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Sennas e sonhos

História de: Viviane Senna
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/09/2015

Sinopse

Neste depoimento, Viviane fala a respeito da visão de Ayrton Senna em relação à prática esportiva e sobre a criação do Projeto Esporte Talento. Também nos conta sobre a fase de organização do projeto e as atividades e objetivos pensados no início. Por fim, aborda a importância da diminuição das desigualdades sociais no Brasil.

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História completa

P1 – Viviane, pra começar com uma parte de identificação, diz pra mim seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Eu sou Viviane Senna, sou de São Paulo, nasci em 14 de Junho.

P1 – Certo. Eu queria que você falasse um pouquinho pra gente como o seu irmão enxergava a prática esportiva e qual a relação dele com o CEPEUSP. R – Bom, meu irmão era um piloto, um atleta, então a relacão dele com esse aspecto da vida é total porque ele dependia de um desempenho físico pra poder atingir resultados na sua carreira, embora isso também não fosse determinado somente pelas condições físicas, mas elas eram parte importante. O CEPEUSP foi um dos lugares onde o Ayrton treinava, fazendo condicionamento físico durante um período de tempo, então teve um período de história comum, do CEPEUSP com o Ayrton.

P1 – E como se deu a criação, a ideia do Projeto Esporte e Talento?

R – Quando eu comecei o instituto eu procurei identificar quais eram as grandes necessidades que o país tinha, em matéria da viabilização das crianças e dos jovens do país, das novas gerações. E o grande trajeto pra que essas crianças pudessem ter as mesmas oportunidades que o Ayrton, eu, você e qualquer outra pessoa teve, de ter sucesso na vida, era, sem dúvida, a questão da educação. A educação é um meio pra desenvolver potenciais que você pode usar diversos instrumentos pra poder realizar esse desenvolvimento. Um deles é o esporte, o outro é a arte. Através do esporte e da arte você pode desenvolver potenciais, você pode educar as crianças, de maneira que elas possam desenvolver competências e habilidades importantíssimas pra vida delas, tanto do ponto de vista cognitivo quanto do ponto de vista socio-emocional, com o desenvolvimento de habilidades como liderança, perseverança, disciplina, foco, autonomia, persistência, garra. Enfim, um conjunto de habilidades e posturas que são importantes, não só para um atleta dar certo, ganhar um campeonato, um jogo ou o que for, uma corrida, mas que é importante pra uma pessoa dar certo na vida. Não importa, qualquer tipo de atividade que envolva esforço, seja estudar, seja trabalhar, seja praticar um esporte, ela envolve esse tipo de capacidades humanas. E foi por isso que a gente escolheu a educação como meio central e o esporte como uma ferramenta dentro da educação capaz de desenvolver as habilidades das crianças, tanto do ponto de vista cognitivo quanto do ponto de vista socio-emocional.

P1 – E você lembra desse comecinho do projeto, dessas conversar com o pessoal do CEPEUSP? Como é que foi?

R – Quando eu identifiquei que o esporte poderia ser uma ferramenta pro desenvolvimento educacional dessas crianças, de todos os seus potenciais, não pra virar necessariamente um atleta, eventualmente poderia ter atletas ali no meio, mas o objetivo era desenvolver aquele aluno, aquela criança, aquele jovem por inteiro. Então, quando eu identifiquei que era uma ferramenta muito poderosa pra fazer isso, eu procurei mapear quais eram as universidades no país que poderiam desenvolver esse tipo de ação, porque eu não achava que seria necessário você criar centros esportivos, campos esportivos pra desenvolver um projeto desse. Eu acreditava que existiam já espaços construídos pelo país que eram usados apenas pra uma pequena elite e que poderiam ser direcionados pras crianças que não tenham tido essa sorte de saída. Então, eu procurei universidades que teriam os campos disponíveis e o interesse de realizar um trabalho dessa natureza e a USP e o CEPEUSP foram um dos locais onde isso aconteceu. Eu conversei com o reitor da USP, que na época era o professor Fava e depois com o próprio grupo de educação física e nós propusemos um trabalho em conjunto onde se desenvolveria todo um trabalho junto às crianças, mas que iria além da educação física, que iria envolver outras áreas da universidade, como psicologia, nutrição, pedagogia, fisioterapia, enfim, um conjunto de áreas que, juntas, poderiam dar esse suporte necessário pro desenvolvimento integral das crianças.

P1 – E você se lembra quais atividades foram pensadas nesse início, as modalidades oferecidas?

