Busca avançada



Criar

História

Sempre fui apaixonado pela vida

História de: Durval Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Durval passou sua infância na cidade onde nasceu, Uberlândia. Gostava muito de fazer natação e de estudar. Sua tendência era ser médico, mas acabou indo estudar Direito, apesar de se dizer apaixonado pela vida e querer saber como ela se processa, por isso sua paixão por Biologia. Por ser filho de um dos fundadores da Empresa Telefônica Teixeirinha, acompanhou o desenvolvimento da empresa de perto. Em seu depoimento conta a história dessa empresa telefônica, suas características, suas transformações e a tecnologia utilizada na época, além de explicar como a empresa se tornou a CTBC e como sua família perdeu o direito de administrar a empresa.

Tags

História completa

P – Eu gostaria que o senhor desse seu nome completo, local e data de nascimento

 

R – Meu nome é Durval Teixeira, nasci em Uberlândia, em quatorze de fevereiro de 1928.

 

P – Nome do seu pai, e de sua mãe.

 

R – Papai, Tito Teixeira, e minha mãe chamava-se Maria Leite.

 

P - Como era o seu pai, como era a sua mãe? Poderia descrevê-los?

 

R – Papai, na minha opinião, era um homem simplesmente extraordinário. Minha mãe era uma dedicada mãe de família, muito amorosa, consciente das suas responsabilidades com respeito à sua família e seus filhos, e cuidava de nós com todo o carinho, desvelo, com todo o amor.

 

P – O senhor poderia descrever a sua casa da infância?

 

R – Bem, grande parte da minha infância passei numa rua de Uberlândia que se chamava naquela época Rua Tiradentes, hoje ela tem o nome de Rua Goiás, cuja residência já foi há muito tempo demolida e hoje se encontram prédios enormes no local. Foi uma casa relativamente confortável, tínhamos um terreno muito grande, enorme, onde eu fazia todas as minhas brincadeiras de menino, naquele terreno. E inclusive em comunicação com todos os meninos da vizinhança, como todo o mundo faz. E nós tivemos uma infância muito feliz ali. E depois daquilo, nós, em função das circunstâncias de melhoramentos, nós mudamos para os altos da Avenida João Pinheiro, onde vivemos por muitos anos também. E foi ali também que tive uma parte muito boa da minha infância, que foi quando eu inclusive comecei a me dedicar à natação, a piscina era próxima da casa onde eu morava e eu dali fui me especializando e me tornando um bom nadador. E passei até uma infância muito feliz e muito agradável no esporte, na natação.

 

P – Essa era a sua brincadeira preferida?

 

R – A minha brincadeira preferida era nadar. E estar sempre com os meus colegas, meus amigos de infância, dos quais tenho boa memória, de quase todos eles...

 

P – Poderia citar alguns?

 

R – O que era companheiro muito íntimo, muito chegado, era como um irmão; hoje é aposentado das Força Aérea Brasileira e chamava- se coronel Lázaro Ávila.

 

P – O senhor organizava disputas, campeonatos, naquela época?

 

R – Sim, naquela época, inclusive pioneirismo. Começamos na piscina do Custódio Pereira, que é onde hoje existe o Uberlândia Tênis Clube. E ali era uma piscina muito pequena, muito rudimentar, e de vez em quando fazíamos disputas entre nós mesmos e depois começamos a fazer com outras cidades.

 

P – E era um clube, uma associação?

 

R – Passou depois a ser um clube. E posteriormente, quando o saudoso Ernesto Dornelles, secretário de Esportes inclusive do governo do Benedito Valadares, criou uma campanha para incentivação dos esportes, lá foi transformado no Uberlândia Tênis Clube e ficou sendo um clube de grande projeção, de grande frequência, inclusive de quase todos os aficionados da natação e do esporte em Uberlândia. Aí surgiram muitos campeões, campeões brasileiros, não só na natação, como também no basquete, no vôlei masculino e feminino, então foi um clube extraordinário em que a gente passou a vida ali dentro. Eu sempre gostei muito de esporte.

 

P – O senhor se lembra da sua primeira escola?

 

R – Me lembro perfeitamente bem. A primeira escola era da professora dona Juvenília. Era uma professora famosa. Para você ter uma ideia, a professora Juvenília é a mãe do atual ministro do Tribunal de Contas, doutor Homero Santos. Eu passei todo o meu curso primário na escola da dona Juvenília. Foi uma época extraordinária. Eu tinha tempo tanto para nadar como tempo para estudar. Também sempre gostei muito de estudar. Eu me lembro muito bem da professora Graciema, da professora Guaraciaba, da dona Juvenília, que tinha um rigor extraordinário com as crianças dela, e ela tinha uma disciplina fantástica em cima de nós, onde nós tivemos inclusive um gosto fantástico pelo estudo, que foi exatamente por causa daquele rigor que ela impunha nos ensinamentos dela. Pessoa realmente extraordinária. Foi uma época muito gostosa na minha vida.

 

P – Detalha um pouco mais esse tal rigor que a sua professora impunha.

 

R – Ah, sim! Havia inclusive os castigos quando nós não cumpríamos com as nossas obrigações de casa, os nossos deveres de casa, nós ficávamos de castigo no recreio, não tínhamos direito à merenda, ficávamos, inclusive, de pé às vezes de frente para a classe porque não cumprimos as coisas direito... Então isso infundia em nós uma disciplina muito grande. Que foi, sob o meu ponto de vista atual, hoje, foi extremamente proveitosa, porque todo o mundo respeitava a dona Juvenília com profundidade. Quando se dizia, aí vem a dona Juvenília, a turma já ficava tudo tranquilo, quieto, na aula, ficava aquele rigoroso silêncio. Ela tinha uma presença marcante, uma presença extraordinária. E secundada pela suas duas filhas, que é a professora Guaraciaba, é de muito boa lembrança, e a professora Graciema.

 

P – Dessa época o senhor trouxe alguma tendência, alguma vocação, o senhor descobriu nessa época alguma coisa que gostaria de estudar e acabou estudando?

 

R - Na realidade, a minha tendência naquela época era ser médico. E eu fiz toda a minha preparação para ser médico. Mas, por forças circunstanciais, acabei não tendo condições de ser médico. E fui estudar direito. Mas, na realidade, naquela época eu gostava muito de Ciências Naturais. Toda a vida gostei, e até hoje gosto. Gosto ainda de Ciências Naturais, de Física, de Química, de Biologia, de Astronáutica, de Aviação, sempre tive uma formação técnica muito boa. Mas sobretudo de Biologia. Sempre fui apaixonado demais pela vida e queria saber como que a vida se processava, onde eu tinha vontade de ser médico. Mas realidade, por forças circunstanciais, logo depois de uma série de acontecimentos, não pude estudar. Para você ter uma ideia, eu fui um dos primeiros, quase um dos primeiros colocados em um vestibular que ocorreu em Ribeirão Preto, quando foi aberta a escola de medicina em Ribeirão Preto.

 

P – Até então o senhor tinha feito toda a suas vida escolar aqui em Uberlândia?

