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História

Terezinha de Jesus Oliveira

História de: Terezinha de Jesus Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Terezinha foi telefonista na Telefônica, na época em que o cargo tinha grande prestígio e importância. Ela conta sobre o funcionamento da empresa e as atividades da sua função quando as ligações ainda tinham que ser feitas através de uma central e podia demorar até seis horas para se fazer uma única ligação. 

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História completa

P/1 – Eu queria que a senhora por favor me dissesse seu nome completo e a data do seu nascimento.

 

R – Terezinha de Jesus Oliveira, nasci em 28 de setembro de 1947.

 

P/1 – Onde a senhora nasceu?

 

R – No município aqui de Uberlândia, num lugar chamado Rio das Pedras.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – Joaquim Matias de Oliveira e Madalena Augusta de Oliveira.

 

P/1 – A senhora sabe de onde vieram seus pais?

 

R – Meu pai é de Araxá, minha mãe de Sacramento.

 

P/1 – Seu pai fazia o quê?

 

R – Meu pai foi trabalhador rural, trabalhou em roça, fazenda, tomava conta de gado, sempre em coisa rural. Era uma luta, porque minha mãe toda vida pensou mais na frente, no futuro dos filhos. Eles casaram, passaram oito anos sem ter filhos, e aí quando começou vieram logo seis. Ela, mamãe, sempre preocupada com o futuro dos filhos, querendo que meu pai viesse para a cidade para melhorar de vida, para dar estudo para a gente. Mas aí ele nunca... Meu pai era assim, muito acomodado, ele não pensava para frente. Já minha mãe pensava mais. Foi assim até uma época em que ele estava tomando conta de uma fazenda e surgiu a oportunidade de vir para a cidade. Foi aí que gente veio e começou a estudar.

 

P/1 – Ele não era proprietário?

 

R – Não, toda vida trabalhou agregado.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe também sempre foi de prendas do lar. E mais enérgica, o meu pai era mais assim amoroso com a gente, mas ele não dava demonstração de carinho. Minha mãe também era seca, mas a gente entendia que os dois gostavam demais da gente. Minha mãe gostava demais de religião, toda vida. Morreu com oitenta e dois anos, minha mãe, e meu pai tinha setenta e nove quando faleceu. Tem dez anos que papai faleceu e minha mãe faz oito meses.

 

P/1 – Quantos irmãos eram?

 

R – Nós somos seis, eu e mais cinco: são quatro mulheres e dois homens.

 

P/1 – A senhora, quando saiu da roça, que idade tinha?

 

R – Devia ter uns seis para sete anos. Eu tinha uma madrinha que morava aqui na cidade e sempre ela ia lá na roça visitar a gente. E teve uma vez que eu vim ficar uns dias aqui com ela e gostei demais daqui de Uberlândia. E foi aí que deu jeito de vir todo mundo para cá.

 

P/1 – Foi a primeira vez que veio?

 

R – A primeira vez que eu passei uns dias aqui com ela e aí eu não queria voltar mais para a roça. Foi até que deu certo para todo mundo vir para cá.

 

P/1 – Como que era a sua infância lá no lugar que seu pai trabalhava?

 

R – Eu lembro muito pouco da minha infância. Eu lembro que tinha plantação, plantava arroz, eu gostava daquele cheiro. Sabe aquele cheiro de casca de arroz na época da colheita? Era muito bom. Eu lembro que tinha uns bancos de madeira, dia de sábado a gente areava, lavava aqueles bancos, era uma festa. Eu lembro muito pouca coisa de quando eu era criança... eu não lembro muita coisa não.

 

P/1 – Vocês ajudavam na lida do pai?

 

R – Ajudava. O Toninho, meu irmão, que é o pai da Antoniete, nossa, ele sofreu para ajudar nessa época, porque ele era um dos mais velhos. Aí penou também lá na roça. Depois, veio para a cidade e aí foi tudo começando a melhorar.

 

P/1 – Como é que vocês se divertiam?

 

R – Naquela época não tinha televisão, era papear, conversar... Eu lembro que tinha muitos vizinhos perto, fazendas perto, uma ao lado da outra. Então, no fim de semana a gente tinha uma capela, ia na missa na capela e depois fazia visita para as pessoas que moravam perto. Nossa, foi muito sofrimento, que eu lembro da minha mãe contar, que eu não lembro muita coisa, mas minha mãe e meu pai penaram para criar os filhos. Depois que a gente veio não estava dando certo o serviço do meu pai... Foi uma luta, mas graças a Deus acabamos vencendo.

 

P/1 – Nenhuma brincadeira que a senhora se lembre que fazia nesse lugar onde moravam?

 

R – Eu lembro que a gente brincava muito, brincava de roda, brincava de pique – falava pique não sei se ainda fala até hoje. Eu lembro que tinha muitas crianças em volta das fazendas. Dia de domingo principalmente era o dia que a gente reunia todo mundo e passava o dia junto em brincadeira de criança: brincava de bola, de pique, de esconder varinha... A gente escondia uma varinha e ia todo mundo procurar para ver onde estava. Era aquela farra, o que eu lembro acho que é isso.

 

P/1 – E a escola?

 

R – Tinha uma escola rural, mas não era grande coisa não, tanto é que quando eu vim para cá, para a cidade, é que comecei a estudar, aqui. Estudei na escola Doutor Duarte, tem até hoje, na Vasconcelos Costa. Na roça lá foi muito pouca coisa que a gente aprendeu.

 

P/1 – O que brilhou nos olhinhos da menina quando chegou em Uberlândia? 

 

R – A primeira vez que a gente veio eu fiquei encantada. Era muita coisa bonita para ver eu e não quis saber de voltar para lá não. Depois, quando eu tinha onze para doze anos, eu tenho uma irmã que é freira, mora na Bahia, e nessa época ela estava em Duque de Caxias, Estado do Rio, teve e tem vocação até hoje, porque desde a época que ela foi, ela foi estava com dezesseis anos, nunca mais quis voltar, a vocação dela é essa. Aí me deu uma vontade de querer ser freira também, e fui, fiquei um ano no convento, lá junto com ela, em Duque de Caxias, mas não deu certo não. Eu roía unha e estou roendo até hoje ainda. Eu roía unha e a freira lá, uma alemã que era bem severa, era a chefe nossa das juvenis, e na época, eu lembro, eu morria de vergonha, toda sexta-feira era dia de eu mostrar as unhas para ela, ela me chamava lá na frente com a sala cheia de gente e fazia eu mostrar as unhas para ela. Às vezes eu deixava uma beiradinha assim para mostrar, quando me fazia raiva eu passava no dente e eu não tinha nada para mostrar. Aí um dia ela conversou comigo e falou: “Olha, não tem condição, você não tem vocação”. Eu lembro dessa frase dela até hoje: “Quem não sabe se controlar nas pequenas coisas não sabe se controlar nas grandes. Você tem esse vício, você não consegue deixar de roer unha, não tem vocação. Você vai embora para sua casa, você vai pensar bem direitinho o que você quer da vida e depois, se for realmente sua vocação, você volta”. Nessa época eu fiquei um ano lá e aí, na época, quando eu voltei para cá, minha irmã mais velha era casada, tinha casado há pouco, aí eu estava ajudando minha irmã lá no serviço da casa dela e minha mãe tinha muita amizade com a dona Maria de Lourdes, que trabalhava na Telefônica. Minha mãe era muito amiga da mãe dela, então através dessa Maria de Lourdes minha mãe conversou e conseguiu para eu fazer um teste na Telefônica. Na época eu tinha quinze anos, e eles não aceitavam por causa de eu ser de menor, mas aí minha mãe foi lá e assinou um termo de responsabilidade, e conseguiu de eu fazer um teste paras trabalhar como telefonista. Essa Maria de Lourdes que deu uma força e eu consegui. Eu tinha na época quinze anos quando eu entrei para a CTBC.

