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Tecidos e linhas da vida

História de: Henrietta Kabbach Weatherby
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/02/2005

Sinopse

Infância em Santos com muitos irmãos. Descrição do pai, proprietário de loja de meias, no centro. Passeios com a família para praias diversas. O Clube do Piquenique. A montagem da loja de armarinhos no Gonzaga, uma das pioneiras. A escola e a dedicação da diretora. A escola de corte e costura na casa do pai. Casamento. Montagem de ateliê de alta costura em São Carlos. Volta para Santos. O trabalho na loja do pai. O relacionamento com a clientela e a organização de estoque. A clientela atual. Trabalho em família: filha e irmão no mesmo ramo.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Henrietta Kabbach Weatherby, 27 de outubro de 1924, São Paulo.

FAMÍLIA
Nome e origem dos pais Meus pais são Michel Issa Kabbach e Marie Ackell Kabbach. A origem deles é Síria, cidade de Homs. Mas eles se conheceram aqui. Vieram separados. Mais ou menos em 1918, 9 por aí. O papai veio para se aventurar, curioso, gostava de coisas, lugares novos, e mamãe veio acompanhando a avozinha dela. Então eles acabaram ficando aqui e se conheceram aqui. Ele, quando ela chegou, como eles são da mesma cidade, então ele foi recepcionar no navio com uma comissão. Chegou em Santos e aí eles se conheceram e daí começou.

ORIGENS
Culinária síria Meu pai trabalhava em comércio só que não tinha a casa aberta, depois é que ele se estabeleceu, mas sempre no ramo de aviamentos, tecidos. Ele conta muitas passagens quando houve muita doença, aquela febre amarela. Ele morava numa pensão e o pessoal fazia a comida deles, na pensão não tinha comida síria, então eles que faziam as saladas, o quibe, comiam muita coalhada. Os outros ficavam muito curiosos: "Como eles vão comer coalhada e comer pepino?" Estavam esperando qual da turminha que morria primeiro, porque eles achavam que coalhada com pepino era um veneno. Essas coisas que ele contava para nós, que é muito curioso porque a gente está acostumada, mas o pessoal daqui não conhecia. Contava muita coisa, na viagem dele que ele fazia, quantos contratempos que havia em matéria de entendimento de cliente. Tinha cliente que tinha medo de atender a porta por exemplo, porque ele começou vendendo de porta em porta, depois é que é que ele foi se fortificando.

COMÉRCIO
Atividade do pai Ele vendia na cidade e algum lugar do interior, próximo à São Paulo. Depois ele se estabeleceu definitivamente aqui. Em Santos.

INFÂNCIA
Lembranças de São Paulo Nasci em São Paulo. Lembro de minha casa, uma casa bem grande por sinal, na Vila Mariana, na rua Sena Madureira, era muito bom, era o melhor tempo. Tinha aquela cerração que agora não tem, agora é poluição. Cedinho, seis horas, passava um homem com as cabritas vendendo leite. A gente corria para pegar o leite, não se enxergava um palmo adiante do nariz. Lembro muito bem, nossa Que delícia. Então era um bando e nós já saíamos cada um com a sua canequinha para tomar o leite fresquinho, tirado na hora da cabra. Foi um tempo bom que agora não existe mais.

FAMÍLIA
Brincadeiras Tenho irmãos, comigo são sete. Os meninos brincavam muito na rua, com os coleguinhas, os vizinhos. Era uma brincadeira muito sadia, as famílias sentavam nas calçadas para observar os filhos brincando, nós com as meninas brincávamos de cabra cega, amarelinha, roda. Eram essas brincadeiras gostosas que hoje não existe mais, que é uma pena.

EDUCAÇÃO
Estudos em diversos colégios em São Paulo Fui para a escola logo de pequena, estudei aqui em Santos. Em São Paulo foi no Externato São José, fiz o pré lá e fiz o primário até o segundo ano, depois viemos para cá, estudei no Barnabé depois estudei no Cesário Bastos, estudei no Canadá, depois fui fazer uns cursos de professorado na Conselheiro Nébias, era uma escola profissional onde eu me formei em matéria de trabalhos manuais e corte e costura. Depois fiz os exames em São Paulo na Superintendência do Ensino Profissional.

MIGRAÇÃO
Mudança para Santos Quando eu vim para Santos, eu podia ter uns sete anos mais ou menos. Santos, no que eu me lembro era uma cidade tranqüila, gostosa. A gente ia para a escola sem preocupação, os pais nem precisavam nos levar. Primeiro porque mais perto também, mas não tínhamos problemas que temos hoje. As escolas eram ótimas, as professoras excelentes, me lembro tão bem das minhas professoras, elas eram firmes e enérgicas, era onde eu gostava, eu sempre gostava das professoras enérgicas, todas elas eu tive sorte, então era diferente, não tenho dúvidas. Primeiro nós morávamos em Campo Grande, depois é que fomos para a cidade, foi quando nós mudamos de São Paulo para cá, nós fomos para Campo Grande na rua Duque de Caxias. Era uma casa.

LAZER
Ida para a praia com a família Nós íamos para a praia, ainda hoje nós estávamos contando: papai pegava a bicicleta e punha os meninos naquela bicicleta de homem e a gente ia junto da mamãe. Ele sabia nadar muito bem e ensinava todos nós a nadar. Era tudo pequenininho e aprendíamos, era gostoso.

COMÉRCIO
Lojas tradicionais de Santos Papai passou a comprar tudo em São Paulo, daí ele se estabeleceu e tudo que a gente precisava ele comprava para nós, mas aqui em Santos a gente ia muito na Slooper, quando estávamos mocinhas, na Casa Alemã que tinha na Praça Rui Barbosa e na Americana e em algumas lojas perto de onde nós morávamos. Na Singer, eu fiz curso de bordados à máquina. Eu era aluna mais miúda, pequenininha, era a mais nova, era um toquinho de gente. É, um curso de bordados e me formei lá com eles.

