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História

Superando as inseguranças

História de: Adriana de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu relato, Adriana de Souza relembra seus tempos de estudos no colégio Paulo Freire e o ano em que ela estudou em uma escola especial para surdos para aprender leitura labial. Recorda o choque que sentiu quando descobriu que havia passado no vestibular e o momento que conheceu seu marido em um clube onde jogava vôlei.

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História completa

P1 – Qual o seu nome?

 

R – Adriana Correa Lopes Barreto de Souza.

 

P1 – Qual o seu local e data de nascimento?

 

R – 16 de abril de 1975.

 

P1 – Onde?

 

R – São Paulo.

 

P1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chama Ronaldo Martins Lopes e minha mãe Sônia Lopes.

 

P1 – E dos seus avós?

 

R – Meus avós, da família da minha mãe – ah, eu não lembro o nome dela – era Filó...

 

P1 – Tudo bem!

 

R – O meu avô, é Antonio (risos)...

 

P1 – Antonio?

 

R – É Antonio e o pai do meu pai Américo, mas eu não sei o nome completo.

 

P1 – Qual o trabalho deles, profissão deles, dos seus pais e dos seus avós?

 

R – O meu pai trabalhava numa empresa ___ ____ ele era vice–presidente da _____ e a minha mãe é da diretoria da ____ e a minha avó, a Filó, ela trabalhava de artista plástica e o meu avô, por parte da minha mãe, ele ____ ____ ____ que ele é. A avó, mãe do meu pai trabalhava de dona de casa, o marido dela, meu avô Américo, trabalhava na feira___ ____ ____, né?

 

P1 – Você sabe de onde vem o nome da sua família?

 

R – Se eu sei o quê?

 

P1 – De onde veio o nome de sua família?

 

R – Nome?

 

P1 – É, da onde vem sua família, da onde vem?

 

R – A família do meu pai veio de Portugal, da minha mãe e acho que é daqui mesmo.

 

P1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho o quê?

 

P1 – Irmãos?

 

R – Sim.

 

P1 – Conta pra mim um pouco da sua infância... Como era a casa que você morava na sua infância? Onde você morava?

 

R – Ah, certo. Eu morava aqui em São Paulo, lá em Moema. Tenho três irmãos, é natural. Eu sou a do meio, tenho uma irmã mais velha chamada Gabriela, e o mais novo Fabiano. Eu brincava muito, jogava bola, jogava paciência...

 

P2 – Brincava na rua, Adriana? Como era onde você morava? As brincadeiras eram na rua ou não?

 

R – Não, era dentro do apartamento, brincava muito, a gente se mudou pra Alphaville. Eu era mais moleque, eu brincava na rua, jogava taco na rua, sabe? ____ ____. Eu brincava com os meninos, com os meninos: futebol. taco, handebol...

 

P1 – Como era o dia a dia na sua casa?

 

R – O quê?

 

P1 – Como era o dia a dia na sua casa? O que acontecia na sua casa durante o dia? Você acordava, ia para escola... Como que era?

 

R – Ah, quando eu morava eu morava em Alphaville, todos os dias eu acordava muito cedo, meu pai me levava na escola todos dias, minha mãe me buscava e ____ ____ escola, depois ia para a fono, ____ ___ ___, só voltava pra casa à noite. Fim de semana eu saia pro Shopping, Parque Ibirapuera, pro cinema. Às vezes eu viajo pra casa da Tatiana, ia lá e voltava.

 

P1 – E você falou da escola, você lembra do seu primeiro dia de aula quando você entrou na escola? Você lembra?

 

R – Eu lembro. Eu fui numa escola especial, eu fui lá para aprender a leitura labial, mas eu lembro que eu estava na escola, eu sentava e almoçava arroz, feijão e tomate. Aí eu me lembrava da chuva, eu me lembro homem, que ficava verde quando ficava bravo...

 

P2 – Hulk?

