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História

Sobre livreiros e livrarias

História de: Waldemar Martins Fontes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2005

Sinopse

Infância em Santos, no centro da cidade. A loja do avô de produtos para dentistas. As sorveterias e confeitarias. Brincadeiras de vendinha com os primos. A atuação no movimento Bandeirantes. A faculdade de jornalismo. A perda precoce do pai. Primeiros trabalhos para ajudar a mãe. A venda de bijuterias para as amigas. A atividade de "sacoleira" e as vendas em casa. A abertura de loja em galeria no Gonzaga e outra em shopping. Como o marido perdeu o emprego e tornou-se seu sócio. Horário de atendimento personalizado.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Waldemar Martins Fontes, nasci a 01 de agosto de 1935, aqui em Santos.

FAMÍLIA
Atividades da família Meus pais são José Martins Fontes e Noêmia Nascimento Martins. Avós, Pedro Cândido do Nascimento, Almerinda Garcia Rosa, Isabel Fontes pelo lado do meu pai e Manoel Martins. Saber a atividade dos meus avós é meio difícil, mas o meu pai era homem de comércio, de negócios. Trabalhou em vários tipos de atividades e minha mãe era do lar, era de casa. Meu pai trabalhou com comércio de gasolina, combustível, chegou a ter táxi, por fim teve conosco em comércio de livros. Sempre em Santos, ele era santista.

FAMÍLIA
Irmãos Nós éramos em quatro irmãos porque recentemente perdemos um, o nome deles é Wilma, Walter, Waldir que faleceu recentemente e eu. Todos com W.

CASA
Descrição da moradia Nós moramos em vários bairros aqui em Santos, mas basicamente fomos criados no Marapé, onde nós fomos pequenos e crescemos, estudamos e jogamos futebol, namoramos, casamos. A casa era um chalé na Rua João Caetano 173. Um chalé onde fomos criados perto da Rua Godofredo Frade.

EDUCAÇÃO
Primeiros estudos Iniciei meus estudos menino, naturalmente na idade de alfabetização, na idade de sete anos. Estudei no Grupo Escolar Dino Bueno, lembro de algumas professoras. Lembro mais de uma professora do quarto ano, que era o último ano do primário, Dona Margarida. Lembro dela porque era uma moça bonita. EDUCAÇÃO Influências do irmão Eu fui influenciado não pelos estudos e sim por esse meu irmão que faleceu recentemente, que através da vida dele, ele sempre trabalhou com livros. Desde bem jovenzinho, ainda solteiro, ele sempre foi amante dos estudos e foi a pessoa que, de certa forma, nos carregou por esse caminho, os outros irmãos - eu e o Walter. Nós só fizemos o segundo grau. E aí já existia a atividade comercial.

TRABALHO
Primeiros trabalhos Nós trabalhamos desde menino, nessa época talvez seja um pouco diferente de hoje que o jovem primeiro estuda e se forma para depois começar a sua carreira profissional. Nós naquela época, desde jovens trabalhávamos e estudávamos. Nós, todos os irmãos trabalhávamos durante o dia e terminávamos nossos estudos à noite, no período noturno. Eu tive a felicidade de bem cedo, aos doze anos entrei numa repartição pública, naquela época, no IAPM - Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos, entrei menino, como office boy. Não tinha pretensão de seguir carreira de funcionário, mas mesmo assim me mantive na repartição durante 22 anos. Os últimos anos de funcionário público foram paralelos a minha atividade de comerciante profissional.

JUVENTUDE
Diversão - praia e futebol Como todo jovem, a principal diversão era o futebol. Hoje o jovem tem uma variedade maior de esportes, tem várias modalidades de esportes mas no meu tempo, de garoto humilde, num bairro humilde, nosso esporte preferido era o futebol. Ia muito à praia, mas escondido dos pais. É evidente que naquela época, tomar banho de mar sempre foi muito perigoso, como é até hoje. Mas naquela época, como meu pai sempre trabalhou muito, não tinha tempo de estar nos nossos calcanhares, a gente ia para praia tomar banho de mar escondido. Eu ia com meus irmãos.