PRODUTOS
Meias masculinas e femininas Morávamos na Rua General Câmara 123. E meu pai se estabeleceu lá mesmo. A loja tinha meias. A especialidade dele, depois é que ele foi aumentando os produtos. Tinha até meias vermelhas, amarelo, azul, branco, todas as cores, laranja. Tinha o expositor de meia colorida que ele punha na vitrine, parecia uma bandeira, sabe. Era muito bonito. Meias de homens, de mulheres, de crianças, de tudo, esportiva, todo tipo de meias. A maioria era produto brasileiro, depois é que ele começou a trabalhar com importado, mas ele preferia mais o nosso produto. Continuamos a trabalhar com meias até hoje. Nós não deixamos as meias não, e trabalhamos com artigos muito bons. A loja chamava Galeria das Meias.

LOJA
Ambiente interno A loja tinha duas portas grandes e uma porta de entrada que a casa era no fundo e a gente morava lá, grande, espaçosa. Quem trabalhava era papai, mamãe e a gente era menorzinho mas sempre dava uma mãozinha, porque eles sempre mandavam a gente embalar as meias, arrumar e guardar as caixas, por em ordem. Ele já foi nos ensinando desde pequenininho.

EMBALAGENS
Tinha uns rolos de papel que papai fazia as embalagens. Fazia na hora. Às vezes ele fazia assim quando tinha tempo, fazia os saquinhos e deixava pronto na medida da meia. Ainda não tinha esse negócio de embalagem. Tinha o papel sim de presente.

CONSUMIDOR
Clientela masculina e feminina Nessa época eu não prestava muito atenção, mas a gente sempre via homem e mulher na mesma proporção. É, escolar, a gente vendia. A gente vai lembrando devagarzinho.

LAZER
Festas e bailes Nós íamos em festa, nós íamos em bailes, a gente passeava muito, viajava, estudava. Viajava muito era para São Paulo. A maioria das festas que nós íamos era em São Paulo porque a família toda mora lá, só nós é que estávamos aqui. Então a gente tinha muito ida e volta. Íamos de trem para São Paulo. Depois é que papai comprou um carro, aí nós íamos de carro pela estrada velha. Devia de ter nessa época uns 13 - 14 anos, por aí. Era um Ford, gostoso. E ia todo mundo. Todo mundo. Em casa sempre assim, onde ia um filho ia todos os filhos juntos.

TURISMO E HOTELARIA
Hotel árabe em Santos Aqui em Santos tinha um hotel árabe, quer dizer, não era árabe, o dono que era árabe, mas eles só faziam para eles mesmos a comida árabe. Para os hóspedes eles tinham receio que eles não iam gostar. Mas de vez em quando ele introduzia alguma coisa para acostumar o cliente. Aliás em Santos tem muita colônia árabe, a colônia é grande, é boa. Agora que tem restaurantes árabes, bastante, mas antes era mais difícil. Em São Paulo sempre teve. Aqui não tinha quase, tinha só o primeiro que nós conhecemos, era em São Vicente. Um restaurante árabe muito bom, eu não sei se eles ainda estão lá. Eu não sei dizer o nome para você porque nós conhecíamos a família, que nós nos reunimos na Igreja, a Igreja Ortodoxa, inclusive papai foi o que mais trabalhou para fazer essa igreja, ele trabalhou de corpo e alma. É quase em frente a entrada do Destra. Tinha a Escola Síria, no nosso tempo de criança. Estudei na Escola Síria. Ficava atrás da Catedral, é um prédio grande, não sei se ainda existe esse prédio, bem atrás. Assim na rua Amador Bueno. É uma escola normal, tinha português e tinha o árabe. Tinha o professor de árabe e a gente freqüentava os dois períodos. Era de manhã e de tarde, de manhã era o árabe e de tarde era o português.

LOJA
Mudança do centro para a orla Depois nós fomos para o Gonzaga, fomos morar na Rua Bernardino de Campos e lá papai montou uma loja, ele vendeu lá e montou uma loja na Euclides da Cunha, começou na Euclides da Cunha. Depois ele se estabeleceu onde estávamos antigamente, na Floriano Peixoto. A loja foi para o Gonzaga porque ali já estava pequeno, já estava ruim para morar porque já começou a misturar muito, como nós estávamos na fase de estudar e lá ele achava que era um pouco longe para ir para os outros colégios ele resolveu ir para o Gonzaga. Pensando na família. Papai tinha uma coisa que era maravilhoso, ele tinha muita visão pra frente, ele fez já aquilo e foi realmente um dos primeiros que fizeram comércio lá. Até aí não tinha nada. Aí ele diversificou bastante, eram meias, armarinhos, lãs, linhas, depois tecidos. Ampliou bastante. É porque não tinha lojas no Gonzaga, eram só pensões e bares, alguns restaurantes, inclusive tinha o Restaurante São Paulo, tinha o Trianon na esquina da Rua Marcílio Dias. O resto era tudo pensões e casas que alugavam bicicletas para levar para praia. A dificuldade foi do pessoal se adaptar e comprar ali em vez de ir para a cidade. A maioria morava naquela Rua Floriano Peixoto. Em cima eram as casas e nos porões é que eles alugavam para fazer esse tipo de aluguel de bicicleta, ou as lojas que já eram bares e restaurantes.

LOJA
Mudança do centro para a orla A loja já era uma loja aberta direitinho porque era na entrada do antigo mercado que tinha no Gonzaga, onde é agora é entrada do Mendes. Tinha um mercado. Mercado de frutas, peixes. Tinha também uma mercearia. Aí papai comprou uma casa do lado, umas três casas depois da loja que ele estava aí ele demoliu e fez a loja que estamos atualmente. No Gonzaga nós morávamos na Rua Bernardino de Campos. Depois é que passamos para a rua Pernambuco que era uma casa maior. Mas a loja foi sempre no mesmo lugar. LOJA Trabalho em família Continuamos trabalhando junto, depois fomos estudando, aí cada um começou a arrumar um serviço. Meu irmão, quando estávamos na Rua Bernardino de Campos, mamãe confeccionava camisas, naquela época. A gente que punha os ilhoses, passava, dobrava, ensacava. Então meus irmãos faziam tudo isso conosco. Eles saíam também para vender. Meu pai dava aquelas sacolinhas, falava: "Agora vocês vão vender, não quero nada de volta." E vendiam, tinha que vender. Quer dizer então que fomos acostumados a trabalhar juntos, sempre juntos. E todo mundo trabalhava. Mamãe confeccionava alguma peças também a mais. Ela sempre teve muita capacidade, sempre foi ombro a ombro com meu pai, coisa assim incomum.

