena e eu, uma das únicas meninas que estava sempre no meio dos meninos de skate, era dessas pessoas com o estilo um pouco diferente do que o pessoal do interior. Eu me vestia diferente das outras meninas. Me vestia com um estilo mais, assim, com roupas de skatista, pode-se dizer. Aí eu era um pouco apontada, mas depois me acostumei. No começo era tipo, todo mundo com aqueles olhares às vezes um pouco estranhos (risos), mas tudo bem.   

Eu ficava andando de skate, saía, bebia, conversava, não tinha muito onde ir. Era um posto onde a cidade inteira ia. E lá é muito frio porque é perto do Paraná. Então, a gente bebia muito vinho na época. Depois, nesse posto, eu peguei amizade com umas outras meninas, um terceiro grupo de amizade que eu tive por lá, muito forte também. Lá o pessoal é muito, tipo, caloroso. Às vezes demora um pouquinho para você entrar em um grupo, mas depois que você entra, é uma amizade tipo... Se eu for pra lá, ver na rua, a gente conversa horrores. Tem uns que são mais específicos: eu vou, eu tenho que ir lá ver essa pessoa.

Eu visitava mais, mas agora, como meu pai faleceu agora em março, fez um ano... eu ia mais. Meu pai morou dez... depois só meu pai e minha mãe... é uma coisa de vai e volta, né? (risos)

Quando eu venho pra Ribeirão, eles já estão em Santa Cruz, já, há uns dois anos. Eles viveram lá dez anos, até meu pai vir a falecer agora. É um vai e volta, vai e volta (risos). É meio confuso, mas a gente chega lá.

Eu ainda ando de skate. Às vezes. Eu tenho lá em casa, e como eu tenho um afilhado que gosta, gostou do skate, então a gente sempre, às vezes, hoje a gente deu uma diminuída, mas a gente estava sempre andando, sim. Aqui em Ribeirão, não ando muito, não. Só quando eu vou para Bebedouro, mesmo, ver meu afilhado, sempre levo e a gente acaba brincando. Pra brincar. Aqui a gente tem que trabalhar, né? Eu trabalhava, mas era com o pai e a mãe. Hoje não pode mais brincar muito. Não dá pra chegar no trabalho toda destruída. “O que aconteceu?” Não dá.

Quando terminei o ensino médio veio a fase da faculdade: “O que eu vou fazer? O que eu vou fazer?” Aí, meus pais, conversando, a gente sempre conversava muito, sempre peço muito a opinião deles, o que eles acham: “Vou fazer Administração aqui, na faculdade aqui mesmo”. Até fiz a prova, não sei o quê. Conversei com meu irmão mais velho e falei: “Acho que eu não vou gostar de fazer isso. Não quero passar quatro anos em uma coisa que eu talvez não goste, não é?” E como eu sempre gostei muito de parte de lei trabalhista, essas coisas, sempre fui muito a favor, de quando eu trabalhava, trabalhei três anos no Bob’s, então, sempre que acontecia alguma coisa com os meninos, eu agarrava a causa, ele falou: “Você tem que fazer alguma coisa ligada...”

Quando eu voltei, terminei o colegial, e voltei pra Bebedouro, a gente comprou uma lojinha de ração e pesca, e aí começou a inaugurar o Bob’s de Bebedouro. A minha cunhada trabalhava no shopping, e ela me fala: “Vê lá, né?” Aí meu irmão continuou na lojinha e eu fui para o Bob’s, fiquei três anos lá.  E foi trabalhando lá que meu irmão me apresentou o curso de Segurança do Trabalho. Foi meu irmão mais velho que me apresentou. E eu comecei a fazer.

Comecei um curso técnico. Aí eu falei: “Não vou fazer, então, faculdade. Vou fazer esse curso técnico. Vou trabalhar de verdade”. Aí, no meio do trabalho, meu irmão me apresentou esse curso técnico para eu ir conhecer, pesquisar um pouco. Ele falou: “Acho que tem muito a ver com o que você gosta, com a sua visão de vida, com a sua determinação. Acho que é um curso que equivale, bate muito com você”. E realmente, eu fui pesquisar, conversei com pessoas, com amigos dele, que davam até aula lá e realmente gostei. E aí eu comecei a fazer. Fazia à noite, trabalhava no Bob’s e fazia o curso à noite.

No Bob’s teve vários momentos marcantes (risos). Foi meu primeiro emprego registrada. Eu vim para Ribeirão fazer o treinamento, a gente ficou alojado aqui. Uma coincidência. A gente ficou aqui dois meses em treinamento, se eu não me engano. Foram dois ou três meses em treinamento. Foi assim que conheci Ribeirão. Se eu vim antes, era quando criança.

Então, a equipe que ia trabalhar comigo também veio, né? Então, coincidentemente, as pessoas que iam ser subgerentes, eram umas pessoas conhecidas da minha cunhada, e eu já peguei amizade quando elas estavam aqui. Foi engraçada a fase que a gente ficou aqui porque a gente ficava tudo em um mesmo quarto, um monte de pessoas juntas, no meu quarto ficavam seis meninas. E foi a primeira vez também que eu fiquei sozinha em uma cidade um pouco maior também, ter que pegar um ônibus. Tinha um menino lá que sempre levava a gente nos lugares, o hotel que a gente estava, parava no posto pra gente tomar uma cerveja. Então apresentou um pouco, assim, Ribeirão pra gente. Depois a gente voltou pra Bebedouro, onde começa a inauguração do Bob’s.

