Busca avançada



Criar

História

Seu Pepe: histórias da aventura Brasil

História de: José Pena Porto (Pepe)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/04/2019

Sinopse

José Pena Porto, Seu Pepe, nasceu no interior da Espanha. E já se vão 93, quando ele nos contou sua história. Está no Brasil desde 1954, onde chegou com a esposa. Companheira de toda vida, que também trabalhou muito com Seu Pepe. Em sua privilegiada memória estão lembranças de toda ordem: a escola; as vacas que tinha que guardar; o lobo que o acompanhou; o serviço militar; o casamento; o navio deixando o porto com todos cantando. Relembra as dificuldades por que passaram, os tempos em que as coisas parece que teimavam e não queriam dar certo. Mas também está registrado o momento em que tudo começou a melhorar. A quitanda, o secos e molhados, o bar. A viagem de cinco meses à Espanha. Com o filho adolescente. A emoção do retorno, a lágrima do reencontro.

Tags

História completa

Sou José Pena Porto, o Pepe. Nasci na Espanha, no interior, em 1926. Fruto do amor entre um criado da casa com a dona da casa. Ou filha do dono. Que tiveram que fugir de casa para viver esse amor. Mas, tudo bem, eles voltaram e aí acabou tudo bem. Essa história de amor rendeu sete filhos. Eu sei que quando eles já tinham duas meninas, eu nasci. Fui o primeiro homem entre os irmãos a nascer.


Quando eu era criança, além de trabalhar, eu tinha duas obrigações: ir à escola e ir à missa. Na escola, era um só professor para todas as matérias, o “maestro”. E era para esse “maestro” que eu tinha que pedir, na hora do recreio, para não assistir  segunda parte das aulas porque eu tinha que guardar as vacas.

 

Trabalhávamos no campo, mas em dia de festa estavam os amigos. Traziam orquestras. Convidava os amigos, as famílias (...)

 

O meu pai sabia que, de dia, tínhamos lá nossos compromissos, mas à noite ele fazia questão absoluta de que estivéssemos juntos, em casa, para o jantar. De fato, de dia cada um tinha seus afazeres, não dava. Eu, por exemplo, cortava a terra com facão, foice, plantava centeio, trigo. Depois fui para o serviço militar e depois que casei fui trabalhar como pedreiro. Na época do serviço militar eu, obviamente, fui servir o Exército e lá me tornei assistente de uma Brigada Militar. Foi muito tranquilo porque naquela região de Santiago de Compostela não tinha praticamente nada para fazer no quartel. Então, eu conseguia ficar um mês em casa e outro mês no serviço. Nada que um bom chouriço, um peixinho não garantisse. Só que, ao ingressar no Exército, eu fiz uma promessa que era meio comum naquela época, entre os da minha geração: a de casar assim que desse baixa. E logo eu que, no total, namorei com minha esposa por cinco longos anos. Até no início, eram duas - eu dizia que tinha que visitar o velho avô doente, que morava longe. O fato é que depois que saí do quartel ainda consegui estender por um ano.

 

Enquanto eu não pedi para casar, eu não entrei na casa. Ficava lá fora, na porta da casa.

 

Mas, tinha que cumprir a promessa, não? Do casamento. Casamos, fomos morar num quarto, sem privacidade nenhuma. Conseguimos uma casa - quarto e cozinha - meio que abandonada, de alguém muito próximo, e fomos. Eu fui trabalhar como pedreiro. E assim fomos vivendo. Dezenove de março, dia de São José. O ano, 1954. O navio, argentino. De guerra ainda. A nostalgia, a emoção soltas no ambiente. E o navio deixa a Província, todo mundo a bordo cantando “Minha Espanha Querida”. Essa foi a nossa partida para o Brasil.

 

A chegada por Santos, via Rio de Janeiro, foi cercada de um pouco mais de segurança - afinal o cunhado e a cunhada estavam aqui. A vinda para São Paulo. Os primeiros tempos trabalhando duro como pedreiro, calor, a constatação: “Isso, para mim, não serve; eu não aguento”. Fomos para Santo André, aí lá a vida começou um pouco a melhorar. Abri uma quitanda, que depois se tornou secos e molhados, não era fácil funcionar, sempre o fiscal, sempre a propina. Mas vendia lá as minhas bebidas, o meu leite, o meu pão. E a mulher foi trabalhar numa fábrica de doces. Trabalhou só dez meses, que a fábrica quebrou. Mas já ajudou. E foi indo, foi indo, nasceu o filho. Enfrentamos aquela época em que faltava tudo, mas eu tinha sempre minhas dúzias de cerveja para vender.


Quando o meu filho estava com treze anos, nós conseguimos passar cinco meses na Espanha! Cinco meses! Os três! Ele até perdeu aquele ano escolar. Mas… Muita alegria, muita emoção, meu pai estava esperando por mim, os reencontros, os abraços, os passeios, as festas - fomos à Festa de San Ferdinando, que dura oito dias. Fizemos viagens: fomos à França, fomos a Milão.

 

E agora, com noventa e três anos, o que eu posso sonhar? Viver com a família até o fim, bem. O meu sonho é viver junto com a família.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+