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História

Tattoo campineira

História de: Jair Pereira de Barros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/04/2013

Sinopse

Nasceu em Campinas, no dia 26 de janeiro de 1966, filho de Maria Coutinho de Barros e Antônio Pereira de Barros. Seu pai era comerciante, dono de um posto de gasolina em Campinas. Jair tem nove irmãos. Alguns são comerciantes e outros trabalham em metalúrgicas. Começou a tatuar aos 20 anos de idade e logo abriu a sua loja. Foi um dos primeiros tatuadores de Campinas e atualmente é o mais antigo tatuador da cidade ainda em atividade.

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História completa

P1 – Então para começar, eu gostaria que você me dissesse seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Jair Pereira de Barros. Nasci em Campinas e tenho 41 anos. E nasci dia 26 do um de 66. P1 – Qual o nome dos seus pais? R – Minha mãe é Maria Coutinho de Barros. E meu pai é Antônio Pereira de Barros. P1 – Sim. Você se lembra dos seus avós? R – Não me lembro. Já eram falecidos. P1 – Quando você nasceu? R – É. P1 – Os seus pais trabalhavam com o quê? R – Minha mãe era do lar e meu pai era comerciante, em Campinas. P1 – E ele trabalhava com o quê, especificamente? R – Posto de gasolina. P1 – Posto de gasolina? R – Isso. P1 – Você tem irmãos? R – Tenho cinco irmãos. Dez, cinco homens e cinco mulheres. P1 – Família grande. R – Grande. P1 – Você sabe me dizer mais ou menos com que eles trabalham, assim, porque já é tanta gente. (RISOS) R – É uma família bem grande, né? Ah, uns é comerciante, dono de supermercado. Uns trabalham em metalúrgica. Todos eles é complicado falar, porque não moram todos em Campinas, né? Um trabalha na Bosch. P1 – Ok. E você nasceu e se criou aqui em Campinas? R – Eu nasci e se criei em Campinas. P1 – Que bairro você morava na sua infância? R – Na minha infância, no Proença. No bairro Proença. P1 – E como que era o bairro quando você era garoto, assim? R – Ah, era legal, assim, a gente brincava muito ali e tal. Porque o bairro que eu moro, já faz muito tempo que eu moro. E eu era muito pequeno quando morava no Proença. P1 – E você morou lá até que idade? R – Até os sete. P1 – E nessa fase de pequenininho, até os sete anos, você brincava muito na rua? Como que eram as brincadeiras assim? R – Ah, era pega-pega, esconde-esconde, aquelas brincadeiras de molecada mesmo. Hoje acho que não tem mais, hoje é só internet, computador. P1 – Você acha que ser criança, na sua época era diferente de ser criança hoje? R – Ah, totalmente. Totalmente diferente. P1 – Jóia. E você tinha um grupo de amigos ali nessa fase da infância? R – Tinha, tinha sim, uns amiguinhos. Não lembro muito bem, porque faz muito tempo, né? Mas tinha uma galerinha, assim, uma molecadinha, uns quatro ou cinco molequinhos. P1 – Qual a principal diferença que você vê da sua infância, dessa época que você viveu aqui em Campinas, para garotada de hoje, assim? R – A diferença é só a tecnologia que entrou. Antigamente era muita brincadeira manual. Agora não, agora é vídeo-game, internet e tal. Antigamente era mais estilingue, pedra na vidraça do vizinho. P1 – Quebrou muita vidraça? R – Muita vidraça. (RISOS) P1 – Muito bom. E assim, quando você era pequeno, filho de família grande e tal, tinha que fazer muita compra para sustentar a família toda. Você chegou a acompanhar seus pais quando eles faziam compra? R – Não, acho que não. Eu ficava mais em casa, porque era o caçula, né, então sempre ficava em casa. Era o menorzinho. Acho que meus irmãos que faziam essa parte com meu pai e minha mãe. P1 – E você falou que seu pai era comerciante, trabalhava em um posto de gasolina, tal, tal, tal, será que foi isso que te deu inclinação para trabalhar com comércio, ter um negócio seu, mesmo sendo tatuador? R – Não. Acho que não. Acho que a tatuagem veio porque eu fiz uma tatuagem em mim. Um tatuador me tatuou e eu me simpatizei com a idéia e comecei a tatuar os outros também. P1 – E quando chega essa fase de escola, assim, como é que foi essa vivência na escola, essa fase de adolescente, assim? R – Na escola? P1 – Normal, assim. Quando você chegou a ir para escola? R – Ah, tá. P1 – Na sua adolescência mesmo? R – Ah, acho que foi uma adolescência normal. Acho que não tive muito problema não. Mas eu precisei trabalhar meio cedo, não terminei o colégio, assim, não fiz o colegial porque precisei trabalhar meio cedo. P1 – E qual foi o seu primeiro emprego? R – Meu primeiro emprego foi em uma serralheria. Meu irmão trabalhava em uma serralheria e ele falou: “você quer trabalhar?”. Eu falei: “ah, eu quero trabalhar, ter meu dinheiro”. Aí parei o estudo e fui trabalhar na serralheria. Aí depois eu saí, aí teve vários outros empregos. P1 – Você trabalhou do que mais, assim? R – De motoboy. Trabalhei de empresa de carro forte. Trabalhei no Banco Nacional. Depois comecei a tatuar, tinha dois empregos paralelos, aí a tatuagem foi dando certo, aí eu abandonei um, fiquei só com a tatuagem. P1 – O que você trabalhava em paralelo com a tatuagem? R – No banco. P1 – No banco? Você era bancário? R – Era bancário. Trabalhava no banco e final de semana fazia tatuagem. P1 – E como era conciliar isso aí? De repente está lá na agência, trabalhando com o cliente, e no outro dia está tatuando o cliente. R – É, no sábado e domingo estava tatuando. Aí depois começou a virar, aí pedi as contas do emprego e fui só tatuar mesmo. Aí deu certo... P1 – Desculpa te cortar. Você falou que começou a tatuar, porque você pegou gosto que te tatuaram, tal. Como que a tatuagem entrou na sua vida, assim, como que deu esse estalo, assim, para