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Trajetória de ensinar e praticar o bem

História de: Olympia Palhares do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/07/2019

Sinopse

Olympia – Zizinha, na família – nasceu em São Carlos e veio para São Paulo dar aula e porque queria estar próxima daquele que seria seu marido e com o qual constituiu uma família feliz, de que resultaram filhos, netos e bisnetos. Tão feliz que ela admite que se lembra dele, com saudade, até hoje. Que reza por sua proteção, onde quer que esteja. E foram 35 anos de magistério, desde aquela fazenda onde ensinava crianças de manhã e adultos à noite, quando tinha que enfrentar os morcegos. Guarda para si o que de bom pôde e quis fazer pelo próximo, principalmente pelos alunos. Acolhendo, ajudando, apoiando, curando, orientando, encaminhando. Pelo bem que praticou, tem o privilégio de guardar na memória as lembranças boas, como, por exemplo, o canto dos pássaros nas barrancas do rio Paraná. Em plena mocidade.

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História completa

Meus pais me batizaram Olympia Palhares em homenagem a uma tia – irmã do meu pai – que faleceu quando minha mãe estava grávida de mim. Inclusive, eu vi o meu nome lá no túmulo dela. Nasci em São Carlos, interior do estado de São Paulo, em 12 de novembro de 1925. A parteira foi minha avó materna. Fazia os partos das filhas e noras. Eram imigrantes italianos os meus avós por parte de mãe. Meu pai era alfaiate, mas também foi ator – apresentava-se nas cidades próximas com um grupo de teatro. Eu tinha fotos dele maquiado. Tanto ele como minha mãe foram, também, soldados constitucionalistas de 1932. Com quinze anos, mamãe já trabalhava e bordava. A avó paterna era portuguesa, “pouco falava mas trabalhava muito – lavava roupa para fora: aqueles linhos, aqueles lençóis, aquelas toalhas...”. Já a imagem que tenho da avó italiana, materna, é de uma pessoa sempre velha, “a mesma roupa, roupa preta, saia longa”.

 

A minha avó portuguesa era muito reservada, não falava nada. A italiana, como era uma velha, pouco falava também. Então, pouco ensinamento.

 

Meu pai era um homem bonito. Com 19 anos foi eleito “Mister Sancarlense”. Conquistou minha mãe e casou. Tiveram três filhos. Às vezes, eu ia com meu pai para alguma peça que ele apresentava com o grupo. Desde que eu era bem pequenininha, ele gostava de me pegar no colo e cantar uma canção, em que ele dizia: “Zizinha...”. Resultado: eu só fiquei sabendo que o meu nome era Olympia quando eu fui ser alfabetizada; até então, eu sempre fui, para todo mundo – inclusive eu mesma – Zizinha. Estudei no Colégio das Freiras. Depois fiz a Escola Normal. Sempre quis ser professora e fui. Durante trinta e cinco anos, período integral. Comecei como substituta efetiva de São Carlos. Aí, na escola onde fui lecionar, apareceram com uma incumbência: conseguir alunos para formação de classes. Para quem? Ora, para as filhas do delegado da cidade e do inspetor de ensino. Eu consegui. O tal inspetor tornou-se eternamente grato e, de fato, dali por diante sempre me protegeu. Então, fui para uma outra escola lá, numa fazenda. Lecionava para as crianças de dia e dava o curso para adultos, à noite. Era polivalente. Conquistei a simpatia da fazendeira. Cheia de regalias e até almoçava com ela. Mas o fazendeiro não pagava ninguém, só dava vales. E nada fazia pelas crianças, nada permitia. Mas eu fazia, e muito. Desde pegar jabuticaba com eles; tratar de dor de dente; dar remédio de madrugada; curar as doenças de pele. Um dia uns empregados lá se desentenderam com o fazendeiro, foram embora. As crianças ficaram sem escola. Eu intermediei a volta deles; tudo se resolveu. A grande dificuldade era dar aula com tanto morcego - “aquela bola de morcegos caindo”. Fim de semana eu ia para casa. Mas, às vezes, ia dançar nas fazendas próximas. Eu tinha que aproveitar um pouco, porque o meu pai foi sempre muito rígido. Por exemplo, ele não deixava namorar. E eu já tinha os meus paqueras, até pedido de casamento eu já tinha. Bom, mas aos sábados, papai pegava a família toda e levava ao cinema. E eu lembro de que eu tinha um flerte: “eu olhava para ele assim só...”. Por isso, eu estranhei quando o meu pai fez toda questão, todo gosto, que eu namorasse um moço de família rica de uma cidade  lá, inclusive eu teria, para escolher, qualquer escola da cidade para lecionar. Um negócio encomendado, que eu recusei malcriadamente: “Vou para o quinto dos infernos, mas não vou para lá”. E aconteceu, também, de nessa época eu já ter um paquera em São Paulo. Não namorava ainda, mas já conhecia. E que viria a ser o meu marido. E eu tia um tio que trabalhava na estrada de ferro e sempre, então, havia passagem para São Paulo à minha disposição.

