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História

Seu Bibi de Itaquera

História de: Silvio Pimenta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

Silvio Pimenta, conhecido como Seu Bibi, recorda a chegada da família em Itaquera, episódio marcado por uma briga com vizinhos que quase levou um de seus irmãos à morte. Fala sobre o cotidiano da família e a dinâmica do bairro ainda antes da instalação de luz elétrica e água encanada. Seu Bibi chegou a desfrutar do Rio Jacu na época em que era propicio para nadar e pescar. Lembra das atividades do pai que trabalhou na antiga chácara de Sábbado D’Angelo, dono da fábrica de cigarros Sudan, e de como conseguiu o primeiro emprego. Conta ainda como conheceu a esposa cuja família era dona de olaria na região. Descreve com propriedade o processo de fabricação e transporte de tijolos. Além disso, Seu Bibi recorda os tempos de mocidade, quando frequentava bailes, participava dos cordões de Carnaval e jogava futebol.

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História completa

P/1 – Stella Franco

P/2 – Marina D’Andrea

R – Silvio Pimenta

 

P/2 – Qual é o seu nome completo?

 

R – Silvio Pimenta.

 

P/1 – Silvio Pimenta, eu conheci o senhor como “seu Bibi”. Da onde veio o apelido?

 

R – Não, veio o apelido pelo seguinte: meu pessoal, minha mãe, meu pai, meu irmãos diziam que quando eu era pequeno... Eu sou o caçula de sete filhos. Então, quando eu era pequeno, eles perguntavam qual era o meu nome e eu dizia Bibi. E ficou Bibi desde pequeno.

 

P/1 – Sei.

 

R – Então, é um nome caseiro. (risos)

 

P/1 – Está certo.

 

R – Joguei bola com o nome de Bibi e em Itaquera todo mundo me conhecia por Bibi, não é por Silvio. Silvio era somente o pessoal do grupo, quando estava no grupo e os mais, assim, chegados. Agora, para os amigos mesmo era Bibi.

 

P/1 – Certo.

 

R – Todo mundo me conhecia por Bibi.

 

P/1 – Seu Bibi, fala para a gente o local e a data do seu nascimento.

 

R – O meu nascimento? Eu não posso dizer nada do meu nascimento porque eu não lembro. Eu sei que é Freguesia do Ó.

 

P/1 – Sei.

 

R – Então, eu vim... Nós viemos para a Mooca eu era pequeninho. Teria mais ou menos acho que uns dois anos. Entende? Ficamos na Mooca seis ou sete anos e viemos para cá. Agora, eu não lembro do bairro, onde eu nasci, o bairro. Não me lembro de nada.

 

P/1 – Mas, em que ano o senhor nasceu?

 

R – 1920.

 

P/1 – E que dia? Que dia?

 

R – Sete de outubro de 1920.

 

P/1 – E aí vocês mudaram para...

 

R – Para Itaquera. Ah, bom, mudamos da Freguesia do Ó para a Mooca.

 

P/1 – Em que rua vocês moravam na Mooca?

 

R – Rua Monumento Brasil, 231, se eu não me engano. Ainda existe essa rua e tudo.

 

P/1 – Certo. Vou pedir agora para o senhor dizer o nome dos seu pais.

 

R – Eulálio Pimenta.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Modesta Neves Pimenta.

 

P/1 – E de onde eles são? Aqui mesmo do Brasil?

 

R – Não, eles eram espanhóis, entende? Eles eram espanhóis. Os dois. Se conheceram aqui em São Paulo. Já moraram em São João da Boa Vista também, tem um terreno muito grande lá, plantavam. Entende? E se conheceram aqui no Brasil.

 

P/1 – O senhor sabe o ano em que eles chegaram no Brasil?

 

R – Não, não sei não. Sinceramente, os anos assim... Eles mesmos, talvez... Bom, deveriam saber, não é, a data do nascimento, mas, infelizmente, a gente comentava assim, mas essas coisas a gente nem dizia nada. Acho que eles tinham vergonha de dizer que estavam velhos. (risos)

 

P/1 – E o que eles faziam? Qual era a atividade do seu pai?

 

R – Meu pai era agricultor porque lá em São João da Boa Vista ele plantava, aqui, viemos para Itaquera, embora o terreno não fosse grande, tinha mil metros quadrados, mas ele plantava e tínhamos fruta, entende? Então, era agricultor, mas não vivia disso também não, viu? Inclusive, ele trabalhou no Rodovalho...

 

P/1 – O que é que era?

 

R – O Rodovalho era uma agência funerária, né? Naquele tempo era o maior, assim, do ramo aqui em São Paulo.

 

P/1 – O maior sucesso na época, né?

 

R – É! Entende? Então, ele era cocheiro do Rodovalho.

 

P/1 – Onde ficava?

 

R – Olha, ficava, se eu não me engano, era lá no Brás, na rua Visconde de Parnaíba. Era lá daquele lado de lá.

 

P/1 – E ele era cocheiro da funerária?

 

R – Da funerária.

 

P/1 – O que exatamente ele fazia lá?

 

R – O que ele fazia? Ele dirigia um carro...

 

P/1 – Carro fúnebre?

 

R – Fúnebre.

 

P/1 – De...

 

R – Animais, cavalos. Não era... Naquele tempo, não tinha... Entende? Não tinha tantos automóveis. São Paulo era movido por animal. Assim, do modo... Vamos dizer, era carroça, charrete, inclusive os carros do Rodovalho.

 

P/2 – O senhor se lembra?

 

R – Não, não tinha nem nascido. Quando eu nasci, que eu me lembre assim, o meu pai já estava parado, entende? Porque ele sofreu de bronquite. Sofreu de bronquite pelo seguinte: o meu pai, ele não deveria ganhar muito, né? Então, ele trabalhava durante o dia e a noite ele tinha um outro emprego, ele lavava automóvel. Ele pegou aquela friagem e deu bronquite. Ele passava as noites sentado na cama tossindo, tanto é que ele até se rendeu de tanto tossir. E ultimamente, assim, vamos dizer, de uns anos antes de morrer, ele não trabalhava mais porque não podia. Ele passava quase a noite toda tossindo. Então, de madrugada que ele ia adormecer um pouquinho.

 

P/1 – Sei. Seu Bibi, o senhor se lembra da sua casa lá na Mooca?

 

R – Na Mooca? Eu lembro onde é.

 

P/1 - E como é que era essa casa?

 

R - A casa tinha, parece-me que quatro cômodos e cozinha. Ainda existe, mas só que agora está transformada. Ainda, há poucos dias passamos lá em frente. Então, era uma casa assim grande, mas térrea. Tinha um terreno, mais ou menos, e atrás era o Jockey Club de São Paulo. Não era onde é hoje, lá na...

 

P/1 - Cidade Jardim.

 

R - É, não era lá. Era aqui na Mooca. Tinha as corridas e tudo. Era na Rua Hipódromo, entende? Então, a gente morava lá. O terreno nosso era grande, mas de aluguel. De aluguel. Depois de lá, aí que nós viemos para Itaquera.

 

P/1 - E por que que vocês vieram para cá?

 

R - Para cá?

 

P/1 - É.

 

R - Porque o meu pai comprou um terreno. Meu pai tem um sítio no Iguatemi de sete alqueires, sete alqueires e meio. Então, o meu pai, naquele tempo, aqui na Central do Brasil, era Central do Brasil, a rede ferroviária aqui. Então, o meu pai vinha da Mooca até Itaquera... Ele vinha de trem aqui em Itaquera, ele descia a pé até o Iguatemi. Sabe onde fica o Iguatemi? Iguatemi fica atrás da colônia japonesa e ele ia a pé. Numa ocasião... Sempre sozinho. Nós morávamos na Mooca e ele não levou a gente porque uns estudavam, os outros meus irmãos trabalhavam. Então, ele vinha para cá e ia para casa só uma vez por semana. Então, quando ele ia, levava frutas, etc. Quando foi um dia, ele levou um tombo lá e bateu com o pulso numa touceira que ele tinha cortado, uma touceira de mato, né? E rasgou o pulso. Ele foi a pé, à meia-noite ele saiu daqui. Ele foi a pé daqui do Iguatemi até a Mooca.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Com tudo ensanguentado...

 

P/1 - E não tinha nada para ele se tratar aqui? Nenhum lugar para ele parar nessa época?

 

R - Para tratar? Não, ele mesmo se enfaixou, mas não tinha. Naquele tempo, olha como nós vamos para Itaquera aqui, que nós moramos aqui, tinha umas três ou quatro casas, entende? E umas três ou quatro casas. Só, não tinha muito mais. Aqui era do meu sogro, né? Tinha olaria e o resto era tudo... Aqui tinha uma outra olaria. O resto era tudo mato.

 

P/1 - E onde vocês foram morar em primeiro lugar?

 

R - Mesmo aqui, olha tanto é que nós vendemos o terreno... Meus pais faleceram e nós vendemos os terrenos. Agora, o terreno... Agora, eles desmancharam, fizeram... Vão fazer não sei o quê que eles vão construir e a gente morava aqui.

 

P/1 - Aqui onde?

 

R - Logo aqui na frente.

 

P/1 - Que rua que era?

 

R - Rua Sábbado D'Angelo, 1300, mais ou menos... 1300 e qualquer coisa.

 

P/1 - E aí, morava aí e tinha o sítio lá no Iguatemi.

 

R - Como?

 

P/1 - Morava aqui e tinha o sítio lá no Iguatemi.

