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História

Sua paixão é cantar

História de: Lycia Carvalho Costa Reys
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/12/2013

Sinopse

Lili conta sobre sua infância em São Paulo, no bairro da Aclimação. Brincou muito com vizinhos na rua, conheceu bastante o centro da cidade. Quando pequena estudou num externato e aos 75 anos fez um curso de História da Arte, pois “achava que seria interessante, e era”. Sua carreira foi principalmente focada na rádio Cruzeiro do Sul, contava histórias folclóricas e depois cantava as músicas. Em sua entrevista também falou sobre sua relação com o marido, com quem foi muito feliz.

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História completa

P/1 – Eu vou pedir pra senhora falar seu nome completo e em que cidade a senhora nasceu.


R – Niterói.


P/1 – E qual é o nome completo da senhora?


R – Lycia Carvalho Costa Reys


P/1 – E o apelido Lili? Vem de onde?


R – Eu tinha três anos quando lia o “Tico-Tico”, uma revista. E eu disse: “Agora eu ‘se’ chamo Lili” (risos). Era o principal personagem do livro.


P/1 – A senhora cresceu em Niterói?


R – Não, só nasci. Eu morava em São Paulo e minha mãe foi ao Rio, em Niterói. Foi lá só pra me ter e eu voltei pra São Paulo. Eu sou paulista.


P/1 – O nome da sua mãe é Hercília Carvalho Costa. E o nome do seu pai é Mário Ferreira da Costa. Em que eles trabalhavam, o que a senhora se recorda deles?


R – Minha mãe... Lembro dos doces maravilhosos que ela fazia. E de meu pai, ele era otorrinolaringologista, tratava daqui pra cima. Nunca precisei dele como facultativo. Como homem não precisei muito.


P1 – E o que a senhora recorda da sua casa de infância, dona Lili?


R – De infância? Já era só de São Paulo, eu vim pra cá quando nasci.


P/1 – Sim.


R – Do que eu recordo? Eu sempre brinquei com menino, a minha quadrilha era de homens.


P/1 – E quem eram os meninos? Eram da rua, vizinhos?


R – Não, eram filhos do Furquim. O nome dele eu não me lembro, lembro do filho, Fernando Furquim. Foi professor na faculdade daqui.


P/1 – E era a turminha da senhora?


R – Era a turma, ele e três irmãos. E mais os amigos.


P/1 – E a senhora tinha irmãos, tinha irmãs, como é que era a família da senhora?


R – Tinha uma irmã dez anos mais velha do que eu e um irmão dez anos mais moço.


P/1 – Nossa.


R – É, vieram de dez em dez (risos).


P/1 – Por isso que a senhora brincava com os meninos?


R – Não, não era esse o motivo.


P/1 – Por que a senhora preferia brincar com os meninos, então?


R – Por causa desse Fernando, Arlindo e Dirceu, eram três amigos, filhos de uma amiga da mamãe, por isso. Eu tive convivência.


P/1 – E vocês brincavam do quê?


R – De diversas coisas, quadrilha, atacava, brincava no porão das casas. Antigamente as casas tinham porão.


P/1 – E brincava de roda?


R – Desde aí eu dirigia o teatro da turma. Havia uma música que eu ensaiei, “Na Pavuna”, não sei se vocês conheceram. Dizia assim: “Na Pavuna”, tão tão tão, tinha que bater com uma bengala. E eles não acertavam o ritmo, era tão tão, tão, tudo errado. Eu voltava mais de mil vezes, e nada de sair “Na Pavuna”. Eu desisti.


P/1 – E que outras brincadeiras a senhora se recorda?


R – Sem ser de teatro e de quadrilha? Roda, eu sei todas as canções. Essa voz é porque eu tive derrame, agora que está voltando.


P/1 – Que bom que está voltando, né? Em que bairro a senhora morava quando era criança?


R – Aclimação, desde menina. Morei também em Pinheiros, na Rua Teodoro Sampaio, esquina com a Capote Valente, onde nasceu o meu irmão dez anos mais moço.


P1 – Dona Lili, o que a senhora lembra de como era o bairro da Aclimação quando a senhora era criança? Descreve pra gente que não conheceu esse bairro.


