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História

“Sou mais a tradição oral do que a tradição escrita”

História de: Roberta Marques do Nascimento (Roberta Estrela D'alva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Bairro Jordanópolis, em São Bernardo do Campo. Mudança para a Chácara Inglesa. Artes Cênicas nas USP. Ingresso no Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Viagem aos EUA. Pioneira no poetry Slam. Fundadora do ZAP (Zona Autônoma da Palavra). Terceiro lugar na Copa do Mundo de Slam em Paris. Viagem para a África e poesia Diáspora para Angela Davis. Mestrado e livro: Teatro Hip Hop.

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História completa

Meu nome é Roberta Marques do Nascimento. Nasci em Diadema, São Paulo, em 1978. 


Minha mãe me teve muito nova, com 21 anos, primeiro filho. Tinham falado pra ela: “Você não fica gritando que enfermeiro não gosta de mulher que grita”. Aí ela estava na sala de pré-parto, já com muita contração, muita dor e ela falou: “Vai nascer”. E elas: “Não, vai demorar. Pode ficar tranquila”, saíram e deixaram ela lá. Ela colocou a mão assim embaixo e sentiu a cabeça. Sentiu que ia nascer. Ela simplesmente deitou na cama, segurou na grade, fez força e eu nasci (risos). E ela não gritou. Foi um negócio muito, eu e minha mãe ali. 


A gente já mudou pra São Bernardo do Campo, pro Jordanópolis, que é o bairro onde morei até onze, doze anos de idade. Não é uma favela, mas não é um bairro. É um subúrbio, diferente da classe média. É uma cultura suburbana, os bairros que moravam os filhos dos metalúrgicos, nos anos 1980. Tem muitas características de uma pequena cultura de coisas que se vende em casa, da vizinha que fazia tempero, e daquela “TV Mulher”, as mulheres vendiam Jafra, Avon, Tupperware, e faziam reuniões. Lembro das mulheres na sala da casa da minha mãe levando Tupperware, toda uma metodologia pra vender, e os cosméticos Jafra (risos). Ao mesmo tempo, uma infância na rua, com a molecada que você tem relação.


Nessa época, dividia o quarto com a minha irmã. Ela era minha companheira de brincar no quintal, no vizinho, na rua, aquela coisa de você joga vôlei, aí passa o carro e todo mundo: “Êêêêê”, bate no carro (risos). Toca a campainha da casa dos outros e sai correndo, essas besteiras assim de criança, de aprontar pra caramba, porque daí você forma gangue na rua. Não era muito individualizado. Tinha videogame, Atari, mas não é todo mundo que tinha. Lembro chegando videocassete em casa, que era uma coisa mágica. 


Daí a gente mudou para um outro bairro que era Chácara Inglesa, tinha um shopping, já era condominio, outra coisa, era um prédio com outras pessoas. 


A diferença de morar em casa e apartamento, num bairro e num condomínio residencial é brutal. Na rua, tem as regras da rua. Você tem que saber se comportar. Já tomei porrada no nariz de menino quando fui folgar (risos). Eu era pequena, cheguei para minha mãe e ela: “Bem feito, te falei”. Não é um condomínio fechado que só aquelas crianças brincam, vem de cima, de baixo, você anda em bando. A área comum é aquele playground.


E meu pai falava: “Você só fazia o que queria. Era terrível. Tinha um gênio! Você era dramática, sofria, se tacava no chão e era uma fera indomável”. Lembro, minha mãe fala: “Você era chata, assistia horário político”. Eu adorava esse programa, com dez, onze anos. Sentava na televisão e amava ver aquilo. Não sei o quê, se era a política ou era o teatro, eu achava fascinante aquele bando de gente, tão ridículo alguns, meio um circo pra mim, sabe?


E, basicamente, eu ficava muito na escola porque tinha o teatro. Ficava de manhã e à tarde ensaiando. Tinha uma amiga, que era minha dupla. Foi quem me batizou: “Estrela D’Alva”, a Claire. A gente escrevia para o jornal da escola, a gente era do grupo de teatro.


Com dezessete anos, fazendo Magistério, achando que ia ser professora, tinha Fuvest: “Vamos fazer como treineiro?” Fiz e passei em Artes Cênicas. Tive uma separação de todo aquele mundo de São Bernardo e fui pra USP. Eu era maior caipirona, ia de jardineira, duas tranças, óculos. E eu, lá, virgem, aquelas pessoas muito loucas. No começo foi meio difícil, lembro que eu chorava. 