 

R - Não. O meu pai trocou o sítio por essa casa e o terreno. E ainda, o dono da casa, do terreno, deu uma vaca. Deu dada assim. A troca foi feita pelos terrenos e ele deu uma vaca para o meu pai.

 

P/1 - E como era a sua casa...

 

R - A casa era dois cômodos e cozinha.

 

P/1 - E morava quem nessa casa?

 

R - Lá em casa, olha tinha dois cômodos e cozinha... No cômodo do quarto dormia o meu pai e a minha mãe na cama grande e eu… Eu e o meu irmão Zeca dormíamos no quarto. E na frente, dormia o meu irmão Jaime e o meu irmão Rafael. Os outros já eram casados.

 

P/1 - Entendi. Vocês eram em quantos irmãos?

 

R - Nós éramos em sete.

 

P/1 - E o senhor era o mais novo?

 

R - Era o caçula. Sou o caçula ainda. (risos)

 

P/1 - Era não, perdão. É o caçula. E os outros irmãos, quantos anos tinham quando o senhor veio para cá?

 

R - Ah, eram casados já. A minha irmã Guilhermina, o meu irmão Eduardo e a minha irmã Joaninha. Essa era a mais velha da casa. Era a Joaninha. o Eduardo, era o Jaime, era o Rafael, O Zé... O José e eu.

 

P/1 - E quando vocês mudaram da Mooca para cá, o senhor se lembra do dia da mudança?

 

R - Olha, o dia da mudança até que foi triste, viu? Porque o meu irmão levou uma facada nesse dia.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Sabe que o meu irmão Eduardo tinha um caminhãozinho. Ele fez a mudança, né? E quando ele foi buscar em duas vezes, quando ele foi buscar a segunda viagem, ele discutiu com... O meu irmão Jaime e eles discutiram com um rapaz que tinha um bar lá. Não era. Naquele tempo era uma venda, né? E chegaram a se dar tapa. Um dos irmãos, eles também tinham uns dois ou três irmãos. Um deles armado, um segurou e o outro veio por trás e deu uma facada no meu irmão Jaime.

 

P/1 - Nossa.

 

R - Aí, nós mudamos assim mesmo, mas o meu irmão Jaime foi atendido e foi parar na Santa Casa. Naquele tempo, só tinha Santa Casa por aqui, né? Aqui em São Paulo. Foi lá, ficou internado... Mas, olha quase... Ficou uns dias, não sei também quanto tempo, né? Ficou internado na Santa Casa e felizmente, se recuperou.

 

P/2 - E vocês chamaram a polícia? Como é que era essa coisa de polícia naquela época?

 

R - A polícia... Eu sei lá. Também, eu estou falando pelo que eu soube depois. Depois, que eu comecei a entender... Não tinha ninguém. A polícia era... Sei lá, tinha a força pública, mas... Eu sei que o cara não pegou nem cadeia.

 

P/2 - Não?

 

R - Não. Não pegou nem cadeia. Tanto é que o meu irmão Jaime faleceu agora há pouco tempo, ele tinha um buraco assim nas costas. Não seco, né? Afundou e ficou uma cicatriz com um buraco assim.

 

P/2 - O senhor tinha quantos anos na época?

 

R - Na época, eu deveria... Tinha uns sete anos. Oito anos porque nós viemos para cá nesse dia. Viemos para cá nesse dia.

 

P/1 - Quando vocês mudaram aqui para Itaquera, como era o cotidiano da casa de vocês, da sua família?

 

R - Como era?

 

P/1 - É.

 

R - Olha, é uma vida de pobre, entende? Uma vida de pobre. A minha mãe... Vou dizer mais, a minha mãe trabalhava na Alpargatas.

 

P/1 - Ahhh. Conta essa história, seu Bibi?

 

R - Nós viemos para cá, então a gente... O meu pai, ele não podia trabalhar por causa da bronquite. A gente era pequeno, três, quatro pequenos. E tinha a necessidade das coisas, então a minha mãe se sujeitou a ir trabalhar. Tinha um trem que saía daqui às quatro horas, não sei. E tinha um que saía de lá e viria assim umas dezoito, dezenove horas.

 

P/1 - Onde era?

 

R - Na Mooca, lá na Alpargatas... São Paulo Alpargatas.

 

P/1 - O que ela fazia lá?

 

R - Ela fazia a limpeza, sei lá. Porque coitada, ela não sabia nem ler e nem escrever. O meu pai também não. Não sabiam ler. Mas, o meu pai pegava um jornal, então ele chamava eu que já sabia ler ou a minha irmã. Ele dizia: “Guilhermina, lê essa notícia de Madri aqui.” Ele não sabia ler.

 

P/1 - Vocês que liam para ele?

 

R - Entende? Mas, ele olhava assim e sabia o que era pelas letras, sei lá? Então, ele pegava e dizia: “Ô Guilhermina, ô Bibi lê isso para mim.” Então, às vezes, a gente estava brincando, qualquer coisa, ele chamava, pulava para lá: “Ô Bibi, você lê...” (risos) Entendeu?

 

P/2 - Ele sabia que tinha pulado? Ele sabia que o senhor tinha pulado?

 

R - Que eu tinha pulado. (risos) Porque sei lá, calculava pelo espaço de tempo e eu terminava logo de ler... “Você vai ler isso direito.” (risos) Entende?

 

P/1 - Mas e aí, a sua mãe saía, pegava o trem aqui às quatro e meia, ou não?

 

R - E voltava à noite. Fez isso muito tempo. Depois, os meus dois irmãos acima de mim, arranjaram um serviço, começaram a trabalhar. A vida começou a melhorar, né?

 

P/2 -  E quando ela ia trabalhar, como é que ficava a casa, a família e tudo sem a mãe?

 

R - Essa minha irmã morava... Casada, ela morava quase pegado a nós né, entende? Então, ela fazia o serviço. Fazia o serviço que precisava fazer e quando a minha mãe chegava, a janta já estava pronta e tudo. Era só comer, né? Mas foi uma vida difícil, viu?

 

P/2 - É, com certeza.

 

R - E como.

 

P/1 - Como o senhor descreveria o seu pai e a sua mãe?

 

R - O meu pai era enérgico... (pequena pausa) (choro) Saudade deles.

 

P/2 - Não chora não, Bibi. Não chora não. A vida é assim mesmo.

 

R - O meu pai, ele queria tudo certo. A minha mãe não. Então, a minha mãe, às vezes, entre... Porque criança brigava, né? Com os meus irmãos e, geralmente, apanhava porque eu era o caçula, né? Então, ela pegava, ela brigava, ainda mais na frente do meu pai, se ele dissesse: “Bibi, vem aqui!” Porque ele era enérgico, né? Eu ia, mas a minha mãe, nós fugíamos. (risos) Agora, o tratamento deles com a gente, o meu pai sempre... Uma ocasião, ele contou um caso para ver de que maneira ele tratava a gente assim com energia... Eu conversando com ele, eu falei assim... Eu ia falar sobre um vizinho, então eu falei: “Papai, o Cisto...” Ele falou: “O que que foi?” Eu falei: “O Cisto...” Ele falou: “O que que foi?” E eu repeti três vezes, “O Cisto...” Eu ia falar qualquer coisa sobre o vizinho, eu falei: “O Cisto..." Entende? E a gente, entre nós, a brincadeira... A gente brigava. Eu e meus irmãos, eles me batiam, e tal. Assim, numa boa, vamos dizer. Tanto é que tem uma coisa, quando nós jogávamos bola, nós éramos em cinco jogando no  mesmo time, entende? Então, acontecia qualquer coisa comigo, eles ficavam que nem uma fera.

 

P/1 - O senhor era o protegido.

 

R - E como. (risos)

 

P/1 - Mais novinho.

 

R - Mais novo. Eu tinha, quando eu comecei a jogar bola, eu tinha uns quinze anos... Catorze para quinze anos. Então, esse meu irmão Eduardo, o mais velho, jogava naquele tempo era beque. A gente jogava de beque, né? O cara que eu marcava era um meio bruto, meio sujo, então o meu irmão dizia: “Bibi, passa você para o lado de cá.” E ele ia para aquele lado que eu estava para pegar o cara. (risos)

 

P/1 - Seu Bibi, quais que eram as brincadeiras aqui no bairro entre a garotada?

 

R - Bom, entre a garotada, o nosso divertimento maior era jogar bola.

 

P/1 - Sei.

 

R - Então, a gente estava em casa, ia jogar bola.

 

P/1 - E onde que era?

 

R - Aqui, em frente à casa em que nós morávamos. E do lado debaixo, que depois eu cheguei a conhecer o meu pessoal do meu sogro, depois de crescidinho, do lado debaixo no terreno do meu sogro, tem um campo bom para a gente jogar. Então, a gente jogava assim, numa festinha, a gente ia assim, vamos dizer também... Entende? Mas, a nossa diversão era futebol, desde pequeno e pipa. Empinar pipa. Que mais a gente fazia? Também era.... Não tinha mais nada. Ah, brincava de acusado.

 

P/1 - Acusado, o que é isso?

 

R - Acusado é o seguinte; a gente bate cara aqui, né? E os outros vão se esconder, daí a gente vai procurar os caras. Se eles pegarem a gente antes da gente bater no "pics", era um ponto para eles.

 

P/1 - Tipo esconde-esconde.

 

R - É, mais ou menos isso.

 

P/1 - E onde vocês brincavam de acusado?

 

R - Lá mesmo. Lá mesmo.

 

P/1 - Na Sábbado D'Angelo.

 

R - Em frente à nossa casa. Ou se não, depois quando a gente já estava mais crescido, o negócio era dançar.

 

P/1 - E onde que eram feitos os bailinhos?