FAMÍLIA
União entre os irmãos Éramos e somos até hoje. Evidente que tivemos, através de nossas vidas, várias perdas, mas em razão dessa união, justamente uma das perdas mais significativas a desse irmão, recentemente. Foi o irmão que nos encaminhou, o grande idealizador da Editora Martins Fontes, que é uma Editora de prestígio no Brasil inteiro, até no exterior. Ele foi sempre o que encabeçou o negócio e essa união dos irmãos, desde meninos, fez com que a gente começasse nossa atividade comercial juntos. Sempre estivemos juntos no comércio. E estamos até hoje.

SECOS E MOLHADOS
Descrição de uma venda Eu lembro das vendinhas, naquela época não existia supermercados. Eram armazéns de secos e molhados. Vocês são jovens, não sei se chegaram a pegar essa época, me lembro perfeitamente da Rua João Caetano com a Godofredo Fraga tinha lá a Venda do Seu Armando. Nós chamávamos esses armazéns de venda.

SANTOS
Descrição do centro Lembro do comércio na cidade. Outro tipo de comércio só existia no centro, na cidade. Nós chamávamos de cidade, vai à cidade. Era ir ao Centro que era o centro comercial. Nos bairros não existiam comércio a não ser bares e vendas - armazéns de secos e molhados. Todo o resto do comércio era no centro. Ia de bonde, o saudoso bonde da linha 37 que pegava justamente toda a Pinheiro Machado. Aqui na Bernardino de Campos era o bonde 17.

LOJA
Início da Livraria Martins Fontes Nós começamos nossa atividade comercial todos bem jovens. Eu por exemplo tinha 25 anos quando inauguramos a Livraria Martins Fontes. Sempre estivemos no Gonzaga, a Livraria Martins Fontes sempre foi tradicionalmente do Gonzaga, nasceu no Gonzaga em janeiro de 1960. Já existia uma outra livraria, porém como livreiro do comércio de livros eu, atualmente sou o mais velho. Na época que eu comecei existiam outros livreiros, hoje todos já faleceram. No Gonzaga existia a Livraria Atlântica. Como todo comércio, a principal dificuldade foi a falta de capital de giro. Ter a mercadoria para a gente conseguir montar. Mas foi uma parte curiosa, o nosso inicio, eu e meus dois irmãos, nós não abandonamos os nossos empregos, todos os três. Eu era funcionário público. Waldir que faleceu recentemente primeiro foi funcionário da Petrobrás, mas logo saiu. Ele era vendedor de livros, tipo mascate, de vender de porta em porta. Quando nós montamos a livraria, ele continuou na atividade dele. O Walter era funcionário do oleoduto e também continuou durante um período como funcionário. Então nós começamos nossa atividade comercial sem dependermos do comércio para podermos sobreviver. Daí a razão do nosso sucesso. Nós só investimos na nossa atividade comercial sem retirar para sobreviver. Isso nos ajudou bastante no início, tanto que inauguramos a Livraria no inicio de 60 e eu me demiti da repartição em 1970, dez anos depois. Com meus irmãos foi a mesma coisa, eles foram deixando suas atividades particulares quando nós começamos ter resultados convincentes para então podermos tocar nossas vidas e tocar nossa família. O Waldir sempre foi um amante do livro e fez com que nós acabássemos gostando da atividade. O Waldir sempre foi um bom leitor, uma pessoa interessada, gostava. Tanto que ele deixou um emprego na Petrobrás para ser vendedor de livro de coleções de livros pelo crediário. Ele vendia para a Editora Globo, vários tipos de coleções. O carro chefe era a Coleção de Érico Veríssimo, que na opinião dele sempre foi o maior escritor brasileiro. E quando veio a idéia de nós montarmos uma livraria, ele nos procurou. Sem desfazermos de nosso empregos, nós fomos tocando a nossa casa. No horário que um estava trabalhando o outro estava na loja e assim por diante. O Waldir sempre na rua, sempre trabalhando na rua. LOJA Primeira loja Essa primeira loja foi no Gonzaga. Nós fomos aumentando o espaço físico através dessas quatro décadas. Começamos com uma lojinha na Marechal Deodoro quase na Praça Independência, uma loja pequena. Depois nós fomos para a Praça Independência, onde ficamos 30 anos. A loja ainda está lá, nós mantemos essa loja. Na nossa atividade comercial, teve um desenvolvimento muito grande em nosso país, uma mentalidade jogada para que todo mundo pensava em estudar, em fazer alguma coisa, pensava no seu futuro, de melhores condições. Foi uma época que todo ser humano, além das crianças, os adultos que não tiveram oportunidade de estudar, acabaram voltando para as escolas. Tivemos uma época boa, no período de venda de material escolar, livros escolares, livros especializados. Isso nos marcou muito. A Livraria Martins Fontes era muito marcada naquela época, onde todo mundo ia porque sabia que encontrava seu livro especializado para dar prosseguimento aos seus estudos. Isso nos marcou muito. Foi um período da década de 60 - 70 até a época atual. Hoje já menos. Naquela época o poder aquisitivo era melhor em nosso país, com o Plano Real as coisas mudaram, existe uma crise maior. Mas tivemos uma época maravilhosa, década de 70/80, embora uma época de inflação, que, afinal de contas, o poder aquisitivo era maior no Brasil. LOJA Clientes Fazíamos tudo que era possível para crescermos, até atendia clientela em casa. As campanhas eram feitas no período de venda de material escolar, começo de ano. Nesse comércio, você saberia se o ano ia ser bom ou não dependendo de como ia trabalhar em fevereiro e março, que eram os meses de procura. Se fosse bom, o ano acabaria sendo bom, promissor.

