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História

Um relato alegre de uma realidade desalegre

História de: Evandir Conceição Santos
Autor: Letícia Aparecida Pereira da Silva
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

 Evandir Conceição Santos Lopes, dona Vanda, inicia sua narrativa sobre suas origens. De acordo com ela, seus avós eram descendentes de africanos, seus pais já teriam nascido no Brasil, na Bahia, Salvador. E ela, igualmente soteropolitana. 

Vanda conta com detalhes sua infância. Destaca o mar, sua paixão, e descreve as brincadeiras com muita liberdade e pureza, “coisas de criança, mesmo”. São várias as histórias, como o dia em que ela e seus amigos, todos vizinhos, invadiram a casa de sua tia e prepararam uma bela mariscada. Após se esbanjarem (e sujarem a casa), acabaram por adormecer na sala. Fato é que foram flagrados no meio daquela bagunça e não teve um que não levou um puxão de orelha ou um balde d’água naquela noite. De acordo com Vanda, eram todos amigos, todos se conheciam, havia uma solidariedade inata no bairro, onde era comum o auxílio, dar comida, trocar. 

Vanda cursou o ensino primário, naquela época, continuar os estudos não era fácil, primeiro pela prova de admissão, e segundo pelos valores dos colégios. Todavia, o principal empecilho foi a necessidade de trabalhar, começou logo cedo, e se lembra que aos quatorze anos recebeu seu primeiro salário de verdade.

De espírito crítico, sua alma pediu por mudança. Não queria ficar mais em Salvador, ou até mesmo rumar pelo estado baiano. Queria ver o mundo, queria conhecer novos horizontes e pessoas. Foi sua mãe que conseguiu um contato, Dona Marta Camaro, “mulher fina”, casada com um comendador muito rico. Mudou-se com essa família para o centro de São Paulo, na Avenida São Luís. 

O sonho de conhecer o mundo se tornou um pesadelo. Vanda, em um determinado momento, passou a trabalhar para a filha de Marta, e logo se viu em um cárcere privado, com pedidos absurdos, sem poder sair de casa, e tudo isso somado a pouca idade e o desconhecimento total da cidade grande. 

O que é contado a seguir, dialoga com os clássicos mais espetaculares. Vanda fugiu! E como as coisas aconteceram para ela conseguir chegar novamente a Bahia, revelam que onde há escuridão também há luz. Se não fosse o apoio de alguns, como o Sr. César, caminhoneiro, ou de outros que lhe deram comida, ou que lhe acolheram de alguma maneira, provavelmente essas memórias não estariam registradas.

A história de Vanda não termina com seu retorno, pelo contrário. Ela conta sobre a retomada de sua vida, narra sobre sua gravidez precoce, todos os problemas enfrentados acerca disso e novamente o desejo de partir.

Vanda volta para São Paulo e deixa sua filha aos cuidados de seus pais. Aqui ela se encontra novamente em solo paulistano, consegue trabalhos, conhece pessoas e a saudade de sua filha aumentava a cada dia. Seus pais lhe deram uma condição para pegar sua guarda novamente: casar-se, comprar uma casa, ter estabilidade. 

Vanda conheceu então Miranda, seu futuro esposo... e agressor. Um homem correto para a sociedade, trabalhador, exato em suas contas, e extremamente violento. São inúmeras as situações de abuso narradas, físicas e psicológicas. Sair disso não foi nada fácil, foi um longo processo de crise, que um dia chegou ao fim. Se existe algo que pode lhe alegrar desse relacionamento, são seus filhos. 

A mudança para o bairro do Jaraguá, zona norte de São Paulo, é uma guinada em sua história. Chegou em 1972, quando o bairro não tinha nada. Logo percebeu que se ela não se articulasse com outros moradores e não lutasse por seus direitos, o nada seria a realidade daquele espaço. Lembra dos nomes das mães do Jardim Ipanema, Nilva, Clara, Maria, entre outras, que se juntaram para reivindicar uma creche para o bairro. Também conta sobre a “Associação dos Moradores da Vila Nova Jaraguá", onde ela auxiliava 400 famílias com a distribuição de tickets de leite, uma articulação com um deputado da região.

Dona Vanda participou de toda a transformação da região, de um lugar esquecido, sem infraestrutura, viu a água encanada chegar, as ruas serem (quase) todas asfaltadas, o esgoto no fim dos anos 2000... Reflete que ainda há muito a ser feito, o bairro tem apenas um banco, um posto de saúde, poucas escolas, transporte precário... E também sente que o engajamento popular já foi mais forte no passado. O que será o amanhã do Jaraguá?

Todos conhecem Dona Vanda no distrito de Jaraguá, sua popularidade vem de seu engajamento, intensidade e simpatia. Agradecida pela vida e amigos que fez, termina sua narrativa. 

