Busca avançada



Criar

História

Setembrino Batista Ribeiro Machado

História de: Setembrino Batista Ribeiro Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/09/2018

Sinopse

Setembrino conta sobre sua ascendência, sobre seus seis irmãos e seus primos, sobre as casas em que morou, as brincadeiras que faziam, sobre o carnaval de rua, os jogos de futebol, sobre as três vezes em que foi preso por conta de brincadeiras na juventude, sobre as escolas que frequentou, o curso que fez no SENAI para Tipógrafo, sobre os seus trabalhos em gráficas. Relembra sobre o tempo da Segunda Guerra Mundial, que faltou pão e açúcar. Conta como eram os namoros, como conheceu a sua atual esposa, como o foi o seu casamento, como foi se tornar pai e avô. Conta sobre os seus outros negócios, como a estamparia, quitanda e trabalhar como office-boy, além de conta sobre algumas viagens que já fez com a sua mulher.

Tags

História completa

P/1 – Seu Setembrino, nós vamos começar a sua entrevista perguntando para o senhor o seu nome completo.


R – Setembrino Batista Ribeiro Machado.


P/1 – Quando o senhor nasceu e em que local?


R – Nasci em Queluz, dia 22 do 8 de 1930, no Estado de São Paulo.


P/1 – Ah, os seus pais, o senhor lembra e sabe o nome completo dos seus pais?


R – O meu pai é Pedro de Oliveira Machado, nascido em Areias, e minha mãe é Maria Nogueira Machado, nascida em Campos, Rio de Janeiro.


P/1 – Os seus avós maternos, o senhor conviveu e se lembra deles?


R – Da minha avó sim, do meu avô não, eu não cheguei a conhecer, só conheci a minha avó.

P/1 – Materna?


R – Materna. Minha avó, teve vó e bisavó também.


P/1 – E o senhor lembra do nome delas?


R – É Maria Nogueiras.


P/1 – E ela era de onde? Do Brasil?


R – São todos brasileiros.


P/1 – Todos do Brasil?


R – A minha bisavó era índia ainda. São todos do Brasil.


P/1 – Argentina?


R – Índia.


P/1 – Índia?

R – É. Era lá de...


P/1 – De que estado, vamos dizer, do Brasil?


R – São Paulo, aqui do interior de São Paulo.


P/1 – Esses são os bisavós maternos. E os avós paternos?


R – Paternos também, só conheci a minha avó, meu avô também não conheci. Também são de Queluz, lá daquela redondeza de Queluz.


P/1 – O nome dela?


R – Benedita Ribeiro Machado.


P/1 – Das conversas que o senhor teve com seu pai e da convivência, o senhor chegou a saber qual a atividade que eles exerciam? Dos avós paternos por exemplo, o que eles faziam?


R – Esse eu não… Mas o outro meu avô trabalhava em pedreiras.


P/1 – O materno?


R – É, o materno, da minha mãe. O pai dela trabalhava em pedreira, lá.


P/1 – Aonde?


R – Perto de Queluz, naqueles lados ali, Queluz....


P/1 – Que tipo de trabalho em pedreira?


R – Tirar pedras, acho que bater nas pedras lá, para tirar as pedras. Pedreira, trabalhava com pedra, tirava as pedras para...  Então ele cortava tudo direitinho para vender todos os pedaços.


P/1 – Certo. E os seus pais? Qual era a atividade que seu pai tinha?


R – Meu pai era da Força Pública e no fim ele foi trabalhar na prefeitura, então era funcionário público. E antes ele trabalhava na Companhia de Energia Elétrica, mas lá de Queluz.


P/1 – O senhor gostaria de falar um pouco mais dos seus pais, o senhor conviveu bastante com eles? Lembra alguma coisa interessante? Se eles eram severos, rigorosos?


R – Meu pai sempre foi severo, papai é bastante (risos). Papai me deu uma surra uma vez que ficou até marca no corpo. A minha mãe não, minha mãe já... Como nós éramos em sete, nós morávamos numa casa em quinze pessoas, porque nós éramos em sete filhos, tinha meu pai, minha mãe, mais duas avós, tinha mais dois primos que moravam juntos, minha mãe não era muito... Apesar que uma vez meu pai quis me bater, me bater não, eu fiz um negócio errado lá, ele me fechou no quarto e começou a falar, falar e falar e minha mãe batia na porta e achava ruim e falou: “Você vai bater nele ou vai ficar conversando?” (risos). Então, quer dizer que ela não era meio...


P/1 – Que idade o senhor tinha nessa época?


R – Uns dezoito a vinte anos, eu era solteiro ainda.


P/1 – Os seus avós moravam juntos também?


R – A minha avó só.


P/1 – O senhor conviveu com ela então?


R – Com ela sim.


P/1 – Tem alguma lembrança?


R – Ela era lavadeira, lavava roupa para fora, trabalhava de cozinheira em um restaurante, mais ou menos isso, não tem assim... A minha avó sempre morou junto, mas foi sempre isso, foi lavadeira ou senão cozinheira no restaurante.


P/1 – Quantos irmãos o senhor teve?


R – Tive mesmo, foram dez.


P/1 – Dez.


R – Uma mulher e nove homens, só que a primeira mulher nasceu morta e os dois últimos também, então nós ficamos em sete, e agora faleceram mais dois.


P/1 – O senhor é capaz de me dizer o nome desses sete incluindo o seu?


R – Sou. O meu é Setembrino, depois o outro, Hatínfero, com H, o outro depois é Dagmar, o outro é Zorobabel....


P/1 – Lobabel?


R – Zo-ro-ba-bel com Z, José Zorobabel, o outro é (Wilibaldo?), com W, (Wilibaldo?)... (Wilibaldo?) e o outro era Pretestato...


P/1 – Pre-tes-ta-to?


R – E tinha um que era o Dagmar e o Hugo, que são os dois últimos. Dagmar e Hugo, então são sete.  


P/1 – Com esses nomes tão diferentes existe algum motivo pelo qual seu pai e sua mãe tenham dado esses nomes, a origem desses nomes?


R – Não, meu pai mais que gostava, minha mãe... Quer dizer, o meu mesmo, que sou Setembrino Batista, e quando meu pai saiu para registrar minha mãe pediu para ele: “Põe João Batista, João Batista”, ele foi, não, ele pois Setembrino Batista. Quando chegou em casa, a minha mãe falou: “Você pois João Batista?” ele falou: “Não, eu só deixei o Batista e tirei o João, pus Setembrino Batista” ficou os dois, quer dizer, o meu pai que escolhia, ele que... Ele não era... Ele gostava, que nem o Setembrino era um General que tinha Revolução de 1930, foi o ano que eu nasci, lá no Norte tinha a Revolução de 1930. O Zorobabel parece que é na Bíblia, fala que é o avô de não sei de quem, aquele negócio; Hatínfero devia ser alguém mais da política, da polícia, da Revolução mesmo, porque tem uma rua aqui no Morumbi que chama Hatínfero de Carvalho, é um general, General Hatínfero de Carvalho, então meu pai, acho que gostava desses negócios de política.


P/1 – Mais algum que tenha... Com esses nomes difíceis provavelmente eles tinham apelidos.  


R – Tinham, todos (risos).


P/1 – Tinha (risos), quais eram?


R – Começa por mim? Então, o meu é Bino, o outro é Nenê.


P/1 – Nenê, Quem era nenê?


R – Nenê é o segundo, o Hatínfero.


P/1 – Hatínfero, tem o Neto, que é o Zorobabel, tem o Nenezinho, que é o Pretestato, tem o Toco, que é o (Wilibaldo?).


P/1 – Como?


R – Toco.


P/1 – Toco?


R – É, porque é o (Wilibaldo?), o Mazinho eu já falei? Tem o Mazinho também que é o Dagmar. O único que não tinha apelido era o último, o Hugo, o Hugo não tinha apelido porque o resto... Porque a minha mãe, como os nomes eram difíceis, então ela punha apelido em todos para poder ficar fácil para ela, porque senão ela ia chamar Pretestato assim, não... Então todos tinham apelidos.


P/1 – Com esse número grande de irmãos... O senhor disse também que várias outras pessoas moravam, o senhor deveria morar numa casa bastante grande. O senhor se lembra dessa casa, dos detalhes, como ela era...


R – Não era muito grande, eram dois quartos, uma sala e uma cozinha. Essa cozinha foi reformada para ser mais um quarto, então minha mãe fez uma cozinha no barracão, que tinha o tanque de roupa, então ela fez mais um tanque e depois ela fez mais um quartinho de madeira depois disso aí. E em casa não tinha assim, banco, não tinha cadeira e mesa, era uma mesa comprida, de uns dois metros, e um banco de cada lado de madeira, para todo mundo poder sentar, porque senão cadeira ficava muita coisa.


P/1 – E a distribuição das pessoas na casa? Quem dormia onde? Existia um cômodo para cada um?


R – Eu e meu irmão dormíamos nesse barracão que tava no fundo, na sala dormia mais um, no quarto da minha mãe também sempre dormia um e no quarto da frente era onde dormia o resto do pessoal, as moças, os moços. Então era tudo dividido certinho, cada um tinha o seu lugar. Minha mãe também tinha muita galinha, pato, no quintal, essas coisas, então ela também gostava de...


P/1 – Tinha quintal então a casa?


R – Tinha quintal e era  água de poço, naquele tempo. Água de poço.


P/1 – Tinha criação pra uso próprio?


R – É, tinha no Tatuapé mesmo, é isso que eu lembro.


P/1 – E a sua mãe e sua avó sempre junto?


R – Minha avó sempre, ela faleceu na... Depois ela mudou, teve uns tempos que ela mudou, mas ela sempre morou com a minha mãe que era a filha.


P/1 – Onde era essa casa?


R – No Tatuapé, na Rua Sete de Outubro.


P/1 – Sempre foi, quer dizer, os seus pais quando casaram vieram morar no Tatuapé?


R – Não, meu pai, eles vieram de Queluz, de Queluz vieram para São Paulo, no Canindé, daí eles foram... Porque o meu pai era soldado, então ele era transferido, daí mandaram ele para Cravinhos, que tenho até um irmão que nasceu lá em Cravinhos, ele foi para Ribeirão Preto, de Ribeirão Preto, nós viemos para São Paulo, aqui no bairro do Bixiga, na Bela Vista e daqui nós fomos para o Tatuapé, em 1939.


P/1 – Todos os irmãos nasceram assim? Cada um num lugar?


R – Não, não. Nós temos um de São Paulo, um de Cravinhos, tem acho que dois de Cravinhos, de São Paulo, e eu de Queluz, o resto nasceu tudo em São Paulo, os últimos nasceram todos em São Paulo.


P/1 – O senhor sabe qual era a rua no Tatuapé, o número?


R – Que ela nasceu? Ou como que...? Qual era...?


P/1 – A casa onde vocês moravam no Tatuapé, em que rua era?


R – Ah, nós moramos em várias ruas.


P/1 – No Tatuapé mesmo?


