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História

"Tudo o que quero, realizo"

História de: Gumercindo Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Da rica infância, se recorda das brigas, das presepadas com os cinco irmãos, do comportamento que tinha na escola, e do medo de ir ao dentista. Desde os 12 anos trabalhando e já em Uberlândia, Gumercindo mostra que não mediu esforços para progredir. Foi engraxate, auxiliar de limpeza, vendedor e, por último, chefe geral da Central na CTBC. Hoje empreendedor da TECS Comunicações e rodeado de amigos que conseguiu por meio do bom trabalho e integridade, não pensa em parar; “descanso”, diz, “deixa para quando eu for para debaixo da terra”. Por onde passou, deixou boa impressão, mesmo após os conflitos causados por seu senso de justiça e por não abaixar a cabeça a ninguém, como conta.

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História completa

P/1 – Seu nome completo, a sua data e local de nascimento.

 

R – Gumercindo Costa Sampaio Junior, nasci em Patos de Minas, no dia 23 de agosto de 1936.

 

P/1 – O nome do seu pai e de sua mãe.

 

R – Meu pai, Gumercindo Costa Sampaio, e a minha mãe, Maria Gadia Sampaio.

 

P/1 – E o que seu pai fazia?

 

R – Meu pai tinha uma oficina de arreios... Arreadas para cavalos, para carroças. Ele tinha uma indústria com 16 funcionários. Naquela época, 1945, 1950, mais ou menos por aí. Durante uns dez anos o meu pai foi fabricante de arreada para animal, quer na fazenda, quer na cidade. Porque naquela época usava muito a carroça. Carro, mesmo, na minha terra, para você ter uma ideia, tinha três carros a gasogênio. Meu pai era um dos proprietários de um carro a gasogênio. Ele já era abastado, sempre foi muito trabalhador, e ao mesmo tempo arrimo de família, porque perdeu o meu avô e ficou praticamente como arrimo de família. Era uma família bem grande, e colocou o pessoal para trabalhar também com ele. Por incrível que pareça, praticamente... Por esse lado nós não puxamos o meu pai, não. A família dele era mais composta de músicos. Tinha três irmãs que tocavam. Meu pai tocava clarineta na banda de Patos de Minas, na época, e tinha mais um irmão que tocava outro instrumento, não sei se é bandoneón... Eu sei que eram cinco músicos na família, e hoje, os filhos, nenhum; só um que teve uma tendência mais ou menos para gaita, essa gaita de boca. Mas era uma família muito unida, e praticamente perdeu quase todos. Deve ter uns dois ou três irmãos, só, dos onze que tinha.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe sempre foi aquela doméstica, e aquela abnegada mãe de família. Teve doze filhos. Quando eu já existia, a primeira teve sarampo e, naquela época, a medicina ainda era meio crua. E a minha irmã parece que não gostava do médico que tratava dela – acho que era um dos poucos que tinha lá em Patos de Minas. Eu sei que esse cara chegou lá em casa, o sarampo recolheu e ela faleceu. Para você ter uma ideia, a minha mãe conta que ela estava toda empipocada de vermelho, e depois, em seguida, assim que ela viu o médico entrando – o médico já foi entrando direto para o quarto dela –, diz que ela ficou branquinha. O sarampo recolheu totalmente, então ela veio a falecer. Meu pai saiu maluco atrás desse médico, para matar o cara, mas não o encontrou. Se ele pega, tinha matado o cara. Na época já existia eu e o meu irmão, Vicente Sampaio, que agora está no lugar de ser o mais velho.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha, nessa época?

 

R – Nessa época eu devia ter alguns meses. Foi a primeira que nasceu, que faleceu. Nós somos em oito homens e três mulheres.

 

P/1 – Como era a casa da sua infância, lá em Patos de Minas?

 

R – A casa era uma casa grande, inclusive ela tinha o porão embaixo, onde funcionava a indústria do meu pai, de arreios, em 1940 e pouco. Era uma fábrica, o meu pai chamava fábrica de arreios. A minha casa era uma casa praticamente de dois pavimentos, porque o terreno era inclinado. Então por baixo tinha o porão, que é onde era a fábrica de arreio do meu pai, e tinha uma escadinha, que a gente descia correndo. Tinha mangueira, tinha goiabeira, naquela época tinha bastante fruta lá na nossa chácara. Muita bananeira... Tinha mais ou menos o quê? Quase um alqueire de chão, bem no centro de Patos de Minas, que hoje se chama Avenida Major Gote. Você já ouviu falar em rico pobre e pobre rico? Eu fui um menino rico, de infância. Eu fui rico de infância e pobre, porque o meu pai não tinha tantas posses, como eu tenho hoje, digamos. Porque, graças a Deus, eu posso me considerar um homem feliz, porque trabalhei muito e hoje estou vendo o fruto do meu trabalho. Hoje eu não posso dizer que eu sou um cara rico, mas praticamente eu sou um cara equilibrado, e me considero mais ou menos um cara da classe média alta, e não média baixa. Mas tudo isso pelo fruto do meu trabalho. Graças a Deus eu tenho os meus pais vivos. Dia dez de dezembro ele fez 97 anos; a minha mãe, dia 29 de janeiro, vai fazer 85 anos. Quer dizer que eu sou um cara rico em todos os pontos de vista, porque não é qualquer pessoa hoje que, aos 63 anos, tem pai e mãe vivos. E eu, graças a Deus, tenho.

 

P/1 – Descreva essa fábrica de arreios do seu pai?

 

R – A gente não tinha acesso à selaria do meu pai, mas, ao mesmo tempo, a gente às vezes ajudava em alguma coisa. Tinha um curtume, para curtir o couro, que lá matava-se o gado, pegava o couro, colocava estendido no chão... Mas tinha uma proteção embaixo, para não pegar bicho, certo? E tinha um líquido que meu pai passava para poder não danificar o couro. E aquilo ficava curtindo ali primeiro, depois ia pro sol. Depois do sol ele secava e meu pai o trabalhava. Era tudo feito na raça, porque naquela época não tinha tecnologia nenhuma. Ele ia fazendo da maneira que ele entendia. Matava o gado, tirava o couro do gado, curtia, deixava secar e já passava logo para a indústria de arreios, já fazia a tal de guaiaca, que era o cinturão para você colocar bala – porque naquela época não existia quem não usasse arma. Em Patos de Minas houve até um fato histórico: lá perto tinha uma cidadezinha que se chamava Lagoa Formosa e, na época, existia O Cruzeiro, era a revista de maior penetração no Brasil. O Cruzeiro foi lá em Lagoa Formosa registrar o fato, porque o cara parou uma égua na porta de um boteco, em Lagoa Formosa, no município de Patos de Minas, e o outro parou um cavalo. Naquela época tinha, nos bares, aqueles postes com as argolas para você amarrar os animais, as rédeas dos cavalos, para eles ficarem presos. E o cavalo de um lado, a égua de outro, e começou aquele interesse, o namoro dos dois, e o cavalo tentou fazer alguma conquista com a égua. O pulo dele pegou a arma que estava dentro, na arreata do cavalo, a arma caiu no chão, pegou na quina do passeio e atirou, matando a égua. É um fato que foi registrado naquela época pelo O Cruzeiro, a revista da época, em Patos de Minas. Então era comum você cruzar com as pessoas e ver o revólver na cintura do cara.

 

P/1 – Nós estamos falando de que ano?

 

R – Isso aí era o que... Eu tinha uns oito anos. Trinta e seis com oito, quarenta e quatro: 1944. Todo mundo andava armado, tanto é que meu pai fazia essas guaiacas – eu tenho uma até hoje –, um cinturão com as balas do calibre. Você colocava as balas tudo ali no cinturão, o revólver de lado... Ele comercializava mais essa parte do que a arreada, para você ver como era o negócio. Fazia também a capa do revólver. O cara chegava lá, deixava o revólver, e o meu pai fazia a capa dele, de couro. Às vezes o cara queria colocar no corrião dele – na época não era cinto, era corrião que chamava –, então o meu pai fazia as balas no próprio coldre, que na época não chamavam coldre, era capa de revólver. E ele fazia aquelas entradinhas para colocar as balas, calibre 38, calibre 44... Quarenta e quatro, tinha, cara! Além disso, ele fazia barrigueira, fazia arreada para aquelas carroças... Na época era muito comum, o táxi daquela época era charrete. O meu pai fazia arreada para charrete, arreada para carroça.