 

R - Era na casa de um... Tinha um bar, uma venda, né? Era uma venda onde vendia pinga, vendia feijão, vendia arroz, vendia de tudo. Então, lá na casa dele, a gente dançava. Depois, a filha desse senhor começou a namorar com um rapaz que tocava sanfona, filho do Espacão que era oleiro aqui, também um grande cara, né? E a gente dançava lá, juntava nós dentro da venda, juntava os sacos de feijão, de arroz tudo do lado e ficava dançando ali.

 

P/1 - Dentro da vendinha, vocês...

 

R - Dentro da vendinha, mas tudo na maior amizade, entende?

 

P/2 - E era que dia esse bailinho?

 

R - Como?

 

P/2 - Era sábado, domingo...

 

R - Não, geralmente era de sábado para domingo.

 

P/2 - À noite?

 

R - É. À tarde, à noite, entende? Porque, antigamente, eu trabalhava no escritório, né? Entrava às oito horas da manhã, mas sabe a senhora que horas eu chegava    

lá? Quando dezoito e trinta, dezenove, entende? Também, o meu horário de sair era das oito às dezoito. Quando era dezessete e trinta, dezessete e pouco, eu saía. Eles sabiam que eu tinha de pegar o trem, então eu saía mais cedo, também entrava mais cedo.

 

P/1 - Seu Bibi, e o rio Jacu era perto da casa de vocês?

 

R - Era aqui no fundo. E lá também era no fundo. Era a nossa diversão também, tomar banho.

 

P/2 - No rio?

 

R - No rio.

 

P/2 - Como é que era o rio?

 

R - O rio era... Aqui não, aqui era, vamos dizer, estreito, né? Mas, era uma lagoa grande, limpo. Depois, no fim começaram a por esgoto e tal, nós desistimos. Mas antes, era água... A senhora olhava assim, via o fundo do rio.

 

P/1 - E tinha peixe?

 

R - Tinha. Tinha, a nossa também, a nossa distração era ir pescar. Naquele tempo, eles esgotavam a lagoa, tirava a água de um buraco para passar para o outro, pegava peixe assim.

 

P/1 - Ah é?

 

R - É.

 

P/2 - De uns trinta centímetros?

 

R- É.

 

P/1 - E levava para casa?

 

R - Levava. Levava para casa.

 

P/2 - Leva para comer?

 

R - Para comer. Era peixe bom, coisa boa porque não tinha sujeira no rio, entende? Não tinha sujeira.

 

P/2 - E esses bailinhos que o senhor ia, que idade o senhor tinha?

 

R - Eu deveria ter, mais ou menos, oito a dez anos.

 

P/2 - Ia no baile?

 

R - Ia. Ia porque era no fundo de casa. Era um pouco mais para cá de casa.

 

P/2 - Mas, o senhor dançava?

 

R - Não. Não, naquele tempo ainda não. Mas, eu comecei a dançar com quinze, dezesseis anos, entende?

 

P/2 - O senhor lembra que músicas que vocês gostavam mais?

 

R - Olha, eu não lembro dizer os nomes das músicas, mas a qualidade da música... Eu gostava de dançar samba e marcha. Que tinha naquele tempo, tinha tango, tinha rancheira, tinha folks.... E eu gostava de dançar era marcha e samba

 

P/1 - Ô seu Bibi, o senhor frequentou escola?

 

R - Frequentei.

 

P/1 - Qual escola?

 

R - Grupo Escolar de Itaquera.

 

P/1 - Onde que era?

 

R - Na Mooca, como era... Academia de Licenças Comerciais Cesário de Carvalho na rua da Mooca.

 

P/1 - Primeiro foi aqui em Itaquera?

 

R - Aqui em Itaquera. Eu me formei primeiro aqui.

 

P/1 - E onde que era essa escola?

 

R - Olha, sabe onde é a prefeitura?

 

P/1 - Sei.

 

R - Ali era o Grupo. Depois de lá... Ah não, esqueci de falar. Era aqui, sabe onde é a Nife?

 

P/1 - Sei.

 

R - Havia a Nife, um pouco mais para cá, encostada na linha do trem. Depois de lá, passou aqui para...

 

P/1 - Para prefeitura.

 

R - Prefeitura. Depois, eu já não peguei. Eu já tinha saído. Depois da prefeitura, passou aqui para trás.

 

P/1 - Esse Grupo Escolar era o Álvares de Azevedo?

 

R - Como?

 

P/1 - Era o Álvares de Azevedo?

 

R - Era Grupo Escolar de Itaquera.

 

P/1 - De Itaquera.

 

R - Era antigamente.

 

P/1 - E o senhor se lembra do primeiro dia em que o senhor foi para a escola?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Como é que foi?

 

R - Como de costume, né? Era meio choroso e tal. Depois, começamos a amizade e como o Grupo era aqui na Nife, tinha o campo do Elite, era só atravessar a linha e a gente ia jogar. A gente ia cedo; entrava às sete... Parece que das sete ao meio dia. Parece que era das sete, ou das oito ao meio dia. Então, a gente ia mais cedo para jogar bola, a gente ouvia o sinal, quando dava o primeiro sinal, nós saíamos correndo e íamos embora. (risos) Às vezes, tudo sujo, a roupa embolada. Mas, os professores, eles entendiam e não falavam nada.

 

P/1 - Como era a disciplina da escola?

 

R - Olha, tem o seu Miranda, o diretor...

 

P/1 - Seu o que?

 

R - Seu Miranda.

 

P/1 - Miranda.

 

R - Eu não sei o primeiro nome, mas o sobrenome era Miranda. Ele era enérgico. Era um senhor calvo, de óculos, enérgico que nem sei lá o que. Tinha uma professora, dona Anita que morava aqui em cima, também era uma coisa... Não se podia fazer nada que ela achava ruim. Agora, tem também, as pessoas, as professoras... Geralmente eram professoras. A gente até abusava, entende? Porque a pessoa quando é muito boa, em grupo, nessas coisas, a turma abusa, entende? Mas, era assim.

 

P/1 - E era colégio misto, ou escola mista?

 

R - Não, era um grupo aí. Era mista.

 

P/1 - Tinha homem... Tinha meninas...

 

R - Tinha meninos e meninas, mas na classe era separado. A classe era separada; meninos numa classe e meninas na outra classe.

 

P/1 - Entendi? E como é que ia para a escola, seu Bibi?

 

R - Olha, a gente chegava... Eu vou lhe dizer, a gente chegava até descalço.

 

P/1 - Ah é? (risos)

 

R - É. É mesmo. E outra coisa; o meu pai, esse também... O meu pai trabalhou no Sudan aqui, na Sábbado D'Angelo... Sábbado D'Angelo era o nome do dono da fábrica de cigarros Sudan, na rua Glicério. Então, o meu pai era... Tomava conta dos animais e da chácara lá, entende? E o meu pai, vamos dizer... Até esqueci a pergunta.

 

P/2 - Que eu estava falando antes, como o senhor ia para a escola, o senhor disse que ia descalço.

 

R - É. Então, às vezes... Isso que eu queria dizer; ele tinha duas filhas, a Leni e a Anitinha, entende? A Anitinha era mais nova, mais ou menos da minha idade, então, ela como não tinha... Sudan era riquíssimo, a mãe dela, dona Anita pegava e dava os pares de sapato para o meu pai jogar fora. E o meu pai chegava em casa e dizia: “Vem ver, vê se serve algum para você.” E lá em casa, eu andava com sapato... (risos)

 

P/1 - Filha do Sábbado D'Angelo.

 

R - Do Sábbado D'Angelo.

 

P/1 - Eles tinham chácara por aqui?

 

R - Isso daqui era tudo deles. Aí, era tudo deles.

 

P/1 - O senhor chegou a conhecê-lo ou não?

 

R - Conhecer? Poxa, cheguei a conviver assim com eles. Quase, o meu pai me levava, às vezes, para a casa... Nós morávamos em frente de uma casa deles. Então, às vezes, o meu pai me levava para lá para fazer alguma coisa, entende? E tive assim, graças à Deus e felizmente, a oportunidade de falar com ele, um grande cara, viu? Um homem exemplar. Tive a liberdade de falar com ele, e oportunidade de estar cem por cento...

 

P/1 - Então, a casa onde vocês moravam era nas terras deles?

 

R - Eram deles. Era deles. Tinha a casa na frente, um terreno muito grande e no fundo era criação. Era meu pai que tratava. Pegava um ajudante, ou dois porque o meu pai com animais assim, era muito entendido, viu?

 

P/2 - Que animais tinha lá? Que animais?

 

R - Tinha galinha, tinha peru, tinha ema, tinha avestruz, tinha cavalo, inclusive chegou a ter num dia, foi um cara lá vender um veadinho e criamos num galinheiro fechado.

 

P/2 - E tinha esses bichos para fazer o quê? Um zoológico?

 

R - Nada. Ele gostava.

 

P/2 - Ema, avestruz...

 

R - Não, ele deixava... Não que fosse para....

 

P/1 - Para vender?

 

R - Não. Aquilo era...

 

P/2 - Nem para comer?

 

R - Não. Ele não matava a criação. O Sudan não matava. O meu pai pegava... À tarde, pegava uma cesta, punha os ovos porque tinha muita criação, muita galinha e levava para na casa dele.

 

P/1 - Onde que ele morava?

 

R - Em frente quase. Aqui. Se quiser, a gente dá... Em frente quase à chácara.

 

P/1 - Ah, então ele chegou a morar aqui em Itaquera?

 

R - O Sudan?

 

P/1 - É.