R – No Tatuapé, primeiro nós fomos morar na Estrada do Carrão. Antigamente era Estrada do Carrão, agora é Conselheiro Carrão, depois nós mudamos para Avenida Rio das Pedras, numa casa que tinha lá, numa chácara, não tinha nem luz em casa. Nós... Era tudo com lampião, dalí nós fomos para a Rua Sete de Outubro, que é perto da Radial, por ali em cima. Eu morava perto da Radial e por ali morava na Joaquim Pinto, Sete de Outubro, e eu morei na... Depois eu casei, depois num...


P/1 – Mudava-se muito de casa antigamente, não?


R – Mudava porque meu pai era soldado e não ganhava muito. Nós éramos em sete, era muita gente, então quando ele arrumava um lugarzinho mais barato, não sei o que lá, então ele arrumava e a gente mudava.


P/1 – Como era o Tatuapé naquela época?


R – Ah, o Tatuapé era um bairro que não tinha quase nada, muita chácara, muito, tinha muita chácara de uva, tinha o (Mareno?) lá, que foi um grande plantador de uvas dali, que servia para fazer vinho e o pessoal comprava também uvas. Eram mais chácaras, tudo chácara. O que tinha mais lá era chácara.


P/1 – E a comunicação do Tatuapé com o centro da cidade era através de quê?


R – Que nem onde eu morava, tínhamos que ir a pé até a Celso Garcia, para pegar o bonde para ir para a Cidade.


P/1 – Qual bonde era? O senhor lembra?


R – O bonde Penha, que pegava para ir para a Praça da Sé, e ônibus não tinha. Tinha o trem também, que parava na quinta parada, era uma estação também na Paes de Barros, esquina com a coisa, para vir para a cidade, só isso que tinha. Ônibus não tinha, o pessoal tinha que vir a pé de lá até a Celso Garcia, depois eles fizeram o ônibus que vinha até a Celso Garcia, para pegar o bonde para ir para a cidade.


P/1 – Com esses irmãos todos que o senhor tinha, eram todos homens, né?


R – São todos homens.


P/1 – Vocês brincavam bastante?


R – Brincava.


P/1 – O senhor se lembra das brincadeiras que vocês faziam na época, o que vocês gostavam mais de fazer, o que se usava no tempo?


R – Brincadeira você diz com o pessoal, com os amigos? Essas coisas? A gente brincava de mãe da rua, que é uma brincadeira que precisa atravessar a rua para o outro lado e fica uma pessoa no meio, essa pessoa no meio não deixa, então, se você atravessar e ela te pegar, ela batia, dava tapa nas costas. Então, se você conseguia atravessar tudo bem; Mão na mula, uma pessoa fica abaixada e vai subindo nas costas das outras daquele que segura, aí vai ver até quanto aguenta, às vezes aguenta dois, três, quatro, até... Quem aguentar mais...


P/1 – O que mais?


R – Tinha pião, jogava pião, tinha várias brincadeiras assim de...


P/1 – Do que o senhor mais gostava dessas brincadeiras? Tinha alguma preferência?


R – Não, a que eu gostava mais era essa de mãe da rua mesmo, que eu mais brincava.


P/1 – Ficou na sua lembrança alguma brincadeira que o senhor tenha feito alguma arte maior, tenha apanhado um pouco mais?


R – Uma briga você está...? Uma vez eu briguei com um rapaz, até era um rapazinho de cor. Uma briga né, e nós nos pegamos lá, e ele era um pouco mais forte do que eu, eu caí, ele fechou a mão e pôs na minha boca e eu fiquei...  Quase que eu morro, porque eu não podia falar porque ele era forte e tal. Aí vieram os outros e me tiraram. Foi uma briga mais assim, quando era moleque, mais de moleque.


P/1 – Ficou algum amigo desse tempo, porque o senhor era bem pequeno, o senhor ficou com algum amigo até hoje? Ou durante muito tempo?


R – Ah, tem uns amigos que a gente… Como a gente muda muito tem uns amigos que a gente conhece, de vez em quando encontra, tem alguns. Há pouco tempo eu encontrei com um que fazia muito anos que eu não via, nem reconheci ele, eu passei perto dele e falei: “Poxa, eu conheço esse cara não sei de onde.” Aí eu esperei ele vir porque ele estava conversando e quando ele veio, eu falei com ele e ele era um amigo meu de infância.


P/1 – E escola? Com quantos anos o senhor foi a primeira vez à escola?


R – Nossa, eu tinha uns quatorze anos quase.


P/1 – Quantos?


R - A primeira vez?


P/1 – A primeira vez.


R – Ah, foi com sete, oito anos, porque eu entrei... A minha história da escola é o seguinte: eu entrei, como meu pai mudava muito, eu entrei em Ribeirão Preto, na escola de Cravinhos, depois foi lá para Ribeirão Preto, aí tive que sair e vim para São Paulo, aqui na Bela Vista entrei na escola também, aí tive que saí de novo para entrar no Tatuapé, lá numa escola e fiquei até, até hoje. Mas então não dava nem tempo de eu terminar aquele ano. Quando cheguei lá tive que entrar novamente no primeiro ano. Apesar que eu nunca fui um aluno muito...


P/1 – Brilhante.


R – Brilhante.


P/1 – A primeira professora o senhor não lembra?


R – Eu só lembro o nome dela, dona Gabi.


P/1 – Gabi. Essa foi aonde?


R – Foi no Grupo Escolar Pedro Alvarez Cabral, da Vila Carrão.


P/1 – Na Vila Carrão? Essa do curso primário?


R – Primário.


P/1 – Curso primário, o senhor fez todo nessa mesma região?


R – Todo nessa escola mesmo.


P/1 – Todo na mesma escola?


R – No mesmo grupo.


P/1 – E desse período primário ficou algum amigo?


R – Não, desse daí não. Amigo assim, não.


P/1 – Alguém que o senhor mais tarde...?


R – A gente sempre morou ali, então a gente tem os amigos, mas de vez em quando via, mas de ter amizade mesmo não. Eu fui ter amigos um pouco mais tarde, outros amigos, mas não dá escola.


P/1 – Então o senhor terminou o curso primário com dez, onze anos, por aí?


R – Tinha quase quatorze, porque eu repeti, eu repeti o terceiro (risos).


P/1 – Repetiu?


R – Repeti o terceiro, acho que foi.


P/1 – E depois o senhor...


R – Não, aí eu saí e fui trabalhar com quatorze, quinze anos, comecei a... Foi no SENAI, eu fiz o curso no SENAI para Tipógrafo, terminei, tive cinco anos lá, e lá era o seguinte: você ia meio dia na escola e a tarde ia trabalhar, depois eles mudaram: aí você ficava um dia na escola, outro dia trabalhava e foi assim que eu fiz o curso.


P/1 – No SENAI?


R – No SENAI, fui trabalhar, porque trabalhar mesmo... Eu sempre trabalhei novo, fui engraxate, vendia sabão na rua, sempre fazia alguma coisa assim.


P/1 – Voltando um pouquinho na sua vida, com o seu pai e sua mãe... Era uma vida fácil, simples, teve problemas domésticos ou financeiros? Tiveram que trabalhar muito ou o fato de ele ser funcionário público dava uma certa estabilidade?


R – Não, ele era funcionário, mas ele era mais da polícia, então não dava. Nós tínhamos dificuldades porque nós éramos em sete, tudo homem, era um pouco mais difícil, mas todos, só um ou dois que não gostavam de trabalhar, mas todos trabalhavam, todos estudavam. Eu quando trabalhava dava  dinheiro em casa, dava uma parte ou dava todo o dinheiro em casa, meus irmãos todos, e meu pai não ganhava muito não. Em casa era difícil para comer carne, era difícil para tomar leite, quer dizer, o café era café preto só com pão.


P/1 – Bem lembrado, o que o senhor gostava de comer? O que sua mãe fazia mais nessa época? Tinha alguma comida muito especial, no fim de semana era alguma coisa?


R – Não, minha mãe sempre trabalhou com negócio de cozinha, então ela fazia muito doce, tudo quanto era doce, doce de abóbora, doce de mamão, muito doce, então isso era o que a gente gostava mais. O resto era arroz, feijão e a carne era difícil, não tinha. Então era mais chuchu, falava machucha lá, mas parece que é chuchu (risos), mas tinha essas coisas, mais o que tinha era verdura. Não tinha muita... E tinha as galinhas em casa, que de vez em quando nos domingos aparecia.


P/1 – No domingo era assim, um almoço especial? Reunia mais família?


R – Não, não tinha não.


P/1 – O senhor tinha dito que moravam os primos juntos?


R – Moravam dois primos do Rio de Janeiro.


P/1 – Por parte de quem? Do pai ou da mãe?


R – Da minha mãe.


P/1 – Por que eles moravam com vocês?


R – É que eles, o pai deles faleceu e eles vieram para São Paulo para a casa da minha mãe, vieram morar aqui conosco. E tinha também mais um. Nós temos uma irmã de criação fora todos os irmãos que nós tínhamos, tinha mais uma irmã de criação, que a minha mãe pegou com seis meses para criar, que agora já é avó já.


P/1 – Como ela chama?


R – Marina.


P/1 – E por que ela pegou essa menina?


R – A mãe dela parece que ficou meio louca, parece que perdeu o juízo depois que ficou internada e o meu pai era primo deles, dessa mulher. Então meu pai pegou para criar essa menina com seis meses. E ela nos trata como irmãos e minha mãe como mãe, a mesma coisa e ela já é avó, já tem...


P/1 – Ao todo então,  quantas pessoas moravam na casa?


R – Quinze.


P/1 – Quinze pessoas? Com quinze, o relacionamento tem que ser bem certinho senão dá encrenca, né?


R – Sempre tinha, porque os irmãos, eu tinha um irmão que era muito... Esse Dagmar era meio... Ele era muito... Ele que passava a roupa dele, as calças tinham que ter o risquinho aqui, então na roupa dele ninguém podia mexer. Se alguém pegasse alguma camisa ou cueca, qualquer coisa, meia, qualquer coisa, aí saía encrenca. Ele era...  Então, o resto não, o resto todo, um pegava do outro, não tinha problema. Só esse aí que ninguém podia mexer em nada, ele era muito… Para sair de casa ficava muito tempo no espelho se penteando, se arrumando, até o apelido dele era Cigano, tinha o apelido de Cigano na rua, né, em casa não. Mas ele era...


P/2 – Mas por que será esse apelido?


R – Porque ele parecia mesmo, era meio moreno. Porque o meu pai era bem mais moreno do que eu, e ele era moreno e tinha um tipo assim de cigano, ele andava bem arrumado e o pessoal não sei porquê chamava ele de Cigano. Puseram o apelido dele de Cigano. Mas ele era...  


P/1 – Na época no Tatuapé, o que vocês tinham como distração? Tinha cinema? Tinha...


R – Tinha dois, tinha vários cinemas, tinha o Cine São Jorge, o Cine Califórnia, o Cine Carrão, mas o que eu gostava mesmo era de jogar futebol. Eu jogava e os meus irmão, não todos, mas tinha dois que também gostavam, mais mesmo era futebol aos domingos e a noite passear e fazer, e sair.


