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História

Tecendo uma vida

História de: Jurdina Auricchio Rojas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Buquira. Migração para São José dos Campos. Dificuldades durante a Segunda Guerra. Ingresso na Tecelagem Parahyba. Diferentes atividades. Fazendas. Fichamento de trabalhadores rurais. Casos pitorescos. Comércio da Cooperativa. Cobertores Parahyba e seus símbolos. Atividades em grupo de Terceira Idade.

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História completa



IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Jurdina Aurichio Rojas - não falo “Rorras”, falo Rojas. Meu marido era boliviano. Minha data de nascimento é 22 de setembro de 1930. Nasci em Monteiro Lobato, que na época era distrito de São José dos Campos.

FAMÍLIA
Meus pais são José Domingos Aurichio e Jurdina Alves da Costa. Meu avô materno era Sebastião Alves de Brito e a minha avó era Benvinda Maria da Conceição. Meu avô paterno era Francisco Aurichio e ela era Malvina Aurichio. Minha avó morreu muito antes de eu nascer, eu não a conheci. Meu pai teve várias atividades, mas a que ele ficou mais tempo foi a de fiscal da prefeitura de Monteiro Lobato, que pertencia a São José dos Campos. Depois ele foi transferido para São José exercendo o mesmo cargo de fiscal. Minha mãe, dona de casa, doceira e ajudava o meu pai a criar oito filhos. A minha mãe nasceu aqui em São José mesmo, ali onde se chama Água Soca, e tinha uma pequena fazenda, meus avós. E o outro, do meu pai, meu avô Francisco, ele veio da Itália com vinte anos mais ou menos, e já começou, ele e um irmão dele, a plantar café. Então, naquela época as autoridades distribuíam os imigrantes italianos nas regiões mais apropriadas, então ele foi para São Bento do Sapucaí e não sei se ele arrendou fazenda... Comprar ele não comprou, só se foi mais tarde. Mas ele plantava café lá, até quando começou a queda do café, que não tinha mais preço. Aí ele mudou para Monteiro Lobato - tanto que meu pai era de lá - e montou um armazém de secos e molhados, como falava na época ali na cidadezinha de Monteiro Lobato. Na época, se chamava Buquira. Quando eu nasci era Buquira, mudou bem depois Acho que nos anos 50. Meu avô faleceu bem antes de eu nascer, ele faleceu em São Paulo, que ele teve um irmão que ficou em São Paulo, montou padaria. Era italiano, ficou muito bem de vida, chamava-se Nicolau Aurichio; e o outro era Ângelo Aurichio, que tinha fazenda em Monteiro Lobato e ficou muito rico, com muitas fazendas; e meu avô, que plantava café em São Bento de Sapucaí. Com a queda do café, ele veio para Monteiro - para Buquira, naquela época - montou este armazém, lá estava indo bem, mas não como os irmãos, que tinham mais sucesso.

INFÂNCIA
Eu, pra São José, vim com quinze anos. Buquira era uma maravilha, uma cidadezinha simples onde todo mundo se conhecia e todo o pessoal da roça se abastecia ali. E chegava sábado e domingo lotava a cidadezinha tanto, a igreja com missa, batizado, casamento, e todo o pessoal da região da roça vinha para Monteiro. E a minha mãe, como doceira, aproveitava para ganhar dinheiro, vendia doce para os casamentos. Tinha tabuleiro no mercado e vendia doce no tabuleiro, o mercado só funcionava sábado e domingo, e a minha mãe vendia no mercado e também abastecia os armazéns todos, da roça, da cidade. Eu era muito pequena, minhas irmãs mais velhas ajudavam mais [na fabricação dos doces]. Eu ajudava a lavar, mexer doce, mas eu ajudei um pouco. Na época não existia isso de brigadeiro, beijinho. Era doce de fruta, doce de abóbora, de laranja, de mamão, de cidra, de leite, de coco. E fazia quitanda, rosquinha, pãozinho, brevidade, que vendia muito. Tinha umas rosquinhas que minha mãe fazia que eram famosas, a brevidade também. E fazia muito suspiro. Era isso que ela fazia, mas ela fazia duzentos, trezentos doces por semana. Para fazer num tachinho lá, num forninho lá, era bastante. Na época de festa, ela fazia mais de trezentos doces para vender e tudo isso num tachinho lá, no fogão de lenha, não era brincadeira, não Pelo que eu me lembro, depois de uns sete, oito anos, eu já ajudava. Ela botava todo mundo para ajudar: eu e minha irmã mais nova do que eu, ela botava para lavar as forminhas, descascar frutas, ralar coco - isso que a gente fazia - e as minhas irmãs mais velhas já faziam uns doces. Eu tinha três irmãs mais velhas que eu.

EDUCAÇÃO
Lá tinha a escola masculina e feminina, era um salão só, umas quarenta crianças, trinta e poucas crianças. E tinha três séries. Quarta série não tinha, só até a terceira, por isso que meu diplominha é da terceira. Gente que tinha um pouco mais de dinheiro vinha para São José fazer o quarto ano, pagavam pensões aqui para fazer o quarto ano, veja bem com é que era, para depois poder continuar o ginásio, tudo, mas aqui em São José, ou iam para São Paulo, alguns, ou para Taubaté. Mas aqui em Monteiro, só até o terceiro, tanto o masculino, quanto o feminino. A escola era bem pertinho, a cidade era muito pequena.

SEGUNDA GUERRA
Na época da guerra, da Segunda Guerra - porque [para] minha mãe, como doceira, era uma tragédia, pois não tinha açúcar nem para tomar café, nem trigo. Meu pai, o que ele ganhava, era muito pouco: só dava para fazer a comprinha do mês, e olha lá. Então, minha mãe tinha que ajudar muito. Acostumou, desde quando eles se casaram ela era doceira e mantinha boa parte das despesas. Aí quando veio a Segunda Guerra, começou a faltar tudo para nós, até café, a gente fazia com caldo de cana, porque o açúcar era racionado, e numa família grande, se eles vendiam cinco quilos de açúcar, não dava nem para uma semana. E era tabelado: nenhum armazém poderia comprar mais. Era tudo assim controlado na época da guerra. Parece mentira falar isso agora Então a minha mãe não podia fazer doce. Ela resolveu - eu tinha três irmãs mais velhas com dezesseis, dezessete e dezoito anos e um irmão com dezesseis anos - que vinha para São José, colocava os filhos na fábrica, aqui. Ela queria vir embora e o meu pai não queria largar o emprego dele porque ele achava que não ia arrumar para ele aqui na prefeitura. Aí minha mãe insistiu tanto, tanto: contra a vontade de meu pai mesmo, ela veio para São José, alugou uma casa, trouxe umas moedas que ela guardava, umas moedas de 2 mil réis. Ela tinha uma poupança dela, um cofrinho com aquele dinheiro, e com ele alugou a casa.