 

P/1 – Havia muitos tropeiros na região?

 

R – Tinha, bastante. Tinha muita fazenda ali. Eu lembro que o meu pai plantava arroz, feijão, verdura, fruta, tudo o que se comia. Hoje nada se come sem um veneno, por isso eu acho que para essa nossa população de hoje o tempo de vida vai diminuindo. Eu vejo meu neto, eu tenho um neto aí que tem um metro e 85. O que é isso? Isso é o hormônio. Na minha época não existia tanta praga como existe hoje. Você comia uma carne de gado, uma carne pura, você nunca jogava nenhum vermífugo no gado. Meu pai criava o gado dele ali, matava... O meu avô criava carneiro, ele era libanês, então gostava muito de uma carne de carneiro. Dependurava os carneiros, matava, a gente comia aquela carne. Ele sempre foi um libanês ao contrário dos outros, supercaridoso. Aqui ele dava carne, ele mexia com arroz, fornecia arroz para o pessoal, entendeu? Ele era um libanês caridoso, o pai da minha mãe.

 

P/1 – O senhor dizia do seu avô libanês. Ele era filho de libanês ou era libanês mesmo?

 

R – Ele era filho de libanês.

 

P/1 – Nascido no Brasil?

 

R – Nasceu no Brasil. E o meu pai, filho de baiano. Ele era daquela cidade de Exu, meu avô.

 

P/1 – Pernambuco.

 

R – Não é Bahia, não? Eu sei que era baiano, então errei o nome da cidade. Mas eu sei que lá, nessa época, existia a briga dos Sampaio com os Alencar, e briga de tiro mesmo, um eliminando o outro.

 

P/1 – Lá em Exu?

 

R – Eu não sei bem, me fugiu da memória se é Exu... Eu sei que é na Bahia. É uma cidadezinha da Bahia, me fugiu agora o nome. As duas famílias tinham uma rixa muito grande. E é a família do nosso Sampaio, que tinha essa rixa lá. O meu avô, por incrível que pareça, [era] supersaudável, morreu num campo de futebol, com um ataque cardíaco fulminante. Morreu novo, não sei se foi com vinte e nove anos, trinta, por aí, e por isso o meu pai virou arrimo de família cedo. Então era assim, a gente não trabalhava, só estudava. Mas o meu pai tinha por norma a rigidez da educação dos filhos, ele era muito rígido com a gente. Para quem saía da linha ele tinha lá uma sola d’anta, como diz ele: ele preparou um chicote daqueles bem largos, a hora que a gente fugia da reta... Moleque, sabe como é que é. A gente era aquela escadinha de meninos, sabe? Doze filhos, a maioria homem. A primeira foi mulher, depois foi uma machaiada lascada. A gente se juntava ali, jogava bola e pulava de cima de morro; escorregava, e nessas daí ele pegava a gente e a sola comia. Algumas vezes um fazia uma coisa errada e todos pagavam o pato, todos apanhavam. Eu acho que graças a isso nós podemos nos orgulhar hoje de ser a família unida que nós somos, e graças a Deus não existe ninguém dos meus irmãos que seja um marginal ou um cara que não faça parte da sociedade, de Uberlândia ou no Brasil inteiro, por onde a gente percorreu. E eu também, porque estive na Ericsson em São Paulo durante dois anos, então o nosso nome sempre foi limpo.

 

P/1 – O seu avô teria migrado para Minas Gerais por conta dessa rixa de famílias lá na cidade de origem dele?

 

R – Não.

 

P/1 – Que era um Sampaio também.

 

R – Era um Sampaio. Essa parte eu não perguntei para o meu pai, mas a minha avó era daqui de Minas Gerais. Eu não me recordo se ela era de Araguari... Parece que começaram a namorar... Casou e ficou por aqui mesmo.

 

P/1 – Quais eram as diversões e brincadeiras dessa molecada reunida em Patos de Minas?

 

R – Todas, porque praticamente... Nós tínhamos muitos amigos, mas ao mesmo tempo a irmandade só já fazia um todo. A diferença minha para o meu irmão Vicente é de dois anos; de mim para o Saulo, mais um ano e meio; do Saulo para o Fernando, mais um ano e pouquinho; do Fernando para o Tarciso, mais uns dois anos, dois, três anos, mais ou menos; então, nós éramos o quê? Cinco meninos, já. Então a gente brincava entre si. Mas logicamente que nós tínhamos os nossos amigos, e a brincadeira rolava de acordo com a época. Tinha época do pião... O pião-caneta, que você mandava ele na batata e quebrava a batata no meio, fazia aquele círculo. Tinha a época do papagaio, que você soltava – hoje eles chamam de pipa. Tinha a época da bolinha de gude: você fazia aqueles buraquinhos, jogava a bolinha... Todo esse tipo de brincadeira, na época, rolava, cada época era uma modalidade. Foi onde eu falei para você que a nossa infância foi rica; jogava-se bola... Tinha as nossas peladinhas todo dia na porta de casa, porque a rua era toda de terra, não existia asfalto, não existia nada. Lá em Patos havia três carros só, o resto era carroça e charrete. Na época era fácil você criar filho, todo mundo era abastado. Quem tinha menos, tinha cinco filhos. Hoje você não pode ter mais do que um ou dois filhos, que você não dá conta, porque hoje a corrupção, as drogas e tudo... Então não dá. Na minha época não existia nada, cara! Só existia o cigarro. Assim mesmo, era o cigarro de palha. Qualquer boteco, se você chegasse lá em Patos de Minas e: “Você tem fumo goiano?” Era o melhor da época. O cara pegava o seu canivete, pegava a sua palha, colocava entre os dedos da palha e ia cortando o fumo com o canivete, fazia o seu cigarro de palha e aquilo ele ficava fumando. Chegava de tardezinha, as famílias se reuniam ali para bater papo... Surgiu, depois, o rádio, o rádio à válvula. Às vezes demorava cinco minutos para aquecer o rádio, para ele começar a falar; e outra coisa: o meu pai não deixava a gente colocar a mão no rádio. Tinha um rádio em casa e ninguém podia colocar a mão, tal a rigidez do velho – ele era violento nessa parte. Mas eu agradeço muito a ele, porque hoje a gente é o que é graças à rigidez dele na criação dos filhos, e ao carinho da minha mãe, que sempre foi uma mãe poderosa, em todos os pontos de vista. Só em você dizer que uma mãe concebeu doze filhos... Nós viemos para Uberlândia, e só quatro ou cinco filhos vieram à luz em hospitais aqui, o resto, lá em Patos, foi tudo com parteira. Daí, também, você vê a evolução. Vê não só a evolução tecnológica, como a evolução da criatura humana. Porque, naquela época... Eu me lembro, quando eu nasci, meu irmão... A minha mãe conta que a gente ficava fechado num quarto por três dias, porque não abria os olhos, depois de três dias é que a criança ia abrir os olhos. Hoje a criança já nasce... Minha neta já nasceu com os olhos abertos, a evolução foi grande. Mas, por outro lado, a poluição foi bem maior do que a evolução. Eu contei que tudo o que se plantava dava, certo? Hoje, tudo o que se planta, se não tiver um agrotóxico, você não come. Verdade ou não é verdade isso aí? Então tudo, naquela época, era riqueza, tudo era riqueza. Infância, plantação, o ser humano era mais humano do que o ser humano de hoje. A única coisa que tinha naquela época era a cachaça, essa aí acho que surgiu antes de Adão e Eva, mas a cachaça não era tão prejudicial assim. O cara bebia um pouquinho, ficava bêbado, mas não aprontava que nem apronta hoje, misturada com outras coisas.

 

P/1 – Como é que eram as refeições na sua casa?

