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História

Tristeza, por favor vá embora

História de: Maria da Penha Pedro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Maria da Penha Pedro relembra em entrevista momentos de sua infância ao lado de sua família, recorda a morte de seu pai e as mudanças que seu falecimento causou, tais como sua ida para o juizado de menores, que a fez perder o contato com a família. Também recorda de momentos marcantes da sua fase adulta, como quando sofreu abuso sexual, resultando na gravidez de seu único filho.

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História completa

P/1 – Gravando.

 

P/2 – Você fala seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R/1 – Eu me chamo Maria da Penha Pedro, sou natural daqui de São Paulo, nasci em 23 de dezembro, de 1943.

 

P/2 – O nome dos seus pais.

 

R/1 – Meu pai, o nome dele é José Pedro e minha mãe Diva Luzinete Pedro.

 

P/2 – Penha, fala o que você se lembra do seu pai.

 

R/1 – Do meu pai eu me lembro que ele era um pai carinhoso, muito paciente, sempre foi muito amoroso com os filhos, muito paciente com a minha mãe, devido ao problema que ela tinha, mais ele foi muito paciente. Que eu me lembro, mesmo nas horas que ela tinha os acessos, que ela tinha um problema... Mental. Que ela muitas vezes partia pra cima dele pra agredi-lo, nunca, nunca vi ele levantar a mão ou qualquer reação dele. Tem umas partes até um pouco cômicas que eu presenciei, que quando a gente morava em Ferraz de Vasconcelos, nós morávamos mais ou menos num sítio que pertencia aos meus pais. Então eu tinha uma galinha, eu e o meu irmão Henrique, tínhamos uma galinha que o nome dela era Bolinha, era uma carijó e essa galinha botava em cima da minha cama. Eu lembro que minha mãe fez uma espécie de um ninho pra ela assim do lado em uma dessas coisas de... É que ela tinha uns negócios que ela tinha muito ciúmes do meu pai. Então o que ela fez: ela catou todos os ovos que ainda estavam chocando e jogou tudo em cima dele (risos). Não contente, naquela época tinha um fogão de lenha, mas era assim uma espécie de grelha, de... Eu falo grelha, tem outro nome, mas no momento... Então tinha as brasas que ficavam separadas, que queimava a lenha do lado e depois colocava as brasas ali naquela grelha, que era um quadrado assim de ferro. Não contente com isso a minha mãe catou aquilo ali e saiu correndo no terreiro atrás do meu pai, pra escapar ele subiu no abacateiro. Então são certas coisas que eu me lembro, que agora eu dou risada, eu acho engraçado. Mais eu posso dizer que enquanto eu estive junto com meus pais, apesar dos pesares, tive uma infância feliz. Tem esse meu irmão Henrique, que é um ano mais novo do que eu, um ano e cinco meses, mais ou menos, que é mais novo do que eu. Então nós dois éramos os companheiros mais... Que meu pai levava a gente pra todo lado. Ele era uma pessoa que sempre nos amou muito, quer dizer, o carinho que minha mãe, por causa do problema dela, não dava pra gente, ele dava. Muitas das vezes era ele que penteava o meu cabelo, porque eu tinha um cabelo cumprido, duas tranças. Eu me lembro que ele penteava meu cabelo. Ele saia muito com o meu irmão, fazia as compras, tinha uma carroça com burro. A gente tinha muita fartura, não tenho lembrança que a gente... Enquanto ele viveu a gente não passou fome porque no sítio a gente morava tinham muitos pés de frutas. No fim do terreno passava uma espécie de um rio, que eu me lembro de que meu pai formou uma espécie de uma barragem de madeira, de vez em quando ele abria pra escoar. Eu me lembro que tinha camarões,  uns camarões grandões meio assentados, tinha muito peixe e também tinha um lugar onde minha mãe lavava roupa pra fora. Minha mãe e minha tia Joana, que era irmão do meu pai, que convivia com a gente.

 

P/2 – E o seu pai morreu, você tinha quantos anos?

 

R/1 – O meu pai morreu, mais ou menos, acho que foi 1950, então eu estaria com o que... Eu sou de 43, então da...

 

P/2 – Sete anos.

 

R/1 – Sete anos. Não, acho que foi com um pouquinho mais, eu já devia já estar com uns oito anos já.

 

P/2 – E daí depois que ele morreu você ficou só com a sua mãe?

 

R/1 – É, fiquei só com a minha mãe e minha tia.

 

P/2 – E sua mãe tinha problema de...

 

R/2 – É, minha mãe tinha problema porque depois que meu pai faleceu ela ficou muito mais perturbada. Então o que é que acontecia: ela saia com a gente pelas estradas a fora, ora batendo na casa de um, ora batendo na casa de outro. Mais que eu me lembro as pessoas não queriam aceitar ela, né. A gente ficava perambulando. Perambulando pra um canto, perambulando pro outro. Em uma dessas caminhadas minha mãe voltou novamente lá pra Ferras de Vasconcelos, por que nessas caminhadas que a gente fazia, a gente andava assim, Poá, Mogi das Cruzes, e ia andando assim pelos lugares. Quarta Parada, Itaquera, Guaianases. Indo atrás dos parentes.

 

P/2 – Ela ia com você, ela e todos os filhos?

 

R/1 – E todos os filhos. Só que quando o meu pai faleceu, a minha mãe já estava grávida novamente. Então essa minha irmã que eu reencontrei, a mais nova, evangélica, a Cida, era nenenzinha ainda. Eu me lembro que o meu irmão Henrique carregava minha irmã Dalva de cavalinho nas costas. E eu, apesar de estar carregando uma trouxinha de roupa, às vezes na cabeça, às vezes pendurada nas costas, minha mãe amarrava minha irmãzinha assim no meu corpo pra eu carregar.

 

P/2 – E você ia pela estrada e dormiam a onde?

