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História

Tenho quase tudo!

História de: José Benedito da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Mudança para São Paulo. Volta para Taubaté. Descrição da mãe. Diferentes moradias. Trabalho como pedreiro. Início na Feira da Breganha. Comércio de Santos. Venda de antiguidades. Coisas da Breganha. Família. Filhos.

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História completa



IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é José Benedito da Silva, apelido de Zé Biano, nascido em Taubaté aos 28 de maio de 1927.

FAMÍLIA
Meu pai é falecido, minha mãe também faleceu. O meu padrasto era do interior de São Paulo e a minha mãe é de São Luís. Meus avós, acredito que eram lá de São Luís, São Luís do Paraitinga. Nasci em Taubaté, no Hospital Santa Isabel, no capim - naquele tempo colchão era só de capim. O meu padrasto fazia figuinha, figa. É um troço assim, feito de madeira, de osso, de chifre, e vendia na feira em São Paulo, que morava lá na Quarta Parada, quando eu era criança.

MIGRAÇÃO
Morei em São Paulo. Fui daqui criança e fui morar em São Paulo. Vim pra cá com aproximadamente quinze anos, pra conhecer a minha terra. Viemos pra cá porque São Paulo não estava dando muito lucro. O padrasto, a minha mãe brigou com ele. Então, como ela era de São Luís, ela veio embora pra cá e trouxe eu. Lá ela separou do meu padrasto.

INFÂNCIA
Da minha infância em São Paulo, eu lembro mais ou menos, eu lembro alguma coisa: a sova que eu tomei - isso a gente não esquece. Lembro que carreguei cesta na feira, com nove, dez anos eu carregava cesta na feira. Nós morávamos na Quarta Parada, e depois fomos morar na Penha. Minha mãe era meio andarilha também, ela separava e ia pros cantos que ela cismava. Então ela veio aqui pra Taubaté.

CIDADES
Taubaté Taubaté, quando eu cheguei, naquele tempo, nossa Era uma coisa muito diferente, muito, muito diferente, porque mesmo lá no mercado - que hoje eu vendo no mercado, vendo na feira da Breganha há 52, 53, 54 anos mais ou menos, então eu comecei a vender lá com vinte, 22 anos - aquela parte dali, pra cá do mercado, era tudo mato, tinha um rio aberto. Tinha um joguinho de dado lá no mercado, e a coisa era muito diferente. Lá naquele pátio que tem hoje a Breganha era pra fora da terra. Isso eu lembro de Taubaté, e onde eu moro hoje, eu não morava lá, eu morava num outro canto, onde eu moro hoje, por exemplo, era um barrão, em todos os lugares era um barreiro.

MORADIA
Eu morava, nessa primeira vez, numa vila na rua Humaitá. Minha casa era um pardieiro. Era um cômodo, morava eu e a minha mãe. Ela trabalhava de doméstica e eu ia pro mercado, ajudar aquelas pessoas, aquelas senhoras, a carregar a cesta, pra ganhar um trocadinho pra ajudar a minha mãe.

TRABALHO
Depois eu fui trabalhar de servente de pedreiro. Mas antes de trabalhar de servente de pedreiro, eu estava jogando bolinha na rua, então passou uma pessoa que trabalhava na [Companhia de] Juta, um moço chamado Coelho, então ele convidou eu se queria trabalhar na Juta, porque tinha muito serviço, e tinha um escasso de pessoas que trabalhassem, aí eu fui trabalhar na Juta. Trabalhei na Juta um punhadinho de tempo. Depois, na Juta, eu casei, arrumei uma mulher lá. Com dezoito anos, mais ou menos, casei. Depois disso tudo, eu fui trabalhar na Predial, de servente de pedreiro. Naquele tempo não tinha esse negócio de carteira assinada. Naquele tempo trabalhava no deus-dará, se caísse, azar seu. Não tinha nada disso, não. Era um servente pra três, quatro pedreiros; hoje é três, quatro serventes pra um pedreiro. Naquele tempo trabalhava mesmo, não era brincadeira não, e eu era meio fortinho. Depois fui trabalhar de ajudante de caminhão, aprendi a dirigir. A fábrica de juta era naquele local mesmo que está até hoje. Eu entrava às cinco da manhã - às vezes fazia serão, trabalhava até às dez, porque a gente ganhava por produção. Então, às vezes não dava a produção, tinha que ir até às dez horas, tinha que fazer umas peças de pano pra receber mais. Aí eu já era casado, eu casei na Juta.

JUVENTUDE
Antes de casar era aquela coisa: andava perambulando porque só tinha mãe, não tinha pai, o padrasto ficou em São Paulo, então perambulava, às vezes trabalhava, às vezes não trabalhava, às vezes ia roubar fruta na chácara. Era a realidade. Naquele tempo, a vida era muito gostosa, porque tudo que a gente fazia não tinha censura, hoje que é essa censura. A gente ia tomar banho nos rios, a gente juntava uma porção de gente e ia tomar banho nos rios. A gente ia passando: “Ô, você não recolhe essa areia pra mim?”, a gente ia lá e recolhia a areia. Às vezes comia a troco da areia. Era assim, era fantástica a vida. Hoje que é essa “periguesa”.

TRABALHO
Felizmente, sempre trabalhei, porque eu não tinha vício. Eu não tinha vício de drogas. Roubava fruta, às vezes, na chácara. Não era roubado, era que estava sobrando e a gente subia no pé e pegava.