P/1 – Chegou a jogar em algum time? Assim, uma posição?


R – Não, não, só mais lá no bairro mesmo, cheguei a treinar e tudo, mas não cheguei a jogar não. Mas lá no bairro jogava, tinha o primeiro e o segundo, a maioria jogava na primeira quadra. Não era tão bom, mas dava pra... (risos). Eu gostava de jogar bola. Eu cheguei uma vez a jogar na sexta que era feriado, no sábado, no domingo de manhã e no domingo à tarde. Joguei acho que foi sábado de manhã e de tarde. Na segunda feira não podia nem andar, de tão cansado, mas eu gostava muito de jogar.


P/1 – Quando o senhor ia ao cinema de vez em quando, que tipo de filme o senhor gostava de assistir?


R – Eu não tinha, mas era mais comédia. A gente ia mais ao cinema, porque ia tudo no cinema, então os moços, as moças, só tinha aquele cinema lá, então aos sábados e aos domingos era no cinema, ia lá também para bagunçar, pra...


P/1 – Essa época de adolescência, quinze, dezesseis, por aí, o senhor fez alguma arte bem braba?


R – Eu não fiz uma, fiz várias.


P/1 – Então conta algumas dessas para nós, porque sempre é interessante (risos). O senhor escreveu aí que eu já dei uma lida.


R – Tem essa aqui, mas não. Uma vez, na Missa do Galo, eu entrei na Missa do Galo, era meia noite a Missa do Galo, agora acho que não é mais, mas antigamente era a meia noite. Eu peguei um monte de pente dos meus amigos, em gravata e pus no braço e entrei lá dentro da Igreja, na Missa do Galo, no corredor assim, vendendo: “Olha a gravata, pente, pente, gravata, gravata, pente”, quer dizer, as mulheres lá ficaram todas... E veio não sei quem lá, e me pôs para fora, eu fui embora, mas eu fui vender.. Mas era mais pra bagunça, folia, vender gravata e pente dentro da igreja. Uma vez também nessa igreja tinha uma quermesse, eu subi em cima do... Eram umas onze horas, tinha acabado a quermesse ali, eu subi onde fazia o leilão das coisas e comecei a fazer o leilão da minha roupa, então eu tirei... E os meus amigos todos lá embaixo, então eu tirei o sapato, “Quanto me dão pelo sapato?” Pumba, jogava, “Meia?”, pumba jogava, “Dou tanto”, jogava a camisa, o paletó, a blusa que era frio, eu tirei a blusa, fiquei só com a calça. Aí falei: “Quanto me dão pelas calças?”, quando eu falei isso o padre estava lá embaixo e falou: “Pelo amor de Deus meu filho, não faça isso (risos), não faça isso”, mas assim mesmo eu tirei a calça e joguei no...  Antigamente se usava um mijão, era que nem uma calça por baixo, porque era muito frio, então [era] de lã que a gente usava por baixo. Eu estava por baixo aquilo lá, então eu joguei e saí correndo e fui lá na esquina pegar as minhas coisas de volta, eles levaram tudo para a esquina. E na procissão… Hein?


P/1 – Essa que o senhor tinha escrito aí, que a professora não tinha deixado o senhor ir ao banheiro? (risos)


R – Então um dia eu estava... Eu fui na escola e pedi para a professora para ir ao banheiro e antigamente para você ir ao banheiro tinha que levantar a mão, você fazia o sinal e ela falava: “Não”, não deixava, eu pedi umas duas ou três vezes, ela não deixou. Aí eu falei: “Puxa vida”, eu peguei e pulei a janela e fui, quando eu voltei do banheiro, ela estava chorando de raiva e nisso ela me pôs... Antigamente, as escolas eram homem e mulher, as classes eram de menino e classe de menina, hoje é tudo junto, não tinha isso. Aí ela me mandou de castigo na classe das meninas, era chato para chuchu. Aí eu fiquei lá encostado na parede, na frente, onde tinha o quadro, de costas para as meninas e as meninas todas dando risada, uma falava para outra pá, pá, pá, e dando risada. Eu olhava e via dando risada, aí eu virei e falei para elas: “O que foi?” E elas deram mais risada. Aí eu virei de volta, abaixei as calças e mostrei a bunda para elas (risos), dentro da classe. Aí a professora me mandou para diretoria, aí fui para diretoria e o diretor me deu uma bronca, mandou chamar meu pai lá na secretaria. E teve também uma festa na escola e a professora pediu para o pessoal levar uns doces de padaria, doce bom, desses doces e eu em vez de levar esses doces, eu fui eu em uma venda que tinha lá e comprei uma maria mole e uma bala e fiz um pacote bonitinho e levei. Na hora que ela viu aquilo lá (risos), ela ficou brava e aí falou e a molecada toda começou a mandar vaiar, xingar e falar. Então, na escola foi mais isso. E tinha às vezes... Minha escola era numa rua e era bem lá no fim da rua, do lado antigamente só tinha chácara e a professora, às vezes, chegava atrasada e eles mandavam a gente embora: “Pode ir embora”, você ia sair e via que a professora vinha vindo, você corria para dentro do mato para ela passar, ir embora e você não ir à escola (risos). Agora da escola, eu tenho um negócio meio triste, que eu nunca esqueci na minha vida. No primeiro dia de aula deu uma chuva muito forte e tinha um rio que passava, tinha uma ponte para ir à escola e tinha um rio, aí nós ficamos do lado de cá, porque não dava para passar, primeiro dia de escola, de aula. Um menino quis atravessar e a água levou ele embora, foi embora, morreu ali, faleceu ali. Ele estava na minha classe, mas eu nem conhecia ele porque foi o primeiro dia de aula. Então...


P/1 – Foi o primeiro dia, aos sete anos mesmo?


R – Tinha sete para oito anos já.


P/1 – Esse grupo escolar Pedro Álvares Cabral, que ficava ali no Tatuapé, existe ainda esse grupo escolar?


R – O prédio está lá ainda, mas está bem velho, mas eles mudaram para outro lugar. O prédio ainda tem lá, não sei o que tem lá, mas...


P/1 – E a rua onde passava esse, qual é a rua hoje?


R – Rua da igreja... O nome da rua eu não estou lembrado. O pessoal conhecia mais a rua da igreja, da Igreja São João, por isso a rua da igreja.


P/1 – E agora essa rua da igreja chama como?


R – Então, eu não estou lembrando agora.


P/1 – Não lembra? Não tem problema. Depois do curso primário o senhor disse que foi para o SENAC...


R – SENAI.


P/1 – SENAI?


R – É, SENAI. O senhor disse que escolheu a profissão de Gráfico. O senhor escolheu ou foi uma coisa acidental? Foi sem querer?


R – Não, eu já trabalhava num… Estava aprendendo a ser... E lá no SENAI tem o seguinte, o SENAI antigamente era assim, você ficava um mês em cada seção, um mês você ficava na encadernação, um mês na tipografia, um mês você ficava no monotipo, um outro mês era na impressão, cada mês você fazia um. Depois no fim disso aí, você escolhia qual a profissão que você queria, eu gostei mais de tipógrafo, porque antigamente era tudo feito à mão, pegava letra por letra, e hoje é tudo com computador, é tudo diferente, mas antigamente... Eu gostei mais, trabalhei trinta anos nisso.


P/1 – A escolha da sua profissão foi uma escolha própria, não foi... Ninguém impôs?


R – Não.


P/1 – Não foi sem querer, então o senhor sempre trabalhou naquilo que o senhor gostava.


R – Ah, eu gostava muito.


P/1 – E sempre trabalhou nisso? A vida toda?


R – Sempre. Eu trabalhei até me aposentar, depois eu fui trabalhar na estamparia de tecido, fazer esses...  Que nem a menina tem ali... Qual é a sua graça?


P/3 – Rosali.


R – A Rosali tem ali, então, eu fazia esse serviço.


P/1 – O senhor trabalhava em alguma firma?


R – É, na Fórum e na Triton.


P/1 – Como chamava?


R – Fórum e Triton, firmas conhecidas que têm...


P/1 – Isso na estamparia?


R – Na estamparia.


P/1 – E na parte de parte de gráfica?


R – Ah, gráfica, eu trabalhei em várias: na Gonçara...


P/1 – … Eram oficinas pequenas?


R – Não, tudo mais ou menos pequena, não era grande, não. Trabalhei com várias delas porque antigamente como tinha muito serviço, por exemplo, às vezes, por causa de um centavo, naquela época eram mil-réis, um mil-réis, uma coisinha a mais, você saía dali e ia para outra, não ficava desempregado. Você saía por exemplo, na sexta-feira, segunda-feira já estava trabalhando e, às vezes, o pessoal ainda te deixava recado, então era... Eu trabalhei em várias, não tinha...


P/1 – Sempre no bairro em que o senhor morava?


R – Não, eu vinha aqui para o Brás, porque lá não tinha.


P/1 – Dependia de condução?


R – Dependia. Vinha no Brás, na Estação da Luz, Cambuci, Barra Funda, trabalhei no Ipiranga, trabalhei em vários lugares, como chama ali perto da Rua Bresser ali em baixo, Pari, então eu trabalhei em vários lugares.


P/1 – E o senhor procurava mudar ou era...?


R – Era mais eu.


P/1 – O senhor?


R – Mais eu porque para ganhar mais que era assim, eu nunca... Eu trabalhei trinta anos, graças a Deus nunca fui mandado embora, nunca. Eu sempre que pedia a conta e até numa dessas aí que eu trabalhei, nós fizemos greve, naquele tempo tinha muita greve, nós entramos em greve e eu também fiz greve, entrei no meio do pessoal lá e no fim do ano não tinha décimo terceiro, eles não davam décimo terceiro para ninguém, dava pra quem eles achavam, davam uma coisinha lá para a pessoa, uma bonificação que eles falavam. E eles não quiseram me dar, porque eu fiquei de greve e eles não quiseram me dar porque quando eu estava em greve, eu fui trabalhar um dia só para receber e recebi, voltei e não fui mais, aí fiquei de greve, então ele ficou com raiva e não me deu, aí eu pedi a conta.  Pedi a conta, no outro dia fui lá e falei: “Me dá a conta que eu vou embora”.


P/1 – Com quinze anos o senhor já trabalhava, já era bem...


R – Trabalhava, eu comecei com quatorze...


P – Em 1945, acabou a II Grande Guerra, o senhor se lembra? O senhor tem lembranças desse tempo de guerra? O que acontecia em São Paulo nesse tempo de guerra bastante característico?


R – Não, eu acompanhei bem assim a Guerra, porque eu tive um tio que ele era para ir servir, mas chegou lá e não... O nome dele estava certo, João Batista Nogueira, mas o nome do pai e da mãe não estava certo, era outra pessoa, então ele não foi. Então nós, esse tio também morou comigo, com a minha mãe também, mas assim não... Quando eles vieram para cá, quando chegaram em 1945, eu fui à cidade ver na São João o desfile, porque eles fizeram um desfile, não sei se a senhora se lembra em 1945, e eu fui assistir e tudo, mas...