COMÉRCIO
Avaliação Nós tivemos um período significativo em Santos, na década de 60/70, coisa que mudou muito, o litoral cresceu, o litoral sul, o litoral norte e hoje posso dizer que os meses de temporada nada influenciam em nossa atividade comercial. Para pouca gente, a não ser bares e restaurantes, a atividade modifica com temporada, meses de férias.

COMÉRCIO
Informatização Os equipamentos era máquina registradora e controle. Nós tínhamos vários tipos de controle no "olhômetro", bem dizer. Hoje está tudo informatizado, temos tudo informatizado. Mas o controle era olhar as prateleiras, olhar o estoque para repor mercadoria era tudo no "olhômetro" mesmo.

PRODUTOS
Livros mais vendidos Os livros que mais vendiam, fora os livros didáticos, os livros especializados, eram os best sellers da época, americanos e alguns autores nacionais como Jorge Amado. Os campeões de venda são muitos autores. Hoje é Paulo Coelho, mas tivemos Arthur Halley, Harold Robbins. Tivemos o Jorge Amado e o José Mauro de Vasconcelos, o próprio Érico Veríssimo, cada vez que lançava um livro era sucesso entre os autores nacionais. Na época, vendeu muito. LOJA Ampliação dos negócios Como eu acabei de dizer, nós éramos três irmãos, evidente com uma loja e algumas atividades extras, não dependíamos única e exclusivamente de nossas lojas. A partir do momento que eu e o Walter deixamos nossas atividades para nos dedicarmos exclusivamente à loja, nós tivemos que pensar em ampliar o nosso comércio. Nós começamos aqui em Santos a ampliar nossos negócios, ainda na década de 60, com esse um irmão, o Waldir. Com muita raça, disposição, conhecimento e cultura, o Waldir passou a ir para o exterior e começamos a importar livros. Ainda na década de 60 começamos a importar livros ingleses e portugueses. Na época o mundo era um pouquinho maior do que é hoje, hoje está tudo muito perto. E os livros portugueses tinham muitas vezes os direitos autorais comprados em Portugal com direitos da língua. Então esses livros não eram editados no Brasil porque era o mesmo idioma. O editor português comprava um best seller inglês ou americano e comprava os direitos do idioma, da língua portuguesa. E publicava lá, as editoras brasileiras, que não eram em grandes números naquela época, não tinham condições de editar essa obra no Brasil. Então o meu irmão sentiu essa brecha e passou a importar livros portugueses. Ele foi para Portugal numa época em que o prestígio do brasileiro não era muito bom. Ele teve bastante dificuldade para se fazer respeitar. Mas conseguiu, com a personalidade forte que ele tinha e que logicamente com sua honestidade e seu critério, nós conseguimos importar esses livros portugueses e distribuir no Brasil inteiro.