 

R - Morou.

 

P/1 - Morava aqui.

 

R - Morou.

 

P/1 - Mas, a fábrica não era aqui, né?

 

R - Era na rua Glicério. Ele ia toda a manhã para lá.

 

P/1 - Lá no Brás?

 

R - No Brás... Não, entre a Mooca...

 

P/1 - E o Brás.

 

R - É. Entende? Ele ia cedo, sete horas parece que ele saía daí, voltava tarde, dezessete, dezessete e pouco ele estava ai. Quando chegava na linha... Porque antigamente a linha do trem, a gente atravessava; o pedestre, veículos passavam pela linha do trem. Tinham duas pontes. Era uma do lado de lá, e outra do lado de cá. Então, ele chegava lá, atravessava a linha, porque ele ia com motorista, ele não guiava. Chegava na linha, o motorista dava uma buzinada. E é longe. Sabe onde é a estação? E a casa dele aqui. Meu pai já sabia. Chegava, abria o portão para ele entrar direto.

 

P/1 - E ouvia?

 

R - Ouvia.

 

P/1 - Puxa!

 

R - Ouvia. Às vezes, a gente sai brincando e: “Papai, o Sudan...”, a gente falava, “o Sudan vem vindo.”

 

P/1 - O Sudan?

 

R - É, o Sudan. Porque era Fábrica de Cigarros Sudan. Sudan.

 

P/2 - Como é que era o nome completo dele? O senhor se lembra?

 

R - Do...

 

P/2 - Do Sudan.

 

R - Lembro. É... Como é que eu falei a rua, agora?

 

P/1 - Sábbado D'Angelo.

 

R - Sábbado D'Angelo.

 

P/2 - Ah é, era o nome dele?

 

R - É o nome dele!

 

P/2 - Sábbado D'Angelo Sudan?

 

R - Não, Sudan é o nome da firma.

 

P/2 - Sei.

 

R - Cigarros Sudan.

 

P/2 - Mas, não era o nome dele?

 

R - Na rua Glicério.

 

P/2 - Ah, tá.

 

R - Era o nome da firma dele.

 

P/1 - Seu Bibi, e as olarias? Vamos falar um pouco das olarias aqui no bairro. O senhor conheceu olaria?

 

R - Puxa vida, quanto eu brinquei lambuzado dentro dessas olarias, no terreiro. Meu sogro teve uma olaria. Teve aqui no fundo. Tem o José Cícero, o Espacão; Francisco Gianetti. Aqui também.

 

P/1 - E por que é que tinha olaria aqui?

 

R - Vendiam tijolos. Vendiam tijolos. Meu pai, depois trabalhou de carroceiro. Então, eles pegavam tijolos para usar aqui na olaria e levava na estação, o pátio, para carregar. Depois, encostavam os vagões, depois os tijolos empilhados lá, e punha dentro dos vagões os tijolos e levavam para a Mooca, no pátio Norte, estação do norte. Era Central do Brasil. Então, levavam lá no pátio e de lá, no pátio, eles carregavam e levavam sei lá para onde. Para o Rio, sei lá.

 

P/1 - E como é que fazia o transporte do tijolo da olaria?

 

R - Com uma carroça.

 

P/1 - Ah!

 

R - Uma carroça com dois burros.

 

P/1 - Ah é?

 

R - É. Então, carregavam.

 

P/2 - E como era o processo... Como é que fazia o tijolo?

 

R - O tijolo é o seguinte: tem uma caixa, menor do que aquilo, mais ou menos que nem aquela. Aí, faz o seguinte: tem o terreno onde eles tiram o barro. Entende? Aí, eles pegam, tiram o barro de lá do barreiro e sobem para a pipa, e trazem para a pipa. A pipa é um negócio assim, giratório, com dois animais. E o animal trabalha assim. Então, enche aqui... É um tipo de um...

 

P/1 - Um tonel?

 

R - É, é um tipo de tonel. Mas, é grande, né? Mais ou menos assim. Eles enchem aquele tonel de barro e os animais virando tem dentro um tipo de saca-rolhas, mas grande, vai virando, o barro vai penetrando e vai saindo por... Tem um buraco aqui para sair por aqui. Eles pegavam aqui aquele barro, tiravam, punham em um carrinho e levavam para o terreiro para pôr na caixa...

 

P/2 - Forma, né?

 

R - É. Na caixa, eles punham para deixar secar, depois do tijolo seco, eles levavam para o forno e ficava três dias, me parece, três dias e três noites depois do forno cheio. Ia oitenta mil tijolos, sessenta ou cinquenta de acordo com o forno, né? Aí, eles punham fogo, ficava queimando três dias e três noites. Ficava queimando. Depois, acaba as três noites e os três dias, deixava o fogo morrer, deixava os tijolos secarem não sei quantos dias, aí depois tiravam do fogo e levavam para a estação ou vendia para Itaquera mesmo.

 

P/1 - E não quebrava o tijolo?

 

R - Quebra, muitas vezes quebra. Mas, geralmente não porque o tijolo está bem queimadinho, fica uma pedra, vai.

 

P/1 - E de onde que extraia esse barro?

 

R - Do barreiro. O barreiro... Sabe o que é o barreiro? Aí, o terreno era grande, né? Então, eles ia lá... É um barro especial. Eles tiravam, encostavam com uma carroça também, enchia a caçamba... A gente chamava de caçamba de barro e levava para descarregar o barro na pipa.

 

P/1 - Tá.

 

R - E fazia.

 

P/1 - E esse barro não acabava?

 

R - Não, geralmente, aqui no meu sogro tinha o terreno grande, então, andava lá, era só buraco. Era o buraco de tirar o barro, né?

 

P/1 - Entendi.

 

R - Era aonde nós íamos pescar porque era buraco, dava enchente, enchia aquilo e os peixes iam, ficavam ali. Quando acabava a água, acabava a enchente, ficava só a água dentro daqueles buracos. Mas, não era buraquinho. Era buraco de sete, oito, dez metros de...

 

P/1 - Parece um lago então, uma lagoa.

 

R - Então, a gente ia lá. Eu, principalmente, e o meu irmão, a gente esgotava. Tirava aquela água da lagoa e os peixes ficavam no lodo.

 

P/2 - Aí, era só correr atrás. Ia correndo atrás dos peixes.

 

R - Porque eles se batem, né? Fica no barro, falta água, começa a se bater. A gente ouvia o barulho e ia lá pegá-lo.

 

P/2 - E o terreno era do dono da olaria?

 

R - Era do meu sogro aqui porque nós fazíamos... Mas, a gente nem sabia que ele iria ser nosso sogro. São dois irmãos que casaram com duas irmãs.

 

P/1 - Quais os nomes deles? Os nomes?

 

R - Delas

 

P/1 - É.

 

R - Da minha cunhada?

 

P/1 - É.

 

R - Pascoalina casada com o meu irmão Zeca, o José Pimenta. E a Natalina que casou comigo. E começamos, sabe como o namoro? Nem namorava porque o meu irmão, ele chegava para mim e dizia: “Bibi”... Porque o pai delas era muito enérgico, né?

 

P/1 - Como é que ele chamava? Como que ele chamava?

 

R - O quê?

 

P/1 - O pai delas?

 

R - Américo Salvador Novelli.

 

P/1 - Ele que tinha as terras da olaria.

 

R - É.

 

P/1 - Tá.

 

R - Então, o Zeca dizia para mim: “Bibi, vamos num tal lugar aí. Vamos na casa não sei de quem.” “Ah, Zeca.” “ Não, vamos. A Natalina vai.” Que era a minha mulher. Mas, eu ia para fazer companhia. Ela ia para fazer companhia à irmã e eu ia para fazer companhia ao irmão para ele não... Então, a gente ia e começou assim. Eu nem falei para o pai dela, só falei para o pai dela quando ia casar.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Só.

 

P/1 - Nem falou que estava namorando.

 

R - Nem para namorar, nem para nada. Foi assim, um namoro assim de que nasceu da amizade.

 

P/1 - Mas, tinha que namorar escondido, seu Bibi?

 

R - Opa. Eu saía com ela e ele sabia, mas talvez pensasse que fosse uma amizade e da amizade surgiu amor.

 

P/1 - E quem casou primeiro, o senhor ou o seu irmão?

 

R - Ah, o meu irmão.

 

P/1 - Ah é?

 

R - O meu irmão casou bem... Um dois, três anos.

 

P/1 - E o senhor?

 

R - Eu casei em 1945, casei... Eu só cheguei no dia e falei: “Olha, seu Salvador, quero casar, se puder, tal dia, né?” “Olha, tudo bem.” Eles gostavam muito de mim. Tudo bem.

 

P/1 - E como é que foi o casamento?

 

R - O casamento foi... Sabe, eles tinham um pouco de poder, né? Eu não tinha nada. Trabalhava para comer. (risos) Então, veio muita gente, inclusive veio um que foi vereador, Elias Chamas, grande cara que... Porque o meu sogro, ele era meio político.

 

P/1 - Ah era?

 

R - Não é político assim, era meio atrasadão, assim... Coitado, sempre trabalhou fora assim, na olaria. Mas, ele tinha muita amizade. Ele foi conhecendo essa turma... O Ademar de Barros, já ouviu falar?

 

P/1 - Já.

 

R - O Ademar de Barros, eu tive... Eu não sei se foi, mas eu tive a satisfação de almoçar, jantar com eles assim, comitiva deles. Eles iam sempre no meu sogro, fazer comício, entende? Então, Ademar de Barros vinha aí, com três, quatro amigos. O meu sogro matava cabrito, matava leitão e a gente passava assim, entende? E, o que me motiva é a satisfação de, embora pobre, ter a liberdade de falar, conviver com esse pessoal.