SANTOS
Primeiras impressões de Santos Quando eu cheguei à Santos, eu me lembro que eu achava tudo interessante, tudo novidade para mim, mas quando nós fomos pela primeira vez na praia, aquilo ficou pra mim uma maravilha do mundo. Foi muito gostosa, a gente não via a hora de entrar na água. Eu sempre gostei muito de nadar, todos nós gostamos. Então a gente fazia de tudo para papai levar a gente passear no domingo na praia, a gente ficava o dia inteiro na praia. O mais gostoso. Ele falava "Vocês fazem tudo direitinho que vocês tem o passeio que vocês quiserem." Nós íamos para São Vicente, para Guarujá, para Bertioga.

LAZER
Clube do Pic-Nic Então por causa disso, nós fizemos um grupo de amizade depois de mocinhas e acabamos fazendo um clube de praia que é o Pic-nic Club, não sei se ainda existe, nós é que fundamos, porque nós fazíamos passeios, todo mês era um passeio que nós fazíamos em praias, ou era em Guarujá, ou era Bertioga, ou era Peruíbe, ou Itanhaém. Cada mês nós pegávamos o trem na Sorocabana às 6:00 da manhã, de tarde nós voltávamos as 6:00 da tarde. Era muito bom porque nós conhecíamos todas as praias. Aí saiu a idéia da gente fazer um clube numa barraca na praia. As reuniões eram na casa de papai, ele incentivava e ajudava, o dia da inauguração nós fizemos todas as comidas sírias, quibe, esfiha, tabule, vocês conhecem? Nós levamos para a praia, já tinha comprado a barraca e ali foi feita a inauguração. Participava todos amigos nossos, inclusive Esmeraldo Tarquínio que era amicíssimo de meus irmãos. Ele incentivava muito porque ele cantava mito bem, então a gente se reunia e ele cantava e nós ficávamos realmente esvaziados com ele, realmente era uma criatura excelente, não tem nem palavra que maravilha que era. Muitos outros que a gente até se perdeu. Rapazes e moças, os irmãos, os primos, os amigos. Assim nós formamos, foi muito bom. Cada um levava o sua sacolinha de comida, às vezes a gente pegava um restaurante, pedia para sentar na mesa para poder beber, a gente pagava a bebida e ele emprestava a mesa. Punha na mesa e cada um comia a comida do outro. As viagens que a gente fazia era risada do começo ao fim. De tanta amizade, íamos de trem, sempre de trem. Era muito gostoso. As praias eram mais desertas, a gente ia mesmo para conhecer as praias, então em Itanhaém nós conhecíamos tudo, Peruíbe. Tinha gente que tinha medo de andar de barca para ir de uma praia a outra, então a gente atravessava a linha do trem, pegando direitinho, pegando na mão uma da outra, muito bom. Nós tínhamos um círculo de amizades de amigos mesmo, sem segundas intenções mesmo. Era um grupo grande, parecia uma família só. A sede do Club do Pic-Nic era na casa de meu pai. As reuniões eram todas feitas lá e era na barraca da praia, no canal 2. A barraca continuou, acho que ainda existe na praia, é que cada um de nós tomou um rumo, um casou, outro mudou. Todos os rapazes que eram de nosso grupo foram se dispersando, quando casam já não vai mais, agora são novas pessoas que a gente nem conhece. É igual a essas barracas que tem na praia. Chamava Pic-Nic Clube, não sei se ainda existe, foi através dos pic-nics que nós fazíamos é que tivemos essa idéia. Porque nós íamos todo mês fazer um pic-nic numa praia, era sempre praia, depois a gente repetia as praias é lógico. Então daí que surgiu a idéia de por esse nome.

TRANSPORTES
Descrição dos trajetos dos bondes A rua da loja do Gonzaga não era asfaltada, eram paralelepípedos, depois é que asfaltaram. Na Floriano não tinha bonde, mas na praia tinha bonde, tinha o bonde 10 que o ponto final dele era na Praça da Independência, ele vinha pela Alexandre Herculano, vinha pela avenida, dava volta e voltava pra cidade no mesmo caminho e pegava a Conselheiro Nebias. Os outros que voltavam da cidade pegava a praia já. Seguia reto.

COMÉRCIO
Lojas do Gonzaga Outras lojas que começaram abrir no Gonzaga, que eu me lembro, junto com papai, tinha a Afonso Moreira, que abriu quase perto. Depois tinha uma casa de um senhor que logo em seguida ele montou uma loja lá, na mesma calçada nossa, a Afonso Moreira na esquina onde era até pouco tempo atrás, depois demorou para vir outras lojas, demorou. Fomos os pioneiros, foi mesmo. Essa loja era muito comprida, então nós tínhamos estoque de lãs e linhas que desde aquela época sempre compramos nos mesmos fornecedores: Pingüim, Corrente, Santista. Éramos bem abastecidos com essa parte porque gostávamos. Depois começou a aparecer mais algumas lojas pequenas, tinha um empório muito bom. Aí foi aumentando. Depois veio o Marx, veio a Pernambucana depois de muito tempo, a Tecelagem Francesa e mais algumas lojas de confecção fina que tinha ali muito boa, depois eles passaram para o shopping. Assim foi aumentando, foi crescendo, o Gonzaga, tinha a Ita que era uma loja muito boa de calçados, tamancos e sandálias. Essa casa era maravilhosa, ficava na mesma quadra, no mesmo pedaço que nós tínhamos a loja, era um porão. Um senhor português que tinha três filhos homens, e ele que fabricava os tamancos, na época da Carmem Miranda ele fazia igual o dela, banlangandã, altos com aqueles buracos, ele fazia tudinho. Depois que eles passaram para a Rua Floriano Peixoto, eles estavam na Rua Marcilio Dias, é que eles começaram a se dedicar em sandalinhas, chinelinhos, muito, muito, muito boas. O movimento deles era fora de série, precisava às vezes chamar um segurança, de tanta clientela. Eles eram muito bons. Gente correta, gente que fazia o serviço bem feito, eles é que faziam. Você comprava uma sandália deles, durava a vida inteira. Agora você compra dura um mês. Então o serviço deles era bem feito.