R – Não podia fazer prédios no bairro da Aclimação, só casas. Casas maravilhosas, mas era muito atrasado quando eu era menina. O bonde passava pela Avenida da Aclimação e fazia a volta no Jardim da Aclimação. O Jardim era o lago, a gente remava no lago, agora é só o lago.


P/1 – E onde vocês passeavam? Faziam footing antigamente?


R – Fazia, fazia ginástica no Tietê e remava dentro do Tietê, sem cheiro. Aprendi a nadar lá, o meu tio ia todos os dias, e eu ia junto.


P/1 – E não era perigoso nadar no rio?
R – Não, não era. O rio era uma maravilha, tinha uma balsa grandona, a gente fazia piquenique.


P/1 – E além da senhora e do seu tio, quem mais ia?


R – Minha irmã, o cunhado e os amigos.


P/1 – E nesse piquenique que vocês faziam, vocês levavam que tipo de comida?


R – Ah, isso eu não sei, o encarregado era outro (risos).


P/1 – Vamos falar um pouco dessa época, que tipo de roupa usava pra nadar? É bem diferente de hoje?


R – Maiô. Não era muito diferente.


P/1 – Tipo uma sainha?


R – Inteiro, não tinha alça. 


P/1 – E como vocês iam da Aclimação até lá, era de bonde, de ônibus, de carro?


R – De ônibus, de bonde. Carro não tinha. Acho que só o [Conde] Matarazzo tinha, que era o rei do café naquela época. A gente era ônibus e bonde. O bonde fazia a volta, vinha da cidade, da Praça da Sé e fazia a volta no Jardim da Aclimação, ali era o ponto final. As ruas não tinham calçamento. Eu, pra trabalhar na rádio, punha tamanco pra atravessar a lama, e depois, no bonde, eu trocava de sapato.


P/1 – Mas vamos falar um pouco ainda da infância da senhora. A senhora estudou o primário em algum colégio, como é que foi nos primeiros anos?


R – Externato São José.


P/1 – E o que a senhora se recorda do Externato?


R – Que eu entrei e todo mundo falava francês, até na hora do recreio era obrigado a falar em francês. Eu entrei sem saber nada, fiquei atrapalhada, ouvindo. E eu não tomei lanche, de castigo, porque eu não falei em francês.


P/1 – E como a senhora começou a aprender a falar francês?


R – Ah, logo, senão eu tinha que sair do colégio.


P/1 – Ele era de freiras francesas?


R – Era de freiras. Muito boas, a minha irmã tinha feito o curso inteiro quando eu entrei.


P/1 – E tinha alguma professora que a senhora gostasse mais? Alguma matéria?


R – Não tinha especial, eram todas mais ou menos (risos).


P/1 – E como era a rotina na casa da senhora, com três irmãos com idades tão diferentes? Como vocês se relacionavam em casa, você ficava mais de manhã em casa, mais à tarde? Como era a convivência dentro da casa?


R – Era muito boa, meu pai era um anjo, minha mãe, uma formidável dona de casa. Meus irmãos, todos bons. Que eu me entendo, minha irmã já era casada. Eu tinha dez anos quando ela casou. Mas dez anos, naquela época, é menina; hoje, já pode ser avó…


P/1 – Dona Lili, descreve pra gente como era o pai da senhora, como ele era fisicamente, como a senhora se lembra dele dentro da casa, no trabalho?


R – Ele era ótimo, eu nunca o vi levantar a voz pra ninguém, era calmo, muito bom. 


P/1 – E a mãe da senhora era uma grande dona de casa, é isso?


R – Era... Fazia doces. Entre parênteses, ela fazia doces e eu e meu irmão ficávamos do lado de fora da cozinha, na janela, esperando minha mãe errar a receita, porque ela jogava pela janela e nós comíamos.
P/1 – Que doces ela fazia, dona Lili?


R – Os doces da época, quindim, bombocado, não sei o que de moça…


P/1 – Baba de moça?


R – É. Fios de ovos…


P/1 – A maior parte desses doces são de origem portuguesa. A família da senhora é de origem portuguesa?


R – De origem portuguesa.


P/1 – A senhora sabe alguma coisa?


R – A minha avó era do palácio. Ela era descendente, acho que de português, porque era do reinado lá. O meu avô, por parte de mãe, era dono do Anhangabaú, ele era Carvalho, chamava chácara do Carvalho, era o Anhangabaú inteiro. Até hoje tem lá o nome dele.