 

R/1 – Saia pela estrada. A gente muita das vezes entrava, encontrava pessoas que deixavam a gente dormir. Eu tenho lembrança que uma vez nós dormimos num paiol. Ali naquele lugar foi servido comida, minha mãe, eu me lembro que a minha mãe lavou umas roupas. E foi servido comida pra nós, foi dada umas roupa, tomamos banho, tudo, foi dada umas roupas. Nisso minha mãe, de repente, dava um negócio nela e ela saia pelas estradas outra vez. Numa dessas caminhadas pelas estradas, ela carregava um saco, uma sacola que era feita de saco, de uma espécie de... Era de saco mesmo. E ali ela carregava milho, carregava farinha, leite. Numa dessas caminhadas eu me lembro que uma vez ela parou na estrada fez um fogo e uma lata, um... Aquelas latas de banha de coco que tinha naquela época, ela cozinhou o milho pra gente comer. O milho já tava bem duro. E ela cozinhou o milho pra todos nós comermos. Foi mais ou menos nessa época que ela achou que tinha que voltar novamente pra Ferraz de Vasconcelos onde tinha esse sítio, que eu não tenho lembrança, meu irmão é que sabe direitinho porque depois ele ficou que eu fui apreendida e ele ficou um pouco mais com a minha mãe, então ele tem mais noção dos locais, das coisas. E nós voltamos nesse local, só que nos expulsaram de lá. Colocaram fogo na casa que era onde a gente morava com meu pai, aliás, eram três casas que tinha. Uma eu me lembro que era de tijolo, na parte de cima. Agora as duas mais a baixo eram de pau a pique, de barro e coberta de sapê. Eles colocaram fogo em tudo, quer dizer, acabaram com todas nossas coisas. Expulsaram. Eu tenho lembranças que eles andaram batendo na minha mãe e nesse mesmo sítio, um pouco... Assim, um sítio ao lado morava um casa, o nome dele eu me lembro que era Sebastião e o nome dela era Sebastiana, que ela era uma cega. Aí eles me tiraram pra pedir esmola com eles.

 

P/2 – Aí você saia com eles pra pedir esmola.

 

R/1 – Então eu sai... Eu sai umas três vezes com eles, e numa dessas, eu acho que na terceira vez que eu sai com eles pra tirar esmola, eles vieram aqui para o centro de São Paulo, ali na Brigadeiro Luis Antônio, mais ou menos eu me lembro que tinha um albergue perto do Hotel Danúbio Azul, eles brigaram. Tava uma chuva, uma garoa, muito frio. Eles, o casal, começaram a brigar por causa de um cobertor.  Começaram a se estapear. Aí chegou a polícia, naquela época era a polícia civil, eram chamados de guarda civil na época. Porque não tinha ainda a separação de polícia militar e polícia civil, era uma coisa só. Aquele carrão e mais uma coisa do juizado de menores. Aí eu sei que eles me colocaram no carro do juizado de menor e prenderam o casal. Ela eu me lembro que chegou uma ambulância onde colocaram ela, e ele jogaram dentro daquele carro de polícia. Eu fui pro juizado de menor, uma casa, um casarão que tinha na Brigadeiro Luis Antônio, e ali eu fiquei. Ali eles...eu tomei um banho, foi onde eles tiraram, me levaram num lugar lá, tiraram fotografia minha. Eu ria muito porque eu achava engraçado tudo aquilo. Eles queriam que eu parasse de rir para poder me fotografar. Até que foi um momento que eu me lembro que me deram, veio um senhor e me deu um pescoção. Me deu uns pescoções para eu parar de rir. Eu como fui muito valente e tudo, comecei a chutar as canelas desse senhor. Eu sei que aí me fecharam lá num lugar lá escura, depois me tiraram e me levaram novamente pra tirar fotografia. Tiraram minha fotografia, depois disso me puseram novamente no carro do juizado de menor e me levaram ali pro, que hoje eu acho que é chamado de FEBEM. Mas naquela época eu não sei, não tenho lembrança do nome, mas eu vou procurar saber o lugar, que eu sei que é lá na Celso Garcia, ali no... Aonde é a FEBEM hoje. Tinha uma parte ali que tinha uns casarões e de um lado, acho que assim, mais ou menos, entrando do lado direito eram meninas e a parte esquerda era menino. Foi ali que cortaram meu cabelo, que eu tinha duas trançonas bem grandes, meu cabelo era bem cumprido, que minha mãe tinha feito promessa pra Nossa Senhora da Penha que quando eu completasse 14 anos ela cortaria meu cabelo. Então ali eles cortaram todo meu cabelo, rasparam, e passsaram, naquela época eles passavam Detefon misturado com álcool creolina na minha cabeça. Dali eu fiquei, não tenho noção, eu acho que eu passei uns três meses ali. Dali eu fui transferida para um colégio ali perto da igreja da Penha, onde também era só de meninas. Eu acho que era Nossa Senhora das Graças esse colégio, que me parece que tem até hoje. E dali eu fui pra... Passei uns... Acho que passei uns meses ali também. Dali eu fui pra... Me levaram pro colégio Educandário São Domingos que fica na Vila dos Remédios.      

 

P/2 – Daí nesse período você não teve mais contato com sua família?

 

R/1 – Não, nunca mais tive contato com minha família. Mais ali fiquei na coisa, só que parecia que não havia vaga naquele colégio Educandário São Domingos. Então me levaram pra Batatais, num colégio que tinha em Batatais. Fiquei um pouquinho lá, aí me trouxeram de volta. Se se não me engano eu fiquei em Lins, não sei se é Campo Limpo Paulista, eu sei que eu andei rodando assim. Coisa de semana e dias, aí eu tornei a voltar pra Educandário São Domingos onde eu fiquei.

 

P/2 – Você ficou quanto tempo no Educandário?

 

R/1 – Ali, que eu tenho lembrança, acho que mais ou menos uns oito anos e quatro meses. Porque eu me lembro que quando eu fiquei ali praticamente assim...Definitivo, foi em 54 quando houve o aniversário de São Paulo quatrocentos, que eu me lembro que foi tirado as minhas medida, de todas as menina, foi feito uniforme, a gente foi pra inauguração, acho que talvez do Parque Ibirapuera e foi também quando aconteceu o problema com o suicídio do Getúlio Vargas. Eu tenho lembrança que eu pertencia a sessão de soldada que de vez em quando, de vez em quando não, uma vez por mês ia as assistentes social, sabia se eu tava gostando, o que que eu estava precisando, se eu queria trabalhar, se eu estava estudando. Eu sei que, naquela época, eu fui muito, eu acho que eu fui bem acompanhada, porque aquelas assistentes sociais_______. Eu me apeguei a todas elas por causa do carinho que elas tinham por mim. E eu tenho o nome até hoje delas, era a Dona Esmeralda, Dona Maria de Lourdes, Dona Lió e tinha outra que eu acho que era Maria Aparecida o nome dela.

 

P/2 – E no Educandário você chegou a estudar?