 

R – Ali, na hora do almoço tinha que estar todo mundo junto. Aquilo era uma rigidez... Onze horas todo mundo tinha que estar pronto. Hora de ir para a escola, todo mundo tinha que estar pronto, porque senão apanhava mesmo. A maior dificuldade era a hora de levar no dentista, porque, naquela época, o dentista era cruel. Não existia a tal de anestesia, existia um negócio que eles passavam... A gente sofria. Quando falava que era para ir no dentista, a gente batia o pé. Preferia às vezes até apanhar do que ir ao dentista.

 

P/1 – O senhor tem lembrança de uma dor de dente daquelas históricas?

 

R – Ah, com certeza! Nossa Senhora, e como! Naquela época existia um remédio chamado Guaiacol. Esse Guaiacol tinha praticamente o poder de anestesia. Você colocava ele no dente e ele curava, anestesiava a dor. Aí você colocava um algodão molhado com Guaiacol no dente – na época os dentes de leite – ficavam aquelas locas, cabia quase uma tocha de algodão dentro da loca. A gente colocava aquilo ali e falava: “Não, pai, está tudo bom, não tem nada não, já passou a dor...”, e tal e coisa. A minha mãe, para amenizar um pouco, trazia os remedinhos caseiros dela também.

 

P/1 – Por exemplo?

 

R – Naquela época já existia Cibalena, existia Melhoral... Que eu me lembro são esses dois aí.

 

P/1 – Mas quando a ida ao dentista era inevitável, como fazer?

 

R – Quando não tinha jeito, você ia não para tratar do dente, você já ia para extrair o dente. Tudo isso mudou, porque, na época, com uns seis, sete anos, você ainda tinha dente de leite. Eu não sei bem, hoje, a época que muda a dentição da criança. Você sabe, mais ou menos?

 

P/1 – Com quatro anos já começa a cair. Cinco para seis cinco anos, não tenho muita certeza...

 

R – Mas também não foi muito assim, não. Porque logo em seguida a gente extraía aqueles dentes de leite. Às vezes nem chegava a extrair, às vezes eles saíam na mão. A minha mãe falava assim: “Ó, meu filho, você pega esse dente, a hora que você tirar...”, aí a gente fazia força para o meu pai não tirar, porque se ele fosse tirar, ele pegava era um alicate daqueles brabos e puxava de vez. Então a gente pegava uma linha, um troço mais forte, amarrava e arrancava o dente, na marra. Meus irmãos ajudavam e tal, e a gente ia forçando para o meu pai não pegar. A gente jogava o dente para cima: “Dente são, dente podre; lá vai o meu podre e me dá o meu são”, eram os dizeres que a minha mãe ensinava para gente falar. E jogava o dente em cima da casa. Então a criação de ontem era totalmente diferente da criação de hoje.

 

P/1 – Qual a primeira lembrança da sua escola?

 

R – A minha escola era praticamente a dois quarteirões de casa. Em Patos de Minas só tinha uma escola, a população era bem pequena. Não me recordo, porque eu era criança ainda, e não cuidava muito desses detalhes; mas eu ia para a escola e tinha teatro, tinha declamações. Na época... Eu sempre fui um cara muito extrovertido, muito brincalhão, muito piadeiro – isso até hoje. Eu me destacava na escola, fazendo alguns versos. Eu falava na escola quando tinha algumas festinhas, mas não era um cara muito aplicado na escola, era muito desatento, sempre fui. Nunca fui muito chegado em leitura, não. Até hoje eu não sou muito chegado em leitura. Eu começo a ler algumas páginas de jornal, mais esporte, mas... Tanto é que eu só fui até a sétima série, só. Apesar de que existia uma coisa nessa época: a gente precisava mais trabalhar do que estudar, para ajudar a família, que era muito grande. Eu tive mais que trabalhar para poder ajudar os meus pais. Mas, voltando à escola primária, aconteceu um fato que não me sai da mente até hoje; a minha tia tinha um namorado que morava em São Paulo, e ele ia, de vez em quando, em Patos, para ver a namorada, que era irmã de minha mãe. Eles iam de avião, naqueles Cessninha 179. A gente estava na escola, nesse dia, quando ele saiu. Ficou lá uns quatro dias em Patos, ele e um tal de Caio, que era o piloto do avião. Eles ficaram uns quatro dias lá e levantaram voo para o regresso à São Paulo. Acontece que, para sair – isso eu não vi porque estava na escola –, eles contaram que foi a maior dificuldade para o avião alçar voo. Começava a falhar o motor, tal e coisa. Quando eles alçaram voo, chegaram a uma determinada altitude e o avião começou a falhar. E o aeroporto, o campo de aviação – como era chamado na época –, era perto do grupo escolar. No que o piloto fez a volta para pegar a rota dele, ele passava em cima do grupo. Da janela, eu vi o avião vindo no rumo do grupo. Então eu disse para a turma: “O avião vai cair em cima do grupo, abaixa todo mundo!” A professora gritou... O piloto fez o máximo, ele acelerou o máximo o avião, o avião deu uma subida, veio no rumo da minha janela... Eu vi, chegando o avião perto, ele conseguiu passar por cima do grupo. Passou por cima, conseguiu. Ele ia bater no rumo da janela, mas o piloto conseguiu levantar um pouquinho, o máximo, o avião, e passou por cima do grupo, uns trinta metros, que era a distância da escola, da minha sala; ele bateu no poste de eletricidade. Aí todo mundo já correu lá e viu ele caindo no chão. Bateu no poste, caiu bem em frente ao grupo escolar, mas bem em frente – aquilo a criançada todinha assistiu. Em seguida pegou fogo. Você via o braço do cara do lado de fora, assim, e o fogo pegando no braço do cara. Mas eu acho que eles morreram na hora que bateram na energia. Eles devem ter morrido eletrocutados, acho que não sofreram muito, não. Aí todo mundo se recolheu, com medo do avião explodir, que na realidade não explodiu, porque o tanque de gasolina, no bater no chão, arrebentou e a gasolina espalhou. Depois o pessoal mais entendido – na época não existia Corpo de Bombeiro, nem nada –, o pessoal, aqueles soldados da época, olharam e falaram: “Não, não tem perigo mais não, não tem gasolina”. Então paravam caminhões, o pessoal ficava nas carrocerias, gente em cima do muro do grupo assistindo o avião queimar, aquele cheiro de carne humana... Depois daquilo eu fiquei muito tempo sem comer carne. A hora que eu ia comer uma carne eu lembrava da carne assada dos caras que morreram lá. Rapaz, uma coisa terrível mesmo! Foi uma coisa que ficou gravada na minha mente até hoje, a morte desses dois, um namorado da minha tia e esse piloto, duas pessoas excelentes. Acho que cada um tem o seu destino, não é? Mas eu acho que, no fundo, no fundo, eles fizeram um ato bem heroico, porque, na realidade, o avião ia pegar na escola mesmo. Prova é que ele saiu do rumo da minha janela, levantou mais do que dois metros e já caiu logo em seguida. Esse foi um fato que marcou a minha infância na escola, e como marcou!

 

P/1 – O senhor disse que participava de apresentações na escola; para isso o senhor pescava algumas coisas nas suas audições de rádio, para mostrar na escola?

 

R – A gente ouvia mesmo o noticiário, que às vezes o meu pai deixava, e algumas músicas daquela época, mas pouca coisa a gente tinha para ouvir. O que eu falava na escola era mais de improviso. Uma coisa que eu inventei, em uma das minhas apresentações na escola: “A morte é feia e dura; nem o Papa, nem o rei, nem o cura; mas eu hei de escapar: quando ela vier, eu furo um buraco, entro dentro dela e a morte passa. E eu digo, fui esperto e inteligente...”. Eram algumas coisas que você inventava para fazer o pessoal rir, e no final dava tudo certo. Outro chegava e falava outra coisa, mas na realidade eu me destacava nesse ponto. Agora, matemática, nota três; geografia, nota dois, entendeu? Era péssimo, péssimo estudante. E um péssimo aluno também, porque eu era muito indisciplinado. A professora estava falando, eu estava contando piada, estava brincando; ela sempre me chamava a atenção. Eu fui o que mais apanhei dentro de casa, porque a professora mandava um bilhetinho para o meu pai e aí o coro comia solto. E você não podia correr não. Então a gente fazia alguns versos, que eu não me recordo. Até há pouco tempo eu tinha escrito... Mas que rimavam, certo?