P/1 – É verdade. E a senhora se recorda de passear no centro da cidade, nesse lugar da chácara, o que a senhora se recorda da cidade de São Paulo, fora a Aclimação? 


R – O que eu conhecia?


P/1 – É.


R – Tudo. Museu... Tudo que podia conhecer, eu conhecia. Meu pai me levava, meu tio…


P/1 – Eles gostavam dessas coisas. A senhora lembra de algum período mais difícil, como a Revolução de 32, a guerra? A senhora se recorda de algumas coisas assim?


R – Lembro da de 24.


P/1 – É mesmo?


R – Nós fugimos de São Paulo de carroça, pro interior. Não sei o que é, é muito para eu lembrar, não dá pra lembrar. Só lembro que um conhecido, um rapaz da família Prado – e isso me impressionou, porque eu era criança – botou a cabeça pra fora da janela, deram um tiro, e ele morreu.


P/1 – Nossa…

R – Ele era paisano da Revolução. Era do lado de cá, e o que matou era do lado de lá.


P/1 – Era dos Federalistas…


R – Federalistas.


P/1 – E pra qual cidade vocês fugiram? A senhora se recorda?


R – Ah, não sei, era uma fazenda em Jundiaí.


P/1 – A senhora lembra dessa viagem?


R – Muito pouco.


P/1 – E o que mais a senhora gosta de contar, de histórias?


R – Primeiro quero contar que o Maestro que me acompanhava na orquestra era o Gaó [Odmar do Amaral Gurgel, conhecido artisticamente como Maestro Gaó, foi regente, pianista, radialista e compositor musical, nascido em 1909]. Gaó era um homem famoso, ele foi para os Estados Unidos. Ele era muito bom.


P/1 – Como a senhora começou a carreira de cantora no rádio?


R – Eu ouvia muito rádio e me deu vontade. Tocava piano e cantava, tocava violão, era a Meire Buarque, a professora. Então, eu fui lá e encontrei Paraguassu, o cantor. Ele era famoso e disse: “Eu acho que você serve”, me levou no Gaó, esse maestro. Eu toquei, cantei nem sei o que. E ele falou: “Essa menina vai longe”. E eu entrei assim.


P/1 – E o seu pai não ficou bravo da senhora escolher a carreira artística?


R – Muito.


P/1 – O que ele falava pra senhora?


R – Pai e mãe, os dois foram contra. Mas depois foram se adaptando.


P/1 – Em que rádio a senhora começou a sua carreira?

R – Cruzeiro do Sul, rádio que irradiava pro Rio de Janeiro.


P/1 – E que músicas a senhora gostava de cantar?


R – Eu só me especializei em folclore. Cantava as lendas daqui, do Brasil, Amazonas, Pará, de todos os Estados... Porto Alegre. Todas as canções. Eu contava a lenda e depois cantava.


P/1 – E como a senhora aprendia essas músicas, dona Lili?


R – Aprendia sozinha. Eu comprava a música. Depois de famosa não comprava mais, ganhava, todos queriam que eu cantasse.


P/1 – E que música a senhora gostava de cantar nessa época?


R – “Uirapuru”. Um passarinho, diziam que quem tinha esse pássaro tinha bastante amor. 


P/1 – E dizem que ele é especial pra cantar também, era uma música folclórica…


R – Era, eu só cantava isso. Uirapuru é a lenda do pássaro, quem tem o pássaro, tem o amor.


P/1 – Vamos falar pros mais novos o que era um programa de rádio, como ele funcionava?


R – O programa do rádio... Tinha um que chamava “Hora Azul”, irradiava de acordo com o Rio. Uma vez, uma fazendeira mandou pedir para eu batizar o sítio dela. Então, na hora em que foi o batizado cantei o Uirapuru, que era o nome que ela pôs no sítio dela.
P/1 – Nossa, que lindo! E era programa de auditório?


R – Não, aí não tinha auditório. Teve auditório quando eu cantei na Cosmos, outra estação. Aí tinha janela de vidro até embaixo e o auditório. Só via através dessa gaiola (risos). 


P/1 – E quem eram os outros cantores da época, que faziam sucesso com a senhora?


R – Aqui tinham muitos... Aquele Vicente, não me lembro o nome.


P/1 – E quando a senhora cantava nesse programa de auditório, como ele acontecia, tinha apresentador, como era?