 

P/1 – Como é que foi o procedimento de aceitação da senhora? 

 

R – Minha mãe teve que ir lá e assinar um termo de responsabilidade, porque eu trabalhava à noite. Eu trabalhava na época até as vinte e duas horas, então eu lembro que minha mãe foi e assinou um termo de responsabilidade, responsabilizando-se por mim, falando que quando fosse meu horário de trabalhar à noite que ela se prontificava de ir me buscar, por causa de eu ser de menor. Aí autorizaram e eu entrei, foi no ano de 1963. Eu entrei lá em 19 de abril de 1963, e foi meu primeiro e único emprego, não tinha a mínima idéia, nunca esperava que fosse isso. Na época tinha uma chefe muito severa, Rita Guerra, não sei se vocês já ouviram falar. Ela trabalhou algum tempo lá, era muito severa. Na época eu lembro que – e agradeço à minha mãe, coitada, que Deus, onde ela estiver, dá para ela o descanso – porque, através da minha mãe, um dia eu cheguei lá em casa tão nervosa, essa Rita Guerra era muito boa, mas tinha coisas que ela pegava no pé da gente mesmo. Cheguei lá em casa com tanta raiva, tão nervosa nesse dia, eu falei: “Mãe, eu não volto nesse serviço nunca mais”. Fazia pouco tempo que eu estava lá, aí minha mãe me deu muito conselho e falou: “Teresa, todo serviço tem chateação, todo serviço tem amolação, agora por causa de uma coisinha você vai querer sair do serviço? Aguenta as pontas e vai tendo paciência”. Foi passando, foi passando, depois essa chefe saiu e aí foi melhorando. Eu trabalhei vinte e oito anos e uns dias. Aí na nossa aposentadoria – agora acabou essa aposentadoria especial que era a nossa – diziam que eu podia aposentar com vinte e cinco anos de serviço, aí eu deixei passar mais três anos ainda. Eu não queria parar, eu queria pelo menos continuar mas uns dois anos. Mas aí, na época, a empresa falou que a meta da empresa era dar oportunidade para outras pessoas e que a gente já tinha dado a cota da gente. Era para a gente se aposentar. Foi assim uma coisa muito traumática na época para a gente. Para mim e para todas as sete que aposentamos juntas, porque você imagina: você trabalhar uma vida inteira, vinte e oito anos numa firma, aí eles avisaram para nós, com um mês e pouco de antecedência, chegaram para a gente, fizeram uma reunião lá, o departamento de pessoal, chamaram a gente e falaram: “Vocês vão trabalhar até 8 de junho, e a partir do dia 8 vocês estão liberadas, não vão trabalhar mais não”. Todo mundo assustou. Alegaram o seguinte, que a meta da empresa era abrir oportunidades para quem já estava lá, e que a gente já estava na época de aposentar. Mas tanto eu como as outras todas queríamos continuar pelo menos uns dois anos. Mas por um lado foi bom: logo que eu aposentei minha mãe já estava de idade e começou a ter problema de saúde. Eu sou solteira, dos filhos a que tinha mais disponibilidade para cuidar dela era eu, veio a calhar uma coisa com a outra, porque eu não estava trabalhando e podia tomar conta dela mais direitinho.

 

P/1 – Esse primeiro lugar em que a senhora foi trabalhar onde era?


R – Ali na João Pinheiro, 620. Durante os vinte e oito anos que eu trabalhei na mesma sala, no mesmo departamento, na mesma função. Eu entrei como telefonista, fiquei sete anos trabalhando como telefonista, com o fone no ouvido, e depois de sete anos eu fui promovida para supervisora – na época falava monitora – cuja função era supervisionar o serviço das telefonistas. Aí eu fiquei dos sete anos para frente, até aposentar na função de supervisora.

 

P/1 – Como é que era essa sala?

 

R – Uma sala enorme, assim, bem ampla. Hoje dizem que está tudo mudado lá. Eu tenho encontrado com algumas das meninas da minha época que ainda trabalham lá e elas dizem que mudou tudo, está tudo diferente. Funcionava numa sala enorme, que era taco, aí depois teve uma época que foi uma bagunça total: arrancaram aquele taco e colocaram piso paviflex, aquela bagunça e a gente trabalhando com aquele fone no ouvido. Nessa época eu não era telefonista mais, mas quando o serviço apertava a gente sentava na mesa, colocava o fone e ajudava também. Eu lembro que nessa época que eles mudaram o piso, a gente quase ficava louca, porque era pedreiro trabalhando quebrando as paredes, estavam fazendo uma reforma total, aquela bagunça de poeira e barulho, e juntava o barulho ainda do fone... Era uma loucura!

 

P/1 – Como eram os equipamentos usados pelas telefonistas? 

 

R – Em 1963, quando eu entrei lá, era bem rústica a coisa – porque hoje está computadorizado, mas na época eram aquelas mesas de pega, de fio, com os buraquinhos lá na mesa, e cada buraquinho tinha uma localidade. Tinha tudo certinho e anotado o que era cada um. Quando o assinante discava o 101 para pedir a ligação, acendia uma luzinha: aí eu ia com a pega, atendia, e com o outro par da pega da mesma que eu atendi ele, eu completava a ligação. Era uma coisa muito difícil. Na época eu lembro que eu sofri para aprender o serviço. Tinha as encarregadas lá que ensinavam, as instrutoras, mas muita coisa você aprendia assim na marra, porque na hora do aperto não dava para perguntar para a colega do lado. Era um horror. Na época que eu entrei era tão difícil para fazer interurbano, que Uberlândia tinha horas pares para falar com determinadas localidades. Rio e São Paulo demorava seis, oito horas para você conseguir uma ligação. Você tinha que pedir de manhã para conseguir falar de tardezinha ou à noite. Eu lembro que em Uberlândia a nossa hora de falar era nas horas pares, oito, dez, doze... Horas pares eram horas de Uberlândia falar. Então a gente tinha que transmitir o bilhete todinho para Brasília – na época transmitia para Brasília. Era tudo manual, tudo escrito de caneta. Agora, hoje, pelo que as meninas me contam, está uma facilidade total: você dá só o comando e o assinante cai lá na mesa, você atende, não tem pega mais, não tem nada, é tudo computadorizado. Elas dizem que só dão o comando e a ligação já sai prontinha e o assinante fala. É uma maravilha, porque do jeito que foi na minha época e do jeito que está hoje, daqui a uns trinta anos para a frente, esse método agora vai estar superado também.

 

P/1 – Que bilhete era esse?

 

R – Um bilhete assim, quadradinho, assim desse tamanho assim. Nesse bilhete você preenchia os dados da ligação. Tinha aqui embaixo “de” e “para”. Então, vocês estava atendendo um assinante de Uberlândia, era tudo em código também, você colocava “de Uberlândia”, o telefone de Uberlândia, o nome da pessoa que estava pedindo a ligação, e lá ele em cima você colocava para onde ele queria falar, se fosse São Paulo ou Rio, e o número do telefone. Era tudo escrito, tudo manual, agora hoje está tudo facilitado. E a gente transmitia esse bilhete para Brasília, porque Brasília, na época, é que era a central que comandava e distribuía para as outras cidades. Brasília é que distribuía as ligações para a gente.

 

P/1 – Como esses bilhetes eram transmitidos?