EDITORA
Início da Editora Martins Fontes No início da década de 70, nós vimos a necessidade de montar o atacado em São Paulo. O livreiro vinha de todo o interior, de todo o Brasil, vinha até São Paulo, não vinha até Santos por causa de uma distribuidora de livros portugueses. Então, no início da década de 70 nós montamos uma distribuidora de livros ingleses e portugueses lá em São Paulo, na Bela Vista, Rua Conselheiro Ramalho, onde está a sede até hoje. Posteriormente, mesmo na década de 70 - o Waldir como sempre adorou essa atividade - começamos a editar. Hoje a Editora Martins Fontes é uma editora de nome, de respeito, não só no Brasil como no exterior também. No começo da Editora, o Waldir foi o cabeça. Evidentemente que através dos anos o Waldir se cercou de bons elementos, de alguns intelectuais que continuam na Editora até hoje, prestando serviços nesse trabalho de escolha. Mas quem era realmente firme, era o Waldir, que através desses anos, dessas décadas, sempre viajou muito, umas cinco ou seis vezes por ano, em todas as grandes feiras de livros. Como a Feira do Livro Infantil que tem na Itália, em Barcelona, em Lisboa, em Chicago nos EUA. Algumas vezes eu fui com ele nessas feiras e evidentemente, a maior feira do mundo que é em Frankfurt, que se realiza em Outubro. As edições são sempre na Língua Portuguesa, mas a grande maioria das obras da Martins Fontes são traduzidas.

LOJA
Loja em rede - São Paulo Em São Paulo, a loja da Rua Dr. Vila Nova pertence à Editora. Quem dirige hoje a Editora são meus sobrinhos, folhos do meu irmão. A Editora Martins Fontes é especializada em Ciências Humanas: sociologia, psicologia, filosofia, muito livro de arquitetura. Então a Editora Martins Fontes é uma Editora que não lança best sellers, mas lança aqueles livros tradicionais sérios, que vão vender sempre devagar, vão estar sempre em todas as prateleiras das boas livrarias. São livros que o público vai sempre adquirir porque são adotados em cursos universitários e é esse o carro chefe da Martins Fontes.

CONSUMIDOR
Perfil dos clientes Os clientes são dos mais variados. Hoje, nós temos uma loja muito bem montada, com um espaço físico bom e através desse trabalho nós temos uma clientela seleta, aqui em Santos nós temos o santista que lê, conhece a Livraria Martins Fontes.

FUNCIONÁRIOS
Treinamento Nós fazemos treinamento para funcionários. Temos funcionários muito antigos conosco, que estão lá há 25, 18, 23 e 15 anos. É sinal que não somos tão maus patrões e isso nos ajuda muito porque são funcionários que os clientes procuram, procuram estes funcionários que dão suporte. Para você formar um funcionário em uma livraria, às vezes você leva muitos meses, um bom funcionário. Muitos meses, até ano. Enquanto que em uma lanchonete você ensina o trabalho de manhã e à tarde está atendendo o balcão, se for um moço educado, está atendendo bem, basta ser educado. Na livraria, os nossos jovens, a gente procura selecionar, evidentemente, hoje, mais do que nunca, ao admitir um jovem, sempre requer um pouco de preparo, que entenda um pouco de inglês, que conheça informática, tudo isso é importante. Antigamente o empregado tinha mais opções, infelizmente essa é a verdade. Eu tenho empregados antigos porque eles estão felizes comigo e também porque não tem muitas opções para eles. Cresceram conosco. Eu tenho funcionário que se aposentou comigo. Tinha mais campo de emprego, mais opções de trabalho. Hoje o que tem de gente desempregada. Eu nunca mais pus anuncio para admitir empregado, eu pego os currículos que os jovens hoje vão indo de loja em loja deixando os currículos. Eu tenho uma pilha de currículos.