 

R – ... Isso, ele ficava lá e a gente ficava com medo, é isso que eu lembro, agora da escola, escola eu não me lembro muito bem, mas eu lembro de Cipp.

 

P1 – Caracol?

 

R – Cipp, minha titia me levou para lá.

 

P1 – Levou você pra lá...

 

R – Porque a titia falou para os meus pais me tirarem da escola especial porque não compensava, aí eu fui pra escola normal.

 

P1 – E como foi?

 

R – Não lembro exatamente.

 

P2 – Você lembra que idade você tinha, Adriana, quando você foi pra escola comum?

 

R – Eu acho, nove anos...

 

P1 – E era a 1ª série?

 

R – Isso.

 

P1 – E aí você estudou nessa escola até...

 

R – Estudei nessa escola Cipp até que a 8ª série, aí eu sai para o colegial. Eu saí e fui pro Objetivo, fiquei do 1º até o 3º colegial. Depois terminou e eu fiz meio ano de cursinho, graças a Deus eu passei na faculdade, eu não esperava...

 

R – E conta um pouquinho antes quando você fez até a 8ª série nessa escola, como era? Quem eram os professores? Você gostava de algum professor, alguma disciplina, alguma matéria?

 

R – Na minha classe eu tinha uma amiga, Daniela, ela também é surda e outra amiga, a Tatiana, da outra classe, a gente ficava juntas. Fazíamos arte e não prestávamos atenção na aula, eu conversava muito com as minhas amigas, pegava a borracha e jogava, a professora ficava brava, mas tinha uma matéria, história, a professora escrevia muito na lousa... Tinha um professor que eu adorava de matemática, mas eu não lembro... O nome dele era Paulo, eu adorava... E outra a professora, Cecilia, era ciências. Até hoje eu não esqueço porque nessa matéria de ciências foi a minha apresentação para a classe sobre a libélula, jamais esqueci até hoje, eu ficava nervosa, mas o pessoal entende...

 

P1 – Do que você sente saudade da escola?

 

R – Dos amigos.

 

P – Você tinha muitos amigos?

 

R – O Fernando, Plínio, Augusto, o Maurício, a Daniela, a Tatiana e ainda a diretoria da escola, os professores. Uma vez eu voltei lá na escola, tava fechado...

 

P1 – A escola fechou?

 

R – Fechou, acho que faliu, né?

 

P2 – Qual o nome da escola?

 

R  – Paulo Freire, era Cipp , os dois, mas só mudou o nome para Paulo Freire. Rua Quatá.

 

P1 – E depois no Objetivo, o colegial...

 

R – Então, quando eu terminei o colegial... Quando terminei a 8ª série eu não ia fazer o colegial, eu ia parar, aí a minha mãe falou assim: "Faz, só pra você ver como é que é o colegial”. Aí eu falei: “Tá bom!”. Eu fui lá... Eu não estudava deixa para lá, aí eu fazia a prova tirava D, era péssima. No próximo semestre pra fazer prova, ai comecei prestar atenção, eu estudei muito. Aí melhorou, mas eu não passava pela nota, eu passava porque o professor que me ajudava muito e achava que eu merecia passar. Aí passei para o 2º aí eu fiquei mais feliz, com vontade de estudar mais, aí eu estudei do 2º até 3 º,  falei: “Eu não vou fazer faculdade”. Minha mãe falou assim: "Faz o vestibular pra você ver como é que é". Eu falei: “Ta bom”. Eu não estudei pra fazer o vestibular. Era de manhã, sábado de manhã cedinho, eu estava na aula, aí meu pai foi me levou na FAAP. Tinha uma sala especial, lá eu fazia... Chutei as que não sabia, chutei, algumas eu sabia. Eu fui embora, papai perguntou: “E ai como foi?”, eu falei assim: “Algumas eu sabia, algumas eu acertei”. Fomos tomar café na casa do ___.  Aí passou uma semana, era semana de saber o resultado, era à noite, o meu pai estava ansioso, aí fomos para Rua Augusta, tem uma banca grande, eu não sei o nome...