FAMÍLIA
A minha mãe trabalhava em casa de família. Ela era doméstica, então ela pagava o quartinho que nós morávamos. Depois virou de cabeça, começou a arrumar homem, daí eu fiquei macho com aquilo e saí da minha casa. Acho que saí da minha casa com uns dezoito pra dezenove anos. Saí da minha casa por causa da minha mãe ser desse jeito. Mas antes disso tudo - tinha uns problemas naquele tempo, porque as mães, às vezes, não respeitavam muito os filhos. Aí eu fui morar sozinho, eu e mais um rapaz chamado Ney, nós alugamos um quarto e nós fazíamos a comida. Cozinhava feijão, pegava um quadrado de carne seca e punha lá dentro; pegava macarrão e punha lá dentro. Era aquilo que nós comíamos.

TRABALHO
Depois voltei pra casa da minha mãe, porque eu falei pra ela: “Esse negócio está errado”, “Então você tem que trabalhar, ficar num serviço definitivo”. E eu fui trabalhar de carroceiro, pegando lenha, e depois passei a vender na Breganha. Aí já tinha uns vinte anos, mais ou menos. Minha mãe tinha umas panelas de ferro, uns ferrinhos de passar roupa, umas máquinas, umas botinas daquelas que amarram - tem uma coisinha assim e amarra - e era do meu padrasto, que ela guardou. Então comecei na Breganha.