MIGRAÇÃO
Meu pai ficou lá. E eu tinha uns treze anos, mais ou menos. Foi em 1943. Eu fiquei tomando conta da casa com a minha irmã e meu pai. Eu tinha um irmãozinho caçula, que ela trouxe. A gente estava na escola também, minha irmã estava na escola, então ficamos lá. E ela veio para São José, conseguiu botar os filhos para trabalhar, conseguiu arranjar emprego para todo mundo. Aí eu fiquei três anos lá, e meu pai tentando a transferência para São José. Quando eu completei quinze anos, eu falei: “Eu quero ir embora, eu quero trabalhar”. Meu pai até chorou, eu me lembro, coitado Porque estava tão acostumado comigo lá, meu pai até chorou porque eu falei que queria vir embora com minha mãe. Porque a gente vinha quase toda semana no caminhão de leite visitar mamãe.

TRANSPORTE
De caminhão de leite era mais de duas horas, porque o caminhão de leite vinha pegando leite. O caminhão vinha pegando leite na estrada. Às vezes, demorava mais de duas horas de Monteiro Lobato até aqui. Vinha pela estrada velha de Campos de Jordão, que vai para Buquirinha. Então era tudo de terra, e os fazendeiros deixavam os latões de leite na beira da estrada e o caminhão ia pegando e ia trocando, deixando os vazios para o dia seguinte e levando os cheios. Demorava. Às vezes, o motorista parava para tomar um café, e nós lá, em cima do caminhão. A gente não fazia essa viagem toda a semana. O meu pai vinha de cada quinze dias, às vezes minha mãe ia para lá: a gente ficava se visitando. Mas não podia vir toda semana, não dava, e o caminhão não era de graça. Vamos supor que pagasse um real cada um, mas tinha que pagar, o motorista cobrava.

TRABALHO
Aí eu achei que tinha que trabalhar. Minhas irmãs todas empregadas na tecelagem e eu lá, sem ganhar nenhum tostão, fazendo tricô para ganhar. Então eu resolvi vir embora e meu pai até chorou e minha mãe foi lá, arrumou uma comadre dela para ficar lá com minha irmã, para o meu pai não ficar só. Deixou a minha irmã lá, e aí ela já tinha catorze anos. Ela ficou e minha mãe arrumou uma senhora bem idosinha, muito amiga, e foi morar lá até meu pai conseguir a transferência. Eu cheguei aqui em 5 de dezembro de 45 e fui arrumar meus documentos em janeiro. Carteira profissional, só em Taubaté, aqui não tinha. Minha mãe me levou a Taubaté, tirei carteira profissional, e dia 8 de fevereiro eu já estava trabalhando na Tecelagem Parahyba. Sempre tinha emprego na Parahyba. Tinha sim, era muito rotativo, ela estava sempre crescendo; ela foi crescendo, admitia muita gente, e também porque a cidade era muito pequena. Na época, a maioria das pessoas trabalhavam na Parahyba. Tinha a fábrica de louças Santa Eugênio, mas era bem menor; enquanto tinha uns trezentos empregados, a Parahyba tinha mil. Então, o pessoal comprava e alugava casa tudo perto da Parahyba. Então foi crescendo.

CIDADES
São José dos Campos O comércio em São José era de armazéns. Ainda se conseguia comprar fiado. Tinha um armazém grande na Siqueira Campos, que a gente comprava; tinha os Priantis, lá em Santana. Eram famosos comerciantes de secos e molhados. As lojas sempre foram no centro, na rua Sete, onde é o calçadão, na rua Quinze, na Siqueira Campos. Era mais na rua Sete de Setembro e na rua Quinze. Na rua Vilaça, já tinha mais escritórios, gabinetes dentários. Depois a rua Siqueira Campos começou a crescer e hoje é uma rua que tem quase tudo, o comércio ali.