E teve um momento que tive um clique que, sei lá, eu disse: “Foda-se mano”, e eu comecei a me soltar e ser eu mesma.


Comecei a fazer pequenos curtas, participações em espetáculos, mas considero mesmo profissional, fora da escola, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, em 2000. 


Eles me ligaram numa quinta de manhã, lembro como se fosse hoje: “Roberta, saiu uma atriz. A Cláudia quer chamar a Paula Picarelli e você pra fazer um teste, você topa?” “Topo!”, e foi indo, indo, e essa é a companhia que eu ajudei a fundar, ajudei a desenvolver a linguagem.


Eu fazia parte do núcleo e um dentista negro foi assassinado e formou-se um grupo: “Frente Três de Fevereiro”, que se reuniu pra falar: “Isso não pode mais acontecer” e se tornou ativista. Fui na primeira reunião e depois me chamaram: “Roberta, a gente vai fazer um espetáculo baseado numa entrevista. A gente precisa transformar essa entrevista num personagem e precisa de alguém que não seja um ator, mas que não seja um rapper. A gente quer alguém que faça spoken word. Colocaram fitas para eu ver. Uma, era um campeonato de slam, que são esses campeonatos de poesia falada no mundo inteiro.


Me interessei, transformei a entrevista em poesia falada, metrificada, pra esse espetáculo e, a partir daí, comecei a pesquisar. Fui pros Estados Unidos, pra ver o slam, o lugar onde nasceu. 


Em 2008 falei: “Não tem slam no Brasil”. Tinha resquício de um, em Goiânia. Entrei em contato com os caras “Foi meio na calçada, não era bem slam”. Um cara no Rio de Janeiro tinha um projeto só no papel. Então, surgiu a ZAP, que é a Zona Autônoma da Palavra. A primeira edição no Bartolomeu foi negócio lotado.


Depois desse primeiro ZAP, o que veio na sequência, foi a minha participação na Copa do Mundo de Slam em Paris, na França. Eu fiquei em terceiro lugar. 


Geralmente, pra ir pra França, você tem que ser o campeão do seu país. Só que a gente não tinha cena aqui. Então, em países em que a cena está começando, eles levam slammers ou poetas que têm a ver, ou que eles acham que dá pra competir. Eu mandei o vídeo do “Vai te Catar”, um solo meu de spoken word do Núcleo, e eles falaram: “Tem nível, dá pra competir”. Fui individualmente representar o Brasil, isso volta pra cá com uma força, uma potência de abrir espaços. 


Voltei da França e foi crescendo a cena aqui, começamos a fazer campeonatos brasileiros. No primeiro, tinha dois poetas. No segundo, já tinha cinco. Nesse ano, onze, com pessoas de fora do Brasil. “Virou Slam BR”. E a gente vai ter, sei lá, quase vinte, no próximo ano. 


Ano passado a gente fez na Flupp, no Rio de Janeiro, dentro da Feira Literária das Periferias, um campeonato com 16 poetas do mundo inteiro, com legenda e tudo. 


Paralelamente ao slam e ao teatro hip hop, têm os meus trabalhos com spoken word em outras áreas. Na música, participo muito de disco.


Tenho uma carreira de diretora.  Dirigi o meu próprio espetáculo. Eu já coreografei coisa também na Companhia São Jorge. Escrevi um texto pra peça de umas meninas que estavam sendo orientadas pela Cibele Forjaz. Na “Três de Fevereiro”, tinha uma função meio de roteirista, meio de diretora. Fiz direção musical do Orfeu, que é um espetáculo nosso hip hópera brasileira. E dou aula na EAD.


Eu já estava longe da academia fazia dez anos: “Puta, voltar a fazer mestrado, pesquisa? Pelo amor de Deus”. Eu li um livro que chama: “Performance, Recepção e Leitura”, de Paul Zumthor, aí me instigou. Voltei a fazer na PUC, na Comunicação e Semiótica. Foi um mundo novo, estudei, e fiquei dois anos e pouco escrevendo: “Teatro Hip Hop, a performance poética do Ator-Mc”. 


“Eu não preciso que ninguém conte minha história, conto a minha própria história, sou capaz de olhar pro passado, refletir sobre o presente e, no mínimo, trilhar uma trilha para onde estou indo”. Não é que a gente sabe, mas a gente, no mínimo, está tentando descobrir. 


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