Esse rapaz que se tornou meu paquera, depois namorado, por fim esposo, o pai dele era diretor da Escola Industrial em São Carlos e havia se casado com uma amiga minha – obviamente bem mais nova que ele e que, portanto, tinha se tornado madrasta do filho dele. Eles moravam lá em São Carlos e o Rubens – o filho – em São Paulo. Eu achei que seria interessante me aproximar, porque estava gostando dele. Assim, eu tratei da minha remoção para São Paulo – fui dar aulas lá e morar na casa de uma prima, considerando que a minha tia havia falecido. E ele estudava lá e morava em uma pensão. Antes, eu havia estado em um lugar chamado Nova Guataporanga, barranca do rio Paraná, quase divisa com mato Grosso – passarinhos, periquitos, e dali se escutava o rio. 

Mas o namoro, efetivamente, iniciou-se em 1953. Ele era desenhista e também funcionário público. Só fomos casar em 1957 porque não havia dinheiro até então. Apesar de que, nosso começo de vida foi difícil. Fomos morar numa casinha daquelas de porta dando direto para a rua, lá no Ipiranga. E, por sorte, eu consegui uma escola no mesmo bairro. Isso ajudou muito quando nasceu a primeira filha.

 

Então, eu aguentei; “deixa eu fazer tudo direitinho, como manda o figurino”, entendeu?

 

Ele conseguiu ir para a Secretaria de Educação, mas não era bem o que ele queria; andou ameaçando largar o serviço público, eu aconselhei a não fazer isso não. Pensou em fazer Direito, não foi adiante, Mas aí, seguindo a tradição da família, “ele começou a vender tecidos também e ganhou dinheiro com isso”. E as coisas começaram a fluir numa perspectiva de prosperidade: compramos casa; compramos carro zerinho – um fusca azul forte – adquirimos apartamento na praia; tivemos filhos. Deixava a minha filha pequenininha com a vizinha, sempre rezando, pedindo proteção para ela, para nós. E assim foi a nossa vida. Uma vida feliz, viajamos muito, passávamos o dia na praia, armávamos barraca – até frango frito eu fiz na praia para comermos.

Vivia muito bem, porque eu gostava muito dele, vivia bem mesmo. Até hoje sinto a morte dele, até hoje. Eu, na verdade, não esqueço dele um minuto. E rezo sempre por ele, que ele esteja bem onde quer que esteja; que me proteja, que proteja a família que constituímos. Hoje, seis netos, dois bisnetos.

Trago, em minha trajetória, a lembrança de tanta coisa que eu fiz em termos de ajuda, caridade, solidariedade, mas evito falar a respeito. Cuidar do próximo: parentes, amigos, alunos, estranhos. Só sei que deixei marcas por ajudar pessoas. Porém, a marca mais profunda foi em mim mesmo, de coisas boas que eu consegui fazer e que guardo para mim. E até hoje, se eu vejo que posso fazer algo de bom para alguém, eu agradeço essa oportunidade e faço. Efetivamente..      


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