TURISMO E HOTELARIA
Alta temporada em Santos e o reflexo no comércio A temporada daqui de Santos naquela época, foi a temporada mais maravilhosa que nós já tivemos, era gente que vinha para gastar. Década de 50, por aí. Gente que vinha para gastar mesmo, então as lojas tinham que chamar gente para ajudar, mesmo nós, depois que eu casei fui morar em São Carlos, às vezes eu vinha de férias com as crianças, eu tinha que vir ajudar meu pai na loja de novo, porque o movimento era muito grande. O pessoal que vinha de fora ficava em pensões, em casas, eles alugavam casas. Tinha muita casa para alugar para temporada. Enchia a Floriano, a Euclides da Cunha, todas as ruas próximas à praia, todo mundo alugava as casas. Depois é que começou a ser construído os apartamentos que foi acabando as pensões. Tinha muita pensão. Todo mundo que tinha uma casa grande já fazia uma pensão. Então tinha uma em seguida da outra. Eram pensões muito boas. Tinha portugueses, espanhóis e tinha italianos.Mais eram mais portugueses e espanhóis. Tinha uma pensão de uma senhora italiana muito boa, tudo lá perto da loja, depois foram se ramificando mais.

CASAMENTO
Casamento e mudança para São Carlos Eu casei em 51. Conheci meu marido em São Paulo numa festa. Ficamos namorando, era muito assim certinho, depois casamos e fomos morar em São Paulo. Fiquei morando em São Paulo dois meses, apareceu uma oportunidade boa em São Carlos e nós fomos para lá. Era comerciante também. Era mais roupa de homens, camisas, cuecas, calças. A loja era em São Paulo, aí ele não quis mais e nós fomos para São Carlos. Trabalhar com padaria. Meu marido se chamava James Weatherby, era canadense, descendente de árabe. Na padaria, Foi ótimo. Não, só ficava no caixa. Ele ficava na padaria, organizando e controlando os padeiros, foi muito bom. É, depois que as crianças ficaram um pouquinho maiores, aí eu abri um atelier de alta costura e dava aula também de corte e costura. Lá em São Carlos. Aqui em Santos também, antes de casar, eu já tinha uma escola.

SERVIÇOS
Escola de Corte e Costura Eu ensinava a cortar, a confeccionar a roupa, bordar, os vestidos que precisavam ser feitos com pedraria, com nervurinhas, com florzinhas de aplicação, um tempinho gostoso. Eu tive alunas de 50, 60 anos naquela época, nunca tinham costurado. Um dia uma delas falou: "Eu tenho vergonha de entrar porque só tem mocinhas." "Não, agora que a senhora tem que entrar mesmo porque as mocinhas tem que ver que elas tem que se esforçar mais, tem um exemplo na frente. Realmente deu tudo certo. Sempre foi assim, desde meninotas de 14, 15 anos até senhoras. Tive problemas com algumas alunas que não queriam estudar porque elas não gostavam mas que as mães obrigavam. Então me dava trabalho. Olha, na verdade não tinha ponto mais difícil e como elas tinham que começar pelo princípio, que era o ponto de haste, depois ia preparando para o ponto daquelas bainhas desfiadas, ponto rococó, fazer o recheio do ponto cheio. Depois eu fiz um curso especializado com uma ilhôa para fazer aqueles bordados da Ilha da Madeira, que eu ainda tenho até hoje. Fiz esses curso aqui em Santos, com uma ilhôa mesmo, do Morro São Bento.

EDUCAÇÃO
Estudos com a professora de Corte e Costura Ela que descia quando ela ia pra cidade, ela preferia vir em casa. Papai adorou porque ele gostava que todos os professores fossem em casa. Minhas irmãs, eu tenho uma irmã que é uma artista de pintura sobre tela, uma delas foi professora de línguas, agora está aposentada. Cada uma tinha a sua aptidão. A mais nova ajudou muito meu pai na loja, na época que eu casei.

SERVIÇOS
Escola de Corte e Costura No meu curso, por vez, eu só pegava 10, 12 alunas no máximo porque eu tinha que dar atenção à todas, segundo a sala não comportava mais que isso. Era na casa de meu pai. Tinha uma sala grande então era tudo lá. As aulas duravam duas horas e meia. O curso todo? Era um ano. Agora quem queria se aperfeiçoar mais, então fazia mais tempo, 6 meses, 3 meses, como ela quisesse. Eu fazia a preparação para ela. O pessoal procurava pra fazer roupa.