 

P/1 – O seu primeiro emprego foi com o seu pai ou foi fora da selaria?

 

R – Não, com o meu pai às vezes eu ajudava, que nem eu falei, a gente pegava os couros curtidos, que era leve, então podia um menino puxar um couro daquele, não precisava carregar. Amarrava uma cordinha e puxava até na selaria, que era perto. Daí os caras já faziam o tratamento no couro, já providenciavam... Porque tinha dezesseis operários ali, para fazer todo esse tipo de coisas. O meu trabalho na selaria era esse aí. E levava lavagem para os porcos. A gente pegava aquelas latas de lavagem – meu pai pegava dos vizinhos –, você colocava nas costas e aquele negócio ia escorrendo. Aquilo a gente ficava pê da vida. E meu pai economizava até na parte de ir ao barbeiro: ele cortava nosso cabelo todinho, na máquina, o trem está puxando e ele está cortando: “Fica quieto!” Segurava a cabeça, assim, e rapava a cabeça da gente. A gente ficava revoltado. Mas hoje, que a gente já se entende por gente, vê que naquela época ele não queria pagar, era uma maneira de economizar. Comprou uma máquina de cortar cabelo... Porque com uma tralha de filhos dessa, pagar para todo mundo era difícil, então ele mesmo cortava, e a minha mãe vinha e passava a gilete, fazia o retoque.

 

P/1 – Depois de trabalhar com ele o senhor partiu para outro tipo de serviço?

 

R – Não, depois a gente já mudou pra Uberlândia...

 

P/1 – Por que mudaram para Uberlândia?

 

R – Exatamente pelo fato de a minha vó, que é a mãe da minha mãe, ter vindo para cá, por motivo das minhas tias, irmãs da minha mãe, terem que estudar. O grau de escolaridade era pequeno, e em Uberlândia já tinha segundo grau. O meu avô veio para cá, aí ele arrumou para o meu pai: “Ó, Gumercindo, vem pra Uberlândia, porque aqui é uma cidade que promete. Vende a casa aí e vem para cá. Você pode trazer a sua selaria todinha para cá e montar aqui em Uberlândia, porque é uma cidade que promete.” Depois de algum tempo que ele veio. Daí a gente, família muito apegada, minha mãe com os meus avós e as irmãs também... Uma coisa puxou a outra, a gente veio para Uberlândia.

 

P/1 – Ele montou a selaria aqui?

 

R – Ele chegou aqui e começou a mexer com selaria e tal, a mexer com permuta – na época chamava catira, trocava uma coisa pela outra, entendeu? E foi sobrevivendo. Aí eu comecei, eu e meus irmãos, começamos a engraxar sapatos. Com doze anos a gente engraxava sapato. Pegava as caixinhas, ia para o mercado engraxar sapato, ganhava uma graninha razoável, dava para minha mãe, ajudava no custeio. Depois, com 12 para 13 anos, eu consegui o primeiro emprego meu. Mas mesmo trabalhando de empregado nesse Bazar Vencedor – que era ali na Rua Goiás, esquina da Afonso Pena –, no sábado e domingo eu pagava minha caixinha de engraxate e ia para o Mercado Municipal, na época ali a Olegário Maciel, perto na esquina da Getúlio Vargas. Aquele dinheirinho que a gente tirava dava para dar uma voltinha com a namorada e ir no cineminha. O que eu ganhava, na época, que era 120... Não sei se era mil réis na época... O que eu ganhava no Bazar Vencedor, eu ajudava em casa.

 

P/1 – O que o senhor fazia no Bazar Vencedor?

 

R – Era limpeza lá na loja. Era uma loja que vendia tecido, vendia armarinho, essas bugigangas de loja. Batons, jaquetas...

 

P/1 – E como é que era a sua casa aqui em Uberlândia?

 

R – Minha casa? Meu pai vendeu a casa lá de Patos e comprou uma casa aqui, na Olegário Maciel, esquina com a Francisco Sales, casa na qual nós moramos uns vinte anos, mais ou menos. Bem perto do mercado, aqui. Ficava pertinho para eu engraxar, só dois quarteirões da minha casa até o Mercado Municipal. Eu e meus dois irmãos saíamos com a caixa de engraxate e íamos no mercado engraxar. E nos dias de semana eu trabalhava no Bazar Vencedor, meu outro irmão trabalhava na Goiana – uma outra loja de tecidos que tinha aqui na Afonso Pena, uma das melhores e maiores de Uberlândia. Depois de alguns anos – dois anos, parece – eu também passei a trabalhar na Goiana, aí eu já comecei a entender um pouco mais de tecido, porque já comecei a pegar certa prática lá do Bazar Vencedor e fazia entrega. Vamos supor, você comprava aí uns dez metros de pano, cinco metros de pano, cinco metros de... Chamavam organza, lese, gabardine... Um tecido mais duro para fazer calça. Eu saía com quatro, cinco, seis entregas debaixo do braço, para fazer a pé. Quando pintava um lance, assim, e os vendedores estavam ocupados, eu atendia o cliente, ia vender para o cliente. Eu lembro... Eu pegava o tecido, abria ele da embalagem, media quantos metros a pessoa queria, cortava... Às vezes você dava só um pique e rasgava, o tecido podia fazer isso, e eu fui treinando, entendeu? Depois, logo eu passei a ser vendedor. Com 13, 14 anos eu já estava vendendo tecido lá, ganhando comissão.

 

P/1 – Na Goiana.

 

R – Comissão, na Goiana. Foram sete anos que eu trabalhei na Goiana. Depois da Goiana é que surgiu a oportunidade na Empresa Telefônica Teixeirinha.

 

P/1 – Antes, um detalhe: e a escola aqui em Uberlândia?

 

R – Doze anos, eu tinha. Eu fiz o quarto ano aqui, quarto ano primário, depois tirei o diploma... Teve aquelas festinhas todinhas de diploma, né? Depois fiz o quinto, o sexto e o sétimo, aí eu parei por aí, na sétima série. Eu era muito encrenqueiro, e ficava sempre conversando dentro da classe. Fui expulso do colégio estadual, aí foi uma luta para eu regressar de novo no colégio, com medo do meu pai me bater. Eu voltei ao colégio estadual, pedi para o reitor – na época era o professor Vadico era o reitor –, dizendo para ele que eu não ia mais conversar na aula, que eu ia ser uma aluno aplicado, e ele me deixou voltar. Mas logo em seguida eu cometi uma besteira, porque o professor de matemática implicou comigo, por causa de eu ter voltado. Ele falou que eu não passaria de ano na escola, que não ia adiantar. “Ó, não adianta, o senhor não vai passar”. Eu falei: “Não, mas eu tenho nota boa na prova escrita, agora na oral eu vou tirar dez”. “Não, o senhor não vai passar. Eu não vou deixar o senhor passar, porque o senhor é um mau aluno, um péssimo aluno”. Eu falei: “Mas uma coisa não justifica a outra, professor, pois se eu fiz uma prova oral boa, fiz uma prova escrita boa, agora o senhor vai me dar bomba na oral?” “O senhor não passa!” Aí eu soltei a mão no pé da orelha dele e fui expulso de vez.

 

P/1 – Não teve choro nem vela...

 

R – Mesmo porque, de todos irmãos, eu sempre fui o protetor. Chegava um chorando em casa, dos rachinhas aqui na Francisco Sales com a Olegário Maciel... A gente jogava racha direto lá: racha, bolinha, jogava bola; às vezes eu não estava jogando, chegava um irmão meu chorando: “Fulano me bateu!” “Vamos lá!” Chegava lá para o cara: “Por que você bateu nele?” “Não, porque estava me enchendo o saco...” E eu “pau!” nele, no meio da testa do cara, às vezes no nariz, porque sangrava aí o cara ficava com medo. O cara ia chorando: “Vou chamar o meu irmão” “Vá chamar, rapaz!” Levava. Daí um pouco outra briga lá, daí mais uns dias, tal... Chegava: “Ô, quem foi fulano que...” E eu, de novo, cobria. Então eu sempre fui o brigão de casa, eu e o segundo abaixo de mim, o Fernando. Tanto é que são os únicos dois que jogaram futebol profissionalmente.