 

R – Para a telefonista. A gente dava, era tudo através de sinal. Eu lembro que tinha quatro circuitos para Brasília: dois falavam de lá para cá, para a região aqui, e dois a gente falava daqui para lá. Para qualquer lugar do Brasil tinha que transmitir os bilhetes para Brasília, aí a gente dava um sinal, um toque na linha, Brasília atendia e a gente falava. Vamos supor, uma ligação para São Paulo: era tudo em código. Chamava Brasília e aí a telefonista de lá falava PTR que significa “pode transmitir”. Aí a gente transmitia o bilhete, era tudo na base de código. E tinha que ser uma coisa nacionalizada, porque se a gente falasse código que ela não entendesse... Então, a mesma instrução que tinha para nós, tinha para Brasília, tinha em diversas cidades. Falava tudo em código e cada um se entendia. E tinha um punhado de códigos: PTR é “pode transmitir”, CL é “cortou a ligação”, DPA é “determinada pessoa”, quando queria falar só com determinada pessoa, então a gente tinha que transmitir e dar o nome da pessoa com quem a pessoa estava querendo falar; aí a gente especificava que era uma ligação DPA. E TTR significava tarifa reduzida... tinha um punhado de códigos. Na época que a gente entrava tinha um manual próprio para decorar, tinha que decorar, a maioria era tudo decorado.

 

P/1 – Quando o assinante ligava o que a telefonista dizia para ele?

 

R – A gente atendia, acendia uma luzinha, colocava pega, atendia e falava “interurbano”, só falava “interurbano”. Hoje, acho que a pessoa se identifica, mas na época era proibido falar o nome. Houve caso de menina levar suspensão porque dava o nome para o assinante. Hoje não, hoje tem que atender e se identificar. Na época em que eu trabalhei era proibido falar o nome. Atendia e falava: “interurbano”. E o assinante falava: “Eu quero uma ligação para São Paulo”. Aí você falava: “São Paulo com que telefone?” Era tudo nos mínimos detalhes, falar a frase correta. “São Paulo com que telefone?” Aí ele falava e você perguntava: “Qual o número desse telefone?” Aí ele falava o dele. Aí você falava: “Quem vai falar?” e depois a gente anotava o nome e o número, tudo por escrito. Depois tinha uma mesa de tarifa, pois que esses bilhetes eram colocados num escaninho de madeira com várias gavetinhas. E você colocava os bilhetes em cada um, tudo separadinho, para São Paulo, Rio, outras localidades, era tudo separadinho. E tinha uma telefonista que ficava só nessa mesa para atender tarifa, isto é, dar a taxa do valor da ligação quando o assinante solicitava, e taxar os bilhetes, os bilhetes tinham que ser taxados, tarifados. Era tudo manual.

 

P/1 – Quem fazia a tarifação, portanto, não eram as telefonistas que atendiam?

 

R – Tinha uma telefonista específica para trabalhar nisso, era o 108. Primeiro era só uma que ficava cuidando na tarifa e as outras do interurbano; depois todo mundo foi passando pelo sistema de aprender tarifa. Aí, a cada semana colocava uma, fazia rodízio. O horário que a gente trabalhava era de seis horas, tinha horário de entrar, seis e meia da manhã, e saía meio dia e quarenta e cinco, porque a gente tinha quinze minutos para descanso. Mas depois a gente compensava, tirava quinze para tomar café, mas você trabalhava quinze minutos a mais. Agora, hoje, é tudo diferente também, hoje trabalha cinquenta minutos e descansa dez, parece.

 

P/1 – E a rotina da senhora era sempre das seis e meia às doze e quarenta e cinco?

 

R – Não, pois a gente podia trocar o horário. Eu gostava de trabalhar à noite ou então na parte da tarde. Você variava, podia variar. Teve uma época que proibiram troca de horário, não podia trocar o horário que você pegasse, escalado seu nome no quadro de horário, você tinha que fazer. Depois foi havendo umas reuniões lá e aí liberaram para trocar. Se arrumasse uma pessoa para trocar o horário comigo, ou então o dia da folga, eu podia trocar. No momento que eu me responsabilizasse, e a outra também, de não faltar, então a gente podia fazer as trocas. Se eu peguei o horário de manhã e eu queria num determinado dia trocar, eu trocava com uma colega, eu ia à tarde e ela ia no meu lugar, de manhã.

 

P/1 – Quantas pessoas era na seção?

 

R – Nessa sala eram umas cinquenta, por aí, umas quarenta e cinco ou cinquenta, só atendendo interurbano, porque na época não era DDD e a maioria das localidades, quase todas, dependia da telefonista. Então tinha serviço demais da conta. Hoje é que está bem mais facilitado.

 

P/1 – O que a senhora chama serviço demais da conta?

 

R – Por exemplo, Dia das Mães, dia de Natal... Nossa Senhora, a gente morria de trabalhar – no Dia das Mães principalmente, mais do que Natal. Mas era uma loucura. E quando calhava de cair num domingo, o pessoal já era reduzido e aí que apertava mesmo. Às vezes faltavam uma ou duas meninas, e aí quem estava lá trabalhando se matava de trabalhar. Tinha bastante serviço na época que eu trabalhei lá, Nossa Senhora!

 

P/1 – Como é que se convencia o assinante que a demora da ligação era justificada?

 

R – Eu acho que todo mundo já sabia. Parece que o pessoal já estava sabendo que havia essa demora, todo mundo divulgava. Mas tinha uns que não aceitavam, não, tinha uns que brigavam e xingavam e você tinha que fazer das tripas o coração para conseguir.

 

P/1 – E quando acontecia isso?

 

R – A gente chamava a telefonista-chefe de Brasília, porque, no caso, dependia tudo de Brasília. Aí na hora em que você transmitia o bilhete para ela, você tinha que falar o horário que o assinante pediu aquela ligação. Então, você ia falar para ela que o assinante pediu tal hora, mas que era um caso de urgência, aí ela ia saber da chefia dela se podia passar aquele pedido na frente ou não. Dependendo, aceitava passar na frente quando era caso de morte, uma coisa assim, um aviso de morte, uma coisa muito urgente, caso de doença grave... Mas se não, era tudo controlado pelo horário que o pessoal pediu.

 

P/1 – Por que demorava tanto?

 

R – Porque não tinha os canais, dependia tudo de Brasília. O Brasil inteiro depender do circuito que Brasília tinha para fazer as chamadas, então eu acho que era muita gente querendo falar e não tinha linha, aí acumulava tudo. 

 

P/2 – Levava um tempão para começar a pedir esses dados e depois passar a ligação também, não levava?

 

R – Levava. 

 

P/1 – A senhora tinha que conversar com o assinante e levantar todas essas informações?

 

R – Não, ele já pedia a ligação, a gente atendia ele já falava: “Eu quero falar em São Paulo”, e aí você já pegava o telefone de São Paulo, o telefone dele, e já informava a demora. A gente falava assim: “Haverá uma demora aproximada de mais ou menos seis horas”.

 

P/1 – Mas como calculava essas seis horas?

 

R – Pelo horário que ele estivesse pedindo a ligação. Por exemplo, agora, uma e quarenta, ia demorar aproximadamente seis horas, então daí a seis horas é que ele ia falar.

 

P/1 – Então a senhora completava a ligação e ligava para...?

 

R – É. E na hora que Brasília completava, que a telefonista chamava o assinante, para pôr ele na linha... Era PA, agora eu estou lembrando, PA é o código que significa “pronto para atender”. Ela falava: “Coloca o senhor Fulano de Tal aí na linha para falar com São Paulo”. Ela então já falava o telefone dele e eu chamava ele aqui. Quantas e quantas vezes a ligação lá prontinha e o daqui saiu de casa, não estava. Aí era um caso de polícia, porque Brasília xingava a gente, era um rolo. Era difícil demais da conta, na minha época eu penei.

