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"Tinha que trabalhar para poder viver"

História de: Licínio Barreto Gomes Lourenço
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2019

Sinopse

Licínio Barreto Gomes Lourenço nasceu na Vila Anastácio, em 08 de junho de 1942. Filho de pais portigueses, conta sobre a vida no bairro, onde vendia legumes com o irmão e onde também conheceu o lutador Ruma e o ator e cineasta José Mojica, mais conhecido como Zé do Caixão. Conta sovre as empresas que existiam no bairro e que hoje não estão mais lá e sobre a educação que recebeu dos pais. A história de uma vida toda em um bairro da cidade de São Paulo. 

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História completa

P – Por favor, diga seu nome, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Licínio Barreto Gomes Lourenço, nasci na rua Martinho de Campos, 339, Vila Anastácio, em 08 de junho de 1942.

 

P – Qual a sua atividade atual?

 

R – Eu sou aposentado, mas antes trabalhava de mecânico de manutenção.

 

P – Quem é imigrante da sua família?

 

R – Meus pais, que vieram de Portugal. Mais ou menos, pelo que eles falavam, era perto de Coimbra, Zambujal que eles falavam.

 

P – Por que eles vieram? O que aconteceu com eles lá?

 

R – Tentar a vida no Brasil. Porque lá eles casaram, vieram pro Brasil quando estava começando a guerra, em 41. Desceram no Rio, vieram pra São Paulo para começar a vida, e o navio que trouxe eles pra cá, assim eles contam, que quando voltou para Portugal, foi afundado pelo submarino alemão, aí o Brasil entrou na guerra em 42.

 

P – Como era o nome do navio?

 

R – Era Tejo, eles falaram. Diz que era brasileiro, foi o primeiro navio brasileiro que foi afundado nessa guerra.

 

P – Lá em Portugal eles viviam da roça, né?

 

R – Roça, que nem no Brasil. Eles tinham negócio de óleo, faziam óleo com azeitona, vinho, eles tinha essas terras de plantações, que nem aqui no Brasil.

 

P – E eles eram donos da terra?

 

R – Donos.

 

P – E eles contaram o que acharam quando chegaram aqui?

 

R – Eles vieram tentar a vida, se deram muito bem, que o Brasil naquela época estava começando e os estrangeiros tinham muita vantagem. Meu pai se empregou numa firma, e minha mãe ficou dona de casa...

 

P – Que firma era?

 

R – Refinações de Milho Brasil, na Vila Anastácio. Fazia o que hoje é o óleo Mazola, Maisena, tudo dessa firma que fechou, na Vila Anastácio. Agora lá é um depósito do Extra.

 

P – O que seu pai fez depois desse emprego?

 

R – Meu pai se aposentou nessa firma, ficou lá desde que veio de Portugal e nessa firma se aposentou.

 

P – O senhor disse alguma coisa do Ruma, luta livre?

 

R – Ah, Ruma era, naquele tempo de luta livre, era o maior lutador de São Paulo, do Brasil. E eu morava encostado na casa dele, na Vila Anastácio.

 

P - O senhor conheceu ele? Como ele era?

 

R – Conheci, quando eu era criança, ele tinha os filhos ali, ele era muito forte, lutador de luta livre tem aquele músculo, e ele tinha posto de gasolina. Ele queria que os filhos seguissem a mesma profissão. O mais velho, infelizmente, calibrando um pneu, o pneu estourou e ele ficou com uma testa de vidro, tiveram que pôr uma placa de vidro na testa, ele não pôde lutar mais. O filho mais novo, que podia ser um grande lutador, morreu afogado na represa que hoje é a Toronto, na Vila Operária, era a represa do Armour, ele morreu afogado lá. E o outro filho, Francisco, nunca quis saber de lutar.

 

P – Como o senhor conheceu eles?

 

R – Eu era moleque, brincava com eles, era vizinho.

