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Sem estrelinha, mas em cima do escorregador

História de: Raquel Ribeiro dos Santos
Autor: Instituto Choque Cultural
Publicado em: 26/07/2017

Sinopse

Ver o irmão mais velho de uniforme e lancheira provocava em Raquel o desejo de também entrar na escola. Até que a mãe consegue para a filha um dia de experiência no pré. Pintar e recortar não era um desafio para Raquel: acostumada com papeis, tintas e lapiseiras em casa, não era a atividade de recorte que a faria se encantar pela escola. Escolhe, então, brincar na altura da gangorra e do escorregador. Liberdade e educação sempre foram temas recorrentes na vida de Raquel, que quis o destino que estudasse Psicologia. Mais tarde, entra no mundo das creches e institutos educacionais, mas é na Choque Cultural, criada pelo irmão e pela cunhada, que encontra a paixão antiga de unir a educação e a arte. Cria o Instituto Choque Cultural com a ideia de questionar, mostrar, transbordar! Acreditar que a educação pode ser uma experiência transformadora fez de Raquel uma ousada educadora, consciente da importância de pensar a arte além dos muros da escola.

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História completa

Eu sou Raquel Ribeiro dos Santos, nasci em São Paulo no dia 10 de janeiro de 1965. Me lembro das alunas da minha mãe indo em casa ter aula com ela, levando materiais de artes que a gente usava. Minha mãe fazia tinta pra gente, pra não pegar aquelas que eram tóxicas, e estendia papel no chão pra gente desenhar. Meu pai trabalhava com desenho técnico numa indústria e também trazia materiais ora gente.

 

Tenho um irmão mais velho formado em Artes. Ele começou a estudar Arquitetura, não concluiu e caminhou para o Design de Moda, depois Artes Plásticas, e fundou uma galeria, a Choque Cultural. A gente era uma família bem típica, família do bairro. Até os seis anos, eu morei no Brooklin, numa vilazinha, então essa coisa de comunidade é bem comum pra gente. Minha mãe é descendente de italianos, a vizinha era descendente de alemães, então tem uma cultura popular, mas não tão abrasileirada, uma coisa um pouco mais europeia. De final de semana, geralmente saímos eu, meu irmão, minha mãe e atravessava a cidade de transporte público. Comia alguma coisa no Salada Paulista, que era um restaurante português supertradicional, que eu lembro que tinha um painel de fundo com azulejos portugueses pintados, que pra mim era tudo muito grande!

 

Com seis anos, a gente se mudou dessa vila pra um bairro que tava começando, entre Santo Amaro e Interlagos, Chácara Flora, um pequeno bairro, que as casas formavam tipo um condomínio. Meus pais que ajudaram a por asfalto na rua, iluminação. A gente não conhecia muito as crianças, porque tinha muitos terrenos ainda não ocupados. Me recordo que dava umas cinco, seis horas da tarde, minha mãe já tinha terminado os trabalhos dela, a gente também, a gente sentava no corredor do quintal de casa e ela a abria uma coleção que se chamava Fantasia. Era uma série de 12 livros com contos de fadas tradicionais com ilustrações incríveis, eu tenho até hoje, separei e guardei. Desmontei os livros e guardei as ilustrações, não as histórias!

 

Eu sempre tive uma certeza desde pequena: iria trabalhar com criança. Mais de educar, de cuidar, isso sempre foi certeza. Eu lembro da primeira experiência de escola: fui passar um dia lá no prezinho. E tem uma coisa que é engraçada, que eu acho que eu sou sempre fora da curva nessas coisas! A gente brincou no parque, aí todo mundo foi pra sala e as professoras estavam ensinando as crianças a fazerem um estrelinha, mas aquela coisa típica de escola daquela época, tudo pronto, a criança meio que só montava um pouco. E eu não queria fazer aquilo, atividades artísticas, eu já tinha tido um monte daquilo em casa, não era o que me atraía na escola! Eu queria brincar no parque, porque o parque pra mim era novidade, escorregador, gangorra! De alguma forma eu teimei, a professora se encheu, falou: “Vai brincar no parque, só que você também não vai ganhar estrelinha!” Fui lá, brinquei, me diverti, me esbaldei no parque!  Só me lembro da cena. Eu em cima do escorregador com a professora passando com a fila de criança e todo mundo com aquela estrelinha dourada no peito, e eu sem a estrelinha, mas em cima do escorregador. É engraçado que essa primeira experiência retrata muito a minha personalidade, o meu jeito. Eu sou muito determinada. Eu quero fazer as coisas, eu não me importo de sair ali da turma e ficar fora.

 

Mais tarde, passei em Pedagogia na USP, mas repeti o terceiro ano no colegial, coisas que acontecem só na minha vida! Meu pai falava assim: “Acho que o negócio seu é ir trabalhar, ir pra fábrica, você não é muito dos estudos”. Já tinha repetido o segundo ano primário, já tava repetindo o terceiro colegial. Meu deu um susto aquilo, porque nunca tinha passado pela minha cabeça não fazer faculdade. Eu chorei tanto, fiquei tão impressionada com aquele acontecimento, porque foi muito conturbado, foi o exemplo, no sentido pejorativo, do que é a burocracia escolar em comparação a conhecimento e aprendizado. Mas também foi um superamadurecimento, porque eu voltei, falei: “Bom, eu vou fazer vestibular, mas eu vou também começar a trabalhar, porque também não dá pra ficar nessa coisa de pai pagando escola e repetindo”. Deu-me um senso de responsabilidade. Voltei pra Santo Amaro, fui fazer magistério e comecei a trabalhar em escolinha como auxiliar.