 

R – Toda aqui em Uberlândia. Eu tive uma época, que foi no ano de 1945 e 46, que eu estudei no Rio de Janeiro, no Colégio Sílvio Leite, lá  no fundo da Tijuca, no fundo da Tijuca. Eu passei um ano estudando lá. Depois retornei, retornei para Uberlândia, inclusive para assumir aqui a condição de diretor técnico da Empresa Telefônica Teixeirinha.

 

P – Embora seja anterior ao seu próprio nascimento, eu gostaria que o senhor pudesse historiar um pouco a formação dessa primeira companhia telefônica, lá em 1910, na Uberabinha, que o senhor certamente tem informações a esse respeito. O seu pai, o senhor Tito Teixeira, implantou essa companhia em 1910, não é isso?

 

R – 1910. Bom, na realidade, a Empresa Telefônica Teixeirinha, que não tinha esse nome na época em que foi fundada, foi adquirida por compra, feita por papai e tio Arlindo, a uma outra pessoa cujo nome era José Monteiro da Silva. Foi assim: em 29 de novembro de 1910, Carmindo Coelho firmou o primeiro contrato de privilégio, como se dizia então, com a Câmara Municipal, para explorar serviços telefônicos por 25 anos. Depois, em 1917, ela foi adquirida por José Monteiro da Silva. Parece que essa pessoa não tinha muito recurso para tocar, então papai, que queria ter comprado em 1910, quando da primeira concessão, comprou a telefônica de José Monteiro da Silva em oito de abril de 1919, junto com tio Arlindo Teixeira Júnior, e formou a empresa Irmãos Teixeira. Papai conseguiu uma concessão de trinta anos. Durante todo esse período, papai e tio Arlindo conseguiram desenvolver com a firma. Depois, quando papai comprou a parte de tio Arlindo, em sete de julho de 1932 ele criou a Empresa Telefônica Teixeirinha e ficou como o único dono. Era uma empresa de cunho individual, praticamente. A partir daí então começaram a fazer todos os melhoramentos, a se estenderem, a fazerem as linhas, construírem... Havia muito poucos telefones quando eles compraram.

 

P – O senhor se lembra quantos...

 

R – Mais ou menos uns cinquenta, sessenta telefones, no máximo, existiam naquela época. Logo depois que o papai assumiu e tio Arlindo, eles passaram para duzentos assinantes, inclusive estendendo as linhas rurais, e tudo o mais. E posteriormente, quando papai adquiriu a cota que era do tio Arlindo, ele começou inclusive a desenvolver para outras cidades, inclusive para Tupaciguara, Monte Alegre, Ituiutaba, Capinópolis, Centralina, Itumbiara, para Buriti Alegre, e teve uma época que inclusive teve uma expansão e papai também levou até Morrinhos, e que depois papai também deixou a concessão de Morrinhos para o grupo de lá. Então foi esse período, que foi desde 1910 até à época em que eu participei ativamente, que foi a partir de 1942, que comecei a participar ativamente de toda a vivência da telefônica.

 

P – Mas o senhor se lembra da sua infância, o afã do seu pai...

 

R – Na minha infância, por exemplo, quando papai estava construindo as redes, que levava inclusive para Monte Alegre, para Tupaciguara, para Itumbiara, eu acompanhava meu pai muitas vezes no acampamento. Nós ficávamos às vezes vinte, trinta dias acampados estendendo linhas. E eu criança, ainda brincando. Nós moramos uma época... Por exemplo, logo depois de Tupaciguara, vem uma serra que desce lá para o vale do Itumbiara... Nós moramos ali cinco anos para poder levar inclusive a rede até Itumbiara. Na famosa Serra do Brilhante. E eu tenho ainda algumas fotografias, teria que buscar nos arquivos, algumas fotografias daquela época em que estávamos acampados. Papai tinha uma central telefônica de lá para poder comunicar dali, inclusive estava levando para Itumbiara.

 

P – E como é que era o processo, o dia-a-dia ali nos acampamentos.

 

R – Olha, era curtir o trabalho. Desde que o sol surgia, até sete, oito horas da noite, era levantar poste e esticar fios. Levantar poste, colocar a cruzeta, esticar fios. E isso ia quilômetros e quilômetros. Até atingir a cidade onde ele se propunha a colocar a rede telefônica dele. Ainda com um fio de arame, e telefone magnético. Compreendeu? Era uma epopéia. E todos os empregados tinham uma participação muito ativa, porque papai tratava os empregados com muito carinho e muita dedicação. Eles eram fiéis servidores do papai exatamente pelo carinho que ele dispensava aos empregados. Então eles ficavam trinta, quarenta dias acampados, sem ir para casa e sem nenhum problema. E quando o papai vinha, trazia alguns deles, eles ficavam um tempo e depois voltavam de novo. Papai tinha um Fordinho 29 que ele andava para tudo quanto era canto, fazendo as suas linhas telefônicas. Ele, na frente de trabalho, com todos os empregados. E não eram muitos, não. Eram doze, quinze empregados que ele recrutava para poder fazer esse levantamento da postaria da rede, da rede física que seria levada.

 

P- Os postes eram retirados da própria mata...

 

R – Sim, nós tínhamos inclusive fornecedores de postes de aroeira daqui, que era coisa rara. E naquela serra do Brilhante, ali tinha muita aroeira naquela época. Aquilo era uma mata virgem, era quase que inexplorada, as estradas eram das mais primitivas possíveis. Eram caminhos, não eram nem estradas. Então ao longo das estradas o papai sempre descobria onde tinha poste de aroeira, ia lá e comprava os postes e fazia sua postaria. E eram postes brutos, nós simplesmente descascávamos as aroeiras e cortava na medida exata para poder... E tinha o calibre, a dimensão exata que papai sempre escolhia. Porque, na realidade, se usava poste de aroeira, porque você fincou ele e ele dura cem anos. Então era essa a preferência pelo poste de aroeira. E quando não tinha aroeira, nós usávamos a sucupira preta, também uma madeira de lei muito forte. Mas a sucupira era muito mais fraca do que a aroeira. Mas ela também, depois de fincada, durava cinquenta, sessenta anos.

 

P – Quais eram as especificações técnicas de um poste? Altura, diâmetro da madeira...

 

R - Normalmente, o diâmetro deveria ter, no mínimo, de ponta, quinze centímetros. A altura era de cinco metros, que nós utilizávamos. Embora tivesse dois metros fincados e três metros para cima.

 

P – E nessas expedições, vamos dizer assim, não havia risco, acidentes...

 

R – Não, não. O papai teve muita felicidade, porque na realidade nunca houve acidentes na construção dessas redes, que eu tenha lembrança. Havia alguns incidentes, por exemplo, para passar a postaria, inclusive era preciso pedir licença a todos os confrontantes laterais das estradas vicinais. Então papai pedia autorização e tinha que fazer a limpeza do terreno, tirar, fazer a batida para fazer o alinhamento dos postes. Isso era feito com foice, com o machado, e de vez em quando se tinha alguns incidentes com problema de cobra, picada de bicho. Teve uma época que um operário do papai foi picado por uma cascavel, mas graças a Deus conseguiu se salvar, não teve problema nenhum.