 

P – Que mais o senhor lembra daquele bairro?

 

R – Daquele bairro lembro de tudo. O José Mojica, esse que faz o Zé do Caixão, eu brincava com ele, era vizinho da minha casa. Ele fazia na Vila Operária, naquela época, fazia os filmes pra passar no cinema Santo Estevão, que era na Vila Anastácio, onde hoje é o Banco Bradesco. Acabou o cinema.

 

P – O senhor morou lá quantos anos?

 

R – Eu nasci, me criei e vivo até hoje lá. Na mesma casa. (risos).

 

P – Agora, vamos voltar um pouquinho. Seu pai trabalhou nas Refinações de Milho Brasil. E morou...

 

R – Mas agora ele mora no Parque São Domingos. Está com 87 anos, e eu continuo na Vila Anastácio.

 

P – Como é que era o bairro?

 

R – Um bairro simples, tudo de terra, não existia asfalto, nem esgoto, nem água, nada disso. Era um bairro assim, simplesmente. O que colocou a água e o esgoto lá foi o senhor Jânio Quadros, quando ele começou a se candidatar para prefeito, na época, ele que colocou tudo lá.

 

P – Essa Vila não é do lado da Via Anhanguera?

 

R – É, onde tem o Extra.

 

P – Que fábricas havia ainda naquela época?

 

R - Tinha a Sofunge, o Aco (?), a Fiat, que era fósforo, a Refinação, e a Armour, que hoje é Bordon. Hoje só está a Bordon, a... É, só a Bordon, porque a Fiat mudou, não é mais lá. A Sofunge fechou. E a Aco (?) também terminou, não existe mais. Agora, no lugar delas, naquele tempo era campo de futebol que tinha, era um bairro fabril. E agora, a firma mais importante atualmente é a Sadia, que é a maior firma no Anastácio atualmente. Agora o bairro é mais comercial.

 

P – Agora, de costumes portugueses, quais vocês conservam?

 

R – Ah, costumes... não tinha costumes. Ali, o costume que nós tínhamos ali era a educação, que meu pai dava assim, seguindo aquela... Não tinha um negócio de comida assim, definitivo.

 

P – A educação era como? Muito severa?

 

R - Minha mãe contava que tinha uma rocinha assim, que plantava alface, verduras, chuchu, e eu e meu irmão saíamos com o carrinho vendendo na rua, tinha que faturar. Porque desde criança eu aprendi que tinha que trabalhar para poder viver, comecei trabalhando com treze anos. A primeira firma que trabalhei foi Manoel Ambrósio, na Vila Leopoldina, fábrica de máquinas de costura, que não existe mais também, fechou. Era na Vila Leopoldina, e tinha aqui na Lapa, na rua Fausto, e fechou essa firma, Manoel Ambrósio.

 

P – O senhor disse que tem mais um irmão?

 

R – Irmão, que é advogado hoje.

 

P – Então, muito obrigada pelo seu depoimento. O senhor tem alguma coisa as acrescentar?

 

R – Nada. Mas, se perguntar da Vila Anastácio, é uma maquininha. Eu lembro de tudo, desde a minha infância.

 

P – O senhor tem fotos?

 

R – Da Vila Anastácio? Tenho algumas, até da frente da minha casa, meu pai sobrealugava, e tem os italianos, que vieram da Itália, moravam lá, tenho fotos antigas da casa. O bairro geral, não.

 

P – Campinho de futebol, fábrica....

 

R – Não, campinho de futebol só lembro do tempo que eu jogava bola. Lembro de onde era o clube, onde era o Serva, que era um clube importante, e hoje é o colégio das freiras, ali era o Serva, e eu jogava bola pelo América, onde, pelo América, conheci minha atual esposa, quando eu jogava bola. Nasci e me criei no Anastácio, como a minha esposa nasceu e se criou no Anastácio.

 

P – Então, beleza. Muito obrigada.

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