EDUCAÇÃO
Estudos de Corte de Costura A moda era boa porque naquela época eu assinava a Revista Vogue, direto de lá da França, eu trazia a revista, dava pra elas olharem para elas escolherem fazer o que elas quisessem. Elas faziam. Quando eu era mais novinha eu não gostava de costurar, minha mãe sempre costurava. Eu ajudava ela a rematar, passar, mas não queria costurar. De repente, foi mesmo um repente, isso foi em outubro, falei para meu pai e minha mãe: "Eu quero aprender a costurar." "Mas agora é fim de ano." "Não faz mal." Papai passou para ir para a cidade de carro e viu uma casa lá "Escola de Corte e Costura". A professora falou que dali um mês meio já estaria encerrando. "Não faz mal, eu quero assim mesmo." Ela me matriculou e fui. Em dezembro nós estávamos nos formando. Fiz meu vestido de formatura. Quando foi em janeiro ela falou pra mim: "Porque você não faz o curso de professora?" Mas como é esse curso?" ela me explicou. Passei o mês de janeiro todinho estudando, fevereiro começava, dia 3 de fevereiro tinha o primeiro exame em São Paulo, na Superintendência de Ensino, naquela época tinha a Escola Prática de Confecções Femininas tinha o Dr. Pedro Crescente, era muito amigo de meu pai, ele falou: "Deixa sua filha por minha conta, eu vou fazer a inscrição dela em São Paulo." Eu fui para São Paulo. Fiz a primeira prova, foi quase o mês todo, eram duas vezes por semana, cada dia era uma matéria. Chegou no fim do mês, o Dr. Pedro Crescente falou: "Você não se preocupe, eu vejo o resultado para você e ligo para seu pai." Ligou para o meu pai: "Sua filha foi aprovada em terceiro lugar." Ele não acreditou. "Agora você vai deixar ela dar aula para mim lá na Escola Prática de Confecções Femininas" "Não." "Então como o senhor vai fazer, vai ter que abrir uma escola para ela." Meu pai perguntou: "Você quer?" "Quero." Ele abriu. Ele fez a inscrição em São Paulo, registrou e assim eu fui, embalei.

CONSUMIDOR
Clientes para costura Nunca gostei de costura acabei gostando demais, que até hoje, de noite eu tenho que ter uma costura na minha mão. Eu tinha tanta cliente que eu podia escolher quem eu quisesse. Eu tinha clientes que diziam: "Eu não entendo como você dá conta de tudo, você dá aula, você cuida de seus filhos, cuida da casa, costura. O que você faz?" "Eu sei o que eu faço, mas como eu faço sé eu é que sei."

MODA
Vestidos de noiva Olha, vestido de noiva não tinha muita diferença de agora, só que algumas pessoas gostavam de tule, trabalhado em tule, tinha muito vestido fino, pouca coisa difere, eu tenho figurinos daquela época, não tem muita, muita diferença. Vestido de noiva...

FUNCIONÁRIOS
Equipe de profissionais para confeccionar 15 vestidos por semana Eu tinha uma equipe de profissionais lá, no interior é mais fácil de você arranjar um profissional bom. Eu tinha uma para cada serviço. Na segunda-feira eu tirava o dia só para cortar, eu fazia 15, 16, 12 vestidos por semana, trabalhados. Então só cortava. Eu tinha uma que eu cortava um, ela já ia montando, isso ela fazia com perfeição. Na terça-feira ela ficava o dia inteiro ligando para as clientes. A primeira cliente que chegasse que experimentasse o vestido, já passava para a outra para passar na máquina, passando o serviço para as outras, arremate, chuleado, bainha, aquelas coisas todas, cada uma fazia uma coisa. Tinha uma só para bordar junto comigo. Então pegava esses bem trabalhados como está usando novamente, aliás esses aí sempre usou, teve uma época que caiu um pouquinho, mas o bordado na verdade, não sai de moda. Eram vestidos bem trabalhados, bem bordados. MODA Uso de diferentes padronagens de tecidos de acordo com a época Usava muito colorido, tinha épocas que era muito vermelho, amarelo, azul, mas o normal era aquele clássico que as cores eram normais, branco e preto, beje, caqui, marinho, marinho com branco, varia um pouquinho. Agora está voltando os coloridos, isso é fase. Isso vai e volta, aqueles estampados grandões, depois estampados miudinhos. Isso é sempre igual, passa de uma época para outra, mas volta a mesma coisa, não tem novidade nenhuma. Agora não tem mais novidade. MODA Dificuldades para costurar mantô e tailleur O mais difícil e trabalhoso é o mantô e o tailleur, também fiz um curso especializado em São Paulo só de mantôs e tailleurs, seis meses de curso. Fazia um casaco todo costurado a mão, a lapela todinha, todinha a mão. Sabe, me aprofundei, então fui fazendo um curso atrás do outro. Mais fácil é uma sainha e uma blusinha.

MIGRAÇÃO
Mudança de São Carlos para Santos Em São Carlos eu devo ter ficado mais ou menos até 68, 69, por aí. Depois vim para cá. O meu caçulinha nasceu aqui, o resto tudo nasceu em São Carlos. Vim para Santos porque foi assim: eu era muito responsável com meu trabalho, eu não admitia prometer para uma cliente que ela pediu o vestido para tal dia e tal hora, e ele não tivesse pronto, então quando eu via que estava muito atrasado, eu varava a noite para quando chegasse na hora ele tivesse prontinho, passadinho e tudo. Então eu fiquei muito esgotada, no ponto que me deu um negócio lá, minha língua quase enrolou, fiquei ruim. O médico só saiu da minha cabeceira a hora que eu conversei com ele, ficou mais de duas horas lá sentado conversando comigo esperando que eu respondesse. Então eu fiquei estressada, esgotada mesmo, e ele me proibiu de costurar. Eu tinha um caderno tudo relacionadinho, quando a freguesa vinha: "Eu queria para tal dia." "Só um minutinho que eu vou ver se posso." Eu marcava. Eu não admitia deixar elas sem ser atendida, mesmo se ela não tivesse compromisso, quanto mais tendo, né. Quantas vezes eu varava a noite para poder dar conta e chegar na hora e deixar a freguesa voltar, nunca fiz isso. Eu cheguei ao ponto de só pegar a alta sociedade, uma não queria que a outra soubesse que eu costurava para ela, de medo que eu não fizesse mais para ela. "Esse medo você não vai ter." "Não fale para ninguém." Não precisava falar, elas mesmas acabavam falando. Elas mesmas que faziam a propaganda. Isso foi que me esgotou, e eu fiquei muito tempo sem fazer nada. Aí eu resolvi voltar. Meu pai falou: "Vem para cá, assim você descansa." Depois, as crianças eram menores, eu me estressei muito.