TRABALHO
Quando comecei a trabalhar, eu entrava às seis horas, e como eu morava ali perto da Cooper Rhodia, a gente atravessava um pasto da Parahyba. Tinha um trilho, uma estradinha de terra. Então, a gente entrava na Rui Barbosa, não tinha esta avenida Olívio Gomes, não existia, isso foi feito bem mais recentemente. A gente atravessava, tinha uma cerca de arame e passava por baixo, para cortar caminho lá, porque a gente podia vir pelo viaduto e vir aqui pela estação, mas às vezes a gente chegava na estação e tinha trem, e a gente perdia a hora. Então nós que morávamos em Santana vínhamos por uma caminho de terra - que hoje entra no grupo escolar de Santana - uma estrada que vinha dar na Parahyba. Era longe, uma estrada de terra em uma fazenda - hoje é o parque da Cidade. Então tinha gado, estábulo e uma estrada de terra que vinha dar na Parahyba. Mas eu, como morava bem mais para cá do grupo escolar, a gente cortava caminho, porque não tinha casa, a gente vinha pelo meio do pastinho, pegava a estrada. Entrava seis horas e tinha que sair de casa vinte para as seis. Quem dava para ir almoçar em casa, ia; quem não dava, tinha que levar marmita. Eu, como dava, vinha rapidinho almoçar em casa. Quando eu entrava às seis, eu saía às três. Depois que eu fui trabalhar na fiação, aí piorou, porque a fiação tinha dois turnos. Lá na sala era uma turma só; na fiação eram duas turmas: das cinco horas à uma e meia, e da uma e meia às dez. Aí apitava quatro e vinte. E ficou famoso este apito da tecelagem, que acordava todo mundo porque apitava muito forte. As pessoas mais antigas não esquecem do apito das quatro e vinte da Parahyba. Era para acordar mesmo o pessoal, então quando apitava e o pessoal estava tomando café, todos saíam correndo. Meu primeiro serviço foi de arrematar cobertores na sala de cobertores, porque era tecido na seção dos teares, passava para a “garzadeira” para limpar os pelinhos, tirar as ferpas, “garzava” - chamava “garzadeira” - , passava aquele tecido, ele saía lisinho daquele tear. E lá que era feito aquele desfiar. Aí, depois de pronto, os cobertores iam para a sala, para serem cortados e embainhados. Então eu entrei na sala de cobertores, e eu não trabalhava nas máquinas. Tinha as costureiras, tinha parece que dezenove máquinas de costureiras, e as meninas menores arrematavam, saía da máquina com... A gente arrematava, dava os nozinhos, e tinha que acompanhar a máquina. Era um serviço puxado para a gente, e se a gente não vencesse, já vinha um encarregado lá e chamava a atenção, tinha que vencer a máquina. Tinha muitas meninas, tinha, tinha sim. Porque as meninas eram usadas para este serviço. Não podiam colocar para trabalhar nas máquinas, não podiam pôr para carregar os cobertores, porque os cobertores que eram cortados nas mesas ali tinham que ser levados para as máquinas e ser distribuídos, mas já era para maior de idade. As menores arrematavam cobertores, ajudavam neste tipo de serviço, mais fácil. Lá, eu não tinha chance de trabalhar em máquina, porque as costureiras eram efetivas. As costureiras, lá, eram de vinte anos, fazia muito tempo que elas já estavam lá, e era muito difícil uma pessoa pegar uma máquina delas. Não aumentava o número de máquinas. Na fiação tinha bastante máquinas, e eu achava que se eu fosse para a fiação, eu poderia ganhar por produção, por isso que eu pedi transferência para a produção. Só que quando eu cheguei na fiação, comecei como “roleira”, que eles chamavam. Pegar nas cargas uma bandeja de rolos e trazer para a fiação. Fiquei bastante tempo trabalhando de “roleira” lá. E eu tinha uma irmã que trabalhou no escritório. Ela chegou e foi trabalhar na folha de pagamento, e quando minha irmã casou, minha mãe achou que podia pedir para mim. Olha só que minha mãe era esperta Foi lá falar com o encarregado de pessoal se eu não podia - porque eu sabia bem ler e escrever - se não podia passar para o lugar da minha irmã. Minha irmã saiu, foi para São Paulo. O senhor Roberto. Aí ele foi para a fiação e ficou olhando. Eu vi: “O que será que o seu Roberto está olhando tanto?”. Eu levando as coisas pra lá, pra cá, e ele olhando. Como ele fazia isto de vez em quando, eu não... Aí ele falou: “Vem cá, Jurdina, vai lá em meu escritório que eu quero falar com você”. Eu pensei: “Vai me mandar embora”. Para mandar embora era fácil, sempre tinha gente sendo mandada embora: “Meu Deus do céu”. Aí eu cheguei lá, ele falou: “Olha, a sua mãe pediu para pôr você de office boy, auxiliar aqui na folha de pagamento. Vamos experimentar. Amanhã você começa, se der certo você fica, se não der, você volta para a fiação”. Nossa, eu fui para a casa na maior alegria e foi assim que eu comecei no escritório, e como eu já conhecia a fiação, já conhecia a sala de cobertor, já conhecia a fábrica, eu fiquei como office boy. Precisava levar a caderneta de ponto, que usava antigamente, eu ia lá correndo e levava, eu ia buscar o ponto. Todos os encarregados marcavam o ponto dos empregados e mandavam para ser passado no livro no escritório, na folha de pagamento - todas as seções tinham uma cadernetinha diária. Então, eu ia em todas as seções, cedinho, recolher todas as cadernetas; trazia e puxava o ponto em um livro grande que tinha lá. Por ali que fazia o pagamento do pessoal, então era muito importante. Depois devolvia as cadernetas para as seções todas. A minha chefe, dona Zelfira, qualquer recadinho: “Jurdina vai em tal lugar. Isso para o fulano”, eu saía correndo. Chegava e sentava na minha mesa, outro: “Olha, vai falar tal coisa para...”. O dia inteiro era assim, não tinha um telefone, a fábrica era grande. Tinha mais dois office boys - tinha um menino e uma menina - eram três que fazíamos o serviço. Foi assim que eu comecei na Parahyba. E foi bom, porque foi um treinamento forçado, porque quando a gente entra e fica num serviço só, a gente aprende aquele, mas se a gente faz um monte de serviço, a gente aprende, fica conhecendo bastante. Tinha que ser rapidinho - chefes bastante enérgicos - , se você demorasse, eles chamavam a atenção, eram bastante enérgicos. A gente tinha que trabalhar certinho. Eu era tão atrasada Quando eu cheguei de Monteiro Lobato, quando eu fui para o escritório, eu nunca tinha telefonado. Olha só como é que eu era E tinha um telefone desses de parede, que só a encarregada usava, ninguém punha a mão. Era telefone externo, não era para ligar para dentro da fábrica. Então, quando tocava o telefone, ela ia e atendia, quando ela queria fazer uma ligação... Eu nunca tinha telefonado, então eu via... Um dia ela falou assim: “Jurdina, você vai ligar para mim para a farmácia São Geraldo” - a farmácia que vendia medicamentos para as operárias lá. Eu falei assim: “Tem força?”, porque era tudo apagado lá, só tinha força à noite. “Tem força?”, ela deu tanta risada de mim, eu pensava que o telefone era a força. Depois ela foi lá e me ensinou, pois ela viu que eu nem sabia que o telefone funcionava sem força. Monteiro Lobato não tinha nenhum telefone, ninguém tinha. Então era novidade, que eu não conhecesse.

LAZER
Tinha um passeio muito gostoso na rua Quinze de Novembro, que era onde todos os rapazes e as moças passeavam, onde [se] namorava, onde se conhecia. Tinha a Associação Esportiva, que era na praça Matriz, onde tem uma loja agora de um e 99. Ali era a Associação Esportiva onde tinha baile todo sábado e todo o domingo. E tinha o Esporte Clube, onde é as Casas Bahia, que até a gente era sócio. E tinha o Cine Paratodos. A gente ia na sessão das seis, depois tinha outra às oito, mas a gente ia na sessão das seis, todo domingo. Saía de lá e ia dançar um pouquinho ou no Esporte Clube ou na Associação. Bom, no baile tinha que ser com meu irmão junto, mas no cinema ela deixava, a gente ia com amiga. No cinema a gente podia ir porque terminava às oito e a gente ia para casa, mas se ia no baile, só ia com alguém junto: meu pai, meu irmão.

FAMÍLIA
Depois meu pai veio. Ele acompanhava a gente no baile, terminava onze horas. Não era como estes, de hoje, que começam às onze horas, era como se fosse uma brincadeira dançante. Inclusive, no Esporte Clube, o marido da Helena Locatelli, o Sérgio Weiss, estreou o Biriba Boys no Esporte Clube. A gente dançava lá. Eu fui nesse baile de estréia, nossa, fui E o Biriba Boys era bom. Oh, se era, muito bom. Eles não eram muito extravagantes, não. Eles usavam um uniforme, todos vestidos iguais. Eram diferentes, mas nada exagerado como hoje, não.

