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“Sempre fui sonhador e é isso que me mantém vivo”

História de: Emerson
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Emerson nasceu no Pará em 1992. Para sustentar os dezesseis filhos, sua mãe trabalhava no Mercado Ver-o-Peso, mas acabou perdendo o emprego por causa de um marido violento e passou a usar drogas. Enquanto isso, Emerson ajudava a criar os irmãos, não tendo tempo para brincar, nem estudar e muitas vezes tendo que cometer furtos para ter dinheiro para sustentar a casa. Por causa das dificuldades enfrentadas pela mãe, o Conselho Tutelar levou quase todos os irmãos para instituições de adoção. Emerson recebeu primeiro o auxilio de um ONG, onde viu que podia ter oportunidades na vida, depois, tendo ainda passado por maus bocados na adolescência, se envolvendo com drogas e assalto, conheceu o Projeto ViraVida, que tornou possível a busca por uma vida melhor. 

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História completa

Minha mãe era separada do meu pai, então só ela que mantinha a casa. Ela era o nosso pai e a nossa mãe, ao mesmo tempo. Via a minha mãe como o centro de tudo. Naquele tempo, ela ainda não era usuária de drogas, agora é. Ela trabalhava pra nos sustentar. Somos em quinze irmãos, mas eu não conheço a metade deles. Sei que um morreu e que outros foram levados pelo Conselho Tutelar. Só ficaram os mais velhos: eu e mais dois, que moramos com minha avó materna, quem criou a minha mãe.

 

Tenho recordações de ter cuidado dos meus irmãos que levaram, eles brincarem na minha presença. Às vezes eu virava as costas e eles sumiam pra rua, aí eu tinha de ir atrás de um por um. Os próprios vizinhos falavam: “Ó, teu irmão foi por ali!” Eles eram muito rueiros, acho que foi por isso que levaram eles. 

 

Lembro do dia em que levaram meus irmãos. Eles tinham fama de ficar na rua e as pessoas já diziam: “A mãe não liga pros filhos.” Mas é que ela ficava o dia todo trabalhando. As pessoas os viam sempre na rua e pensavam: “A mãe despreza os filhos.” Até que um dia denunciaram: “Tem um bocado de crianças aqui, estão com fome.” Alguém denunciou, vieram uns homens e levaram meus irmãos pra uma ONG que cuida de crianças. Esse dia foi a última vez que estive com eles. Depois disso, fiquei sabendo que eles tinham sido adotados. Sumiram no mundo.

 

Quando eu via minha mãe usando drogas me dava raiva, vontade de sair e deixar tudo pra lá. Vontade de ir pra rua mesmo, eu preferia a rua a ter que ficar lá em casa e ver essa cena, era muito constrangedor, doía muito. Qual a diferença dos meus pais pros pais dos meus amigos? Porque eu tinha amigo, entendeu? Eles viviam bem, não usavam droga. Eu ficava: “Por que minha família é assim? O que ela fez pra merecer tudo isso, toda essa desordem em casa?”. Já presenciei também o meu padrasto dando na minha mãe, desmaiando a minha mãe, dando soco na fronte dela. Isso tudo me deu ódio. Quando pequeno eu já fui pra cima dele, pequeno e um homem já formado, eu não tinha muita força pra combater com ele. Me dava muito ódio e isso me induzia já no que eu ia fazer quando eu estivesse maior, porque eu não tinha nenhum apoio psicológico: “Puxa, não é isso, não é bem assim”. Só tinha aquele “inimigozinho”: “Mata ele dormindo”, tal. Ou já ia mais pra me divertir. Apesar de que eu apanhava quando eu chegava, distraía a mente. Era isso a lembrança que eu tenho delas.

 

Minha família sempre foi toda errada. Meus tios, viciados; meus primos, ladrões; meu pai foi traficante, já foi preso, vive em função do vício. Minha mãe perdeu a guarda de todos os filhos. Sem emprego, vive hoje sozinha em um barraco no lixão. Eu fui levado para uma ONG. Nessa ONG, que era de um padre italiano, lá eu tinha apoio, comecei a estudar, tinha tempo para brincar, jogava capoeira com meus irmãos mais velhos, fui alfabetizado. Eu fiquei por vários anos, mas acabou fechando, foi desativado por problemas econômicos. Eu e todos os internos fomos devolvidos para as ruas.