você? R – Ah, eu vi um cara com um álbum no centro da cidade, mostrando em uma loja, aí eu me interessei, falei: “o que é isso?” Aí ele falou: “sou tatuador”. Eu falei: “pô, gostaria de fazer uma tatuagem”. Aí ele falou: “trabalho em um estúdio e tal”. Era lá Proença mesmo, inclusive ele está lá hoje. Aí fui lá, fiz uma tatuagem, vi o equipamento, ele falou: “ah, se você quiser aprender a fazer tatuagem, posso vender o equipamento para você, tal, e te ensinar umas dicas básicas”. Eu falei: “legal”. Aí eu comprei o equipamento básico, ele me ensinou mais ou menos, eu sabia desenhar já. Desde pequeno eu já desenhava um pouco. Aí eu fui embora. Depois eu fiz um aperfeiçoamento com curso de desenho e estou tocando o barco até hoje. P1 – E, assim, você tocou em uma outra questão que mexe com a minha curiosidade, assim, a questão do desenho é fundamental, né? R – Totalmente fundamental. P1 – Mas uma coisa é desenhar no papel, outra coisa é desenhar na pele? R – Na pele. É, totalmente diferente trabalhar com uma agulha vibrando e no papel o lápis. Mas a percepção de desenho é igual, é a mesma. Você tem que ter tanto para o papel, quanto para a pele. Tem que olhar e já imaginar o desenho e ir fazendo. P1 – E você está, quando assim, como foi essa transição? Quando você chegou e falou assim: “pô, vou sair do banco e vou tocar o meu negócio”? R – Ah, a hora que a parte financeira da tatuagem estava rendendo mais que o salário de bancário. Aí eu resolvi, falei: “ah, vou trabalhar só com isso aqui, que vai ser melhor”. Aí passei a trabalhar a semana inteira. P1 – E, assim, querendo ou não, é um comércio alternativo, não é uma coisa comum. Como que foi para você lidar com isso, assim, de repente você tinha lá uma “estabilidade” de um emprego e aí você partiu para outra mesmo, como é que foi isso? R – É. É que eu fiquei um bom tempo. Acho que eu fiquei assim, nos dois empregos, assim, acho que mais de, uns dois anos, trabalhando no banco e fazendo a tatuagem devagar. Aí foi conciliando, foi acostumando. Não foi um impacto muito grande. P1 – E, assim, agora você fala que você deixou em um momento de ser empregado para ter o seu negócio. R – Para ter o meu negócio. P1 – E como que é gerenciar isso aí? Como que é administrar? R – Ah, é tranqüilo, porque uma micro-empresa não tem assim, não tem funcionário nenhum, é só eu mesmo, então não tem muito trabalho. Quem trabalha comigo lá é autônomo, trabalha por conta também, presta serviço para mim. Então administrar é tranqüilo. Não tem muito problema. P1 – Sim. Outra coisa, assim, o tatuador, ele meio que, a tatuagem, ela tem ganhado um espaço na sociedade maior, assim, maior aceitação. A gente sabe que, tipo, há 30 anos atrás era “oh”, um bicho de sete cabeças. Como é que você enxerga essa transformação, assim, desses anos todos? R – Ah, eu acho legal a cabeça das pessoas, de uma forma geral, foi abrindo para área aí e a pessoa foi conscientizando que não tem nada a ver. A pessoa pode ter uma cicatriz ou uma tatuagem, é a mesma coisa, não vai mudar nada. E hoje, parece que para ser um artista hoje tem que ter tatuagem. Antigamente não, se você tivesse uma tatuagem você não entrava no emprego. Agora eu também tatuo muito policial, artista, jogador de futebol. Hoje está tranqüilo. A sociedade pegou legal essa onda aí. P1 – Você falou que das pessoas que você atende, qual que é o perfil médio, assim? Qual que é, mais ou menos, a pessoa que vai lá fazer uma tatoo? R – O perfil da pessoa? P1 – É. R – Antigamente era mais roqueiro. Aquelas pessoas que eram mais rebeldes, antigamente. Agora não, agora é a classe mais média alta que fazem tatuagem. Perfil das pessoas é pessoa bem normal mesmo, hoje. Antigamente era considerado mais louco, né? Hoje, não. É tranqüilo. P1 – E a idade aumentou, tem gente mais velha fazendo? R – Tem, tem. Isso aí é legal citar que tem gente mais velha fazendo tatuagem. P1 – Mais jovens também? R – Mais jovens e antigamente eram os mais jovens. Agora não, os jovens e os mais velhos também estão fazendo. Que os pais ficavam esperando o filho chegar com aquela tatuagem mal feita, né, “não, não vai fazer tatuagem, que é uma coisa muito...”. A hora que chegava em casa com uma tatuagem bem feita, com um tatuador profissional, aí: “pô, mas é bonito isso aí. Pô, vou fazer uma também”. Aí os pais acabam fazendo. P1 – Sim. E você acha que nesses anos todos houve uma transformação, assim, o tatuador, ele acaba vendo a transformação dos costumes das pessoas. R – Totalmente. P1 – Você acha que a sociedade mudou muito nesse tempo? R – Ah, eu acho que mudou, hein. A sociedade mudou, de modo geral, mudou totalmente. P1 – E, assim, voltando à questão do perfil das pessoas, qual a pessoa mais nova que você já tatuou e a pessoa mais velha que você já tatuou? R – A mais nova, eu acredito que foi há um tempo atrás, que agora está proibido tatuar menor, foi na faixa de 16 anos, com autorização dos pais, tudo. Agora a mais velha, acho que 70 anos eu já tatuei, pessoa de 70 anos. P1 – Sério? R – Já. Bastante. P1 – Bastante? R – Bastante. P1 – Ou seja, já não é mais um tabu, assim? R – É. A pessoa fala assim: “pó, já estou com 60, 70 anos, sempre tive vontade de fazer, nunca tive coragem, por que eu não vou fazer?”