Busca avançada



Criar

História

Ser médico: o exercício de se colocar no lugar do outro

História de: Caio de Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Caio seria o primeiro médico da família. A comoção foi geral quando soube pelo jornal que havia sido aprovado na faculdade. Nos estudos, não demorou muito para descobrir a especialidade que seguiria: dermatologia. Na sua cidade havia muitas pessoas com hanseníase e o desejo do Caio era ajudá-los. O mesmo desejo que move ele até hoje, atendendo pessoas com problema de pele com carinho e empatia, buscando entender as dores de seu paciente. Com o passar dos anos, concluiu que a dermatite atópica é a mais grave das doenças de pele que trata hoje.

História completa

Sou o primeiro médico de uma família de agricultor, comerciante. Todo mundo ficou orgulhoso! No interior, quem não quer ter um filho médico? Todos ficaram orgulhosos, ainda mais quando eu entrei. Eu lembro que eu não estava esperando muito. Eu estava tirando férias com o meu pai na praia e naquela época o resultado era publicado no jornal. Lembro que depois do resultado, fiquei preocupado: “Será que é isso que eu quero fazer mesmo?”, mas na hora que você entra, vê que está no caminho certo.

 

Entrei em medicina e já fiquei, não tive dúvidas.

 

Comecei a gostar da dermatologia porque na minha cidade tinha muita hanseníase, a lepra. Então, quando eu ia para Jacarezinho, acompanhava um médico e a gente ia na casa do pessoal com lepra, com hanseníase. A gente não usa mais a palavra lepra porque é muito pesada, pejorativa. A gente usa hanseníase hoje. E eu lembro a primeira vez que a gente ia entregar o remédio na casa dos pacientes. Para mim era uma casa normal, era até rica. Era uma paciente com hanseníase muito intensa, ele não saia de casa. Entrei junto com o médico e a mulher logo saiu correndo, assustada e com medo. Ele precisou falar: “Esse é dos nossos!”



Eles têm deformidades, perdem a ponta dos dedos porque vai tendo atrofia da parte muscular, óssea. Eles tinham deformidades como úlcera, as vezes perdem o nariz. Neste dia eu fiquei chocado. Quando eu entrei na dermatologia eu queria, romanticamente, curar a hanseníase.

 

Hoje, não menosprezando as outras doenças, mas provavelmente a dermatite atópica, das doenças prevalentes, é a mais grave de todas.

 

Além do problema estético, a pele do paciente fica toda ressecada, partida, muita coceira, então eles não conseguem dormir. Ficam muito irritados, nervosos, perdem a paciência por qualquer coisa.

 

Tem uns que são heróis. Eles choram muito no consultório, desabam quando vêm aqui, porque eles sentem muito mal-estar.

 

A gente não sabe o que o paciente está sentindo. O pior da dermatite atópica não é o visual, é o que ele sente. E a gente não consegue sentir o que eles sentem. Então eles sentem um mal-estar, um calor,  uma coceira, insônia, irritabilidade. Eu sempre falo para os meus residentes: “A gente tem que perguntar o que eles estão sentindo. Se eles estão se sentindo melhores, não é o que a gente sente, é o que eles sentem. Não é o que a gente vê, é o que eles estão contando para a gente”. Então, às vezes eles não estão tão melhores esteticamente, mas eles estão felizes da vida porque eles estão se sentindo bem, dormindo bem, sem coceira, a pele não tão seca.

 

Mas a gente também aprende que os pacientes graves de dermatite atópica são mais irritados, mais depressivos. São mais carentes. A vida deles não é nenhum pouco normal, eles não podem sair de casa. Estou falando dos pacientes mais graves. A pele deles é muito mais ressecada, eles têm maior tendência de ter vírus, verrugas. A vida deles não é nada normal. Eu atendi um caso esses dias de uma médica que teve vários outros problemas, mas a pior delas é a dermatite, ela chorou que o problema dela é a dermatite.

 

Ela tem mil e um problemas na vida, mas a dermatite é o pior. Então, a gente vê que tem uma escala de qualidade de vida e a dermatite atópica é muito séria. Então, não é fácil, a gente já sabe.

 

Eu falo para os pacientes nas consultas: “Chorem aqui porque eu não quero que você saia com a garganta presa lá fora. Aproveite e chore aqui”. Tem que ser uma catarse, deixar até ele acalmar. Depois que acalmou, a gente começa a falar de novo. Então, eu deixo o quanto quiser. Não adianta eu querer parar ele durante o choro, tem que deixar à vontade. Parou de chorar? Está em condições? Agora vamos continuar. Uma coisa que a gente aprende com o tempo.

 

E é difícil de separar a vida da gente. Passo tanto tempo no consultório que eu nunca imaginei quais aprendizados tirei.

 

Mas a gente aprende a lidar com as pessoas, com o choro, de sentir o que o outro sente, saber o que o outro está sentindo, porque a gente tem que se colocar no lugar da pessoa.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+