 

P1 – Fica aberta a noite?

 

R – Hã?

 

P1 – Fica aberta a noite

 

R – Fica perto, atrás da Europa. Aí eu fui lá, meu pai olhou, eu estava nervosa e viu lá que eu passei, eu não acreditava, “Eu vou fazer faculdade”.

 

P1 – Como você escolheu a sua profissão?

 

R – Oi?

 

R – Desenho Industrial de Programação Visual. Fiquei quatro anos na faculdade, me diverti muito, foi muito legal, eu fiz parte da faculdade, eu pretendo fazer mais faculdade, é legal...

 

P1 – E como você escolheu essa profissão?

 

R – O quê?

 

P1 – Como você escolheu essa profissão

 

R – Porque eu gosto de desenhar, gosto de computador, o meu sonho é trabalhar numa agência de publicidade na criação, mas está difícil, né?. Então eu fiz um teste para ver o que você gosta de fazer, saiu o resultado: Desenho Digital, falei: “Ah, eu vou fazer”. Aí chegou o 3º ano você tinha que escolher entre dois tipos: Programação Visual ou Projeto de Produto, ai eu escolhi Programação Visual porque tem a ver com tecnologia, com criação, eu gosto.

 

P2 – Adriana, porque você tinha vontade de parar? Terminava o primário...

 

R – 8ª série...

 

P2 – ...Terminou a 8ª série: "Ah, eu vou parar." Depois terminou o colegial: "Acho que eu acho que vou parar." O que de fazia...

 

R – Acho que é medo, sei lá, porque eu pensava que a deficiência auditiva não tinha nada a ver com a faculdade, eu sempre me colocava pra baixo. A minha mãe me falava: "Faz, porque só pra ver não faz mal". Mas eu não pensava isso, eu sempre pensava ruim, mas graças a Deus eu amadureci, né?

 

P2 – Com certeza.

 

R – Era insegurança. Quando eu entrei na faculdade ficava com vergonha das pessoas, mas agora superei...

 

P1 – E na faculdade você encontrou alguma dificuldade?

 

R – Com certeza, eu tive muita ajuda das minhas amigas, até hoje...

 

P1 – As amigas ajudavam como?

 

R – Me ensinava o que o professor falava anotava pra mim, anotava, ensinava a parte difícil, me ajudava fazer trabalho, pra eu entender passo por passo...

 

P1 – E antes da faculdade, como você fazia? As pessoas te ajudavam, como que era?

 

R – Eu tinha a fono, três pedagogas: titia, Mônica e Glaucia, me ajudavam muito. 

 

P1 – E como era na escola, quando você ia pra escola?

 

R – Quando eu ia pra escola?

 

P1 – Quando você ia para a escola e tinha as aulas, como que você fazia para entender?

 

R  – Ah, eu brigava pra entender, eu anotava tudo e levava para pedagoga que me ensinava com calma, de outra forma, com outras palavras para eu entender, é isso.

 

P1 – E por que você escolheu a faculdade, a FAAP, né?

 

R – FAAP? Não lembro... Acho que meu pai falou... Não, eu escolhi a FAAP porque tinha Desenho Industrial. Tinha FAAP e tinha a Mackenzie, aí eu passei na FAAP, no Mackenzie eu fiz vestibular e passei na FAAP.

 

P1 – E você faz o mesmo trabalho do seu pai?

 

R – Na faculdade?

 

P1 – A profissão?