. Aí faz. Isso aí é direto que a gente faz. P1 – Sim. Vou puxar um pouco para a sua juventude de novo, assim, quando você era mais garoto, assim, você costumava sair bastante, você ia para festa, baile, essas coisas? R – Ih, sai bastante para festas, bailes, não falava danceteria, falava vamos em um sonzinho. Hoje é só balada, danceteria. Antigamente era sonzinho na casa dos amigos, portão aberto. Você estava passeando, você podia entrar, mesmo que você não conhecesse ninguém você podia entrar. Hoje não pode mais, né? P1 – Sim. E quando foi que você fez a sua primeira tatoo? R – Foi... P1 – Pode falar a idade. R – Em 85. P1 – Em 85? Você tinha, 30, 29? R – Estou com 41, em 85, acho que não. Estava com meus 20 anos. P1 – Não, você nasceu em? R – Em 66. P1 – Para 86, são? Vinte. R – Acho que eu tinha uns 20 anos. É, uns 20 anos. P1 – Dezenove para 20. Está certo. Mas você já admirava antes a questão da tatuagem? Achava bonito? R – Ah, achava interessante, mas não sabia ninguém que fazia. Era um negócio muito complicado. Você não tinha acesso a tatuadores. P1 – E qual foi a reação da sua família? R – Ah, na época da primeira tatuagem minha mãe ficou meio brava. Mas depois, veio a segunda tatuagem, ela falou: “você fez outra?”, eu falei: “é”. Aí foi indo, indo, ela acostumou, e até ela agora tem tatuagem. P1 – Ela tem? R – Tem. Minha mãe tem tatuagem. P1 – Você que fez? R – Fui eu que fiz. P1 – Legal. E, assim, quanto tempo você está nesse ponto que você trabalha? R – Quinze anos. P1 – Quinze anos? R – Quinze anos. P1 – E como é a relação com os outros comerciantes? R – Com os outros tatuadores ou comerciantes em geral? P1 – Não, vamos nos comerciantes, depois os tatuadores. Primeiro os comerciantes. R – Ah, comerciantes a gente é amigo de todos e é legal. Todo mundo trata bem a gente, a gente trata bem, é tranqüilo. P1 – E agora, você falou, você se relaciona com os outros tatuadores e tal, como que é a relação com eles? R – Ah, como a gente tem um certo tempo, assim, tem um pouquinho de rivalidade, assim, com os outros tatuadores com a gente. Eles ficam meio assim, sei lá, uma rivalidadezinha assim, mas é tranqüilo. A gente tem amizade com todos, tal, mas não é como era antes, antes deles passarem a ser tatuadores. P1 – Você já foi para alguma convenção? R – Já. Fui em várias, várias convenção. P1 – Aquela que tem em São Paulo? R – São Paulo. já fui para fora. P1 – Que país você já foi? R – Já fui em Miami. Fui em duas convenção lá em Miami. E agora está para ter uma, acho que mês que vem, a gente está querendo embarcar de novo. P1 – E como é a relação dentro dessas convenções? Porque aí é uma coisa ampla, gente de todo lugar... R – Todo lugar, do mundo inteiro. Tatuador do mundo inteiro, body piercing do mundo inteiro. Em São Paulo teve convenção internacional já, acho que é a décima terceira convenção internacional, já. P2 – Em Campinas já teve alguma? R – Em Campinas já teve alguns encontros, só. Não, convenção mesmo não teve. Só em São Paulo. P1 – E como é experiência de mostrar seu trabalho lá fora? R – Ah, é legal, né? A gente faz um intercâmbio de fotos, assim, a gente tem umas revistas importadas, a gente manda a foto, acaba saindo e tal. Então a gente é bem conhecido lá fora já. E tem uns tatuadores brasileiros que estão lá fora também, que é amigo da gente. P1 – Acaba criando... R – Um vínculo, assim. P1 – Um vínculo com várias pessoas. R – E a gente tem mais amizades com esses que estão lá fora, do que com os próprios que estão aqui, por causa desse lance de rivalidade mesmo. P1 – Jóia. Assim, existe uma noção de que o interior é, às vezes, um pouco mais conservador que a capital. Como foi trabalhar com a tautagem que é uma coisa muito “recente” a aceitação, em uma cidade do interior? R – Campinas já está uma cidade, praticamente, do interior, mas grande, né, cidade grande, então acho que não deu muito trabalho não. Se você vai para uma cidade fora, Minas Gerais e tal, aí você tem um pouquinho mais de aperto. Mas Campinas foi tranqüilo. Está cada vez mais abrindo as portas para tatuagem. Está tranqüilo. P1 – Tanto em Campinas como outros lugares que você já visitou, você já sentiu alguma hostilidade assim, em relação ao seu trabalho? As pessoas olham meio ressabiadas? R – Ah, já. A gente tem muito parente em Mato Grosso, tal. E lá o pessoal vê meio assustado, a tatuagem lá. Não estão muito acostumados com isso não. Mas está chegando lá a tatuagem. Já tem tatuador lá, tatuando, devagarinho vai abrindo as portas. P1 – Você já ensinou o seu ofício para outra pessoa? R – Já. Já. Tem um rapaz que trabalha comigo, ele aprendeu comigo. Está tatuando comigo, é o Beto. E o Sandro que coloca piercing comigo, foi eu que ensinei também. P1 – Assim, eu tenho amigos tatuadores também lá em São Paulo, e uma coisa que um deles falou, que sempre está na minha mente é que assim, querendo ou não, você entra na vida de outras pessoas. R – Entra. Você vai fazer parte da vida daquela pessoa por toda vida. P1 – Você marca a pessoa para sempre. R – A pessoa vai lembrar de você para o resto da vida. P1 – Você estabeleceu um vínculo com pessoas que você tatuou, assim, tipo, uma amizade, ver outras vezes? R – Ah, muitas. Isso aí cria muita amizade. Você faz muitos amigos. Você faz uma tatuagem. Faz outra. Você forma aquela amizade. A pessoa está sempre na loja. Vai formando um vínculo de amizade muito grande. P2 – E como que é essa relação com o cliente? Porque o cliente tem que confiar muito em você, né, porque você vai marcar ele para o resto da vida. Se chega alguém meio assim: “não sei se eu faço, se eu não faço”, como é que você conversa? R – Ah, para a pessoa tem que vir no estúdio, ver o trabalho do tatuador, tal e você explicar que, como é que fala, que para fazer a primeira tatuagem tem que confiar bem no tatuador, né , escolher um desenho bem bonito e deixar rolar. (RISO) P2 – E eles são fieis, assim, voltam depois da primeira? R – Voltam. Voltam. Quase todos voltam. Faz a primeira, depois volta. E se faz com você confia em você. Você pode ter um