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Tatuagem aos 90

História de: Eduardo Kairalla
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Prestes a completar 90 anos de idade, Eduardo Kairalla resolveu homenagear os dois netos com uma atitude ainda incomum entre a maioria dos vovôs: uma tatuagem. Antes de chegar a esse episódio, o corajoso paulista nascido em uma fazenda de Monte Alto, no interior de São Paulo, se lembra de outras histórias marcantes – como a bela trajetória do pai, um ourives libanês que aprendera o ofício em um harém e, em 1897, resolvera se mudar para o Brasil, onde se tornaria “barão do café”. Com a aptidão própria dos “patrícios” árabes para o comércio, Eduardo deixou o interior para viver na capital paulista em 1948 e se estabeleceu como vendedor. Bem humorado, ainda atua como corretor de imóveis e não deixa de se atualizar – a prova está no corpo, nas figuras tatuadas de Gustavo e Miguel que ele mesmo desenhou.

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História completa

Você já viu árabe com nome de Eduardo? Pois foi minha irmã, a Olga, que me deu esse nome. Acho que estava na moda. E Kairalla é “bem de Deus”, em árabe.

 

Meu pai se chamava José, e minha mãe, Nagibe. Meu pai nasceu em Mimes, no Líbano – hoje é Líbano, antigamente era Síria. Era ourives. O pai dele, Miguel, já era ourives. E ele ia lá naqueles haréns para tirar medida das odaliscas. Só ele podia entrar. Homem não podia ver as mulheres deles. E ele via também o pé – coisa que ninguém via, porque era fetiche lá, antigamente, 150 anos atrás – para fazer uma pulseira aqui no pé. E meu pai ia junto, com oito anos. Lá que meu pai aprendeu a profissão de ourives.

 

Meu pai nos educava por intermédio de pequenas histórias. Ele era um sábio. Tinha três, quatro anos de escola. Era arteiro, e o padre deu-lhe um tapa na cara, que aquele anel cegou. Meu pai tinha seis anos. Então, ele nunca mais foi à escola. Mas era um sábio. Mal sabia ler e nos educava assim, dando exemplos, em pequenas histórias.

 

Ele chegou aqui, no Brasil, em 1897. Já tinha um irmão dele aqui, mas o comércio deles estava patinando. Então, ele veio para salvar. E se casou lá em Bauru, o primeiro casamento, em 1906 – eu sou do segundo casamento. Ele ficou viúvo em 1923, com oito filhos! E, em 1926, se casou com a minha mãe.  Era 25 anos mais velho que ela. Ela veio com 23 anos do Líbano para cá. Tinha um namorado lá, mas o irmão dela não gostava dele e deu um tapa nela. E falou para o namorado: “Você não reage? Você não é macho?”. O homem não era de briga, ficou quietinho. E minha mãe veio embora para cá. E logo indicaram para meu pai. Eles apresentavam: “Olha, você está viúvo aí? Tem uma mocinha lá em São Paulo...”.

 

E foram morar em Monte Alto, onde ele estava com os oito filhos. E ela encarou tudo ainda menininha, com 23 anos. Acho que ele teve umas oito fazendas de café lá em Monte Alto. Ele era considerado o “barão do café”. Era só café. Tinha pomar de frutas, mas o foco era só o café. Depois, de 1950 para cá, é que começou a vir soja, uma coisa assim. Eu gostava de chupar o café. Ele dá o grão verde, depois vai ficando maduro, vermelho ou amarelo. Então, eu gostava. Depois, a colheita, eu não ligava muito. Ficava bravo quando batiam assim para derrubar, porque o café tem que ser colhido assim. E os camaradas batiam. Eu ficava: “Não pode fazer isso!”. Quando eu via, eu ficava louco da vida.

 

Meu pai também era cônsul honorário da Síria. Então, os patrícios todos que vinham de lá ficavam na casa dele um mês, até arrumar um empreguinho, pegar uma malinha e sair mascateando. Ficavam em casa.

 

Era um monstro a casa. Nossa! Era um quarteirão. Casarão. E, na frente, na esquina, um comércio dele. Tudo grande! Minha mãe fazia tudo, ela gostava. Fazia pão. Moía café, torrava. Hoje, é a sociedade do consumo; naquela época, sociedade da economia. Estava quebrado o mundo inteiro. Se você achava um prego no chão, você guardava para desamassar. Tudo na economia. Não é miséria. Economia.

 

Tudo era mais simples. Sabe o que a gente ganhava de ovo de Páscoa? Pegavam ovo de galinha, tingiam e davam para a gente (risos). Hoje você ganha três, quatros ovos de chocolate. Era bem singela a coisa. Brincávamos de cavalinho, esconde-esconde, pique. E nadar no córrego. Tinha uma queda-d’água e parecia uma piscina natural. A minha mãe ficava louca. “Não vai lá, pelo amor de Deus!”. Uma vez, nós fomos lá, todo mundo pelado. Tirava a roupinha, aquela calcinha azul. Tchibum! Dali a pouco, o colega meu: “Kairalla, a cabra está comendo tua calça!”. Comeu, acabou com a minha calça. E para chegar em casa? Um papelão assim, eu fui, e a turma toda atrás dando risada. Apanhei. Apanhei pelado, viu? É a vida! Eu era muito sapeca.

 

Um dia, na escola, o Seu Valdo me deu um tapa. Porque podia dar uns tapas, né? Mas eu estava com o lápis de duas pontas, apontados, aqui. Bateu aqui e saiu sangue. Ele tremia porque sangrou. Eu contei para o meu pai: “Pai, o Seu Valdo me bateu e saiu sangue”. Sabe o que meu pai falou? “Mas vocês são dois aqui e tua mãe não aguenta. Quarenta lá, e o professor vai aguentar?”

 

Eu me mudei para São Paulo em 1948, com 20 anos. Vim sozinho, para trabalhar. Sonhava com isso! Vim de trem, levava oito horas, 360 quilômetros. Fui ser comerciante. Queria, um dia, comprar alguma loja, algum negócio. Mas gastava tudo. Hoje, sou corretor de imóveis. Se você tiver uma grana aí, quiser comprar alguma coisa, estou à disposição (risos).

 

Meu sonho é essa turminha aí, meus dois netos. Quer que eu mostre?

Puxe aqui. Está pensando que o velho...? Esse eu que desenhei [a tatuagem]. O que está escrito aqui? [Miguel e Gustavo]. Mig tem um ano e meio, e Gustavo tem seis anos. Eu sonhava em fazer isso! Uma turma dizia: “Você é louco, velho?”. “Oh, velho bobo!” Minha mulher, todo mundo. “Tá bom, vou fazer embaixo do sovaco. É para eu ver só.” Não dói nada! Vai lá. Quer que eu vá junto com você? Não dói, não!


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