 

R – Um pouco, porque eu trabalho como webmaster. Você sabe o que é webmaster? Trabalha na Internet, eu monto a página para pessoa navegar e também eu faço webdesign. Webdesign é criação da página: as cores, a arte, essa criação... A faculdade tem a ver com programação visual, para juntar cores, logotipos, então tem a ver com Internet. Quando eu comecei trabalhar na Periscope, eu entrei como estagiária, eu entrei e não sabia nada da internet, não sabia, não sabia nada. Então eu fiquei oito, sete meses como estagiária na Periscope, é obrigatório por causa da faculdade, a minha chefe, a Mara me deu um livro, aí eu lia – deste tamanho – consegui entender, aí eu tinha dificuldade de fazer criação, as cores... Tive dificuldades. Aí acabou, sete meses de estagiária, aí eu perguntei: “Vai me contratar? O trabalho tá legal?” e me adoraram, a minha capacidade, os meus trabalhos e me contrataram. Eu fiquei quatro meses na Periscope, depois mudou para outra empresa e essa empresa pegou o que eu montei, eu aprendi tanta coisa lá, foi melhorando minha capacidade. Até hoje tá legal.

 

P1 – Você está no mesmo trabalho que você começou?

 

R – O mesmo trabalho.

 

P1 – Quanto tempo faz?

 

R – Quatro anos...

 

P2 – Adriana, você se lembra de quando você começou a ler e escrever como foi? Você tem alguma lembrança que marcou?

 

R – Escrever... Eu não lembro... Mas eu sabia as palavras, as letras, mas sabia de perguntar, ler em livro porque têm muitas palavras que eu não conhecia, então eu tive que procurar as pessoas, às vezes eu perguntava para as pessoas, mas eu não me lembro como eu comecei a ler...

 

P1 – E você lembra de algum livro que você leu...

 

R – Lembro. O meu primeiro livro que eu conseguia entender foi: A Bolsa Amarela...

 

P1 – A Bolsa Amarela?

 

R – É.

 

P2 – É!

 

R – Com a titia, eu tenho o livro até hoje em casa, tá velho. Agora escrever eu não lembro.

 

P1 – E da escola, você tem alguma coisa que te marcou que você guarda até hoje, alguma lembrança da época da primeira escola? Da "Paulo Freire..."

 

R – As coisas?

 

P2 – As coisas que passaram, que aconteceram com os amigos... Alguma coisa que você sempre lembra da época da escola...

 

R – Futebol, porque eu jogava futebol com os meninos, até participei de campeonatos, faz tanto tempo, tem uma foto eu de cabelo curtinho, parecia moleque, e mais quatro meninos, é isso.

 

P2 – E da época do colegial, você lembra de alguma coisa?

 

R – Colegial... A minha amiga, que chama Audrey, eu adoro ela até hoje, mas eu não tive mais contato com ela. Ela me levou em um lugar pra jogar vôlei, a ACM, onde eu conheci meu marido há onze anos, onze anos... ___ ____ ____, ___ ___ ____, ia fumar...

 

P2 – (Risos)

 

P1 – (Risos)

 

R –... Mas eu não tinha muitas amizades no colegial.

 

P1 – Não?

 

R – Não, eu era mais tímida, insegurança, na faculdade aí eu fiz muita amizade. Eu me lembrei da faculdade... Acho que não tem... Ah, tem muita coisa, né?

 

P1 – Alguma coisa que tenha marcado, que tem a te marcado.

 

R – Oi? Na faculdade?

 

P1 – É!

 

R – Na faculdade, o pessoal...

 

P2 – Adriana, que você conheceu o Cícero, seu marido, na ACM?

 

R – Na ACM, foi.

 

P2 – E como é que foi o começo do namoro?

 

R – Ah, foi engraçado... Você já viu Amor à Primeira Vista? Parecido, parecido, o Amor à Primeira Vista?

 

P2 – Assisti.

 

R – Eu não, a minha amiga Audrey me levou na ACM pra conhecer porque eu sempre gostei de jogar vôlei. Fiquei lá. Primeira vez que eu vi o Cícero, eu só vi, eu não gosto de falar assim, gosto de chamar de Fe, eu o vi e ele estava lá de costas, cumprimentei todo mundo, aí eu olhei... Fiquei lá jogando vôlei, ele era do meu time. Eu olhava para trás e ele ficava olhando...