 

P/1 – Como sua expulsão do colégio foi recebida em casa?

 

R – Ela não foi recebida, porque eu imediatamente pulei para o Colégio Brasil Central, e o meu pai não tomou nem conhecimento. Já estava praticamente no fim do ano. Eu logicamente tomei bomba, né? Porque nessa época não tinha esse negócio de recuperação, você tomou bomba numa matéria, você dançou. Aí eu tomei bomba e tomei um couro pela bomba, que era normal, ele batia mesmo. Aí eu já cheguei preparado com o lombo... Mas eu era esperto, rapaz; eu pegava um pedaço de sola e colocava aqui nas costas, por dentro da camisa, até embaixo, assim. A sola ia comer mesmo. E não podia correr, não. Então você tinha que deixar o pau quebrar, mas eu colocava um pedaço de couro, ou papelão, e deixava o velho chegar com chicote...

 

P/1 – E quantas lambadas ele dava no lombo?

 

R – Ih, caramba! Cacetada! Meu pai já tirou sangue nas costas da gente, era barra pesada. Mas a gente se protegia também, principalmente eu e o Fernando, os dois ovelhas-negras, os dois barra pesada. A gente aprontava demais da conta.

 

P/1 – O senhor já um comerciário, um balconista, um vendedor de lojas de armarinhos, aos vinte anos de idade. Quanto ganhava e como se divertia? Como era Uberlândia, nessa época?

 

R – A minha juventude era excelente, porque a gente já tinha uma turminha. Nós éramos de Patos de Minas, mudamos para Uberlândia, e tinha uma turma vizinha nossa, de Uberlândia, que não admitia que a gente namorasse alguma menininha daquelas. Essas rixas surgiam e a gente partia para a briga. Juntava eu e mais dois irmãos, mais uns amigos que a gente arrumou e brigava de seis, de dez, contra dez: era porrada de todo tipo. Eu sei que nós ganhamos a guerra, depois de várias brigas coletivas que nós tivemos. Depois começou a haver certa comunicação, porque aí começamos a jogar bola uns contra os outros, e depois o técnico não deixava brigar, aí a gente foi apanhando amizade, e estabeleceu-se uma convivência mais saudável e menos violenta que a de antes. Porque a gente era recém-chegado, começou a celeuma por causa disso. O cara chegou novo e já quer cantar de galo... Mas nós resistimos bem ao pessoal, a nossa turma era muito forte. Eu brigava muito bem, também, porque eu aprendi uma vez.

 

P/1 – Aprendeu com quem? Como?

 

R – Eu estava no colégio, aqui de Uberlândia, e tinha aqueles negócios do cara pegar papelzinho e mandar na cabeça do outro, era nesse Grupo Bueno Brandão, aqui. Ele é antigo, esse Bueno Brandão. Então tinha um negócio de um cara chegar agachado atrás de você, e o outro mandar a mão no seu peito, te empurrar e cair assim, de costas. E como eu era novato e era patureba – eles me chamavam de patureba –, um dia eu estava comendo o meu lanche numa boa, quando eu vi que o cara chegou, meteu a mão no meu peito e me jogou de costas. Aí eu xinguei a mãe do cara. Naquela época xingar a mãe era o cão, aí partia para a briga. E o cara era maior do que eu, usava óculos, e disse pra mim: “Eu vou te pegar lá fora”. Aí eu fiquei com medo do cara, porque ele era maior do que eu. Até então eu brigava com meninos menores do que eu, batia nos meus irmãos. Era dar um murro e só, o menino já saía chorando. Mas agora, encarar um caboclo grande... Eu já tinha uns quinze, dezesseis anos, mais ou menos, e estava com medo do cara. Aí eu desci lá para o mictório e fiquei preocupado. Falei: “Caramba, eu vou apanhar desse cara”. Aí tinha um velhinho – que era o limpador da escola –, eu falei: “Escuta, o senhor já brigou alguma vez na vida?” Ele falou: “Ih, meu filho... Qual é o problema?” “É porque tem um cara que é maior do que eu e diz que vai me pegar. Agora eu estou com medo, eu não sei se pulo o muro da escola para ir embora... Mas eles vão me chamar de galo afinado. Como é que eu faço?” Aí o cara falou: “Faz o seguinte, eu vou estar por perto. Se você começar a apanhar eu te seguro, mas você não vai apanhar, porque eu vou te ensinar como é que você vai fazer”. Aí eu já criei moral. “Então como é que eu vou fazer?” Ele falou: “Ó, faz o seguinte: a hora que eles fecharem a roda e tal – porque eles vão fechar a roda, e falar ‘dá o começo!’ –, aí um põe a mão aqui assim e ‘cospe!’; o cara tira a mão e o outro cospe no outro, nessa hora de dar o começo você não espera o cara botar a mão para o outro cara te cuspir, você já parte para cima dele”. “Mas, como?”, perguntei. “Você fecha a mão. Fecha a mão aí!”. Fechei. “Agora volta a mão para trás”. Voltei. “Volta mais um pouco. Você mira bem o nariz dele, certo? E solta!” Eu falei: “E se ele vier em cima de mim?” “Ele não vai vir. E se ele vier eu seguro ele”. Aí eu criei alma nova! Falei: “O senhor promete?”– acho que era Aristeu, o nome dele. Seu Aristeu. – “Prometo que eu vou estar lá. Eu vou te acudir, se ele vier. Eu acredito que ele não vá vir, mas você tem que fazer do jeito que eu estou te falando. Na hora que fechar a roda, ‘dá o começo’ e tal, o cara baixar a mão, você cuspir, você não cobre, você já vai em cima dele com tudo. Mas com toda a força que você tiver, não vai com soquinho não! E você pega bem no meio do nariz dele”. Rapaz, não deu outra. Fechou a roda, ‘dá o começo’, eu já botei um pé lá, o outro para trás e já soltei. “Buff!” Sabe o que é você pranchar um cara? Ele caiu em cima dos outros caras, eu já voei em cima dele e ele já começou a chorar. Voei em cima dele, os óculos dele já começaram a quebrar, o cara já começou a ficar meio cego... Aí eu já virei o galo da escola. Mas foi ruim para mim, porque daí, depois de algum tempo, eu tive que brigar com outro que achava que era bom também. Mas eu acostumei a dar porrada nos caras e me saí bem. O cara falou: “Se não der por cima, você vai por baixo, mete um chute de baixo para cima no cara ou, senão, na boca do estômago”. Aí foi. Graças a Deus eu estou com 63 anos de idade e nunca tomei um soco na cara. Nunca ninguém me encostou um soco na cara, até hoje. Joguei futebol profissionalmente uns oito a dez anos, fui nadador no Tênis Clube aqui de Uberlândia, competi em Belo Horizonte, Patos, Uberaba, Uberlândia, e sempre eu levava vantagem. Hoje eu agradeço a esse velhinho, Seu Aristeu, que me deu as dicas de como é que eu podia fazer. E a mesma coisa eu repasso para os meus filhos. Meu neto hoje é faixa marrom de caratê. Eu fiz caratê também, depois. Fiz três faixas só, também.

 

P/1 – Nessa época sua vontade era permanecer comerciário? Qual seu projeto de vida?

 

R – O meu projeto de vida era ser motorista de caminhão. Eu viajava com meu tio, de caminhão, lá em Patos, e pensava: “Quando eu crescer quero ser um motorista de caminhão”. Um chofer, naquela época não era motorista, era chofer de caminhão. Eu viajava com esse tio para Belo Horizonte, então queria ser um chofer de caminhão. Mas acontece que o tempo passa, e nessa época em que eu estava trabalhando na Goiana, pintou, através da amizade que eu tinha com o Augustinho e com o Luiz Márcio – que trabalhavam na Companhia Telefônica Teixeirinha – a oportunidade de eu trabalhar lá Teixeirinha.