P/1 – E antes um pouquinho, o senhor se lembra dos blackouts que se ensaiava em São Paulo?


R – Lembro sim, saía... Eles tinham que apagar todas as luzes, ficava tudo escuro, não podia sair ninguém. Todo mundo apagava as luzes para não, era para fazer ensaio, parece que eles queriam tocar uma sirene lá e tinha que todo mundo apagar a luz, então todo mundo apagava a luz.


P/1 – E vocês respeitavam esse sinal?


R – Respeitava sim.


P/1 – Não aproveitava para brincar...Para escapar, namorar?


R - Não, não. Parecia que eu estava com quinze anos.


P/1 – Quinze anos por aí, né? A falta de pão nessa época, lembra?


R – Tinha, ficava na fila. Eu fiquei na fila, às vezes ia à fila de noite, lá para as nove ou dez horas até de manhã para esperar o pão sair, porque não tinha pão. Teve falta de pão, teve falta de, que mais faltava? Açúcar, faltou muito açúcar, faltava pão, faltava muita coisa no tempo da guerra. É, gasolina que tem os carros...


P/1 – Lembra do gasogênio?  


R – Então, era isso que eu ia falar. Os carros eram todos movidos a gasogênio. Até uma vez eu fui chocar um ônibus desses a gasogênio e sentei lá atrás e me queimei (risos), porque era quente. Gasogênio. Gasolina foi a pior coisa que teve, apesar do pão também, porque o pão e  o açúcar. Açúcar parece que faltou, faltavam essas coisinhas assim… Feijão, uma vez também faltou feijão.


P/1 – A sua mãe fazia pão de macarrão argentino?


R – Não, não, a minha mãe fazia muito doce, pão, essas coisas, isso aí não.


P/1 – Então, essas lembranças o senhor tem do tempo de guerra, né?


R – É isso aí mais ou menos.


P/1 – Aí o senhor já está com quinze anos, já está começando a adolescência e começou a olhar para as meninas, e daí, qual é a sua primeira lembrança de ter se interessado por alguma garota?


R – Eu não era muito chegado em namorar, essas coisas, sabe? Eu era mais de jogar bola, bagunçar, então eu não era muito...  Eu comecei isso aí, mais ou menos com uns dezoito anos, quer dizer, eu tive umas três namoradas, tive uma que eu gostava muito dela.


P/1 – A primeira qual foi?


R – A primeira foi uma tal de Nina, chamava Nina.


P/1 – Como?


R – Nina. Eu namorei com ela uns tempos, mas depois não deu certo, aí namorei com outra que também trabalhei junto com ela. Eu morava em São Miguel, ali perto de São Miguel, eu fui um dia na casa dela, essas casas que tinham só lampião. Namorei também... Essa eu namorei e depois comecei a namorar com esta que era a minha patroa, mas aí eu já tinha uns 21 anos, mais ou menos. Eu nunca fui...  Eu gostava mais era de, bebia muito, eu era uma pessoa que bebia demais, bebia de cair na rua, de ficar...


P/1 – É? Conta alguma coisa para nós sobre essas experiências que o senhor teve com... Não chegava a ser alcóolatra, mas de certa maneira, né?


R – Eu tenho duas: uma que nós íamos passear lá, as meninas ficavam passeando os homens ali no Carrão, tinha isso aí, e um dia eu estava vindo embora, encontrei dois amigos numa esquina lá, parei e comecei a conversar com eles lá, aí o meu pai passou e falou: “Vambora?”, porque era domingo, “Amanhã precisa trabalhar”, eu falei: “Vai indo que eu já vou”, aí nisso chegou um rapaz negro ali, era primo de um colega que eu estava conversando, ele falou: “Puxa, meu primo não está bem, vamos levar ele na casa dele?” Ele morava na Guaiaúna, um outro lugarzinho lá, mas dava para ir a pé, aí fomos levar, isso aí devia ser umas onze horas, meia noite. Chegamos lá tinha um barzinho aberto, eles entraram lá no bar para tomar mais uma pinga e mandaram vir um copo de pinga desses grandes, um copo de rabo-de-galo. Eu já tava, não estava bêbado, mas já tinha bebido um pouquinho, mas tava bom. Eles ao invés de beberem aquilo lá ficaram batendo papo e eu queria ir embora porque o meu pai já tinha me avisado para eu ir embora. Eles não tomavam, não tomavam, eu peguei e virei inteirinho, tomei o copo inteirinho. Aí eles olharam assim: “Pô, você tomou tudo?” Eu falei: “Vocês estão batendo, conversando aí, eu peguei e tomei”, “Então, manda vir outro aí, dá outro aí”. Aí eles puseram outro e eles falaram: “Você tomou aquele, quero ver você tomar esse”, eu tomei aquele também. Eu só lembro que em cima do balcão do bar tinha um prato de pimentão cheio para vender, eu peguei o pimentão, dei uma mordida e caí, isso deveria ser meia noite mais ou menos, e eu fui acordar às cinco horas da manhã dentro de uma padaria comendo sanduíche de mortadela com a roupa toda suja, tudo... E eles me levaram para uma distância de um quilômetro quase, disse que acharam uma tábua lá, me deitaram na tábua, um de cada lado lá, pegaram para me levar, que nem uma maca, eles me levaram e quando chegou na padaria, eles falaram: “Vamos comer um negócio aí?”, aí eu acordei, fui chegar em casa às sete horas da manhã, isso devia ser umas cinco horas. Foi nesse dia que meu pai me... Eu não fui trabalhar na segunda-feira porque eu cheguei eram quase sete horas, todo sujo, aí meu pai de noite que me chamou no quarto e falou, foi me dar uma bronca: “Eu te avisei”, não sei o que lá e pá, pá, mas ele não me bateu dessa vez, ficou lá falando e falando e a minha mãe ficou do lado de fora batendo na porta: “Ah, você vai bater ou vai ficar conversando? Vamos, se vai bater, bate logo”. Mas ele, naquele dia, graças a Deus, eu não apanhei não (risos).      


P/1 – Quantos anos o senhor tinha?


R – Isso aí deveria ter uns vinte anos já.


P/1 – E ainda apanhava nesse tempo assim?


R – Apanhava sim. Eu apanhei uma surra uma vez, eu tinha uns quinze anos, coisa assim de uma surra bem feia mesmo, de ficar marca nas costas. Porque a vizinha pediu uma moringa d’água, essa moringa que existia de água, e ela veio devolver a moringa e deixou em cima da mesa, eu não sei o que eu fiz que eu bati, caiu e quebrou. Aí meu pai me deu uma surra dessas que ficou até marca nas costas. Num era um motivo para isso, né?


P/1 – Da bebedeira sim, tinha razão, e você tomava pinga? Era pinga mesmo?


R – Era rabo-de-galo. Era pinga com cinzano veluk.


P/2 – Mas será que seu pai era assim por ser policial militar?


R – Devia ser, porque meu pai não era um... O pai sempre foi um bom pai, mas marido mesmo ele não era, porque ele gostava de sair para tocar nos bares, não sei o que lá, chegava sete horas da manhã. Minha mãe não ligava, mas chegava aos domingos às sete horas da manhã, gostava de carnaval, saía no carnaval, tocava pandeiro, mas ele não era ruim não. É que ele era enérgico mesmo.


P/1 – Ele nunca constituiu outra família paralela, nem nada disso? Ou sim? (risos) Só fale se quiser falar, tem toda a liberdade.


R – Eu tenho uma passagem que eu lembro, eu devia ter uns seis anos, ele andou com uma mulher sim. Arrumou uma mulher e minha mãe descobriu e ela pegou eu e o meu outro irmão e fomos à casa dessa mulher. Ela levou um chicote embaixo da... O chicote e quando chegou lá na casa dessa mulher, não me lembro se foi em Cravinhos ou Ribeirão Preto, um desses dois, ela bateu na porta perguntando: “O Pero está aí?”. A mulher falou: “Não está”, mas a minha mãe viu que era um corredor comprido, minha mãe viu ele sentado lá na mesa da mulher lá. Ela pegou um chicote e deu uma surra na mulher (risos) de chicote. Meu pai era assim, ele gostava mesmo, e tem um irmão que é quase que nem ele, que gosta de baile, que vai ao baile todo dia (risos).   


P/1 – O senhor gosta de bailes?


R – Eu não, meu irmão (risos)... Meu irmão é que nem o meu pai, meu pai gostava de baile.


P/1 – Aí o senhor conheceu a pessoa com quem o senhor se casou. Lembra do primeiro encontro, ficou marcado?


R – Ah, ficou.


P/1 – Ah, então conta para a gente.


R – (risos) Não está sendo muito comprida essa minha história não? (risos) Pode falar? O primeiro encontro... Um dia eu machuquei, tem até a marca no dedo aqui, machuquei trabalhando, fui para o seguro e fiquei em casa. Foi dia 26 de janeiro de 1950. Aí ia subir numa rua de terra ainda e ela vinha descendo, a minha patroa vinha descendo e eu fui subindo, quando ela passou perto de mim, eu olhei para ela e ela olhou para mim, eu andei mais um pouquinho, olhei para traz e ela estava olhando, andei mais um pouquinho e dei mais uma olhadinha assim, e ela tava olhando, quando eu cheguei no fim do morro lá, olhei e ela também estava olhando. Eu ia na casa de uma prima dela, mas eu não a conhecia, aí ficou isso aí, ficamos quase uns oito meses assim. Aí que eu fui descobrir que ela era irmã de um amigo meu que jogava bola comigo, porque eu não conhecia ela. Então, ele que começou a ser o intermediário, ele que falava aonde ela ia, aonde não ia: “Hoje ela vai ao cemitério da Vila Formosa”, eu ia para lá, “Hoje ela vai passear na Penha, não vai ao Carrão”. Então, ele ficou assim. Eu comecei a namorar com ela em 1951.


P/1 – O senhor tinha 21 anos, então?


R – É, tinha 21. E ela...


P/1 – E ela?


R – Ela tinha dezenove.


P/1 – Como é o nome dela?


R – Ruth.


P/1 – Ruth.


R – É, aí um dia, ele falou para mim: “A minha irmã hoje vai lá no Carrão passear”, eu peguei e fui no Carrão e isso aí depois de quase oito meses que nós estávamos tirando linha, que era assim que falava, um olhava para o outro. Aí eu fui conversar com ela, estava ela e a amiga dela passeando e eu peguei um amigo meu para falar com a amiga dela e eu fui falar com ela e aí nós começamos a namorar. E naquele tempo o namoro era um... Que você não tinha esse negócio de ficar se agarrando, se beijando, para mim dar o primeiro beijo nela ficou quase dois meses e ainda foi roubado.


P/1 – E onde foi?