 

P/2 - Como é que ele era, o senhor se lembra do Ademar?

 

R - Do Ademar? Ademar de Barros era um cara forte, forte mesmo; bem mais alto do que eu e ele... Vamos dizer, era até que... Só que bebia um pouquinho. Mas, assim... Inclusive um dia, o clube foi jogar, o clube em que eu jogava foi jogar em Santa Isabel. E Santa Isabel era terra da pinga. Muito famosa. E eu convidei o meu sogro, o meu sogro falou: “Olha Bibi, vamos fazer uma coisa.” E nesse dia, o Ademar de Barros vai fazer uma visita em Santa Isabel, ele era candidato a governador de São Paulo. “Então, eu vou junto com vocês.” Nós fomos. Nós fomos. Chegamos lá, eles foram fazer o comício, nós fomos jogar bola, né? Mas, o Ademar gostava de chutar um pouquinho também. Gostava.

 

P/2 - Mas então, era o lugar da pinga. O senhor ia contar...

 

R - Nós fomos jogar, mas aproveitando... Não, porque naquele tempo, eu vou dizer sinceramente, eu nem bebia nada. Agora, eu tenho... Eu tomo uma pinga, tomo uma caipira e tal. Mas, não bebia não, porque, geralmente, a gente que joga bola não... A não ser que o cara já é viciado. Então, a gente ia lá, passava o dia e voltava à noite.

 

P/2 - Mas, o senhor tem algum caso para contar sobre essas... A vez que o senhor viu o Ademar de Barros...

 

R - Ah?

 

P/2 - Aconteceu alguma coisa engraçada?

 

R - Bom, coisa engraçada, assim vamos dizer... Porque (o que) acontece, ele chegava em Santa Isabel, tinha que fazer um comício, ia participar, não ficava com a gente porque nós íamos jogar, entende? Para nós, o que interessava, principalmente, naquela... O que interessava era o futebol, entende? Interessava o futebol e eles iam fazer o comício dele e nós ficávamos no campo.

 

P/1 - Seu Bibi, eu queria que o senhor contasse um pouquinho mais do futebol aqui no bairro de Itaquera, porque é famoso o futebol aqui, né?

 

R - Foi. Naquele tempo era bom.

 

P/1 - Como é que era? Era futebol de várzea?

 

R - De várzea. De várzea.

 

P/1 - Tinham vários times?

 

R - Jogavam.

 

P/1 - Quais eram os principais?

 

R - Bom, aqui no tempo que eu joguei; eu joguei no Amor e Glória, um bom time. Naquele tempo tinha Amor e Glória, tinha Elite, Democrático, tinha a Nife, tinha uns... Tem uns dez times, entende? Então, nós formamos um time com a ideia do meu irmão Eduardo que era presidente do time, ele falou o seguinte: “Não vamos jogar contra clube de Itaquera para não haver briga.” Porque sempre havia briga entre jogadores, entre a torcida. Então, era isso; jogava-se um festival, então jogavam todos os times, mas não um contra o outro. A gente arranjava... É, tinha, vamos dizer, oito times, jogava, arranjava oito times de fora.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Para participar. Clube de Itaquera não jogava um contra o outro.

 

P/1 - E era esse o consenso entre todos os times? Todos os times pensavam igual, que não podia jogar um contra o outro?

 

R - Todo mundo sabia.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Todo mundo sabia.

 

P/1 - Aí, disputava sempre um time de Itaquera contra...

 

R - Contra um de fora. Então, vamos dizer, formava quatro times para jogar contra quatro de Itaquera. Disputava oito taças porque era primeiro e segundo.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Disputavam oito taças, entende? Agora, é claro que... Vamos dizer, jogava o meu time contra o outro time, mas os times que estavam de fora de Itaquera torciam contra a gente.

 

P/1 - Ah é?

 

R - É. Um time não gostava do outro.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Entende?

 

P/1 - Então, o pessoal do bairro torcia contra, mas aí vocês torciam contra?

 

R - Torcia contra. Eu mesmo, vou dizer sinceramente, eu ia num campo assistir um jogo quando o meu time não tinha jogo, eu ia assistir o jogo e ia torcer contra o time de Itaquera. Não assim de pá... Mas, por dentro, eu era...  Então, a gente ia no campo, embora o time que a gente fosse assistir a jogar fosse de Itaquera, torcia contra.

 

P/1 – E o senhor era Amor e Glória Itaquerense?

 

R – Amor e Glória.

 

P/1 – E o senhor tinha dito outro também? Outro time que o senhor pertenceu?

 

R – Democrático.

 

P/1 – Democrático.

 

R – Democrático.

 

P/1 – E o Democrático era um clube também ou não?

 

R – Um clube, um clube que tinha salão de baile...

 

P/1 – Ah é? O senhor chegou a ir alguma vez?

 

R – Uhh. Nós íamos todo sábado, todo domingo à tarde. Era matinê. Eu e o meu irmão Zeca, o Zeca dançava bem. Nós íamos aqui também, no Elite. Antes do Democrático, nós íamos no Elite onde é a loja Pernambucana. Então, ali era o salão de baile. A gente ia dançar lá.

 

P/2 – Agora, o senhor lembra assim, por exemplo; cada clube de futebol, que tipo de pessoas que reunia? Por exemplo, tinha clube dos espanhóis, dos japoneses?

 

R – Não. Aqui era... Eu acho que não tinha essa... Japonês, dificilmente, vinha assistir jogo.

 

P/2 – Ah é?

 

R – Dificilmente. Nós tivemos no... parece que um ou dois jogadores japoneses. E também tivemos dois. O Democrático, eu acho que nunca teve nenhum jogador japonês, entende? Eles não se misturavam.

 

P/1 – Seu Bibi, então a colônia era uma coisa bem distante da vida de vocês?

 

R – Era. Era, pelo seguinte, pela distância também, entende? A colônia japonesa sabe onde é?

 

P/1 – Sei.

 

R – Então, eles tem quase que... Eles mesmos faziam... Vamos dizer, uma brincadeira, fazia aquelas reuniões deles e quase ninguém de fora participava. Só eles mesmos.

 

P/1 - O senhor chegou a ir alguma vez na colônia?

 

R – Cheguei.

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – A gente ia lá, Ultimamente tinha festa. A gente ia lá, participava e assistia, né?

 

P/2 – Que tipo de festas?

 

R – Tinha de tudo quanto era brincadeira, entende? E tinha futebol, tinha um monte de coisas. Comida, vendiam fruta e, inclusive, vinham os políticos aí, né?

 

P/1 – Ah é?

 

R – Vinham, vinham políticos.

 

P/2 – As comidas eram típicas japonesas?

 

R – Não entendi?

 

P/2 – As comidas eram de japoneses?

 

R – Japonesa.

 

P/2 – E vocês comiam?

 

R – Não. A gente ia lá mais para brincadeira, mais... Não interessava... (risos)

 

P/1 – Seu Bibi, o senhor falou em Casas Pernambucanas, eu me lembrei de uma coisa, tinha cinema aqui?

 

R – Teve.

 

P/1 – Porque ouvi falar não sei que era lá, onde era a Casa Pernambucana?

 

R – Nas Pernambucana.

 

P/1 – E como é que chamava esse cinema?

 

R – Cine Itaquera.

 

P/1 – E a garotada ia para o cinema?

 

R – Ia.

 

P/1 – Conta um pouco para a gente, como é que era o cinema?

 

R – Ali, tinha... Passava, vamos dizer, não sei se todas as noites. A gente frequentava sábado e domingo, pelo seguinte; porque eu, principalmente, entrava cedo no serviço. Eu passava a noite inteira dançando ou assistindo... No dia seguinte, trabalhava. O meu irmão fazia isso; o meu irmão Zeca, no carnaval, ele dançava. Naquele tempo, era sábado e domingo e não era na sexta, na... Era sábado e domingo, a matinê. Sábado à noite e domingo, a matinê. Então, o meu irmão ia sábado à noite e domingo à matinê. Mas, eu como era mais sossegado, ia só na matinê.

 

P/2 – O senhor está falando de baile ou de cinema?

 

R – Como?

 

P/2 – O senhor está falando de cinema...

 

R – Cinema.

 

P/2 – Ou baile?

 

R – Baile também.

 

P/2 – Ah, baile também.

 

R – Era ótimo.

 

P/1 – Pelo que eu estou entendendo, o carnaval acontecia dentro do cinema, é isso?

 

R – Era. O carnaval... Tirava as cadeiras e dava um baile aí.

 

P/1 – Dentro do cinema.

 

R – Segunda era sábado. Sábado à noite, domingo matinê, domingo à noite, segunda e terça. Terça era matinê e à noite.

 

P/1 – E tinha fantasia?

 

R – Tinha.

 

P/1 – De quê?

 

R – Ah, tinha de tudo quanto era fantasia. (risos) Tinha muita.

 

P/2 – E na rua tinha carnaval?

 

R – Olha, depois... Depois, no tempo de Amor e Glória tinha um senhor de cor, ele vendia pinhão. Então, tocava sanfona e um dia, ele falou para o meu irmão, um dia de carnaval: “Ô Eduardo, vamos fazer um cordão?” Então, nós organizamos um cordão e saímos fantasiados. Saíamos dançando e cantando, tocando sanfona. Inclusive, íamos ao cinema aí no... Tinha um salão de baile onde é o cinema... Onde é a Pernambucanas, a gente entrava lá com o cordão. Depois, dava a volta no meio do salão e saía outra vez.