TRABALHO
Re-adaptação do trabalho, na loja do pai Até os 14, 15 anos eles estavam em São Carlos ainda, depois aqui. É, o caçulinha que nasceu em Santos. Quando eu voltei, eu já fiquei na loja. As minhas freguesas vinham de São Carlos para cá para eu costurar, no começo. Depois elas mesmo perceberam que não dava mais. O que eu fazia, eu já vendia pronto na loja. É, eu tinha espaço bastante no fundo da loja e montei uma oficina, fazia lá e já vendia pronto. Quando elas começaram a pedir que eu costurasse, eu parei com essa parte porque eu achei que não ia dar mais conta de ter minha palavra.

PRODUTOS
Controle de estoque Aí eu continuei a trabalhar na loja com papai. No atendimento, o controle de estoque, preparei muita gente para controlar aquele estoque maravilhoso. Papai tinha uns cadernos desse tamanho assim, todo trabalhadinho. Ele já comprava assim, ele mesmo desenhou e mandou fazer. Então tinha: um exemplo - o zipper, tinha de 10 cm a 60 cm. Então em cima tinha a numeração dos tamanhos e do lado as cores. Para controlar aquilo não era fácil. E a linha então, pior ainda. Também tinha que ter esse controle. Então eu tinha uns garotos que eu preparava e ficava sempre atrás deles para controlar o estoque, porque a gente fazia pedido através do estoque. Linha, lã, era uma coisa trabalhosa.

FUNCIONÁRIOS
Treinamento de funcionários Até aconteceu um fato curioso, não faz muito tempo: eu estava na loja aqui na galeria e veio um rapaz bem arrumado, todo chic. "Dona Henrietta, eu sou o fulano de tal" "O primeiro emprego que eu tive foi na sua loja, a senhora me ensinou a fazer aquele controle de estoque que nunca mais esqueci na minha vida, e hoje eu estou bem de vida por causa disso." Aí ele começou a me contar a trajetória dele todinha, eu até chorei aquele dia de emoção de ver aquela criatura maravilhosa que se fez porque gravou uma coisa que eu tinha ensinado, porque eu também exigia: "Ou você trabalha direitinho como se deve ou se você não gostar, ou achar que não tem condições, você fala, porque eu não quero ninguém trabalhando aqui sem vontade." E ele sempre foi muito bom, muito correto o menino, aprendeu tudo direitinho. Ele me disse aquilo "Hoje eu sou o que sou por causa daquilo." Ele trabalha numa firma muito grande, veio pela firma, estava no Mendes e aí fez questão de me procurar, eu estava na outra loja, ele soube que eu estava ali. Eu fiquei até emocionada. A gente encontra muitas funcionárias, agora, há poucos dias, numa casa que abriu nova, uma casa de toalhas que veio de São Paulo. Ela veio me abraçar "Dona Henrietta, está boa?" "Acho que essa moça foi minha funcionária." "Lembra que eu fui sua funcionária, foi meu primeiro emprego." Ela me contou que ela trabalhou em tantos lugares que toda loja que ela entrava ela falava "Eu não acreditou que esse povo todo é tão desorganizado" ela sempre falava de mim para as colegas dela, que eu ensinava a fazer tudo direitinho e que ela aprendeu tudo direitinho. Que bom que a gente encontra gente que reconhece porque a gente faz com tanto amor. Todo negócio, qualquer que seja, tem que ter organização, se não tiver é ruim.

PRODUTOS
Mudança na qualidade dos produtos Hoje mudou muito porque as coisas mudaram tanto. Por exemplo, os produtos não, são os mesmos fabricantes. Um ou outro. Nós trabalhávamos com lingerie, maiôs, biquinis na loja grande. Então tínhamos fábricas muito boas, tem outras que nem existe mais. Lãs têm muitas que não existe mais. Então o que estragou a produção de toda e qualquer mercadoria foi na época que o Sarney fez o congelamento. Então os fabricantes queriam vender pelo mesmo preço, não podiam aumentar, então o que eles fizeram? Diminuíram a qualidade. Tudo se deteriorou. O viés por exemplo era feito com cambraia, passou a ser feito com amorim, você pega a tira do viés, parece uma peneira e assim por diante. As rendas, os bordados; os bordados eram bem feitos, bem caprichados, agora é um bordado que a gente tem até dó e não volta mais os bordados bons. Depois que eles se acostumaram com esse sistema, só você comprando o importado. Então o que eu fiz, comecei a comprar o importado para poder vender. A diferença é da água para o vinho. Tudo ficou pior, tudo, porque eles não podiam aumentar mas queriam ganhar e nós os lojistas é que ficaram na pior porque você tinha que vender e os clientes falavam: "Que porcaria de mercadoria." A gente vai falar o que? Isso fez uma diferença muito grande, houve uma diferença muito grande. MODA Bordados em ponto cruz Teve uma época que ficou bem parada, mas agora o pessoal entrou com tudo. Estão trabalhando, bordando mesmo. Até crianças estão bordando, meninas novas ficam encantada de vê-las vir comprar as linhas, agora entrou com tudo. Bordados em ponto de cruz, bordados em pedrarias, bijuterias, nossa crianças de 7 ou 8 anos já fazem anelzinho, colarzinho, pulserinha para vender na escola. Então elas que vem escolher, que vem comprar. Escolhem as cores, o pai vem, a mãe vem, elas ficam escolhendo. Teve uma época que não tinha quase trabalho, era difícil, era mais tricô e crochê e olhe lá ainda. Nós tínhamos no fundo da loja, um salão muito grande que nós dávamos aulas de tricô e crochê. As professoras vinham da Pingüim e da Corrente, da Santista. Era um grupo muito grande, era um salão enorme, então elas ficavam a tarde inteira lá, não tinha horário, só começava às 2:00 mas ia até as tantas, porque elas chegavam lá, faziam amizade, não queriam ir embora. LOJA Espaço para cursos para a clientela ou atendimento personalizado Eu não tenho mais espaço para esse tipo de atividade. Se eu tivesse bem que eu tinha. Mas eu dou aula para os meus clientes ali na hora: "Ah, eu queria tanto fazer um negócio desse, mas eu não sei fazer." "Mas porque você não sabe?" "Eu não tenho quem me ensine," "Você quer fazer? Escolhe o que você quer, compra aí que eu te ensino." Aí ela fica parada num cantinho eu dou umas aulinhas para ela, fica toda feliz. "Se eu não acertar?" "Pode vir." Eu ensinei duas funcionárias minhas, então quando eu não estou elas mesmo pegam as freguesas. Olha, eu já cortei até molde para as freguesas na loja, elas querem fazer uma fantasia, uma roupa numa emergência: "Escolhe ali o tecido que eu te ensino fazer." "Mas eu não sei fazer, eu não sei cortar." Aí eu faço o molde para ela, às vezes eu até corto no balcão quando não tem muita gente. "Se você tiver dificuldade, você volte aqui." Hoje está no auge, bordado, tricô, crochê. Tricô caiu um pouco, crochê está muito em evidencia.

