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Solto pra vida: entre a música e as artes visuais

História de: Matias Picón
Autor: Instituto Choque Cultural
Publicado em: 20/06/2017

Sinopse

Criado no centro de Montevidéu pela avó paterna, a lembrança da infância é de brincadeira na rua e de comer rocambole recheado de doce de leite, feito pela tia-avó. Quando se viu sozinho, aos 13 anos, após a avó ter sofrido um derrame, Matias abandona o estudo e passa a ficar na rua – até perceber que precisava da mãe. Na pré-adolescência, se muda para morar com ela no Brasil. Os desafios do novo país sempre foram enfrentados com arte: aprendeu a falar português ouvindo Planet Hemp e se descobrindo artista e músico, o seu primeiro trabalho foi numa firma de serigrafia. O espírito selvagem é libertado pelas artes visuais, onde encontra na Choque Cultural, em São Paulo, o apoio para se desenvolver como artista, sempre aproveitando seu instinto.

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História completa

Meus pais se separaram quando eu tinha dois ou três anos de idade. Com o meu pai tive um pouco de contato depois disso e com a minha mãe só voltei a ter depois dos sete anos de idade. A despedida foi simples: ela me comprou um alfajor de neve, aqueles brancos, atravessamos a rua, ela tocou a campainha, minha vó me recebeu, ela me deu um abraço e falou: “Eu sempre vou estar com você.” Foi um negócio meio triste, né? Fechou a porta, eu subi e comi o alfajor. Eu só tenho lembranças fantásticas da minha infância em Montevidéu com a minha avó. Ela era só amor, uma pessoa completamente boa, de bom coração, fez tudo por mim, tudo, tudo.

 

Tenho uma lembrança do que seria a minha primeira obra. Eu dormia no mesmo quarto que a minha avó, tinha a minha cama e meu cantinho, e comecei a colar na parede, com cola mesmo, fotos e recortes de jornal de acidentes de carro. Eu gostava muito dos carros destruídos. Eu acho que tem um lance criativo, né? Também brincava com os bonecos, os G.I.Joe, e aí só tinha os bonecos, nunca me compravam as bases, os carros, e aí eu fazia todos eles de caixa de papelão, fazia a base onde iam ficar os soldadinhos. Todo o lance da guerra, ia pras plantas da minha avó, aí ela ficava louca... Eu acho que isso, pra mim, é uma base criativa fortíssima! E eu tinha um pouco desse negócio de colar coisas, tinha essa mania de colar coisas.

 

Até que minha avó teve um derrame. É uma lembrança bem forte porque eu lembro que estava brincando na rua e ela foi me chamar: “Nossa, eu não estou me sentindo muito bem!” Eu falei: “Vó, tem que chamar a ambulância”, ela falou: “Não, não precisa, é só uma dor de cabeça”, “Tem que chamar a ambulância”. Aí fui lá no vizinho, chamei a ambulância e ela tava tendo um derrame. A partir daí eu comecei a ficar meio vagando. Eu lembro de ficar lá na casa dela sozinho, me juntando com os mais maloqueiros do bairro, e aí foi rua, larguei escola. Virei um vândalo, sabe? Eu ficava na rua destruindo coisas, era meu esporte favorito.

 

E por algum momento de lucidez, eu falei: “Eu não posso mais morar aqui” e liguei pra minha mãe. Falei assim: “Vem me buscar, porque aqui vai dar merda”, eu falei assim mesmo: “Vai dar merda, minha vida aqui vai dar merda”. Ela morava em São Paulo, lá em Interlagos, e tinha se separado do pai do Lucas, meu irmão mais novo. Morava ela e o Lucas, vivendo uma vida bem de perrengue, Estava lá sozinha com ele, e ela veio me buscar, deu um jeito, juntou uma grana e foi me buscar.

 

Eu descrevo a minha mãe como uma uma beatnik, uma pessoa totalmente livre. Ela veio ao Brasil com uma banda, com o terceiro matrimônio dela. Ela me influenciou muito, ela mudou minha percepção da vida, do mundo, quando eu vim morar com ela. Eu cheguei aqui em São Paulo, moleque, criado pela avó, não sabia nem varrer um chão, e aí ela fez tipo um regime militar dentro de casa comigo. Ela me botou na linha, me ensinou muita coisa de sobrevivência, foi quem me abriu a percepção política da vida e espiritual também. Principalmente, ela me influenciou a ser uma pessoa livre dentro do que eu faço, do que eu vivo, a fazer, a maior parte do tempo, as coisas que eu gosto e que eu acredito. É isso.

 

Ela não se prende a nada, até hoje. Não se prende nem aos filhos! A gente foi criado assim, solto pra vida! Somos em três irmãos. O meu irmão mais velho, Frederico, eu conheci quando eu tinha 11 anos. Foi fantástico quando eu o conheci, porque ele estava com 19 anos, era fã do Rolling Stones, extremamente descolado e foi aquela imagem fantástica: “Irmão mais velho, me aconselhe na vida!” Ele nasceu na Argentina, quando a minha mãe tinha 16 anos. Ela saiu do Uruguai, porque ela era envolvida com os Tupamaros [Movimento de Liberação Nacional - Tupamaros (MLN-T)] e saiu fugida dos militares, exilada, e foi pra Argentina e morou por vários anos lá. E meu irmão foi criado pela avó paterna dele, porque ela teve que ir embora de lá também. E aí, quando ela voltou ao Uruguai, ela conhece o meu pai e ela meio que deu aquele relax na vida, sabe? Se distanciou um pouco desse rolê político. E depois, se mudou para o Brasil, como já disse.