COMÉRCIO
A Breganha era raro demais: só tinha cinco, seis pessoas, e era tudo antigo. Hoje você vai na Breganha, Nossa Senhora Naquele tempo era cinco, seis pessoas que pegavam as coisas da casa deles, antigas, e traziam pra vender. Eu fui fazendo isso, fui acostumando com isso. Já existia a Breganha há muito tempo. Sei que começou na porta da igreja, sei que lá trocava relógio, depois passou lá pra baixo e de lá o prefeito passou pra outro lugar. Depois dessas panelas eu comecei a vender gibi, porque não tinha mais panela, não tinha mais o que vender, comecei logo a comprar gibi, vender gibi, aqueles [de] nudismo que existia antigamente. Eram umas revistas de mulher pelada, mas não é igual a essa Playboy não. Era - existe ainda - umas revistas de nudismo. A Breganha, parece, era a semana inteira, porque era fora da igreja, então vinham as pessoas com relógio de bolso, trocavam pelos de pulso. A regra era a base de troca, com volta - toda a vida foi assim, nunca há breganha com breganha. Só se a peça que a pessoa der for mais cara que a da gente, que a gente quer levar vantagem, é claro, todos querem levar vantagem, então a breganha é assim: eu lhe dou esse papel, você me dá dois, aí está feita a breganha. Você que é a interessada, eu já estou com o papel, você que interessa o papel, você dá o outro papel e me volta alguma coisa. Eram pessoas comuns, trabalhadores. Eu sei que a Breganha era isso aí, era na porta da igreja. Na Breganha de baixo, que existe agora, antigamente não tinha aos sábados - agora tem aos sábados. Só vou aos domingos. Depois da igreja foi lá pra baixo, porque daí as pessoas foram descendo e fazendo negócio naquele pátio que tem ali ao lado do mercado. Ali tinha uma banca de dado, tinha joguinho de dado com o seu Augusto e, muitas vezes, eu ia fazer farol pra ele. Eu saía da minha banca, que não vendia quase nada também, que eram muito poucas pessoas que freqüentavam, e ia ser farol dele. Você sabe o que é farol? É o seguinte: ele montava a banca dele lá - e o dado é 1, 2, 3, 4, 5, 6 - e ele tinha um dado no bolso - 1 a 3 - e outro dado de 4 a 6, outro dado só um número. E existia o pisca, que começava a seguir um número só. Ele punha, vamos dizer dinheiro de agora, um real, dois reais, três reais só em um número. Daí o Augusto mudava o dado, pegava no bolso, parceladamente, punha na canequinha, e lançava outro dado. Então eu era o farol, eu que jogava pra chamar freguês. E então eu sabia o número que ia dar. Ele era meio caipirão e falava: “Baixeiro”, era 1, 2 ou 3 e: “Alteiro”, já era 4, 5 ou 6. Sabe o número que vai dar porque o dado tem chumbo dentro, tem um chumbo. Todos os dados que ele tinha, tinham um chumbo de um lado, ele vai dar ao contrário do chumbo. Então, quando o cidadão chegava lá e carregava um número, não dava, ele ficava com raiva, pegava o dado e jogava. Vi aquele troço lá e pensei: “Eu tenho umas panelas lá, eu vou trazer as panelas, a mãe tem umas panelas lá”. Quando voltei pra casa, falei: “Dá as panelas pra mim mãe, num está usando mais, tem alguma enferrujada?”. Eu levava lá e vendia. Naquele tempo, vendia a 2 mil réis, 1 mil réis, era muito difícil o dinheiro, e era difícil vender também, mas eu comecei, levei essa rotina. Aí comecei a comprar gibi, e quando havia troca, a pessoa me dava dois gibis e eu dava um. Depois começou a aparecer uma porção de gente vendendo gibi e eu pensei comigo: “Vou parar com o gibi, tem muita concorrência”. Parei de vender essas revistas de nudismo, parei de vender gibi e comecei a vender disco. Eu ia lá na Bento Freitas, em São Paulo, de manhã cedo, no sábado. Andava o dia inteiro lá achando promoção de disco. Custava cinqüenta centavos, um real. Uma vez, eu comprei o Pé da Fogueira, comprei dez discos, cheguei, vendi a 3 mil réis cada um. Vendi tudo e fiquei incentivado. Comecei a vender disco. Dali a pouco começou a concorrência: seu Zé do Ferro Velho pôs disco; um outro cara arrumou um carrinho, pôs disco. Falei: “Já tem concorrência”, e fui parando com os discos. Comecei a ir nuns ferros-velhos comprar panela, moinho, castiçais, coisa velha, de limpar e levar na Breganha pra vender. E disso eu venho vindo. Isso não tem concorrência, porque quando eu tenho um castiçal, você não tem um igual ao meu; as panelas pode se conseguir, mas eu posso vender mais barato. Hoje é difícil trocar. Lá é breganha, mas é difícil haver troca, porque não tem condição de ser trocado. Se você me der uma peça, eu não posso dar a minha em base de troca, eu tenho que pegar volta, então a breganha em si, como era antigamente, caiu. Antigamente era muito difícil também. Todo mundo fala: troca, troca, troca, mas a troca é o sinônimo de me dá cá e toma lá, e toma tanto de volta. É lógico que todo mundo querendo levar uma vantagem. Já cheguei a pegar um relógio de bolso trocado por um de pulso, que estava encostado num palito. Depois que eu troquei com o homem, fui abrir o relógio, tinha um palito enroscado, puxei o palito o relógio parou. Coisas da breganha. Tem muitas pessoas que fazem trapaça, e tem outras que fazem breganha vendendo. “Bregaiar”, pode até “bregaiar”, mas depende da peça que você vai me dar e a peça que eu vou te dar. Ah, lá linha o Boquijones, tinha o Arlindo, tinha o Abrão, tinha o Augusto, tinha o Gaúcho - que foi fazer uma entrevista comigo em São Paulo - tinha o Nelson, Tonico, uma série de pessoas. Era misturado. Todas as coisas que vinham a gente ia vender: se tinha sapato, a gente vendia sapato; se tinha roupa, a gente vendia roupa; se tinha panela, a gente vendia panela. Hoje eu lido só com antiguidade. Naquele tempo, não: eu lidava com aquilo que me aparecia. Por exemplo, se um passasse numa casa e encontrasse um sapato lá no lixo, eu achava que o sapato era bom, eu levava lá e vendia. Minha barraca era no chão, punha um papel, punha as coisas, não pagava nada, era livre, isento de imposto. Aí começou a aparecer televisão, fazer entrevista - eu fiz entrevista pra o canal dois, fui em São Paulo fazer uma entrevista no canal sete, fiz entrevista pro cinco... Uma vez, eu fiz uma entrevista pro cinco e eu tinha comprado um oratório na roça, e o oratório era pintado a anil - anil que põe na roupa. Pintava, desmanchava e pintava, e eu pedi pra um rapaz buscar na roça, e ele foi de roupa, sujou toda roupa dele, e sujou a minha, porque o anil saía. Aí eu falei: “Que brutalidade do cara pintar com isso aí”, e nessa semana veio o cinco fazer a entrevista, e apareceu o oratório. Na outra semana, chegou um cidadão de Ouro Preto - e eu tinha nessa semana tirado todo anil, lavei, e pintei, passei tinta preta, passei tinta branca, eu mesmo bolei e fiz - mas, na outra semana, ou quinze dias após, apareceu uma pessoa lá, um cidadão alto, bem arrumado e falou assim pra mim: “Quem é o Zé Biano aqui?”, “É esse”. Eu ia de bicicleta, daí ele olhou pra mim: “O senhor que é o Zé Biano? Eu vim aqui ver o oratório”. Eu falei: “O oratório está aí”. Ele falou: “Não... esse oratório... O senhor devia ser preso”. Falei: “Por que ser preso?”. Porque aquele oratório era antiguidade e eu destruí o patrimônio antigo. Eu falei: “O oratório é meu, eu faço o que quiser, eu pinto, quebro, faço o que quiser”. “Mas, o senhor devia ser preso, o senhor esta destruindo o patrimônio da antiguidade”. Eu disse: “Oh, cidadão, eu sinto imensamente, então o senhor não leva o oratório”. Ele disse: “Não vou levar mesmo. Se tivesse pintado de anil eu levava”. Coisa da Breganha. Teve outra vez, eu achei uma moeda desse tamanho assim, escrito “Dom Pedro”. Ela tinha um bagulhinho assim de pendurar no pescoço. Eu fui trabalhar - aí eu já trabalhava de pedreiro - eu fui trabalhar numa obra, dentro da taipa estava aquela medalha. Eu tirei, cortei aquele cabecinho, limei com a serrinha. E tinha o dom Pedro com o peito pra fora assim na medalha. Aí chegou um homem do Rio de Janeiro e falou: “Quanto é essa moeda?”. Eu falei: “2 mil réis”. Ele meteu a mão no bolso e me deu 2 mil réis. Naquele tampo era um dinheirão. Ele levou, falou assim: “Essa moeda aqui, tem tantos séculos”. Não era nada, era uma medalha que eu tinha achado e limei. Outra vez eu peguei daquele botão que as mulheres usavam, era um botão escrito dólares. Peguei um botão daquele, era vinte dólares, e levei lá na Breganha. Chegou um cidadão e comprou os vinte dólares mesmo. Naquele tempo valia, parece que, 2 mil réis. Não, era menos, muito menos, comprou muito abaixo do preço que era o dólar e pagou, mas eu sabia que era botão, porque ele tinha um coisa atrás eu tirei. Aí, quando foi um mês depois, ele veio xingar: “Eu enganei você? Não. Você que comprou dólar muito mais barato do que é, você que queria tapear eu”, “Mas, aquilo lá é botão”. Eu sei lá se era botão, são coisas da Breganha. Porque a Breganha tem disso mesmo, é a mesma coisa que uma panela: a senhora compra uma panela furada porque todas as panelas têm um buraco, ou não? Ou não tem? Tem, porque como é que você vai fazer comida dentro dela; ela tem que ter um buraco pra entrar a comida e sair a comida. Mesma coisa que tomar café: você toma café com língua? Todo mundo toma café com língua, não tira a língua pra tomar café. Nossa Senhora, briga lá, eu briguei doze vezes. Por causa de lugar. Porque você chega cedo, marca o lugar, a pessoa chega, tira o pano que você pôs e põe as coisas dele. Às vezes saía até facada, tiro, por causa de lugar. Ali é terrível, aquele lugar é terrível. Domingo passado eu socorri uma madame lá, chorando porque o marido dela ia brigar lá em cima porque o cara tomou o lugar dele. Ele ia buscar o revólver pra dar tiro nos outros. Falei: “Não senhor. Vem vender aqui perto de mim”. Porque ali, naquele pedacinho que eu vendo, ali eu idealizo, eu ponho, tem todos que são os amigos meus, mulheres que vendem perto de mim. Na minha banca fica eu, cunhado e mulher, tomando cerveja, conversando, eu conto muita piada, sou gozado. Em volta da Breganha tinha um homem que vendia raiz, remédio; tinha bar; tinha carroceiros, que paravam em volta da Breganha. Porque a Breganha era naquela roda, só, tinha árvore. Depois arrancaram as árvores pra pôr cano, acabou com as árvores. Então tinha uma tabuleta lá escrita “Parque da Breganha’’. E aqui em cima, na praça, tinha também, “Parque da Breganha aos domingos”. Sumiu essa placa, sumiu a placa lá de baixo, sumiu tudo depois que fizeram o encanamento. Vinha gente de fora, vinha estrangeiro, gente que vinha ver as coisas. Depois de uma certa época, a gente vendia as coisas pra estrangeiros. Vinha um cara junto pra falar com a gente. Eu vendi muitos castiçais pra inglês, santo de madeira, santo de barro, vendi pra inglês, pra alemão. Vinha o intérprete lá que falava: cothalalala. Eu sei lá o que estava falando... O outro falava: “Isso, isso quanto que é, ele quer tanto...”. E levava as peças. Faz uns seis meses, cinco meses, veio um cara do Japão fazer uma entrevista na Breganha, e apareceu no Japão. Eu não vi, mas o pessoal que trabalha lá, telefonou pra dona Lilia, que vende lá em cima, que viu no Japão a entrevista minha, até minha esposa estava junto, o japonês veio fazer entrevista na Breganha de Taubaté.