 

R/1 – Cheguei a estudar, fiz do primeiro ao quarto ano e depois admissão, só que eles só registraram como eu fazendo o quarto ano. Não registraram eu ter feito na época o quinto ano, era chamado de quinto ano, que era admissão. No colégio eu aprendi de tudo. Eu fiz corte de costura, dada pela Singer. A professora, o nome dela era dona Iracema e dona Clio. Eu aprendi datilografia, eu aprendi tocar órgão, bordados, crochê, tricô, trabalhos artesanais, manuais, aprendi jardinagem, aprendi horta, cuidar de verdura de coisas na horta. Aprendi também como cuidar de flores, aprendi... Ficava... A gente ficava 30 dias, de 15 a 30 dias, que era chamado de ofício, no galinheiro, cuidando de galinheiro, da limpeza, de trocar água, de colher os ovos e colocar ração, milho, tudo isso. Muitas das vezes também picava restos de verduras pra jogar pras galinhas. Na parte da jardinagem também. Depois no outro mês cuidava do refeitório, da limpeza, de colocar os pratos, tirar, servia refeição. Outro mês eu ficava na cozinha aprendendo que tinha a irmã Genoveva, que era a parte da cozinha, a parte da horta, a parte do galinheiro. Tinha também que subir lá no curral onde tinha as vacas, tinha o gado. Tinha também o negócio dos porcos. Então eu tinha essa parte que eu ficava... Era onde eu mais gostava porque eu ficava livre! Tinha essa irmã Genoveva que gostava muito de mim, então me dava muito bem. Tudo o que ela falava pra mim, eu não era rebelde não, eu aceitava, eu aprendia, queria aprender cada vez mais. Então foi onde eu me... Mais fiquei, tive mais afeto.

 

P/2 – E você falou que no período de férias vocês saiam.

 

R/1 – É, no período do mês de julho, essa era a sessão soldada que tinha no juizado de menor, no mês de julho, que era menor, eu saia para as casas de família. Eu mais olhava criança, que eu gostava muito de criança, então era mais pra ser assim baba na época era pagem que falava. Nas férias de julho e em dezembro também eu saia para as casas pra passar as férias e assim trabalhando. Naquela época o dinheiro não vinha pra minha mão, o dinheiro era dado, entregue ao juizado de menor onde era depositado esse dinheirinho. Era depositado na Caixa Econômica Estadual.

 

P/2 – No seu nome?

 

R/1 – É, no meu nome até eu completar 18 anos, 21 anos.

 

P/2 – E você se lembra da primeira criança que você tomou conta?

 

R/1 – A primeira criança que eu tomei conta foi numa casa, mas eu não tenho o nome. Foi que nem eu falei, eu não me lembro do sobrenome da pessoa, que era um casalzinho de gêmeos. Agora na segunda casa, nas outras casas eram tudo crianças já maiorzinha que eu fazia companhia. De nenenzinho mesmo que eu passei foi esta casa e foi na casa da dona Neuza e do doutor Ayrton de Carvalho. Que foi a Jurema, o Flávio e a Jurema, devia estar com, acho que com três meses e dezessete dias, quando eu fui. Da primeira vez, eu acho que foi em 57, a primeira vez que eu sai pra ir pra casa da dona Neuza e o doutor Ayrton. Me tiraram do colégio.

 

P/2 – E como é que foi isso, essa saída do educandário?

 

R/1 – Olha essa saída foi o seguinte: Ele, o doutor Ayrton tinha uma tia que o nome dela era Neuza, o nome dessa tia.

 

P/2 – Neuza?

 

R/1 – É. Então eles me tiraram pra fazer companhia, ser como uma companheirinha, uma dama. Dama de companhia pra dona Neuza. Só que eu não sei por que motivo ela me passou pro doutor Ayrton e pra dona Neuza. Aí foi em 58 que eu sai definitivamente, quando você nasceu três meses depois. Eu sei que parece que foi 16 de maio de 1958, ou foi 16 de maio de 1957?

 

P/2 – 58.

 

R/1 – 58. Definitivamente foi 58. Que eu sai e comecei a trabalhar. Mais eu era uma menina que eu era assim: não era uma questão de rebeldia, mas eu era insatisfeita com as coisas. Então eu não aceitava as pessoas chamarem atenção, eu achava sempre que eu tava certa. Eu achava que eu sabia tomar conta de mim. Eu tinha muito pensamento em reencontrar minha mãe e meus irmãos, então eu tinha certo desassossego. Eu não aceitava muito as pessoas me darem ordem, apesar que eu não era, eu nunca fui uma menina assim de mexer em nada de ninguém, de tirar nada de ninguém. Sabe, sempre fui honesta comigo mesma. Se me mandassem pegar uma fruta eu pegava. Se mandasse comer um prato de comida eu comia. Eu nunca fui de mexer assim, de comer escondido, de fazer as coisas escondidos não. E eu não aceitava quando me acusavam. Se acontecia alguma coisa de errado e me acusassem, nossa senhora, aí é que eu partia mesmo pra rebeldia, pro pau, como se fala hoje em dia.

 

P/2 – Daí você não viu nunca mais sua família?

 

R/2 – Nunca mais eu vi minha família. Uma vez só que eu tenho lembrança que eu ainda tava no colégio e que a freira, já tinha acabado o horário de visita, eu nunca recebi visita nenhuma. Mas já tinha acabado o horário de visita, e a irmã Lina, que era a, como é que fala, quando toma conta de criança? Não é genitora, monitora, não é?

 

P/2 – Hum.

 