 

P/2 – Como é que se chamava o cordão?

 

R – Ah, era Amor e Glória.

 

P/2 – Mesmo?

 

R – Era Amor e Glória. Era o mesmo.

 

P/1 – Cordão é um grupo de pessoas?

 

R – É, um grupo de pessoas, vamos dizer, duzentas, trezentas pessoas...

 

P/2 – Todos vestidos igual?

 

R – Tudo... Não, a minha era... Eu, principalmente ia no cordão, mas vestido, naturalmente, assim. Nunca gostei de muita coisa não.

 

P/1 – E as pedreiras? As pedreiras ficam aqui perto?

 

R – Pedreira?

 

P/1 – É.

 

R – A pedreira era aqui na Líder. Sabe onde é a Líder?

 

P/1 – Sei.

 

R – Então, a pedreira era do lado assim.

 

P/1 – Vocês iam lá, quando eram pequenos?

 

R – Não, eu cheguei a ir muitas vezes porque nós sempre tivemos animais, né? Então, às vezes, sumia um animal e outro e a gente ia procurar. Inclusive, ia na pedreira porque tinha muitos animais lá. Não, o dono da pedreira. Animais de todo mundo, vai?

 

P/1 – Por que eles iam para lá, seu Bibi?

 

R – Por causa do mato, da grama, né? Tinha muita grama e eles iam para lá. O pasto era bom.

 

P/1 – E aí, tinha as explosões das pedreiras? Tinha as explosões?

 

R – Tinha. Daqui, a gente ouvia.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É. A Líder é longe, né?

 

P/1 – Ah.

 

R – Daqui, lá. Pois, a gente ouvia as explosões. Ouvia.

 

P/2 – E agora, como é que está isso? Acabou?

 

R – Não, olha, eu sinceramente, deixa eu falar uma coisa; eu não sei, até pouco tempo, o buraco existia porque aquilo tinha uns vinte metros de altura e aqui embaixo era onde eles explodiam as pedras e era caminho para os caminhões irem buscar pedra. E tem... Mas, é uma altura medonha.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É.

 

P/1 – E afastado? Afastado da cidade? É afastado?

 

R – Não, é aqui na Líder. Do lado da Líder. Bom, não era... Porque naquele tempo, tudo era afastado, uma coisa da outra. Naquela época não tinha quase nada. Hoje não. Hoje, todo mundo está vivendo em cima do outro.

 

P/2 – Quem explorava a... Quem é que explorava a pedreira?

 

R – Olha, ali... Era um dono, mas eu nem me lembro. Eu sei que quem tomava conta era os Barretos. Os Barretos, né? Mas, o dono eu não sei não.

 

P/1 – Seu Bibi, vamos falar um pouquinho do seu trabalho agora, quando é que o senhor começou a trabalhar e onde que foi?

 

R – Olha, eu tinha... Aliás, nós tínhamos, o meu pai e a minha mãe batizaram uma moça que, não sei vocês, talvez... Odete Lara, uma artista brasileira. Então, a Odete Lara era filha de um senhor italiano, entende? Então, um dia – ele morava perto de casa –, ele chegou para os meus... Para o meu pai e para a minha mãe e disse: “Eu vou levar o Bibi para trabalhar comigo na Mooca.”

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha?

 

R – Eu tinha catorze para quinze anos. Então, o meu pai falou: “Tudo bem.” Porque lá... E outra coisa, não se fazia nada sem falar com os pais. Nada, a não ser uma malandragem, né? Às vezes, a gente ia fazer qualquer coisa, não ia falar. Senão, não deixava. Então, ele chegou numa tarde, ele vinha à noite. Ele chegou, passou em casa, ele falou assim: “Eu vou levar o Bibi para trabalhar comigo, pode ser?” O meu pai falou: “Pode.” Aí, o meu pai falou: “Olha, só que ele está na Mooca, viu? Está lá na casa do Eduardo.” Eu estudava à noite e... Bom, eu ainda não trabalhava. Aí, ele falou: “Passa por lá”... Não, eu trabalhei uns meses numa fábrica de pente no Pari, entende? Aí, falou: “O senhor passa na casa do Eduardo e pega ele. Pode dizer que eu autorizei.” No dia seguinte, ele passou lá e falou: “Olha Bibi, eu falei com o teu pai...” E eu estava na casa do meu irmão. “Ele falou para você ir comigo, vai trabalhar comigo.” “Mas, o serviço... Eu não pedi a conta.” “Não, não, não, depois, um dia qualquer, você vai.” Aí, eu comecei a trabalhar na Mooca.

 

P/1 – Foi na mesma hora. E como o senhor fazia o transporte daqui até a Mooca?

 

R – Bom, quando eu entrei não porque eu morava na casa do irmão. Estudava à noite, mas depois a gente ia, pegava o trem aqui em Itaquera... Que agora desativaram, né? Mas, antes circulava. Pegava o trem aqui, descia na Estação do Norte, que hoje é Roosevelt, e ia trabalhar.

 

P/1 – E como é que era o trem?

 

R – O trem, deixa eu te falar, o trem tinha uns vagões muito... A Central do Brasil, o passageiro não prestava, então ia mil; quebrava tudo. Então, era uma máquina a vapor com carvão... Naquele tempo, era lenha. Uns seis, ou sete carros. Carro de madeira, entende? Hoje, é tudo... Não sei se é metal aquilo, se é alumínio.

 

P/1 – Metal.

 

R – Mas, era isso. Era tudo de madeira e a vapor. Então, o trem ia vindo, vinha às três e meia da tarde, apitava e a gente, às vezes, saía atrasado correndo daqui para tomar o trem na estação em Itaquera. Às vezes, a gente chegava no trem, entrava, daqui a pouquinho, eles anunciavam na estação: “Senhores passageiros, essa composição não vai porque a máquina não está funcionando direito.” Temos que descer e esperar o outro trem que vinha atrás daquele, fazer uma baldeação aqui e ir embora.

 

P/2 – E era muito cheio?

 

R – Não era cheio. Era repleto. Muitas vezes, deixei de viajar na plataforma porque não dava para entrar.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Não dava para entrar, principalmente, quando o outro quebrava porque, geralmente, quebrava. Conhece a Artur Alvim?

 

P/1 – Sei.

 

R – Quantas vezes, eu vinha a pé de Artur Alvim à Itaquera, pela linha... Eu sozinho não. Todo mundo.

 

P/2 – E eram muitos trens por dia?

 

R – Olha, tinha de hora em hora. Tinha de hora em hora. Hora em hora, hora e pouco, quarenta minutos de diferença.

 

P/1 – Desde antigamente, quando o senhor chegou aqui, ou não? Quando o senhor estava contando que a sua mãe pegava o trem às quatro e meia...

 

R – Pois só tinha um trem que ia e outro trem que voltava. Um trem que saía de manhã e um trem que voltava à noite.

 

P/1 – E quando é que mudou isso, seu Bibi?

 

R – Foi mudando aos poucos. Foi aumentando, aumentando e não posso dizer também, mas eu acho que depois de uns... Que nós chegamos em 1928 até começar a trabalhar em 1935, 1936, foi mudando aos poucos, melhorando. Se bem que a Central sempre foi uma linha... Os passageiros não prestavam, mas também a Central do Brasil era uma outra porcaria.

 

P/1 – E por que é que não prestava?

 

R – Os passageiros... Sei lá. A gente não dava com todo mundo, entende? Um dava um pisão no pé, o cara reclamava e já queria brigar... Era assim.

 

P/1 – Uma confusão.

 

R – Era.

 

P/2 – Mas, o trem era regular? Tinha hora para sair, hora para chegar?

 

R – Deixa eu falar uma coisa, nós padecemos muito aqui em Itaquera. Itaquera, eu digo...

 

P/1 – Na região.

 

R – Central do Brasil, pelo seguinte; acabei de falar, às vezes, a gente ficava na estação duas, três horas esperando um trem. Às vezes. Então, eles anunciavam lá: Olha, o trem, tal trem não vem porque quebrou em... Isso aqui foi um... Apesar de tudo foi... Nós levamos uma vida de ouro, viu? Coisa... Todo mundo se dava bem. A gente não tinha inimigos, não só nós, todo mundo, entende? Não tinha maldade, tudo bem, mas agora que começou essa... Mas, antigamente, não. Antigamente, era uma coisa gostosa. A gente não... Parece que a turma era mais civilizada, né?

 

P/1 - E sem energia não tinha banho quente, né?

 

R - Sabe como é que a gente tomava banho? De bacia.

 

P/1 - De bacia.

 

R - De bacia. Quando chegava... Se bem que, eu, geralmente, tomava banho de madrugada no tanque. Antes, fazia um pouco de exercício porque a gente jogava e depois tomava banho no tanque.

 

P/2 - No frio?

 

R - Ah?

 

P/2 - No frio?

 

R - No rio não. No rio também dava, mas é que de madrugada ia no rio tomar banho?

 

P/2 - Não, era frio o banho?

 

R - Qualquer... Frio, calor. Mas água fria.

 

P/2 - Água fria.

 

R - Fria porque tem uma coisa, a água do poço quando está frio, a água do poço é quente.

 

P/1 - Ah é?

 

R - É. Então, a turma pegava; eu e o Barbosa, a gente ia lá, um pegava um balde e jogava no outro e se esfregava e tal. Depois, jogava outro balde e saía... Ele fazia na gente, a mesma coisa.

 

P/1 - Ô seu Bibi, quando colocaram a luz aqui no bairro, o que é que o pessoal achou?

 

R - Poxa, foi uma coisa de louco.