CONSUMIDOR
Várias gerações de consumidores Às vezes atendo senhoras que falam: "Estou comprando livros para meu filho, antigamente era eu que vinha aqui com minha mãe, agora sou eu que venho com meu filho. Isso acontece, no início do ano, principalmente na correria de material escolar.

EMBALAGENS
As diferentes embalagens e suas finalidades Antigamente o livro era embrulhado, hoje não se usa papel, é sacola. Papel especial é utilizado principalmente para presente. O papel com o timbre da livraria sempre teve, para propaganda. Mas hoje, tradicionalmente, é sacola, não se usa outra coisa a não ser sacola, de vários tamanhos. Aí ela vai para a residência do cliente e pode servir para carregar outra coisa como pode servir para o lixo que a dona de casa aproveita. Aí quando vai ao lixo, fim, aí teria que ser reciclado. LOJA Apoio do pai Meu pai quando aposentou-se, nos ajudou bastante, colaborou bastante conosco, até o fim da vida dele. Apesar de que ele não tinha experiência no comércio de livros. Meu pai tinha experiência porque trabalhou longo tempo em posto de gasolina. Ele lidava com o público, mas evidente que era uma atividade bastante diferente porque uma pessoa que atende num posto de gasolina tem que ter a sua educação, a sua simpatia, mas é um atendimento rápido porque a maioria dos clientes nem saem dos carros. Livraria é outra história. É diferente até de uma loja de tecidos, de uma lanchonete. É completamente diferente.

POLÍTICA
Mudança dos planos econômicos A moeda mudou muito, muito, muito. Hoje esse negócio de conta corrente acabou. Tínhamos muitos clientes com conta corrente. Era uma ficha, um arquivo. O cliente chegava, levava a mercadoria, às vezes vinha pagar mensal, outras vezes tinha que mandar cobrar porque era difícil de pagar. Às vezes esquecia, às vezes levava meses, como tudo na vida, os bons e os esquecidos. Hoje não, hoje isso caiu. O comprador não precisa disso, hoje a facilidade é muito grande, o cartão de crédito divide sem juros, nos dividimos sem juros. Isso facilitou também, a estabilidade da moeda facilitou isso, se continuasse a inflação não teria jeito. Então facilitou, faz cheque pré datado. S e bem que o cheque vem caindo de moda, tem sido mais na base do cartão de crédito, facilita para todo mundo, houve uma mudança muito, muito grande nesse sistema. Conta corrente acabou. LOJA Informatização Essa parte da Internet nós estamos há pouco tempo. Estamos com um site unificado com a Editora é Martins Fontes. É só um nome. Nós atendemos por São Paulo, por Santos e pelo Rio, no mesmo site. É minha filha quem está cuidando do site. Aqui mesmo em Santos, chega um cliente na loja que procura determinado livro, a gente vai ver o preço no computador ele fala: "Eu já vi na Internet, no site". Ele já fez uma pesquisa, já sabe. A grande mudança acho que foi agora. Além dessas mudanças todas, dessas fases que tivemos na parte econômica financeira que eu acabei de falar, essa parte na informatização foi uma mudança forte, muito significativa.