 

P – Qual era a técnica de carregar esses postes no meio do mato...

 

R – Nós tínhamos um caminhãozinho Ford 33, que se colocava em cima dele inclusive com um guincho que puxava ele para cima. E esses postes, nós íamos distribuindo ao longo da estrada com esse caminhãozinho.

 

P – O seu pai, em casa, falava muito desse trabalho ou ele tinha mais um comportamento mais de lazer?

 

 R- Não, não. Papai vivia 24 horas por dia o problema dele de empresário telefônico. Vinte e quatro horas por dia. Exagero dizer 24 horas por dia, mas a vida dele era inteiramente dedicada a isso. Ele tinha muito pouco tempo para nós, inclusive nesse período. Mas quando tinha tempo, ele era extremamente dedicado. E ele ainda arranjava tempo para, de vez em quando, passear conosco. Ele nos levava ao acampamento. Eu fui, dos filhos, o que mais usufruí da presença dele em acampamento. Não sei por que, ele tinha uma predileção por mim, não sei devido a quê. Dizem, inclusive, que eu pareço demais com ele. Todo o mundo diz. Então, ele tinha uma predileção, e ele sempre me levava. Eu estava sempre no meio dos acampamentos.

 

P – O que vocês comiam nesses acampamentos?

 

R – O comum. Arroz, feijão, carne, e farinha. Era comida comum. E quando a gente tinha o privilégio de acampar perto de uma fazenda, tudo aquilo que a fazenda poderia oferecer, ofereciam com a maior das boas vontades. Não tinha nem custo. Quantas vezes a gente ia para uma roça de milho, comia o milho, ou abóbora, chuchu, que tinha nas fazendas, eles davam para gente.

 

P – Essa sua proximidade da atividade do seu pai não chegou a atrapalhar os estudos?

 

R - Não, porque nessa época eu já tinha terminado o meu curso primário, então eu não estava muito comprometido. E quando nós ficávamos em acampamento, geralmente era nas férias. Então não comprometeu meus estudos, não.

 

P - O senhor não procurava alguns riachos para nadar não?

 

R – Sim, e como! Era muito gostoso.

 

P – Essa companhia desenvolveu-se, e foi a única companhia da região durante muito tempo. Essas outras localidades às quais ela serviu, em que raio, quantos quilômetros, em que raio essas localidades estavam? Seu pai estendeu as suas linhas até a que distância...

 

R – Naquela época, até duzentos quilômetros, que seria, por exemplo, Buriti Alegre, ou Morrinhos, que deve estar a mais ou menos a 250 quilômetros daqui, por estrada. Em linha reta seria menos. Mas foram ao todas essas cidades. Monte Alegre, Tupaciguara, Ituiutaba, Centralina, Capinópolis, Itumbiara, Buriti Alegre e Morrinhos, que era praticamente o final de rede nosso. Para cá ele só tinha para Itapuirama, que era pertinho. Mas todo o pontal do Triângulo Mineiro era servido pela Empresa Telefônica Teixeirinha. Houve uma época, inclusive, nós tivemos também Campinas Verdes. Mas depois, como Morrinhos, a central de Campinas Verdes foi desativada e passada para um grupo de lá.

 

P – Como era a tecnologia utilizada nessa época?

 

R – Era ainda dos primitivos telefones inventados por Graham Bell. Telefone a magneto.

 

P – Como funcionava?

 

R – O telefone a magneto tinha um dispositivo de imã que gerava energia necessária para transmitir a chamada ao longo da linha. Era gerada por um imã. Então você tinha a manivela que você tocava o imã, e gerava a corrente, que passava pelo fio e ia até o telefone que chamava. E tinha um amplificador de som, um fone e um bocal, um microfone, como se fosse um microfone nosso. Mas muito primitivo. Era simples, simples, um aparelho a magneto é extremamente simples. E a energia necessária para a condução da voz era feita pelas pilhas, pilhas essas que a própria Empresa Telefônica Teixeirinha fabricava para o seu uso e fornecia para os assinantes.

 

P – E as pilhas eram fabricadas de que matéria-prima?

 

 R – A matéria prima dela era ácido sulfúrico com uma mistura de folhas de zinco, onde havia uma reação química que fornecia eletricidade. É o princípio quase do acumulador atual. O acumulador de automóvel, entendeu? Chamava-se inclusive pilha galvanizada, porque foi Galvani que inclusive inventou. E era essa pilha que sustentava inclusive o amplificador de voz. A voz custava a chegar. Era preciso falar alto: “Alô! De onde falam?” Por causa do potencial que era muito pequeno. Então a técnica era primitiva mesmo. E era mesmo um esforço de pioneirismo levar... Para você ter uma ideia, depois de certo período de tempo, nós conseguimos ligar com a CTB, que era a Companhia Telefônica Brasileira. E estava ligando aos grandes centros, que era, na realidade, naquela época, Rio de Janeiro e São Paulo. E fui estudante no Rio de Janeiro e falava de lá aqui em Uberlândia com a maior tranquilidade, por linhas físicas.

 

P – Quanto tempo demorava para completar a ligação?

 

R – Ah, normalmente eu ficava lá na Telefônica de seis a oito horas esperando ligar, porque o tráfego entre Rio e Belo Horizonte era muito intenso, e para ter a linha que viesse até Uberlândia, eu demorava muito tempo... Tinha que processar todas as ligações entre Rio e São Paulo primeiro, para depois processar as outras ligações pelas subsidiárias. Então, levava às vezes seis horas. Eu ia para lá normalmente às seis horas da tarde para a CTB e ficava lá até às dez horas, onze horas, meia noite, lá no Rio de Janeiro.

 

P – O senhor lembra onde ficava?

 

R – Ficava ali no Largo da Carioca.

 

P – E não podia sair de perto?

 

R – Não, não. Tinha que ficar lá dentro. A telefonista anunciava: “Senhor Durval Teixeira, ligação para Uberlândia, cabine tal. E a gente ia: “Alô!” E aquela gritaria lá… Mas ouvia-se. Inclusive, posteriormente foi melhorando, e a gente já tinha uma comunicação satisfatória. Mas não era a comunicação de hoje, que você fala daqui para os Estados Unidos e parece que está ali na esquina.

 

P – O senhor chama de linha física porque não havia nenhuma onda de rádio...

 

R - Não, era tudo transmitido por fios de ferro galvanizado, inclusive tinha o que se chamava de amálgama de cobre, fios de ferro com amálgama recoberto com cobre. Porque o cobre é um bom transmissor de eletricidade, então... Não tinha as facilidades de hoje, não. Era uma luta simplesmente fantástica.

 

P – O seu Tito Teixeira sempre pretendeu crescer, ampliar? Como eram os serviços? As pessoas gostavam dos serviços que ele oferecia?