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História completa

Aí teve um domingo que eu fui para a praia, com as amiguinhas, e criou aquele bando. Não era de ir sozinha, era em bando. O irmão, se não levasse, falava pra mãe. E aí a gente foi nadar, brincar na praia, catamos mariscos e fomos para casa da minha tia para cozinhá-los. Minha tia havia saído pra casa da minha mãe para comer uma feijoada. Ou seja, ela não estava lá. 

 Nós pulamos a janela, pegamos as latinhas e fizemos um cozinhado, antigamente se chamava cozinhado. Organizamos as latinhas com o fogão de lenha e a gente cozinhava. No passado, as pessoas nos davam peixes e a gente assava na brasa, matavam galinha, nos davam, e a gente fazia; a gente limpava as tripas, cozinhava e comia, com farinha e tudo. Ninguém estava nem aí, a gente queria era fazer farra e comer, mesmo. 

A gente pulou a janela da casa da minha tia e cozinhou os mariscos lá na latinha. Comemos bem e tudo. Aí estávamos muito cansados, eu, minha irmã, outro irmão, uma vizinha, a Marisa, que era minha amiguinha, e a Verinha. Nós adormecemos, todo mundo, todos que pularam a janela acabaram dormindo. E aí o que aconteceu... Minha tia gostava muito de música, de som, vitrola, muito de disco, e quando ela chegou e viu todo mundo deitado - a gente não tinha essa de colchão, não, a gente dormia na esteira mesmo, de palha, sabe? E não era de biquini, todo mundo de short, de vestido, entende? A gente era criança mesmo - ela só pegou os baldes de água e jogou na gente! Todo mundo acordou num pulo e ela disse: "Comendo mariscos, né? Aqui dentro do meu quintal!" Ela fazia acarajé, e a gente pegou um pouco do dendê e capou no marisco! Quando ela viu aquele dendê, ela falou pra gente: "O que vocês fizeram, meninas? Eu vou falar pra Isaltina", que era a minha mãe, "vou agora voltar pra lá". E da casa da minha tia pra casa da minha mãe era um pouquinho longe, nós já morávamos, tipo, na transição de um bairro pro outro. Ela veio. Minha mãe não pôs a gente de castigo, ela deu uma surra! Em mim, na minha irmã e no meu outro irmão. A vizinha também, e a outra vizinha, todo mundo apanhou. Porque era assim, ninguém apanhava sozinho, todo mundo apanhava igual.

Eu estudava com meus irmãos, nós íamos para a escola a pé, todo mundo ia andando. A distância da escola da nossa casa era mais ou menos uns 3km. Todo mundo de conga, ou então, de sandália, direitinho.

Na escola, as professoras enchiam a gente de jornal por dentro da blusa e fechavam. Quem tinha uma meia era porque tinha, algo muito difícil na época. Levávamos nosso material no saquinho de plástico; caderno, a cartilha, o livrinho, tudo direitinho. A gente era obrigado a cantar o hino, a chegar na escola no horário certo, aí tomava a merenda, o café da manhã, depois subíamos no pátio da escola. Todas as escolas lá tinham, tipo assim, duas escadas e em cima, assim, um quadrado que ficava a diretora. Ela vinha, batia o sino, e todo mundo corria, chegava no pátio, se alinhava e cantava o hino nacional. Quem não sabia tinha que pegar o caderno, porque a letra estava atrás no caderno, dado pelo governador, prefeito da escola. Tinha que cantar e tinha que saber cantar. Todo mundo em fila, direitinho. E se você não estivesse cantando a diretora falava: "Você!" Nunca esqueço, entendeu? "Está abestalhado?" Desse jeito. "Vamos cantar." E era cantar direitinho, o hino nacional e o hino da escola, cada escola tinha o seu hino, tudo direitinho. 

Eu estudava na escola Ruy Barbosa, nunca esqueço. As datas, símbolos, tinha aquele "Salve lindo o pendão da...", todo mundo tinha que cantar, isso era de praxe, e era muito bom. A gente cantava e ficava todo mundo feliz. E rezava também. Todo mundo rezava o pai nosso, ave maria, todo mundo, independentemente. A escola era assim, e era muito bom. E só passava de ano quem sabia ler e escrever, tá? Todo mundo com seu lápis, com a borrachinha na ponta do lápis, quem não tinha aprendeu a fazer assim, pegava o miolo do pão e passava... 

Todos faziam o primário, depois iam para o ginásio, faziam admissão. Mas quem ia pro ginásio era um privilégio, só filho de bacana, eram os ricos, porque pobre não chegava lá. Eu parei no primário, porque aí fui trabalhar e então Sonhos em outros lugares fui realizar... (Só não sabia que seria tão doloroso)...


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