E vivemos a inauguração. Então, foi poooooooooo, o primeiro fast food de Bebedouro! Lotado. Fazia filas, assim, que o pessoal tinha que, às vezes, fechar os portões do shopping, porque senão a gente não saía de lá. O shopping fechava às dez, eram onze horas e a gente estava lá ainda, trabalhando, pra zerar a fila, porque a fila ficava enorme. Era novo, né? Não tinha Mac, não tinha nada. Hoje, tem o Mac, o Bob’s acho que nem tem mais. Acho que é o Burger King que tem lá, no lugar do Bob’s. Mas foi o primeiro fast food que foi pra lá, então foi... Aí veio um pessoal do Rio treinar a gente. Na verdade, teve vários momentos, desde a inauguração, que foi aquele boom, nossa, aqueles seis primeiros meses a gente trabalhou... Era uma loucura! E foi onde eu aprendi a trabalhar, foi onde eu aprendi a trabalhar em equipe, onde eu tomei gosto também de trabalhar em equipe, gosto muito, leva muito à minha profissão hoje, aprendi muita coisa pra levar hoje pra minha carga de... é que o pessoal fala: “Quem trabalha em Bob’s e Mac Donald’s, fast food, trabalha em qualquer lugar, né?” E realmente! Porque é uma pegada, você não para um momento.  

E eu passei por tudo até que fui promovida, fui monitora, fui pra São Paulo, fiquei um mês em treinamento em São Paulo, depois, como monitora. São os funcionários, o monitor, o assistente de gerente e o gerente. Eu cheguei ao cargo de monitora, e assistente de gerente acabei fazendo o cargo sem... fazia o papel, às vezes, em algum momento, de assistente de gerente, mas era monitora. A monitora é aquela pessoa que fica entre... não posso balançar nem para o lado da gerente, nem para o lado dos funcionários, sempre ali, equilibrando a situação, e os clientes, em si. Então a gente tinha muito causo com o cliente, às vezes: “O lanche atrasou”. “O lanche está frio”. E aí, imagina, a maioria adolescente, tudo primeiro emprego, né? Imagina, o pessoal tudo, às vezes, com os nervos à flor da pele: “Cara, de novo vem trocar o lanche?” (risos) Falei: “Calma, gente, vamos só trocar, vamos esquentar, joga fora, então” (risos) Então, sempre aquele equilíbrio. Apesar de que era o meu primeiro emprego, registrada, teoricamente, trabalhei também com várias pessoas mais novas, dois anos mais novos que eu, que também era o primeiro momento de emprego e então você ensinar, às vezes, alguma malícia que você já tem de algumas situações.

Às vezes, tinha alguns problemas com a gerência, alguma coisa assim. E eu sempre tomava a dor do funcionário. Eu sou muito assim: não gosto do errado. Então, é certo, é certo. O que é errado, é errado. Então, se você está errado, então ok. Se você está certo, então ok. Senão... Então, em alguns momentos lá, a gente acabou descobrindo algumas coisas erradas e quem pagava o pato era o funcionário, aí eu já abraçava a causa: “Não, espera aí, vamos ver o que a gente vai fazer pra...” Os principais problemas que presenciei foram de postura, porque são adolescentes, né? Às vezes, de bater boca com a assistente da gerente. Porque, às vezes, eu era um pouco muito rígida pra falar, mas eu sempre intermediava ali: “Gente, vamos tentar não ser assim. Vamos tentar conversar, pra gente amenizar a situação porque a gente tem que fazer isso aqui girar, dar movimento e uma pessoa que não tiver bem interligada, o negócio não gira. É uma engrenagem de relógio. Se a gente sair um pouquinho fora, alguém vai girar errado e a gente não vai conseguir fazer um bom atendimento”.  

Era sempre muito lotado. Quando inaugurou então, muito lotado e só a gente lá, trabalhando igual louco. Mas nunca aconteceu nenhuma calamidade, nada tipo... Cidade do interior, as pessoas não são tipo, não sei (risos). Não é por causa de cidade do interior, mas tipo, não consigo lembrar de um causo, não tem causo (risos). Só teve problemas internos, que é normal, acho, entre pessoas e, devido ao nível que você está, você é um funcionário que fica lá no caixa, eu sou o gerente, sou assistente de gerente. Então, tem esse nível de hierarquia, né? Então, essas brigas de hierarquia são normais.

Quando eu comecei a fazer o técnico de Segurança do Trabalho, eu estava trabalhando no Bob’s na parte da manhã, e eu conseguia fazê-lo à noite. Em torno de seis a oito meses que eu estava cursando, me fizeram a proposta de subir de cargo, só que eu teria que trabalhar à noite. Eu queria continuar trabalhando, mas eu descobri que eu gostei muito do curso nesses seis meses que eu fiz. Mas parei o curso e aceitei a proposta. Aí, depois, eu retorno a fazer o curso. Conversei com a gerente, tudo certinho, então a gente fez um bem bolado, vamos dizer assim. Então, eu volto ao curso de novo e aí eu venho terminá-lo aqui em Ribeirão.       