NAMORO
Conheci meu marido no Esporte Clube. A gente passeava bastante na rua Quinze, e outra: a gente passeava assim, de duas a três amigas, com as amigas de braços dados, e quando vinha um querendo namorar a gente, já subia e descia a rua Quinze conversando. Dali, se a gente namorava, a gente desgrudava das amigas e passeava com ele sozinho. Mas se via que não servia, dali mesmo ele já pegava rumo. Meu marido chama Pablo Rojas Hector. Eu o conheci quando estava fazendo a Dutra. Ele trabalhava naquelas máquinas enormes, de abrir estrada. Ele trabalhava numa companhia que estava abrindo a Brasil - Bolívia, aí quando eles terminaram lá, esta firma estava vindo para São Paulo. E ele lá na Brasil - Bolívia, ele começou a trabalhar, porque ele morava perto da fronteira. Ele entrou a trabalhar nesta firma e quando terminou o serviço lá, esta firma trouxe ele para São Paulo. Aí esta firma pegou a Dutra para fazer, e ele morou muito tempo em Arujá. Quando estava fazendo aquele trecho, lá por perto de São Paulo, ele morou em Arujá uns três anos. E quando começou o trecho Jacareí - Taubaté - São José, a firma mudou para São José e trouxe os tratoristas para uma pensão aqui na Siqueira Campos. A minha amiga morava em frente à pensão, mas eu o conheci num baile no Esporte Clube, e como ela morava em frente a pensão... Olha, não foi fácil o nosso namoro. Foi uma história muito complicada, porque quando eu comecei a namorar com ele, já começamos a gostar e a namorar todo dia..., todo dia não, todo final de semana. Dançar. Ele dançava muito bem, naquele tempo tocava muito bolero e ele, boliviano, adorava bolero. E minha mãe disse assim: “Minha filha, tem mais de quinhentos rapazes aí, na Parahyba, e vai namorar um boliviano? Você não sabe quem é, não conhece a família, nada”. “Mamãe, mas o que é que tem? Estou namorando, só.” [O namoro] foi bastante questionado. Mas ele foi trabalhar em Minas, numa estrada que ia abrir lá em Minas. Já tinha terminado aqui. A firma pegou um serviço em Minas e ele quis ficar noivo para ir para Minas. Já fazia mais de um ano que a gente estava namorando. Meu pai falou: “Não, minha filha não vai ficar aqui de aliança no dedo sem saber o que você está fazendo lá em Minas, não senhor. Se você voltar a ficar aqui, eu deixo. Senão, você pode ir embora”. E foi aquela choradeira, aquela tristeza, e tudo. E ele chegou em Congonhas do Campo, mandava uma carta por semana, e eu - uma carta por semana, durante três anos. Ele vinha quando conseguia uma semana de licença. Ele vinha no Natal, no Carnaval. Então foi assim. Depois ele veio trabalhar na Parahyba. Ele veio ser encarregado das máquinas agrícolas da Parahyba. Ficou uns três anos, e nós casamos. Ficamos morando dentro das casas da Parahyba, porque ele era empregado da Parahyba. Foi uma história, levou sete anos. Como ele era encarregado e era sozinho, foi dada uma casa para ele morar. Inclusive, ele comia no refeitório onde eu tomava conta. Aí o doutor deu esta casa para ele morar, porque ele começava de madrugada, ia para as fazendas lidar com as máquinas. E quando nós casamos, ficou a casa para nós morarmos, e eu morei lá quatro anos. Quando ele voltou e começou a trabalhar na Parahyba, aí mudaram as coisas. Meus pais viram que ele queria casar mesmo e aceitaram. Minhas irmãs e meus irmãos gostavam dele: ele era muito educado com todos lá em casa. Eles tinham medo de ele me abandonar, de ele voltar para a terra dele ou lá por onde ele andava; se ele tinha outras mulheres; essas coisas que os pais tinham cuidado. Aquele tempo era diferente.

CASAMENTO
Quando casamos, compramos tudo a prestação, lá na Casa Diamante. Para começar, nós não compramos nem fogão, quando nós nos casamos, porque ele tinha o fogareiro de quando ele era solteiro para fazer café. Eu falei: “Quer saber de uma coisa, não vamos comprar nada”. Até porque nós comíamos no refeitório, a gente almoçava no refeitório, então não precisava. A janta, a gente se virava, porque ele estava começando a vida dele aqui na Parahyba. Porque durante este tempo todo que ele andou por aí, ele gastava em pensão, em farra, passeio - moço solteiro não guarda dinheiro. Então nós começamos a guardar um dinheirinho para casar, mas aí era pouco, não dava para sobrar muito. A casa já estava lá e nós compramos um jogo de quarto na Casa Diamante. Compramos um jogo de sala, compramos móveis de cozinha, e o fogão e a geladeira ficaram para depois. O fogão, eu achava que não precisava ainda. Depois que nasceu o primeiro filho - porque logo dez meses depois, já nasceu o primeiro filho - então, eu comprei o fogão e a geladeira, porque aí já vinha o nenê. Mas foi um negócio muito difícil para começar, não foi fácil. A festa do casamento foi uma festinha simples. Naquele tempo, não usava grande coisa; naquela época, só mesmo os amigos, bolo de noiva, uns salgadinhos. Na lua-de-mel viajei para Santos. Nós alugamos um táxi para irmos até São Paulo, porque horário de ônibus..., não tinha toda hora. Nós casamos cinco horas da tarde, e quando foi sete horas da noite, nós fomos para São Paulo, dormimos em São Paulo, em um hotel, e no dia seguinte nós fomos para Santos. Ficamos na avenida da praia mesmo, numa pensão familiar, porque a minha irmã já tinha ficado lá. Casei em 1957. Ficamos lá uma semana, acho. A gente era muito simples e, naquela época, não tinha televisão, vídeo, som, não tinha nada. Hoje a pessoa casa e já começa a pensar numa televisão, numa máquina de lavar. Eu, quando eu tive o meu primeiro filho, que eu comprei uma máquina de lavar. Já foi um sucesso. Então eram assim as coisas. Jogo de sala, jogo de quarto, e só. Quem tinha dinheiro comprava uma geladeira, uma máquina de lavar. Neste tempo, eu já estava crescendo na Parahyba. Já estava no serviço pessoal. Quando eu me casei, eu estava cuidando do refeitório, já estava comprando para a loja.