 

R – O serviço, quando inaugurado, foi muito bom, porque foi pioneirismo. O serviço da primeira central telefônica inaugurada aqui, foi inclusive uma central que foi importada no período da 2ª Grande Guerra Mundial. E foi inaugurada em trinta de setembro de 1941. Naquela época, para fazer o transporte da Suécia para cá, que foi inclusive uma central ainda extremamente mecânica, sistema de seletores de passo-a-passo, e tudo o mais, mas era a última novidade naquela época, inclusive na Suécia, e de grande eficiência – uma central muito robusta, capaz de tolerar um serviço pesado, muito grande. Parte do material foi afundado num bombardeio de um navio que vinha da Suécia para cá, no Atlântico Norte, quando se destinava para cá. E teve que vir inclusive numa outra leva de equipamento, que não tinha sido aquela que tinha sido encomendada primitivamente, e que ficou inclusive deficiente. Mas para a demanda do momento, naquela época aqui, ela atendia às necessidades. No decorrer da 2ª Grande Guerra Mundial, ela prestou excelente serviço. Não teve nenhum problema. Depois que a guerra terminou, em 1945, a demanda e o desenvolvimento começou a ser muito acelerado, e a demanda por telefones começou a ficar muito grande. Nós não tínhamos recursos de importação, então papai começou a acoplar, ainda para a periferia da cidade, alguns telefones magnetos à linha automática que tinha. E se fazia conexão através de uma central telefônica que as telefonistas atendiam as chamadas e conectavam com os telefones automáticos. É aí que veio então a premência de ampliar o serviço, e o papai fez todos os esforços necessários para isto. Papai era um homem que enxergava cinquenta a cem anos na frente. Não era um homem de visão tacanha e só momentânea. O sonho, o grande sonho dele era realmente ampliar a rede todinha para estender para toda a região. O sonho dele era melhorar o que ele já tinha feito, e feito com muito sacrifício. Então ele fez todos os esforços no sentido de conseguir os recursos necessários para isso. Em 1941, inclusive, nós mudamos para o local onde hoje é a sede da CTBC, papai comprou aquele terreno e montou uma nova central telefônica, com o prédio adequadamente adaptado para receber essa central telefônica, com projeto fornecido pela própria Ericsson do Brasil, através do senhor Wolfgang Kantif, que era o representante no Brasil, ele forneceu todo o projeto e nós construímos o prédio próprio para isso. E se instalou lá essa Central Telefônica, inclusive depois levou-se todas as redes que já existiam, se fez toda uma outra rede, porque a rede de distribuição da cidade, que é o custo maior da telefonia, de todo o local, foi toda renovada, foi toda feita através de cabos, quando começou aquela primeira inovação da telefonia por cabos coaxiais, que tinham mil ligações num cabo só. Então todas aquelas redes começaram a ser desativadas.

 

P – Estamos falando de um universo de quantos assinantes?

 

R – Nessa época, final da 2ª Guerra, já tinha 1200 assinantes. Entre os quinhetos automáticos que tinha, porque a primeira estação foi de quinhentos aparelhos, apenas. Assim mesmo, com essa deficiência, que eu disse para você que o equipamento foi afundado. E mais setecentos telefones magnéticos, que acoplamos ao sistema automático para poder atender à demanda. Enquanto nós providenciávamos a criação de uma S/A para poder levantar o capital para colocar mais mil telefones, e depois mais dois mil telefones com o próprio capital, que a Câmara Municipal, naquela época, negou o aumento de tarifa do papai de uma maneira absurda.

 

P – Eu queria detalhar isso, mas antes eu queria que o senhor descrevesse o antigo prédio da Teixeirinha. Como foi aquele primeiro prédio, como era o ambiente?

 

R – Olha, era um prédio assim muito… Ele era, para época, até era um prédio adequado. Mas era muito pequeno ainda. Ele tinha logo na entrada uma varanda, tinha logo depois uma entrada que entrava para as salas das telefonistas, e tinha uma pequena torre onde entrava toda a fiação, e que se dirigia para as mesas das telefonistas. Tem inclusive uma fotografia dessa empresa, que tenho até uma xerox que está aí, nos meus arquivos, que posteriormente posso te mostrar, e toda aquela fiação descia entrava nas as mesas, e no fundo tinha, logo depois da mesa das telefonistas, que era o atendimento para o público, tinha o escritório do papai, e no fundo tinha a oficina de consertos de telefones e a fábrica de pilhas que eram colocadas lá.

 

P – Quantas telefonistas operavam ali?

 

R – Naquela época, quatro telefonistas.

 

P – Seu pai tinha contato com o público, ele recebia as pessoas? Como era a relação dele com o cliente?

 

R – Sim, sim, o papai sempre teve uma boa relação com o cliente. Agora, o papai tinha um... Problemazinho com ele, porque ele era, às vezes, muito impulsivo. Em geral o público era bem atendido. Mas ele, às vezes, nessa hora, chegava até a ser um pouquinho sem educação. Ele que me perdoe, mas era um pouquinho sem educação, porque ele chamava a atenção do funcionário de uma maneira muito ríspida, e muitas vezes a gente entrava em choque justamente pela maneira com que ele tratava eles. Mas era para atender o cliente. E, logo depois ele passava a mão na cabeça do funcionário, agradava o funcionário, e ele não dava nem por isso. Todo mundo, inclusive, já conhecia o tipo dele, e não dava muita bola.

 

P – Nós estamos falando numa empresa de quantos funcionários?

 

R – Olha, naquela época precisamente, deveria ter pelo menos uns cinquentas funcionários. Eram quatro telefonistas, o chefe do escritório, a ajudante dele, o técnico da telefonia, e mais todos os outros empregados que respondiam pela manutenção da linhas, das locais e as dos outros municípios. Então, mais ou menos umas cinquenta pessoas, nos idos de vinte e trinta.

 

P – Com o fim da guerra, como o senhor havia dito, havia uma demanda reprimida que precisava ser suprida. E que providências o seu pai tomou para contemplar essa demanda que já estava se desenhando.

 

R – A primeira coisa que papai fez foi pedir um orçamento à Ericsson do Brasil para a instalação de mil telefones. E a Ericsson do Brasil mandou o orçamento necessário para isso. Então nós tentamos fazer um levantamento de um empréstimo junto ao Banco do Brasil. Esse empréstimo, inclusive, foi concedido, porém havia uma caução que deveria ser prestada, à qual papai não tinha condições de prestar essa caução. Na realidade, esse financiamento, que foi na época do Getúlio Vargas, foi conseguido através de certas amizades que eu tinha já no Rio de Janeiro, com injunção, inclusive, de lugares-tenentes do Getúlio naquela época, que influenciaram no processo para conseguir isso. Mas era um empréstimo da ordem de quinze milhões de cruzeiros para a instalação desses mil telefones, que tinham sido orçados em onze milhões de cruzeiros, e a sobra restante para a instalação de outras coisas, e extensão de redes. Nós tínhamos que fazer um depósito de quinhentos mil cruzeiros na conta particular de uma determinada pessoa, que aqui não quero declinar o nome... Era do governo, a pessoa já está morta...

 

P – Então o senhor pode dizer o nome.