Eu estava fazendo por lá, tive alguns problemas com a gerência, e entramos em comum acordo: vamos te dispensar. Ok, melhor. E aí eu estava em um relacionamento. Vou ficar aqui em Ribeirão, já vi que já era aquilo que eu queria, eu estava quase na reta final do meu curso e eu vi que, se eu continuasse em Bebedouro, eu não ia ter onde exercer a função ali. Não que não tem. Tem, mas por ser uma cidade pequena, é muito mais o QI, o quem indica. Então, a fábrica que poderia ter uma vaga já estava meio que fechando lá e eu não me via crescendo profissionalmente ali. Me via fazendo o curso e crescendo profissionalmente em outro local. Aí, foi onde eu estava me relacionando já fazia uns três, quatro meses, a pessoa veio em uma entrevista de emprego nas Lojas Americanas, tal, deu certo, e eu falei: “Então, vamos embora, vamos juntos.” Eu tinha 22, 23 anos. Aí eu vim começar minha passagem aqui em Ribeirão. Minha vida é bem confusa, né? (risos)

Minha família apoiou. Mas não quis vir junto (risos). Teve um momento também que eu morei em São Paulo. Só para deixar a narrativa mais confusa. Um ano (risos). Entre esse momento que eu voltei de Santa Cruz e vim pra Bebedouro. Fiquei um ano fazendo cursinho lá e depois começo minha trajetória no Bob’s. Tinha esquecido que eu morei em São Paulo (risos). Fiquei na casa da minha tia. Da minha tia Selma. Fiz cursinho no Etapa. Foi onde eu conheci a cidade grande, né? Era o meu sonho morar em São Paulo e depois eu descobri que não. Já em Ribeirão, quando eu mudei pra cá...

Um pequeno detalhe: eu sou homossexual, então, inicialmente, no meu primeiro relacionamento... é muito confuso. Vamos só ficar aqui em Ribeirão. Quando eu vim para Ribeirão, eu estava com a minha namorada - “Vamos tentar a vida lá. Vamos tentar. Vamos agarrar”.

Nesse meio tempo, tive um pouco de briga com a família devido a minha sexualidade e tal, e eu falei: “Não, eu quero sair daqui. Tanto para o meu crescimento profissional, quanto pessoal. Eu não vou viver para o resto da minha vida com meu pai e minha me ajudando. Acho que tem que chegar uma hora que isso tem que reverter, porque sou eu que quero ajudá-los”. Mesmo perante... Minha família, eu amo de paixão, então, independente, eu sei que era uma crise que a gente passou, que durou um ano, o primeiro ano que eu morei aqui, que realmente a gente se via pouco, se falava pouco, principalmente com a minha mãe...

Meu pai aceitou, meus irmãos também. Foi mais um conflito meu com a minha mãe. Ela é um pouco enérgica, assim, e eu não gosto de brigas. Então, eu já queria criar asas sozinha. Acho que foi, na verdade, só um impulso, talvez, que eu precisasse também, porque acho que a vida é muito assim: acho que as coisas acontecem porque têm que acontecer. Aí eu comecei, aí quando a gente veio pra cá eu trabalhei no shopping, inicialmente. Foi um ano bem difícil, os dois primeiros anos, foi batalhando, mesmo...

Eu vim com uma grana da demissão, e eu tinha um dinheirinho guardado, a menina... Foi assim: essa minha ex, uma amiga a indicou pra vir trabalhar nesse shopping, não sei o que: “Vamos, que eu tenho um lugar pra você ficar e tal”. E nisso, eu já tinha um amigo que morava aqui, eu já frequentava mais Ribeirão, né? Aí a amiga dela falou: “Não, vai, porque você fica na minha casa”. Tá bom. Eu falei: “Eu vou com você na entrevista”. Viemos, eu, ela e essa amiga. Aí chegamos aqui, ela fez a entrevista, o cara gostou dela, já falou que ela ia ficar. A hora que chegou a amiga dela, chegamos no carro: “Então, onde vai ficar?” “Então, esqueci de falar...” A menina não falou que não tinha onde ela ficar, e fez ela já vir com as coisas dentro do carro porque ela tinha falado que ela ia ficar na casa dela. Eu falei: “O quê?” Ok, eu entro, converso com um amigo meu e falei: “Nossa, veio você na minha cabeça na hora”. A gente estava dentro do shopping, eu lembrei que ele trabalhava em uma loja lá, conversei com ele e ele falou: “Eu tenho uma amiga que eu acho que tem um quarto vazio no apartamento dela”. Era perto do shopping. Foi uma coisa muito de sorte. E a menina recebeu a gente na casa dela meia noite. Nem conhecia a gente, acreditou, eu falei: “Não, eu já te pago o aluguel adiantado, como é próximo do shopping, depois a gente vê, se você achar interessante a gente ficar aqui e dividir o apartamento com você e tal”. Aí deu certo. O período da tarde até meia noite foi estressante, assim, pra mim, pensei: “Como?” - incrédula, assim – “como que alguém fala, promete as coisas, e depois chega na hora, traz uma pessoa de outra cidade, a pessoa passa na entrevista...” Deu tudo certo no final. Moramos ali por um ano e pouco, nesse local, com essa menina, viramos superamigas.

Eu consegui esse local pra gente. Aí ela ficou em um primeiro momento, eu não vim pra ficar nesse primeiro momento, só vim pra acompanhá-la na entrevista, falei: “Ainda bem que eu vim, porque se eu não tivesse vindo, você ia ficar onde, né?” Aí a gente foi até foi em outros lugares para alugar, assim, mas enfim. Deu tudo certo.                

Eu voltei para Bebedouro, peguei minhas coisas, e aí eu mudei para esse apartamento. Eu também trabalhei no shopping, no Park & Games. Eu mudei sem trabalho, eu tinha uma grana que eu conseguia me manter um tanto de tempo, então ok. Mas logo na segunda semana eu já estava trabalhando. Eu trabalhei no Parks & Games, que é praticamente um Bob’s da vida. Trabalhei com o pessoal mais jovem, era monitora de equipe. Já comecei como monitora lá. E foi um lugar muito bom, onde eu conheci pessoas que eu tenho amizade até hoje, aprendi muita coisa, e assim eu terminei meu curso, eu fui terminando o curso.