 

P/1 – Que ano era esse?

 

R – Devia ser o ano de 1956, 1957, por aí; não me recordo bem, não. Esse negócio de data...

 

P/1 – Deve ter sido antes, porque a Teixeirinha foi só até 1954...

 

R – É, então foi antes. Mas o Alexandrino já era dono!

 

P/1 – Então foi mesmo depois de 1954.

 

R – Chamava Empresa Teixeirinha, mas o senhor Alexandrino já era dono. O seu Alexandrino, o Osvaldo Crozara, o Seu... Não sei o que Caparelli; eles eram os acionistas majoritários lá. A Dona Ilce deve ter repassado isso para vocês, essa era a diretoria. Não sei se eram oito sócios majoritários da Companhia Telefônica... Aí o seu Alexandrino foi comprando as ações e foi se tornando majoritário, até atingir a cota de 51%.

 

P/1 – Mas como é que o senhor foi atraído para trabalhar na Teixeirinha?

 

R – Através da amizade que eu tive com esses rapazes, e porque estavam precisando de um elemento lá. Eu peguei e fui. Teve outro cara que trabalhava lá também, que era meu amigo – eu não recordo agora o nome dele –, que também me falou, e eu fui lá e consegui entrar na Companhia Telefônica.

 

P/1 – Para fazer o quê?

 

R – Fazer limpeza de máquina. Naquela época a estação era quase mecânica, tinha um seletor de busca USR; o GV, o seletor de seleção e o LV, seletor final. Era uma central OS, antiga, depois eu passei para a AGF. Uberlândia tinha, até então, 500 linhas, 500 telefones automáticos, quando eu entrei na Companhia Telefônica. E nessa época, que eu comecei a trabalhar, logo depois de uns dois ou três meses, a Companhia Telefônica já tinha feito aquisição, através da Ericsson, de uma estação AGF, um pouco mais avançada do que essa OS, porém quase similar, com os mesmos modelos de equipamento, só que mais eletrônico. Em vez de ser um seletor mecânico, que é um reg eletrônico, era um reg crossbar, barras cruzadas. Então eu, trabalhando lá embaixo, já sabia limpar a máquina, já sabia limpar o vertical do eixo e tal e coisa, e a Ericsson chegou com um equipamento de duas mil linhas para montar em Uberlândia. O salão já era em cima, a Companhia Telefônica já fez em cima um salão.

 

P/1 – Em que local era isso?

 

R – Lá na João Pinheiro, esquina com a Machado de Assis. Eu peguei, vi a oportunidade na Ericsson... O Seu Celso Pinto, que era o técnico que veio para instalar, mencionou a necessidade de dois elementos para trabalhar na Ericsson, para instalar essa central nova, aí eu me candidatei. “Ah, mas você trabalha na Companhia Telefônica...” Eu falei: “Mas eu me interesso mais trabalhar na Ericsson, porque eu quero aprender”. Eu preenchi lá os dados...

 

P/1 – O senhor trabalhava em Uberlândia, para Ericsson?

 

R – Aqui em Uberlândia. Eu peguei, fui admitido pela Ericsson, eu e um amigo meu, que também trabalhou na Companhia Telefônica, não sei o senhor vai entrevistar ele, se chama Jaime Araújo, nós trabalhamos juntos. Então a gente foi trabalhar na Ericsson e eu saí, deixei o Augustinho e o Luiz Márcio – que era irmão dele – na OS, lá com a Teixeirinha, que já tinha sido adquirida por essa diretoria que eu mencionei há pouco.  Aí eu fui trabalhar na parte de instalação. Comecei a pegar conhecimento de cabo, de código de cabo, de esquema... Porque toda aquela parafernália tinha os esquemas para você instalar. Você montava duas mil linhas, mais ou menos, em uma área de cem a duzentos metros quadrados. Hoje você monta dez mil linhas nessa área, você vê como é que a tecnologia... Então eu trabalhei na Ericsson, ali, durante todo esse tempo. Quase dois anos aqui, montando...

 

P/1 – Demorou dois anos para montar a estação?

 

R – Mais ou menos. Eu não me recordo bem, mas daí para trás, pouca coisa. Até onde saiu uma foto no Correio de Uberlândia, no dia da inauguração dessas duas mil linhas. Estavam perguntando quem tinha participado disso, que entrasse em contato com o Correio de Uberlândia. Eu não sei, alguém deve ter entrado em contato, porque eles não ligaram, não falaram mais nada. Eu estou com a foto aí, posso te mostrar. O que aconteceu? A Ericsson gostou do meu trabalho, gostou do trabalho do Jaime Araújo, e tinha outros que trabalharam também, mas alcançaram menos êxito, não eram tão esforçados igual a gente. Porque comigo não tinha horário, para mim eu queria era aprender. Eu gostei da profissão, trabalhava até tarde. Sábado e domingo eu ia para lá para estudar esquema, e o seu Celso, através do meu esforço, viu que eu estava interessado, aí me fez uma proposta para ir embora para São Paulo, trabalhar na Ericsson, em São Paulo. Ia montar uma estação de duas mil linhas em Limeira, primeiramente; depois ia montar o ABC Paulista todinho. Ah, eu fiquei maluco! A minha mãe, com todos os filhos em casa, foi uma luta para convencer a minha mãe de eu sair de Uberlândia para ir embora para São Paulo.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha, na época?

 

R – Eu devia ter uns 19 anos, mais ou menos. Dezenove... Já tinha feito tiro de guerra, naquela época. Era tiro de guerra, não era exército. Tiro de guerra com 18 para 19... Vinte anos, que eu tinha. Vinte, 21.

 

P/1 – Seu pai concordou?

 

R – Teve alguns probleminhas, mas eu falei para ele: “Ó pai, eu, amanhã, estou querendo casar...” – eu já namorava minha esposa –, “como é que eu vou casar com a minha mulher ganhando essa mixaria aí? Aqui em Uberlândia não tem futuro. Eu vou voltar a trabalhar na Goiana para trabalhar de comissão, ganhando uma mixaria? Eu não posso. Então eu quero casar amanhã, quero fazer minha vida. Me dê uma chance, eu vou comunicar com vocês direto”, tal e coisa. Aí ele cedeu. Nós pegamos um avião, viemos para Limeira. Em Limeira foi aquela barra, trabalhando direto, montando duas mil linhas em Limeira.

 

P/1 – Moravam aonde, em Limeira?

 

R – Morava no Hotel São Paulo, de Limeira. Ficava a umas quatro ou cinco quadras da Companhia Telefônica. Aí eu comecei a fumar, o que eu não fazia aqui em Uberlândia eu comecei a fazer em São Paulo. Beber...

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque eu trabalhava com um sueco, e o sueco não tinha água, tinha gin. Naquela época vinha em tonel, que nem esses tonéis de vinho, vinha um gin direto da Suécia. Só trabalhava de fogo, cara! Você pegava esses copos de beber água mesmo, colocava lá na torneira e virava um copo de gin na garganta. Saía dali com os amigos, era Fogo Paulista, era cerveja, era Caracu com ovo. Jogava dois ovos lá e batia uma garrafa de caracu, batia no liquidificador e bebia. Era aquela vida.

 

P/1 - Isso em Limeira ou já no ABC?