TRABALHO
O refeitório da Parahyba era para mil pessoas, mas nunca chegava. Por isso é que foi fechado o refeitório, foi montado um refeitório muito bonito com material importado, uma coisa maravilhosa, mas as pessoas não aceitavam tomar a refeição lá; iam para casa, traziam marmita, mesmo sendo barato. Era tão barato que logo começou a dar prejuízo, porque tinha que manter uma porção de empregados. Descontava do salário, a pessoa fazia um “valinho” na hora e descontava do salário. As panelas... Não sei se eram dos Estados Unidos, só sei que eram importadas, tudo a vapor. Então eu tive que contratar um encarregado e onze cozinheiros. Um encarregado de cozinha que estava acostumado com restaurante. Tinha um senhor que ficou encarregado do depósito de mantimentos e um frigorífico. As vacas, matavam na fazenda e mandavam a carne para o frigorífico. Então tinha uma pessoa encarregada do frigorífico, outra do depósito de mantimentos, e eu era do cardápio. O doutor Clemente me orientava bastante. Sempre eu conversava com ele, com os colegas, mas eu tinha que decidir, eu tinha que fazer coisas que eu nunca fiz na minha vida. Para quem foi criada com feijão e arroz lá em Monteiro Lobato, chegar e tomar conta de refeitório não foi fácil não O doutor Clemente escolhia as pessoas para determinados cargos e eu trabalhava ao lado da sala dele. Tinha um sobrado na entrada da Parahyba, e a sala dele era ali, a gente trabalhava ali. Embaixo era folha de pagamento. O serviço pessoal, diretoria, seção de advocacia: tudo era em cima. E minha sala era de par com a sala dele. Então ele achava fácil, a gente que trabalhava ali: “Olha, você vai fazer isso, você vai fazer aquilo”. Aí, quando faltou comprador para a loja, ele falou: “Jurdina você não quer ir ajudar a escolher os tecidos?”. Primeiro ia duas, três lá do escritório, para ajudar escolher os tecidos, para comprar para a loja. A escolha era feita lá em cima, na gerência mesmo. Os viajantes chegavam com as malas de tecidos, e no começo, a gente ia escolher só os tecidos. Então, vinha o encarregado de pessoal efetivar a compra. Vinha também o encarregado da loja. Depois chegou um tempo que ele me encarregou de fazer as compras. A loja era junto do mercado, um mercado muito grande de secos e molhados que tinha tudo. Em continuação, era uma loja de tecidos e roupas. Mas só vendia para funcionário da Parahyba, só para funcionário. Se alguém de fora fosse lá, tinha que comprar com cartão de funcionário. Às vezes, ia uma família comprar, mas só com cartão de funcionário. Cobertores podia vender, mas só cobertores. Às vezes, vinha gente de São Paulo, às vezes encontrava dois, três ônibus. Sabe estas excursões que tinha para Aparecida do Norte? Vinha. Sabia que tinha os cobertores Parahyba e encostava dois, três ônibus e compravam os produtos da Parahyba. Eu fazia compra só de tecidos, mas tinha o encarregado do mercado que comprava outras coisas.

TRANSPORTE
Geralmente as encomendas vinham de trem, mas tinha ônibus e muito caminhão de transporte. Só quando vinha uma carga maior é que vinha de trem, mas a maioria era por caminhões mesmo. Entrava lá e descarregava, caminhão de tecido, caminhão de calçado, vinha pela Dutra ou pela São Paulo - Rio de antigamente. Vinha mais de São Paulo. Do Rio de Janeiro era muito pouco. Tinha muita excursão para Aparecida, para Caraguatatuba; de Minas, que vinha para uma excursão e tal, do Rio de Janeiro. Então eles paravam aqui em São José e aproveitavam a oportunidade para comprar cobertores. Se era uma coisa para presente, tinha tudo, embalagem para presente, tinha tudo lá. Inclusive tinha papel próprio da Parahyba. A maioria comprava cinco, seis cobertores para levar para a família.

COMÉRCIO
Na loja tinha balconistas. Agora: as gôndolas no mercado, de louças, panelas, os funcionários mesmo pegavam os carrinhos. Eram pequenos - não eram como os que a gente vê agora, não - e passavam pelas duas registradoras. Primeiro montaram uma loja bem simples, par com o depósito de cobertores, na frente da fábrica - tinha o depósito de cobertores, tinha o almoxarifado - , então montaram numa sala, uma loja. Mas aí viram que estavam misturando cobertores e não ia dar certo. Lá também houve um pequeno incêndio. Eles ficaram com muito receio porque tinha muito cobertor por perto, foi mais ou menos isso. Eu era jovem, eu sei que houve um problema assim, tinha muitos cobertores e podia pegar fogo em tudo. Aí eles montaram este mercado, na rua Rui Barbosa, num terreno que era deles. Era tudo deles: aquilo, do lado direito da rua Rui Barbosa, era tudo deles. Então resolveram fazer um mercado muito bonito, com gôndolas e tudo. Tinha bicicletas, carrinhos para bebê, rádios. Só para funcionários, tinha a cooperativa. Era muita gente que trabalhava lá e se eu quisesse levar uma prima, uma cunhada, podia fazer compras em meu nome. Não compras assim..., mas comprava uma panela, uma louça, alguma coisa que gostasse. Não tinha problema, desde que fosse com meu cartão, mas os lojistas da época, os donos de armazéns, devem ter sofrido muito com isso, porque todo o pessoal da Parahyba, que consumia nesses grandes armazéns, passou a consumir tudo lá. Então você veja: deve ter dado uma queda grande. Aqui na Siqueira Campos tinha um armazém grande - no momento eu não me lembro o nome. Nós mesmos, a mamãe só comprava só na caderneta, sabe? Quando saía o pagamento na Parahyba, vinha pagar. Então eu acho que teve muita queda no comércio porque era bastante funcionário que passou a consumir lá. E outra, tinha uma vantagem muito grande: como ela [a tecelagem] plantava muito arroz nas fazendas, o arroz chegava num preço muito mais barato; a batatinha chegava num preço muito mais barato porque vinha direto da fazenda; o leite vinha direto da fazenda, aí eles vendiam mais barato para nós. Me lembro de ter comprado lá louça, panelas. Aí, um mês - nessa época eu estava fazendo ginásio, eu tinha mais de vinte anos, com aquele diplominha meu, tive que me preparar para entrar no ginásio, mas entrei no Olavo Bilac - a gente estava no ginásio, umas oito horas da noite, e veio um funcionário da Parahyba - onde a gente estudava, tinha um monte de gente da Parahyba - chamar todo mundo para ir correndo porque estava pegando fogo no mercado. Nós descemos correndo aqui pela Rui Barbosa, estava descendo todo mundo para ajudar a salvar tudo que pudesse lá de dentro. Então começaram a amontoar tudo dentro do refeitório, o que salvou, levou para... Resolveram não fazer mais nada fora da Parahyba, porque ali estava na avenida. Como era mês de junho: “Ah não, é balão que caiu lá”. Ninguém achou balão nenhum, tinha muito balão - naquela época, soltava muito balão - mas a gente achou que se caísse um balão ia queimar só naquele lugar, não um mercado enorme como aquele. Então desconfiaram que houve alguma sabotagem, mas ninguém apurou nada. Acho que nem a polícia fazia a investigação como faz agora. Naquele tempo, acho que não foi feito nada, ficou por isso mesmo. Para comprar, tirava uma notinha e ia para descontar do salário. Tinha um limite para comprar. Não podia gastar, assim. A vista podia, é lógico, para descontar não. Era difícil parcelar o desconto no salário. Só quando a pessoa comprava muito cobertor, assim, alguma coisa mais cara, mas a compra de alimento não era parcelada. Os produtos da Parahyba a gente comprava mais barato. Não lembro o desconto, só sei que era mais barato.