Eu transferi meu curso. Eu não parei em nenhum momento. Transferi o curso e aí tive os perrenguezinhos normais da vida, como a gente morava junto, de melhorias. Depois mudamos desse apartamento para outro e depois mudamos para uma casa. Nesse tempo, ela é educadora física, se formou, foi para uma academia. E eu trabalhei em outros locais, até eu terminar de me formar. Eu demorei mais para entrar na minha área, por ser um ramo mais... construção civil, né? Mais homem. Então, eu já fui fazer entrevista e as pessoas falaram: “Então, é que a vaga é para homem”.

Aconteceu uma vez, aqui. “Então, é que a vaga é só para homem”. Então, quando é assim, você descreve lá na vaga, né? Aí a gente dá aquela desanimada, falei: “Vim pra cá. Será que eu não vou conseguir nada?” Aí é onde eu continuo, trabalhei com venda de café. Eu não cheguei a fazer várias entrevistas na área, não. Era entregar muito currículo e, na verdade, nem me chamaram.      

Eu acho que foi uma questão de experiência e o caso que eu passei. Aí você põe isso na cabeça: “Se veio essa resposta, será que é por isso também ou é só porque eu não tenho experiência?” Então, você fica naquele conflito. Hoje, depois que eu estou na área, eu não vejo isso, mas eu não sei. Quando eu me formei, às vezes, havia algum pensamento sobre isso. Pode ser, sim, porque eu passei por essa situação.

Mas aí eu trabalhei com venda de café e trabalhei muito tempo na academia que a minha ex trabalhava, trabalhava como recepcionista, e foi lá onde eu comecei a fazer um curso, ganhei uma bolsa no curso do Senac, de meio ambiente, e foi onde eu conheci, hoje, o meu amigo que a gente está com uma sociedade. Foi onde eu conheci o Adriano. Eu descobri que ele era técnico de segurança, que ele tinha empresa, e aí eu ficava pra ele: “Deixa eu trabalhar com você” (risos). “É que ainda não tem nenhum lugar”. Eu falei: “Não, eu acompanho você”. Nesse meio tempo que eu estava na academia, eu estava sendo dispensada do serviço, eu falei: “Você não precisa me pagar. Eu estou de seguro, tal. Só para eu aprender, mesmo. Porque, às vezes, eu acho que o pessoal não me chama porque eu não tenho experiência. Aí, se você me der essa oportunidade, tal, pra eu aprender a profissão...” Ele falou: “Tá bom”. Acho que de muito insistente, falou: “Essa menina quer muito trabalhar” (risos).

A gente conversava muito, e eu perguntava muita coisa pra ele. Como eu nunca tinha trabalhado na área, e eu não conversava só com ele, mas com outras pessoas, mas eu sabia que ele tinha empresa, eu pensei: “Vou estar sempre conversando com ele. Às vezes, ele conhece alguém que pode estar me indicando, para eu poder estar trabalhando na minha área.” Aí foi quando eu comecei.

Inicialmente, eu falei: “Nossa!” Aquele pensamento, né? Só homens, e só eu de mulher lá - “Será que eu vou ter respeito?” Passava várias coisas na cabeça: “Como será que vai ser?” E aí eu comecei a trabalhar, comecei a sempre ter uma boa comunicação... O primeiro dia foi essa sensação: “Como vai ser? Como eles vão ver uma mulher aqui dentro da construção? Será que eles vão respeitar? Será que não vão respeitar?” Mas nunca tive nenhuma situação de desrespeito.

Eu tive problemas, sim. Isso, a gente passa por vários momentos. É normal. Nem só por ser mulher, mas por ser mais nova. “Faz 30 anos que eu trabalho com isso, nunca aconteceu”. Eu falei: “Então, mas pode acontecer. Não fica contando com os 30, não”. A hora que eu abordo alguém, às vezes, eu falo: “Gente, tem que seguir o protocolo, tem que usar EPI”, “Mas a luva é ruim, machuca a mão, não sei o que”. É aí que eu vou no psicológico da pessoa. “Machuca, a botina aperta, a luva machuca no começo, quando ela está nova”. Eu falo: “Quando você compra um sapato novo, ele aperta o pé. Você pagou cem reais no sapato. Vai deixar lá guardado? Ou você vai usá-lo até lacear?” Ele fala: “É”. Eu falo: “No EPI é a mesma coisa, a gente tem que usar o material que é para o bem de vocês, e eu tenho que ficar brigando com vocês por isso, todos os dias.” Às vezes, eles querem só ficar batendo boca, para ver se me tiram do sério, essas coisas, porque fica uma provocaçãozinha, bem tipo coisa de, sei lá, de criança que fica provocando, para ver se te tira do sério? E às vezes eu falo: “Você não quer usar, então eu vou conversar com o engenheiro e eu vou te pedir para você sentar lá no refeitório” - e eles têm que ir, a partir do momento que eu falo com eles – “vai sentar lá e, já que você não quer, ok, não posso obrigar ninguém a fazer o que não quer, mas também aqui dentro da obra você não pode continuar, então...”. É a hora que eu chego no nível que tem que ser chato. Não gosto de chegar nesse nível, mas aí é a hora que a pessoa fica tão assim te... “Então, cara, você é uma pessoa problema, por causa de você, num acidente com você, eu vou prejudicar mais de cem pessoas, porque pode embargar a obra, a gente pode levar multa, e se a gente leva multa, é um dinheiro que você não está esperando que vai gastar. Independente se é uma obra grande, se é pequena, se é uma baita construtora, uma pequena construtora, mas ninguém faz planos com multa. Então, se tem multa, tem custo, e a gente vai ter que cortar mão de obra. Então, não vou deixar uma pessoa problema aqui e deixar chegar isso a acontecer”. Nessa hora a gente tem que ficar séria e se impor para a pessoa. É só nesse momento, mas não tem nada muito específico, assim. É só essas picuinhas. É sempre. Todos os dias têm um que me pega pra fazer picuinha de qualquer coisa que eu falo, entendeu? (risos)