R – Depois disso nós tivemos o diretor e, de novo, ele fez teatro e eu fui a estrela. Fizemos uma peça toda semana. Era muito engraçado porque a gente falava e fazia os gestos, sem querer, então parecia tudo maluco (risos).


P/1 – Vocês costumavam ensaiar o teatro antes ou não?


R – Costumávamos, mas como eu tinha muita facilidade eu não ensaiava, só o elenco. Eu não precisava.


P/1 – E onde ficava a rádio?


R – Sabe como é que chama aquele larguinho, Rua XV de Novembro e Rua São Bento, o triângulo? Tinha um largo, era ali. O prédio do Byington, a Pérola Byington era a dona do rádio.


P/1 – E que horas a senhora costumava estar na rádio? De manhã, de tarde, mais à noite?


R – À noite, sempre à noite. Tanto o canto quanto as peças.


P/1 – Era perigoso ir à noite pro centro da cidade?


R – Era, pelo menos eu tinha medo, mas não tinha nada, era calmo.


P/1 – E a senhora ia sozinha?


R – Não, tinha uma moça, que mamãe criou, me acompanhava por toda parte.


P/1 – Era uma espécie de acompanhante?


R – É.


P/1 – Ela não deixava a senhora sozinha?


R – Não. E cada um do rádio acompanhava até o ônibus.


P/1 – E esse centro da cidade, conta pra gente como era o Triângulo, a Rua Direita, tinha o Mappin na época?


R – Era muito bom, tinham as confeitarias Seleta e Vienense, duas ótimas confeitarias. E tinha o Mappin, tradicional.


P/1 – O que tinha de bom no Mappin?


R – A Casa de Chá (risos).


P/1 – A senhora costumava ir lá?


R – Costumava.


P/1 – Era muito chique lá, não era?


R – Era.


P/1 – Como as pessoas se vestiam antigamente?


R – Vestiam muito bem, iam pra cidade andar com todas as jóias, podia andar com jóia.


P/1 – E tinham outras lojas importantes ali no centro?


R – Lojas? 


P/1 – É.


R – Tinha, deixa eu ver... A Sloper.


P/1 – Vendia meias principalmente, não era? Casa Sloper, né? Vendia o quê?


R – Tudo.


P/1 – Tudo?


R – Não, tudo de moda. 


P/1 – E tecido, onde é que vocês compravam tecidos?


R – Tecidos? Já era na 25 de março.


P/1 – Porque não tinha tanta roupa pronta, é isso?


R – E tinham outras lojas.


P/1 – A senhora lembra-se de alguma festa importante que aconteceu em São Paulo?


R – Festa?


P/1 – Festa. De aniversário da cidade…


R – Ah, tinha. Eu lembro de um aniversário que jogaram bandeirinhas prateadas, eu tenho até hoje uma.


P/1 – É mesmo? Do quarto centenário?


R – É.


P/1 – A senhora viu, chamava “Chuva de Prata”.


R – Lembro, sim.


P/1 – A senhora estava lá, onde foi a chuva de prata?


R – Não sei o lugar, mas deve ser lá no Ibirapuera.


P/1 – Quantos anos a senhora tinha, mais ou menos, nessa época?


R – Eu já era casada, 31, 32, por aí.


P/1 – E me diga uma coisa, dona Lili, o que mais a senhora lembra desse aniversário de São Paulo?


R – Eu lembro de muita coisa. Tinha o Trianon, que é o Masp hoje. Tinha um laguinho, um repuxo. E ali a Meire Buarque dava aulas de dança, no Trianon. E eu e esses três amigos íamos à aula. Um dia, os três queriam me namorar. Brigaram os três, me pegaram e me jogaram no lago (risos). É uma decisão muito esquisita (risos).


P/1 – Como era essa aula de dança ali no Trianon?


R – Ah, muito boa. A Meire Buarque era ótima, ensinava violão, piano. Bons tempos.


P/1 – A senhora falou dos doces. Mas que outras comidas tinha de almoço, de jantar?


R – De sobremesa tinham todos os doces a escolher, dois, três, de sobremesa.


P/1 – E almoço, essas coisas, o que vocês costumavam comer?


R – Arroz, feijão, rosbife, frango, não sei o que mais. Criança não presta atenção.


P/1 – Por que a senhora foi fazer o Curso Normal?