tatuador na loja que a pessoa só quer fazer com você mesmo. Nem que for um outro tatuador muito bom, que já viu trabalhar, mas a pessoa confia em você não muda. Tem uns que acaba mudando, depois se arrepende, volta. P2 – Já teve alguma história assim? R – Já. “Te trai, fui em um outro tatuador, aí, olha o que o cara me fez. Dá um jeito aí, vê se você consegue arrumar isso aí, que não é o estilo seu. Eu gosto do seu estilo, do jeito que faz aí”. Aí senta e a gente tenta arrumar de alguma maneira. P1 – E agora a questão prática do dia a dia, assim, você tem um horário fixo? Você tem um horário lá na loja, como é que é a sua rotina? R – É, a gente tem um horário, né, aberto a loja em um horário estipulado e a gente trabalha com hora marcada. A pessoa vai lá, vê o desenho, aí marca um horário para voltar e fazer. Aí volta, faz, tal e tranqüilo. A gente trabalha de terça a sábado. P1 – Então é uma rotina flexível? R – Tranqüilo. É tranqüilo. A pessoa vai, marca o horário que quer, tal, se não dá para hoje marca para outro dia. Tranqüilo. P1 – E, assim, você um campineiro nato. R – Nato. P1 – Até pelo jeito de falar a gente sente isso. R – Verdade. P1 – E como você enxerga a cidade de Campinas em todos esses anos que você está? Você acha que a cidade transformou muito? R – Ah, mudou bem viu. Campinas mudou bem. E mudou para melhor, eu acho. Acho que mudou para melhor. P1 – E, assim, agora querendo ou não, além de tatuador, você é um comerciante, você vende o seu trabalho. R – Isso. P1 – E, assim, como, você falou que tem muita amizade com o pessoal ali em volta, etc e tal, você acha que o próprio comércio de Campinas se transformou também? R – Ah, não sei te falar, assim do comércio em geral. P1 – Não, mas do que você vê mesmo ali, a sua volta. R – Ali não mudou muito. Aspectos e mudanças você quer dizer? Não entendi. P1 – Sim. Assim, você acha que o comércio cresceu, se ele vende muito, o que percebe ali? R – Não. Eu acho que não cresceu muito não. Eu acho que o comércio de Campinas está meio parado um pouco, pelo menos na redondeza ali. P1 – E, você falou que existiu uma mudança de perfil, assim da pessoa, antigamente era o adolescente rebelde que ia tatuar e atualmente, assim, já é um pessoal mais classe média que está indo lá. R – Certo. P1 – Você acha que, assim, o adolescente rebelde está deixando de ser tão rebelde assim? R – Eu acho que pode ser também nesse aspecto, essa fase de roqueiro que tinha muito, isso aí passou um pouco. Agora tem, pessoal está indo mais para balada, deixaram um pouco esse lance de rock de lado e rebeldia também, acho que está mais tranqüilo. Então por isso que está... P1 – Uma coisa que eu percebo muito assim, na juventude e na adolescência é que eles, antigamente na minha adolescência e juventude, na sua, e nos que vieram um pouco depois, não existia tanta preocupação com o visual. Mas hoje a garotadinha assim, de 16, já está muito montada, visual, assim, roupa, cabelo, etc e tal. Você acha que a juventude de hoje, ela está muito influenciada por esse excesso de informação e isso acaba transformando ela ou não? R – Ah, não sei te falar. Nesse aspecto acho que eu não sei te falar. P2 – Em relação à tatuagem, ao desenho tatuagem mudou, assim, o que mais pedia antes, há 15 anos, recentemente? R – Ah, mudou. Mudou. Em relação ao estilo de tatuagem mudou bastante. P2 – Como que era? R – Antigamente se pedia muito desenho de caveiras, aquelas mortes, desenhos de mortes, deixa eu ver o que mais, crucifixo, as coisas bem assim. Agora não, é mais tribal, fadinhas, dragão está em evidência, trabalho oriental voltou bastante e as caveiras foram ficando para trás. P2 – E vocês fazem piercing também na sua loja? R – Fazemos piercing. P2 – E o que faz mais, piercing ou tatuagem? R – Tatuagem. P2 – Tatuagem? R – Ultimamente está saindo mais tatuagem. Piercing deu uma baixada um pouco. P2 – E o público é diferente do piercing e da tatuagem? R – Não. P2 – É a mesma coisa? R – Piercing é mais mulherada, né? Hoje em dia é mais mulher que coloca. Tatuagem também, 70 por cento agora é mulher que faz tatuagem. P1 – Então é mulher que tatua mais hoje em dia? R – Hoje em dia as mulheradas são campeãs. P1 – Antigamente era o homem que tatuava mais? R – Antigamente era o homem e a mulherada tinha um certo medo, talvez. Agora hoje as mulheradas já ocupou seu espaço aí, está fazendo tatuagem a vontade. P2 – E essa mudança fez com que você tivesse que mudar também, sei lá, aprender desenhos diferentes, técnicas diferentes? R – É, a gente faz muitos desenhos pequenos agora. Antigamente fazia só desenhos grandes. Agora faz muitos desenhos pequenininhos, tal. Para a mulherada a gente elabora mais desenhos pequenos. Mas as mulheradas estão começando a fazer desenho grande, as costas inteira, dragão nas costas inteira. Está um lance bem legal mesmo. P1 – Qual a tatoo mais diferente, fora de esquema que você já fez? R – Ah, acho que diferente mesmo foi em uns lugares mais exóticos, mais íntimos. Acho que é um lugar bem diferente para fazer tatuagem. P1 – Muito íntimo assim? R – A mulherada faz direto em lugar íntimo. Então acho, é meio estranho, né, a pele não ajuda muito, tal, é um lugar bem diferente. Agora tatuagem, sinceramente, __ acho que é todo lugar normal, até nos lugares íntimos. P2 – Tem alguma história engraçada, assim, sei lá, o namorado em cima, olhando? R – É, tem sim. O cara mandou fazer o nome da namorada, assim, bem do lado do lugar íntimo, assim, e o namorado ficava atrás, só respirando e você tremendo ali, fazendo a tatuagem com medo de errar. E o cara em cima ali. Essa aí acho que foi o mais constrangedor que eu passei. P2 – E a sua