 

P2 – Ele olhando pra você?

 

R – É... Nossa! Será? Passou uma semana, a gente nem tinha conversado nada, passou uma semana, ele me pediu em namoro, rápido, né? Eu fiquei assim [chocada], não sabia o que falar. Falei: “Bom, vou pensar”. “Ele por que vai pensar?”. “Eu não sabia nada de você”. Ai ele: “Ah, tá bom”.

 

P2 – Foi o primeiro namorado?

 

R – ... Ai... Oi?

 

P2 – Foi seu primeiro namorado?

 

P1 – Foi seu primeiro namorado?

 

R – Sinceramente, tive outro namorado . Teve uma hora que a gente estava lá em cima, __ ___ ___. Sinceramente, eu sempre fugi dos homens, sempre fui tímida. Estava lá conversando. Ele falava e eu não entendia. Ela falava: "a" eu me atrapalhava, teve uma hora que ele veio [para beijá-la], ai eu virei e fui embora, aí passou. Aí passou o final de semana fiquei pensando aceito ou não aceito, aceito ou não aceito. Quer saber? Vou aceitar pra arranjar namorado, fui lá aceitei. O primeiro beijo foi estranho, é normal, né? Eu não contei para ninguém, nem pro meu pai e pra minha mãe. Passou uma semana de namoro e ele me deu um presente. Ai eu falei: “Nossa!”. Eu levei pra casa e papai falou: “O que é isso? Tá namorando?". “Sim!”. "Minha filha tá namorando?" Eu falei: “To”. “Você sabe se esse moço trabalha”. Eu falei: “Não sei”. “Como não sabe?”. Falei:  “Eu não entendo o que eu falava”. Aí ele pediu pra trazer para conhecê-lo...

 

P1 – Para casa?

 

R – É, eu falei: “Tá bom”. Eu falei: “Olha Fe, meu pai quer te conhecer, vamos em casa?”. Meu pai é sério, mas ele é legal, quem o conhece acha que é meio bravo, minha mãe alegre, me ajuda, então equilibra. Ele se ofereceu para ir em casa, eu aproveitei pra levar minha amiga Audrey. Aí teve almoço, meu pai ficava distante, minha mãe ficava perto, conversava, meu pai ficava lá em cima e sempre foi assim, comigo com a minha irmã, com o meu irmão sempre foi assim. Estávamos sentados eu e o Fe, o Fe pegou na minha mão e eu fiquei assim... [receosa]. Pensei: “O que aconteceu da minha vida?”, aí sai pra lá, ele foi lá atrás, me deu um abraço eu: “Meu Deus...”.

 

P1 – (Risos)

 

P2 – (Risos)

 

R – (Risos) Hoje eu abraço ele na frente do meu pai, hoje o Fe que fala: "Respeita seu pai. Respeita ele" (risos). A gente namorou nove anos e quatro meses e aí depois casamos...

 

P1 – Quanto tempo faz que você se casou?

 

R – Dois anos.

 

P1 – E como foi o seu casamento?

 

R – Ah, foi __ __, foi bonito, a gente casou na Rua Quatá, em frente a escola Paulo Freire... Foi de chorar muito. Eu não esperar que eu ia chorar, estava numa boa. Estava o meu pai na porta, quando abriu a porta eu chorei, chorei... Foi legal, foi bonito, me diverti. Eu quero me casar de novo porque a festa é muito boa, a festa passa muito rápido, um minuto acabou...

 

P1– (Risos)

 

P2– (Risos)

 

P1 – Você queria casar de novo? (Risos)

 

R – Sempre. A sala estava cheia, tinha até um lugar em outro lugar, praia...