TRABALHO
Eu trabalhava de pedreiro, vinha na Breganha só no domingo. Hoje que eu não trabalho mais porque estou aposentado. Eu tocava serviço até sábado, e domingo eu ia na Breganha. Tinha vezes que eu faltava no sábado pra ir nos ferros-velhos procurar peças, ia pra roça procurar peças. Hoje eu já não trabalho mais porque estou aposentado. Ia nos ferros-velhos e na roça. Você vai na roça, leva uma varinha de pescar - eu ia de bicicleta -, aí, bate nas casas: “A senhora não tem panela aí de ferro, moinho essas coisas?”, “Ah, tem, tá pichado”, “Quanto a senhora quer?”, “Quinhentos”. Aí comprava, limpava e trazia na Breganha. Santo de madeira, santo de barro, às vezes achava na Santa Cruz, hoje não acha mais. Então eu pesquisava a Santa Cruz. Muito santo, eu achei na Santa Cruz. Se eu tenho minha casa hoje, é graças aos Santos que eu achei na Santa Cruz. Santa Cruz é aquelas coisinhas que tem na beira da estrada. Quando morre uma pessoa eles fazem uma cruz, ou faz uma capelinha. Então os crentes vêm e colocam o santo bom lá. Porque o crente, quando fica crente, não quer mais santo, daí ele coloca lá. Aí passa uma cara que nem eu, acha o santo e leva, porque se aparecer um garoto por lá, ele quebra, dá estilingada no santo e quebra o santo. Eu já vendi muito santo assim. Tem o santo de madeira, de barro, paulistinha, tem o barroco, tem muita coisa, graças a Deus. Eu ia até Caçapava, Quiririm, Tremembé, esse pedaço aí, de bicicleta. Eu ia cedo, levava uns sanduíches dentro da bolsa e uma garrafa de café. Ia procurando e, às vezes achava. Dava lucro. Hoje não tem mais. Pode andar por aí que é difícil, não tem mais. Teve uma vez que eu cheguei lá, numa casa, pra comprar um santo. Vi o santo bom lá e falei pra dona: “A senhora não vende essa santa?”, “Não, eu quero a santa, eu quero a santa”. Aí eu saí e fui embora, porque as pessoas achavam que santo não deveria ser vendido. Hoje, não: hoje, na cabeça do povo, já está mais preparada, então até pra embrulhar a gente... Um dia desses eu comprei um santo com o pé de madeira, era pra ser de madeira. Vendi pro doutor Sérgio Badarossi, que é o promotor público de Taubaté - era professor e eu me dou muito com ele - , então eu vendi pra ele. Passou um mês ele trouxe de volta e disse: “Zé, esse santo aqui é de gesso”. Eu falei: ”Por que doutor? É madeira”. Ele falou: “Não, lá na roça puseram um pau embaixo do santo, e era de gesso em cima”. Ele devolveu o santo e eu devolvi o dinheiro.

