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Tijolo por tijolo

História de: Lucia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nascida em uma família pobre do nordeste brasileiro, Lucia passou por muitas dificuldades desde a infância. Com a mãe muito doente e incapacitada de trabalhar, precisou sair de casa desde os doze anos para fazer malabares nos faróis com seu irmão e ajudar a criar suas duas irmãs. Se recorda de diversos momentos de humilhação, como quando recebeu apenas cinco reais para realizar uma faxina completa em uma casa. Sua condição social a fez sofrer preconceito na escola, à qual não pôde se dedicar por conta de suas responsabilidades. Após o ViraVida teve sua realidade transformada, e pôde integrar um cooperativa de fardamentos. Sonha hoje dia em concluir seus estudos e fazer faculdade de arquitetura.

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História completa

Meu nome é Lucia e eu só tenho no meu registro o nome da minha mãe. Tenho três irmãos, somos quatro comigo. Minha mãe não faz nada, fica em casa pois sempre teve problemas com doenças e nunca pôde trabalhar. Éramos eu e o meu irmão mais velho que sempre saímos para ajudar em casa. Na infância eu tinha que fazer tudo, cuidar das minhas duas irmãs, ajudar na casa, lavar a louça. Eu me sentia um nada por ser tão nova e já ter grandes responsabilidades. A partir do momento que você se acostuma a fazer trabalhos domésticos dentro da sua própria casa, já é um trabalho. Você não tem a infância que deveria ter, já se está se deslocando daquilo que é normal. Uma coisa que menina faz é brincar de boneca desde criança, cuidar do bebezinho, e eu nunca tive isso. 

 

Até hoje em dia isso me afeta, porque eu não gosto de segurar bebê. Eu brinco com crianças mais velhas de dois anos, que já andam, mas segurar bebê eu não gosto, tenho medo dele cair. Minha mãe teve um companheiro, mas eu nunca gostei e nunca vou gostar de padrasto, é uma coisa que eu não pretendo dar aos meus filhos. É um pouco de ciúmes por ser criança. Sinto muita falta do meu pai, de uma coisa que eu não tive, a vivência com o pai. Ter outra pessoa representando isso é insignificante, eu não gosto.

 

Comecei a trabalhar acho que com doze anos. Ficava brincando de malabares no sinal. Até hoje, quando eu passo em algum sinal e vejo as crianças que nem eu e o meu irmão fazendo isso, fico me lembrando de como era. Era muito ruim. Às vezes eu ia com uma determinação tão grande de conseguir alguma coisa que eu acho que eu nem me sentia mal. 

 

Uma vez eu passei por uma situação muito constrangedora: um senhor tentou me pegar e ofereceu dinheiro. Saí de perto, o meu irmão viu e me pegou pelo braço, saímos de lá. Mas eu sempre fui do tipo de pessoa que não se deixava abater pela situação em que vivia, sempre corri atrás de projetos sociais. Eu era do Circo Escola, trabalhava com crianças. Recebíamos vale transporte e isso ajudava. Nós íamos andando, sempre chegavamos atrasados, mas pegavamos os vales e vendíamos no caminho. A gente trocava por dinheiro e comprava as coisas para minha casa.

 

Eu entrei na escola muito tarde. Na quarta série, em 2002, eu estava com dez anos. Sempre tive muita dificuldade para aprender porque eu faltava muito às aulas. Não me lembro dessa época e não sei se foi porque eu entrei na escola muito tarde e não me desenvolvi. A primeira escola em que eu estudei teve a questão do bullying, as crianças sofrem muito. É uma questão que deveria ser mais divulgada, da pessoa ser negra e sofrer preconceito dos outros alunos, porque sofri demais. Eu já sou feia hoje e era mais feia quando criança. A convivência na escola pública foi muito difícil. Eu tenho uma revolta muito grande dentro de mim por ter nascido em uma família pobre e não ter o estudo que eu deveria. Lembro que eu repeti a quarta série muitas vezes.

 

Me lembro de uma experiência que não foi muito boa. Tinha uma vizinha que era colega da família da minha mãe e me chamou para limpar a casa dela. Eu fui, limpei, deixei um brinco, tudo bem arrumadinho. Ela nem imaginava que a casa estaria daquela forma. Depois de todo o trabalho que tive de limpar toda a casa e deixar tudo bem perfeito, eu recebi cinco reais. Isso foi horrível. Eu sempre chorava. Sempre que eu passo por uma situação que venha a me humilhar, eu choro. Mas, ao mesmo tempo, é um choro que não permite que aquilo permaneça na minha vida. Eu não gosto de ser pobre, ninguém gosta. Não gosto de mostrar que eu sou pobre, não gosto que as pessoas saibam o que passei, estar contando isso é muito difícil.

 

Foi pelo projeto social da Associação das Prostitutas do Estado do Ceará que eu aprendi a dançar no Circo Escola e no ABC. Quando fui para esse projeto, eu comecei a ensinar, e meus três irmãos também faziam. Eu e meu irmão nos desenvolvemos muito nessa questão. Dançávamos nesse grupo de dança folclórica e até fizemos um grupo nosso. 