tatuagem preferida, assim, você fez __? R – É, já fiz acho que o pitbull na costela. P2 – Pitbull? R – É. Acho que foi legal. Ficou bem real mesmo. E foto também das pessoas ficam bem reais. P2 – E hoje em dia, você ainda se tatua? R – Não. Eu sou tatuado. P2 – Você é tatuado? R – Isso. Eu sou tatuado. Assim que dá a gente dá uma escapadinha e faz uma. P2 – E a sua relação de confia, assim, que tatuador que você confia? R – Eu confio em um tatuador de Santos. Um tatuador amigo meu que trabalha lá em Santos, né? Inclusive, de vez em quando ele vem dá uma força para a gente aqui, a gente vai para lá fazer um pouco lá também. E se confiou é só nele mesmo. P1 – Uma coisa que é muito comum, também, no ramo da tatuagem é esses intercâmbios. Assim, então, às vezes, você vai, passa um tempo lá. R – Isso. P1 – Volta, como é que é essa relação, assim? É legal para você, não é? R – É legal para divulgar, para divulgar a pessoa em outras cidades e aprender novos, senão você só fica ali, só fica naquela. Então você sai, você aprende novos estilos, estilos diferentes. Cada estúdio tem um estilo, um jeito de trabalhar. Então você vai aprendendo novas maneiras. P1 – E qual que é o seu predileto, assim, tradicional, ___, japonês? R – Eu gosto mais de oriental. Fazer trabalho oriental. Meu forte é mais oriental. P1 – Aparece muito cliente querendo tapar trabalho, assim? R – É, isso aí é importante citar, que aparece muito cliente querendo tapar cicatrizes e tautagens mal feitas também e muito, também, muito nome, de marido e tal. Vai, faz o nome de marido, ou esposa, tanto faz, depois larga, aí vai lá para mudar o nome ou fazer uma cobertura. P1 – É mais comum cobrir ou mudar o nome? R – Ah, os dois jeitos, viu. Muda, cobre. P1 – Jóia. Muito bom. E, assim, você está lá nesse ponto há 15 anos, você já passou alguma dificuldade, assim, comercial mesmo, assim de, tipo assim, dificuldade de levar o negócio ali nesses 15 anos, ou sempre foi muito tranqüilo? R – Não, não. Não tive dificuldade não. Sempre deu para levar legal. Certo tempo atrás caiu um pouquinho o movimento por causa de tendência de vários tatuadores na cidade, agora. Isso é em geral. E quando eu comecei tinha três tatuadores, era eu e mais dois. Agora se for contar, dá para contar uns 40. dá para contar uns 40 com estúdio aberto. P1 – Fora outros que não tem estúdio. R – Fora os de bairro. P1 – E 40 na região central? R – Central. P1 – E você acha que por você ser antigo no ramo criou uma certa fidelidade de cliente? R – É, já há um conhecimento, né? Um conhecimento há bastante tempo. Uma clientela já bem confiável. P1 – E como funciona a divulgação do seu trabalho? R – Ah, a divulgação geralmente é melhor, a nossa é mais de boca a boca mesmo. Porque um vai faz a tatuagem ficou contente, esse vai passando, vai passando. E a gente já fez várias propagandas de rádio, faixas, eventos, mas hoje é mais o boca a boca mesmo. P2 – Quando você começou você não tinha o seu próprio estúdio, você tatuava? R – Em casa. Tatuava em casa. P2 – E como é que foi, assim, quando você abriu o estúdio, qual foi a sensação? R – É, a gente abriu, a gente preparou tudo o estúdio, né? Era eu e mais um sócio, a gente falou assim: “ó, vamos preparar tudo, vamos abrir a porta que vai bombar de gente aí no estúdio, né?”. Aí abriu a porta. Passou um dia, ninguém. Passou outro dia, não entrou ninguém. Passou uma semana inteira não entrou ninguém. Depois de uma semana, quando eu cheguei lá, o meu sócio falou: “Jair, você não acredita, fiz uma tatuagem hoje!”. Eu falei: “aleluia”. Mas depois aí foi melhorando. Aí no primeiro mês faltou um pouquinho para pagar o aluguel. Aí no segundo mês conseguimos pagar o aluguel do lugar. Aí o terceiro mês sobrou um pouquinho do aluguel. Aí foi melhorando. P1 – Que bom. Foi um negócio que foi crescendo aos pouquinhos, então. E essa, qual foi a sensação dessas primeiras semanas? R – Nossa, a gente vai passar fome. P2 – Vai voltar para o banco. R – Eu vou trabalhar no banco. P1 – Você acha que a sociedade ainda tem preconceito em relação ao tatuador e à tatuagem? R – Ah, se tiver é muito pouco. Se tiver é muito pouco, hoje. P1 – Já é uma coisa socialmente aceita? R – Ah, eu acho que é bem aceito, né? Porque um artista, hoje, faz um papel na televisão de um programa antigo, de uma novela antiga, ele faz com trajes antigos mostrando uma tatuagem, né? Daí você vê que não tem mais aquele preconceito, né? P2 – Mesmo para pessoas que tem o corpo todo ou a parte do corpo coberta? R – É, a não ser se é face. Face eu não acho legal. Ainda até hoje não é bem aceito tatuar face. No resto do corpo acho que é tranqüilo. P1 – Você já tatuou gente no rosto? R – Já tatuei. Já tatuei rosto. P1 – E o que você acha pessoalmente? R – Ah, não acho legal. Por exemplo, eu fiz coisa pequena, mas coisa muito grande, eu acho, eu aconselho a não fazer. Mas a pessoa quando quer fazer não tem jeito. P1 – E quando chega um cliente lá que está inseguro, assim, que tipo, “vou não vou”, como você lida? Ou você também já teve aquela situação de você, rola um trabalho psicológico com o cliente? É isso que eu queria saber. R – Ah, tem que explicar, se a pessoa está a fim mesmo, se a pessoa gosta de tatuagem, não quer fazer só por embalo, para a pessoa não se arrepender depois. Porque tem que fazer quando está a fim mesmo, se gosta da tatuagem. P1 – E de escolha de desenho? A pessoa já chegou com um trabalho que você falou assim: “ah, não”? R – Ah, várias vezes. Tem horas que chega um trabalho eu falo: “olha, eu não sei fazer isso aí, está tão feio o desenho que eu não sei fazer isso aí. Nem se eu quisesse. Nem se eu quisesse fazer isso aí