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História

T. Kaçula sinônimo de militância no samba de São Paulo

História de: Tadeu Augusto Matheus (T. Kaçula)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/09/2009

Sinopse

Neste texto, T. Kaçula nos conta um pouco da sua militância no samba paulista. Fala sobre o seu trabalho como músico e pesquisador no samba e na cultura popular brasileira, sobre os projetos que criou  e desenvolveu  em parceria com outros militantes do samba. Recorda sobre a sua vida escolar, os professores que marcaram a sua vida. Diz sobre a importância do samba em sua vida.

História completa

Nasci no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo. Costumo dizer que é o bairro mais querido do Brasil. Foi onde me criei e tornei-me um cidadão. O meu pai é da cidade de Ubá, Minas Gerais e foi criado por muito tempo em São João de Meriti, Rio de Janeiro. Minha mãe é do interior de São Paulo, da cidade de Araraquara. Dos meus avós conheci apenas a minha avó paterna. Embora não tive contato com meus avós  maternos, os meus tios irmãos da minha mãe me trouxeram  um referencial importante da família.

 

Na Escola Municipal de 1º Grau Humberto Dantas, no bairro da Casa Verde, iniciei meus estudos. Lembro da minha primeira professora, Dona Cidinha. E da Dona Iolanda. Ela foi minha professora do 2º ao 5º ano do ensino fundamental. O período escolar foi um pouco conturbado para mim, pois tive que interromper os estudos para trabalhar. Minha família estava passando por crise financeira. Meu pai havia sofrido um acidente de trabalho e teve que ficar seis meses imobilizado. Era ele quem sustentava a família.

 

Concluí o ensino fundamental fazendo curso supletivo. O meu ensino médio foi um curso técnico em Administração de Empresa na Escola Derville Allegretti, situada no bairro de Santana. Nessa época um professor que me marcou muito foi o professor Marcos. Ele me deu um norte bacana, não apenas na questão instrucional, mas de me situar como cidadão.

 

Ao longo da minha vida trabalhei como office boy, servente de pedreiro, trabalhei em olaria, fábrica de sapato, fábricas de produtos para limpeza de carro etc. Uma das funções que mais exerci  foi a de office boy. Trabalhei numa franqueada da Xerox no Brasil. Nessa empresa fiquei por um ano. Depois fui trabalhar na Editora Pini. Na Pini trabalhei por mais cinco anos. Sempre aliando esses trabalhos à música.

 

Aos 13 anos comecei a aprender tocar cavaquinho. O meu primeiro cavaquinho foi um presente do meu ex-patrão, hoje amigo, Floriano. Ele contribuiu para eu me tornar um músico profissional. A minha família também  influenciou essa minha veia artística. A casa dos meus pais foi uma casa de samba. Meu pai foi músico. Meus irmãos sempre foram envolvidos com música, samba. Meu irmão, o André Pantera, passou por várias escolas de samba. Ele começou no Peruche em 1989, cantando com o Jamelão.

 

Quando eu trabalhava na Editora Pini passei a tocar muito em bares e centros culturais. Na época eu estava com 25 anos, então  decidi  trabalhar só com música. Vivenciando música desde a mais tenra idade, comecei pesquisar sobre cultura popular e música. Aliei uma coisa a outra, o  trabalho como pesquisador e músico. Apostei nisso e há mais ou menos 11 anos me dedico a  música e ao meu trabalho de pesquisa.

 

A pesquisa chegou cedo em minha vida. Quando ganhei o meu primeiro cavaquinho comecei estudar por conta própria, não tinha condições de pagar  uma escola de música. Pesquisava aqui, ali, comprava revista de música, na época tinha uma revista chamada Ginga Brasil. Muita coisa e muitos acordes aprendi nessa revista.

 

No cenário musical o Grupo Sem Malícia foi o primeiro grupo onde comecei trabalhar profissionalmente. Neste grupo tocamos muitas músicas da década de 1980. A minha referência de samba começou a se conceituar a partir da década de 1980. Nessa época, houve uma transformação na forma de fazer samba. Era diferente da forma que se fazia samba na década de 1970. O samba da década de 1980 teve como principais protagonistas o Grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Mestre Marçal entre outros. Essa turma influenciou muito a minha geração.

 

Depois do grupo Sem Malícia, integrei o Grupo União, que depois passou a se chamar União da Raça. Quando entrei para o União da Raça gravei profissionalmente o meu primeiro disco com um grupo. O União da Raça  realizava  muitos shows em SESCs, interior de São Paulo e outros estados. A partir do União da Raça entrei na música com um olhar mais profissional. Entendi a importância de discutir música de forma contundente. Passei a pesquisar o samba mais a fundo.

 

Minha pesquisa começou partindo da cidade do Rio de Janeiro.Tive muita referência no Rio. Mais me questionei: “como começou essa história toda aqui em São Paulo?”. Aprofundei na pesquisa do samba em São Paulo. Nessa época, compreendi um pouco mais do processo de organização desse samba. Aliada à pesquisa, usei a didática musical para contar e explicar essa história, quais foram os elementos que deram origem ao samba, quais foram as manifestações que preservaram, resistiram etc. Eu quis apresentar essa pesquisa em várias ocasiões. Então voltei-me mais para o lado educacional do samba.  Afastando-me um pouco da performance artística.

