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História

Sozinha com meu violão, minha trouxinha de roupa e meu passarinho

História de: Silvia Aparecida Malanzuk
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/04/2013

Sinopse

Silvia Aparecida Malanzuk nasceu em São Paulo em 1962. Foi separada da mãe na infância e passou quase toda a vida à espera do reencontro, que só aconteceu muitos e muitos anos depois. Expulsa da casa da tia com uma trouxa de roupas, o violão e um passarinho na gaiola, Silvia conta como foi viver na rua quando tinha apenas 12 anos e as como boas pessoas foram aparecendo à sua frente e oferecendo ajuda, seja para alugar um apartamento, seja para apoiar a gravidez, o abandono, e também para guiá-la profissionalmente.

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História completa

Deixa eu ver se eu conto direitinho… É que tenho que tomar cuidado com a minha imaginação… Só quero tomar cuidado de não falar o que a minha imaginação criou e aquilo que meu pai falou e depois o que eu ouvi minha mãe dizendo e o que eu conclui! A gente vivia sempre com bastante história pra contar…

 

Meu nome é Silvia Aparecida Malanzuk, nasci em São Paulo no dia 21 de julho de 1962. Meus pais se separaram quando eu ainda era criança e como a família do meu pai tinha uma condição melhor aqui em São Paulo, expulsou várias vezes a minha mãe da cidade e ficou proibido de falar sobre ela na casa de minha tia, onde eu cresci. Minha tia vivia falando mal da minha mãe, então eu tive uma impressão terrível dela.

 

E daí eu nunca mais soube da minha mãe, até um dia que ela bateu na porta da casa da minha tia, eu que abria a porta, vi que era a minha mãe e ela falou: “Chama seus irmãos e vem correndo.” E daí eu chamei em silêncio, falei: “Vem, a mamãe tá na porta.” Minha mãe enfiou a gente dentro de uma perua e nós fomos parar em Avaré, no meio do mato, e dali fomos pra Assis, na casa desse meu irmão, do meu tio Sílvio. Não sabia que ele era irmão da minha mãe, não sabia o que que eu tava fazendo lá, não tinha escola, mal tinha comida, eu lembro que quando eu acordava tinha chá preto, pão com manteiga, eu acho o máximo, chá preto, pão e manteiga e era uma coisa que eu comia com muito gosto, nossa, era tudo pra mim! Meu pai achou a gente e quando eu acordei, eu era criança, quando eu acordei eu tava na casa da minha tia de novo. Daí nunca mais eu vi a minha mãe.

 

Era muito humilhante o que eu sofria, a pressão psicológica que eu sofria com ela, ela falando que a minha mãe era à toa e, e eu não passava de uma empregada na casa dela. Agressão física e moral, ali pra mim morar na rua era muito melhor! Com certeza! Um dia, então, ela fez uma trouxa com minha roupa, o meu violão e uma gaiola de um passarinho que eu tinha. Eu desci na Rua Scuvero, que dá na Rua Lavapés, eu fiquei ali. Era uma quinta-feira, eu tinha 14 anos e não sabia o que fazer. Extremamente ingênua e inocente. Fiquei ali.

 

Eu ficava andando pela rua durante o dia, na escola eu perdi esse ano, eu ficava andando na rua procurando, quem sabe eu achava meu pai, ou a minha mãe também, talvez. Até hoje eu digo que eu amo a minha vó porque eu acho que a alma, ela é imortal, eu digo que eu amo a minha vó. Eu ficava lá embaixo, ela morava no segundo andar com a minha tia e eu ficava olhando pela janela na hora do almoço, eu nem tinha onde comer também, e eu ficava gritando: “Vó, eu te amo.” Aí eu chorava e subia a rua sozinha, a pé. Eu fiquei uma semana morando na praça com meu violão, minha trouxinha de roupa e o meu passarinho.

 

Muita coisa aconteceu. Eu fui pro Japão, cantei lá, cantei aqui no Brasil, saí no Fantástico. E meus irmãos acompanharam toda a minha trajetória artística e eu não sabia disso. Aí, um dia,  minha irmã ligou. Eu falei: “Quem? Geise?” “Geise, sua irmã, filha da Raquel”, eu quase caí da cama, eu falei: “Nossa, o quê? O que é isso que tá acontecendo? “Você tá onde?” “Eu tô no Japão.” Então minha vida começou a clarear, porque até então eu tava sem referência. Sem saber quem era exatamente a minha mãe, é se a minha mãe era esse bicho de sete cabeças que a minha tia sempre falou ou também muitas vezes não deixava nem falar o nome dela. Então minha adolescência, embora eu sempre procurava minha mãe, eu sempre achava que minha mãe era uma pessoa terrível, mal caráter. Eu queria encontrá-la pra dizer o que eu achava dela, mas depois que eu encontrei com minha mãe, não foi nada disso.