R – Claro que sempre o gancho principal era o esporte em alguma modalidade: canoagem, futebol, basquete, handebol, enfim, as modalidades possíveis e disponíveis naquele campus, mas o objetivo, como eu disse, não era desenvolver um nadador ou um jogador de futebol ou de handebol, era usar isso como meio de desenvolver os potenciais das crianças. Então, todo o desenho do projeto foi baseado nessa premissa, onde você se dirigia às crianças que estavam em risco. Eram crianças não de rua, mas crianças na rua, crianças que tinham pais, mas que passavam a maior parte do tempo do seu dia na rua e que estavam numa situação escolar praticamente já com os dois pés fora da escola, se já não estavam fora da escola. Então, era pra essa população de risco que a gente endereçou esse programa, e com o objetivo de atraí-los pra dentro do projeto através do mote esporte, que é uma coisa extremamente atraente pras crianças, pros jovens. E uma vez dentro do projeto... a porta de entrada era o esporte, mas uma vez dentro do projeto você desenvolvia todos estes aspectos: os pedagógicos, pras crianças poderem ir bem na escola, o suporte pedagógico, o suporte fisioterápico de nutrição, médico, todo o conjunto de suporte pra que essa criança pudesse ter o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo completo, como você faz com um filho seu. Você desenvolve todos estes aspectos pra que ele possa dar certo na vida, e era isso que era oferecido dentro do projeto. Então, o esporte era apenas uma isca pra trazer a criança em situação de risco e lá dentro ela era desenvolvida em todos os aspectos. O objetivo do projeto nunca foi tirar criança de rua e simplesmente alocar em um espaço pra ela não ficar na rua, simplesmente, não. Ele realmente fazia isso, ele tirava a criança dessa situação de estar na rua a maior parte do tempo, mas mais do que isso, ele promovia um ambiente carregado de estímulos que permitia que ela se desenvolvesse de uma maneira integral e pudesse escolher, tivesse a chande de escolha, a liberdade de escolher o que ela ia ser na vida.

P1 – E o projeto agora está fazendo 20 anos, né. Fala um pouquinho da importância do Instituto Ayrton Senna para o desenvolvimento do proejto.

R – Eu acho que a gente desenhou o projeto nessa versão de visão integral de desenvolvimento. Existia já um início de projeto junto à comunidade na própria USP, mas ele era voltado principalmente pra uma prática esportiva como performance mesmo, ele não tinha esse aspecto de desenvolvimento integral da criança e do jovem, ele era mais voltado pro rendimento. O que a gente fez foi contrapropor essa outra visão, que é um desenvolvimento integral muito vinculado à escola, ou seja, a criança não podia ficar no projeto se ela não estivesse na escola e se ela não fosse bem na escola. Então, existia um casamento entre escola e projeto, de maneira que você garantisse que metade do tempo a criança ficasse na escola e na outra metade do dia ela ficasse no projeto. Com isso, ela ficava com o dia todo ocupado, não ficava na rua aprendendo bobagem, mas mais do que isso, como eu disse, ela tinha todas as condições de desenvolvimento garantidas para que ela pudesse realmente avançar nos seus estudos, terminar seus estudos e serem bons profissionais em qualquer área que eles escolhessem. A gente seguiu vários casos e viu que isso de fato acontecia, jovens passando por seleção de empresas, de RH bastante severo, frente a outros jovens que também disputavam aquelas vagas, eles todos foram escolhidos frente a outros que não passaram por este projeto. Ou jovens que passaram por este projeto e hoje tem idade... fizeram um ciclo de vida, que saíram de uma condição socio-econômica muito adversa e foram parar numa universidade na Austália, fizeram toda a formação de educação fundamental, ensino médio, resolveram prestar e fazer universidade. Fizeram universidade e depois fizeram pós-graduação como, por exemplo, na Unicamp, fizeram mestrado na Unicamp, doutorado em Sydney, na Austrália. Ou seja, fizeram todo um trajeto vindo de condições socio-econômicas muito adversas, muito limitadas, simplesmente porque tiveram essa oportunidade de estar em um lugar onde eles pudessem desenvolver seus potenciais cognitivos e socio-emocionais.

P1 – E qual é a importância desse projeto pra você, pessoalmente?

R – Eu acho que é poder ter, vamos dizer assim, a oportunidade, o privilégio de ver que pessoas como o Ayrton, eu e tantos de nós, podemos deixar de ser exceção em matéria de oportunidades no Brasil, que a gente pode virar regra. Uma regra que atinja todas as crianças e jovens, basta você dar a elas a oportunidade que elas precisam e que nós tivemos, mas que elas não tiveram porque ela ainda é dada apenas pra um pequena parte da população, oportunidades reais de desenvolvimento completo. E isso é possível através de um projeto como esse, de um projeto de educação pelo esporte, ou um projeto de educação pela arte ou um projeto de educação formal, na escola. Se você der a oportunidade bem dada, essas crianças realmente saem do outro lado. Eu acho que é um grande privilégio ver que você não é impotente diante da realidade, você pode mudá-la, basta você ter uma decisão ética nesse sentido.

P1 – Pra terminar: você tem alguma história, alguma passagem marcante com o projeto, que você gostaria de contar pra gente?

R – Eu acho que talvez uma das frases mais marcantes que eu ouvi... eu ouvi muitas histórias de sucesso das crianças ao longo do tempo, são coisas maravilhosas, mas acho que uma das coisas que mais me marcou foi quando... eu ia sempre ao projeto e estava conversando com uma das crianças e eu perguntei: “Mas então, fulaninho, por que você está aqui no projeto? Eu sei que no tráfico, lá onde você estava, você ganhava...”, naquela época era quinhentos reais por semana, no mínimo, e no projeto ele não ganhava quinhentos reais nenhum. Eu falei: “Então, você estava ganhando x, por que você está aqui no projeto se você poderia estar ganhando tanto lá?” Ele falou assim: “De fato, tia, eu sei que lá eu estaria ganhando quinhentos reais, x mil reais por mês, mas aqui eu ganho uma coisa que é muito mais importante, que é a chance de estar vivo, porque eu sei que eu vou ganhar esse dinheiro durante algum tempo, talvez um ano ou dois, mas eu não vou passar dos 16 anos.”

P1 – Tá certo, Viviane. Em nome do Museu da Pessoa e o do PRODHE eu agradeço muito a sua participação.

R – Obrigada.

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