 

P/1 – Não tinha contato direto com o público?

 

R – Não, com o público não. Só as meninas que trabalhavam no PS, o Posto de Serviço, em que os assinantes iam lá para pedir a ligação, então essas tinham contato direto. Mas a gente, lá em cima, era no segundo andar, na nossa sala lá, não tinha contato nenhum com o assinante, contato pessoal não. Mas o que a gente escutava de coisa, de palavrão, de tudo... Escutava de ouvido.

 

P/1 – Não tinha nem como responder?

 

R – Não respondia, não podia. Na época que eu entrei lá na Telefônica, tinha dois quadros nessa sala que me chamaram muita a atenção, desde o primeiro dia. Um quadro era um desenho, um tipo de um espírito, de uma alma, escrito assim uma frase: “Lembre-se que os outros não são culpados pelo seu mau estado de espírito.” Um outro quadro, bem grande, escrito assim: “Trate bem o assinante: é ele quem paga o seu salário”. Isso me gravou bem, qualquer coisa que dava vontade de xingar, você olhava o quadro lá e refreava. Era fogo!

 

P/1 – Os quadros ficaram lá todo o tempo que a senhora esteve lá?

 

R – Durante o tempo todinho que eu trabalhei esses quadros ficaram lá. Na época, qualquer coisa, você via uma menina nervosa lá, você apontava para o quadro.

 

P/1 – Não havia nenhuma telefonista que perdia as estribeiras?

 

R – Havia, houve muitas. Muitas foram mandadas embora por isso. Antigamente era um regime quase que militar lá dentro, era muito rigoroso. Tanto é que você não podia nem falar seu nome. Se pegasse batendo papo, conversando coisa fora do serviço, era chamada a atenção. Teve muita menina que chegou a perder o emprego por causa de ser ríspida com o usuário, ou mesmo com as colegas. Teve caso de menina ser mandada embora, porque quando a gente entrava, a gente assinava um regulamento interno da empresa. E nesse regulamento constava saber atender bem o usuário, não falar gíria, não falar palavrão, muita coisa lá no regulamento. E muitas às vezes saiam fora. Quando acontecia, dava carta de advertência, outra era suspensa, uma chegou a ser mandada embora por causa disso.

 

P/1 – Por ter respondido mal?

 

R – Por ter respondido mal. O assinante depois chamou e reclamou com a chefia. Foi uma confusão.

 

P/1 – O regulamento dizia alguma coisa específica sobre o assinante mal educado?

 

R – Como toda empresa, a meta dela é assim: você pode estar morrendo de raiva, mas o assinante tem sempre razão. Você tem que fazer de tudo para o assinante entender que você está ali para servi-lo da melhor maneira. Muitas meninas não aceitavam isso, não. Eu lembro de uma vez, um fato engraçado: nessa época o Doutor Luiz tinha a sala dele ali ao lado, separada por um biombo, na mesma sala nossa tinha um biombo e ele ficava sempre lá. Nas fitinhas, nas posições, tinha discriminado o nome da localidade e, assim, BL era Doutor Luiz, e os quadradinhos assim escrito. Aí você colocava a pega, dava o sinal e ele atendia o telefone. Teve um dia que a menina uma vez, em vez de ligar no PS – que era pertinho, no posto de serviço, lá embaixo – a menina ligou o BL, o telefone do Doutor Luiz, e deu um toque. Aí ele atendeu e ela, tão avoadinha, na hora em que ele atendeu ela nem percebeu que estava ligado no Doutor Luiz, aí diz que falou para ele assim: “Olha, depois você vem aqui que eu tenho uma boa para te contar”. O Doutor Luiz foi querer saber quem era essa menina, que chamou lá e falou para ele que tinha uma boa para contar para ele. Foi aquele auê para descobrir. Mas quem diz que achava? Ninguém queria identificar quem era, foi um rolo. Eu lembro disso direitinho. Depois não deu em nada, mas o Doutor Luiz chamou a atenção da monitora que estava na sala.

 

P/1 – Como era o trabalho da monitora?

 

R – A monitora ficava atrás das telefonistas, elas sentadas nas cadeiras e a gente andando para lá e para cá, atrás delas e olhando e supervisionando o serviço. Quando a localidade chamava, outra cidade que dependia aqui do nosso serviço, acendia uma luzinha vermelha. Então você olhava no painel assim e o que tinha numa posição, tinha nas outras todas. Eu lembro que eram trinta e duas posições. O que acendia nessa aqui acendia em todas as outras, era simultâneo, aí se eu atendesse em uma, apagava em todas as outras. Em geral eu olhava e, se tivesse muita lâmpada vermelha acesa, é porque tinha várias localidades chamando e esperando para serem atendidas. A gente supervisionava o serviço delas assim, se a gente visse que tinha uma conversando com a outra colega do lado em vez de atender o sinal, a gente chamava a atenção: “Fulana, olha, está chamando ali, atende aí”. E com isso você era taxada de enjoada, que pegava no pé. Tinha uma lá que me detestava, porque eu chamava mesmo a atenção dela. Se a gente não chamasse, a chefia vinha e cobrava da gente, a responsabilidade caía toda em cima da monitora, porque qualquer coisa que acontecesse no horário em que eu estivesse de monitora, vinha tudo em cima de mim. Para eu não ser chamada a atenção, eu chamava a atenção delas. E tinha umas lá que não gostavam de jeito nenhum: “Você pega demais no pé, você é enjoada demais, você é caxias demais”. A gente tinha que saber lidar, porque todo serviço tem gente de todo jeito, todos os gênios. Não foi fácil não.

 

P/1 – A senhora se lembra de uma situação de grande dificuldade?

 

R – Quando eu era monitora eu tive uma. Foi uma coisa muito chata que aconteceu. Uma moça, ela trabalha lá até hoje, ela arrumou um namorado uma época, eu acho que é o pai da filha dela. Na época em que ela namorava com ele, ele era presidiário. 

Eu sei que foi uma confusão tão grande, eu estava de monitora, no dia e na hora do acontecido. Eu sei que eu era para ser mandada embora e ela também era para ser mandada embora, depois a gente conversou com a chefia. Eu sei que ela chamou no presídio, fez uma ligação clandestina, e eu, como estava de monitora, fiquei responsável por isso também. Eu não lembro direito os detalhes, só sei que tanto eu como ela passamos um apuro, porque o diretor do presídio pegou o cara conversando e queria saber onde e com quem ele estava conversando. Eu sei que veio à tona o negócio. A chefia nossa aqui também ficou sabendo, foi o maior rolo do mundo na época. Eu não lembro assim direitinho os detalhes, não. Sei que ela ganhou uma suspensão de três dias e eu ganhei uma advertência, mas ninguém foi mandado embora.

P/1 – Era possível fazer uma ligação clandestina?

 

R – Era possível, mas se alguém descobrisse era caso de mandar embora. Muitas meninas lá foram pegas fazendo isso. Pouco tempo antes de eu me aposentar, inventaram uma mesinha de fiscalizar, de escutar. Aí nós, as monitoras, a gente trabalhava em duas no mesmo horário, e uma sempre ficava nessa mesinha fiscalizando. E você pegava muita coisa errada. Mesmo a gente chamava atenção da menina, eu contornava, muita coisa ali dentro eu contornei: chamava a menina em particular, conversava. Mas tinha umas lá que era mesmo assim: quando pegava mandava embora na hora. Eu não gostava muito disso, não. Sei lá, eu tinha muita dó das meninas, tanto é que elas gostavam muito de mim. Tinha umas que me achavam meio caxias, diziam que eu era enjoada, que pegava no pé. Mas se não fosse, eu é que ia ser taxada. Mas foi muita coisa positiva, teve uns pontos negativos, todo serviço tem, mas eu gostei demais de trabalhar na CTBC. Foi minha vida, porque foram vinte e oito anos.