 

R – Era o Gregório Fortunato mesmo. Tínhamos que entregar quinhentos mil cruzeiros nas mãos do Gregório, naquela época. E nós não nos dispusemos a fazer isso. E nesse ínterim, solicitamos à Câmara Municipal o aumento de tarifas para poder atender às necessidades econômicas e financeiras da empresa, para a satisfação desse financiamento que estávamos prevendo. E a Câmara Municipal da época, ostensiva e uma luta política muito grande contra o papai, negou isso. Então, logo depois, nós partimos para a criação da Empresa Telefônica Teixeirinha S/A, da qual eu chamei uma pessoa do Rio de Janeiro, chamada Mário de Almeida, e que me foi indicada pelo Moacir Marques do Prado, que hoje é diretor da Uberlândia Turismo, e foi agente da Nacional Transportes Aéreos durante muito tempo, foi também agente da Varig durante muito tempo aqui, ainda está vivo, para você comprovar com ele, e ele me arranjou um vendedor extraordinário, um homem que conseguiu colocar as ações daquelas companhias aéreas, quase todas que foram fundadas logo após a 2ª Grande Guerra Mundial – que foi a Nacional Transportes Aéreos, Aerovias Transportes Aéreos, a Real Transportes Aéreos e a Linhas Aéreas Brasileiras, antiga LAB, e a NAB, Navegação Aérea Brasileira, que era do Cantídio Sampaio. Então eu chamei esse Mário de Almeida para nos ajudar na venda das ações da Empresa Telefônica Teixeirinha S/A. E em dez dias já tínhamos levantado um milhão de cruzeiros. E nos dias subsequentes, já tínhamos atingido 35... Não, 75% do capital, porque nós já tínhamos chegado a levantar quarenta milhões de cruzeiros, quando a Associação Comercial, dirigida pelo senhor Alexandrino Garcia, que depois passou a ser o presidente da CTBC, ofereceu ajuda para complementar, inclusive para acabar de organizar a Empresa Telefônica Teixeirinha, o que não ocorreu. Nós já tínhamos levantado, com as cautelas todas assinadas, foi 38 milhões, não foi quarenta não, foi 38 milhões de cruzeiros naquela época, com todas as cautelas assinadas, e a Empresa Telefônica Teixeirinha S/A já tinha uma aceitação muito boa na cidade. Porém, as facções políticas, não satisfeitas, se intrometeram, no sentido de prestar ajuda e acabaram inclusive forçando o papai a vender a empresa telefônica. Pela negativa de novas tarifas para poder atender à demanda, o papai teve que lançar de certos recursos que ele não tinha nem como fazer. E uma delas foi essas aí. E ele teve que aceitar essa colaboração da Associação Comercial, que lamentavelmente foi nefasta para o papai. Com a negativa das tarifas, a Associação Comercial, inclusive por sugestão doutor Jacy de Assis, que era advogado do papai na época, eles criaram, em vez de Empresa Telefônica Teixeirinha, lá numa reunião da Assembléia da qual eu participei, eles resolveram mudar o nome da empresa para Companhia de Telefones do Brasil Central, por sugestão do Jacy de Assis, que via na CTB, Companhia Telefônica Brasileira, um grande marco da telefonia no Brasil e que ia dar mais ou menos uma conotação semelhante à da CTB. E botou CTBC, Companhia Telefônica do Brasil Central.

 

P – Vamos tentar desenhar melhor esse quadro. Uma Associação Comercial preocupada com o crescimento econômico, com as demandas de negócios que poderiam ser supridas com uma comunicação telefônica mais eficiente, até porque Uberlândia, com a criação de Brasília, consolidou-se como pólo atacadista; e, ao mesmo tempo, uma companhia telefônica sem capacidade de investimento, pelas razões que o senhor está expondo, e ao mesmo tempo ainda uma intenção de se constituir uma S/A, a partir de um acordo de cavalheiros, segundo o qual nenhum acionista poderia ter mais do que 1% das ações.

 

R – Exatamente.

 

P – Como é que isso se armou e de que forma essa conjuntura se desenvolveu?

 

R – Então nós vamos entrar aí num terreno extremamente melindroso, inclusive há coisas que já estão passadas de 45 anos, mas que merecem uma explicação correta. Na realidade, o limite máximo de subscrição para cada associado era de duzentos mil cruzeiros, que todos deveriam subscrever. Aqueles que podiam, subscreviam até o máximo de duzentos mil cruzeiros. Os que não podiam, subscreviam menos. Mas isso foi inclusive uma política que adotamos no início da Teixeirinha S/A. Agora, essa comissão que foi constituída pelo senhor Alexandrino Garcia, pelo Elvio Cardoso... – este, inclusive, era nosso parente; era primo do papai –, e pelo senhor Francisco Caparelli e senhor Aristides de Freitas… Os três primeiros eram diretores da Associação Comercial. Eles fizeram uma reunião para ajudar a Empresa Telefônica Teixeirinha a conseguir levantar um capital e se associaram numa comissão. Em vez de eles terem chamado o papai e delegado o poder de presidente dessa comissão, a presidência foi delegada ao senhor Alexandrino Garcia. E como membros componentes dessa comissão, o senhor Elvio Cardoso, o senhor Francisco Caparelli e o senhor Aristides de Freitas. O Aristides era pai do Renato de Freitas, que naquela época era vereador. E foi o vereador mais combativo. Ele, ao lado Paulo Lisboa e Costa e o doutor Eduardo Veloso Viana, e de um comerciante chamado Ronan Mendonça, fizeram uma campanha de descrédito total contra a Empresa Telefônica Teixeirinha e contra a pessoa do papai.

 

P – Por que motivo?

 

R – Porque a Empresa Telefônica Teixeirinha se mostrava a galinha de ovos de ouro, e havia uma ambição muito grande deles, inclusive para se apossarem, como na realidade fizeram, se apossaram da empresa do papai. Forçando-o, inclusive, a vender. De que forma? Houve uma famosa Assembléia na Associação Comercial de Uberlândia, que ainda era na Avenida João Pinheiro, e na qual estive presente, não só eu, como também o nosso antigo diretor técnico, o senhor Cid Bovini estava presente lá, nós acompanhamos, na qual ficou decidido que a empresa seria chamada Companhia Telefônica do Brasil Central, mas que o papai teria direito à subscrição de 50% do capital, inclusive com o patrimônio dele, que naquela época tinha sido avaliado em oito milhões de cruzeiros. Patrimônio que abrangia todas as empresas dele, inclusive territorial. A empresa local estava avaliada em três milhões e 896 mil cruzeiros naquela época, e foi uma avaliação que foi feita inclusive pelo Wolfgang Kantif. E ficou decidido, na assembléia, que o papai subscreveria 50% de ações com o patrimônio dele. E ficaria com 50% do capital. E os outros 50% seriam divididos em ações. Tudo bem. Isso não foi cumprido. E, posteriormente, houve outra reunião da qual nós não participamos, e onde ficou decidido que eles ficariam na direção da CTBC, nomearam inclusive o senhor Alexandre Garcia, Elvio Cardoso – a comissão era o senhor Francisco Caparelli, e o senhor Aristides de Freitas, como os diretores da companhia, com a presidência do senhor Alexandre Garcia. E alijavam o papai do contrato. Essa maquinação foi toda feita por um advogado chamado doutor Ademar de Freitas Macedo, que inclusive sugeriu que o papai ficasse de fora. Eles aceitaram, e aí depois, então, você vê a perseguição política continuou, através do senhor Renato de Freitas e do senhor doutor Paulo Lisboa e Costa, o senhor doutor Eduardo Veloso Viana, do senhor Ronan Mendonça que contribuíram para a desmoralização e para que não fosse concedido o aumento de tarifas. Mas logo depois que se constituiu a CTBC, foi dado aumento de tarifas para a CTBC, em detrimento da Empresa Telefônica Teixeirinha, que ainda tinha oito anos de concessão para serem investidos. E não foram respeitados esses oito anos de concessão.