COMÉRCIO
Eu vendia antiguidade pra um senhor, e eu sabia, às vezes eu pegava peças dos outros em consignação e levava pra ele. Chegava, punha as peças em cima da mesa do escritório dele e sabia até as peças que ele ia comprar, porque as peças que ele ia comprar ele punha na frente dele; as peças que ele ia regatear, pra oferecer menos, ele punha do lado esquerdo; e as peças que ele não queria, punha do lado direito. Eu fui umas quinze vezes e comecei a aprender. Vendi muito santo pra ele, vendi coisas antigas, vendi uma porção de coisas pra ele. Aí ele foi embora, acabou o freguês. Isso você aprende convivendo. Convivendo. O antiquário sabe, porque isso, porque aquilo, mas eles seguem a norma do livro. Não é como eu, que luto com aquilo. Ele tem a teoria, mas ele não tem a prática. Eu tenho a prática, sei o que é melhor, quando não é. Mas os antiquários, costuma dizer que eles sabem tudo. Eu fui aprendendo. Santo Antão, por exemplo: um santo muito difícil. Vendi para o doutor Edson. Começou a brigar comigo por causa do santo Antão, por causa de 10 mil réis. Ele brigou um monte de tempo pra comprar esse santo porque não queria dar cinqüenta. Eu queria cinqüenta, ele queria dar quarenta. E ele vinha de São Paulo, ia de carro e, ia lá lutar comigo. Eu morava lá no Parque Aeroporto, e ele ia lá: “Zé, que é isso rapaz...”, “Não tem nada, eu quero cinqüenta”. Três meses ele fez isso - e acabou dando cinqüenta. Ele fez o livro de santo, que eu tenho em casa. Ou então vinha um outro senhor que era professor de piano, era Edson também. Deu roupa pras minhas crianças, pra eu facilitar o santo, pra eu guardar o santo pra ele. Hoje eu tenho uma pessoa que mora em São José dos Campos - parece que mora em Jacareí e trabalha em São José dos Campos - que vai na minha casa e deixa lá um punhado de dinheiro, cheque, pra receber três vezes, quatro vezes. Eu levava santo em São Paulo, na rua Avanhandava, pro Matias. Eu chegava lá, entregava o santo pra ele, ele me dava o cheque. Uma vez ele me deu um cheque sem fundos. Eu voltei lá buscar o santo. Então, santo é muito procurado, mas definição de quem compra tal coisa, quem compra tal coisa não tem. Tem uma mulher em São Luís que compra muita panela, porque ela revende lá. Domingo passado mesmo, vendi três panelas pra ela. Mas ela compra muito barato, porque ela vai revender. São casos da Breganha. Outra vez eu comprei umas quatro dentaduras. Lavei bem lavadinho e levei lá na Breganha - nesse tempo eu vendia lá em cima. Faz muitos anos. Levei lá em cima e pus na banca. Chegou um cidadão olhou, olhou e falou: “Quanto é que é esse aqui?”. Falei: “É quinhentos réis”. Aí ele pegou e pôs na boca. Deu certo e ele levou. Eu admirei: “Mas o homem é louco?”. Tudo que dá dinheiro a gente põe pra vender, qualquer coisa. Hoje não vende esterco? Hoje não vende planta? Hoje não vende bosta de cavalo? Vende tudo hoje. Não vê que a turma sai na rua, pega o carrinho e põe um monte de lixo? Depois é que na casa deles vão ver o que é bom, o que não é. Eu vi lá a dentadura: “Eu vou levar lá na Breganha”. Mas quando eu ia saber que o cara ia pôr na boca e levar? Eu não sabia. Coisa da Breganha. Foi trocado lá, um chinelo, por uma outra dentadura, tudo isso. As trocas esquisitas, é isso aí mesmo. Ás vezes a pessoa quer trocar, não quer voltar, às vezes volta. Outra vez, eu estava vendendo um castiçal, eu falei pro rapaz assim: “É 5 mil réis”. Ai ele pegou a carteirinha e tirou quinhentos réis. “Não é isso não, é 5 mil réis.” Ele não estava entendendo a quantidade. Outra vez eu comprei um santo dentro de um oratório. Um rapaz vendeu pra mim o santo dentro do oratório e a dona veio atrás, arrancar o oratório com santo e tudo. Na Breganha acontece isso, porque têm pessoas que vão lá, a título de fazer trapaça: venderam pra um homem um gravador, um toca-fitas. Mostraram pro homem um toca-fita e embrulharam dois tijolos. No meu serviço, até hoje, não da pra viver só da Breganha. Às vezes você vende bem, e às vezes não vende nada. Eu acredito que pode ser que tenha gente que viva vendendo coisa na Breganha, mas eu não sei se tem, eu não posso dizer pra você que eu conheço quem viva da Breganha, porque todos têm ou uma lojinha de roupa ou tem um comercinho qualquer, vai vender lá. Eu sou aposentado, vendo na minha casa e vendo na Breganha - porque hoje eu sou aposentado. Agora eu tenho um carrinho velho, uma Variant 70. Mas dizer que tem gente que possa viver da Breganha, é muito difícil. É muito difícil porque a Breganha ultimamente não está dando nada, a gente não vende quase nada, a gente vende muito pouco. Viver de lá é difícil, e eu trabalhava de pedreiro pra fazer a manutenção da minha casa. Aquilo que eu ganhava lá era pra mistura.

TRABALHO
Casas? Construí umas oito ou dez casas, construí uma igreja em Cunha, o parreiral, e ajudei a fazer... Fui encarregado do parreiral, que é uma igreja que tem dezoito metros de torre.