Eu fiz tipo um estágio com o meu amigo. Até eu falei para ele: “Não precisa nem me pagar, eu estou no seguro. Só de você me dar a oportunidade de estar aprendendo, você já está me pagando”. Aí ele falou: “Ninguém trabalha de graça. Eu vou te registrar como estagiária”. Registrou tudo certinho como estagiária. Trabalhei com ele por um bom tempo. Trabalhamos uns três anos. Aí a construção civil teve uma crise muito grande aqui em Ribeirão, e eu tive que parar de trabalhar com ele. Mas aí eu trabalhei com outras coisas. Fiz Uber... Eu trabalhava só meio período com ele, eu tinha que fazer minha renda de outras formas. Na época que teve essa crise muito forte na construção civil, eu tive uma amiga que teve que ficar afastada do serviço, aí eu trabalhei três meses em uma instituição, depois que eu saí de lá eu já fui trabalhar em uma construtora grande aqui em Ribeirão, fiquei um ano e meio. Eu me desliguei vai fazer um mês e agora eu voltei, retornei a trabalhar com ele, só que em uma proposta nova. Falei: “Vamos entrar de sócios”. Então, hoje a gente é sócio na empresa. Hoje temos uma empresa de treinamento. Ele já tinha a empresa, então a gente fez uma sociedade e estamos tentando algo novo. Estamos inovando um pouco a empresa, a gente está abrangendo outras coisas da construção civil, não só a parte de segurança.

A nossa profissão, Técnico de Segurança, a gente tem que preservar a vida do trabalhador e a saúde do trabalhador. Esse é o foco X. É a nossa função.  A nossa profissão de segurança do trabalho ainda sofre muito com algumas coisas porque as pessoas não veem isso como importante. Às vezes, a construtora em si, ou a pessoa que está prestando assessoria, que seja, às vezes, não vê a importância do técnico de segurança e, às vezes, são as próprias pessoas que você vai chamar atenção para usar um EPI, de pôr o cinto, porque senão você vai cair dali, de fazer as coisas com segurança. “Atrapalha, demora a produção”. Mas não é demorar. Tudo é costume, porque a construção civil é muito dinâmica também, muito rápida. Então, às vezes, tem uma atividade que você está fazendo aqui e você vai ter que pôr cinto. Coisa de dez minutos, mas tem que pôr. Você vai ter que parar. Para você usar o cinto dez minutos, às vezes você vai ter que perder 40 minutos pra gente fazer linha de vida. Então, é onde as pessoas veem isso como perda de produção. Mas não está perdendo produção, você está só, simplesmente, montando o espaço pra acontecer a atividade. Não pode só acontecer a atividade, sem um olhar crítico que pode ocorrer um acidente. A gente está falando de vidas, de pessoas que acordaram cinco horas da manhã, dependendo umas quatro, para estar lá às sete da manhã, para ganhar o pão de cada dia porque a gente sabe o quanto é que eles trabalham, o quanto é um serviço desgastante, e eles, às vezes, têm medo de falar que: “Eu tenho que pôr o cinto”. Aceita fazer a atividade porque tem medo de bater de frente e ser mandado embora, porque a gente sabe que é uma classe trabalhadora um pouco mais... como posso dizer a palavra?... desfavorecida? Acho que podemos usar esse termo. Então, às vezes, tem um medo, né? Eu mesma, na minha profissão, se eu bater de frente com o engenheiro, bate o medo de ser mandada embora? Bate. Mas eles já não: “Não posso bater de frente com o engenheiro, você fala isso porque pra você é fácil”. Essa é a hora que eu acabo intermediando, tento ter mais amizade com eles, deles se sentirem à vontade de me contar as coisas: “Aconteceu uma situação X”, que a obra é muito grande, às vezes mais de cem funcionários trabalhando ao mesmo tempo e você é um.

O técnico de segurança tem a equipe, mas a maioria das vezes ele está trabalhando sozinho ali. Então, aí é a hora que eu falo: “Gente, vocês têm que me falar”. Às vezes, eu estou lá na torre X e aconteceu uma situação lá com você e eu não estou sabendo, porque às vezes a pessoa falou pra você: “Faz rapidinho aí que ela nem vai ver”. É o que acontece: “Faz rapidinho que o técnico não está aqui. Aproveita”. Aí eu falei: “Vocês têm que me falar: aconteceu uma situação X. É a hora que eu vou ter que intermediar. Eu sei o que aconteceu. Eu não vou falar quem foi, não vou contar o santo, como dizem, mas aconteceu isso, isso e isso”. Não pode. É a hora que a gente tem que estar sempre nessa psicologia do trabalho, batendo com uma coisa que acho que nem deveria, afinal, é a segurança de pessoas.

Normalmente, o pessoal evita as normas de segurança pra ganhar tempo. Na construção civil é mais assim. O técnico de segurança do trabalho pode atuar em qualquer área, seja em hospital, seja em usina, mas uma coisa é totalmente diferente da outra, e aí têm várias normas, que você vai levando. Eu, aqui, o polo é construção civil. O polo de Ribeirão Preto e região é construção civil. Tem usina em Sertãozinho, as usinas, mas eu acabei caindo na construção civil e fiquei.