 

Depois da ONG tentei ir para a casa do meu pai, mas lá ninguém prestava, ninguém me aceitava, nem meu pai, só um primo meu, que considero um irmão, a gente se ajudava. Acabei sendo acolhido por um traficante que me fez continuar estudando. Também me ensinou a manejar uma arma, depois me deu um trabalho: o de vender droga. Me sentia muito mal vendendo drogas, as mesmas drogas que tinham destruído minha família. Até meu pai veio comprar droga comigo! Eu disse pra ele que não tinha... Quando estava no ponto, vendendo, eu só pensava na minha mãe, sentia raiva, mas tinha que sobreviver. 

 

Sobreviver significava estar preparado pra fazer qualquer coisa: fiz favores sexuais em troca de cortes de cabelo, por exemplo, roubei, usei drogas, trafiquei, andei armado, protegi o chefe do tráfico, a pessoa que tinha me acolhido, apanhei da polícia e tivemos que pagar propina, mas nada disso me trouxe nada. Frequentei festas, comprei roupas de marca, andei com umas mulheres que se encantavam pela vida do crime, mas isso não me trouxe nada.

 

Aí eu conheci a minha primeira namorada, eu tô com ela até hoje. Ela já estava cursando o ensino médio, e eu na oitava série. Ela se interessou por mim, me achou atraente, não sei por que ela gostou de mim, eu não tinha nada pra oferecer para ela naquele momento. Ela é boa de vida, o pai dela tem um mercadinho imenso, ela tem de tudo pra ela e eu vendia droga bem do lado da casa dela. A mãe dela não me aceitava, nem o pai. Já me viram entrando na viatura da polícia, os policiais me dando soco, porrada, me algemando. E a mãe apontava pra mim: “É isso que tu quer pra tua vida? Esse moleque? Tu quer ficar se abrindo em porta de cadeia?” Mas ela continuou comigo. Para mostrar para ela que eu iria mudar de vez, aceitei fazer a inscrição no projeto Vira Vida. Tentei, achando que não ia dar certo, que não ia ser pra valer.

 

Fui, mas fui sem esperança. Quando eu vi um bocado de gente lá, eu falei: “Não acredito que eu vou conseguir ser escolhido, não. Eu não vou nem contar com isso.” Mas acabei sendo aprovado e entrei. Aí eu fui acordando mais para a realidade. Só que não é fácil, às vezes chegam os inimigozinhos tentando levar a gente de volta para a vida errada: “Bora na festa!” E eu: “Não!” “Bora fazer B.O.?” e eu digo: “Não!” “Fazer B.O.” é roubar. Não, se eu for roubar o que pode acontecer comigo? Vou quebrar toda uma rotina que eu tenho agora. Posso ir preso. Vou sujar meu nome? Porque eu sempre fiz coisa errada, mas meu nome não tá lá, meu nome é limpo. Eu creio que Deus tem um plano na vida pra cada um. Acho que ainda vai chegar a minha vez, acredito nisso. Por isso estou firme no curso que faço no ViraVida. O ViraVida surgiu na minha vida e me fez sonhar novamente. E um dos meus sonhos é unir minha família de novo, esquecer o passado e ver a vida para a frente, ter uma casa bem grande, cada um ter o seu quarto. O projeto me mostrou que é possível construir vida nova. 

 

Foi bom voltar a estudar. Ganhei conhecimento, orientação, apoio e o carinho de amigos de verdade. Fui percebendo que a vida de antes não me trazia nenhum benefício. Me drogava, me sentia mal, ficava atordoado, tinha alucinações, minha mão tremia, o coração parecia saltar pela boca. Eu não era uma pessoa má, não sou mau, fazia aquilo por necessidade. Conhecia muitos ladrões, andava por aí sem medo de morrer.
 

Eu agradeço às psicólogas do ViraVida por estar vivo. O que aprendo aqui levo pros meus irmãos, dou conselho, eles já se guiam por mim. Já não tenho os pensamentos negativos de antes, mudei mesmo. Nunca fui de brincar com ninguém e aqui me acham brincalhão. Agora eu sei o que significa ViraVida.

 

“Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações”.

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