 

P1 – E como é a sua vida de casada?

 

R – Oi?

 

P1 – Como é a sua vida...

 

R – Maravilhosa. No começo do casamento é meio... Meu marido é bagunceiro, né? Eu também sou bagunceira, mas eu estou adorando, me acostumei com isso, eu lavo e eu passo, tá ótimo, tá maravilhoso.

 

P2 – Adriana, e com seus irmãos. Você falou que tinha cinco irmãos, mas você falou de dois...

 

R – Dois irmãos, não, desculpa, tenho cinco irmãos. Dois irmãos, Gabriela e Fabiano, são naturais, mas três irmãos são adotivos e tem uma irmã, a caçula, tem onze anos, ela faz aniversário quinta feira.

 

P1 – E como era – quando você morava na sua casa, como era antes de casar?

 

R – Antes de casar?

 

P1 – É, quando você morava com sua família, como era a convivência com seus irmãos? Tem alguma coisa que...

 

R – Como era convivência?

 

P1 – Como que era com seus irmãos? Vocês se davam bem, vocês brigavam, tinha alguma coisa assim?

 

R – Certo. São seis filhos, seis filhos, um quarto tinha eu e a minha irmã, tinha uma parede, o meu quarto com a Gabi. A gente brigava muito por causa de roupa, até hoje, “Ah, você comprou essa roupa?”, “Deixa eu pegar emprestado”, até hoje. O Fabiano, ele é muito quietinho. O Renato é irmão adotivo, mais velho, se você pedir alguma coisa “Ah, pega pra mim?”. “Não”, ele é folgado, ele não faz nada, videogame ele adora, ele é super fã de computador. A Erica tá virando mocinha, tal, na época ela bebê,  o Renato era menor... A Márcia e o Fabiano brigavam muito e eu sempre separava, era só esses 2, mas a Márcia brigava com o Fabiano, sempre foi assim. O Renato, a gente não tem muita conversa porque ele só falava baixo, ele só falava de moto, tatuagem, ele só fala bobagem. Hoje eu converso mais com a Gabriela porque a Gabriela mora em Santos, os outros irmãos moram em Santos, todo mundo mora lá. O Fabiano mora em São Paulo, não tem como falar todo dia. A gente se encontra três vezes por mês, duas vezes por mês...

 

P1 – No seu trabalho, como é que você pensa pro futuro, pra frente? No seu trabalho...

 

R – Sim, como te falei, o meu sonho é trabalhar na agência de publicidade. Quero trabalhar numa empresa com Internet. Eu sempre quero fazer mais curso, vários cursos. Design de Interior, quero fazer um curso fora do Brasil.

 

R – A minha esperança é trabalhar para mim porque o trabalho, trabalho é... Eu não sei o quero, não sei.

 

 P2 – A agência de publicidade você gostaria por quê? Por que numa agência de publicidade?

 

R – Deixa eu ver, deve ser muito legal, com uma equipe, conversa, o ambiente é legal.

 

P2 – E onde você está...

 

R – Eu sou da publicidade.

 

P2 – Você chegou a procurar, Adriana, trabalhos em agência de publicidade?

 

R – Já!

 

P2 – Mas está difícil, né?

 

R – Eu acho que em programação sim, mas o meu trabalho precisa melhorar, por isso que eu preciso fazer muito curso, só que eu não tenho tempo. Vou ver daqui pra frente se eu vou fazer.

 

P1 – E os colares?

 

R – Ah, está todo mundo feliz. Uma vez por mês eu vou até 25 de março só para comprar as peças. Vou lá, pego o trem sozinha, pego o trem, pego o metrô porque eu nunca andei sozinha, sempre fui acompanhada, sempre.

 

P1 – E pra quem você vende?

 

R – Oi?

 

P1 – Pra quem você vende os colares?