 

P/1 – Ali era o lugar onde trabalhava o seu Alexandrino?

 

R – Era, mas a sala dele era embaixo. A gente trabalhava sempre no segundo andar, a sala dele era embaixo, ali no térreo, logo que entrava. Ele trabalhou muito ali.

 

P/1 – Ele frequentava a sala das telefonistas?

 

R – De vez em quando ele dava uma volta por lá. O Doutor Luiz ia mais; seu Alexandrino, poucas vezes. Seu Alexandrino era muito assim, enérgico, eu quase não via ele andando por lá, mas ele ficava muito na sala dele. Na época do Dia da Telefonista, que é 29 de junho, o Doutor Luiz sempre ia lá na nossa sala e cumprimentava a gente. Foi no ano que eu entrei lá, eu entrei em abril, quando foi em junho teve a Festa da Telefonista. Foi uma festa bacana demais, eu lembro que foi no terraço, em cima de onde a gente trabalhava. Fizeram uma fogueira artificial, tinha salgadinho à vontade, cada coisa gostosa demais. E a gente ganhava tanto presente na época, que as empresas mandavam... Eram menos telefonistas, eu sei que não tinha nem cinquenta nessa época, ai mandavam. Foi no primeiro ano que eu trabalhei. E foi preciso ir gente de carro lá para me ajudar a trazer as coisas. Ganhava uma cesta básica completa, caixa de bombom, muita coisa. Agora não ganha nada.

 

P/1 – Era uma relação mais próxima com as telefonistas?

 

R – Era. Hoje em dia está muito mudado.

 

P/1 – Havia uma certa resistência das pessoas com relação à mulher que trabalhava fora de casa. E mulher que trabalhava à noite? E telefonista?

 

R – Quando eu entrei foi preciso minha mãe assinar lá um termo se responsabilizando, porque eu era menor, mas sempre houve telefonista mulher. Aí, uns tempos depois que eu entrei, começaram a admitir homens. Foi engraçado. Começaram a admitir rapazes para telefonista, aí o horário de plantão, que era da meia noite às seis horas da manhã, era coberto por homens – só homem que fazia esse horário. Mas homem não sei, não... eles bagunçavam, mas as meninas trabalhavam. Às vezes elas trocavam e não gostavam muito. Tinha um que cochilava, tinha um sono pesado e mais, dava um trabalho para acordar ele. 

 

P/1 – Como encarar a virada de noite?

 

R – Tinha umas meninas lá que gostavam de trabalhar só nesse horário, tanto é que quando as outras pegavam esse horário elas sempre pediam para trocar, e a chefia autorizava. Trabalhavam, acho, em outro serviço durante o dia e não se importavam de trabalhar à noite.

 

P/1 – Dava para ter dupla jornada de trabalho?

 

R – Tinha umas meninas, duas ou três, que parece que trabalhavam em dois serviços.

 

P/1 – Vocês eram reconhecidas na rua?

 

R – Não, na rua não. Mas na época do Dia da Telefonista era muito festejado. As empresas mandavam presente, mandavam lembrança, telefonavam, chamavam lá, cumprimentavam. Nós éramos reconhecidas nesse dia.

 

P/1 – Nesse momento que a senhora está descrevendo, a telefonia local era automatizada? Não tinha a interferência da telefonista para completar ligações locais?

 

R – Até há pouco tempo, eu não tinha aposentado ainda, tinha uma mesa de telefone semi-automático. Acho que hoje não tem mais não. Funcionava através da telefonista. Por exemplo: eu pegava o meu telefone, queria falar no telefone semi-automático, aí eu ligava, no caso, o 106. Aí a telefonista atendia e eu pedia: “Me liga no 1065”, aí ela que ligava. Antes de eu aposentar ainda tinha essa mesa lá, agora hoje acho que já automatizou tudo. Falava telefone semi-automático, porque dependia da telefonista para fazer a ligação, aqui dentro da cidade mesmo.

 

P/1 – A senhora se arrependeu em algum momento de ter abraçado essa profissão?

 

R – Não, arrepender não. Eu passei muitas raivas lá, trabalhei doente, já trabalhei com chuva, tinha que ir, não tinha feriado, a folga era uma folga por semana. Então, por exemplo, você deixava muita coisa de lado por causa do serviço. Fim de ano não podia ir a uma ceia de Natal, participar com sua família, porque você tinha que ir trabalhar. Então eram umas épocas assim, que tinha que ir de qualquer jeito, com chuva ou com sol, com cólica, doente, tudo, você tinha que ir. Então foi assim: passei muita raiva lá, tinha muito assinante educado mas tinha uns que Nossa Senhora! Passava muita raiva, todo dia, mesmo com os assinantes e com as colegas. Muitas que não tinham bom entendimento passavam muita raiva na gente. Mas arrepender, não. Não arrependo não.

 

P/1 – Como que era o sistema de folgas?

 

R – Tinha uma por semana. Primeiro você folgava dois domingos, dois domingos você trabalhava, e depois tinha folga durante a semana também. Num mês você folgava numa terça-feira, no outro você folgava numa quarta, e sábado e domingo você trabalhava. Mas tinha sempre dois domingos que você folgava. Se você quisesse trocar com a colega também podia trocar, de sábado para domingo ou de domingo para sábado. Se você arrumasse alguém para trocar você podia trocar.

 

P/1 – E quantas horas de trabalho por dia?

 

R – Seis horas que a gente trabalhava, trabalhava seis horas e quinze minutos, porque descansava quinze mas depois pagava os quinze de novo.

 

P/1 – O que a senhora fazia no resto do dia?


R – Eu ajudava em casa. Nessa época, quando eu entrei para lá, foi em 1963, a gente morava aqui na rua Indianópolis. Na outra parte do dia, que eu não estava trabalhando, eu ajudava minha mãe no serviço de casa.

 

P/1 – Como é que era Uberlândia nessa época?

 

R – Muito diferente de hoje, não tinha tanto movimento nem tanta violência igual tem hoje, era mais tranquilo. Eu lembro que no começo eu demorei a pegar horário à noite, logo quando eu entrei eu trabalhava só durante o dia. Quando foi para eu pegar o horário que saía às dez da noite, sempre minha mãe ou às vezes um dos meus irmãos iam me buscar. Depois eu mesma passei a vir sozinha para casa, porque tinha colegas que moravam perto e a gente vinha junto. Depois teve uma época que eles colocaram uma condução, uma perua, para entregar a gente. Aí nessa época a gente já saía mais tarde, saía quinze para a uma da manhã, entrava seis e meia e saía quinze para uma da manhã. Teve uma época também que a gente dormia lá, tinha um dormitório. Logo quando eu entrei tinha um dormitório lá, mas era uma farra. Eu já dormi lá, mas eu não gostava de jeito nenhum.


P/1 – Por que não?

 

R – Eu não sei... Eu sou muito “cri-cri” para dormir, tem que ter silêncio e nenhuma claridade, se tiver uma luzinha acesa ou um cochicho perto de mim, eu não consigo dormir. E tinha umas meninas que eram custosas demais: ficavam conversando, contando piada. E eu falava: “Gente, vamos dormir!” E nada das meninas calarem a boca. Meu Deus do céu, era uma penitência!

 

P/1 – E quantas pessoas que ficavam ali?