R – Porque era normal fazer o Curso Normal naquela época, todo mundo ia pro Normal.


P/1 – A senhora não queria ser professora?


R – Não.


P/1 – Mas nessa época a senhora já cantava?


R – Não, nessa época eu fingia que era aluna, porque eu não gostava.

 

P/1 – Mas a senhora estudava bastante?


R – Eu sempre fui primeira aluna, tinha muita facilidade, por isso que eu fiz tudo isso. O último curso foi na Álvares Penteado, “História da Arte”, um curso ótimo, esse eu achei ótimo.


P/1 – Mas esse de História da Arte já foi mais recente?


R – Já, esse eu tinha 75 anos.


P/1 – E por que a senhora resolveu fazer História da Arte com 75 anos?


R – Porque eu achei que devia ser interessante, e era. O professor era ótimo, ele levava tela, cinema, com as coisas que ele explicava e passava. Isso que é ensinar.


P/1 – A senhora gostou do Curso Normal, ou não?


R – Mais ou menos.


P/1 – E por que a senhora não foi dar aula?


R – Porque não queria ser professora, não. Já naquela época não tinham educação, imagina agora? (risos).


P/1 – A gente falou um pouquinho de quando a senhora começou a cantar. A senhora falou que os pais da senhora não gostaram…


R – Mas depois ficaram meus fãs.


P/1 – Mas como a senhora convenceu os seus pais? O que a senhora falou pra eles?


R – Nada, eu fui cantando.


P/1 – Mas eles não proibiram?


R – Não, só deram opinião.


P/1 – Ah, tá.


R – Eu tive um pai e uma mãe modernos, já eram modernos (risos).


P/1 – Eles aceitaram mais ou menos bem?


R – Foram aceitando à prestação.


P/1 – E eles chegaram a ver a senhora cantar?


R – Ah, muitos anos. Eu cantei por dez anos, eles ouviram tudo.


P/1 – E por que a senhora parou depois de dez anos?


R – Porque eu casei.


P/1 – E por que uma mulher casada não pode cantar?


R – Eu não queria.

P/1 – O marido da senhora é o engenheiro Luciano Cappellano Reys. E como a senhora conheceu o seu Luciano? Conta pra gente.


R – Nessa época eu não tinha pai, nem mãe, eles tinham morrido. Eu ia morar com a minha irmã mais velha. E tinha um vizinho, era da Argentina, não lembro o nome, e tinha um garoto, filho deles. Esse garoto se apaixonou por mim e eu por ele, era uma boa, brincava de esconde-esconde como se fosse criança. Ele se escondia e dizia: “Lili, e os pés?” Por que os pés dele apareciam, não eram escondidos. Muito engraçadinho. Esse garoto foi com a família pra Santos, passar férias e de lá ele telefonou dizendo que estava com saudade, que morria de saudades. Nessa época eu cantava, aí separei um dia e fui à Santos com minha irmã pra ver o garoto. Quando eu cheguei lá, o garoto ficou louco e veio me beijar, abraçar. Mas ele estava junto de um rapaz, não era uma apresentação, me pôs junto do rapaz pra passear. Eu fui e voltei enamorada (risos).


P/1 – O que tinha de encantador nesse rapaz pra senhora se enamorar? 


R – Os olhos. Ele era bonito. Tudo.


P/1 – E ele trabalhava com o quê?


R – Estudava só. Dava aulas na faculdade, pros alunos, e fazia o curso.


P/1 – E foi com esse rapaz que a senhora casou?


R – Fiquei quatro anos noiva, porque eu não queria casar antes dele se formar, queria que ele se formasse, então noivei por quatro anos. Aí, casei.


P/1 – E onde foi o casamento, dona Lili, que igreja?


R – Igreja do Carmo, da Martiniano de Carvalho. Era moda.


P/1 – E conta pra gente a história da arrumação do vestido na foto do casamento.


R – A foto era do Kojima, célebre. Ele levou duas horas me arrumando. Punha daqui, punha de lá. “Aqui, não”, “agora mais pra lá”, “esse negócio pra cá”. “Tá pronto. Agora encaixa o noivo.” (risos). 


P/1 – A senhora tinha um véu bem grande, né?


R – O meu vestido tinha 11 metros de cauda.


P/1 – Quem que fez o vestido da senhora?


R – Foi Marie Boyer, francesa. Era minha professora de costura.