 

P/1 - O senhor lembra?

 

R - Lembro.

 

P/1 - Como é que foi?

 

R - Todo mundo, sabe? A gente esperava aquilo há muitos anos, né. Esperava muitos anos. quando chegou foi uma festa, viu? Foi uma festa.

 

P/1 - Teve comemoração?

 

R - Iiii, teve. Todo mundo, inclusive os políticos... Sempre existem. Chegavam e “porque fui eu que fiz, foi eu que trouxe.” Não sei o quê, mas um dos maiores causadores da luz em Itaquera foi o Sábbado D'Angelo, o Sudan. Ele era rico, entende? Tinha fábrica, então ele aqui em Itaquera era tudo. Ele em Itaquera era tudo. Ele e o padre.

 

P/1 - Qual padre?

 

R - Padre José... Como é que é? Bibano. Bibiano.

 

P/1 - De qual paróquia ele era?

 

R - Aqui, da matriz. Da matriz.

 

P/1 - Vocês tinham vida religiosa, a sua família?

 

R - Eu frequentava a igreja, eu deixei de falar só para... As festas porque as festas aqui eram formidáveis, viu? Mas, o meu sogro sempre foi muito religioso. O meu sogro frequentava a igreja, minha sogra, entende? Mas, a minha mulher, as minhas cunhadas, elas também frequentavam... Ela obrigava, a mãe obrigava elas a irem.

 

P/1 - O que é que tinha na igreja?

 

R - Não tinha nada. Tinha o largo e a matriz. O coreto...

 

P/1 - O coreto?

 

R - Coreto para a banda tocar porque tinha banda. Era isso só.

 

P/1 - Entendi. E as missas?

 

R - E a missa... Eu, sinceramente, sou católico mas eu nunca frequentei assim, a igreja e nem nada. A gente frequentava quando havia um... Vamos dizer, uma festa, um negócio porque senão eu não ia. Agora, o meu sogro, a minha sogra, o pessoal da minha senhora, todo domingo ia à missa e tudo.

 

P/1 - E o senhor lembra, a gente estava falando das melhorias aqui do bairro, tirando a luz, que mais o senhor lembra? Assim, o chão, o asfalto? Tinha?

 

R - O asfalto, deixa eu lhe falar que era tudo de terra, as ruas, né? Cheia de buraco, quando chovia era uma barreira miserável, mas começou o asfalto em algumas ruas.

 

P/1 - Ah é?

 

R - É. Em algumas ruas.

 

P/1 - Onde foi primeiro?

 

R - Olha, eu, sinceramente, não...

 

P/1 - Não lembra.

 

R - Não lembro.

 

P/1 - Não tem problema.

 

R - Sinceramente, eu não lembro.

 

P/2 - Mas, vieram com asfalto, ou foi paralelepípedo?

 

R - Asfalto.

 

P/2 - Asfalto mesmo?

 

R - Asfalto.

 

P/2 - E a água encanada, como é que era o abastecimento...

 

R - De poço. Água de poço.

 

P/2 - Mas, depois isso mudou?

 

R - Mudou porque eu tenho um poço aberto aqui embaixo.

 

P/1 - O senhor ainda tem o poço?

 

R - Tenho. Cobrimos e pusemos uma tampa, tanto é que está um ladrilho lá e tudo. Mas, era tudo poço.

 

P/1 - Toda casa tinha um poço?

 

R - Toda casa tinha um poço.

 

P/1 - E quem não tinha poço, como é que fazia?

 

R - Não. Quem não tinha... Onde ia pegar água? A não ser no vizinho, não é? É, a não ser no vizinho.

 

P/2 - Faz tempo que botaram... Tem água encanada agora, a Sabesp...

 

R - Agora tem.

 

P/2 - Quanto tempo, mais ou menos?

 

R - Olha, eu não vou lhe dizer porque eu não me lembro, mas não faz muito tempo não.

 

P/1 - Seu Bibi, o senhor lembra da construção do Metrô, na época do metrô?

 

R - Do Metrô?

 

P/1 - É.

 

R - O Metrô, há quanto tempo que faz...

 

P/1 - O metrô é mais recente?

 

R - É recente, né? Sabe, acontece o seguinte; se eu não me engano, quando o Metrô começou a circular, eu já estava aposentado. Se eu não me engano, faz uns dez anos?

 

P/1 - Acho que sim.

 

R - Uns dez anos, né? Então, eu, se viajei umas dez vezes... Bom, eu viajava de Metrô, da seguinte maneira; aliás, nem isso, eu fazia porque quando... Eu recebo na Mooca, então eu pegava o trem aqui, descia na estação Roosevelt, atravessava a plataforma e pegava o trem na estação do Brás, a Santos-Jundiaí e ia até a Mooca. Na Mooca, eu descia... Eu recebo na rua da Mooca. Eu ainda recebo, até hoje. Então, eu fazia isso.

 

P/1 - O senhor lembra da primeira vez que o senhor entrou num Metrô?

 

R - Eu entrei... Pera aí, deixa eu lhe falar... Eu entrei num Metrô foi... Eu nem me lembro, viu?

 

P/1 - O senhor lembra o que é que o senhor sentiu quando o senhor entrou no Metrô e o Metrô começou a andar, não?

 

R - Não foi porque eu pegava lá um na Mooca, era... Tinha Metrô, tinha os trens elétricos também, Santos-Jundiaí.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Então, foi...

 

P/1 - Era a mesma coisa.

 

R - É.

 

P/2 - Não achou diferente?

 

R - Não. Não achei.

 

P/1 - Está certo. E o senhor lembra de mais alguma coisa assim do bairro de Itaquera, de festas, de comemorações, datas comemorativas? O que é que tinha no bairro que o senhor gostava?

 

R - Que tinha?

 

P/1 - É. De festas, comemorações, enfim?

 

R - Eu posso lhe dizer que a gente frequentava muito quando havia festa nas igrejas porque tem a igreja aqui... Do Carmo e tem a igreja de Santana. Quando a gente... Depois, ultimamente, tinha aquela... Aqueles desfiles do Falcão do Morro, tinha desfile do pessoal da Escola, entende?

 

P/1 - O que é que era Falcão do Morro?

 

R - Falcão do Morro era um clube que tinha aqui no alto da... Do lado de lá da linha, então eles faziam os desfiles, onde desfilavam e tal. Mas...

 

P/1 - Entendi. E o comércio?

 

R - Bom, o comércio aqui em Itaquera, era em cima da Estação de Itaquera, aqui na rua... Como é que chama, essa rua aqui? Passa em frente à prefeitura.

 

P/1 - Esqueci agora.

 

R - Bom, ali, o comércio era ali naquele pedaço.

 

P/2 - E o que é que tinha no comércio?

 

R - Tinha... Tinha pouquíssima coisa. Não tinha nada, vamos dizer. Então, ali tinha farmácia que era do seu Augusto... Farmácia, tinha do seu Barreiro.... Tinha a farmácia do seu Barreiro. Tinha o que mais? Tinha o mercadinho aqui, que era de um japonês em frente à estação e para cá, tinha o Grupo, que o Grupo era ali... Em princípio, né? Depois, passou há muito tempo, passou a prefeitura, mas tinha... Era isso. A feira. A feira era em frente à estação nessa rua....

 

P/1 - Dessa do comércio.

 

R - Nessa rua em frente à Estação de Itaquera. Aos domingos. Uma rua cheia de buraco, quando chovia enchia de barro. Era isso.

 

P/2 - Mas, como é que esse comércio foi mudando? Melhorou o comércio, de lá para cá?

 

R - Ah opa. Agora tem comércio mesmo.

 

P/2 - O que é que tem mais de comércio?

 

R - Aqui, agora... Vamos dizer, agora, aqui tem de tudo.

 

P/2 - De tudo?

 

R - Tem de tudo.

 

P/1 - Seu Bibi, e lá na estação, o comércio ficava bem pertinho da estação?

 

R - Não, ficava do lado de cima porque tem... Agora, nem sei... Não tem cerca. Tem uma cerca, então a turma ficava na rua de cima e do lado debaixo era o terreno da Central do Brasil, que era Central do Brasil antigamente.

 

P/1 - Entendi. Então, vamos dizer assim, nas costas da estação?

 

R - É. Do lado de cá da estação.

 

P/1 - Entendi. Então tá, a gente está já indo para o final da entrevista, eu queria perguntar para o senhor, qual o aspecto que o senhor mais gosta aqui do bairro?

 

R - Não entendi.

 

P/1 - Qual o aspecto que o senhor mais gosta de Itaquera?

 

R - Festa?

 

P/1 - O aspecto.

 

R - Ah, o aspecto.

 

P/1 - É.

 

P/2 - O que o senhor mais gosta?

 

R - Olha, eu gosto de tudo, viu? Eu gosto de tudo.

 

P/1 - Das suas lembranças, o que é que mais te marcou aqui do bairro?

 

R - Do bairro... A minha mocidade. (risos)

 

P/1 - Ah é?

 

R - Meus bailes e a amizade mesmo. No tempo em que eu jogava bola, entende? Tudo era gostoso. Tudo. A gente ia no trem, pegava o trem, então quando era maria-fumaça, a turma costuma dizer. Cada um, vamos dizer, cada clube tem um carro para viajar. Não se misturava. Então, no primeiro carro ia o pessoal do Líder, outro carro do Democrático e a gente ia conversando entre nós. Outra coisa que fazemos, à tarde quando vinha, a gente tinha uns sete, oito, dez amigos e já sabíamos o carro que a gente ia viajar. Então, nós vínhamos assim, entrávamos e tal, começávamos a jogar palitinho para ver quem pagava o aperitivo aqui em Itaquera.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Isso era, mas

 

P/1 - Na hora que chegasse aqui?