 

R – Todo mundo que saía. Saía a turma toda às quinze para uma da manhã e entrava três só para fazer o plantão de quinze para uma até quinze para as sete da manhã. Nesse horário ficavam só três. E no dormitório eram uma vinte e cinco ou trinta, tinha até cama-beliche, umas dormiam embaixo outras em cima. Depois fizemos uma reunião lá e eles precisaram da sala lá também, onde era o dormitório, para fazer não sei o quê. Aí foi quando colocou a perua para trazer a gente em casa. Mas eu peguei ainda esse tempo de dormir lá.

 

P/2 – Onde era essa sala?

 

R – É ali, na João Pinheiro, em cima do segundo.

 

P/1 – Onde vocês comiam? Tinha um refeitório?

 

R – Tinha um fogão lá e a gente fazia assim: combinava de cada um levar uma coisa. A gente gostava muito de fazer sopa, uma levava repolho, chuchu, pimentão, tudo que usa na sopa, carne moída... E aí chegava lá e escalava uma para ir fazer a sopa. Era gostoso nessa época. Quando eu saí de lá já tinha proibido esse negócio de fazer sopa, acho que estava gastando gás demais. E as meninas inventavam: “Vamos fazer isso assim, assim?” Cada uma levava uma coisa e fazia. Na hora que o serviço acalmava, a gente ia lá dentro e era gostoso: fazia arroz com linguiça, fazia galinhada. Hoje isso acabou.

 

P/1 – Isso para o almoço?

 

R – Era mais à noite que a gente fazia, porque à noite, dava um certo horário, o serviço já ia diminuindo, das oito da noite em diante era tarifa reduzida, primeiro era das vinte horas, agora é vinte e um horas. Era dar oito horas da noite e o serviço fervia, de oito até às nove e meia, por aí, era aquele sufoco. Às nove e meia, dez horas, já ia acalmando. Depois, na hora que acalmava bem, é que as meninas iam lá para a cozinha fazer a sopa. Era gostoso demais.

 

P/1 – As telefonistas chegavam a alertar algum diretor da companhia sobre o serviço estar ficando pesado demais?

 

R –É, a gente falava, mas eles falavam que não tinham condição de pôr mais gente. Aí dava um desgaste muito grande em quem estava trabalhando, principalmente em época de Natal e Dia das Mães, que dava serviço demais. E depois que eles foram vendo que tinha muito serviço nessas datas, então, chegava nessas datas e a chefe fazia um horário especial, colocava mais gente para dobrar o horário. Por exemplo, se eu trabalhei de manhã, se eu pudesse trabalhava à noite também para reforçar o horário da noite. Muitas vezes eu fiz isso: trabalhava de manhã e à noite ia para ajudar, porque era serviço demais. Uma vez também foi um sufoco danado: deu um incêndio lá, eu não sei se vocês ouviram falar desse incêndio, foi num depósito de papel lá embaixo. Eu não sei o que aconteceu, eu sei que eu estava trabalhando, mas foi um sufoco grande, parou rádio-patrulha, foi aquele sufoco lá, porque começou a fumaça e o povo da rua ligou para o Corpo de Bombeiro. Eu sei que virou aquela coisa, aquela confusão. Aí eu lembro que o seu Ataide, que era o chefe na época, chegou lá na sala e falou: “Gente, atenção!”, bateu palma assim e falou: “Atenção, deixem as mesas, tudo do jeito que está, e desce todo mundo. Peguem suas bolsas e desçam”. Na hora que eu cheguei lá, eu fui arrastada, nem sei como que eu desci aquelas escadas para chegar lá embaixo. Aí a notícia que estava lá embaixo é que já tinham morrido cinco telefonistas queimadas, mas era mentira, não teve nada disso não, graças a Deus. Foi um prejuízo danado na época, não sei o que queimou ou o que provocou, mas foi uma confusão.

 

P/1 – Você se lembra que ano foi isso?

 

R – Não lembro que ano que foi não. A hora que ele falou “deixa as mesas do jeitinho que está e desce”, todo mundo pensou que o fogo já estava aqui. Aí virou aquele tumulto para descer, uma correria.

 

P/1 – Durante o dia era mais as ligações comerciais e, à noite, as pessoais?

 

R – Durante o dia tinha mais comercial mesmo, à noite era mais ligação para a família. Às vezes tinha negócio também durante a noite, porque nessa época se falava com São Paulo com demora de seis horas, e às vezes a pessoa já ligava e deixava algum recado que amanhã telefonava em tal hora, mais ou menos. Tinha isso também, mas comercial era mais durante o dia mesmo.

 

P/1 – Essas demoras eram garantidas? Quer dizer, se a senhora dissesse que o telefonema ia demorar seis horas, seis horas depois tinha com certeza?

 

R –Nem sempre, não era garantido não, porque muitas vezes a gente emitia bilhete para Brasília e Brasília falava de demora de aproximadamente seis horas. Mas eu transmitia, por exemplo, vinte ligações para ela e todas com demora aproximada de seis horas, e iam vencer todas quase que no mesmo horário. E tinha ligação em que o usuária falava vinte, às vezes trinta minutos. Aí atrasava tudo, atrasava as outras ligações. Então, não era garantido, não. A gente falava aproximadamente seis horas mas nem sempre a pessoa conseguia naquele mesmo dia. Aí tentava de novo no outro dia.

 

P/1 – Como é que se fazia negócio com uma situação assim?

 

R – Pois é, eu nem sei como, porque era difícil. Não se conseguia com rapidez de jeito nenhum. Sei lá o que o povo fazia, mas a demora só não tinha quando era caso de morte. Uma vez uma a mulher – eu lembro direitinho, foi uma confusão – a mulher falou que era um caso de morte, porque não sei o quê e tinha que falar, que era um caso de morte... Aí passou a ligação dela na frente e, fomos ver, era para anunciar que o cachorrinho dela tinha morrido. A chefia de Brasília reclamou, mas como que a menina ia saber que a mulher ia falar que o cachorro tinha morrido?

 

P/1 – E para as localidades mais próximas, onde a CTBC já estava operando, as ligações eram demoradas assim?

 

R – Tudo dependia de Brasília. Para Brasília completar era demorado, não conseguia, porque Brasília era o centro de todas as chamadas do Brasil inteiro. Todo mundo transmitia os bilhetes lá para Brasília, então acumulava tudo lá. Eu sei que não se conseguia rapidez de jeito nenhum.

 

P/1 – Uma ligação daqui para Uberaba, por exemplo, para Pato de Minas, passava por vocês também?

 

R – Passava pela gente também. Só o que dependia de Brasília era São Paulo, era Rio, era cidade mais longe, Belo Horizonte também. Mas aqui na região nossa eu não lembro como que era. Tinha o circuito de Uberaba que falava com a CTMG, Companhia Telefônica de Minas Gerais, aí Uberaba é que ligava. Essas localidades todas aqui da região era através de Uberaba, não tinha direto de Uberlândia para Pato de Minas, a gente tinha que ir através de Uberaba, Uberaba é que ligava.

 

P/1 – O assinante fazia o pedido e vocês ligavam para lá?

 

R – Para Uberaba e Uberaba é que completava.

 

P/1 – Era o mesmo nível de demora?

 

R – Não, aqui na região não era esse tanto de demora não. 

 

P/1 – O que a senhora acompanhou de evolução desse sistema, nesses anos todos que a senhora passou na CTBC?