 

No final de 1990 estávamos questionadores sobre a onda de pagode que surgiu no início dessa década. Não foi uma crítica a essa música e sim um questionamento pensando na preservação do samba raiz que aos poucos estava sendo esquecido com o surgimento do modelo de samba de 1990. Pensamos em mecanismos para “popularizar” o samba raiz, não popularizar de forma mediática.

 

Meu irmão  André organiza e cria o Clube dos Sambistas de São Paulo. Era um local onde a intelectualidade do samba se encontrava para discutir propostas e ações objetivando a preservação e difusão do  samba raiz. Em 1999, começamos a nos reunir para cantar samba das décadas de 1940 a 1980. Organizamos  alguns saraus, trouxemos o documentário Geraldo Filme do diretor Carlos Cortez, contando a história do Geraldo Filme. Ainda em 1999, 13 de maio, eu e um grupo de amigos, o Iaco, o Pelé, o Papu, o Emerson Urso, (Elisângela D ou Nê?), fundamos o projeto cultural Samba Autêntico.

 

No final de 1999 iniciamos um trabalho no centro de São Paulo, na Rua General Osório, na Loja Contemporânea do senhor Miguel. Esse local já era um ponto de encontro tradicional de músicos, sambistas. Após um ano tivemos que sair, pois o espaço não comportava o número de pessoas e estava atrapalhando o andamento da loja. Estamos  com esse projeto no Boulevard da Avenida São João. Nessas rodas de samba,  antes de cantar eu explicava sobre o samba que ia ser cantado, porque o compositor compôs, quando compôs, quem gravou e em  que período gravou.

 

O Projeto Cultural Samba Autêntico em parceria com a União de Negros pela Igualdade e a Secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania realizou, em 2001, a atividade Samba e Cidadania para Todos. Esse evento aconteceu  na sede da Secretaria da Justiça no auditório André Franco Montoro no Pateo do Collegio. Neste endereço há algumas décadas funcionou uma central de polícia. Quando os negros faziam samba ou batuque na cidade, a polícia prendia, quebrava o instrumento e eram presos nessa central.  Ainda com as pesquisas sobre o samba, o Estado de São Paulo, sua formação política e cultural, descobrimos que na década de 1970 a ditadura bateu forte sobre as escolas de samba. Nesse evento Samba e Cidadania para Todos homenageamos sambistas que foram reprimidos, o senhor Carlão, o falecido Mestre Feijoada, o falecido Hélio Bagunça, o falecido Juarez da Cruz, o Fernando Penteado.  Todos os mestres que sofreram preconceito racial, social. Em agradecimento as suas contribuições ao samba de São Paulo, foi entregue a eles, pelo secretário de Justiça uma placa.

 

Outra ação desenvolvida com base nas pesquisas que efetuei foi o Projeto  Memória do Samba Paulista. É um projeto de 12 discos que estou produzindo junto com Renato Dias e o Kolombolo - esta última é uma entidade de preservação do samba e da cultura popular que ajudei a criar. Produzimos 12 discos da velha guarda do samba de São Paulo. Esses discos trazem repertórios de músicas das décadas de 1960, 1970 e 1980. E traz também sambas contemporâneos criados pelos próprios representantes da velha guarda. A ideia é que ao término dos lançamentos desses 12 discos, organizaremos uma caixa com um livro que estou escrevendo sobre as  origens do samba e da cultura popular  de São Paulo. O objetivo é que esse material sirva também como fonte de pesquisa para outros músicos, pesquisadores. Encontramos dificuldades em levantar material sobre o assunto e pensamos em produzir mais e deixar disponível para  quem quiser entender um pouco mais da história do samba de São Paulo.

 

O meu trabalho é totalmente voltado  para o resgate  e preservação do samba raiz, objetivando que muitos brasileiros além de tocar, cantar e dançar esse gênero musical o enxergue como patrimônio cultural do país. Nesse sentido projetamos o Terreiros do Brasil. Este projeto é um intercâmbio cultural com sambistas, músicos, pesquisadores e compositores de algumas regiões do país. Estamos com uma rede de oito estados, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nos encontramos, no mínimo, uma vez por ano para discutir samba. Esse trabalho de pesquisa me levou a palestrar em alguns lugares importantes tanto em São Paulo quanto em outros estados. Palestrei na UNICID, Mackenzie, USP, na PUC, em centros culturais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e congressos em Brasília. Estive em Barcelona a convite do consulado brasileiro em Barcelona. E em Roma apresentei meu trabalho musical.

 

Por tudo que vivi e passei não mudaria uma vírgula na minha vida. Tenho três filhos que são as minhas razões de viver. Sou diretor e produtor musical e aspirante a sociólogo, é uma área que me fascina. Estou estudando para isso. Desse histórico todo, o maior trunfo que carrego comigo é a relação de muita proximidade com os representantes da velha guarda do samba de São Paulo. Se eu sei sobre  samba, aprendi com eles. O samba é minha profissão. Entro na roda de samba, canto e brinco, mas sem perder o foco da importância do samba como elemento de existência política e cultural. Encaro-o como o psicólogo encara a Psicologia,o advogado o Direito e o médico a Medicina.

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