Na construção civil não tem uma norma internacional, têm as NRs, que são as normas regulamentadoras. Assim como a NR18 é a construção civil, tem a da indústria. São várias normas. Na verdade, são várias normas, que eleva várias coisas. Eu caí na construção civil e fiquei, porque é onde eu estou aqui, onde eu acabei começando e sempre, quando surge alguma vaga, é sempre na área de construção. Já tentei na usina; já tentei dar aula, mas sempre acaba na construção. A indústria é muito mais rígida em questão de segurança. Tem lugar que você faz treinamento de dois dias de segurança do trabalho, antes de você entrar.

Graças a Deus, nunca tive nenhum acidente. Nunca. Incidentes acontecem: eu já furei o pé no prego. Que é normal. Você está andando e às vezes você está olhando outras coisas, você está olhando para cima, olhando pra outra coisa, você acaba não vendo. Então, eu mesma já me acidentei. Acontecem pequenos incidentes. Já presenciei. Essas coisas poucas. A maioria é de pisar em um prego, machucar ou um cortezinho muito pequeno, acidentes muito leves, nada grave, graças a Deus. Acordo todo dia e rezo e peço para nunca ter um acidente nas minhas obras. Nunca presenciei um acidente fatal, nem grave e nem gravíssimo.

E há a situação onde um EPI salvou a pessoa. Na verdade, nunca eu presenciei de fato, mas já aconteceu com os colegas de profissão, os caras estavam de capacete, e se não estivessem... Cai na cabeça, e se não fosse o capacete... o capacete quebrou. Relatos a gente ouve muito. Ficou pendurado no cinto, essas coisas. Na corda...

Eu acho que - se faz oito anos que eu estou aqui, faz uns quatro que eu estou na área - desses quatro anos pra cá, eu vivendo a minha profissão, eu vi muita mudança. Já vi algumas mudanças. Em questão de documentação, o pessoal está dando um pouco mais de importância para a área. A questão de você estar conseguindo conscientizar mais as pessoas com o tema, com palestras ou você mesma, a gente faz DDS, que a gente fala, que é o diálogo de segurança. Sendo diário, semanal, com isso você está sempre o quê? A segurança no trabalho não é nada mais, nada menos do que a gente conscientizar. Às vezes, eu falo nos meus DDS: “Vocês não são crianças. Criança que a gente fala: ‘Não põe a mão no fogo, que o fogo queima’ e ele vai pôr porque ele é curioso. Criança é curiosa e não sabe o que é queimar. Vocês já sabem. Eu falo para vocês porem EPI porque vai machucar. Vocês já sabem que vai machucar”. Então, é aquela conscientização, diariamente, todo dia, com eles. E com esse processo, realmente tem pessoas que já entram com outra mente. Os mais novos já têm uma percepção um pouquinho melhor, de entender e te ouvir: “Não, é verdade”. Qualquer coisa já procura: “Eu vou trabalhar lá, assim e assado e não tem o procedimento. Você pode ir lá ver comigo o que a gente pode fazer de melhor?” “Opa, vamos lá, estou aqui pra isso.” A engenharia também, às vezes, você pega um pessoal que tem mais cabeça, que quer também, entendeu, fazer e acontecer a parte de segurança: “Você tem carta branca pra parar qualquer atividade aqui. Pode parar”. Então, tem muito essa comunicação. Não posso, também, às vezes, fazer coisas na obra sem o aval do engenheiro. Às vezes, eu acho que tem que parar, ele acha que não. Nessa hora eu tenho que me documentar, me resguardar: “Está acontecendo isso e isso, tal, tal, tal, avisado, de acordo com a norma, com a lei, tal, tal, tal”, você especifica, manda e a gente tenta, sempre, se resguardar porque a gente acaba respondendo criminalmente dentro de um canteiro, qualquer morte, qualquer coisa, a gente responde por aquela vida, até a prova de que você deu todas as orientações para aquilo não acontecer.       

No passado, o curso de segurança de trabalho era de seis meses. Hoje, é dois anos e meio. A gente já vê que aumentou muita norma, muita lei... Da época dos meus professores, já foi uma grande mudança. Ele falou: “Na minha época eram seis meses. Depois que eu já estava há não sei quantos anos foi para um ano e meio de curso. Hoje, já está quase dois anos e meio o curso de técnico de segurança”. E a questão dos EPIs, de ser mais rastreamento, né, da época deles pra cá... eu penso assim: É muito recente que eu estou na área, mas a minha parte de mudança, o que eu vejo é que as pessoas estão ficando mais conscientes, e hoje, alguns não veem mais  o técnico de segurança, como...      A gente chega: “O chato chegou. Chegou a chata. Chegou a pessimista. Você só vê coisa errada, você só acha que o povo vai morrer ou se machucar”. Eu tenho que prever que isso pode vir a acontecer. Então, se pode vir a acontecer, o que a gente pode fazer para não acontecer? Aí é onde vai, sempre, se especializando, porque não adianta você fazer o curso... está um trabalho em altura lá. Tá, se eu não me especializei em trabalho em altura, pra mim está tudo normal, entendeu? Se eu não me especializo em espaço confinado, está acontecendo ali. Qualquer área a gente tem que estar sempre procurando especialização. Então, eu sempre procuro. Gosto muito da parte do trabalho em altura. O que ocorre muito na construção civil. Espaço confinado. Então, são duas especializações que eu e meu sócio sempre fazemos. A gente tem bombeiro civil porque também é uma parte que a gente trabalha os primeiros socorros, onde também tem muita participação no salvamento, resgate, nessas coisas. Então a gente sempre se especializa nessa área porque a gente dá, também, treinamentos.