 

R – Quando eu saí, já estava bem, estava uma maravilha em vista de quando eu entrei. Quando eu entrei era esse sistema manual, de bilhete, tinha que escrever tudo manual. Quando eu saí já era um sistema chamado SEBIU, Sistema de Eliminação de Bilhetes Interurbanos, então esse sistema eliminou o bilhete, era uma maquininha, tipo uma calculadora assim, compridinha, e em cada mesa tinha essa maquininha. Aí tinha as letras A, B e um numeral, igual número de telefone, e umas outras teclas com outros comandos. Aí você atendia o assinante, mas não registrava nem escrevia nada, só teclava nesse aparelhinho e tinha uma bobina tipo de uma calculadora, e ia saindo tudo nessa bobina. Você batia a tecla “imprime” e aí imprimia e saía na fita. A função nossa de monitora, no final do horário, a gente destacava todos esses rolinhos de fita, desfiava ele assim, e ia olhando ligação por ligação, para ver se tinha erro. Se tivesse, a menina corrigia na hora.

 

P/1 – Que tipo de erro poderia ocorrer?

 

R – Por exemplo, colocarem os códigos errados. Porque aí você não ia escrever nada mais, você ia jogar tudo código. Uberlândia, eu lembro que era 9852; Uberaba era 9842. Então você ia só colocar os códigos numéricos. Tinha códigos numéricos, tinha os códigos dos assinantes A, por exemplo, era o que pedia a ligação; o assinante B era para onde ele estava pedindo a ligação. Então era tudo assim. Quando eu saí era esse sistema, SEBIU. Agora já trabalha com um outro equipamento e esse SEBIU já está superado há muito tempo. Agora, as meninas me falaram outro dia, é um sistema em que não escreve nada, não tem bilhete, é tudo computador. Você só dá o comando e a ligação sai prontinha, evoluiu bastante.

 

P/1 – Telefonistas como existiam também não existem mais.

 

R – Não, hoje está tudo diferente. De vez em quando eu encontro com essa menina, com essa Jerônima, ela trabalha lá até hoje. Tanto é que ela aposentou e foi transferida lá para o Call Center. Ela estava me falando que não tem mais nada do jeito de antigamente, mais nada. Hoje em dia é tudo diferente.

 

P/1 – A senhora teria vontade de trabalhar hoje?

 

R – Não, acho que eu não tenho mais cabeça para aguentar aquilo. Você conhece o Hamilton? Ele foi nosso chefe lá. Quando eu trabalhava, teve uma época que ele foi chefe nosso, ele está lá na Call Center. Minha sobrinha que trabalha lá no bar, numa lanchonete lá do Luiz, o Luiz é meu sobrinho, a Márcia, que é irmã dele, é minha sobrinha também, ela outro dia estava me contando que encontrou com ele, e ele falou: “Fala para a Terezinha vir aqui que eu arrumo qualquer coisa para ela. Ela não pode parar de trabalhar, ela está na ativa ainda”. Mas eu acho que eu não aguento mais não, foram muitos anos, vinte e oito anos, depois eu saí, minha mãe já começou a adoecer, deu muita preocupação. Agora eu mudei, tenho um apartamento lá na Quinze de Novembro, eu aluguei o outro apartamento, meu irmão morava aqui, só minha mãe e meu irmão, aí minha mãe faleceu, aí, para ele não ficar sozinho aqui, nem eu sozinha lá, eu aluguei lá e vim para cá. 

 

P/2 – Percebe-se pelas pessoas que trabalhavam naquela época que era muito difícil ter alguém que aposentou e trabalhou como telefonista e que esteja casada. Tinha algum tipo de dificuldade em se casar?

 

R – Naquela época tinha, só algum tempo depois que eu entrei é que começaram a aceitar. Até então, se casasse tinha que sair. Então, como você fazia? Às vezes você era o arrimo de família, na sua casa, e tinha que ajudar nas despesas. Eu não casei não foi por isso, não sei, mas acho que tem coisa a ver. Porque geralmente a pessoa esta lá trabalhando, ganha o salário, ajuda em casa a manter as despesas, às vezes tem um pai doente, uma mãe doente, vai passando o tempo e passa a oportunidade de casar. E acontece mesmo isso. Mas tem a Lenir, por exemplo, que casou depois que ela saiu de lá. Quem mais casou? Da minha época lá, a Cidinha, a Cida Lopes, casou antes de sair. Eu sei que tem caso que deve ter alguma coisa a ver, como eu falei, a gente trabalhava em fim da semana, você deixava uma festa para ir trabalhar, você perdia muita oportunidade de convívio social, de participar de alguma coisa, porque tinha aquele horário que você tinha que ir trabalhar, não tinha como não ir.

 

P/1 – Era uma norma não ser casada?

 

R – Não. E se ficasse grávida também, era rua, mandavam embora. Depois de um certo tempo que eu já estava lá, eles passaram a aceitar. Mas logo assim que eu entrei, se ficasse grávida era mandada embora. Teve caso de menina lá que eu conheci que ficou grávida e que foi mandada embora.

 

P/1 – Talvez porque tivesse que dividir atenção do trabalho?

 

R – É, ou então por causa da licença maternidade que acarreta, sei lá...

 

P/2 – Naquela época era mais difícil para a mulher casada trabalhar, ter filho e ter com quem deixar a criança?


R – É.

 

P/1 – A senhora trabalhou com a dona Ilce?

 

R – Eu trabalhei na época em que ela trabalhava lá. Ela não está mais lá? Se aposentou? Eu trabalhei com ela lá. Eu lembro que quando eu estava lá ainda fizeram uma festa para ela, de vinte e cinco anos, de bodas de prata de serviço. Eu não sei quantos anos ela trabalhou, mas ela trabalhou na minha época, quando eu entrei ela já estava lá.


P/1 – A senhora se lembra de ter convivido com ela?

 

R – Não, porque ela trabalhava na parte de escritório, no departamento de finanças, parece, na tesouraria. Aí foi só no departamento de tráfego que eu trabalhei, só setor de interurbano. Durante os vinte e oito anos todinho foi só nesse departamento.

 

P/1 – Ela começou como telefonista também.

 

R – Foi.

 

P/1 – De vez em quando ela ia conversar com vocês?

 

R – Ia, de vez em quando ela ia lá, conversava com a gente, mas ela ficava mais à parte, o escritório dela era embaixo. Eu não tinha muito contato, mas ela é do meu tempo.

 

P/1 – A senhora se lembra de algum momento que tenha sido particularmente confuso no seu trabalho? Ou alguma situação de calamidade, de pane no sistema de telefonia?

 

R – O que eu me lembro foi nesse dia do incêndio. Foi um tumulto total, porque todo mundo que estava trabalhando deixou as mesas do jeito que estava e desceu. Daí a duas horas depois é que voltou tudo a normalizar. Foi um tumulto total.

 

P/1 – Depois os telefones continuaram a funcionar?

 

R – Continuou funcionando, mas aí sobrecarregou demais, já era difícil e ficou mais difícil ainda. O que eu me lembro de dia de sufoco foi no dia desse incêndio lá.

 

P/1 – Como tratar o usuário numa hora dessas? 


R – Ele não está querendo saber se esta pegando fogo ou se está deixando de pegar. Aí, na hora em que voltou a funcionar, quando falaram que não tinha mais perigo, que já estava tudo sob controle, aí a gente foi subindo de novo. Muitas telefonistas foram embora, não quiseram nem saber, mas eu lembro que eu voltei a trabalhar. Nossa Senhora, foi um caos total! Chegamos lá em cima e aquilo tudo piscando, estava tudo aceso, tudo vermelhinho de lâmpada piscando, assinante xingando... E aí o que você ia falar? Para ficar dando explicação de um por um não tinha como. Aí seu Ataide chegou e falou: “Não entra em detalhe, só fala que houve um problema, que agora já está normalizando. Não fica dando explicação senão vocês vão ficar a tarde inteira só explicando”. Aí foi voltando ao normal, mas na hora que a gente atendia a pessoa reclamava: “Suas vagabundas!”,e xingavam. “O que vocês estão fazendo aí? Estão dormindo?” Aí você tinha que ter controle para não xingar também.