eu não consigo”. “Mas eu quero desse jeito”. Eu falo: “pó, cara, você vai me desculpar mas não dá. Não posso mexer, modificar o desenho aqui. Você está vendo aqui? Está torto aqui”. Aí acaba a pessoa conscientizando, falando: “então dá uma mexida no desenho”, e eles acabam ficando contentes. P1 – O pessoal geralmente chega lá com o desenho pronto ou pede o desenho para você? R – Tem uns que chega com o desenho pronto que, geralmente, puxou da Internet ou pegou em algum outro lugar. Tem alguns que pedem para você criar um desenho exclusivo que não quer que ninguém tenha igual. E tem uns que escolhe por catálogo mesmo. P1 – As pessoas, assim, 15 anos no ramo já dá para você saber, as pessoas vão mais copiando desenho alheio ou pedem uma coisa exclusiva para elas? R – Não. Hoje está mais exclusividade. Hoje mais desenho exclusivo. Mesmo que já tenha um desenho lá, eles querem que mude alguma coisa para não ficar igual ao outro desenho. Mas, geralmente, mais exclusividade. P1 – Ainda pouco você falou que tatua muito retrato, é muito comum, assim, as pessoas tatuarem rosto de familiar? R – É, geralmente é das pessoas queridas que já faleceram, tal, avós, pais, mãe, irmão, homenageando assim, né, um ente querido. P1 – É comum? R – É comum. Fazer nome da pessoa. Quem não faz a foto, faz o nome, ou faz uma frase. P1 – E como, você assim, já está há 15 anos, já está estabelecido, já está afirmado, o que acha que é o segredo para estar bem estabelecido no ramo, assim? R – Ah, eu acho que você tem que dar segurança para os clientes, né? Tem que estar com o material tudo certinho, tudo descartável, material 100 por cento importado. E a segurança é que a pessoa sai contente, que vai se sentar ali e vai sair com um desenho, de preferência melhor que o desenho que ela trouxe, ou escolheu no estúdio. P1 – Sim. E tem alguma história engraçada em relação ao estúdio, ali, no dia a dia do estúdio? R – Ah, deve ter várias. Difícil é lembrar assim. Deve ter muitas histórias engraçadas, mas a gente não consegue lembrar. P1 – E em relação a própria tatuagem mesmo, teve alguma tatuagem que você falou, assim, não isso aqui eu já perguntei, nossa eu estou voltando atrás das perguntas. A questão é assim, tem algum trabalho que você acha assim que, algum ramo de trabalho, porque geralmente a gente pensa na tatuagem com pessoas no ramo meio artista, ou geralmente são tatoos pequenas e tal. Qual foi a pessoa de um ramo mais diferente que você tatuou? R – Ah, do ramo mais diferente, acho que foi juiz, né? Já tatuei juiz, já tatuei advogado, já tatuei policial, que antigamente falavam que tatuagens, policial não podia ter, né? Hoje já tatuou policial. P1 – Juiz? Você já tatuou um juiz então? R – Já tatuei juiz. P1 – E foi uma tatoo grande? R – Não, não. Não foi muito grande. Foi uma tatuagem de uns dez centímetros. P1 – Em lugar escondido? R – Em um lugar escondido, isso. P2 – E em relação, assim, a material, as tintas, peças de reposição dos equipamentos, Campinas oferece essa? R – Não, Campinas não. Isso aí é assim, tudo de fora, tudo importado, tudo americano. Agulha, hoje, é tudo pronto, já vem importadas, prontas. As tintas também vêm tudo prontas, com data de validade das tintas. Hoje é tudo controlado pela secretaria da saúde. Secretaria da saúde controla tudo. Isso aí, a tinta tem que ter estipulado os pigmentos, as matérias primas que vem misturado, tem que ser tudo certinho hoje. P1 – Que fato marcante você colocaria na sua trajetória como tatuador aqui em Campinas? R – Um fato marcante? P1 – É. Um fato que foi importante para você, assim? R – Ah, assim, eu acho, sei lá, mais a história de Campinas. Faz muito tempo que a gente tatua, acho que não tem fato marcante assim. Sei lá, não dá para lembrar agora um fato marcante. P1 – Sim. E o fato de Campinas ser uma cidade que tem um pólo universitário, assim, tem duas grandes faculdades aqui. Isso aí interfere no seu trabalho, ajuda? R – Não, ajuda muito. Todas, pelas pessoas estarem com a cabeça bem aberta e isso ajuda. P1 – E, outra coisa, você falou do intercâmbio, etc e tal, você já mandou trabalho seu para fora, assim, e foi publicado? Porque a gente sabe que lá fora assim, existe um ramo editorial muito forte para tatuagens. Tem muito mais revista de tatuagens lá fora, do que tem aqui dentro. R – Do que no Brasil. Muitas. P1 – E você já mandou trabalho? R – Já mandei trabalho. P1 – E foi publicado? R – Foi publicado. E __ já veio para cá. P1 – E nas revistas daqui, você já teve? R – Tenho um trabalho. Tem bastante revista. Aqui acho que tem umas dez ou mais revistas que tem trabalho meu publicado. P1 – E como é a relação com essas revistas, ajuda no seu trabalho? R – Ah, divulga bem. Divulga bem o trabalho. Tem muita pessoa que não conhece o tatuador, conhece outro, aí pela revista acaba vendo o trabalho e vem a conhecer. P1 – Sim. Na tv a cabo agora, tem um programa que chama Miami ink. Que você acha do programa? R – Ah, acho muito interessante. Inclusive, eu conheço pessoalmente um deles, que é o Cris Nunes. Inclusive quando eu fui para lá, eu fiquei com ele lá. O Cris é muito amigo meu e eu acho legal, tinha que ter no Brasil também um programa assim. P1 – Tinha muita gente que foi lá, modinha, assim, quando o programa começou? Falou: “ah, eu vi na televisão o programa”, teve muito disso? R – Do __? P1 – É. R – Ah, teve muito. Nossa. Porque o programa é legal. É legal lá. É bem editado. Lá eles divulgam muito, assim, a parte de memorial, assim, tatuagens feita em memória de alguém. Lá o programa é mais baseado nisso aí. Mas em memória de pessoas que já faleceram. Então é legal. P1 – E tocando nesse assunto mesmo da