CONSUMIDOR
Perfil do consumidor A maioria de minhas clientes são mulheres, mas tenho clientes homens também. Mas eu tenho clientes do tempo de meu pai ainda. São fiéis a nós. Uma coisa muito interessante: quando nós passamos o aviamento para cá, porque lá já estava ficando muito pequeno devido ao movimento de confecções que nós estávamos pondo na loja. Então nós pusemos o aviamento lá e a outra continuou. A freguesa passava, uma dizia para a outra: "Uma loja nova aqui." E ia reto, naco entrava. Ela vinha de volta e falava para as outras "Abriu uma loja nova", mas não entravam. A gente escutava. Elas iam direto na loja, lá ainda tinha alguma coisa de aviamento. "Agora, tudo que a senhora quer está lá na galeria." "Bem que eu passei lá, mas não entrei, queria a Original", foi até engraçado. Ao mesmo tempo a gente feliz em saber que elas são fiéis à nossa, como de fato elas são até hoje. Nós somos felizes por isso, pela clientela porque isso é a coisa que mais deixa a gente bem porque cliente, ou você tem cliente para sempre ou você não tem cliente. Então a gente faz o possível e o impossível para ela não sair sem comprar nada. Na hora eu falo: "Deixa que eu vou mandar buscar, amanhã cedinho você vem buscar." Meu filho vai e trás. Então a gente se esforça para isso para conservar o cliente bom. E eles são todos bons, uma ou outra que tem problema, mas isso é em qualquer lugar.

COMÉRCIO
Mudança de loja de rua para galeria e a concorrência A confecção já era lá onde tinha o armarinho, depois é que separou. Ter ido para a Galeria, para nós não houve muita diferença porque ela não é dentro da Galeria, ela é na ponta da Galeria, então isso ajudou muito, se ela fosse no meio seria difícil. Depende do lugar, aviamento é meio complicado, você vê que em volta já abriu uma porção de casa de aviamento, inclusive a Pernambucana no tempo do papai. O pessoal dizia que ele tinha um concorrente. "Deixa ele." Quando abriu, só vendia tecido, a Pernambucana. Nós já vendíamos tecido também. Papai dizia: "Eu não me preocupo porque o tecido que eles tem é diferente do meu, não estou preocupado." O nosso era tecidos finos para roupas de festas, tecidos finos mesmo, do tipo da Tecelagem Francesa, e o deles eram tecidos populares, praticamente. Aí eles puseram aviamento, para nós não alterou nada, nem um pouco. Logo em seguida abriu uma loja perto da nossa que era um funcionário da Afonso Moreira que abriu, onde agora é a Bahia, abriu aquela loja enorme de aviamentos. Ele falou para nós: "Vocês não se preocupem, quanto mais loja abrir melhor, aí o movimento é maior. Aí quando não tem aqui vai lá, quando não tem lá vem aqui. Melhora." Não demorou muito ele pôs brinquedos, açougue, supermercado, separava as sessões. Conclusão: acabou com o armarinho. Armarinho tem uma coisa muito importante: ou você tem para vender ou você não tem. Porque o freguês vem quer uma coisa, não tem; quer uma linha de tal cor, não tem, quer um zipper; quer uma renda boa, não tem; quer uma fita de uma determinada largura, não tem; então o que ele tem, não tem nada. Então com tudo que nós temos uma freguesa falou assim, não foi para mim: "Puxa caramba, aqui não tem nada que eu quero, que pobreza." Eu falei para a vendedora: "Você não responde, deixa ela falar." Por isso que eu digo tem pessoas e pessoas. Coincidentemente ela pediu três zippers que não tinha a cor, a fita tinha, não tinha a tonalidade do pano que ela estava com ele, quer dizer... acontece.

PRODUTOS
Produtos comercializados na loja hoje Hoje é só tecidos, só tecidos. Agora os tecidos são mais para trabalhos manuais e forros, temos de tudo. Colocamos botão de pressão, só não fazemos casas, fazemos botão forrado porque isso a gente sempre fez, então nós temos a maquininha e tudo, nós fazemos. Essa parte aqui nós continuamos sempre igual. PAGAMENTO Forma de pagamento Em geral, o pagamento é a vista, não temos crediário, porque o que a gente vende nem é para crediário, é claro que uma cliente antiga às vezes quer pagar em duas vezes por qualquer razão, que não é sempre, então a gente dá uma facilitada, mas é difícil. Promoções eu sempre faço. Nas lãs, nas toalhas porque nós temos que ter as toalhas para bordar, temos toalhas de mesa também que também é para bordar. Então de vez em quando nós fazemos uma promoção nessa parte, em lãs. Às vezes, a gente compra lãs só pra fazer promoção, não que ela seja de venda direta. A gente compra pra isso, ajuda.

FILHOS
Atividade profissional dos filhos Só tenho um que trabalha comigo e minha filha, essa que me trouxe aqui. Mas meus outros filhos moram tudo em Ribeirão Preto. Trabalham, tem uma cantina. Minha filha é casada com um dono de uma pizzaria.