 

R – Já no ABC, mas comecei em Limeira. Aí começou a cair o meu cabelo, de tanto eu beber, e eu fui ao médico. Na hora que o médico foi me atender lá, o cara era careca. Eu voltei para trás e perguntou: “Espera um pouquinho, o que é que foi?” “Não, você não vai dar conta do meu recado”. “Por quê?” Eu falei: “Não...” “Senta aí, vamos bater um papo”. Eu fui bater um papo com o cara e o cara fez mais do que meu pai. Ele falou: “Olha, o que está fazendo seu cabelo cair... Eu sou careca, eu não posso falar nada para você, mas... De antemão, é essa mistura que você está fazendo. Você está bebendo gin, está bebendo cerveja...”. Depois, seis horas, cinco e meia, a gente saía do trabalho e ia para a adega beber dois litros de vinho, todo dia, com o sueco. O bicho pra danar de beber era o tal de sueco! Rapaz, o bicho era vermelho que nem pimenta malagueta! Mas bebia! E eu, como um dos chefes... Eu sempre peguei um cargo de chefia, porque eu já vim de Uberlândia com certa noção, depois passei por Limeira, já melhorei meu nível técnico e já fiz alguns cursos também, então eu já cheguei lá em Santo André, São Caetano já bem em condições de pegar chefia na Ericsson. Ele falou: “Ó, você para de tomar essa miscelânea. Ou você toma o vinho, ou você toma o gin”. Eu falei: “O que o senhor me aconselha? Eu sou obrigado a ir para a adega com os homens, porque todos os chefes me levam. E eu não posso ficar vendo eles beberem o vinho sozinho...” Ele falou: “Ó, o senhor quer saber a verdade? Se você quer saber a verdade, o vinho é menos perigoso do que o gin. O vinho tem pouco nível de álcool, então você pode tomar o vinho, mas não toma esse excesso que você está tomando, dois litros de vinho por dia. Isso é bom para o sangue, mas nem tanto. Dá uma maneirada, dá uma enrolada neles. Enquanto eles estiverem bebendo dois copos, você bebe só um”. E assim eu fiz. Mas todo dia eu ia com eles tomar o vinho, e logo em seguida a gente partia para Santos. Eu ganhava bem, ganhava o equivalente a dez salários mínimos. Mas todo o dinheiro ficava nas farras, nas pingaiadas, mulherada, entendeu? Então, o que eu fazia? Eu saía de São Paulo para Santos todo fim de semana, já comprava a passagem de volta, porque senão o dinheiro acabava e eu tinha de voltar a pé. De São Paulo a Santos é muita coisa, né? Logicamente que não era só eu, era o grupinho. A gente tomava lá caipirinha de tudo quanto é tipo que o senhor puder pensar: de limão, de laranja, abacaxi, de tudo. Vivia na base da caipirinha e ainda ia o mulherio todinho com a gente e tal...

 

P/1 – E a sua namorada?

 

R – Ela aqui, em Uberlândia, não sabia de nada. Só depois eu contei para ela as aventuras lá, mas ela sempre gostou de mim e eu sempre gostei dela. Um casamento que dura 40 anos não é à toa, né? Então eu fui para o ABC paulista e continuei da mesma forma. Você vê o cara quando tem cabeça, quando tem criação... Eu estava num ninho de maconheiros, de drogas. Setenta por cento dos funcionários da Ericsson fumavam maconha. Eu cheguei até a ir com os meus amigos, um tal de Ari. Eu, o Niobel e um tal de Mané Cabeça, Mané Grande, dois nortistas. Em um andar inteiro dum prédio, cara, você só via cama de campanha, e os caras desmaiado ali. Aquela fumaça e os caras puxando, entendeu?

 

P/1 – Todos funcionários?

 

R – Não, não todo mundo que estava ali. Mas ali era o local que ele frequentava, ali era... O cigarro, na época, era tipo um cordão, daqueles barbantes grossos, o cigarro fininho. E um desses amigos meus tentou me induzir, sabe? “Não, você vai fuma um, porque... Qual é a artista que você mais gosta?” Na época tinha uma tal de Eliane, que era uma artista brasileira, uma vedete que trabalhava no cinema nacional, com um corpo extraordinário. Ele falou: “Você vai ver, você vai ter uma relação com essa menina se você fumar um cigarro desses”. Eu falei: “Não, cara. Comigo, se não for ao vivo, não quero não. Esse negócio de ficar aí, queimar essa fumaça para ter esse relacionamento, eu não quero, não”. Ele falou: “Mas experimenta, experimenta...” Eu falei: “Não”. Ele chegou ao cúmulo de chegar o cigarro dentro da minha boca, aí eu perdi a paciência e dei um murro na cara dele. Como ele já estava um pouco mareado, ele já caiu direto e lá ficou. Aí eu falei: “Vamos embora daqui que isso aqui não é ambiente para mim, não”.

 

P/1 – Onde o senhor morava? No ABC?

 

R – Morava no Hotel Ipiranga, no Bairro Ipiranga, em Santo André. Então nós saímos de lá e fomos para nossas farras.

 

P/1 – Resolveu voltar para Uberlândia?

 

R – Não. Fiquei muito tempo lá. Trabalhei quase dois anos na Ericsson, montando o ABC paulista todinho.

 

P/1 – Ia com frequência à Uberlândia?

 

R – Não, nunca.

 

P/1 – Telefonava?

 

R – Telefonava. Falava, escrevia para a minha mãe.

 

P/1 – Como era o telefonema de lá para cá?

 

R – Demorava. Precisava ficar uns dez, quinze minutos, sentado lá na cadeira...

 

P/1 – A ligação era rápida?

 

R – Quinze minutos, cara? É uma ligação muito demorada. Hoje você fala direto. Eu deixava para falar de noite, porque se falasse de dia não tinha jeito não. À noite já estava descongestionado o tráfego, então você tinha mais facilidade para falar. Mas eu falei o quê? Durante esse tempo todinho da Ericsson eu falei duas vezes com a minha mãe. E escrevi duas cartas para ela. Para minha atual mulher eu não escrevi nenhuma. Um dia, a gente trabalhando lá em São Caetano do Sul – que fazia parte do ABC –, chega o meu tio, irmão da minha mãe: “Ó, vamos embora para Uberlândia”. Eu falei: “Mas como ir embora para Uberlândia?” “É, porque a sua mãe vai dar a luz de mais um filho” – era o décimo segundo –, “e ela já está com um pouco de idade, o médico diz que é gravidez de risco”. Eu falei: “O que é isso, tio?” Ele falou: “É, e você vai ter que ir embora de qualquer forma”. Eu: “Tio, mas eu já estou com passagem marcada para o Recife”. Porque a Ericsson já tinha nomeado o time que ia para Recife, montar uma estação lá em Recife, e eu maluco para conhecer Recife. A gente comia aqueles PFs [pratos feitos], e eu levei ele para almoçar comigo. Chegava lá tinha uns vinte pratos-feitos assim, mosquito em cima. Eu abanei a mão assim... “Não, não, você não vai comer, não”. E eu: “O que é isso tio, eu como todo dia aqui, desse jeito”. “Não, isso é vida de cão, rapaz. O que é que é isso? Mosquito em cima da sua comida...” “Ê tio, eu aprendi a separar perna de barata, cabelo, tal. Eu não sou mais aquele cara enjoado que tinha lá dentro da minha casa, que minha mãe, se botava uma gordurinha na carne eu tirava. Não, hoje eu tiro as pernas de barata, os cabelos, entendeu? E mando para o papo, porque aqui é a lei da sobrevivência. E eu como o mais barato possível para sobrar mais dinheiro para as minhas farras, senão...” E ele: “Não, nós vamos para um restaurante.” Fomos para o restaurante, lá ele me convenceu a ir embora, por causa da minha mãe, que ia dar à luz ao décimo segundo filho. Aí foi aquela briga na Ericsson: “O senhor não pode sair, porque o senhor já está agendado aqui para ir para Recife...” Eu falei: “Como não posso sair? Eu estou pedindo demissão, vocês não estão me mandando embora. Vocês me pagam aquilo que vocês acharem que eu tenha direito, se não quiser me pagar também não me paguem. A minha mãe é prioridade. Deus me livre se minha mãe for embora e eu aqui nesse fim de mundo. Não posso”. Aí eu convenci o tal de (Stig?) – que era um sueco mais ranzinza, o mais durão – a me liberar. Você está num trabalho, e tirar um... Não era fácil, o cara não podia sair, tinha que cumprir um aviso prévio. Mas me liberaram na hora. Eu contei a história da minha mãe e tal, que talvez pudesse acontecer qualquer coisa com a minha mãe e eu não ia perdoar a Ericsson por isso. Eles me liberaram logo em seguida, dali a dois dias nós pegamos o avião e viemos embora para Uberlândia. Aqui em Uberlândia a primeira visita que estava me esperando era ela, minha namorada, e a mãe dela. Ficou sabendo que eu vinha embora... Aí, graças a Deus, correu tudo bem; a minha mãe deu à luz, tudo numa boa, os filhos todos juntos, ninguém fora, o único que tinha saído era eu. Aí ela: “Não, meu filho, você não sai daqui mais não, você vai ficar é aqui” “Onde é que eu vou trabalhar, mãe? Para ganhar o que eu estava ganhando lá?” “Vai lá para Goiana, eu te garanto que o Ciro te dá o emprego”. Eu voltei para a Goiana. Cheguei lá e o Seu Ciro me deu o emprego de novo. “Não, você vai trabalhar comissionado aqui”. Aí estou lá, trabalhando, já era setembro, outubro, mais ou menos. Trabalhei dois meses, novembro, dezembro, dia 23 de dezembro, mais ou menos, 22 de dezembro, quem vai lá para comprar? Seu Alexandrino Garcia e Dona Maria. Ele chega lá, está vendo eu enrolando pano e tal: “Ó, seu Gumercindo, o senhor por aqui? Eu quero ver um tecido assim, assim e assim.” Eu mostrando o tecido e o seu Alexandrino falou: “Ó, Seu Gumercindo, eu estou precisando do senhor”. Eu tinha ficado noivo da minha mulher, e meu pai supercontrariado: “Meu filho, como é que você vai ganhar aí mil e quinhentos, dois mil reais, dois mil réis, ou dois mil cruzeiros, para tratar de uma mulher? Você tem que dar melhor para ela do que ela come em casa”. “Ah, pai, eu só estou ficando noivo, eu não estou casando”. Porque naquela época você não tinha muita escolha não. Você ia ser um gigolô de zona ou você ia casar, não tinha essa fartura de mulher que nem você tem hoje. E o casamento era ali, obrigatório. Não tinha esse papo de morar junto nem nada, não. Então eu optei, eu falei: “Vou casar”. Não tinha outra alternativa, fiquei noivo dela. Aí meu pai falou isso aí. Seu Alexandrino falou: “Nós estamos precisando de você”. Mas o que eu vou ganhar lá? “Não, vai lá, a gente conversa. Só te garanto uma coisa, o senhor vai ganhar mais lá do que aqui”. Eu falei: “O senhor não sabe quanto eu ganho aqui”. “Ah, eu imagino. O senhor ganha comissão?” Eu falei: “Comissão”. Continuei, vendi uns panos para a Dona Maria, esposa dele, que eu já conhecia...