R/1 – Mandou que eu fosse trocar a roupa. A gente já tinha tomado banho, ela mandou que eu trocasse a roupa e colocasse o uniforme. E me levou até a portaria. Só que no eu chegar à portaria, na salinha ali que era das visitas atrasadas, só tinha um com... Me entregaram uma sacola com corte de vestido, uma boneca, frutas, doces, estas coisas e a irmã superiora falou assim: “Olha, a sua visita foi embora, foram seus padrinhos que estiveram aqui”. E foi só, eu nunca mais recebi visita de ninguém. E também tem que quando a dona Neuza começou também a frequentar, ela... As bandeirantes, a dona Neuza lecionava, dona Lê...Dona Neuza. Ela era professora na cidade universitária e ela lecionava no Campos Sales. Então ela começou, as alunas começaram a fazer uma campanha de levar donativos lá pro... Foi aí que a dona Neuza e o doutor Ayrton ficaram me conhecendo. Ela levava donativos junto das bandeirantes, levava donativos lá pro Educandário São Domingos, fazia aquelas festas beneficentes tudo lá pra gente. Eu lembro que uma dessas festas foi a Inês Dita Barroso que foi lá cantar pra nós. Tinha outra que tinha o nome de Iracema, a ______ eu sei que eram diversos artistas que foram fazer esta festa pra nós. Eu até fiquei de castigo porque eu gostava muito de leite condensado, de Leite Moça, gostava demais, e ali naquela conversa dali, conversando com um, naquela amizade assim, pra uma dessas, acho até que foi pra uma dessas meninas da bandeirante que perguntou o que eu mais gostava, eu disse assim: “Eu gosto de Leite Moça, de leite condensado. Eu gostaria de uma latinha, que eu queria fazer um buraquinho e tomar ela todinha sem dividir com ninguém”. E eu não sei por que isso foi parar para a freira que era a irmã, o nome dela era Lucila, e essa irmã tinha um certo... Ela tinha certa antipatia por minha pessoa, porque lá no colégio era assim: Se a gente fizesse uma arte eles não aceitavam da gente acusar outra. Então eu era, eu sempre fui assim muito... Muito eu mesma. Na maior parte das vezes, quando aparecia alguma coisa mal feita a gente não podia acusar outra. Então eu assumia. Eu às vezes pra não ver... Gostava muito da colega, ou ela era nova, então eu assumia. Eu sempre dizia assim: “Não, fui eu que fiz.” E essa irmã Lucila ficou com certa antipatia por mim porque nas brincadeiras na hora do recreio, uma vez eu peguei uma vara de bambu bem comprida e cutuquei um cacho de abelhas (risos). Cutuquei um cacho de abelha coisa e aquilo lá saiu enganchado nessa coisa, e eu rodando aquela vara, caiu numa sala onde estava esta irmã Lucila (risos). Acontece que as abelhas morderam ela. Ela ficou com os olhos super inchados, beiço, nariz. Ela ficou com bronca, com raiva, então tudo o que acontecia ela procurava me castigar. Muitas das vezes não tinha nem sido eu, mas como a gente não podia acusar ninguém, então eu assumia: “Não, fui eu.” Então foi colocado, meu nome era... Me chamavam de capeta, de diabo. Então essa irmã falava: “Foi o diabo da Maria da Penha Pedro que fez”. Tanto é que eu peguei uma bronca muito grande de me chamarem de Maria da Penha Pedro, porque tudo era Maria da Penha Pedro. Então já que me acusavam de tudo que acontecia, então eu passei a fazer. Sabe, passei a fazer. Eu quando ia lá pra por comida pros porcos, tinha aquelas brincadeiras que uma vez me jogaram dentro do chiqueiro de porco, eu fiquei com bronca, então eu peguei a colega e joguei ela.

 

P/2 – Fazia a maior bagunça?

 

R/1 – É, eu fazia. Aí fui colocada pra cuidar das galinhas junto com essa menina. Então o que é que eu fiz: Cheguei à madre superiora, e falei pra madre superiora que as galinhas naquele dia tinham colhido 60 ovos, não era 60, tinha 15 ovos e falei que era 60. E tomei castigo por isso. Porque eu falei: “Ah não, foi fulana, ela foi lá e ela falou que tinha colhido 60 ovos. Aí a irmã falou assim: “Mas e onde está estes ovos?” Eu digo: “Ela quebrou tudo.” Realmente ela não tinha quebrado, foi uma mentira minha, então eu tomei um castigo.

 

P/2 – Depois que você saiu lá do Educandário, você foi pras casas, tudo, e como é que foi essa trajetória sua?

 

R/1 – Olha essa trajetória minha, de todas as casas que eu tive, onde eu fui mais bem aceita, bem, sabe, com muito carinho, foi na família Violani e na família Carvalho. Que eu fui bem tratada, inclusive eu tive na casa do doutor Ayrton e da dona Neuza, eles chegaram a me por professor particular, porque eu tive um pequeno problema com... No colégio, aí eu saí e tive que terminar, fiz duas vezes a quarta série, o quarto ano. Então eu fiz no Pereira Barreto, mais como eu cuidava das crianças, tinha horário pra cuidar das crianças, tava um pouco atrasada então o doutor Ayrton e a dona Neuza contrataram uma professora particular pra mim que o nome dela acho que era Zuleide, que eu tinha muito carinho.

 

P/2 – Aí você ficou lá quanto tempo?

 

R/1 – Olha, eu não posso nem dizer porque eu era assim meio rebelde, eu ia e vinha, ia e vinha.

 

P/2 – Até hoje.

 

R/1 – Eu tenho lembrança que uma vez eu passei 14 anos sem dar notícia, depois de 14 anos eu voltei trabalhar junto com a dona Neuza. Só que dessa vez quando eu voltei novamente, eu voltei e fui trabalhar de cozinheira. Mas voltando mais atrás, tem uma coisa que até hoje eu não esqueço, mas isso daí foi um carinho muito grande, muito grande mesmo, que eu tenho lembrança de quando eu completei meus 15 anos, a dona Neuza tinha uma empregada de nome de Neide e a dona Neuza mandou fazer um pão-de-ló de laranja e ela tem esse prato até hoje, um prato de cerâmica. Quando eu fiz meus 15 anos foi colocada a velinha dos 15 anos, tudo, foi chamado algumas coleginhas minhas, uma dela eu até lembro o nome dela, que o nome dela era Benedita, que foi minha colega no colégio e uma champanhe. Na hora que foi estourar a champanhe, que a Neide abriu essa champanhe, que estourou até nas taças. Essa Neide falou assim: “Fala um desejo seu”. Eu falei assim: “Olha, o meu desejo é assim: Se até os 30 anos eu não me casar, eu arrumo um filho e não me caso mais”. Eu falei aquilo numa brincadeira, mas foi exatamente isso que aconteceu. Eu com trinta anos fiquei esperando este filho, arrumei este filho que agora já ta com 29 anos. Tive ele, tava com 30, em dezembro completei 30 anos. Quando foi no ano de 74, no dia primeiro de fevereiro, eu tive este meu filho que está até hoje na minha companhia. Mas lá na casa da dona Neuza... A dona Neuza, o doutor Ayrton até mesmo a mãe dela, o pai dela, sempre foram muito pacientes comigo, eu era rebelde mesmo. Tinha certas coisas que eu fazia, mas nunca fazia sem sentido de coisa. Talvez fosse pra chamar a atenção. Talvez, no meu ver acho era certa retribuição. Mas eu era muito rebelde, eu sei que eu dei muito trabalho pra dona Neuza, pro doutor Ayrton. Uma vez eu briguei, xinguei a mãe de dona Neuza. Por causa de uma coisa insignificante, que eu estava lavando o quintal, aconteceu um negócio lá, a mãe da dona Neuza me chamou atenção e eu xinguei ela. Aí a dona Neuza veio e me chamou atenção e eu não gostei, aí eu fiz ameaça, que eu era muito rebelde, tinha certas coisas que eu não aceitava. Eu me lembro que a mãe da dona Neuza, dona Eudóxia e a mãe do doutor Ayrton, dona Amélia me levaram de volta pro juizado de menores, que era lá na Brigadeiro de Luis Antônio, me entregaram lá. Daí eu passei na casa de uma judia, da família Rapaport, dona Sonia Rapaport. Fiquei lá cuidando de uma menininha, de uma nenenzinha também. Mas lá eu acho que eu fiquei mais ou menos um ano, um ano e pouco, que foi até quando teve a copa de 70, eu fiquei lá. Daí pra frente eu comecei a ficar num canto, porque já, os juizados de menores não me aceitavam mais, porque o único lugar que tinha vagas era o colégio Educandário São Domingos. Mas tem uma parte também que eu to pulando, em 58 eu tive um problema na minha visão.