 

R – Para as minhas amigas, minha família, alguns eu dou presentes e para minha amiga Alexandra que mora em Santos, ela me disse que tem uma amiga que tem uma loja e me pediu pra levar pra deixar na loja. Nossa, eu estou muito feliz... É isso que eu quero, feliz por trabalhar. Então, eu sempre fui acompanhada pelas pessoas pra qualquer lugar. Hoje, eu vou sozinha, os meus pais que ficam preocupados. Agora sei me virar, eu estou bem.

 

(Pausa)

 

P1 – Adriana, e você encontra os amigos da época de escola?

 

R – Qual amigo?

 

P1 – Você encontra com seus amigos da escola? Você tem contato com eles?

 

R – Do Paulo Freire tem uma amiga minha que se chama Joana, que sempre me apoiou no Paulo Freire. Aí terminei a oitava série, fui para o colegial, quando eu entre na faculdade, encontrei a Joana, estava preenchendo ficha, ai uma pessoa veio e falou: “Oi”. Eu olhei e ela: “Oi, você é do Paulo Freire? O que tá fazendo aqui?”. “Estou fazendo faculdade”. Fiz faculdade por quatro anos e tem uma amiga que chama Camila, ela é muito minha amiga, ela mora em Itu, a gente tem contato até hoje por email, chamando a outra pra sair. Essa Camila eu mandava emails, até hoje ela me responde e a Daniela, ela é minha amiga do "Paulo Freire" e até hoje é muito amiga, a Tatiana também, mas a Tatiana é mais, todo dia, todo dia a gente se fala, ela mora aqui ao lado.

 

P1 – Se fosse mudar alguma coisa na sua vida escolar, na escola, o que você mudaria?

 

R – Na escola?

 

P1 – É.

 

R – O que eu mudaria...

 

P1 – Se você pensar na sua vida na escola, tem alguma coisa que você gostaria de mudar? Que fosse diferente?

 

R – Na época.

 

P1 – Na época da escola.

 

R – O eu mudava?

 

P1 – É.

 

R – Quando eu estava na escola o gostaria que mudasse... Não precisava nada.

 

P2 – Você achava que estava tudo como tinha que ser? Ou tinha alguma coisa na escola, no "Paulo Freire", né, que no Paulo Freire foi da 1ª à 8ª...

 

R – É.

 

P2 – Lá tinha coisas que você achava que tinha que ser diferente para ficar melhor? O jeito da aula...

 

R – Não pensava nada...

 

P2 – Oi?

 

P1 – Não pensava?

 

R – Não pensava nada, só pensava em jogar com meninos bola, me preocupava com o estudo...

 

P1 – Tem alguma coisa que poderia ser de outro jeito, ser melhor? Você enfrentou alguma dificuldade?

 

R – Não...

 

P2 – Se não tinha nada pra mudar...

 

P1 – Se não tinha nada pra mudar...

 

R – Não, tava ótimo.

 

P2 – Da "Olga", "Olga Benário” era a outra escola?

 

R – Não peguei, fala de novo.

 

P1 – A escola, antes da Escola Paulo Freire, você lembra o nome dessa outra escola?

 

P2 – A escola Especial...

 

R – Era "Paulo Freire..."

 

P1 – A escola especial...

 

R – Ah, eu não sei o nome...

 

P2 – Você ficou pouquinho tempo?

 

R – Um ano.

 

P1 – Um ano...

 

R – Só pra aprender a leitura labial.

 

P1 – E quando você mudou da escola especial para a "Paulo Freire", você lembra de alguma coisa importante?

 

R – Eu lembro porque eu cheguei à escola, eu vi a Tatiana, quando eu entrei na aula... Quando eu entrei na sala, eu olhava em volta achava legal, muita gente, aí a professora pediu pra fazer um negócio que eu não sabia, estava com vergonha, eu esperei, a professora veio, eu olhava o que era pra escrever, aí a professora explicou, eu não lembro quem é, mas eu entendia, era legal. Era meio estranho porque eu fiquei um ano lá na escola especial, depois só normal, as pessoas normais. Era tudo azul, ficou legal, ficou melhor.