 

O encontro foi assim: descobrimos que minha mãe morava num sítio em Rosana, município de Primavera, na região de Presidente Prudente, interior de São Paulo. Juntamos três carros e fomos vê-la. Um irmão veio do Japão pra nos levar até a casa dela. Nós saímos de São Paulo e levamos 13 horas pra chegar lá. A gente se perdeu porque é longe, quase divisa com o Paraná. O clima era de festa, de muita expectativa. Eu não sabia o que ia acontecer, eu podia até morrer na frente da minha mãe! Era um grande sonho encontrá-la. Viajamos, viajamos, viajamos e escureceu. Eu cheguei bem de madrugada no sítio, dirigindo um dos carros, meu ex-namorado estava dirigindo o outro e mais um amigo um terceiro carro. Tinha muita gente junto, inclusive meu filho. Quando abriu a porteira e nós entramos no sítio, meu coração começou a disparar e eu aumentei a música. Tocava Zeca Pagodinho. Todo mundo foi saindo dos carros e indo em direção à casa. Eu aumentei o farol, vi uma mulher de lenço na cabeça,  porque minha mãe sempre foi do interior, do mato, uma saia comprida, uma blusinha humilde. Na hora que eu olhei, me vi no espelho. Nós somos muito parecidas, muito! Quando vi minha mãe, eu deitei a cabeça na direção e disparou a buzina. Eu fiquei travada, e ela também. Eu travada aqui, aquele barulho de festa e aquele céu muito próximo, as estrelas... Eu nunca vi um céu daquele de madrugada. Tinha barulho de passarinho, tinha o Zeca Pagodinho, tinha a buzina do carro, todo mundo feliz, o barulho das pessoas pisando nas pedras, na terra. E minha mãe ali. Naquele minuto, eu lembrei de tudo que eu passei, morando na rua, procurando minha mãe, fazendo oração. Eu ia lembrando de tudo, do nascimento do meu filho, eu em coma, eu chamando minha mãe.

 

Resolvi sair do carro e fui em direção a ela, cada vez que eu chegava mais perto, eu via a mim mesma parada. Além de sermos parecidas, eu já era mãe naquele momento, então eu entendi a situação da minha mãe, e eu ajoelhei no chão, nem abracei, eu já fui chegando correndo, correndo e falei: "Mãe, me abençoa, pelo amor de Deus, antes que Deus te leve ou me leve. Eu não tenho mais futuro na minha vida". Ela pôs a mão na minha cabeça, e falou: "Minha filha, eu te abençoo". Foi muito bom, abracei minha mãe, a gente não dormiu a noite toda, claro.

 

Minha mãe era uma pessoa extremamente perdida e inocente, ela colocou o meu pai no chinelo. Ela não era prostituta, a minha mãe não era nada daquilo que a minha tia falava, a minha mãe pagou a faculdade de um dos meus irmãos que é esse mais velho, sabe como? Plantando mandioca no sítio. Levava mandioca nas costas e vendia na cidade. E meu pai era o homem que saía pra dançar, bonitão, gostosão, cheio de mulheres, não construiu nada e hoje depende de mim, a minha mãe não depende mim. E daí passamos a madrugada toda conversando sobre tudo e ela me contou algumas coisas e aí eu concluí que, infelizmente, a minha tia proibiu minha mãe de ver a gente.

 


Eu acredito que eu posso mostrar pras pessoas que a gente tem que ter persistência na vida, nunca perder objetivos e que os sonhos não envelhecem. Tem que seguir em frente, claro que a gente não consegue esquecer as passagens e o sentimento de abandono, de desprezo, do próprio ser humano. Eu aprendi que eu tenho de perdoar as pessoas, porque se eu consigo perdoar, isso significa que eu tô um pouquinho à frente e assim que eu me estabelecer, eu olho para trás e ainda ajudo essas pessoas, tá na minha natureza, né? Mas o motivo de eu estar aqui é justamente isso: relatar toda a minha história e deixar claro que eu vou continuar, por mais pesado que meus ombros estejam de tanta experiência, eu vou continuar e eu sinto que eu tô renascendo inclusive de idade e tudo mais, até quem sabe pra namorar! Eu acho que tudo isso vai vir...


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