VIDA ATUAL
Praticamente não mudou muito o comércio hoje. Minha principal atividade continua sendo o comércio. Mas à noite eu sento bordo e costuro, de manhã cuido da casa e da comidinha. Compras para a loja Compras pessoais? Isso eu não sou muito ligada, mas eu faço, fazia muito no Marx, era freguesa dele há muito tempo, na Zanza, Casa de Calçados naquela ruazinha curta perto da Rua Goitacazes. Gosto de fazer compras da loja. Eu vou para São Paulo. Agora tem muito vendedor que não tem condições de a gente ir, para atender clientela que quer determinado artigo que a gente não tem na hora, então eu vou buscar lá. Eu compro aviamentos e pedrarias também do Rio, coisas finas, importadas.

AVALIAÇÃO
Lições de comércio Olha, acho que não mudaria nada na minha vida. As lições de comércio que eu tirei foi a dedicação mesmo, a pontualidade e a honestidade porque é o que mais valoriza a pessoa, o que eu ensino para todos, até para os meus funcionários. O comércio é tudo. Meus filhos brigam para eu não ir: "Vocês querem que eu fique doente, eu não vou." Não adianta, a gente pega tanto amor que não tem como. Não faria outra coisa. Sair para passear, para viajar, não ligo para isso. Eles ficam bravos comigo.

COMÉRCIO
Perfil do consumidor santista É realmente aqui em Santos o comércio está difícil mesmo para tudo, então a dificuldade também, eu ouço lá na loja, elas às vezes elas chegam e falam: "Tem tal coisa?" Aí eu ouço elas falarem: "Vamos para São Paulo, a gente compra tudo lá." Então não ajuda o comércio santista, nem o santista mesmo não ajuda o comércio santista. É que a gente já tem aquela clientela que já é tradicional, então não depende de temporada. Antigamente sim, antigamente a gente não via a hora de chegar a temporada que era a época que a gente mais trabalhava, mas agora não, o pessoal quando vem de fora para a temporada, vem só para especular, não gasta, nem na comida porque já trazem tudo. Antigamente eles compravam tudo aqui, agora nem isso. Então o comércio de Santos está muito a desejar, não tem incentivo, eu não sei explicar para você qual a razão desse desincentivo. Caiu muito, aquela época boa de turista vir para cá e gastar, não gasta. Entra um bando de 10 pessoas, que passa por fora fala que a loja está cheia, não é para comprar, é só para especular, pra fazer hora. Meu vizinho em frente fica doido, elas mexem em tudo e não levam nada. Eu vejo por isso, ele fica bravo que só vendo. O pessoal da Galeria também comenta. Temporada não é o movimento da cidade. O movimento é na praia.

SANTOS
Mercado Imobiliário Não, muita gente comprou apartamento para passar férias. Então foi acabando as pensões e as casas que o pessoal alugava, isso acabou. Mas o pessoal que vem para o apartamento, eles já trazem tudo de lá, então eles não gastam nada aqui. A cidade, a parte comercial não evoluiu muito, ao contrário, piorou. Hoje tem muita gente morando, mas não são famílias, são casais já com idade que querem sair do movimento de São Paulo ou de outra cidade.

AVALIAÇÃO
Comércio hoje Eu acho que a coisa mais importante que tinha que ter, para começar são os impostos que são caríssimos, então isso acaba com qualquer comerciante. Outra coisa que está difícil também, o que está fechando de casa, não é por falta de movimento em si, é o preço dos aluguéis. Então eu conheço muitos comerciantes que fecharam porque não agüentaram pagar os aluguéis. Às vezes você quer mudar de loja por qualquer razão, eles pedem uma luva que não existe na lei, mas que se você não pagar você não consegue a loja. E não dá para pagar porque é caro demais. O que acontece, a pessoa deixa de trabalhar, tem que se virar de outra maneira. O comércio está ruim por causa disso também, uma das razões. Na verdade não há incentivo. Elas vão para lá, elas esquecem que indo para lá elas estão gastando gasolina, está pagando comida lá porque tem que comer. Tem despesa, mas ela não pensa nessa despesa ela só acha que vai para lá e assim não deixa o dinheiro aqui em Santos. Então atrapalha muita gente mesmo, com isso você vê como está o Gonzaga, antigamente era uma maravilha, tinham lojas muito boas, hoje em dia você só vê lojinhas de mercado. Já andaram na Floriano? Dá até dó. Nossa clientela antiga fala: "Eu tenho tanta dó de ver aquela rua daquele jeito." "Nós também, mas fazer o quê?" Se eles cobrassem um aluguel um pouco menor, ou se eles tem um inquilino bom, que paga bem, conserva esse inquilino, aumenta um pouquinho só, dá uma chance, faz qualquer coisa para ficar aquela casa aberta. Quanta gente que nós conhecemos que estão trabalhando dentro de casa, ou estão trabalhando na rua com outro serviço para poder sobreviver porque não tem como ficar numa loja, e gente boa, não é gente desonesta não. "Ah, deixou tal loja." Vai saber... a gente está sabendo como são as coisas. Então é difícil.

LOJA
Só tenho essa loja, a outra passou lá pra Terra Flor, na Campos Mello, aquela que tinha as confecções, as oficinas, passou para lá. Ela ainda existe, é do meu irmão. Só malharia. Eles estão bem alicerçados.

FAMÍLIA
Atividades mais importantes do pai Agora das atividades de papai, é como meu pai falou, ele fez aquela escola Síria, ajudou na igreja, trabalhou muito pela cidade, foi condecorado com um dos mais antigos comerciantes da cidade, isso depois de falecido. Então ele sempre, sempre, ele nós ensinou, a gente tem sempre que ser patriotas porque nós temos que lutar pelo que é nosso, pela nossa cidade que a gente mora. Ele se naturalizou brasileiro, minha mãe também porque ele fazia questão que a gente fosse muito patriota e que lutasse pelo país. isso é a coisa mais maravilhosa que a gente recebeu. A gente tem saudades desse tempo.

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