LOJA
Livraria e Papelaria Em Santos nós temos duas lojas somente. Dentro da nossa cidade, dentro das necessidades da nossa cidade, se fosse em São Paulo não seria Mega Store. Só vende livros. Nós somos essencialmente livreiros, até agora eu acho que, a não ser as novas gerações que vem aí, minhas filhas, meus sobrinhos, talvez mexam com CD futuramente, mas nós não. Mas papelaria nós temos, sempre tivemos papelaria junto com a loja porque ela é um chamariz. Porque a papelaria mantém uma loja sempre com gente circulando. Isso é muito gratificante. Às vezes a pessoa vai lá comprar um lápis, uma borrachinha, uma caneta, mas pelo menos conhece a loja, para nós é gratificante ver gente na loja, ao menos circulando, não estão comprando, estão circulando. É gostoso porque uma pessoa que se interessa em entrar na loja dar uma olhada nos livros, não precisa comprar. Pelo menos é uma pessoa que gosta, que se interessou em conhecer, é um futuro cliente. Vendemos também revistas. Mas elas tem uma saída mais ou menos porque em cada esquina tem uma banca de jornais. As bancas já facilitam para a pessoa dar uma paradinha com o carro para pegar, a loja já é diferente. Mas tem o cliente de livraria que vai para comprar revistas, que gosta mais de tranqüilidade mais espaço. Nós temos muitas revistas importadas, não trabalhamos com muitas revistas importadas que as bancas não trabalham.

AVALIAÇÃO
Mercado Editorial do Brasil e de Portugal Hoje a importação é menor porque mudou muito o sistema editorial brasileiro. O sistema editorial brasileiro cresceu muito. Hoje deve existir umas 500 editoras, por aí afora. Quando nós começamos eram meia dúzia de editoras. Então cresceu muito, o mundo tornou-se pequeno, hoje é com satisfação até que falamos que o editorial brasileiro é muito superior é muito superior ao português, na nossa língua, no nosso idioma. As edições brasileiras são muito superiores à portuguesa. Hoje você vai em Frankfurt, que está a feira, você acha que está em São Paulo ou no Rio, você dá trombada com um monte de editores brasileiros muito mais do que editores portugueses. Porque Portugal ficou ali, Portugal tem suas limitações, em termos de população evidentemente. O Brasil cresceu muito em todas as atividades e não poderia deixar de crescer no campo editorial como cresceu. Então você encontra todos os grandes editores. Hoje nós temos editores brasileiros de muito prestígio, muitos intelectuais que não dá para citar que nos dão orgulho. Hoje os meus sobrinhos, lá em São Paulo importam alguma coisa de livros portugueses, muito livro em inglês, em espanhol agora por causa do Mercosul, importamos para nossas lojas também, para vender no atacado em São Paulo e também para vender em nossas lojas. Muita coisa em espanhol. Há um crescimento do mercado para livros espanhóis e Deus permita que o Mercosul não fique por aí com essa crise na Argentina e também essa crise que está nos envolvendo. Espero que o Mercosul continue porque hoje houve um desenvolvimento muito grande nas escolas. Quase todas as escolas de língua inglesa ensina o espanhol. Então houve um desenvolvimento muito grande, muito bom. Eu acho muito promissor que o brasileiro, as futuras gerações, saibam também o espanhol. Nós perdemos muito, através dos anos, no nosso continente, só nós falando português. Para o Brasil isso foi prejudicial nesses anos todos, e para o brasileiro principalmente. Então, eu acredito que as futuras gerações vão aprender o português, o inglês, o espanhol, que vai ser muito bom para o nosso país. Nós estamos cercados do idioma espanhol.