R – Foi na Celso Garcia, pois nós íamos passear na Penha. Aí eu consegui, roubei um beijo dela, ela não queria. Aí eu comecei a namorar com ela. Quando eu comecei a namorar com ela como eu bebia muito e fazia muita bagunça, o pessoal ia falar para a minha sogra: “Você é louca de deixar a sua filha casar com esse Bino”, eles me chamavam de Bino. E de noite quando eu ia lá, ela vinha falar para mim: “Foram falar para minha mãe que você é isso, você é aquilo”, eu falei: “Pode deixar, quando eu casar, quando eu namorar, eu não vou beber mais, pode deixar que eu não bebo mais”. E eu não bebi mais mesmo depois disso aí. Eu não bebi, mas o pessoal, os vizinhos, todo mundo ninguém queria, então já chegava lá e já aumentava, que eu era vagabundo, briguento, que eu era isso e aquilo, então assim mesmo, vai fazer cinquenta anos que nós estamos casados.


P/1 – Primeiro namorou na porta?


R – É, no portão (risos). Como a minha sogra era viúva então...


P/1 – Ela era viúva?


R – A minha sogra era viúva, então logo eu já vinha namorar na cozinha, já entrava e ficava no portão. Primeiro foi no portão, depois... E assim nós namoramos dois anos.


P/1 – Como era o namoro naquele tempo? Era certinho?


R – Era certinho, não podia, não era...  Eu já não era tão certinho, mas ela era... Ela era sempre das meninas dali do bairro, todo mundo gostava dela. Porque até teve um caso, uma vez teve um baile, eu fui num baile, eu não gostava muito de dançar, mas como os amigos estavam lá eu fui ao baile no sábado e no domingo de manhã, quando ela ia à feira, eu ia subindo porque ia jogar bola e ela descendo. No domingo de manhã ela já soube que eu tinha ido no baile, a prima dela já tinha ido contar para ela (risos).


P/1 – Aí deu briga?


R – Ai deu briga, mas nós sempre...


P/1 – Tinha noivado nessa época?


R – Ah, fiquei noivo, teve festa de noivado e era no começo do ano, dia 25 de...


P/1 – Quanto tempo o senhor ficou noivo?


R – Fiquei um ano, quase.


P/1 – E casou quando?


R – Casei em 1953. Comecei em 1951, eu conheci ela e no fim de 1951 nós começamos a namorar, eu namorei quase um ano, um ano e pouco, quase dois anos, e em 1953 nós casamos.

P/1 – Lá no Tatuapé mesmo?


R – Lá na igreja do Tatuapé, nessa igreja que falei para a senhora.


P/1 – Teve festa?


R – Teve festa.


P/1 – E a lua de mel?


R – Lua de mel, não. Na festa também se você quiser que eu conte alguma coisa eu posso falar (risos).


P/1 – Claro, a gente gosta disso.


R – Na festa, como minha mãe tinha muito pato lá no quintal, essas coisas, porque foi no quintal da minha casa, foi na minha casa porque meu pai gostava muito de festas: São João, São Pedro, fogueira, essas coisas, e foi lá o casamento também. E meus amigos roubaram dois patos da minha mãe, levaram embora lá num bar e mandaram fazer os patos e comeram.


P/2 – Na época do casamento?


R – No dia do casamento. Aí minha mãe no outro dia ficou brava, não sei o que, “Ah, roubaram os patos, não sei o que lá e pá, pá, pá” e depois de muito tempo fui descobrir que foram os meus amigos que tinham roubado os patos porque eles estavam conversando assim - eles não sabiam que era da minha casa - então eles estavam conversando e eu descobri que levaram, depois que fui descobrir que eram...


P/1 – E levaram os patos para?


R – Levaram os patos  e comeram os patos da minha mãe, ela ficou brava. E eu morava mais ou menos uns quinhentos metros longe, eu fui morar na casa da minha sogra, tinha um quarto lá e eu fui morar com ela. E nós fomos às cinco horas da manhã, ela de noiva e eu de noivo andando no meio da rua, daquela escuridão e todo mundo atrás, até vou contar um negócio: tinha uma senhora que foi junto também, quando chegou para nós passarmos no meio do mato lá, ela foi fazer xixi lá no meio do mato (risos), não sei e aí ela começou a gritar porque quando ela foi abaixar espetou um pau nela (risos), ela começou a gritar que tinha se machucado. Então foi eu, a noiva, tudo, às cinco horas da manhã, porque não tinha carro e foi tudo a pé atrás de mim, na escuridão, e passamos nesse lugar em que eu a conheci ela também, porque eu morava para o lado de baixo e ela para o de cima.


P/1 – Era longe?


R – Uns quinhentos metros, não era muito longe. Era quase no mesmo bairro.


P/2 – E ela só tinha esse irmão?


R – Tinha outro irmão que faleceu, faleceram os dois, a mãe, o pai, só tem ela.


P/2 – Sim, mas naquela época?


R – Ela tinha dois irmãos.


P/1 – E deu tudo certo? Lua de mel foi em casa?


R – Foi em casa, só que às seis horas da manhã, sete horas, veio um primo dela trazer um presente (risos).


P/1 – E você foi morar pertinho, na casa da sua sogra, que era perto...


R – Eu sempre morei com a minha sogra, ela morava comigo depois, aí passei... Aí comecei a mudar, depois disso eu tive muito negócio, eu tive quitanda, eu tive bar, vendia na rua com carrinho com laranja, vendi peixe, eu tive depósito de ferro velho, tive depósito de bebida, tive dez anos um bar e restaurante, então ela morava sempre junto comigo, ela e meu cunhado.


P/1 – Isso independente da tipografia e da estamparia?


R – É.


P/1 – … Ou foi tudo junto?


R – Não, isso aí eu já tinha largado.


P/1 – Já tinha largado, inclusive a estamparia?


R – A estamparia foi depois.


P/1 – Ah, foi depois, então entre...


R – … Porque esse bar foi em 1960.


P/1 – Gráfica o senhor parou em 1960?


R – É, mais ou menos.


P/1 – E a estamparia o senhor começou...?


R – Depois do bar eu parei dez anos, mas quando eu tinha a estamparia eu comecei em 1980, mais ou menos e fui até 1995, agora.


P/1 – Então nesses vinte anos, o senhor teve uma variedade de negócios?


R – Negócios.


P/1 – Sempre para melhorar de vida, sempre procurando...


R – Melhorar, é. Eu tinha carroça, vendia na rua.


P/1 – Então o senhor tem muita história para contar.


R – Tinha uma eguinha (risos).


P/1 – Uma?


R – Uma égua, um cavalo.


P/1 – Tem alguma história interessante de algumas dessas atividades que o senhor teve?


R – Essa mesmo da carroça, eu vendia essa carroça e passou uns tempos um rapaz ia passando em frente à minha casa e a égua parou no meu portão, sozinha assim, ela foi e o cara puxava e ela parou ali. Aí ele até me chamou para eu ver: “Olha, ela não quer mais ir embora daqui”. Então eu fiquei sempre com ela, puxa vida, como que... Tem essa história, uma vez também teve de um cachorro, a minha mãe teve um cachorro também que, uma cachorra, e ela começou a juntar com os cachorros lá dentro de casa e ela pegou os cachorros e jogou para fora de casa. Não sei, a pessoa faz e nem acredita, mas foi pura verdade, eu pus essa cachorra dentro de um saco, de bicicleta e levei mais de um quilômetro, bem longe, fui jogar bola, larguei ela lá no campo e joguei bola, vim embora e na terça-feira essa cachorra apareceu lá em casa novamente. E foi bem longe, mais de uns dois quilômetros e ela veio, terça-feira estava em casa novamente. Acho que eles gostavam de mim (risos). E esse do cavalo também.   


P/1 – O que o senhor carregava na carroça?


R – Eu vendia, vendia peixe, depois vendia frutas, essas coisas.


P/1 – Ia buscar esse peixe, essas frutas onde?


R – No mercado.


P/1 – No mercado da Rua da Cantareira?


R – É, no mercado da Cantareira.


P/1 – Não tinha Ceasa ainda?


R – Não, não, era no mercado. Tinha um caminhão que vinha na quitanda essas coisas, ele vinha, a gente comprava, o caminhão levava e pagava uma taxa lá.


P/1 – Passava com a carroça e ia gritando...


R – É, ia gritando.


P/1 – Todo dia as pessoas vinham comprar?


R – É.


P/1 – Levava muito calote ou não?


R – De vez em quando levava sim.


P/1 – Era na caderneta?


R – Não, não era. Eu quando casei comprava na caderneta, tinha caderneta, a gente ia lá e comprava, mas eu fiquei só uns três, quatro meses, depois falei para a minha sogra e para a minha patroa....


P/1 – Eles costumavam colocar mais coisas do que comprava, né?


R – Eu falei: “Vamos parar, quando tem dinheiro compra, quando não tem não compra”, então nunca mais comprei, mas tinha muita caderneta.


P/1 – O senhor se lembra quanto era os preços das coisas naquela época? É interessante a gente fazer uma relação, por exemplo, quanto custava um peixe, um quilo de arroz?


R – Puts, mas não tem, porque o dinheiro mudou muito, já foi cruzeiro, cruzado...


P/1 – Pois é, mas a gente faz o que dava para comprar? Por exemplo, um litro de leite, quanto custava?


R – Então, é isso que a gente não sabe se...


P/1 – O cruzeiro naquela época...


R – Dois cruzeiros, um real. A gente não tem essa... É duro para...


P/1 – Mas com o preço de um litro de leite, quantos pãezinhos davam para comprar? Porque aí dá para fazer...


R – Deixa eu ver, acho que dava para comprar uns cinco, cinco ou seis pãezinhos. A diferença não era muita, não era muito caro, não.


P/1 – O peixe era considerado caro?


R – Não, não, não era caro. Era que nem agora, só que o dinheiro era diferente.


P/1 – Sei, mas não era uma comida cara?


R – Não, não.


P/1 – Porque hoje peixe é considerado mais caro que carne. Qual era o peixe que vendia mais?


R – Sardinha, sempre mais sardinha.


P/1 – E o peixe mais nobre, qual era? O mais caro?


R – O mais caro sempre foi o camarão.


P/1 – Mas era muito mais caro?


R – Era bem mais caro.


P/1 – Pouquíssima gente comprava?


R – Bem pouco, ninguém comprava. Era mais sardinha mesmo.


P/2 – Carroça, o que mais o senhor teve de...?


R – Tive bar, tive quitanda, várias coisas.


P/2 – Quitanda também, o que você vendia mais na quitanda?


R – Na quitanda era mais verdura.


P/1 – Verdura?


R – Vendia  de tudo, verdura, tomate, essas coisas.


P/1 – Vinha fresquinha do mercado? Não perdia muito, não?


R – Não, não, era difícil perder. Tinha aquela freguesia, já comprava mais ou menos certo.


P/1 – Que verdura que vendia mais? Alface?


R – Era alface, alface que vendia mais, agrião, alface, essas coisas.


P/1 – E fruta, o que vendia mais?


R – Laranja e banana sempre.


P/1 – Isso então... Nesses vinte anos entre a gráfica e a estamparia? Nesse meio tempo, o senhor teve filhos?


R – Não, teve...


P/1 – Depois que o senhor casou, quanto tempo depois teve filho?


R – O primeiro foi depois de três anos, casei em 1953, ela nasceu em 1956, mas a minha filha teve um negócio meio, porque ela teve paralisia com cinco meses, paralisia infantil, os demais, é. Hoje em dia ela dirige, trabalha por conta dela, tem escritório, ela estudou, fez faculdade, fez tudo.