COMÉRCIO
Eu ia pra Breganha como um hobby, nunca fui lá pensando: eu vou ganhar dinheiro pra viver. Não tem como, porque é suspeito pensar isso, porque você não sabe se vai vender, porque tem muitas pessoas. Hoje, por exemplo, tem roupa de cinqüenta centavos a peça. São pessoas que vão nas casas, batem palma e pedem roupa usada, aí eles pegam, lavam e levam na Breganha pra vender a cinqüenta centavos a peça. Uma pessoa viver da Breganha, eu acho que é meio difícil.

CASAMENTOS
Eu tive, aqui em Taubaté, doze mulheres. Essa aqui que eu tenho é a 13ª. Não lembro de todas. Tem alguma que eu ficava seis meses, um mês, dois meses. É mulher que passava, vem aqui, fica no quartinho. Com a minha legítima, eu vivi catorze anos. Conheci aqui no alto, aqui no cemitério, perto do cemitério, na rua Humaitá. Casei com a nova, que trabalhava na Juta, vivi catorze anos. Tenho filho com cinqüenta e poucos anos. Essa vive comigo há muitos anos, é uma mãe pra mim, é Jodicéia. Eu conheci ela quando ela era do outro marido. Ela morava em São Paulo e veio embora pra cá, por causa da mãe. E eu fazia bailinho, ia nos bailinhos, eu tomava conta dos bailinhos, eu tinha escola de samba, tocava surdão, cantava samba, e todo mundo cantava. Escolinha de samba e tal, conheci ela, e ela foi com a cara do macacão, porque o macacão era magrinho, não tinha barriga - agora que está com barriga. Resumo: conheci ela num baile, começamos a namorar.

LAZER
Eu tinha uma escola de samba, cinco, seis pessoas saíam comigo. Um tocava pandeiro, o surdo era eu que tocava, o outro tocava cavaquinho, o outro tocava banjo, tamborim. Fazíamos baile nas casas. A pessoa queria fazer um baile lá: “Fala com o Zé Biano”. A gente foi tocar na Pedra Branca, pra adiante de Quiririm, fomos fazer quadrilha. Fazer uma quadrilha lá: “Vamos chamar o Zé Biano”, que eu marco uma daquelas que vai duas horas pra terminar. Eles gostavam. Eu era novo, tinha aí dezenove, vinte, 25 anos.

MORADIA
Eu morei na Vila Nogueira, morei na rua Humaitá. Cortiço é uma vila que, pra falar a verdade, é uma droga. Porque você sai da porta, dá trombada com a pessoa, é o pinico na porta, criança cagando na porta, é assim. Tem dez quartos numa carreira de casa, dez quartos, moram dez famílias. As casas antigas de Taubaté eram na Vila Nogueira. Foi derrubado. Lá na rua Humaitá tinha esse punhado de quartinho. Hoje ainda tem alguns, mas já não é do jeito que era. É uma vila de casas, cheia de casinhas, às vezes tem uma que tem três cômodos, a outra tem dois cômodos. Comprava minha roupa na Breganha, comprava comida no mercado, ou nos armazéns, que era mais barato. Porque a gente tinha que procurar o mais barato. A gente procurava onde era mais barato, onde tinha promoção, como hoje faz assim, também: onde tem promoção de açúcar, a gente vai lá buscar o açúcar; promoção de carne a gente vai lá buscar a carne.

COMÉRCIO
A Breganha mudou, deturparam a Breganha. Hoje é barraca de antiguidade, de coisa nova. Antigamente não: antigamente era tudo velho, agora a maioria é só peças novas. As pessoas que vendem antiguidade deveriam vender em um lugar, e as pessoas que vendem coisas novas deveriam vender em outro lugar. Ninguém vendia coisa nova, naqueles tempos, aí começou a haver esse negócio de Paraguai, e isso que alastrou. Porque aqui tem o camelódromo, mas a maioria vai lá vender na Breganha. Eles saem do camelódromo e vão vender lá na Breganha. Lá não pode vender motor, não pode vender coisa nova, mas vende do mesmo jeito, o fiscal vai lá, olha, da uma olhada, passa batido. As regras são antigas. Dependem do prefeito que entra. O prefeito entra e diz o que não vai poder vender. A fiscalização vai lá no começo: “Não vai vender”. Daqui a pouco, não sei o que acontece, começa a vender tudo de novo. Antes ninguém vendia nada novo e ninguém comprava nada novo. O pessoal não ia lá na Breganha pra comprar coisa nova. Porque não tinha mesmo, tinha coisa velha, martelo velho, marreta velha, chinelo velho, sapato velho, panela velha - isso que tinha, não tinha coisa nova, hoje tem coisas novas. Todos que vão na Breganha, vão procurar coisas mais em conta. Domingo eu vendi dois castiçais, um pé de mármore, pra um cidadão de Cunha. Foi na última hora. Até essa hora, eu tinha feito cinco reais. E a minha banca é grande. Tenho castiçais, tacho, panela de ferro, bacia de cobre, castiçais bonitos, tem um moinho que tem uma gavetinha embaixo, tem outro moinho, tem um sinaleiro de trem desse tamanho. Então eu tenho muita coisa, graças a Deus. E domingo, eu estava indo embora, guardando as coisas dentro da caixa, aí chegou um cidadão com a senhora dele, e ficou com a peça de mármore e dois castiçais. Foi aí que quebrou o meu galho, porque eu não tinha feito nada, tinha feito 5 mil réis, 5 mil réis não: cinco reais.

TRANSPORTE
Eu transportava as coisas de bicicleta, punha uma caixinha na bicicleta e transportava. Mas a gente não ia essa hora que vai agora, a gente ia à tarde, porque tinha muito lugar, não tinha briga, chegava lá e punha lá. Depois começou a encher de gente, gente, gente, aí foi acontecendo isso. Você chega mais tarde, você briga. A pessoa briga com a gente, toma lugar. Mulher quase não tinha na Breganha, hoje tem bastante mulher. Acho que era dona Lila, aquela que sobe o morro lá, eu acho que é ela foi a primeira mulher na Breganha. Ela tem quase a mesma idade minha e tem muito tempo de Breganha, mas eu não sei se é ela a primeira mulher.