 

P/2 – É isso que eu ia perguntar. Quando é que começa este problema na visão?

 

R/1 – Eu tive um problema com a minha visão que foi uma uveite, ela começou com uma dordole e depois se tornou uma uveite, que infeccionou e eu estava praticamente assim, com um início de perda da minha visão. Mas o doutor Ayrton tinha um amigo, que era um oftalmologista, o doutor Antônio José, não lembro o sobrenome dele, que ele clinicava ali no posto de saúde da rua Roma. Aí ele cuidou muito bem de mim, e eu cheguei a não perder a visão. Era um problema que eu tinha, que muita pessoa quando a gente fala acha grave, mas era um problema de sífilis que eu tinha, na época eu era jovem, ainda não tinha tido contato com ninguém, então foi feito um _____e esse problema da sífilis foi por causa do sangue, foi hereditário.

 

P/2 – Foi por causa da sua mãe?

 

R/1 – Foi passado. Da minha mãe ou do meu pai.

 

P/2 – Você já nasceu com isso?

 

R/1 – É, já nasci. Mas eu me tratei porque o doutor Ayrton e a dona Neuza eles sempre foram as pessoas, olha, que eu tenho assim, não tenho palavras pra agradecer tudo o que eles fizeram por mim. Eles arrumaram pra eu fazer um tratamento. Eu fiz esse tratamento, passei praticamente quase que meio ano cega porque infeccionou muito, do direito passou pro esquerdo, mas eu fiz o tratamento. Fiz o tratamento sífilis ali na baixada do Glicério, não sei se ainda existe aquele posto, não sei se é faculdade, o que é hoje em dia porque eu nunca mais fui. Depois que eu terminei todo o tratamento, que eu já não tinha mais nada, eu nunca mais voltei ali. Eu sempre ia e voltava na dona Neuza e no doutor Ayrton.

 

P/2 – Então agora conta um pouco como você conheceu o Pedro e teve o Ricardo.

 

R/1 – O Pedro eu conheci quando eu sai da casa de dona Neuza, eu fui trabalhar pra uma ex professora que era lá do meu colégio, do Nauzira Engli, a família Engli, e numa dessas, sai...Porque eu gostava muito de ir em baile, gostava muito de pular o carnaval, mas eu não era assim uma jovem de me entregar assim pra qualquer um. Nesse ponto eu sempre fui muito correta comigo mesmo, porque eu tinha medo de engravidar, ter um monte de filho e ficar jogada sem ter ninguém, porque isso no colégio as freiras aconselhavam muito a gente e a assistente social, quando entregaram meus documentos de maioridade, chamaram, conversaram comigo, explicou que era pra eu me manter pura até que eu encontrasse um rapaz pra me casar, que não era pra eu cair na vida, me encher de filho, ficar doente, ia ficar jogada e ia ser pior pra mim. Eu sempre me mantive... Mas chegou uma hora que bateu, eu tava com o que, to falando, tava com os meus 30 anos, conheci esse Pedro. Conheci ele lá no Som de Cristal, que era um salão que...Onde tinha uns negões. Eu com uma turminha de amiga, nessa época já tava em outra casa, da família Arrivabene... Arrivabene Barrela. Então eu tava trabalhando no Alto da Lapa junto da ______dona Gildinha e seu Rébiti. Eu saí. Era uma vila que tinha ali, subindo a Rua Aurélia, quase em frente a... Na Cerro Corá, quase em frente essa Rua Aurélia, que é uma vila, que até hoje ainda tem ali. Hoje é chamada de condomínio, antigamente era uma vila. Ali saindo com as amigas pra ir pra salão, pra Garitão, pro Som de Cristal, Clube 13 de Maio. Eu fiquei conhecendo esse Pedro. Eu fiquei conhecendo ele na época lá no Paulistano, na Rua da Glória, no salão Paulistano, na Rua da Glória. Aí ele gostou de mim, eu gostei dele e ai foi que...

 

P/2 – Ele sabe que tem um filho?

 

P/1 – Jurema, só um minutinho.

 

P/2- Vamos trocar a fita. A senhora não para de falar (risos).

 

P/1 – A senhora quer um golinho da água?

 

R/1 – Não, obrigada filho, não.

 

P/2 – Ela não para de falar, se deixar.

 

R/1 – Tem muita coisa.

 

P/1 – Ela lembra tudinho.

 

R/1 – É muita coisa que tem.

 

P/2 - É que tem uma hora, se ela vara cinco horas aqui é pouco.  Na minha infância mesmo, tem muita coisa. É que nem eu falei pra Jurema, me arruma um gravador que em casa eu vou falando.

 

P/2 – Vão dez fitas. Ela lembra nome de tudo, data de tudo, ainda bem que você não começou...

 

R/1 – Hai...

 

P/2 – Vamos falar de outra coisa, depois a gente retoma isso, porque a Penha adora chorar um pouco, é bom né Penha?

 

P/1 – É bom, da saudade.

 

R/1 – Porque tem uma parte que minha mãe começou a descontar, por causa do falecimento do meu pai, a minha mãe começou a descontar tudo em cima de mim, tudo que acontecia. Então eu apanhava muito. Eu ia pular essa parte, mas eu estou voltando, foi por isso que eu saia com esse casal. Porque vi que ela... Nós começamos a passar fome, andar para um canto e para outro, foi por isso que eu decidi na época sair com o casal pra pedir esmola, pra poder ganhar roupa, comida, essas coisas, para os meus irmãos.

 

P/2 – Daí você saiu com esse casal?

 

R/1 – É, só que não voltei mais.

 

P/2 – Você não voltou mais.

 

R/1 – Aconteceu o que aconteceu, nos separamos de vez e depois, quando eu já estava no juizado de menores ________eu perguntava dos meus irmãos e das minhas irmãzinhas. Eles diziam: “Não, eles estão no colégio. Seu irmão ta no colégio, como você. Então quando você crescer, já forem maior de idade, vocês vão se reencontrar.”

 

P/2 – Então vamos contar agora quando você teve o Ricardo...

 

R/1 – Eu tive o Ricardo...

 

P/2 – O Pedro sabe que o Ricardo existe?