 

Aqui em São Paulo, moramos no bairro Parque das Árvores, que é o limite entre Interlagos e Grajaú, extremo sul, subúrbio. Lembro das primeiras vezes que eu fui na escola, eu fui de camisa, sabe? Ridículo, horrível, meu! Escola do subúrbio, tudo molecada e eu era um ET, porque eu não falava português, né? Eu cheguei em dezembro, começava as aulas em março, eu ainda não falava português e eu ficava calado.

 

Acho que foi na aula de Inglês, porque o brasileiro tem uma forma de falar inglês muito estranha, muito estranha. E a professora falou um negócio meio absurdo e eu já falava inglês, aprendi no Uruguai. Aí eu fui perguntar um negócio pra ela e saiu aquele portunhol, e passei de ET ao cara mais popular da escola, porque era o gringo, né, a galera aqui chama de gringo os estrangeiros, e todo mundo veio falar comigo. Era a Escola Estadual Beatriz Lopes.

 

Eles piravam em me ensinar os palavrões e todas as besteiras do mundo. Um dos meus primeiros amigos, acho que era Wellington o nome dele, era pichador e foi a primeira coisa que eu lembro, que eu cheguei em São Paulo, eu falei: “Mano, que isso?”. Eu pagava um pau pra pichação e ele era pichador e me ensinou a escrever em pichação, né? Não saí pra pichar quando eu era moleque, não tinha como, eu cuidava do meu irmão, ficava em casa o dia todo, mas mesmo assim eu consegui fazer uma pichação na casa do lado da que a gente morava, que estava abandonada e, imbecil, pichei meu nome, né, aí a minha mãe viu e foi um desastre.

 

E o português eu aprendi pela música. Cheguei no ano em que foi lançado o disco Usuário, do Planet Hemp, e quando eu ouvi aquilo, pirei. Falei: “Eu preciso aprender esse idioma” e eu aprendi. O Planet Hemp foi a minha escola de português, escola boa que eu tive, né?

 

Mais tarde, fomos morar em Atibaia. Arranjei meu primeiro emprego numa firma de serigrafia. Acho que aí eu começo a ter uma visão mais de artes de visuais quando me envolvo no punk rock, porque a serigrafia é muito utilizada no punk rock. Divido a minha vida entre artes visuais e música. Eu via que as grandes bandas de punk rock sempre tinham um cuidado com a arte gráfica, eu falei: “Bom, vou ter esse mesmo cuidado”. E meio que juntou o lance de eu trabalhar com gráfica. É muito doido, porque a partir daí eu vi que todo o lance gráfico poderia ser usado pro que seria arte, no sentido de uma criação... Foi a partir desse casamento, da música com as artes gráficas, que nasce as artes plásticas pra mim.

 

Aí aconteceu algo muito legal, que foi assim: eu pegava meus quadros, dos meus amigos, a banda que eu tocava, banda de outros amigos e comecei a organizar uns shows nos botecos, sabe? Um negócio muito podre, mas a gente fazia com muita vontade, muita raça. Um lugar onde não tem nada pra fazer é onde mais tem pra fazer, né? Então era aquela coisa: “Pô, ninguém vai organizar um show pra nós, ninguém vai organizar uma exposição pra nós, então a gente mesmo faz!” E aí aconteceu algo muito engraçado, os caras que trabalhavam na Secretaria de Cultura começaram a prestar atenção na gente. E passou um tempo, eu acabei conhecendo o Secretário de Cultura da época, o Vitor Carvalho, e comecei a trabalhar com eles em paralelo. Eles faziam as coisas institucionais, eu fazia as minhas coisas podreiras e eles achavam legal. A partir daí eu comecei a trabalhar com eles e comecei a trabalhar, digamos, como produtor cultural. E aí passei a começar a me ligar que eu poderia fazer várias coisas e viver do meu trabalho artístico, que era vender camiseta, vender pôster, mas também, de repente, poderia vender uma tela!

 

Um dia conversando com o Vitor, ele falou: “Cara, tem uma galeria em São Paulo que você tem que conhecer, você vai achar legal pra caramba, chama Choque Cultural”, aí ele me falou: “É perto da Benedito Calixto”. Aí um dia eu fui para São Paulo, totalmente perdido, achei a rua e falei: “Ah, caramba, tem gente fazendo isso aqui! E tem um mercado, eles vendem essas coisas!” Virou minha cabeça. Foi marcante, foi um choque! Comecei a trabalhar com o Baixo Ribeiro em 2014, e ele é uma pessoa que, digamos, está me formando: eu, artista meio selvagem, já com um conhecimento, uma bagagem, não era começar do zero, né? Mas ele começou a me lapidar pra eu poder, cada dia mais, focar na minha produção e no atelier e ser vendido aqui.

 

Você pode ver que sou apaixonado pelos animais desde que eu me conheço por gente, né? Eu tenho meio que um louvor por eles, e aí eu coloco muito esse negócio da pessoa com cabeça de animal, nunca é ao contrário, nunca eu coloco um animal com cabeça de pessoa, porque eu acho que eu vou estar desmerecendo o animal! É bem aquela coisa de dar superpoderes pra eles, sabe? Tem um que eu gosto muito que é um canguru cabeça de tigre que eu falo: “O canguru, que é superpoderoso com as mãos, com as pernas, mas também tem o poder do tigre”, então meio que crio super animais mutantes. E esse negócio da pessoa, de arrancar cabeça, de falar: “Mano, arranca o racional e põe instinto”, instinto desse bicho aqui, é meio isso. É meio que... Eu não sei se uma misantropia, mas quase lá!

 

Acho que quando você olhar um trabalho meu, uma tela, com certeza você vai ver um pouco daquela selvageria vândala, também quando canto, às vezes, quando escrevo músicas... Conto muita história, é uma lembrança constante da minha vida.

 

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