 

P – Como o seu pai reagiu a isso?

 

R – Papai teve um derrame e perdeu uma vista em consequência disso. E ficou cego do olho direito. Foi no ano de 1954, no início do ano. A pressão que foi feita, por incrível que pareça, inclusive me lembro bem da data, que era o meu aniversário, quatorze de fevereiro de 1954. Eles estavam dentro da Telefônica, fazendo pressão para o papai vender a empresa por quatro milhões de cruzeiros, naquela época. E o papai, depois de ter tido o derrame na vista, que teve a sorte de não ser no cérebro, ele se viu saturado, e sem recursos para fazer aquilo. Eu fui uma das pessoas que disse: “Papai, não vende”. Mas a outra filha dele, com o marido dela, insistiu que ele vendesse, por causa do estado de saúde dele. Eu pedi a ele que não vendesse, porque era um patrimônio da família muito grande, vamos lutar na Justiça para termos a nossa concessão revalidada, e inclusive lutar para que a Empresa Telefônica Teixeirinha seja realmente constituída, e não CTBC... Depois deles terem dado a concessão para CTBC, nós ficamos a ver navios, quer dizer, nós tínhamos toda a instalação, mas não éramos mais concessionários. Foi uma perseguição política fantástica, engendrada por essas pessoas que acabei de citar para você.

 

P – As concessões eram municipais?

 

R – Eram municipais.

 

P – Essa primeira chamada de acionistas que o seu pai fez, não redundou em nada...

 

R – Foram todos transferidos para a CTBC. Simplesmente modificaram a cautela, em vez de Companhia Telefônica Teixeirinha S/A, eles percorreram, inclusive com procurações de outras pessoas, percorreram todos aqueles que nós já tínhamos feito levantamento, que nós já tínhamos enviado as ações, percorreram todos eles e modificaram o título, e passaram para CTBC.

 

P – O senhor, na época, já era diretor da Companhia?

 

R – Eu era diretor técnico da Companhia, e inclusive estava no quarto ano de direito. Lembro de uma das recomendações do meu diretor na faculdade de Direito, doutor Moacir Medina Coeli, que falou: “Durval, entra na Justiça contra isso!”. É preciso lembrar que as pessoas mais antigas de Uberlândia ainda têm memória de todos esses acontecimentos. E muitas delas têm, muitas delas têm.

 

P – Qual foi o momento que o senhor reparou, pressentiu ou constatou, que o seu pai estava acuado?

 

R – Desde o início da campanha de desmoralização da pessoa dele e da empresa telefônica dele, campanha feita por jornais e pelas rádios. Havia uma rádio aqui que era a PRC-6, que era do Geraldo Mota Batista, que defendia o papai; mas a outra rádio, que tinha sido criada, a tal de Rádio Educadora, ela absolutamente contra papai. Um outro vereador, agora me lembrei, um outro vereador, que também foi responsável por todo esse malfadado acontecimento, chamava-se Moacir Lopes de Carvalho, que era diretor da Rádio Educadora. Ele dava publicidade de tudo isso pelas rádios, inclusive elas irradiavam as sessões da Câmara, onde eles malharam o papai até o último nível possível. A intenção era exatamente tomar a telefônica de Tito Teixeira.

 

P – Seu pai tinha alguma militância, ou alguma simpatia ou identidade por algum grupo político específico?

 

R – Sim, o PSD. Partido Social Democrático. Inclusive ele foi secretário do partido, e foi traído pelos membros do PSD..

 

P – Na Câmara dos Vereadores?

 

R – Na Câmara. O senhor doutor Eduardo Veloso Viana era do PR, do Partido Republicano, o doutor Paulo Lisboa e Costa  era também do PR.

 

P – A que o senhor atribui essa gana desestabilizadora de que seu pai foi alvo?

 

R – Porque o negócio era extremamente promissor, extremamente promissor. Por causa disso. E como o papai tinha saído das dificuldades da 2ª Grande Guerra Mundial, todo o mundo saiu, e que ele teve que enfrentar novas condições... Todo o mundo partiu para as S/A, naquela época, gente! Isso é público e notório. O grande desenvolvimento econômico deste país partiu exatamente por causa da transformação de mentalidade que houve dos empresários que foram buscar recursos do povo. Meu pai para mim era um desses homens. Mas ele era visado porque a Empresa Telefônica era a galinha dos ovos de ouro, como é até hoje. Agora, com essa concorrência que está havendo hoje em dia, pode até nem ser tanto, mas é um grande negócio, um dos melhores, ainda.

 

P – Eu queria que o senhor historiasse esse momento em que ele fisicamente se debilita por conta dessa pressão.

 

R – Em virtude da campanha desmoralizadora, ele não tinha nem lugar para ir. Ele vivia às escondidas. Papai ficou humilhado. Esse documento que eu tenho na minha posse chamado “Carta Aberta aos Acionistas da CTBC”, indica tudo o que foi feito, inclusive como ele se sentia, como ele se sentiu humilhado... Eu… Inclusive outro dia falei isso numa reunião da FIEMG aqui, onde me colocaram como membro do IAT, Instituto de Artes do Triângulo, fiquei sendo como membro. Deve ser porque publiquei um livro... Então lá na IAT eu falei da injustiça que foi cometida contra o papai lá dentro da FIEMG. O papai não tinha lugar para ir, à memória do papai foi simplesmente retalhada, reduzida a pó de mico, reduzida a nada. A história de Uberlândia, que é a da facção política dominante até hoje, simplesmente faz vistas grossas à memória do papai. Para você ter uma ideia do poder político constituído daquela época para cá, para dar o nome dele a uma rua, foram escolher uma rua lá numa biboca perto da estação, num lugar da menor expressão possível. Mas papai fez muita coisa por esta cidade. Papai foi um baluarte nos esportes, foi um baluarte na Associação Comercial que ajudou a fundar, foi baluarte na aviação, recebeu condecorações, inclusive a Medalha de Mérito Santos Dumont, está tudo aí comprovado. Papai trabalhava em todas as áreas, era um homem de ação e que amava esta cidade. E no entanto, ele simplesmente foi banido... Oh, meu Deus do céu! Por que isso? Mas eu também me pergunto, até hoje, por quê? Porque, na realidade, essas consequências refletiram em toda a família a posteriori. Nós, hoje, somos pessoas marginalizadas, não totalmente, mas marginalizados. Não somos mais marginalizados porque eu tenho a coragem de enfrentar os nossos algozes, e me relacionar com eles de nível para nível. Não temo a eles, não tenho medo de nada. Já estou no meu fim de vida e não tenho medo de nada. E naquela época também não tive, porque a minha disposição era a de luta. Agora, um homem que fez tanto por Uberlândia, simplesmente ser varrido da memória da cidade, e considerado posteriormente como um mero e rudimentar historiador, pelo amor de Deus!