 

R/1 – Não, não por que aí, exatamente, pra ser franca, eu vou dizer, vou contar a verdade. Não foi o Pedro, o Pedro não é o pai do Ricardo. Eu omiti até hoje essa parte, mas o verdadeiro pai do meu filho ele é... Ele já faleceu, era um investigador da polícia. O negócio é o seguinte, quando a gente saia em turminhas, de meninas, de moças, eu tinha uma colega que ela tinha um envolvimento com policial. Em uma dessas saídas da gente comemorar aniversario, essas coisas, nós fomos comemorar o aniversario de uma amiga, ali numa lanchonete que tem ali na lapa, não sei se ainda existe, na época era Chaparal o nome dessa coisa. A gente comemorando e eu sempre fui muito fraca pra bebida, toma uma cerveja, toma isso, toma aquilo...Aí eu tomei... Na brincadeira eu tomei um tal de fogo paulista, fazendo uma disputa. Eu fiquei mesmo meia... Meia loucona, vamos dizer isso. E na hora de ir embora, foi dada carona pra nós. Só que essa minha colega, nós estávamos em três, Dois homens, dois rapazes, e nós estávamos em três. Tinha essa minha comadre, que é madrinha do meu filho, Angelita. O nome dessa minha amiga era Aparecida, que tinha envolvimento com o coisa. E quando nós chegamos lá em cima na Cerro Cora, perto da onde a gente morava, a minha comadre saiu, que é a Angelita e foi pro emprego dela. Porque nós todas morávamos em casa de família, trabalhava e morava. Aí ela saiu pra ir pra casa da patroa dela, e essa Cida quis ficar mais um pouco com o namorado dela. Eu tava ali e o cara: “Vamos ficar, vamos só conversar, isso e aquilo”. Aí tudo bem, eu já tava meia coisa, meia bobona, meia coisa. Só que eu fiquei no carro, mais eu achei que eu estava só sentada ali. Só que ele levou esse carro, levou pra um lugar, e eu lembro que ele pegou a arma e fez com que eu entrasse no banco de traz. Eu não gosto de tocar nesse assunto, porque eu já estava com trinta anos, então não gosto de tocar porque as pessoas acham que isso não acontece, por isso que eu nunca toquei nesse assunto. Ele me fez ir pra parte de traz e com ameaça ele, praticamente foi uma espécie de um estupro. Eu me lembro que isso foi no dia 30 de abril, era, se eu não me engano era até uma quinta-feira, era uma quinta? Era uma quinta ou sexta-feira. Que eu sei que dia primeiro de maio era feriado. Eu sei que ali eu fiquei, não sei por quanto tempo também, não sei, eu a única coisa que eu me lembro que quando ele saiu dali daquela rua, que ele me deixou na calçada, a única coisa que eu me lembro é que se eu contasse pra alguém, ele me matava. Foi a única coisa, que ainda ele desceu, me deu um empurrão, fez com que eu entrasse na vila, e falou que não era pra eu nem contar pras minhas colegas porque não era pra contar pra ninguém. Nessa época eu namorava com esse Pedro, que tinha apelido de café. Só que eu não contei pra ninguém, eu estou revelando isso, é a primeira vez que eu estou tocando nesse assunto. 

 

P/2 – Nem o Ricardo sabe?

 

R/1 – Não, ele sabe, assim mais por cima, mas não contei a verdade, só falei pra ele que o pai dele era um policial, só isso. Mas ele falou pra mim que não quer saber, que pai e mãe fui eu, mãe e pai dele fui eu, então ele falou que não queria saber, não quer saber, não quer saber da história, nada. Só falei assim pra um acerto de consciência, né.     

 

P/2 – Certo.

 

R/1 – Então essa é a primeira vez que eu to revelando isso, apesar de eu já estar com 30 anos, então não é uma coisa que as pessoas possam acreditar. Não, poxa, pra quem tem uma experiência de vida, mas foi exatamente isso que eu contei. Só que quando eu contei pro Pedro que eu estava esperando um filho, ele pegou e falou assim: “Mas o filho não é meu.” Não, é meu, só que ele pegou e falou assim pra mim: “Olha, Penha, vamos acabar por aqui. Eu não vou assumir um filho que não é meu.” “Enquanto você era...” Ele foi bem claro.” “Você era virgem, eu tinha intenção de casar com você...” Tava já montando, ele falou que tinha um apartamento, a onde ele já estava comprando móveis, montando, né. Só que ele se foi, nunca mais aí eu vi ele. A partir daí, eu trabalhava nessa dona Gildinha, quando ela soube que eu estava esperando essa criança, ela me mandou embora, disse que não podia ficar comigo. Aí eu fiquei daqui, dali, hoje eu trabalhava numa casa, por uma dormida, lavava uma roupa, fazia uma limpeza. Aí ficava num quartinho, muitas das vezes não era nem quartinho, era dentro de garagem, lá num cantinho, só pra dormir. Quando era de dia eu saia pra outra casa. Até que eu fiquei doente, eu fiquei muito anêmica. Não vou mentir não, eu comecei a entrar em desespero e através de outra colega de nome de Francisca, ela arrumou uma parteira, uma senhora que trabalhava há 25 anos nas Clinicas, na parte lá da maternidade, e ela tinha na casa dela, que era na vila dos Remédios, ela tinha uma sala que ela tinha todos os... Ela tinha até aquela cama cirúrgica. Ela tinha toda aparelhagem cirúrgica. Ela fazia aborto. Só que quando eu... Essa minha amiga foi, se juntaram entre todas elas, fizeram uma vaquinha e arrumaram o dinheiro pra eu fazer um aborto. Também é a primeira vez que eu estou revelando isso, nunca toquei no assunto. Só que essa senhora, quando eu deitei e tudo, quando ela foi me apalpar, me examinar, ela falou assim: “Minha filha, levante daí.” Ela disse: “Olha, eu não vou por a mão em você, você vai sair daqui, você vai erguer sua cabeça, você vai ter essa criança e você vai cuidar dela. Eu não vou por a mão em você, porque se eu puser a mão em você, você vai complicar pra minha vida, porque pelo que eu pude ver, esse feto que está aí, ele tem certa complicação. Eu não sei dizer pra você se são gêmeos ou se é alguma coisa, mas pode ser que você não esteja com uma criança só, que você esteja com duas. Eu não vou por a mão em você porque você está muito fraca, você está anêmica, você não vai aguentar e eu não vou me complicar. Já tem muitos anos que eu faço aborto aqui, mas em você eu não vou por a mão. Você já ta com quase 90 dias de gestação, então você vai sair daqui e vai procurar se cuidar, você vai ter esse filho, sejam gêmeos ou não, você vai ter esse filho. Você não saia daqui, não procure lugar nenhum mais, não vai a lugar nenhum. Você vai procurar um médico, vai tomar vitamina, vai se cuidar e vai ter esses filhos. Filho ou filhos”. Eu saí dali, chorei muito, fui no posto de saúde da rua Roma, conversando com o médico, falei que não podia ter esse filho, falei que era sozinha, não tinha ninguém. Contei um pouquinho só da minha vida. Eu preciso trabalhar, mas as patroas não querem porque eu estou grávida. Eu queria que o senhor me desse algum remédio, uma injeção, qualquer coisa. Eu não posso ter esse filho, o que eu vou fazer para cuidar dele, se nem emprego nem nada eu tenho? Ele pôs a mão nas minhas costas, me deu um beijo na testa e falou assim “Olha mãezinha, pra tudo se tem um jeito. E Deus vai te iluminar. Você vai sair daqui e ter esse filho, vai fazer uma ficha e vamos fazer o pré-natal”. Eu chorei muito, ele aconselhou que eu tomasse chá de erva cidreira para eu me acalmar e que eu pensasse muito. Porque existia muita mulher que queria ter filho e não podia e eu estava ali com um ser e queria interromper. Eu saí dali e decidi ter meu filho e seja o que Deus quiser... Continuei essa vidinha, mesmo grávida. Batia aqui, batia acolá, sempre encontrava alguém que deixava lavar uma roupa, que deixava passar uma roupa; com um pouco de dificuldade eu me agachava no chão. Naquela época se usava raspar os tacos com palha de aço, então eu fazia isso, lavava quintal. Assim fui me virando. Tudo isso em São Paulo.