 

R - É, na hora que chegasse.

 

P/1 - E onde vocês tomavam o aperitivo?

 

R - Aqui, na rua da estação. Aqui na rua... Lá no centro mesmo. Era vencedora aquele tempo. Era padaria e tinha o bar. Então, um cara chegava lá, o que pagava, vamos dizer, o pato. A gente chamava de pato, quem perdeu era o pato. Chegava lá... Gozando, né? O cara... Mas, a gente gozava os caras, viu? Chegava, na hora dele pagar então, eu vou lhe dizer. Mas, isso era na brincadeira, entende? Entrava amizade... A gente vivia assim.

 

P/1 - E não podia misturar um time no mesmo vagão com outro?

 

R - Não, pelo seguinte; porque cada... Não sei por quê? Cada jogador ia naquele lugar onde ia o pessoal do time dele. Dificilmente, eu tinha muita amizade com o pessoal do Elite e tal. Viajei, tinha uns dois ou três amigos inseparáveis da gente. Eles eram eliteanos e eu não.

 

P/1 - Qual que era o clube mais importante? Era o Elite, o clube mais importante?

 

R - Bom, hoje em dia, eu não sou eliteano, eu nunca fui, mas hoje em dia é o Elite.

 

P/1 - Hoje é o Elite. E antigamente?

 

R - Antigamente, todos eles eram a mesma coisa, entende? O Elite tem um salão que é uma beleza, né? Eu acho que é um dos clubes mais importantes da Santos-Jundiaí. Nessa rede ferroviária.

 

P/1 - Certo.

 

P/2 - E o Corinthians, não é também o trem...

 

P/1 - Não, o Corinthians... O Corinthians não é do bairro, né?

 

R - Não, o Corinthians não é, mas o Corinthians tem um campo aqui em Itaquera agora. De treinamento.

 

P/2 - E como é que é que funciona?

 

R - Não sei porque eu nunca fui lá. Não sei.

 

P/1 - E as pessoas de Itaquera torcem para o Corinthians?

 

R - O corinthiano gosta, entende? O corinthiano gosta, então, o campo fica em frente à estação do Metrô, do lado de cima.

 

P/1 - Sei.

 

R - Eu, sinceramente, eu tive um irmão corinthiano roxíssimo, viu? Eu almoçava, eu vivia na casa desse meu irmão. Então, o Corinthians jogava... Jogava Corinthians e São Paulo. Eu são paulino e ele corinthiano. Então, Corinthians ganhava... Na hora do almoço era ele, a mulher e três filhos. Uma moça... Era menina, naquele tempo era menina e três meninos... Dois meninos. Então, Corinthians ganhava, na segunda-feira na hora do almoço, só se falava em futebol. Só se falava em futebol. O Corinthians perdia, na segunda-feira não se falava em futebol. (risos)

 

P/2 - Agora falando aqui, quando estava construindo o Metrô, o senhor se lembra de algum transtorno aí para o bairro? Quando construíram o Metrô?

 

R - Não.

 

P/2 - Teve alguma bagunça no bairro?

 

R - Que eu me lembre não, viu?

 

P/2 - O senhor não tem lembrança?

 

R - Não. Não lembro.

 

P/2 - De nada?

 

P/1 - E a COHAB?

 

R - Bom, a COHAB... Sinceramente...

 

P/1 - Não acompanhou?

 

R - Não. Foi que melhorou muito em Itaquera, mas, eu, como quase não ando para lá, eu não sei. Para Itaquera foi... Em parte, né? Porque melhorou em muito as coisas e piorou em muitas coisas, também, né?

 

P/2 - Por exemplo?

 

R - Por exemplo; é que nem o transporte. A gente espera um ônibus, qualquer coisa que vem de lá, vem lotado.

 

P/1 - Muita gente?

 

R - É, entende? Porque lá tem gente mesmo. Quer dizer que para o bairro é bom porque... O que é isso? É uma grande coisa, né?

 

P/1 - Seu Bibi, o que é que mais mudou nesse bairro, desde que o senhor mudou para cá em 1928?

 

R - Olha, mudou tudo. Mudou tudo porque naquele tempo... Naquele tempo, a gente costumava dizer o seguinte: “Onde você mora?” “Eu moro lá na Salvador Novelli.” A gente sabia quem era para cá, entende? “Onde você mora?” “Eu moro perto do Bibi.” Hoje, ninguém me conhece aqui, quase. Naquele tempo não, era todo mundo conhecido. Era uma família, vamos dizer. Dificilmente, vamos dizer, a gente ouvia falar em, dificilmente. Não se ouvia falar em roubo, em assalto. Hoje não, hoje é comum. Não é mesmo? Hoje, é comum.

 

P/1 - Certo. E como é que o senhor gostaria que o bairro fosse daqui a cinquenta anos, por exemplo? Se o senhor pudesse fazer melhorias...

 

R - Em primeiro lugar, eu gostaria de ter cinquenta anos menos. (risos) Não é isso?

 

P/1 - O senhor ia estar com toda força física aí, seu Bibi.

 

R - Então, o resto... Sei lá. Porque para mim está tudo bem. Graças a Deus, a minha família está bem, a não ser a minha mulher agora, né? Mas, sempre nunca tive briga com ninguém... Para mim está tudo bem, entende? Então, é um negócio...

 

P/1 - Com quem o senhor mora hoje?

 

R - Moro?

 

P/1 - É, aqui.

 

R - Bom, agora mora eu, a minha mulher aqui, a minha filha mora aqui do lado e vamos dizer, o pessoal... A minha cunhada mora em frente. O pessoal da minha sogra, a filha, o genro mora aqui do lado de cima. Aqui do lado, o terreno é de um sobrinho também. Quer dizer, que para nós aqui, continua quase que a mesma coisa.

 

P/1 - E como é que é a sua rotina hoje?

 

R - Hoje?

 

P/1 - Do dia a dia?

 

R - Bom, é o seguinte; levanto cedo porque eu deito cedo. Olha, ontem mesmo, eu fui deitar eram sete e quinze. Como a minha mulher está dessa maneira, entende? Aí, fica até constrangido. Eu vou fazer o que fora, entende?

 

P/1 - Então, o senhor ia falar da sua rotina hoje, do seu dia a dia.

 

R - Bom, eu deito cedo, levanto cedo também. Gosto de passarinho. Tenho umas gaiolas lá, então eu vou tratar no fundo... Até vocês querendo ver, tem uma criação aí; tem galinha e tal. Então, a minha distração é isso, entende? Assisto um pouco de televisão e que mais?

 

P/1 - E o senhor teve filhos? Filhos?

 

R - Filhos?

 

P/1 - É.

 

R - Tenho um casal.

 

P/1 - Um casal?

 

R - Um casal.

 

P/1 - E tem netos já?

 

R - Tenho uma bisneta.

 

P/1 - Ah, já tem bisneta.

 

R - Tenho... A minha filha tem um filho... Tem três filhos, três filhos; tem um casado, tem dois solteiros. E esse casado tem uma... Casado, ele...

 

P/1 - Juntou.

 

R - Juntou. Tem uma menina de três anos, viu?

 

P/1 - Como é que ela chama?

 

R - Agora eu até esqueci... É Mariana.

 

P/1 - Mariana.

 

R - Mariana. Então, eles se separaram.

 

P/1 - Sei.

 

R - E ela foi... A mulher dele foi para Santa Catarina. Levou a menina. Faz uns três ou quatro meses, entende? Então, agora a gente está nessa... A menina... Levou a menina e ele está morando, com a mãe. Tenho uma bisneta, tenho três netos...

 

P/1 - E como se chamam, os seus netos?

 

R - Bom, tem o mais velho, chama-se Laudonor; o segundo é Flávia e o terceiro é Rodrigo. E o meu filho tem uma menina, uma moça, chama-se Sílvia. Ela é enfermeira do Hospital Santa Marcelina.

 

P/1 - E os seus netos, o que é que eles fazem?

 

R - Bom, o Júnior é representante da Shering. Ele trabalha na Shering, é vendedor, é representante.

 

P/1 - De remédio.

 

P/1 - O Flávio e o Rodrigo trabalham na Cidade... Na bolsa de valores e a menina é enfermeira...

 

R - Do Santa Marcelina.

 

P/1 - Santa Marcelina. Seu Bibi, o que é que o senhor tirou de experiência da sua vida que gostaria de deixar registrado nessa entrevista?

 

R - Olha, o que eu tenho de orgulho e tenho... Vamos dizer, me orgulho e fico alegre por minha família que continua unida, entende? Que continua unida e parece que a gente tem aquela vontade de estar sempre reunido, sempre conversando. Então, isso é um prazer, não é? Porque há famílias que se separam, procuram... Eu não sei por quê. Agora, nós, a gente procura, cada vez, se unir mais.

 

P/1 - Que bom.

 

R - Entende?     

 

P/1 - O senhor tem algum sonho que o senhor gostaria de realizar?

 

R - Um sonho?

 

P/1 - É.

 

R - O que eu poderia... Bom, um dos sonhos que eu acho que todo mundo quer é ser rico. (risos) Que Deus dê a gente sempre essa união, sempre essa vontade de conviver juntos. É isso.

 

P/1 - Está joia. Então, a gente agradece muito a sua entrevista...

 

R - Nós é que temos que agradecer.

 

P/1 - Foi muito bonita, está bom?

 

R - Temos o prazer se vocês...


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