P/1 – Em que ano ela nasceu?


R – Em 1956.


P/1 – 1956?


R – Foi um ano que teve bastante paralisia aqui em São Paulo.


P/1 – Ela teve logo pequenininha?


R – Cinco meses. Nós nem sabíamos que ela tinha, fomos descobrir depois de uns dias só, porque nós víamos que ela não mexia a perna. Minha mãe que descobriu que ela não mexia a perna, aí nós fomos ver a noite, no outro dia levamos no médico, mas ela não teve problema nenhum.


P/1 – Não foi assim tão violento, né?


R – Deu em uma perna, mas dá para ela andar, dirigir carro e...


P/1 – E depois dela, teve outros filhos?


R – Tive mais um menino, depois de oito anos, como eu tive ela e ela teve com esse problema, tinha que olhar mais por ela, né?


P/1 – Como ela chama?


R – Marisa. Aí nós paramos de...


P/1 – E esse outro filho como chama?


R – Maurício.


P/1 – Veio sem querer ou foi planejado?


R – Foi planejado. Porque antes dele era para vir um, mas a minha mulher abortou, então não pode, aí nós tivemos mais um, depois de oito anos veio um menino.


P/1 – E esses filhos hoje estão adultos e eles estudaram?


R – Todos eles fizeram faculdade, os dois. Meu filho é professor de Educação Física aqui no Pinheiros, o Maurício, e ele dá aula para as crianças de futebol, veio dar aula aqui na USP também de futebol, para as crianças, porque tem uma escola aí. E minha filha fez informática, ela é solteira, não casou. Ele casou, tem dois filhos, eu tenho dois netos.


P/1 – O senhor se lembra ainda, faz tempo, mas às vezes é uma sensação, o que o senhor sentiu quando o senhor teve a primeira filha? Quer dizer, a emoção que o senhor sentiu. É uma coisa especial?


R – Ah, é sim, porque nós ficamos quase três anos sem filhos, até acertar a vida direitinho e ficamos esperando. Mas é um negócio meio...


P/1 – Então foi planejado também?


R – Foi planejado, foi tudo certinho.


P/1 – E ela teve uma infância, uma convivência gostosa?


R – Teve, teve, sempre saiu, gostou de passear, gosta de...


P/1 – Fala alguma coisinha sobre a vida dela.


R – De quem?


P/1 – Da sua filha.


R – É uma pessoa assim: ela gosta de passear, de viajar, viaja muito, conhece quase o Brasil inteiro, ela dirige, vai para o Rio de Janeiro de carro, vai para Santos, vai para interior, gosta de... Tem bastante amigas desde os tempos da faculdade, ela é...


P/1 – Ela é casada?


R – Não, ela é solteira, tem bastante colega, umas colegas que já casaram, que tem amizade com ela. Gosta de passear bastante, difícil ela ficar em casa, principalmente quando tem feriado.


P/1 – Tá feliz com a vida que ela escolheu, com a informática, ela trabalha com alguma firma especial?


R – Não, é dela mesmo. Ela é dona do escritório.


P/1 – E o garoto?


R – Ele dá aulas de futebol, Educação Física.


P/1 – Ele é casado?


R – É casado.


P/1 – E quantos filhos tem?


R – Tem dois meninos, tem um com oito anos, outro com quatro meses, vai fazer agora.


P/1 – Como é que chamam?


R – Os meninos? Um é o Vítor, que é o mais velho, e o André, que é o mais novo.


P/1 – Vítor e André.


R – É.


P/1 – São danados?


R – São danadinhos, sim (risos).


P/1 – E ser avô é gostoso?


R – É, ou se é... Demais.


P/1 – É melhor do que ser pai?


R – Acho que é, porque eles têm mais... A gente brinca mais, eu sou muito brincalhão, gostam muito...


P/1 – A responsabilidade é do pai, né?


R – É do pai, então a gente brinca mais, fazemos coisas que... No Carnaval agora fui levá-los pra dançar, o pai não levou, mas eu levei, foi comigo. Carnaval de tarde, infantil.


P/1 – E eles moram perto de você?


R – Não, eles moram aqui no Paraíso, perto do Ibirapuera.


P/1 – Bem longe, hein?


R – Eles vão todo domingo em casa, eles vão almoçar em casa.


P/1 – Geralmente a tendência é ficar no mesmo bairro.


R – É que a moça morava aqui, e como ele dava aula aqui na Aclimação, acho que o irmão dela ia jogar bola lá, então eles se conheceram ali e ela morava aqui nessa...  


P/1 – Ela trabalha? Ela é formada?


R – Não, ela não trabalha, só ele.


P/1 – E em relação à educação religiosa, vocês têm algum tipo de religião?


R – Ah, nós somos católicos. A minha patroa gosta bastante, ela vai todo domingo à missa. Hoje mesmo quando estávamos saindo ali ela disse que amanhã às oito horas vai à missa. Ela vai todos os domingos, fins de semana, uma vez por semana. Dia de São Judas, vai todo o dia 28 na... Lá tem uma igreja de São Judas lá perto e ela vai à igreja, ela gosta sim. Eu também vou, não sou...


P/1 – É um praticante, mas não...


R – É, não sou muito...


P/1 – E agora, atualmente, o que o senhor faz?


R – Agora eu sou office-boy da minha filha, faço serviços para ela. Vou ao banco, faço uns serviços, compro as coisas, arrumo o escritório, faço essas coisas. E sou síndico no prédio que eu moro, faz seis anos já que eu sou síndico lá. Então, fico... Tem essas coisinhas, tomar conta porque são 146 apartamentos, e eu sou sozinho para tomar conta.


P/1 – E a experiência como síndico, é uma experiência positiva ou dá muito trabalho?


R – Dá trabalho, precisa gostar. Eu agora, no começo do ano agora, tinha terminado, aí teve nova eleição lá, aí o pessoal não deixou eu sair, tive que ficar mais dois anos, eu queria sair, porque já estava ficando meio cansado. Já fazem… Eu fiquei quatro anos, depois saí, agora estou mais seis anos, quatro anos, vai ir para seis agora. É um pouco cansativo sim.


P/1 – O senhor está aposentado há quanto tempo?


R – Desde 1975.


P/1 – 1975?


R – Faz 25 anos.


P/1 – 25 anos. E nesse meio tempo o senhor faz coisinhas pequenas, assim.   


R – É.


P/1 – E distrações, lazer, o que o senhor gosta de fazer?


R – Agora o que eu gosto mais é jogar bingo, nós vamos jogar bingo quase toda a semana (risos).


P/1 – Jogar...?


R – Bingo.


P/1 – Bingo? Jogar bingo é uma ciência, pelo que eu ouvi dizer. Tem que saber jogar. E vicia?


R – Eu não sou muito viciado, nem eu nem a patroa, nós somos mais ou menos controlados. Mas tem gente que vicia sim, nós somos controlados porque nós já levamos dez reais e vamos gastar esses dez só e pronto. Às vezes passo dez, doze, mas fica por aí, não é de perder muito, não.


P/1 – E ganha bingo?


R – Ganha, dá para ganhar, às vezes ganha. A semana passada mesmo eu ganhei duas vezes. Eu ganhei uma e ela ganhou a outra vez.


P/1 – A sua senhora vai junto?


R – Vai junto, nós dois.


P/2 – São nessas casas novas que estão abrindo bingo ou seria um bingo assim,  junto à Igreja?


R – Não, não, essas casas velhas de bingo, bingo profissional.


P/2 – O senhor hoje tem aquela loja de bingo, né?


R – Tem.


P/1 – É uma instituição atual agora.


R – Tem várias por aí.


P/2 – É uma boa distração?


R – É, para quem não tem nada para fazer, que gosta e tem um pouco...


P/1 – Vocês participam de alguma atividade social? No bairro?


R – A minha patroa é voluntária numa casa de excepcionais.


P/1 – (De que?)?


R – Excepcionais. Só criança.


P/1 – Onde?


R – Lá no Tatuapé mesmo, e toda segunda e terça-feira ela vai dar janta para as crianças, já esteve lá para ajudar a costurar, já ajudou, agora vai lá dar janta. Onde eu moro tem um salão de festas, eu como sou síndico empresto para eles fazerem bazar, uma vez por mês, duas vezes. Então ela ajuda os meninos lá, são todas crianças que não falam, não andam, ficam na... Então tem que por comida na boca, então ela vai dar comida para eles.


P/1 – É uma instituição conhecida?


R – É conhecida ali, Ninho da Paz chama, ali no Tatuapé.


P/1 – Ligada a alguma Igreja ou não?


R – Não, essa é particular.


P/1 – E ela faz isso por vocação?


R – É porque ela gosta de fazer essas coisas. Eu também quando posso, também vou lá, mas ela vai mais, vai bem mais. Quando precisa de alguma coisa de mim, eu vou.


P/1 – E seu dia-a-dia agora, o que o senhor faz?


R – É o que eu falei: de manhã fico em casa, ajudo um pouquinho, depois vou lá para o escritório, vejo se tem coisa para fazer, já vou fazer, levar para o banco, ir para o banco, pagar as contas, às vezes vou para a cidade, vou para algum lugar fazer serviço lá para o escritório dela. De noite fico lá em casa, tenho que tomar conta do condomínio, sempre tem alguma coisinha para resolver, para fazer.


P/1 – Gosta de assistir televisão?


R – Mais a noite, de dia não, ou na hora do almoço, só. E a noite, só.


P/1 – Acompanha o noticiário?


R – É, Jornal Nacional, essas coisas.


P/1 – Política? Se envolve em política?


R – Não, a minha filha já chegou a se envolver um pouquinho, mas eu não. Eu não tenho...


P/1 – ... O trivial, né?


R – É, não tenho não.


P/1 – Os seus netos moram longe, então a convivência sua com eles não é tão...


R – É uma vez por semana só.


P/1 – Uma vez por semana, sempre?


R – É sempre. Quando eles não vêm em casa, nós vamos até a casa deles, mas a maioria eles vêm no sábado ou vêm no domingo em casa. Já vem para almoçar, já fica a tarde ou vem a tarde, janta com a gente.


P/3 – O senhor falou antes de começar a entrevista que o senhor foi preso.


P/1 – Ah é, isso mesmo.


P/3 – O senhor não quer contar, falar alguma coisa sobre isso?


P/1 – Ah, ou o senhor não quer lembrar sobre isso?


R – Não tem problema. Eu fui preso três vezes, assim de... Preso uma vez, eu estava nessa quermesse de São João, eu pedi um cigarro para o investigador, tinha aqueles investigadores ali, pedi um cigarro para ele, ele não tinha e me deu um cigarro de palha, me deu a palha, o fumo, o canivete, me deu tudo. Eu já estava meio alto, aí eu fui fazer e achei difícil, peguei tudo e joguei tudo longe, joguei fora: “Ah, essa porcaria aí”. E ele achou ruim e me levou preso. Aí eu fui à delegacia, ali perto tinha a delegacia e comecei a xingar o delegado, xingar todo mundo de nome feio lá, pá, pá: “Me tira daqui” não sei o que lá e pá, pá: “Eu quero ir embora”, aí eles me mandaram para a delegacia da Penha, e eu dormi lá uma noite, aí meu primo e meu pai foram me buscar.  