 

Por conta disso, conheci uma professora que dava aulas totalmente diferentes, que se eu tivesse oportunidade de ter professoras como ela ao longo do ensino, seria outra experiência. Ela dava uma aula com sentido, ela dava uma aula diferenciada. Pra resumir um pouco, por exemplo, as provas, a gente podia fazer em dupla, discutindo um com o outro, porque não tinha como você colar a opinião do outro. Então você tinha texto, não era uma verificação de leitura, você tinha que dar a sua opinião com base na teoria, mas não tinha como você fazer uma prova igual, era uma prova pra se pensar. Então eu fiquei encantada com a metodologia, com o jeito dela dar aula, eu falei: “Eu quero isso”. E no final, eu fui fazer a faculdade que ela fez, me determinou a fazer Psicologia. Depois, passou-se aí uma década, eu já tava trabalhando, tal, já tava exercendo função de coordenadora, mas ainda como professora. E por ter mantido contato com essa professora, ela teve que se ausentar das aulas por três meses, ela me chamou para substituí-la nas aulas dela. E eu vi que dar aula pra adultos, que era aula no magistério, não tinha mistério. Eu curti demais aqueles três meses e quando eu voltei, eu assumi: “Quero coordenação”. Quer dizer, consegui subir um degrau na minha carreira em função dela, então ela foi importante duas vezes, em dois momentos da minha vida.

 

Trabalhei mais em duas creches, fui ser coordenadora de uma creche em Pinheiros, depois fui ser coordenadora de uma creche no Grajaú. Aí teve o tempo dela, acabou esse programa do Estado, ela foi sucateada. Foi chegando a um ponto que eu falei assim: “Meu, não concordo. Não vou denunciar porque esse bairro, esse lugar, não vai ter outra coisa no lugar. Não me vejo nesse direito de idealisticamente fazer uma coisa que eu sei que a realidade vai ser outra. Mas também não quero ser conivente com isso”. Esse meio tempo que ficou acabou sendo maior do que eu calculava. Mas vale lembrar que naquele período que eu fiquei dois anos desempregada, eu fiz uma experiência de trabalhar na Choque querendo criar um instituto ali, uma fundação, mas ainda não tinha consistência, faltavam dados. Aprendi como era fazer um estatuto, formar, mas ainda não tinha uma ideia do que era um projeto educativo pra uma galeria. Encontrei o trabalho do Ayrton Senna, fui fazer isso.

 

Enquanto eu tava terminando essa experiência no Ayrton Senna, eu fiz uma pós-graduação na ECA que era de Comunicação, Arte... Era Gestão da Comunicação, Arte, Políticas Públicas e Educação.

Nessa época, a minha cunhada Mariana, mulher do Baixo, eles já tinham uma produção, tinham uma história muito grande ligada às artes, então eles criaram a Choque Cultural, o nome explica muito que é a ideia, exatamente pra fazer um contraponto do modelo de mercado de arte que tava vigente na época. Então eles criaram nessa casa que eu morei da João Moura, que era um tubo, porque ela tinha um porão muito grande, com o pé-direito grande, o térreo, e os quartos em cima, eles a transformaram toda colorida. Era um trabalho com os artistas, com a formação de públicos novos, como a formação do mercado de arte de galeristas. Eu só não sabia ainda explicar teoricamente por que aquilo tava dando tão certo.

 

Quando eu entendi educomunicação, ela fez sentido pra mim exatamente naquilo que eu falei, que a teoria tem que vir pra explicar uma prática, não uma prática que se encaixa numa teoria. Falei: “Gente, a educomunicação explica exatamente por que eles estão fazendo, do jeito que eles estão fazendo, e tá dando certo!” Quando que chegava à pergunta final: “E o que você acha de a gente montar um educativo na Choque?” “Não. Pelo amor de Deus, não faça isso. Porque, imagina, educação não tem nada a ver, porque o que a Choque já tá dando certo, tem que ser assim. Não pode mudar, porque ela dá certo exatamente porque faz isso”. Eu falei assim: “Ok. Eles têm uma experiência ruim de escola, faz sentido e tal”. E eu fui entender que assim, na verdade, se todos eles concordavam que a Choque contribuiu fortemente, foi um divisor de água pra muitos em termos de educação pra arte, por que um educativo não condiz? Eu fiz essa interpretação: o que eles estavam entendendo de educativo era aquela educação convencional, vamos sentar todo mundo numa sala, vamos dar aula, vamos planejar aula, vamos por um professor na frente, todo mundo... Isso realmente jamais iria funcionar, já não funcionou nem numa entrevista de meia hora, quanto mais num curso. Eu falei assim: “Poxa, então isso é mais um argumento pra eu fundamentar a inovação que é você fazer um educativo diferente, pra uma galeria diferente”. Então tem que ser um modelo de educativo que seja diferente do convencional.

 

Tinha esses três públicos: os artistas, os professores e alunos, e o público eventual das exposições da galeria. Então tinha que criar uma coisa que amarrasse tudo isso. Foi assim que eu criei o formato, a missão. Um dos desafios do educativo que enfrenta hoje vendo outras histórias de coletivo, é exatamente isso, cada um com projetos e com funções separadas, então assim, tem muito claro, e eu vejo na fala deles, quando fala do educativo da Choque, sou eu. Ou não? Não sei, posso estar enganada!


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