 

P – Ele não tinha quem o defendesse?

 

R – Infelizmente não teve nenhuma facção que fosse a favor do meu pai. Silencia-se diante do poder, não é isso? Você é jornalista e sabe disso. Se silencia diante do poder para não criar atrito com o poder constituído. A verdade nua e crua é essa.

 

P – O senhor considera que o fato de, à essa época, estar identificado pelo PSD, poderia ter algum tipo de relação com essa pressão. Estou um pouco impressionado com o fato de ele não ter quem o defendesse, de ter se isolado tanto.

 

R – Na realidade, a facção getuliana era PTB, você sabe, PSD era oposição a Getúlio. Mas, na realidade, mesmo isso tudo, depois de toda essa polêmica, ele não teve mais acesso para pedir a ninguém que pudesse defendê-lo. Olha, eu te digo em caráter absolutamente desprendido. O próprio advogado do papai, que era o doutor Jacy de Assis, não teve a coragem de defendê-lo. O tão falado Jacy de Assis. Ele não teve a hombridade, que tinha a procuração do papai, de vir à defesa dele, inclusive de tomar a iniciativa de entrar em juízo para defender os interesses do papai. O que eu estou te falando é muito pesado. Por isso inclusive, antes da gravação eu fiz aquelas ressalvas.

 

P – Mas na distância do tempo, como é que o senhor avalia esse processo. Como justificaria esse tipo de atitude irreversível?

 

R – O que podem fazer uns gatos pingados, a família Teixeira, contra esse estado de coisas? Isso já está feito, não existe mais nenhuma forma de justificar mais isso. Está enterrado no passado. Bem enterrado. Eles fizeram uma coisa muito bem feita para enterrar no passado. Mas a história deles não é a história legítima.

 

P – Esse acordo de limitação da posse de ações a 1% do capital, foi escrito ou era um acordo apenas de palavra?

 

R – Não, estava escrito lá no ato de constituição da companhia, no estatuto de constituição da companhia.

 

P – E por que isso não foi observado pelos acionistas?

 

R – É uma pergunta que eu não sei te responder, porque foi daí que surgiu toda a problemática, porque se tivesse sido cumprida, se tivesse sido cumprido o fato de que o papai tinha o direito de subscrever 50%, nós estaríamos ombro a ombro hoje, trabalhando juntos. Talvez até no decorrer do tempo, um tivesse engolido o outro. Na verdade, poderia ter sido isso. Mas não teria sido nossa intenção. Porque nós, pelo menos até hoje, a nossa consciência é sadia de que nós nunca demos o golpe em ninguém. Nós pautamos a nossa vida, mesmo a vida do papai foi pautada por respeito às leis constituídas. Então nunca usamos de recursos escusos para conseguir nada. Então não seria, depois de ter constituído isso que nós iríamos usar esse tipo de recurso. É uma questão de princípios, questão de berço.

 

P – Seu pai, quando percebeu que o caldo estava entornado, ele já tinha sofrido o derrame?

 

R – Desesperou-se. Desesperou-se e entregou. Vendeu a companhia por quatro milhões de cruzeiros. Em 1954. Fevereiro de 54, se não me falha a memória.

 

P – Como é que foi a vida dele daí para diante?

 

R – Olha, foi uma difícil tarefa de recuperação. Porque nos primeiros anos ele ainda se sentiu um pouco entusiasmado com as coisas, porque o papai tinha uma capacidade extraordinária de se entusiasmar. Ele aprendeu a viver no momento presente. Então ele começou novamente, se retirou, e começou a escrever esse famoso livro, e mal recebido à época, chamado “Bandeirantes e Pioneiros do Brasil Central”, no qual ele historiou toda a vida que ele tinha passado aqui e a vida de todas as pessoas de Uberlândia com quem ele conviveu; um livro com o testemunho histórico da vida dessas pessoas aqui na cidade. Foi isso que o alimentou. Mas papai morreu pobre, rapaz.

 

P – Em que ano?

 

R – Ah, papai morreu em mil e novecentos... Isso até hoje ficou assim, parece que está apagado da minha memória. Eu nunca quis lembrar... Do dia que papai morreu.

 

R/2 –Você estava viajando...

 

R – Eu varri da minha memória (pausa).

 

R/2 – Então para de chorar.

 

R - Estou emocionado, só... Vamos relembrar juntos.

 

R /2 – Hum hum...

 

R – Mamãe morreu no dia 28 de setembro, quando o Alessandro tinha quantos anos?

 

R/2 – Peraí...

 

R – Veja, o Alessandro está com trinta.

 

R/2 – 32

 

R – 32. Então treze para 32, foram dezenove anos. Papai morreu dois anos.

 

R/2 – Dois? Não… Foi muito mais. Dá a data para ele depois para gente ver direitinho...

 

R – Papai morreu no dia trinta de outubro de 1980, faltando três meses para inteirar cem anos. Ele era de 1885... Não! Então foi em 84 que papai morreu, em 1984. Já tínhamos mudado para essa casa, que foi em 82, lembra? Ele vinha muito aqui. Então ele morreu no dia trinta de outubro de 1984. Com 99 anos e dez meses. Faltavam dois meses para ele inteirar cem anos.

 

P – Quer dizer que depois de todo esse processo, de todo esse trauma, ele se dedicou fundamentalmente a escrever?

 

R – Ele levou dez anos escrevendo esse livro, procurando, fazendo pesquisa, mesmo debilitado. Mas não foi logo depois de ele ter vendido a Telefônica. Porque, na realidade, ele começou a colher esses dados pelos idos de 1959, inclusive eu o ajudei. E o livro foi publicado em 1970. Então ele passou colhendo os dados.

 

P – O senhor se lembra como era a rotina dele?

 

R - Ele saía a pé, porque ele estava impossibilitado de dirigir carro, ele saía a pé e ia marcar entrevista com as pessoas, e ia de pessoa a pessoa procurando levantar todos os dados – aqueles que ele lembrava, porque tinha convívio com essas pessoas, e aqueles acontecimentos que a família relatava. E ele foi anotando tudo. Anotando, depois passava para máquina, inclusive eu até dei uma máquina de escrever para ele, para ele fazer isso. Fazia naquela maquininha, depois trazia para mim, eu corrigia alguma coisa, depois ele levou para o doutor Fábio Teixeira Chaves, que era juiz de direito, que deu a correção final. Depois saiu para publicação. Então era um trabalho insano. E ele gastava pilhas e pilhas de papel para poder escrever isso. Ele conseguiu sobreviver ao derrame graças a essa história que ele levou ao povo de Uberlândia, que até então só tinha esparsos relatos do saudoso Jerominho Arantes, muito valiosos. E meu pai, como Jerominho Arantes, nos legou esse histórico de algumas famílias de Uberlândia que construíram essa cidade. Isso alimentou papai.