CONSUMIDOR
Perfil do leitor brasileiro O leitor brasileiro faz hoje uma leitura especializada muito mais do que antes. Hoje você vai numa banca de novidade, você pega quase tudo especializado, poucos romances para passar o tempo, como tinham antigamente os best sellers, que nós chamávamos. Hoje não, hoje você entra numa livraria, as novidades são quase todas especializadas. Em quase todos os gêneros de literatura. Uma literatura que também hoje cresceu sobremaneira, vem crescendo é literatura esotérica. É uma coisa impressionante o crescimento. LOJA Descrição das diferentes sessões Se fechar os olhos e visualizar a livraria, tem a sessão de poesia, de saúde - é uma sessão que cresceu muito, essa medicina alternativa, hoje tem tudo de medicina alternativa - plantas, frutas, é uma tremenda sessão de medicina alternativa, a gente chama de saúde. Tem a sessão de religião, tem sessão de ciência - também cresceu muito; muito livro de arte culinária; direito - nossa sessão de direito é grande. Filosofia, poucas livrarias tem sessão de filosofia, como nós temos, cresceu muito filosofia enquanto psicologia caiu um pouco. Administração, contabilidade, literatura estrangeira que são os romances, literatura nacional, História; sessão infantil; sessão infanto-juvenil - é enorme, não tem mais onde por livro infanto-juvenil. Porque houve um crescimento muito grande, na época que eu abri a livraria em 60, há 40 e poucos anos atrás nós tínhamos meia dúzia de autores infantis e autores infanto-juvenis, inclusive era praticamente só Monteiro Lobato. Hoje o que existe nessa sessão, de autores brasileiros, é enorme é uma coisa tremenda. Hoje tem muito.

CONSUMIDOR
Perfil do leitor brasileiro É difícil falar, ninguém em sã consciência vem e dia. Hoje o brasileiro lê mais livro especializado. Literatura não lê mais como antigamente. Se você disser "eu estou lendo um romance", antigamente todo mundo lia romance, hoje é mais difícil, o tempo é curto, quase todo mundo está procurando aprender, conhecer alguma coisa a mais, não ficar no tempo. A nossa maior sessão é livro de informática. Tem a parte de livros em língua inglesa, em língua espanhola, sessão de dicionários, de guias é muito grande também; sessão de turismo; sessão de rádio, de televisão, de comunicação; de música popular brasileira.

PRODUTOS
Livros especializados Acho que livros especializados em contabilidade, administração de empresas, marketing ficaram um pouquinho mais paradas. Poesia caiu muito. Em compensação o leitor deixou de ler poesia e lê auto-ajuda, quer dizer, ainda há sensibilidade no caso. A sensibilidade do leitor que procura ler alguma coisa... os livros de auto ajuda vendem muito. Contos, crônicas, livros de mensagens. Poesia vende menos.

ATIVIDADE ATUAL
Trabalho atual na livraria A minha principal atividade hoje é a mesma de quando eu comecei. Eu gosto da loja, paro pouco no escritório. Vou ao escritório para assinar cheques. Gosto de estar com os clientes, com os amigos. Tenho amigos de 30 - 40 anos que freqüentam a livraria, e tem outros de menos tempo. São amigos que, com a idade o círculo vai fechando, vão ficando menos amigos. Eu gosto de lidar com o público, gosto de estar ali na loja.

SANTOS
Lazer - Cinemas A loja funciona da 9.00 da manhã às 23.00 horas. Sempre foi assim, ao contrario, no início, quando tínhamos uma vida mais pacata, mais tranqüila, não havia muita violência ficávamos até a uma hora da manhã, ali no Gonzaga. Tinha movimento porque tinha cinemas. Hoje os cinemas se transferiram para os shoppings. Alguns cinemas no Gonzaga fecharam, então a Cinelândia era no Gonzaga. Antigamente os cinemas de Santos sempre se agruparam no Gonzaga. Você queria ir ao cinema ia no Gonzaga, antigamente havia a sessão da meia noite, que começava a meia noite.