 

P/1 – Numa hora dessas, quando vocês não estavam lá, o que o usuário ouvia? Só o sinal de chamada?

 

R – É. Ele chamava mas ninguém atendia, e quando alguém atendeu depois que normalizou, umas duas horas depois, que a gente subiu, aí muitas meninas foram embora, ficaram assustada demais e não voltaram. Quem subiu ficou aguentando as pontas até chegar a outra turma e pegar o rojão do jeito que estava.

 

P/1 – O usuário ligava qual número para falar com vocês?

 

R – 101, para pedir interurbano, e 102 era para informação. Funcionava tudo na mesma sala, só que em mesas diferentes. 105 era o PBX geral, acho que é até hoje, e para pedir interurbano mesmo era 101. 108 era tarifa. Tinha 103, 104, mas só que atendia em outra sala. Só o 101 e 102 funcionavam na mesma sala. Hoje parece que o 102, 103, 105 estão todos lá em cima, no Call Center. Só o 101 continua aqui.

 

P/1 – Os pedidos de informação, a telefonista ia na lista para responder ao usuário?


R – Na minha época tinha um fichário, assim, um tipo de um giratório, com umas fichinhas colocadas dentro de um canudinho de plástico durinho. Aí você tinha umas placas desse tamanho assim – era um giratório – por letra alfabética. Ele pedia a informação, depois tinha a lista também, mas tinha muita coisa que não constava na lista e constava nesse giratório. E na época que eu entrei tinha uma menina que ela trabalhava fixa na informação, a Maria Abadia Sousa, ela era um catálogo ambulante. Tudo que você perguntava para menina, a menina sabia, era incrível! Não sei como que ela guardava tanto número. Qualquer coisa que você perguntava ela sabia. Depois foi só o que não constava na lista que constava nesse giratório. A gente consultava o giratório e dava a informação.

 

P/1 – Esse giratório era alimentado com novos dados?

 

R – Era, sempre que instalava um telefone. A lista estava pronta e tinha um pessoal que mexia com isso, que passava para a informação esses números novos que não constavam na lista. À medida que ia chegando o fim do ano, já ia incluindo na lista, ia tirando aqueles números do giratório e jogando fora. Mas sempre tinha esse giratório.

 

P/1 – A senhora se recorda quando foi instalado o DDD?

 

R – Não lembro quando foi, mas foi uma beleza. Eu estava ainda trabalhando, até essa época tudo dependia de a gente transmitir o bilhete para Brasília. Na hora que entrou o DDD já facilitou demais, porque o assinante não pedia mais para a gente: já discava direto, era outra coisa. Aí foi diminuindo e remanejando, o pessoal e muitas telefonistas foram para outra função. Eu sei que na época diminuiu bastante o serviço para nós, mas não mandou ninguém embora por causa disso, não.


P/1 – Mas continuou sendo prestado o serviço via telefonista?

 

R – Continuou, porque nem todas as localidades passaram para DDD. Tinha essas corrutelinhas tudo por aqui, que dependia da gente e que eu acho que até hoje ainda não tem DDD... Eu nem sei, já tem oito anos que eu saí de lá, mas tem ainda algumas cidadezinhas que não tem DDD.

 

P/2 – Muito poucas, mas muitas às vezes não têm DDD entrante, não têm DDD sainte...

 

R – É.

 

P/1 – As ligações que vinham dessas cidadezinhas, que estariam menos acostumadas à utilização do telefone, davam mais trabalho para entender?

 

R – Dava, porque tem uns assinantes, tadinhos... que não entendiam. Você falava de um jeito que ele não entendia, você trocava em miúdo ele também ficava boiando. Você tinha que ter um jogo de cintura para conversar com certo tipo de assinante...

 

P/1 – E qual era o segredo para atendê-lo bem?

 

R – Tinha que explicar nos mínimos detalhes, tudo direitinho. Tinha uns que você falava de um jeito ele ficava assim: “O quê?” “A senhora quer falar onde?” “Eu quero falar com o Fulano”, e falava o apelido da pessoa. “Não, mas a senhora tem que falar o nome da pessoa”.

 

P/2 – Acontecia de usar uma referência, por exemplo, do Zé da Venda?

 

R – Acontecia, principalmente nessas cidadezinhas bem pequenas em que o pessoal é muito conhecido só por apelido. Em Canápolis, a menina que trabalhava lá no posto de serviço, ela chama Maria – acho que ela aposentou - ela conhecia todo mundo por apelido. Você perguntava sobre Fulano de Tal e ela não sabia, mas se falasse o apelido da pessoa ela já resolvia: “Eu sei! Espera aí que eu vou chamar”.

 

P/1 – A senhora e suas colegas tinham essa sensação de que eram uma espécie de anjo da guarda de toda uma comunidade?


R – Na época que eu entrei lá era muito legal, eu gostei demais de ter trabalhado, foi meu primeiro e único emprego de carteira assinada e eu gostava demais. Uma vez eu fui ajudar a Maria Adelaide, não sei de você conheceu. Quando eu entrei ela era chefe do departamento de pessoal, Maria Adelaide Vieira. Aí eu fui com ela em Luz, para ajudar a aplicar uns testes para telefonistas. Nós fomos de táxi aéreo, eu me lembro direitinho, ela me chamou para ir com ela. Eu procurei dar o melhor de mim nessa função que eu tive, tanto como telefonista como depois como monitora. Eu gostei demais de ter trabalhado, tinha o salário, tinha recompensa do seu trabalho, e foi uma coisa que me ajudou e que eu estou tendo um retorno até hoje. Isso porque eu aposentei, recebo aposentadoria e estamos aí, dependendo disso para continuar vivendo.

 

P/1 – Vocês passavam por treinamentos frequentes?


R – A gente sempre tinha treinamento. Uma vez nós fizemos um curso ali no Senac, onde foi dado um curso através da CTBC, que pagou esse curso. Era um curso de Relações Humanas para telefonista e recepcionista, foi ótimo esse curso. Tinha psicóloga, que deu uma palestra e também foi muito bom. A gente sempre tinha reciclagem, de tempos em tempos eles faziam para todo mundo.

 

P/1 – A senhora tem algum sonho?

 

R – Ai Jesus. Ai, não sei... Eu perdi minha mãe tem oito meses, eu acho assim muito recente, sinto muita falta dela. Do meu pai também, mas nem tanto, já que meu pai já fez dez anos. Mas sei lá... Eu quero ainda fazer alguma coisa nessa vida, não sei o que ainda não, mas pretendo ainda fazer. Mas sonho não estou tendo por enquanto, não. Minha irmã, essa que é freira lá na Bahia, queria que eu adotasse uma menininha. Ela hoje está com sete anos e na época que a menina nasceu ela queria vir trazer essa menininha para eu adotar. Então eu falei: “Eu não tenho cabeça, não”. Agora eu estou sem minha mãe, não sei se eu tenho coragem, não sei. Acho que não tenho dom para pegar uma criança novinha e cuidar, e ter aquele carinho. Não sei se é isso que eu quero, não.

 

P/1 – Nessa conversa a senhora gostaria de ter dito alguma coisa que não disse? 

 

R – Não, acho que parece que falei até demais, ou muita bobagem, sei lá. Eu espero ter podido contribuir para alguma coisa e eu agradeço muito a oportunidade que eu tive de ter esse trabalho, que me deu a oportunidade de ajudar a minha família, e ter minha aposentadoria hoje. Eles precisaram do meu serviço mas eu estou tendo um retorno disso. E não arrependo de nada, não. Acredito que se eu estivesse lá até hoje eu estava procurando fazer o melhor.

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