COMÉRCIO
A minha freguesia é mulher e homem, graças a Deus. Não é freguesia - eu não tenho freguesia - , são as pessoas que passam lá e compram. Quem me dera se eu tivesse um freguês, que nem esse do santo que tem lá em Jacareí. Quem me dera se eu tivesse um freguês que viesse todo domingo comprar. Calculo o preço de acordo com a minha pessoa, porque se eu compro por cinco, eu preciso ganhar uns quinze, porque eu vou limpar, dar jato de areia na panela. Se a panela é grande, eu vendo por mais, porque as panelas que existem pra comprar, novas, mas não são iguais às velhas. As velhas não têm aquela crosta dentro, as velhas são limpas por causa da colher que passa lá dentro, e as novas tem uma crosta. Se eu pego uma panela por dez, eu tenho que vender por vinte, 25, porque não vende na primeira vez que leva, então fica, põe no carro, leva, põe no carro, leva, depois chega em casa, descarrega. Eu estudei até o quarto ano. Foi na escola da Quarta Parada, quando eu tinha uns oito anos, mais ou menos. Estudei um pouco lá, depois vim pra cá, a minha mãe que acabou de me ensinar. Eu não fiquei muito tempo porque eu brigava muito na escola. Nunca gostei de escola. Porque uma vez a professora me fez ajoelhar em cima de três grãos de milho; outra vez ela me pôs pra olhar a cadeira e eu com a boca assim, olhando a cadeira. Aí eu saí da escola, peguei a chave da escola, tranquei a professora lá dentro e saí, aí ela mandou chamar minha mãe e me expulsou da escola. São coisas que aconteceram, mas nunca gostei de escola não. A minha mãe me ensinou.

TRABALHO
O serviço de pedreiro aprendi trabalhando de servente - chifrando lata, é que se chama. Chifrar lata é o cara que carrega a lata, ele faz a massa, pega a lata, põe nas costas e leva lá para o pedreiro, e joga tijolo, põe tijolo. Então, quando o pedreiro saía, eu pegava a colher dele, ia lá e começava a assentar tijolinho na parede, pegava o prumo, prumava. Foi indo, foi indo, um dia o pedreiro falou pra mim, o Clemente: “Por que você não trabalha de pedreiro?”. Eu disse: “Ué, porque eu não sei”, “Mas você está assentando tijolo. Fica no meio da parede, o pedreiro lá faz o canto, e o outro o outro canto, daí você estica a linha lá de fiada em fiada e vem assentando tijolo”. Eu batia a colher, o cabo da colher, assim: “Não bata mais assim rapaz, vai sujar o que está bom de massa, tem que bater aqui, de lado, a colher”. Aí eu fui indo, fui indo, fui aprendendo, depois eu mesmo me profissionalizei, e aprendi. Comecei a fazer casa, já marcava casa, foi indo, graças a Deus, teve uns tempos bons, que eu peguei até empregado pra trabalhar comigo. Foi um tempo bom. Agora já não tem isso, agora tem a concorrência. Depois de um certo tempo também, teve a concorrência. Você chegava a dar um orçamento e vinha outro e fazia por menos.

MORADIA
Eu morei na rua Humaitá, morei na Vila Nogueira, morei na Água Quente, morei no Parque Aeroporto. Chegava lá de bicicleta, a pé, um bondão velho que tinha. Um bondão, pererecão daqueles, chacoalhando. Todos os bairros em que eu morei tinha o comércio, tinha os bares. Os bares tinham os alimentos de primeira necessidade: feijão, arroz. E é o que a gente comprava: feijão, arroz, fubá. Carne era mais difícil mesmo. Então, em todos os bairros tinha, quando tinha um bar, o cara tinha um saco de feijão lá, um saco de arroz, um saco de fubá, um saco de açúcar - que era mais difícil saco de açúcar que nem tem agora, comprava um saco, pesava... Móveis? Até hoje eu tenho um sofá que eu fiz de tijolo, porque a maioria dos meus móveis foi comprado em pechincha, nessas casas que vendem móveis usados. Tem um guarda-roupa lá que divide em seis ou oito partes, um oratório, um tremendo de um guarda-roupa assim - comprei numa pechincha, nas casas que vendem móveis usados. As primeiras vezes que eu tinha móvel, fazia de caixote de querosene, pregava duas perninhas no caixote de querosene, fazia mesa. Era duro, viu? A roupa, a gente punha dentro de um caixão, o rato ia lá. Carro, foi um cidadão que me ajudou, seu Nelson. Deus que o ponha em bom lugar, já morreu, então eu queria ter um carro: “Por que você não compra?”, “Não tenho dinheiro”, “Eu vou ajudar você”. Daí ele comprou uma Variant pra mim e eu ia pagando aos poucos. Paguei até o final, e graças a Deus que eu tenho essa Variant 71, branca. Depois disso eu tive um fordão, depois disso eu comecei a estender mais, comprei um fordão 47, vendi, comprei um Taurus, vendi, e fui indo. Só carro velho, 200 mil réis, 300 mil réis, sem licença - andava por aí sem carta, sem nada, depois tirei carta. Comprava por ai, nos cantão: Opala pra vender por 300 mil réis, tem carro, em Quiririm, tem um Fiat. Eu comprei um Fiat, um dia desses. Porque agora eu tenho a Variant, graças a Deus, faz um mês eu comprei um Fiat por 800 mil réis - Fiat 147, não é o Fiat Uno. Então aqui em Quiririm, lá naquele mocosão lá de baixo, tem um Fiat por 100 mil réis, mas não tem licença, não tem nada. Você vai no desmanche e compra carro a 300 mil réis, 200 mil réis.