P/1 – Quantos anos o senhor tinha na época?


R – Isso daí eu tinha uns dezoito anos, a maior coisa que aconteceu comigo foi isso, de dezessete até uns vinte, 21 anos. Depois eu comecei a namorar e parei, então tinha uns dezoito anos. Aí fiquei preso. Outra vez eu fui num baile de formatura, no Clube Carrão, tem um clube lá que tem salão de formatura e nós, os colegas, os amigos lá, achamos que estava chato: “Ah, que baile mais chato” e começamos a fazer baile de carnaval, aí eu subi nas costas de um e nós dançamos lá, que nem em carnaval: “O jardineira porque estás...”, estava todo mundo dançando lá e o pessoal lá da diretoria nos tirou para fora e saiu uma briga, nós queríamos acabar com o baile mesmo, o nosso negócio era acabar com o baile porque estava chato. Aí saiu aquela briga, não sei o que lá, pá, pá, pá e eu fui preso novamente. E fui preso em outra delegacia, num outro lugar, aí cheguei lá e quis brigar com o delegado lá, e dormi lá mais uma noite lá por causa disso. Aí um colega meu foi lá me tirar de manhã. E a outra vez, eu fui lá, mas não cheguei a dormir lá, não. Eu cheguei às duas horas da manhã e na frente da minha casa tinha um homem, um senhor, um português, chamava Rato, eu fui em casa, peguei uma lata de tinta e ele pintou a casa de branco inteirinha, eu fui lá e escrevi: Aqui mora o Rato, antigamente a gente fazia isso. Aí ele logo descobriu quem era, nós éramos em sete irmãos  e ele já sabia quem era. E ele foi na delegacia dar parte e o meu pai teve que pintar a frente da casa dele e me levou na delegacia e nós ficamos lá, umas duas horas na delegacia.


P/1 – Nessas suas andanças de prisão, o senhor tinha contato com os presos ou não?


R – Não, não. Só jogava lá, tinha uma sala lá. Era mais uma noite só assim, não era para ficar preso não, não fez nem ocorrência, nem nada. Até passar a bebedeira, quando passava eles mandavam embora. Porque eu fazia muita... Na procissão uma vez, posso falar?


P/1 – Claro.


R – Eu estava na procissão, eu e um amigo meu chamado Nilo, esse Nilo depois eu tenho mais um negócio para contar. E nós em vez de cantar música de igreja, que na procissão de sexta-feira nós pegamos a carteira de trabalho, eu e ele, e nós cantávamos: “O jardineira porque estás tão triste?”, música de carnaval, nós dançamos na procissão, aí o pessoal, todo mundo expulsou a gente de lá, queriam chamar a polícia, não sei o que lá e a gente saiu. Aí tinha um cavalo amarrado numa cerca lá, e a gente desamarrou o carro na cerca e pusemos no meio da procissão (risos), e essas coisas que a gente fazia. Uma vez também, nós tínhamos cinco ou seis amigos que andavam sempre juntos, esse Nilo, um tal de Breno, o Vadinho, o Lelé, Mário, nós estávamos em cinco ou seis, andava sempre aquela turminha; nós fomos num casamento também, e não deixaram nós entrarmos no casamento, nós fomos andar de costas para dizer que estávamos saindo, aí o porteiro lá não deixou e falou: “Não pode, não pode”, isso já devia ser meia noite já, quase uma hora da manhã. Aí chegou o carro, aquele tempo não tinha carro quase, foi em 1949, 1950, não tinha quase carro. Aí chegou o carro para levar os noivos para a lua-de-mel, aí o carro encostou lá na porta, nós ficamos lá fora, porque não deixaram a gente entrar, aí eu tive uma idéia e falei: “Vamos esvaziar os quatro pneus do carro” e nós fizemos isso, um fingiu que estava urinando e fazia: “Xiiii” e eu com o palitinho lá, esvaziamos os quatro pneus do carro e para levar a noiva? Aí tinha que levar, era lua-de-mel. Aí nós fomos embora, daqui a pouco veio todo mundo do casamento atrás de nós, nós estávamos num bar lá, parados, e eles procurando quem foi, e não descobriram quem foi que tinha feito aquilo, e nós todos quietinhos, com medo, e eu falei: “Agora vai ser uma briga danada aqui”, então eu fazia essas coisas.


P/1 – O seu amigo, que o senhor falou que tinha alguma coisa para contar.


R – É, esse Nilo aí, ele era de cor, escurinho, o único de cor era ele. Uma vez nós fomos num baile de carnaval na rua São Caetano, tem um clube e um cinema ali, e tinha um baile lá, e aí chegamos no baile, nem sei se eu posso falar essas coisas, posso contar, falar tudo ou não?


P/3– Pode.


P/1 – Fala à vontade.


R – Aí chegamos no baile e falaram que preto não podia entrar no baile, naquele tempo tinha essas coisas, porque que nem no Palmeiras não aceitava jogava jogador preto, depois que começaram. Então não podia entrar preto, aí nós falamos: “Poxa e agora?”, aí nós estávamos na Estação da Luz, onde ficam as mulheres, onde eles falam que é a zona, nós fomos para lá, e esse meu amigo nunca tinha ido, ele tinha a minha idade assim, mas nunca tinha ido lá e tava sem dinheiro, e tinham duas ruas, uma rua era mais barata, as mulheres cobravam mais barato e tinha outra rua que era mais cara, nós fomos naquela mais barata, era rua Aimoré e rua Itaboca, nós fomos nesta rua Itaboca. Aí chegamos lá, ele não tinha dinheiro e falou: “Mas tô duro”, esse moreninho, pretinho. Nós fizemos uma vaquinha e demos dez paus, era dez reais para ele, dez mil réis, né?


P/1 –  Dez cruzeiros.


R – Dez cruzeiros, dez cruzados...


P/1 – Por aí.


R – Demos dez para ele e falei: “Escolhe uma mulher aí e pronto”, aí ele pegou e foi pra lá, foi pra lá e prá cá, e não escolhia e pá, pá, pá, acho que ele nunca tinha ido, aí ele escolheu uma lá e entrou. Não demorou nem, acho que dois minutos, ele veio correndo lá fora: “Me dá mais dez, me dá mais dez” (risos), ele queria mais dez reais.

P/1 – Gostou, né? (risos)


R – Gostou. Esse foi muito amigo meu, ele era de cor, mas era...


P/1 – Você tem algum amigo ainda hoje daquela época?


R – Não, não, faleceram quase todos que andavam comigo, só tem esse tal de Mario, o Vadinho faleceu, o Lelé, Breno, esse Nilo, todos faleceram, só estou eu e esse tal de Mário, mas com esse Mário eu não tinha muita...Tinha mais é com esses outros aí, com o Vadinho, o Leleco, o Nilo.


P/1 – Hoje o senhor frequenta algum clube de futebol ou qualquer outro clube?


R – Não, não.


P/1 – Lá para o lado do Tatuapé?


R – De vez em quando eu vou ver esse pessoal de idade, os velhos jogar bocha, essas coisas assim, eles ficam jogando...


P/1 – Para que clube o senhor torce?


R – São Paulo.


P/1 – São Paulino? _______.


R – É (risos).


P/1 – O senhor se considera um homem feliz?


R – Eu me considero sim.


P/1 – Se o senhor fizesse a sua avaliação de vida, como o senhor se acha?


R – Está bom, eu gostei. Você vê como eu arquitetei tudo direitinho, tudo o que eu fiz na vida? Tem mais coisas ainda é que...


P/1 – Então, o senhor se lembra de mais alguma coisa que o senhor queira falar?


R – Não está muito?


P/1 / P/3 – Não, pode falar.


R – Uma vez eu...


P/1 – Pode falar.


R – Então, uma vez eu ia descendo a estrada do Carrão e tinha um consultório médico, dentista, num sobrado e ele estava lá, tratando uma pessoa lá. Nós pegamos aqueles busca-pé, não sei se a senhora conhece, se vocês conhecem, busca-pé e acendi, jogava para ver quem acertava na janela do consultório do médico lá dentro. Não acerta, não acerta e no fim acertaram, acho que eu mesmo que joguei um e acertei lá dentro, aí foi aquela correria danada, todo mundo correndo, todo mundo saiu correndo atrás nós e nós saímos correndo. Tem muitas passagens, uma vez nós no Parque São Jorge fomos numa festa que tinha lá e nós trocamos todos os vasos das vizinhas. Nós tiramos os vasos de uma casa e pusemos na outra e fizemos aquela troca danada de vasos lá, isso aí, e roubamos também um banco de jardim para levar para o clube, porque no clube não tinha banco, isso eram duas ou três horas da manhã e nós na Celso Garcia lá, passeando com aquele banco nas costas. E no outro dia, acho que a mãe, no outro dia de manhã quando levantaram foi aquela maior confusão: o vaso dessa casa estava nessa, nessa estava naquela, fizemos, trocamos todos os vasos das ruas lá. Fizemos uma confusão danada.


P/1 – Como o senhor que mora na mesma região, na mesma época e tudo, o senhor reparou se agora o pessoal que tem a idade que o senhor tinha quando fazia essas artes, eles fazem esse tipo de brincadeira?


R – Não, não, acho que não. Naquele tempo, que nem eu, morava num lugar escuro, eu ia para casa cinco horas da manhã, quatro horas, andava na rua, se encontrava alguém cumprimentava: “Bom dia, bom dia”, ia embora, não tinha... Hoje em dia não pode, não tem jeito, não tem essas brincadeiras, as nossas brincadeiras eram mais essas. Um dia entramos num bar, numa padaria, na rua Antônio de Barros, cada um pediu um sanduíche, uma guaraná e todo mundo tomou, nós estávamos na nossa turminha ali de cinco, seis e saímos correndo sem pagar, o homem saiu correndo atrás de nós, essas coisas que nós fazíamos.


P/1 – Coisinha simples.


R – Era coisa que que a gente... Na igreja, uma vez, nós passamos também, essa igreja coitada  sofreu conosco (risos), nós passamos na igreja lá e já tinha terminado, era umas duas horas da manhã, já não tinha mais nada, então nós pegamos todas as mesas, as cadeiras e levamos tudo para o meio da rua e a rua... E pusemos  tudo certinho, a mesa e quatro cadeiras e fizemos uma... Lá no meio da rua, no outro dia de manhã foi aquela confusão lá, as carroças queriam passar, os carros, os caminhões e não podia porque estava tudo... Nós fizemos a mesma coisa, ia ter uma festa, tinha uma festa no meio da rua, no outro dia lá na missa o padre falou quem tinha feito aquilo e nós... Essas coisas que a gente fazia. Essas coisinhas que...


P/1 – Há alguma coisa que o senhor gostaria de ter feito e não fez?


R – Acho que não, acho que eu fiz tudo que eu tinha direito. Acho que não tem.