 

P1 – Você chegou a repetir algum ano?

 

R – Não, não lembro...

 

P1 – Você lembra em que ano você terminou a 8ª série?

 

R – Oi?

 

P1 – Em que ano você terminou a oitava série, quando você terminou...

 

R – Eu entrei na faculdade em 95, agosto, em 91 eu terminei a 8ª série...

 

P2 – Adriana, e do colegial, tem alguma coisa que você gostaria de mudar nessa fase...

 

R – Não, tá legal. Eu adoro as novidades e sempre quis mudar muita coisa. Eu achava legal a faculdade, eu achava legal.

 

P1 – E na sua vida, você gostaria de mudar alguma coisa?

 

R – Hoje?

 

P1 – É, pensando na sua trajetória de vida, na sua história de vida!

 

R – Da infância?

 

P1 – Da infância até hoje...

 

R – Se gostaria de mudar?

 

P1 – Mudar alguma coisa?

 

R – Não, foi muito boa, eu não tenho nada contra, ta boa.

 

P1 – A vida é boa?

 

R – É! Não, pelo menos até hoje foi maravilhoso, aprendi muita coisa...

 

P2 – Adriana, você gostaria de falar mais alguma coisa para gente nessa entrevista, já está chegando ao fim...

 

R – Falar sobre o quê?

 

P2 – Não, se você ainda acha que alguma coisa da sua vida que aconteceu que a gente acabou não perguntando e que você gostaria de contar...

 

P1 – Tem alguma coisa que você gostaria de falar?

 

R – Não sei... Eu gostaria de contar o que aconteceu na terça feira, pode ser?

 

P2 – Claro!

 

R – Como vocês sabem, eu não ouço, eu uso aparelho, mas não uso aparelho [sempre]. Eu tinha combinado com a minha mãe pra encontrar essa minha avó, tirei o fone pra assistir um negócio na TV, estava sentada ai tocou meu celular. Filó, a minha avó, minha mãe estava lá. Eu não falo ao telefone, eu só atendo e desligo. Eu estava falando [no celular], ai apertei [o ouvido], não sei porque apertei, estava falando. Ai minha mãe falou: “Tá bom”. Eu falei: “Hã? Mãe, você está falando, eu estou ouvindo, mas não estou usando aparelho”. E me impressionou, fiquei boba. Naquele momento precisei me beliscar para ver se era sonho, era vida real. Minha mãe ficou [surpresa]... Meu marido estava jogando bola, eu estava com telefone esperando pra ver se ele chegava pra ligar pra minha mãe. Ele não chegava, não chegava... Chegou onze e meia da noite. Ai ele falou assim: “Seu pai deixou um recado e ele ficou emocionado porque você ouviu o celular”. Eu ouvi. Ai na quarta feira o Fe me ligou, eu falei: “Oi”. Ele: “Oi”. Ai ele falou, mas eu não entendo o que ele fala. “Eu vou...”. Não consegui entender. Falei: “Mas eu estou ouvindo”.  Eu não sei se melhorou a audição só que me impressionou. Eu fiquei feliz. É isso...

 

P1 – E emocionou a gente também.

 

R – Oi?

 

P1 – E emocionou a gente também.

 

R – Está perguntando? Está afirmando.

 

P1 – (Risos)

 

P2 – (Risos)

 

R – (Risos) Eu falei, minha mãe me ligou 5ª feira, ___ ___ ___, __ ___, falei: “Tá tudo bem”, mas ela está louca pra me ver. Pra saber como é que é, depois eu conto pra ela.

 

P1 – Obrigada Adriana!

 

R – Oi?

 

P1 – Obrigada!

 

R – De nada, foi um prazer.

 

P2 – Obrigada!

 

R – De nada.

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