CIDADES
Taubaté A Taubaté de hoje está linda demais. Esse prefeito que nós temos é batalhador. Taubaté de hoje é uma maravilha, a Taubaté de antigamente era muito diferente. A de hoje tem muitos recursos, inclusive onde eu moro - eu moro na Miguel Vieira Ferreira - lá era um barrão, um barrão. A primeira vez que o Ortiz entrou, ele prometeu pra mim que ele ia asfaltar lá. Tem mais um negócio que eu tenho que falar: aquela avenida onde nós vendemos, fui eu que pedi para o Ortiz, na primeira gestão dele. E eu tenho testemunha, ele foi na minha casa pedir voto e eu disse pra ele: “Seu Ortiz, eu tenho tudo que eu quero, só que nós estamos brigando na Breganha, perdendo lugar, lá em cima um rapaz já deu tiro no outro, nós precisamos de um espaço maior”. “O que o senhor quer?” ”Queria a avenida.” Na primeira gestão dele, ele falou: “Vou dar a avenida pra você, dentro de três meses”. E eu falei: “Então o senhor vai lá Breganha pro senhor confirmar se vai dar mesmo”, porque político é mentiroso. “Eu vou.” Aí foi com o filho dele lá na Breganha, passou três meses ele deu a avenida pra nós, na primeira eleição. Passou uns tempos, cismaram de canalizar aquilo, mandaram pro lado de lá, e encheram aquilo de pedra, então ficava vindo por cima das pedras, caía em cima das pedras - sofremos pra chuchu ali - , mas como o Ortiz tinha dado a avenida pra nós, saímos lá de cima e viemos vender aqui na ponta. Todo mundo falava: “Mas por que você vai sair de lá?”, “Eu pedi pro Ortiz a avenida, ele deu. Eu tenho que vir aqui”. Acertamos lá. Estava do lado de cá, agora estamos do lado de lá, mas já ouve briga lá, que o pessoal da bomba não quer que venda na frente. Tem sempre aqueles problemas. Agora a prefeitura leva a tabuleta pra cercar, antigamente não levava. Mas foi o Ortiz que deu a avenida pra nós lá, graças a Deus que nós estamos lá na avenida.

COMÉRCIO
A Breganha funciona na hora que você chegar. Você chega, coloca o seu carro lá, que tem os pedacinhos que você pode colocar, a gente guarda lugar ali dos carros, os amigos vão chegando e vão pondo. Então a gente põe um baralho, e vai jogar campre. Campre é um jogo de nove cartas: você bate com a carta, ou mais... - parece que tem outro nome, mas é campre mesmo - então você joga cinqüenta centavos, dez fichas cinqüenta centavos. Começa isso ali pra uma hora, vamos até cinco horas, seis horas da manhã. Saio de casa meia-noite, meia-noite e quinze. Fico jogando. De manhã cedo, arregala os olhos, lava os olhos, abre a banca lá e vai vender. Fica até uma hora, meio-dia e meia, duas horas, depende. Antigamente ficava até mais tarde pra tomar cerveja, ficava lá tomando cerveja até três horas, fazia churrasco lá na Breganha - a gente fazia churrasco - comprava carne e fazia churrasco, uma festa. Hoje a gente não está mais fazendo isso.

AVALIAÇÃO
Comércio Aprendi tudo: fazer amizade, lazer, viver bem com a vida. Porque a Breganha é o seguinte: você sempre conhece mais pessoas, por muito pouco que você conhece, você conhece dez pessoas, todo domingo diferente. Eu me dou com o delegado, me dou com prefeito, me dou com deputado, me dou com, enfim, me dou com doutor, passa lá: “Como é que está?”. Eu tenho onze filhos. É, tenho onze filhos. Tenho dois: um mecânico eletricista, Germano; tem o Oswaldo, que é mecânico também. Tem o outro que é o Mario, que é professor de caratê e faz funilaria, e tem um que chama Asa Negra, José Henrique, magrinho, que eu expulsei ele da minha casa. E tenho um filho preso que é o Guigão, foi vender droga, ficar rico... Tem uma moça, tem um punhado de filho mulher, mas os outros que eu separei, eu não sei como é que está. Tem no São Paulo, agora tem uma aqui, que mora na Água Quente, é a Rosângela, Aparecida Rosângela. Então eu creio que eu tenho filhos que considera eu: é o Oswaldo, e o Paulo que está em São Paulo, que é advogado. Tenho um filho em São Paulo que é oculista, e ele é advogado. Tem umas filhas que estão em São Paulo. Minha mulher primeira, que eu sou separado, mora no Parque do Aeroporto, e moro com essa há cinqüenta e poucos anos. E vivo bem, graças a Deus, Netos, que eu conheço, tem um, dois filhos do Germano, filhos do Mário - o Mário já tem filho também - , então eu tenho bisneto, eu tenho bisneto. Mas eu não conheço, porque eu não vou lá, eu não vou procurar meus filhos, meus filhos que me procurem, porque eu, graças a Deus, estou vivendo. Meus filhos que devem vir atrás de mim. Então é assim, é muito difícil. Eu fui agora num churrasco na casa de um neto meu, porque ele insistiu, senão eu não ia. Então é assim, minha vida é essa, um livro aberto.

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