TRABALHO
Em relação a fornecedores e compradores, só lidava com homens. Naquele tempo tinha as casas Buri, que vendia muito para nós; as Pernambucanas, também vendia muito para nós; e tinha uma casa que fechou, que vendia muito material para nós, que eu não me lembro mais do nome. A Buri fornecia. As Pernambucanas sempre foi a nossa maior compradora de cobertores. Depois que começou outras indústrias de cobertores, até mais baratos, a entrar nas Pernambucanas - e os produtos da Parahyba eram melhores, eram mais caros - , aí então diminuiu muito. Tinha uma contabilidade muito boa, tinha uma contabilidade perfeita, fazia estoques, controlava o almoxarifado. As firmas que compravam é que levavam os bonequinhos dos cobertores Parahyba. Para quem comprava em quantidade. As firmas que compravam - não era para quem chegasse na loja e comprasse um cobertor e ganhava, não. Porque era uma produção pequena, era tudo manual. Eram as costureiras que faziam esses bonequinhos. A música era: “Já é hora de dormir”, bonequinho Parahyba, a musiquinha... Acho que nome próprio para ele, que eu saiba, não teve. Só fazia promoções quando queria liquidar algum produto. Aí ela fazia: um tanto de cobertores, de roupas, tecidos - isso é normal quando uma loja quer... Roupas de inverno, verão, mas nada grande assim; sem propaganda, sem nada. A gente chegava lá e via que isso daqui estava mais barato. Fui tomar conta das fazendas, porque a tecelagem começou a comprar várias fazendas. Acho que o senhor Olívio gostava de aplicar seu dinheiro em fazenda. Foi comprando fazendas; chegou uma hora que tinha dez, doze fazendas. Cada uma tinha vinte, trinta empregados, algumas até com quarenta, e algumas não tinham documentação, não tinha nada. Então começou a surgir alguns problemas de pessoas que vinham de outras fazendas, faziam reclamações quanto à fazenda [de onde vinham], e a gente não conhecia, não fazia ficha nem nada. E começou a aumentar muito o movimento. Então eles resolveram organizar, e começou a fichar o pessoal. Sem obrigação nenhuma, fichar para o controle da firma. As fichas dos empregados eram para controle da firma e não para a Lei Trabalhista, que não existia para a área rural. Foi quando a gente começou a documentar as pessoas, tirar carteira profissional para todo mundo; quem não tinha registro, procurava registrar. Tinha muito mineiro que não sabia de nada, chegava aí, sem documento, sem nada. Vinha gente de toda a região, mas muito mineiro. Do sul de Minas vinha bastante. Ele chegou assim e disse: “Vamos fichar este pessoal, faz igual ao da Parahyba”. Eu segui o que eu sabia da Parahyba. Inclusive, as primeiras fichas, eu peguei da Parahyba mesmo. Depois que foram feitas fichas especiais para eles. Mas envelope de pagamento era comum, comprado na papelaria mesmo, depois é que foram feitos envelopes especiais para eles com o nome da fazenda Santana. Foi organizado tudo como uma empresa mesmo. A criançada, ah, começamos a pagar salário-família, pagava pouquinho, pagava... Bom, no dinheiro de antigamente, a gente não sabe avaliar, mas vamos supor que hoje pagava quinze reais a cada criança até catorze anos, mas para eles, que tinham muitos filhos, ajudava bastante, era pouquinho. Depois foi entrando aquela inflação, desvalorizando o dinheiro, e o salário-família foi ficando muito baixo. Teve uma época que resolvemos até cortar o salário-família porque estava dando muito problema para controlar. Depois veio o registro oficial, veio o salário-família e acertamos tudo. Mas salário-família existia muito antes de se pensar em registro oficial. Quando nascia a criança, dava um enxovalzinho, feito no nosso serviço mesmo. Dava um enxovalzinho completo para a mãe e obrigava... O pai só podia pegar o enxovalzinho - era o pai que vinha buscar - , só entregava quando ele trazia a certidão de nascimento. Eu fui conseguindo registrar todas as crianças; e tinha muita criança sem registro. Eles falavam: “Nasceu, mas a gente não tinha dinheiro para o registro”, e ia ficando. Então a gente foi obrigando a registrar as crianças e foi normalizando a situação. Registramos todos em carteira de indústria e aí saiu a carteira rural, em 64, e foram substituídas as carteiras. Todos os nossos já tinham carteira, tudo, tinha contrato certinho, ficha. E outra: quando eu comecei a fichar o pessoal, em 1957, tinha gente trabalhando desde 1945 nas fazendas. Então eu tinha que fichar assim: “fichado em 57, tempo anterior tantos anos”, para depois, quando alguém fosse sair, a gente fechar o acordo desde o tempo anterior. Foi bem complicado, sabe. Eu tinha assistência tanto do departamento jurídico da Parahyba, como do gerente - o encarregado de pessoal da Parahyba me dava assistência. Qualquer coisa que eu tinha dúvida, eu ia lá. Depois, tinha uma época que tinha muita reclamação trabalhista, justamente quando saiu a Lei Rural. Teve uma história muita chata que aconteceu: a gente contratava cinqüenta empregados para colher arroz na Parahyba, eles chamavam volantes. Eles iam de manhã cedo com caminhão da Parahyba, trabalhavam o dia todo, quando chegava o fim de semana eles recebiam, mas não tinham carteira assinada, não tinham contrato nenhum. Volantes: só para a colheita. E o que aconteceu? Começou a aumentar muito o número de volantes, porque aumentaram muito a produção de arroz, na época. Houve um levante porque eles queriam receber o tempo de serviço, queriam ser fichados. Como se fossem efetivos Houve uma reclamação trabalhista de mais de cem pessoas contra a fazenda Santana. Nossa, mas foi difícil, viu? Porque houve uma juíza da época que não queria saber se era rural, ela queria acertar a situação das pessoas. E ficou caro, eu tive que fazer acordo com a maioria. Vamos supor: vem uma pessoa e trabalha três meses, passava um ano, vinha de novo. E queria receber tudo E era difícil ter o controle, porque eles não eram fichados. Então foi bastante complicado esta reclamação trabalhista. Depois foi feito um acordo e acertamos com todo mundo, mas ficou caro para a fazenda. Nessas fazendas, primeiro era a agricultura. Mandava para o Rio de Janeiro caminhões e caminhões de saco de batata, arroz... Aquele galpão - hoje fica no parque da Cidade - ficava cheinho de saco de arroz, esperando preço. Eles armazenavam quinhentos, mil sacos de arroz, aguardando preço, porque na época da colheita caía o preço, então eles guardavam lá centenas de sacos de arroz, depois faziam a venda. Então a agricultura estava bastante desenvolvida lá dentro. Quando veio a Lei Trabalhista - uma coisa favorece, a outra atrapalha - foi dispensada uma porção de empregados e só foram registrados os melhores, só os necessários. Aí a agricultura foi diminuindo. Tinha que pegar gente para a agricultura - naquele tempo, tinha poucos tratores, poucas máquinas, não era como hoje, que uma máquina faz serviço de quase cem empregados, era diferente. Foram parando com a lavoura e foram entrando para o gado e foi aumentando a produção leiteira.