P/1 – Conta pra gente. A gente viu na foto, mas o que a senhora gostava no vestido da senhora?


R – Tudo. Foi minha irmã que idealizou. Minha irmã foi minha segunda mãe.


P/1 – Porque ela era mais velha…


R – Era casada e não tinha filhos.

P/1 – E não tinha filhos... E me fala uma coisa, durante esses quatro anos a sua irmã queria que a senhora fosse morar com ela. A senhora foi ou ficou morando sozinha depois que os seus pais faleceram?


R – Fiquei com ela. Logo depois o meu irmão casou. Antes ele foi morar com ela também. Aí meu irmão casou e eu fiquei sozinha.


P/1 – E quando a senhora casou, a senhora foi morar em que bairro, dona Lili?


R – Aclimação.


P/1 – Continuou lá?


R – É (risos). Naquele tempo não tinha assim... De japonês, não tinha a Galvão Bueno. Era um prédio que eu fui morar, maravilhoso, ótimo. Um terraço esplêndido, não parecia apartamento.


P/2 – Então, dona Lili, a senhora estava contando uma história da sua infância... Que a senhora estava conversando com uma amiga no portão. A senhora pode contar de novo pra gente?


R – Eu estava dizendo: “Aquela moça tem um narizzzz”, ela respondeu de lá de longe: “É meu esse nariz!”. Ela cortou as relações comigo, por causa disso. Mas ela não perdeu o nariz (risos).


P/1 – Falando em vizinhos, a senhora foi vizinha da Baronesa de Limeira, né?


R – A baronesa morava na Barão de Limeira, e eu também, era vizinha. No Natal ela deu uma festa e mandou convidar a rua pra ganhar brinquedo. Eu não sabia, e disse: “Mamãe, eu fui convidada pela baronesa de Limeira”. Mamãe ficou tão entusiasmada, mandou fazer um vestido lindo, eu fui na festa. Quando começou, ela mandou ficar em fila, eu fui na fila, era das primeiras. Quando chegou lá, ela disse: “Minha filha, você não é dessa festa, é de outra”. Eu digo: “Não, foi a senhora que me convidou” “Então depois nós conversamos”. Era festa de caridade, por isso ela disse que não era minha festa (risos). Mas ela me deu de tudo.


P/1 – A senhora ganhou presentes?


R – Ganhei.

P/1 – O que era?


R – Ah, não lembro (risos).

 

P/1 – Em Santos, a senhora falou como conheceu o seu Luciano, como é que foi o casamento na igreja, a cena do fotógrafo e que vocês foram morar na Aclimação. E como era a casa da senhora na Aclimação, já casada?


R – Era um apartamento, foi o primeiro apartamento que eu morei.


P/1 – A senhora falou que tinha uma vista linda…


R – Muito. Tinha um terraço enorme ao redor do apartamento todo.


P/1 – E como é que veio a primeira filha? Como ela chama?


R – Lycia, o mesmo nome. Deu cada atrapalhada por causa disso.


P/1 – Por quê?


R – Porque é o mesmo nome, exatamente igual. Eu botei o Carvalho pra ficar diferente, porque ela é Lycia Costa Reys.


P/1 – Aí já não dava tanta confusão.


R – Não, ela é Lycia Costa Reys e eu, Lycia Carvalho Costa Reys.


P/1 – E a senhora, casada, o que mudou? A senhora parou de cantar, passou a ser dona de casa? Como é que foi a vida da senhora?


R – Uma maravilha, eu não vivi, sonhei.


P/1 – É mesmo? Descreve pra gente como era o seu Luciano?


R – Um maridão (emocionada).


P/1 – É? A senhora já falou que ele era lindo…


R – Calmo, bom, tudo de bom. Não é porque ele morreu, porque quem morre é bom.


P/1 – Como ele era como pai pras meninas?


R – Bom também, muito bom. Fazia todas as vontades. Era bom demais, por isso elas ficaram independentes. Nessa época começou a independência dos filhos, a Lycia foi, e até hoje tem uma firma. Primeiro, ela teve uma casa de chá, na Haddock Lobo, Jasmin. Foi um sucesso. Fechou porque foi muito roubada, os ladrões entravam e roubavam os convidados de tudo, uma porção de vezes, aí desistiu. E aí foi ser agente de viagens, até hoje.