memória, algum cliente já se emocionou assim, por esse trabalho que você fez, especificamente nessas tatoos de retratos? R – Ah, várias vezes. Várias vezes, quando faz de um ente querido, assim, de um irmão que faleceu, alguma coisa, geralmente, tem uns que chega até a chorar depois. P1 – Ou seja, de uma vez você entra na vida da pessoa. R – Da pessoa, é. E a pessoa fica contente com o trabalho, a perfeição do trabalho e relembrar do ente querido. P1 – Para nós aqui do grupo, eu tenho certeza que é, assim, mas você acha que a sociedade reconhece o tatuador como um artista? R – Ah, eu acho que sim. Eu acho que sim, porque na realidade é uma artista para fazer o que faz na pele, com uma pessoa mexendo, uma agulha vibrando, eu acho que tem que ser um bom artista senão não vai sair um bom trabalho. P1 – Você falou agora pouco que precisava ter um programa tipo Miami Ink aqui no Brasil, se tivesse você participaria? R – Ah, totalmente. Eu ia ser o primeiro a me candidatar. P2 – Como foi o comecinho, assim, quando você aprendeu a tatuar, quem foi a primeira pessoa que você tatuou, quem foi o corajoso? R – Ah, então, foram os amigos, né? Eu chamava os amigos: “eu quero fazer uma tatuagem”. Eu falava: “estou aprendendo, não sei muito bem”. Falava: “não, não tem problema. Quando você aprender direito você cobre”. Aí eu fui fazendo e hoje, realmente, eu cobri todas as tatuagens que eu fiz quando eu estava aprendendo. P1 – Tem algum, assim, você lembra a primeira tatoo que você fez? R – Lembro. P1 – O que foi? R – O primeiro foi um raio. Um rainho no braço de um amigo meu. A segunda foi uma prancha de surf na perna de um outro amigo meu. A terceira foi um sol na perna de um outro amigo meu. E a quarta foi uma pantera descendo na perna do cara também. P1 – E você cobriu todos? R – Já. Todos, eu já arrumei. Todos, eu tive que arrumar. Foram bem mal feitos. O material era ruim na época também. A gente não tinha acesso ao material, então, mas hoje tem muita facilidade, né, tem muitas revistas aí fazendo propaganda de material, tinta boa. Então, hoje é tranqüilo, quem quiser ser um tatuador é fácil. Antigamente quando eu comecei era muito difícil ser tatuador, porque você não tinha acesso. Quem era tautador não te vendia o material, para não espalhar, para não divulgar muito e para não aumentar. Mas aí saíram as revistas, não teve jeito de segurar a população e todo mundo virou tatuador. P1 – E você falou que tinha muita dificuldade, como você fazia para se virar com o material nesse começo? R – É, eu tinha que pegar amizade com os tatuadores, tentar pegar amizade e vê se eles conseguiam vender algum material. Era difícil, você tinha que pagar muito caro em um tubinho de tinta. Eles falavam que não ia vender, você acabava chorando, chorando, eles acabavam vendendo para você um pouquinho de material, mas era bem escasso no começo o material. P1 – Já teve alguma história, assim, de tatuar uma pessoa, sei lá, tatuar um jovem, aí aparecer o pai lá depois. Ou mãe, algum responsável lá indo chiar? R – É, já apareceu pai chegar no estúdio meio brabo lá, mas só que não tinha sido a gente que tinha tatuado e o pai queria saber quem foi que tatuou, a gente não sabia também e o filho também acho que não contou quem que tatuou, mas não tinha sido a gente que tinha tatuado. Mas apareceu o pai brabo lá. P1 – O estúdio acaba sendo meio uma clinica de doido, assim, né? R – É. P1 – Jóia. E voltando a questão dos materiais, nessa época inicial você tinha que chorar muito para conseguir, etc e tal. Você acha que por conta dessa, você falou que foi as revistas que deu esse boom e agora todo mundo tem acesso ao material, equipamento, etc e tal. Antigamente as pessoas se restringiam, guardavam muito para si as informações, assim? Pessoas não divulgavam, tipo, desenho, não divulgavam material, equipamento? R – Exatamente. Eles não vendiam nada. Os tatuadores que tinham não vendiam máquina, não vendiam tinta, não vendiam agulha, para não espalhar muitos tatuadores mesmo, para não abranger, né? Mas não teve jeito. Logo saíram as revistas, fazendo propaganda do material e foi, foi, informação e agora está o que está aí, né? P1 – Assim, um desenhista, ele tem o lápis e a borracha, o tatuador não tem essa chance. R – Não tem jeito. P1 – Como é que você vai desenvolvendo a segurança para poder fazer certo? Você falou que cobriu todas as suas tatoos iniciais. Mas quando você começou a sentir isso aí, que estava seguro? R – Ah, com o tempo. Só com o tempo isso aí. Aí depois você vai pegando uma certa técnica, aí não tem como você errar mais. Aí hoje, se você for errar um detalhezinho, aí você daquele detalhe, você já faz um outro detalhe, aí você dá uma modificadinha no desenho, mas acaba ficando bonito o desenho, sempre ficando bonito. Hoje é tranqüilo. P1 – Sim. As revistas de tatuagem, elas divulgam muito uma estética própria, assim. Então você bate o olho em uma revista assim, você não vê nem o título, mas você já sabe do que é, assim. O que você acha dessa estética, assim? Tem sempre aquelas moças bonitas, com muita tatuagem, o que você acha assim, no geral? R – Ah, eu acho legal. Quanto mais tatuagens as pessoas fazerem, maiores eu acho mais interessante, divulga mais o trabalho, o preconceito vai diminuindo. Acho muito interessante e legal. As revistas, eu acho legal a revista divulgar a tatuagem em si, isso é muito legal. P2 – E a Internet mudou coisa nisso, assim, facilitou? R – Ah, facilitou o acesso a desenhos diferentes, porque hoje tem todo um site aí, de tatuagens aí, só que milhões de desenhos para você escolher. Você não precisa ir especificamente em um tatuador para você