 

P/1 – Porque você não voltou para a casa de meus pais?

 

R/1 – Porque um pouco eu fiquei envergonhada do que tinha me acontecido, porque seu pai e sua mãe foram como os padrinhos que eu tive. Duas almas muito boas na minha vida, sempre me ensinaram tudo de bom. Como eu achava que eu tinha feito essa besteira, um erro na minha vida, eu tinha vergonha de bater ali. Aí eu comecei a perambular, fui trabalhar numa casa no Alto da Lapa, na casa do Dr. Roque e da Dona Maria de Lourdes, ela era professora de física no Colégio Campos Salles. Só que eu comecei a ficar muito anêmica, muito fraca e começava a passar muito mal. Eles me levaram para o Pronto Socorro da Lapa e de lá, fui de ambulância para o Hospital das Clínicas, onde eu fiquei mais ou menos um mês. Quando eu cheguei ao Hospital das Clínicas, eles acharam que eu não estava grávida, achavam que eu tinha um mioma. Eu tinha certeza que era gravidez e eles diziam que não. Depois deles fazerem um ultrassom, o diagnóstico que eles tiveram, diziam que era um mioma e que iam fazer uma cirurgia, que iam retirar o meu útero. Aí eu resolvi fugir do Hospital, porque eu sabia que era uma criança que eu estava esperando. Eu me lembro que uma assistente social falou “Minha filha, vamos fazer uma cirurgia, assim você fica livre, você não vai mais ter problema, vai poder se divertir, ter seus encontros e não vai mais ter problema de engravidar”.      

 

P/1 – Vai ver eles queriam fazer o aborto.

 

R/1 – Queriam fazer uma cirurgia em mim, retirar meu útero. Isso tudo foi em 73. Lá no Hospital tinha uma moça que estava fazendo um estágio, o nome dela era Deusa, ela tinha vindo de Brasília. Eu estava internada na enfermaria e tive contato com ela. Ela começou a perguntar, começou a dar um pouco de carinho para mim. Eu falei que eu era sozinha. Aí ela falou “Olha, eu sou pobre, muito pobre mesmo, moro em Brasília, estou aqui só fazendo um estágio, mas vou voltar pra lá. Eu sou muito pobre, mas caso você queira ir comigo, eu tenho uns conhecimentos, eu peço para a assistente social uma passagem e levo você lá até você ter seu filho. Depois a gente dá um jeito de arrumar um barraquinho pra você”. Só que nesse mesmo dia que ela tinha falado isso, eu tinha discutido com uma enfermeira. A enfermeira veio, tirou meu sangue, trouxe uma cadeira de roda. Na hora que ela me colocou na cadeira, deu um mal jeito e machuquei minha perna. Como eu discuti com ela, eles me deram alta. Então, ao mesmo tempo que foi uma fuga, já estava lá a minha alta. Só que quando a enfermeira me desceu, eu levantei da cadeira de roda, de roupão mesmo e fugi. Tomei um táxi e fui até o Alto da Lapa, onde tinha minha comadre, que é madrinha de meu filho, ela pagou o táxi para mim e fiquei perambulando. Entrei em contato com a Deusa, ela me levou para um albergue. Fiquei lá no albergue, ela arrumou as passagens. Eu tinha um conhecimento com a esposa do Jânio Quadros, ela tinha a parte assistencial, foi onde eu arrumei duas malas. Uma de roupas só para mim e outra só de roupa para meu bebê, meu filho.

 

P/1 – O Ricardo nasceu em Brasília?

 

R/1 – É. Fui com ela pra Brasília em 73, tive ele em 74. Eu fui para Brasília em setembro ou outubro de 73.        

 

P/1 – Aí você teve o filho? Foi tudo bem?

 

R/1 – O parto foi cesariana, eu tive um problema de pressão alta – eclampsia. Eu fiquei quatro dias em coma, me aplicaram anestesia geral, eu tinha problema de anemia, entrei em coma. Foram só quatro dias depois que eu conheci meu filho, gorduchinho do meu lado. Tenho uma lembrança muito bonita. Na época era o Presidente Médici, a esposa dele visitava hospital. Eu me lembro que entraram uma enfermeira e um enfermeiro nas enfermarias distribuindo botão de rosa para a gente. Eu me lembro que meu botão de rosa era branco. Lá em Brasília eles me chamavam de paulistinha. Eu me lembro que eu recebi esse botão de rosa, mas eu chorava muito porque todas as outras que estavam no quarto comigo, recebiam visita dos pais dos filhos; eu era a única que não tive visita. Eu me lembro de um enfermeiro de nome José. Ele veio, passou a mão na minha cabeça e falou assim “Não chore não paulistinha porque você é uma heroína, seu filho ainda vai ser um grande homem, ele vai ter um futuro muito bonito e se orgulhe de ser mãe”.

 

P/1 – Você ficou em Brasilia até quando?