P/1 – Ela viaja muito também?


R – Muito. É ótima. Todo mundo quer viajar com ela.


P/1 – A outra filha da senhora trabalha com o quê?


R – É matemática, professora. Número pra ela, não existe. Ela pega e resolve. Formou-se no Mackenzie, em Matemática.


P/1 – E elas casaram?


R – A Lycia era noiva, disse pro meu marido: “Eu gosto muito da minha carreira, eu acho que eu prefiro a carreira”, e foi assim. E a segunda casou, tem dois filhos, dois “rapagões”.


P/1 – E como eles chamam?


R – Ivan e André.


P/1 – Ainda do tempo de jovem, de adolescência, a senhora podia contar o que era o Corso na Avenida Paulista?


R – Ah, era uma maravilha. Não andava porque era cheio de carros, o confete, ficava assim o chão, de serpentina, tampava o carro. Era chique e a gente ia de tarde pro Corso.


P/1 – E quem ia no carro, dona Lili?

 

R – Essa família que era minha amiga, amiga da minha mãe.


P/1 – Os três meninos?


R – É.


P/1 – E a senhora ia fantasiada?


R – Ia. Tem aí no álbum. De onça... Era moda fantasiar.


P/1 – E quem fazia essas fantasias?


R – Ah, não sei. Costureira.


P/1 – E costumava ir pra salão depois ou não, era só o Corso?


R – Não, eu era sócia do Paulistano, eu ia a baile e deixei ir, por um motivo qualquer, sabe?


P/1 – A senhora falou que ficou 50 anos casada com o seu Luciano, né?


R – Cinquenta anos, Bodas de Ouro.


P/1 – Fizeram festa, tudo?


R – Fizemos. Bodas de prata, bodas de ouro. Bodas de prata é 25.


P/1 – E como é que foi a festa dos 50 anos?


R – Foi no Tênis Clube, eu era sócia. O buffet era Freire, era chique. No dia do meu casamento choveu pedra, cada pedrona, encheu, o trem armou lá fora, e a chuva caiu. Ele ficou sem saber o que fazer. Como tinham garrafas de bebida abertas, ele carregou tudo pra dentro da garagem, foi uma corrida.


P/1 – Isso o casamento?


R – A festa do casamento.


P/1 – Olha só. 


R – Mas diziam que dava sorte chover.


P/1 – Ah, é?


R – Deu (risos).


P/1 – Qual das filhas da senhora mora com a senhora hoje?


R – Nenhuma.


P/1 – A senhora mora sozinha?


R – Moro sozinha.


P/1 – A que trabalha com Turismo, como ela chama mesmo?


R – Lycia.


P/1 – E ela viaja muito, né?


R – Viaja. Ela conhece o mundo inteiro.


P/1 – E a senhora já viajou com ela?


R – Já.


P/1 – Pra onde a senhora foi com ela?


R – Estados Unidos, a Europa toda. E agora vou pra Índia.


P/1 – Pra Índia? Que beleza, hein?


R – Dia 21 eu vou pra Índia.


P/1 – E dos países da Europa, que lugar a senhora gostou mais, achou mais bonito?


R – Escócia. Parece cartão-postal. Muito bonita.


P/1 – É frio demais?


R – Tem os dois, frio e calor, fortes.


P/1 – Tem alguma história que a senhora tenha na cabeça e queria contar aqui pra gente, que a senhora conta sempre e que a gente não perguntou? O que a senhora gostaria de falar?


R – Que eu continuo gostando muito de cachorro. Apesar do cachorro ter feito isso, ter causado…


P/1 – É mesmo? A senhora tem cachorro?


R – Não. Agora não, mas tive a vida inteira.


P/1 – E que raça a senhora gosta?


R – Eu tive aquela, como é, o nome estrangeiro, esquisito, que o pelo vai até o chão.


P/1 – E a senhora continua gostando de cachorro?


R – Continuo.


P/1 – Maravilha, bacana. Está faltando alguma pergunta?


R – Vocês não me avisaram que iriam fazer isso, eu teria preparado a cabeça (risos).


P/1 – É que é uma conversa informal, a gente vai perguntando, a senhora vai se lembrando, mas tem histórias muito bonitas que a senhora contou pra gente.


R – Mas isso demora…


P/1 – Obrigada pela entrevista, dona Lycia.


P/2 – Obrigado.

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