 

Logo, soubemos do ViraVida, fizemos toda a seleção e foi assim. Foi bom, foi interessante, porque eu não conhecia ainda o ViraVida. Falaram na proposta que teria uma bolsa de quatrocentos reais e que eram nove meses de curso. Eu fiquei muito alegre. Pensei: “Poxa, vou poder ajudar a minha mãe em casa, meus irmãos não vão precisar mais sair e nem eu.” Foi maravilhoso.

 

Hoje eu tenho o sonho de fazer arquitetura. Eu descobri que o meu irmão também quer ser arquiteto, porque a nossa casa sempre foi uma casa humilde e antiga. Quando era criança eu ficava desenhando e sempre gostei de ver casa. Mas o curso que fiz no ViraVida era na área da costura. Quando entramos na parte da costura, na fase de ver uma peça pronta, toda montada, isso me despertava muita curiosidade. Eu focava muito nessa questão e ficava observando como se fazia para sair toda a peça pronta. Sempre tive essa curiosidade desde antes de entrar no ViraVida, mas eu acho que eu superei essa fase de roupas. Hoje eu trabalho nessa área, mas já não é mais o que eu desejo, eu quero ir mais além.

 

O que mudou mais em mim foi a questão social e o comportamento que eu tinha em grupo. Quando se vive numa sociedade de classe baixa, você tem um comportamento de acordo com o que você vive no dia-a-dia. Quando você sai desse mundo para conviver com outras pessoas, é algo gratificante. Hoje as pessoas já me vêem com outro olhar, é muito bom. 

 

Eu chorei muito no dia da formatura. Estava a mulher do Lula, a prefeita de Fortaleza e muitas pessoas importantes. Acho que a nossa formatura foi a melhor de todo o ViraVida, tinham muitas pessoas envolvidas para conhecer o projeto. Fico feliz de fazer parte da primeira turma, onde tudo começou. Eu espero que isso continue porque mudou a minha vida e está mudando a vida da minha família. Saber que eu fiz parte da primeira turma é muito importante.

 

O relacionamento com a minha mãe também mudou, porque quando eu saí de casa com dezoito anos, foi por conta de uma briga que eu tive com ela. Mudou muita coisa. Eu percebo que o comportamento dos meus irmão mudou, e hoje eu os cobro muito como falar, como se expressar. Quando eles erram alguma coisa eu falo também, reclamo e eles mudam. Cobro muito deles porque eu quero vê-los no mesmo ritmo que eu. Até pedi ao ViraVida para eles fazerem toda uma avaliação com eles, assim como fizeram comigo, então muita coisa já mudou, somos mais unidos. Foi bom, eu já era independente e hoje eu me sinto mais ainda. Me sinto uma pessoa de responsabilidade.

 

Após o ViraVida, fomos encaminhados para o mercado de trabalho, só que entrar nele é difícil, nós teríamos que ter mais experiência e a maioria não ficou. O projeto nos informou do curso de cooperativismo, e aí fomos conhecendo como era e montamos uma Cooperativa, uma empresa de fardamentos. Quando se fala do seu próprio negócio, tudo que a empresa pode crescer depende de você. Ao invés de ganhar um salário trabalhando para outra empresa, pode-se ganhar mais trabalhando para nossa. Eu sempre pensei em ganhar mais, ter a minha própria empresa com CNPJ. Isso é muito bom. Eu sempre ficava na expectativa de ganhar esse fardamento, de ficar pronto. Quando ficou pronto e eu vi todo mundo fardado com a sua roupa para usar no dia-a-dia, fiquei muito feliz, porque é o nosso trabalho. Você vê criar, modelar e montar uma peça. Poder usar é muito legal. Tenho orgulho de usar o nome da Cooperativa.

 

Uma coisa que me toca bastante são meus estudos, não poder ter tido conhecimento desde a minha infância, e ter começado a estudar muito tarde. O que eu gostaria de mudar realmente é a questão da escola, eu queria estudar numa escola boa. O conhecimento é o que mais prevalece. Não importa o que eu vivi ou o que eu sofri, o que importa pra mim é mais o estudo. Eu fico feliz pelos meus irmãos. Eles dois estão fazendo um livro: a minha irmã está falando sobre as diferenças sociais. e meu irmão fala sobre dinheiro, sobre como você usa o seu dinheiro. Eu fico muito orgulhosa dos dois estarem aqui no ViraVida.

 

O meu maior sonho é ser arquiteta, me formar em arquitetura e me desenvolver nessa área, ter meu apartamento, fazer todo o design. O meu objetivo agora é esse. Claro que vai demorar um pouco, mas até lá eu acho que eu vou continuar na Cooperativa. Eu estou tentando concluir o ensino médio e o projeto vai me ajudar na faculdade.

 

Se meu ponto fraco foi a educação, meu ponto forte é a minha força, eu mesma, a minha consciência de querer vencer. Por mais que eu passe por situações que venham a me colocar pra baixo, eu não me deixo me abater. Eu não deixo que as coisas que eu passei venham a me atingir. Quando eu passo por uma situação difícil, choro, reclamo, grito, mas quando passa o tempo eu penso: “Não, tenho que lutar, tenho que continuar.”


Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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