P/1 – Na sua vida, em geral, na sua profissão, na vida familiar, alguma coisa que o senhor saiba, gostaria de ter feito isso, mas não deu.


R – Eu gostava muito era... Quando eu casei... Agora, ultimamente tenho feito... Era viajar, conhecer, porque eu não conhecia nada, nunca tinha saído, então eu já fui para o Rio de Janeiro, já fui para Santa Catarina, Caxambu, Águas de Lindóia, São Pedro, então eu viajo, agora vou para Santos com uma excursão.  


P/1 – Sua senhora junto?


R – Sempre com ela.


P/1 – O senhor dirige?


R – Não, não. Não dirijo pelo seguinte: eu também tenho uma história dessas de dirigir (risos). Um dia eu estava, tinha um amigo meu lá nesse _____ onde ficava o pessoal passeando, saiu uma briga com um amigo meu, eu não estava brigando, eu estava vendo a briga lá, mas torcendo para ele, fizeram uma roda grande e ele lá no meio, os dois lá se batendo e nós... E eu torcendo lá para o meu amigo e o amigo dele torcendo para ele e veio um deles lá por detrás e me deu um soco dentro do olho, eu perdi esta vista. Com vinte anos já não enxergava mais dessa vista porque ele me deu um soco bem dentro do olho, eu vi até estrela, mas aquele tempo a gente nem ia ao médico, ficou roxo, punha um bife aqui e acabou. Depois de uns seis ou sete meses é que eu percebi que naquela vista começou a... Aí que eu fui no médico, mas já tinha perdido. Então quando eu fui tirar a carta para dirigir não deu para dirigir, né?


P/1 – Não chegou a saber, o que foi que lesou na vista?


R – Ah, foi o soco, e lá o... A menina dos olhos estourou lá dentro e perdi a vista, foi por causa também. Então não deu para eu tirar a carta, eu tive na escola e tudo, mas... Depois eu fiquei meio assim, uma vista só dirigir... Fiquei... Nas viagens nós vamos de ônibus, a pé, nós andamos bastante a pé, de  ônibus, não tem...


P/1 – O senhor gosta de viajar?


R – De andar, de viajar...


P/1 – Aqui pelo Brasil? Já saiu do Brasil ou não?


R – Não, nunca sai.


P/1 – E de São Paulo, sim?


R – De São Paulo sim, eu já fui em todos esses lugares que falei: Santa Catarina, eu estou com vontade de conhecer o Paraná, agora, Curitiba e porque eu tenho (vontade?). O Rio de Janeiro, eu tinha vontade, mas já fui no ano passado. Esses lugares por aqui, eu conheço bastante lugar, viajei bastante.


P/1 – E a sua saúde, é boa?


R – É, não é grande coisa porque eu já tenho setenta anos. Tenho um pouco de pressão alta, mas está controlada até hoje, já fui fazer exame de diabetes, eu tinha um pouco de diabetes, não é muito, mas tenho um pouquinho, então ta um pouquinho controlada, mas essas coisas, só. Eu já operei a próstata, varizes, essas coisinhas que a gente tem.


P/1 – Sua senhora também é saudável?


R – É, também é.


P/1 – Então dá para vocês passearem juntos...


R – Dá, dá.


P/1 – Não tem problema nenhum. E o que o senhor tem de sonhos daqui para frente?


R – Daqui para frente, acho que só passear mesmo, eu tenho vontade de conhecer Curitiba, e às vezes Portugal, Itália, vamos... Meu sonho mais é esse: passear só, não tem e ganhar alguma coisa para dar para aos filhos só.


P/1 – Atualmente o senhor não tem nenhuma atividade remunerada?


R – Não, eu tenho a aposentadoria só.


P/1 – Só vive da sua aposentadoria?


R – Não, eu tenho a aposentadoria, a minha me dá dois salários, lá do condomínio mesmo eu ganho um salário e pouco e meio, quer dizer, a patroa também, minha senhora também é...


P/1 – O que ela faz? Ela trabalha também?


R- Não, ela trabalhava de tecelã, antes era tecelã. Ela sempre trabalhou, mesmo quando tinha negócio, na quitanda ela ficava na papelaria, tive mercearia, ela ficava na mercearia, então ela ajudava...


P/1 – Ela também é de origem brasileira ou ela...


R – Ela é brasileira, só que o pai dela era português.


P/1 – O pai dela?


R – Português.


P/1 – A mãe também?


R – A mãe não, a mãe... Acho que a filha só.


P/1 – E ela sempre ajudou o senhor nas…?


R – Sempre ajudou, sempre trabalhou. Mesmo depois de casada ela trabalhou sempre em tecelagem. Ela parou depois de que teve os meninos, teve a menina.


P/1 – Ela não chegou se aposentar, então?


R – Depois começamos a pagar e ela recebe, mas foi...


P/1 – Mas não como tecelã?


R – Primeiro quando nasceu a menina ela trabalhava, a minha sogra tinha que levar...


P/1 – Aonde ela trabalhou de tecelã?


R – Na Santa Branca, várias tecelagens por ali...


P/1 – Daquela região?


R – Tudo ali, né?


P/1 – Belém..


R – É, Belém, Brasil, na rua Ivair lá, sempre trabalhou por ali, sempre de tecelagem.


P/1 – O senhor tem muitos amigos atualmente, o senhor gosta de conversar com as pessoas?


R – Tenho, tenho.


P/1 – O senhor gosta de ter seus papinhos?


R – Tem, lá onde eu moro eu chego lá pra conversar, bater um papo assim, tem uns amigos.


P/1 – O senhor faz parte de algum grupo de terceira idade?


R – Não, não, eu fazia, mas agora não estou fazendo mais.


P/1 – Não gostou?


R – Não estava muito bom.


P/1 – A sua senhora faz?


R – Também não, nós dois fazíamos juntos, mas ela também, saímos os dois. Ela ajuda lá e nós... Tem o sindicato dos gráficos, nós somos sócios dos sindicato, eu e ela, e quando tem excursão, essas coisas, nós vamos viajar com eles. E tem umas pessoas que fazem excursão e a gente...


P/1 – Pensa se tem alguma coisa que o senhor gostaria de falar, que o senhor não falou.


R – Deixa eu ver.


P/1 – O senhor tem a liberdade de falar o que o senhor quiser.


R – Não, eu já falei. Tem muito ainda?


P/3 – Não, tem um tempinho.


R – Então, o que eu gostaria de falar são essas coisas que tem mais... O meu negócio é esse, uma vez no campo de futebol, eu peguei uma garrucha do meu pai, porque tinha um rapaz lá que estava meio encrencado comigo lá e eu encrenquei com ele e deu briga lá, mas só que não tinha bala a garrucha. Eu levei só a garrucha, sem bala, sem nada, só para assustar ele. Quando chegou lá, saiu uma encrenca e eu peguei a garrucha, falei que ia dar um tiro nele e falou para mim: “Ah, vira essa porcaria para lá, eu não tenho medo disso aí”. Eu fiquei meio sem graça, né? (risos)


P/1 – O senhor era criança ainda?


R – Não, eu tinha... Meu negócio mesmo era dezessete até vinte anos, mais ou menos. Mas foi, essas coisinhas que eu fazia e...


P/1 – O seu pai era sargento, o senhor falou?


R – Não, ele era praça mesmo, era soldado raso, ele era motorista do... Trabalhava com essas motocicletas, era motorista.


P/1 – Lá no Tatuapé? Naquela região ou não?


R – Não, nós morávamos lá, mas ele trabalhava aqui na cidade, onde tem o quartel aí. E mais... O que eu tenho mais para falar é isso, essas coisas, deixa eu ver. Tem tanta coisa que a gente esquece (risos).


P/1 – Como é que o senhor chegou até a gente aqui? Quem foi que...?


R – Na revista, eu vi uma revista, não sei o nome, como é que chama uma revista que saiu.


P/3 – __________?


R – Acho que é sim. É, é.


P/1 – Que revista?


P/3 – ___________.


R – Acho que eles entregaram lá no condomínio, no Tatuapé. Eu peguei lá.


P/1 – Aí o senhor se interessou em relembrar?


R – Eu tinha tudo isso aqui e falei: “Ah, deixa eu ver se...”


P/1 – E o que o senhor achou de conversar com a gente?


R – Ah, foi bom, foi gostoso. Deixa eu ver, aqui eu tenho marcado, vou dar uma olhadinha, vê se eu lembro de alguma coisa.


P/1 – Ah, depois nós vamos separar com o senhor as fotografias e...


R – Ah, tem no carnaval, espera um pouco, deixa eu contar isso (risos).


P/1 – Ah, do carnaval, o senhor não falou, né?


R – Não, não falei nada do carnaval, não. No carnaval eu, todos os carnavais eu me fantasiava. Uma vez eu fiz uma fantasia de urso, ninguém me conhecia e lá no bairro mesmo tinha um caminhão e nós íamos jogar bola, homem contra mulher, mas não era mulher, os homens se fantasiavam de mulher e os homens iam de gravata e as mulheres se arrumavam de mulher, tudo homem. E íamos jogar bola, eu ia de urso e jogava no gol de urso, eu era goleiro e eu tinha um cavalo, esses cavalos que tem... Lá no Nordeste tem muito, o meu pai fez um para mim, os cavalinhos de caipira, então nós saíamos sempre no carnaval e nosso... Aí a gente parava nos bares, bebíamos, o pessoal dava de graça porque era carnaval, era festa e no fim ficava todo mundo bêbado e todo ano tinha esse...


P/1 – Era baile mesmo?


R – Não, era na rua...


P/1 –  Na rua? Carnaval de rua?


R – Um bloco assim, saía no clube que eu jogava. Então todo ano eu me fantasiava e a molecada vinha toda atrás, aquela bagunça danada. Eu sempre gostei desse negócio de carnaval, mas assim, eu sempre me fantasiava de...


P/1 – Lembra de outra fantasia que o senhor tenha feito além de urso?


R – Não, fiz essa de urso e fiz essa com o cavalo de caipira que tinha um caipira. E uma vez de caipira, eu fui com chapéu de palha e fiz uma barba, um cabo de vassoura com saquinho atrás e andava assim, com lenço no pescoço. Essas fantasias mais de coisa.


P/1 – Bom seu Setembrino, a gente está encaminhando para o fim dessa entrevista, eu acho que foi uma coisa muito gostosa da gente bater um papinho, a gente conversou muito com o senhor, vimos uma época da sua vida que foi importante e nós queríamos agradecer muito a sua presença aqui e todo esse material que o senhor tem, que o senhor trouxe, o senhor vai deixar com a gente porque ele vai servir para complementar tudo isso que o senhor falou.


R – Isso aqui foi o que eu falei, está tudo aqui. Quer dizer que se tiver alguma coisa que eu esqueci...


P/1 – O senhor pode deixar com a gente isso?


R – Posso, posso sim.


P/1 – Tem algo a mais para perguntar? Faltou alguma coisa?


P/3 – Não, a gente vai encerrando então, muito obrigada pelo seu depoimento.


R – Obrigada a vocês por me aturar aqui (risos).


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+