Nunca tive uma grande questão no trabalho, primeiros socorros, por exemplo, foi bem pouca coisa. Já tive fiscalização. O Ministério do Trabalho. Os fiscais do Ministério do Trabalho são os responsáveis por fiscalizar a obra.  Eles chegam na obra de surpresa, se apresenta que é o fiscal: “Vou andar na obra com você”. A formação deles varia, não são necessariamente técnicos de segurança: são engenheiros... não tem um... tem que ter um curso superior. Às vezes, você pega fiscais que são engenheiros civis, que vão entender algumas situações e você pega um que é advogado e que vai pra parte, toda, legislativa e vai pegar uma coisa que às vezes não tem um nexo, da cobrança, mas a gente não vai discutir, né? (risos)

Mas já passei por fiscalização, sim, a obra chegou a ser multada, e nessa época, eu trabalhava com o Adriano e aí acho que a gente chegou a levar uma multa e ele veio perguntar porque a gente não avisou. Aí ele falou: “Não”. Pegamos todos os e-mails: “Está tudo aqui, tudo documentado, tudo que tem que fazer. Então a multa que vocês levaram é porque não foi feito de acordo com o que foi solicitado, orientado. A gente está aqui para orientar”. O técnico de segurança não vai pôr a mão na massa: “Tem que pegar e pôr uma proteção ali”. Eu não vou lá pegar a madeira, o prego, o martelo e fazer a proteção. Não. A gente vai falar o processo, como tem que ser feito, de acordo com a norma, é um metro e 20, bababa, tem que ser assim e assado. Então, a gente põe todas as pessoas, acompanha: “Eu vou te dar um funcionário”. Então, a gente acompanha o funcionário a fazer, implantar. E aí, às vezes, acaba acontecendo essas situações. Mas foi a única fiscalização que eu tive, que houve uma multa, que teve problema, mas realmente foi avisado.

Atualmente, há mais mulheres na construção civil, aliás, não só na construção civil, mas também como técnico de segurança. Eu estou há pouco tempo na profissão. Não trabalhei em muitas construtoras para ver. Não sei como é lá fora, mas eu, desde quando estou trabalhando, eu vejo bastante técnicas de segurança. Tem, sim.         

A gente vê que eles pegam um pouco mais no nosso pé. A gente tem que se colocar um pouquinho mais. Às vezes, eles dão uma confundida, por ser mulher. Às vezes acontece. Mas nunca fui assediada no campo. Acho que tem a ver com a postura. Se você põe um respeito acho que não...

Hoje, nós pegamos uma consultoria. Meu sócio, Adriano, já vem trabalhando nisso faz um tempo, ele tem a empresa há mais de 20 anos. Agora, nós estamos tentando atuar de outras maneiras, sem ser só assessoria, abrangendo uma parte, às vezes, maior. Como conhecemos bastante gente na parte de engenharia civil, de enfermeira de segurança no trabalho, pessoal especializado em trabalho em altura, a gente conhece muita gente especializada em bastante área, arquitetos, então a gente tem um grupo, a gente conseguiu mobilizar um grupo de profissionais, onde a gente vai conseguir fazer uma boa implantação, tanto na parte de segurança, de assessoria, como revitalizações de prédios, estamos tentando pegar as revitalizações. Uma obra tem o pessoal de limpeza, de pós obra, essas coisas, tem uma equipe que ele conhece. Então, na verdade, a gente é tipo uma, vamos dizer, a empresa à frente de empreita de algumas áreas da segurança. Da parte da construção. Porque, como a gente trabalha na construção, a gente vê a necessidade. Então, só falta, às vezes, uma empresa ou alguém que consiga sanar o que eles procuram. Então, tudo que é ligado à construção civil, na área, temos profissionais que a gente consegue encaixar para fazer a atividade.

Eu sempre prezei muito em me formar, comecei a fazer Arquitetura, que tive que parar devido a uma questão financeira. E sempre tive um sonho, aquele pensamento, de estar bem financeiramente. Depois que eu perdi meu pai, nesse tempo, na verdade, eu penso em viver a vida de acordo com o que ela me dá. Então, se ela está me dando essa oportunidade hoje, de eu entrar como uma empreendedora, eu vou tentar, certo? Se der errado, ok. Eu tentei. Então, hoje eu estou em uma visão de vida que o dinheiro não é tudo na vida do ser humano. Existem muitas outras coisas que pode te dar prazer. Óbvio que o financeiro tem que ter, mas acho que em excesso, sei lá, por eu estar passando por vários processos com família, essas coisas, por causa de dinheiro, então eu acho que a vida é curta demais, poderia ter, às vezes, curtido mais meu pai, ter dado atenção menos à minha profissão, às vezes, ter ido mais lá vê-lo. A gente coloca muita coisa na balança depois que a gente tem uma perda muito significativa pra gente. Então, hoje o meu foco é tentar. Hoje, o que aconteceu depois que eu saí do último emprego, vai fazer um mês, foi a sociedade. Então, vamos tentar? Vamos. Eu me dei um prazo pra tentar. Igual: “Já pensou em sair do país?” Já. Tem um primo que eu falei que mora na Austrália. Conversando com a minha tia, que é a mãe dele, eles me orientaram quando ele foi, para aprender inglês, como faz. Isso é uma outra, talvez, opção, se nada der certo. Hoje, eu coloco opções: “Vou pegar essa daqui. Vamos ver se essa dá certo. Vamos pegar essa daqui, vamos ver se dá certo”, entendeu?

A questão da minha sexualidade, acho que todos compreenderam e compreenderam porque eles me amam muito, além disso, sabem que isso é só uma parte tão mínima da vida e do caráter e do que eles me ensinaram a ser, né? Desde os 22 para 23 anos que eu estou aqui e, se você falar pra minha mãe: “A Thaysa ligou pra te pedir alguma coisa?” Eles não sabem do terço a metade do que eu já passei por aqui durante esse tempo, entendeu? Eu moro aqui já faz oito anos.