FAMÍLIA
Tive cinco filhos, só um faleceu, agora eu tenho quatro. Eu e meu marido sempre fizemos tudo junto. Meu marido era mecânico, trabalhou na montagem da Matarazzo, trabalhou na GM [General Motors], trabalhou na Bendix, que fazia máquina de lavar roupa - antes era Bendix - , trabalhou doze anos. Ele era mecânico de manutenção, porque antes ele era tratorista de estrada, dessas máquinas enormes, depois ele começou a trabalhar como mecânico de manutenção. Então toda a vida ele trabalhou, ele mantinha a casa e eu comprava o que faltava depois: roupa, calçado para as crianças, escola - que a gente pagava - , tudo, aí eu fazia com o meu salário. Mas ele mantinha as despesas da casa, graças a Deus. De vez em quando a gente saía, de vez em quando a gente ia ao Mappin, em São Paulo. Carro a gente foi comprar bem depois. Íamos de ônibus da Pássaro Marrom. Com a Dutra já era mais fácil; algumas vezes, a gente ia pela estrada velha. Meus irmãos ficaram aqui no Vale. Só um foi para São Paulo, que ele trabalha na Matarazzo, em São Paulo. Eu tinha minha avó e minha tia que moravam em Taubaté, e meu primo, que trabalhava na Light, correndo fiação de luz da Light. Eles moravam numa fazendinha lá, e a gente ia em Taubaté. Ia de ônibus, às vezes a gente ia de trem. A gente ia para Aparecida do Norte, a gente ia de trem.

RELAÇÃO COM O COMÉRCIO
Eu adoro fazer compras. Gosto de comprar tudo. Vou no supermercado, encho meu carrinho de compra. Um dia desses, meu marido estava doente e esse meu filho falou: “Nossa Tudo isso que a senhora compra?”. “Eu compro para o mês inteiro, eu não posso vir duas, três vezes no supermercado.” “Mas é muito.” Eu falei: “Não é”.

VIDA ATUAL
A gente entrou no grupo da Terceira Idade, cinco ou seis anos atrás. Foi assim: eu saí da Parahyba e fiquei até doente. Você vê, 47 anos trabalhando, aquela rotina, e eu parei de trabalhar. Então, eu recebi o pecúlio do INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] e começamos a construir uma casa em Caraguá, e durante uns quatro anos eu envolvida com aquele negócio, e vai pra lá, e vai pra cá, e pedreiro e compra material - porque eu é que gosto de dirigir com pedreiro, também. Então eu não senti. Toda semana eu ia para Caraguá e levava pedreiro para lá. Quando acabou, e eu não precisava ir mais para lá, foi me dando uma nostalgia, uma tristeza, eu não sei o que me dava. Então fui consultar um médico que dava florais de Bach. Ele é como um psicólogo: você leva mais de uma hora na consulta. Ele falou que a vida que eu tive - ele pergunta muita coisa da vida da gente - , que eu não estava doente. Então ele deu um produto para eu comprar, umas dosezinhas de medicamento. E disse para mim que eu não podia ficar dentro de casa. Eu tinha despedido a empregada e ficou só eu e meu marido, então a gente entrou no grupo da Terceira Idade. A gente vinha aqui no parque Santos Dumont duas a três vezes por semana. Cantava, fazia ginástica, caminhava. Agora, no ano passado, meu marido teve derrame, e eu voltei para dentro de casa outra vez.

AVALIAÇÃO
Trajetória de Vida Tirei tantas lições dessa minha trajetória de vida. Às vezes a gente comenta em casa, a gente fala que está cansado, mas depois que passa, a gente vê que a melhor época da vida da gente é trabalhar, ganhar o dinheirinho da gente, comprar o que a gente precisa - seja com simplicidade - , mas não falta nada. Outra coisa que eu estava falando, um dia desses, para as minhas noras: aproveite que a melhor fase da vida da gente é criar os filhos, porque todo mundo reclama, “Ah, dá trabalho”. Porque a melhor fase da minha vida era quando eu estava criando meus filhos. Nossa A gente passeava junto, cada um queria uma coisa, a gente atendia um, depois atendia outro. Viajava o marido e os filhos juntos, a gente ia para Campos do Jordão, para Aparecida do Norte, para Caraguatatuba, todo mundo junto, aquela alegria. Cresce, cada um vai cuidar da sua vida e a gente fica aqui sozinha. Então, eu falo para elas que a melhor fase da vida da gente é quando a gente está criando os filhos, que a gente vive toda a alegria, todos os problemas juntos. Depois, a gente continua pensando nos problemas dos filhos, mas não pode nem participar, porque cada um tem que cuidar da sua vida, porque tem nora, tem genro, mesmo que a gente sinta os problemas de um filho casado, de uma filha casada. Então a gente se sente muito excluída, muito sozinha, a gente acha falta, tem saudade do tempo que estava todo mundo em casa, que estavam todos em casa - dando trabalho, dando despesa - , mas dando alegria. Só depois a gente vê o quanto é boa essa fase; na hora é ruim, que está trabalhando demais.