escolher o desenho, pode escolher direto na Internet também. A Internet facilitou bem a parte de desenhos para você escolher, estilos. P1 – Você acha que o estilo da pessoa influencia muito no que ela vai tatuar? R – Eu acho que não. P1 – Não? R – Eu acho que não. Tem pessoa que você imagina que vai chegar lá e vai fazer uma caveira, aí chega lá escolhe um dragão. Outros, você acha que vai fazer um dragão, o cara escolhe um tribal. Então acho que pelo estilo da pessoa não dá para saber o que ele vai querer. P1 – E existe assim, em determinado momento, está saindo muito isso. Existe uma moda, assim, umas correntes de moda? R – Ah, existe. Existe quando uma coisa entra em evidência, um estilo de desenho. Ultimamente está dragão. Dragão está bem em evidência agora. Setenta por cento das pessoas estão fazendo, mulher, homem, estão fazendo dragão. De repente aí, dá uma parada, começa a fazer tribal. “Tribal, quero tribal”. Aí de repente quero fazer carpas, desenho oriental, tipo umas carpas. Isso aí é meio moda mesmo, assim. P1 – E, assim, você já está estabelecido ali há um tempo, ali no centro de Campinas, como você enxerga a cidade ali no centro, ali naquele meio? Você acha que a cidade se desenvolveu muito nesses anos, afinal de contas você é um campineiro nato, você acha que a cidade cresceu muito ali naquele miolinho do centro? Campinas se transformou? R – Ah, eu acho que ali onde eu estou ali não cresceu muito não. Que as lojas que estavam ali antigamente são as mesmas, só mais os bancos ali que aumentou, mas acho que não cresceu muito não. P1 – E a relação de você, assim, comerciante? Tatuador, comerciante, cliente, assim, você já tomou calote? R – Ah, já tomei calote. Teve um cara que quis fazer uma tatuagem na hora: “dá para fazer agora?”. Eu falei assim: “ah, dá”. Aí eu fiz a tatuagem dele, ele pegou a chave do carro, falou: “ó, eu vou pegar o dinheiro no carro aqui”. Eu falei: “pode ir lá”. Aí o cara foi com a chave do carro, saiu assim, o cara saiu correndo do estúdio, sumiu de a pé. Nem carro ele tinha. Foi muito engraçado, cara. P1 – E, assim, você já fez assim, vocÊ falou que já participou de convenções, viajou, etc e tal. Você já fez algum tipo de promoção lá no estúdio, alguma coisa assim para divulgar mais o seu trabalho? R – Não. P1 – Ou a divulgação é sempre pessoa, pessoa? R – Ah, divulgação é mais pessoa, pessoa mesmo. Não precisou fazer nenhuma promoção, assim. Nunca nem paramos para pensar, acho que por causa que o movimento da gente é legal, tal. P1 – Nem com rádio, essas coisas? R – Já fiz em rádio. Já fiz, assim, já fiz promoção assim, de dar uma tautagem, dar um piercing, tal. Já fiz em rádio já. P1 – E, assim, uma coisa que você falou do cara mais rebelde, etc e tal, que vai lá fazer umas tatoos e tal. E como que são essas outras tribos, assim, tipo pessoal do rap, sei lá, o pessoal que gosta de música eletrônica. Isso reflete no tipo de tatuagem dela? R – Ah, reflete. Cada um faz estilo, né? O pessoal do rap, geralmente faz uma de tribal, tal. ___, cada um tem um estilo de desenho. P1 – Sim. Que lições você tirou ali da sua trajetória ali no comércio? Qual foi a grande lição que você tirou de ser um tatuador, de ser um profissional, e de estar a tanto tempo no ramo, assim? Qual a maior lição que você tira para a sua vida disso tudo? R – Não tem nem como te falar. Lição? Vou ficar te devendo. P1 – Sem problemas, que isso. E, a sua mãe, ainda aqui você falou que tatuou ela. R – Isso. P1 – Qual a relação, assim, uma coisa era quando você estava começando, hoje você já é alguém bem estabelecido no ramo, conquistou várias coisas, conheceu lugares, tudo isso graças a tatuagem. R – Graças a tatuagem. P1 – Como que é a sua relação com esses outros parentes, assim, com a sua mãe? R – É, hoje mudou muito, né? Porque no começo eles falavam: “pô, você vai fazer tatuagem, para que isso, né? Isso aí, ninguém faz isso aí”, aquele preconceito de toda a família. Hoje já está todo mundo conscientizado que isso aí era uma boa profissão, todo mundo já trata você diferente, né? Meu sogro e minha sogra no começo falavam para minha esposa: “pó, mas você vai namorar um tatuador? Que futuro que ele vai te dar?”. Hoje meu sogro e minha sogra é maior puxa saco meu. P1 – Você tem filhos? R – Tenho duas meninas. P1 – E você já tatuou sua esposa? R – Minha esposa já. P1 – Já tatuou sua mãe? R – Minha mãe. P1 – Quem mais na família você já tatuou? R – Ah, meus irmãos, minhas irmãs, minhas cunhadas. Todo mundo eu já tatuei. P1 – Já fez um mimo para todo mundo. R – Todo mundo carimbado já. P1 – Então está bom. O que você acha do SESC está fazendo esse projeto de memória do comércio? R – Nossa, muito legal projeto. Tem que divulgar o comércio, né, para não esquecer o comércio. Não é só a pessoa pensar em comercializar, tem que pensar no comércio em geral. P1 – O que você achou de estar dando essa entrevista aqui para gente? R – Ah, interessante. Que nem eu comentei que tem 40 tatuadores aí, e eu ser escolhido, acho que fiquei muito contente com isso aí. Acho muito importante. P1 – Você é praticamente o terceiro tatuador de Campinas? R – Terceiro tatuador de Campinas. P1 – Os outros dois estão em atividade? R – Não. Estão parados. Não fazem mais tatuagem. P1 – Então você é o mais antigo em atividade? R – Sou o mais antigo. P1 – Carregando a bandeira. R – Carregando a bandeira da tatuagem. P1 – Está certo. Ok. Muito obrigado, viu, pela entrevista. R – Obrigado nada. Desculpa aí cara, não estou muito acostumado com câmera assim. P1 – Não, que isso, relaxa. Fica tranqüilo que foi muito boa. FIM DA TRANSCRIÇÃO

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