 

P - O episódio da venda da Teixeirinha era recorrente, ele voltava a comentar?

 

R – Não, não. Papai cedo o esqueceu. Ele perdoou isso, nós esquecemos. Para você ter uma ideia, eu inclusive voltei até a trabalhar com eles depois, numa das empresas que eles tinham, que se chamava Táxi Aéreo Brasil Central. Fui piloto deles, fui instrutor de simulador no Táxi Aéreo Brasil Central, tinha um relacionamento até, depois de tudo passado... Tinha e mantenho até hoje um relacionamento com o Luiz Garcia em nível muito satisfatório, bom, sem problema nenhum. Porque papai esqueceu e, diante da irreversibilidade das coisas, inclusive que as pessoas atuais não têm nenhuma parcela de culpa nisso, o que você vai fazer, não é? Manter isso... Eu me emocionei agora porque lembrei do meu pai. Apenas por isso. Mas, do fato? Do fato, não! Já tomei outro destino, outro rumo, não estou nem aí.

 

P – A relação que o senhor mantém com o doutor Luiz é alguma coisa comparável à relação que seu pai mantinha com o senhor Alexandrino?

 

R – Não, de forma nenhuma. Eu acho que, inclusive, a minha relação com o Luiz é uma relação mais fraterna. Para você ter uma ideia, eu me lembro perfeitamente bem que logo depois que a empresa foi vendida, eu permaneci lá na parte técnica da empresa por algum tempo porque ainda não tinha ninguém para o lugar. O nosso técnico já tinha se mudado para Ribeirão Preto, que era o quem me antecedeu, a que inclusive depois eu substituí, que era o Cid Bovini, ele se colocou lá em Ribeirão Preto e ele não quis continuar aqui. Me lembro muito bem que um dia estive lá na firma dele, chamada Irmãos Garcia S/A, e o Luiz Alberto, no balcão, perguntou para mim o que eu achava que ele deveria fazer para poder ajudar o pai dele na administração da telefônica, ajudar o pai dele a administrar o patrimônio... Ele, Luiz, trabalhava lá junto, e perguntava o que ele poderia estudar para, no futuro, poder ajudar o pai. Eu disse que achava que ele deveria fazer engenharia elétrica. Não existia ainda eletrônica naquela época. Existia engenharia elétrica. E a faculdade de Itajubá estava recém-formada e falei que seria bom que ele fosse para faculdade de Itajubá. E ele foi e fez o curso em Itajubá. Foi um conselho que eu dei a ele. Ele pode não lembrar disso, mas eu não esqueci jamais. Foi no balcão da venda de peças da firma Irmãos Garcia. Eu tinha muita amizade com o irmão do Alexandrino, o Vicente Garcia, que inclusive é uma pessoa muito boa, boníssima, gosto demais dele, ele já morreu. Ele era meu aluno de pilotagem. E eu ia lá exatamente para falar com o Vicente. Sempre tive o maior relacionamento a despeito de todas as pendências que tivemos, mantivemos um relacionamento muito bom.

 

P – E depois desses acontecimentos todos, o senhor ainda permaneceu dois anos convivendo com os algozes do seu pai, digamos assim... Isso não o incomodava?

 

R – Demais da conta. Incomodava porque... Na realidade, naquela época eu fiquei praticamente desprovido de todo e qualquer recurso, tive que aceitar continuar no trabalho.Tive que aceitar. Inclusive foi um compromisso que tinha sido feito deu ficar na direção técnica da empresa até que eles arrumassem uma pessoa para o lugar.

 

P – E seu pai absorveu bem essa decisão sua?

 

R – Absorveu. Mas não foi só minha decisão. Foi dele também. Ele falou para mim: “Você fica aí com eles até eles terem condições de ter o técnico”. Você vê que espírito tinha meu pai. Depois disso é que eu fui me dedicar à aviação, tinha acabado de me formar, aí fui para aviação executiva.

 

P – O seu pai, portanto, não teria nada que pudesse se considerar como mágoa, rancor...

 

R – Não, ele nunca conservou esse sentimento. Depois de tudo ocorrido, ele simplesmente considerou isso como consequência da própria vida. É essa a grandeza do meu pai, que vocês viram eu me emocionar... A única coisa que eu tenho um certo pesar, mas que não é rancor, é o fato deles não reconhecerem – a atual vida pública da cidade – não reconhecer o valor que teve esse homem.

 

P – O senhor teria alguma coisa que gostaria de ter dito e não disse?

 

R – Não, eu me atenho àquilo que foi dito aqui. Alguma outra coisa que pudesse ter sido dita, eu não acredito que seja de relevância nos dias de hoje.

 

P – O senhor gostou de ter tido essa conversa?

 

R – Sim, perfeitamente. Foi muito boa a conversa, inclusive eu espero que a restauração da memória seja uma restauração correta.

 

P – É para isso que nós trabalhamos.

 

R – Sem, contudo, melindrar ou ofender situações atuais. Porque não adianta desenterrar coisas do passado.

 

P  – O que nos interessa é a memória útil. Apenas mais uma informação: a referência que é feita naquele trabalho é de uma assembléia que foi convocada para um dia e cuja a ata foi assinada às quatro e meia da manhã do dia seguinte. O que dava a entender que teria sido uma reunião longuíssima...

 

R – Segunda assembléia.

 

P – Segunda assembléia, exatamente.

  

R – Jornal Correio de Uberlândia. Este aqui é de dois de abril de 63. Diretor Valdir Melgaço. Eu tenho dois Correio de Uberlândia, um de 1941, que falava inclusive de uma instalação de telefones automáticos, os originais, os primeiros... Então a CTBC comprou o Correio de Uberlândia com um único propósito. Vai lá e procura para ver se você encontra nos arquivos de 1954, qualquer referência ao episódio. Isso porque eles mantinham os arquivos de edições do jornal, que inclusive eles doaram para o patrimônio histórico. Mas do Correio de Uberlândia não tem nenhuma publicação em que o Otílio Alves de Oliveira, que era o antigo dono do Correio de Uberlândia, escreveu defendendo o papai. Se for procurar isso no arquivo do Correio de Uberlândia, não existe. Isso constatei pessoalmente.

 

P – E A Tribuna?

 

R – A Tribuna foi um dos jornais de pouca expressão que surgiram depois. Tinha também O Triângulo. E A Tribuna também publicou muitas coisas sobre telefone naquela época. Mas o arquivo desapareceu. Intencionalmente, parece. Só que eles não conseguiram dar sumiço no livro de atas da prefeitura. A não ser que depois que eu pedi autorização para pesquisar lá, eles tenham dado sumiço.

 

P – Não, não terá acontecido. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+