ATIVIDADE DE LAZER
Leitura Eu gosto de ler. Embora o tempo seja pouco eu gosto de ler. Procura sempre me atualizar s bem que é evidente que minha atividade é uma atividade grande, tem a parte burocrática que tem que cuidar, porque afinal de contas a crise atingiu todo mundo, a gente precisa estar atento em compras, despesas, compromissos. Essa parte burocrática me toma muito tempo, sou eu que cuido. Teatro Nas horas vagas eu gosto de um teatro, de vez em quando vamos. Leio, vejo televisão, também vejo vídeo, DVD. Ainda vou à praia mas só quando vem o verão, vou de vez em quando. Quanto ao futebol, eu já estou com 66 anos. Já não dá mais, é perigoso, na minha idade caminhar somente. Quanto a fazer compras, odeio supermercados. Mas minha roupa e meus calçados sou eu que cuido, embora eu tenho três mulheres na minha vida, esposa e duas filhas eu ganho muita coisa delas, é aniversário, é natal, dia dos pais.

COMÉRCIO
Sucessão nos negócios Uma filha trabalha comigo. Ela ficou muitos anos em São Paulo e se formou em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, onde também fez mestrado. Como a gente vai envelhecendo, eu a trouxe de volta para prejuízo financeiro dela porque ela não ganha comigo o que ela ganhava em São Paulo. Ela sempre trabalhou em Multinacionais, como a Nestlé, Colgate-Palmolive. Ela deixou um cargo na Refinações de Milho de gerente em marketing master, teve que voltar para enfrentar o que é dela, ou o que vai ser dela. Ela está a três anos comigo aqui. Está feliz porque inclusive foi uma vida mais tranqüila, foi uma moça que sempre trabalhou muito, em multinacional eles pagam bem mas exigem muito do funcionário. Embora fosse uma funcionária, tinha cargo de responsabilidade porque ela chegou ao topo da profissão dela. Ela tinha uma carga de responsabilidade muito grande. Comigo ela tem uma carga de responsabilidade, mas aqui em Santos tem uma vida mais flexível, horários e tal. Minha outra filha é mãe de filhos, dona de casa. Mora em Santos também.

COMÉRCIO
Avaliação do Comércio O comércio é desgastante, eu levei a vida inteira trabalhando. Eu estou aqui conversando com vocês e meu pensamento está longe. Deu muita satisfação para a gente, não só satisfação material, embora eu não possa deixar de trabalhar. Não vivo de renda, vivo do produto do meu trabalho, mas além das satisfações materiais que nos deu condições de vida, deu para formar bem minhas filhas, meu irmão também formou bem os filhos. Meus irmãos têm filhos médicos, engenheiros e tal, arquitetos, mas o comércio, que eu abracei me deu muitas oportunidades de boas amizades, relacionamentos, tenho amizades boas. Isso também foi importante na minha vida. Eu não cheguei a pensar nisso. Tem nossos momentos de crise, de aborrecimentos, o comércio também traz isso, tensões. Nem tudo são flores. Mas eu sempre agradeço a Deus, de estar até hoje trabalhando. O único dissabor foi a perda desse meu irmão agora.

COMÉRCIO
Lições de comércio Foram tantas as lições no comércio que é difícil enumerar, a gratificação de saber lidar com o público, respeitar o semelhante e lidar também com funcionários. Durante muitos anos, eu tenho a papelaria então eu tenho moças, eu tenho jovens. Eu brinco muito com elas "Amanhã você casa com um homem rico, amanhã você toca a buzina do carro eu vou ter que te lavar um livro lá no carro", não sei, por isso eu tenho que tratar bem vocês, não se sabe o futuro, o mundo dá voltas. A gente aprende muito a lidar com o público. É como os dedos da sua mão nenhum é igual. Você lida com todo tipo de pessoa, nenhuma é igual a outra, cada uma tem sua personalidade. Também a gente vê muita coisa, muito baque na vida, pessoas importantes que de repente vem o baque. Nós temos que ficar preparados para tudo isso. Procuramos, através dos anos, ser o mais humilde possível. Dentro dos limites. Isso ajuda muito. Essa entrevista para mim foi uma surpresa, vocês fizeram perguntas inteligentes, perguntas agradáveis e eu nem vi o tempo passar.

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