 

R/1 –  Começo de 77. Ele nasceu, depois de dois meses eu voltei para o hospital outra vez, passei um mês e meio internada, fui para a casa do Dr. Francisco e Dona Leuda. Eles me trataram muito bem, mas o Dr. Francisco queria adotar o Ricardo e ele registrou o Ricardo em nome dele, como se fosse filho dele e eu descobri. A mulher dele foi muito honesta, ela veio me contar. Eu já tinha um dinheiro guardado, ela me deu mais um pouco, fui ao cartório junto dela e consegui anular o registro do meu filho. Registrei-o como Ricardo Pedro Veronese da Penha. Esse Veronese é em homenagem a um grande médico paulista. Aí eu voltei para São Paulo. Mas teve uma passagem também que essa Dona Leuda foi muito boa comigo em Brasília. A Deusa também e Dona Maria Barbosa, que tinha uma filharada, mas cuidou do Ricardo enquanto ele era pequenininho e eu estava internada no hospital. Quando eu cheguei lá eles me deram um barraquinho que era um corredorzinho assim com uma caminha de madeira, fizeram uma mesinha, tinha uma lata de sardinha com quatro pregos grandes que era meu fogãozinho, onde eu passei o resto da minha gravidez lavando, passando, fazendo salgadinho, fazendo crochê e tudo que eu sabia para ganhar um dinheirinho. Numa das minhas saídas que eu fui para o hospital, tinham entrado no meu barraquinho e levaram as duas malas de roupa. A única coisa que sobrou foi uma sacolinha que eu levava pra baixo e pra cima quando ia trabalhar, com a manta, uns pagãozinhos, fralda e cueiro. Foi a única coisa que sobrou, o resto foi tudo roubado. No dia que eu saí da maternidade do Primeiro distrital, com meu filho, eu ainda estava com a cesariana, eu fui no banco de trás para voltar pra Taguatinga, foi onde eu desmaiei, e quando eu vi já estava no hospital de volta. Foi aí que eu conheci essa Dona Leuda, que ela era a supervisora das enfermeiras e me levou pra casa dela até 77 quando vim embora para São Paulo.    

 

P/1 – Você veio pra cá e foi para a casa da Vera?

 

R/1 – Não, antes de ir para a casa da Vera, eu tive em Ferraz de Vasconcelos, na casa de uma prima minha, ela tinha problema de tiróide. Eu fiquei lá uns tempos, ela tomava conta do Ricardo para mim e eu saia pra trabalhar nas casas, aí eu voltei nessa minha ex professora que morava na rua Tagipuru. Trabalhava de diarista, lavava, passava e de tarde pegava ia até o Brás, pegava o trem de volta para Ferraz de Vasconcelos. Nessa ida para Ferraz de Vasconcelos, eu conheci uma senhora que trabalhava e que morava no Jaraguá.

 

P/1 – Mas antes, deixa eu te perguntar uma coisa: nessa época você reencontrou sua mãe, não foi?

 

R/1 – Reencontrei através da Dona Maria. Quando a Dona Maria me levou uma vez lá em Franco da Rocha...        

 

P/1 – O Ricardo já tinha nascido?

 

R/1 – Quando eu vi realmente minha mãe, o Ricardo já tinha nascido. A primeira vez que vim de Brasília, porque eu vim e voltei. Uma vez eu vim, eu estava grávida, eu vim para assinar uns papéis pra ela, mas não cheguei a ver ela. Eles mandaram um telegrama para Brasília - não sei como eles me localizaram lá. Mandaram um telegrama dizendo que eu tinha que vir assinar uns papéis para ela, que ela ia fazer uma cirurgia. Então eu vim e assinei os papéis, não cheguei a ver ela. Quando eu voltei para São Paulo depois, meu filho já estava com um ano e dois meses. Foi quando eu reencontrei ela, ela brincou muito com meu filho. Foi daí que eu passei a visitar.

 

P/1 – Ela foi morar com você um tempo?

 

R/1 – Em 78 e 79 ela passou oito meses comigo.        

 

P/1 – Mas seus irmãos não estavam mais?

 

R/1 – Não reencontrei porque lá no hospital psiquiátrico, eles não davam o endereço da minha família. Eu perguntava, mas era tudo no sigilo, eles nunca revelaram o endereço dos meus irmãos, principalmente desse irmão da Costa Mar. Eles nunca revelaram nem da minha irmã de Taubaté, da minha irmã de Jacareí e os endereços que eles me forneceram depois, bem depois disso, eu não consegui entrar em contato com ninguém. Não obtive respostas, as cartas voltavam. Eu só vim reencontrar minha família em 2001.

 

P/1 – Só acaba de contar quando você encontra sua mãe e o Ricardo é pequenininho

 

R/1 –  Encontrei minha mãe, o Ricardo era pequenininho. Passei a visitar ela todo segundo domingo do mês, ia levar as coisas para ela. Até que em 80, recebi um telegrama, eu estava morando na favela do Jaguaré – eu trabalhava na Costa Ribeiro, na Avenida Jaguaré, lá em baixo. Recebi um telegrama que era para eu ir buscar ela no Hospital Santa Teresa em Ribeirão Preto. Das últimas vezes que eu estava indo em Franco da Rocha, ela não estava mais lá. Ninguém me informava onde ela estava, aí eu deixei o endereço onde eu morava no Jaguaré e da firma que era Costa Ribeiro. Eu recebi um telegrama na Costa Ribeiro que era para eu buscar ela, ela estava de alta, não tinha para onde ela ir, não podia ficar no hospital, então fui eu e meu companheiro buscar ela em Ribeirão Preto. Ela ficou oito meses comigo. Minha amiga, essa finada Dona Anita, trabalhava no Pronto Socorro em Osasco, e arrumou um ambulatório nas Perdizes, para minha mãe não precisar ir todo mês em Franco da Rocha passar no médico. Ali eu recebi todos remédios dela, uma certa ajuda de frutas e alimentos, porque ela tomava remédios muito fortes e precisava desses cuidados. Só que todo mês ela falava que queria ver as amigas, que queria ir lá. Numa dessas idas, depois desses oito meses, ela entrou e não quis mais sair. Fui obrigada a deixar ela. Também foi o tempo que eu mudei de emprego, passei a trabalhar dia e noite, trabalhava nas estações de Metrô à noite, de dia, além de trabalhar nas casas de família, trabalhava quatro horas numa limpadora na Cooperativa Agrícola de Cotia. Aí perdi o contato com ela.

 

P/1 – E o Ricardo ficava com quem?

 

R – Eu tinha uma amiga chamada Zélia, eu trabalhava de noite e ela de dia, então durante o dia eu ficava com a filha dela e o Ricardo, à noite ela ficava com o Ricardo e a filha dela. A gente revezava. Eu trabalhei muito tempo na USP e nas estações de Metrô à noite. Foi assim que eu vivi certo tempo. Tinha esse meu companheiro, mas depois ele começou a trabalhar de segurança. O Aristeu eu encontrei quando eu morava na favela do Jaguaré. Quer dizer não fui eu que encontrei, praticamente foi meu filho e minha mãe. Minha mãe que foi a autora dessa junção, que acabou um verdadeiro desastre na minha vida.     

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