TRABALHO
A música dos cobertores Parahyba foi feita por uma firma de propaganda mesmo. Agora, o bonequinho... Eu não me lembro muito bem, mas tinha uma senhora que costurava, inclusive ela fazia os enxovaizinhos pra eu dar para as trabalhadoras rurais - toda mulher que dava à luz ganhava um enxovalzinho - e de vez em quando ela fazia uns bonecos lá. Acho que foi ela que fez o primeiro boneco. Agora, quem pediu para ela fazer, quem deu a idéia, não sei. A gente a chamava de Maria Portuguesa, dona Maria Portuguesa, faleceu faz tempo. Foi encarregada dos teares, depois passou a ser costureira numa salinha de costura. Depois ela passou a fazer enxovais, e ficou muitos anos costurando. Que foi ela quem fez o boneco, eu sei; agora, quem deu o modelo, eu nunca fiquei sabendo.

AVALIAÇÃO
Trabalho Momentos alegres foram muitos, principalmente quando tinha Réveillon e fazia aquele Réveillon maravilhoso para gente, nossa, era muito gostoso, e às vezes, nas festas de Nossa Senhora, em 8 de dezembro, ele fazia um churrasco para todos os funcionários. Então era uma alegria, os músicos que tocavam eram de lá mesmo, tocavam violão, tocavam violino, fazia... Era uma festa maravilhosa mesmo, e eu não esqueço os churrascos que eram feitos para nós lá na Parahyba. Então tinha muitos momentos gostosos de participação.

TRABALHO
Como as mulheres davam à luz nas fazendas, muitas vezes eu mandava a parteira lá correndo, de ambulância, de táxi - a parteira ia fazer o parto lá na fazenda. Só quando elas não conseguiam trazer para o hospital, era feito o parto lá. Eu tinha uma moça que ia trabalhar lá com a gente, como se fosse uma assistente social: tinha uma mulher grávida, ela ia e conversava - e começamos a exigir pré-natal, que elas nunca faziam - , via se ela queria que fosse para o hospital ou se fosse parteira lá. Era uma moça nova ainda, e não tinha muita experiência, ela estava cursando serviço social, mas não tinha muita experiência; então nós compramos o Manual do Parto para ela poder acompanhar e entender um pouco. E essa parteira, que ia lá às vezes, usava o manual, porque era uma parteira da prática. Ah, uma coisa interessante que aconteceu, falando em parto: esse rio Paraíba enchia toda essa várzea e pegava duas fazendas nossas, lá embaixo - tinha a fazenda Pilão Arcado, tinha a fazenda Jataí. Um dia, veio um pescador - tinha os pescadores na época, eles não trabalhavam para a Parahyba, eles moravam na beira do Paraíba, os piraquaras, que chamavam, eles tinham o pedacinho deles lá plantavam, pescavam - e entrou um piraquara correndo no meu escritório e falou: “Olha, a mulher está lá para dar à luz, a gente não pode trazer porque está cheio d’água, e para levar a parteira, se quiser eu levo a parteira”. Aí mandei chamar a parteira, ela foi no meu escritório, eu falei: “Dona Maria, a senhora é capaz de pegar um barco, pegar esta enchente de barco para fazer um parto?”. Ela falou: “Meu Deus, e se não conseguir fazer, e se morrer a criança?”. De todo jeito, a parteira estava sozinha lá. Convenci a parteira a ir e ela foi de bote atender o parto numa casa cheia d’água. E a criança nasceu uma belezinha, foi um sucesso. Foi uma coisa que ficou gravada, eu fiquei rezando lá no escritório porque eu fiz a mulher ir de bote - ela nunca tinha andado de bote. Foi ela com a maletinha dela fazer o parto. E foi um sucesso, a mulher veio tão feliz, foi uma coisa que ficou gravada. Uma vez, chegou um rapaz lá no escritório e falou: “Dona Jurdina, a senhora dá um vale de 15 mil réis pra mim, se não eu estou f...” - naquela época estava começando a sair estas gírias, “se f...”, “eu estou f...”. Hoje o pessoal fala de tudo, até na televisão. Ele ficou lá na minha mesa e as meninas que trabalhavam numa salinha a par comigo, as secretariazinhas, caíram na risada do outro lado. Eu não sabia se ria: “A senhora dá um vale de 15 mil réis pra mim, se não eu estou f...”. É que naquela época a gente não estava dando vale, então ele queria me obrigar a dar o vale para ele, e por isso falou desse jeito. Aí eu pedi para ele explicar porque ele queria o vale, ele explicou, eu dei. Depois, aconteceu também que, eu me lembro, o doutor Severo, nosso patrão, contratou uns boiadeiros lá do Sul para cuidar do gado na fazenda de Jacareí. Esses boiadeiros eram um pessoal muito diferente, os sulinos, esquisitos mesmo. Quando eles foram trabalhar, ninguém se dava com eles na fazenda, ninguém queria saber deles, eles andavam armados, eram três só, sulinos, gaúchos. Eles vieram para eu fazer o contrato de trabalho com eles, tudo de bota, tudo diferente. Então - eu tinha na sala de espera uma mesinha de centro, onde ficavam as pessoas esperando para serem atendidas - , quando eu saio para atender o gaúcho, ele com um bruta de uma bota até aqui, com os dois pés em cima da mesa. “Você quer fazer o favor de tirar os pés desta mesa, não sabe que esta mesa é da gente servir café?”. Ele: “Sim, senhora”. E ele tirou os pés. As meninas: “Como é que a senhora teve coragem de falar isso para eles?”. Eu falei: “Ué, o que eles iam fazer para mim, bater em mim eles não iam”. Mas eu fiquei com tanta raiva desses gaúchos... No fim, eles ficaram uns meses lá e depois foram mandados embora, porque eles foram numa exposição de gado lá em Jacareí, tiraram uma arma, atiraram, quase que mata uma pessoa na exposição. Aí o doutor Severo achou melhor mandar tudo embora.

FAMÍLIA
Tenho oito netos e três bisnetos: um menino e duas meninas.

TRABALHO
Trabalhei lá 47 anos. Eu fiquei onze anos ligada à fábrica mesmo, fazendo os serviços da fábrica, depois fui para o Serviço Pessoal Rural, onde fiquei trinta anos. A parte das fazendas foi a que eu dirigi melhor. Tinha um advogado que... Sempre que tinha uma reclamação trabalhista da fazenda, ia lá, levava a papelada, e ele não ganhava, porque estava tudo certinho, era difícil ganhar. Então, agora faz pouco tempo, estávamos falando de advogado e um advogado falou: “Sabe qual a melhor advogada rural aqui se São José? A dona Jurdina. Ela não é advogada, mas sabe tudo da Lei Rural”. E outra: eles não estudavam a Lei Trabalhista Rural, eles sabiam muito da indústria e comércio, quando chegava na área rural eles tinham dificuldade porque eles estavam começando a entender a Lei Rural, e a gente estava há muitos anos. Então eles diziam que eu era advogada rural.

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