Neste tempo, eu nunca tive problemas de preconceito por aqui. Eu já fui xingada. Já vi as pessoas ficarem encarando, olhando, mas paciência, azar o deles (risos). Ninguém está pagando as minhas contas, não é? E o interior é conservador, mas onde foi que eu sofri preconceito? Em São Paulo. Na Avenida Paulista (risos), um lugar que eu nunca imaginei que iria passar por isso. Por estar de mão dada. E aqui eu nunca tive problema, óbvio que a gente também não se expõe. Acho que ninguém precisa ficar expondo. Enfim. Andar de mão dada, ok, mas enfim, por andar de mão dada, de abraçar, de brincar, assim, óbvio que deve ter olhares, mas eu nem fico olhando, porque se eu ficar me pegando nisso daí, eu não saio de casa. Não vivo.

Meu pai começou a ter uma dor nas costas e a gente foi indo atrás, no médico e tal. E isso só foi se agravando, se agravando, se agravando e ele emagreceu muito, ficou internado, ficava no hospital, saía do hospital, ficava no hospital, saía do hospital, isso tudo lá em Santa Cruz, ele e minha mãe. E meu avô ali os assessorando. Os médicos não falavam o que ele tinha. Aí, em fevereiro, eu fui pra lá, eu estava de férias e, conversando com o médico, tenho um amigo que é médico aqui, fui conversando com o médico, fui mandando as informações pra ver o que ele podia me ajudar e foi tudo muito rápido, assim, que a gente não conseguiu, a hora que acabou as minhas férias eu vim pra cá, aí minha mãe: “Levaram seu pai pra uma cidade vizinha, ele está sendo internado”. Eu liguei para minha mãe: “Mãe, como está?” Meu pai não estava falando, já tinha perdido a fala e entrou em coma. E aí ele ficou pouco tempo na UTI, não foi muito, não, e veio a falecer. Foi muito rápido.        

Ninguém está bem, né? Parece que é um sonho. Sonho, não. Um pesadelo que às vezes a gente acorda e acha que está sonhando. Isso aconteceu, mesmo? Como ele morou dez anos em Santa Cruz, para mim é como se ele ainda tivesse lá. Como se a gente só não tivesse se conversando pelo WhatsApp.

Meu pai, ele sempre foi meu amigo, muito amigo, conversava muito. Acho que era a pessoa mais importante daminha vida, e a minha família, meus irmãos... Eu, meus irmãos, minha mãe, a gente é muito unido e então...

Meu irmão mais velho mora em Goiás, então, é um pouco mais difícil de encontrar, mas geralmente, todo final de ano, a gente tenta o máximo de estar junto, passar o natal e o ano novo juntos, mas a gente sempre, sempre, sempre, hoje, com a tecnologia, estamos sempre se falando. A gente é muito, muito, muito, muito ligado. Minha família é... eu falo minha família, quem é sua família? Quando fala sua família, minha família sou eu, meus irmãos e minha mãe. Essa é a minha família. E meu pai, né? Os outros são a família da minha mãe, a família do meu pai, que se torna minha família, mas por quem eu luto são essas pessoas.

Hoje, eu não gosto de planejar muito, estou em uma pegada de vida que não... já planejei muito com pessoas e a gente sempre acaba se decepcionando com as coisas então, hoje, eu não consigo falar: “Daqui dez anos eu vou estar em uma casa X, morando em tal lugar, vou ter...”, não. Acho que hoje eu vou viver o hoje. Eu te falo: “Hoje eu sei o que eu estou buscando”. Então, hoje, eu estou buscando esse empreendedorismo. Até setembro eu me dei um prazo que tem que dar certo. Estou dando prazos curtos pra mim. Mais nada grandioso de anos, porque depois dessa perda que eu tive, eu não sei. Eu comecei a ver a vida com outros olhos, eu acho. Acho que as pessoas acabam planejando, planejando, planejando, planejando, planejando, e o que você viveu? E aí, às vezes, o plano não deu certo, às vezes você deixou de fazer aquela viagem, às vezes você deixou de fazer alguma coisa com seu amigo ou com a sua família. Me deu vontade de ir lá ver minha tia, eu vou pegar e vou lá ver a minha tia. Sabe, vou pegar o ônibus. Eu quero ir hoje. Vou lá e vou, entendeu? Então eu acho que hoje é muito mais viver, com as pessoas, o que eu quero viver naquele momento e, se der certo, ok; se der errado, ok também, porque a vida acho que não é... posso estar hoje falando, filosofando alguma situação, mas hoje é o meu modo de vida. Pode ser que daqui, sei lá, seis meses, eu mude de ideia, e: “Ah não, eu vou planejar que eu quero isso, isso, isso e isso”.

Eu gostei de contar um pouco da minha história. Eu estava pensando que fosse uma coisa muito menor, quando me falaram. Depois que eu vi o site, eu falei: “Nossa, é uma coisa...”

É meio grande, assim. E aí tem coisas que a gente acaba não expondo, acaba não querendo citar porque isso poderia trazer alguma... se alguém ver, às vezes, pode trazer algum desconforto do que as pessoas acham do que realmente eu acho que elas sentem, ou o que eu sinto por elas. Não sei. Achei muito interessante. Você pode ver que eu falei muito mais de mim do que dos meus pais, do que dos meus avós, porque tudo bem, minha família tem uma história, tem muitas histórias, mas a minha história é essa (risos).

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