 

P/1 – Já conhecia da época em que já trabalhava na Goiana?

 

R – Da época que eu já trabalhava na Ericsson. Eu trabalhava na Ericsson e na CTBC. Seu Alexandrino já era um dos diretores, então eu já conhecia a mulher dele, ele, e o Luiz Garcia também. Nessa época o Luiz Garcia já era formado, mas ainda era galegão de tudo, porque recém-formado só tinha a teoria, de telefonia mesmo não manjava quase nada, porque ele se formou em Engenharia Elétrica em Itajubá. Não só ele como todos os engenheiros que estavam lá, que era o Cleber Garcia, o Ricardo, doutor Romeu Fernandes... Tinha outros que depois eu vou lembrar o nome. Eu cheguei lá e tinha um tal de Antônio Remédios, um japonês que estava comandando provisoriamente a central e a rede. A minha sorte foi ter encontrado com esse Antônio Remédios antes. Cheguei lá: “O senhor é o seu Gumercindo ?” “Sou eu mesmo!” “O senhor vai pegar uma chefia aqui, e é muita responsabilidade para o senhor, então, não me peça pouco salário”. Eu fui lá em cima, né? “Ele vai te oferecer sete mil e quinhentos”. Era um ordenadão. Para quem estava tirando dois mil e pouco de comissão na Goiana... Falei: bom, posso casar já. Ele falou: “Não me aceite sete mil e quinhentos!” “Mas como não aceitar?” “A responsabilidade que você vai pegar aqui é muito grande! Você vai falar em dez mil cruzeiros, certo? E vai endurecer, que ele vai te pagar. Ele não tem outro. Eu não sou técnico em telefonia, eu sou técnico em rede. Ele está sem ninguém para tomar conta dessa central que o senhor montou, ajudou a montar”. Eu falei: “Olha, seu Antônio, eu estou muito necessitado desse negócio aqui. A aliança está aqui no dedo, ó!” “Não tem importância. Pode pedir os dez mil a ele que ele vai te pagar, eu tenho certeza”. Eu fui para a sala do seu Alexandrino, ele falou: “Olha, a minha oferta inicial, você vai ganhar sete mil e quinhentos. Daí a uns tempos a gente vai pagar para o senhor...” Eu falei: “Não, seu Alexandrino. Essa proposta eu não aceito. Porque pelo que eu fiquei sabendo, através do seu Antônio Remédios, eu vou tomar conta dessa central todinha”. E de mais algumas cidades que tinham aqui na época, que era Monte Alegre, Tupaciguara, Prata, Centralina, Campina Verde... Talvez eu me lembre de outra, mas acho que eram de seis a oito cidades. Bom, eu vou tomar conta de Uberlândia para ganhar sete mil e quinhentos reais? Não, de maneira nenhuma. “Se o senhor não me pagar dez inicial nós não temos negócio feito.” Não houve resistência, na hora ele falou: “Eu pago para o senhor, só que o senhor tem que começar amanhã”. Eu falei: “Amanhã eu não posso, porque eu tenho que dar baixa na Goiana, mas a partir do dia dez...” – me parece, não sei se foi dia dez – “eu entro em serviço aqui”. “Está combinado! Nós estamos fechados no negócio, então. A partir do dia dez o senhor entra na Companhia Telefônica como chefe geral aqui”. Ah, rapaz! Eu cheguei em casa soltando foguete para o meu pai, lá. “Ó, pai! Já posso casar!” “Por que, meu filho?” “Eu vou ganhar dez mil cruzeiros.” “Mas como você conseguiu?” Eu falei: “Ah, pai! A minha ida para São Paulo é a resposta que eu dou para o senhor. Eu peguei a bagagem que eu peguei em São Paulo, na Ericsson, que me deu esse retorno de eu ganhar de dez a quinze salários mínimos”. Aí foi aquela alegria geral, e eu comecei a trabalhar lá.

 

P/1 – E como era o trabalho?

 

R – O meu trabalho lá era manter a central da João Pinheiro em pleno funcionamento. Porque já tinha mais de dois anos de funcionamento, ou três, e já estava começando a dar problema nos seletores de GLB, tinha alguns telefones isolados... O cara tirava do gancho, não dava linha. Às vezes demorava a dar linha para o cara discar, daí o cara discava, dava número errado. Eu tive que trabalhar dias e noites ali, eu não tinha horário. Eu entrava sete e meia e saía dez e meia, onze horas da noite, uma hora, duas horas da madrugada. Porque, de preferência, eu pegava para fazer os testes depois das onze horas, meia-noite, aí a central aquietava. Uma hora ou outra um seletor começava a buscar a linha e alguém discava. Porque duas mil linhas... A cidade de Uberlândia era uma cidade pequena. Aí eu começava a fazer os testes. Tinha uma máquina com umas rodinhas, você enfiava os testes dos seletores e testava um por um de cada grupo. Aquele que dava defeito eu retirava, colocava ou botava a etiqueta, marcava e, quando chegava no outro dia, eu falava: “Fulano, desmonta essa máquina todinha”, porque desmontar, eu ensinei o pessoal a desmontar, aí eu ia tirar os defeitos.

 

P/1 – Que tipo de defeito o senhor constatava nessa central?

 

R – O mais normal era sujeira. Veja bem, se você tinha um relé de linha, quando ele operava as palhetas, mandavam o comando para a máquina de sinal para se obter o ruído. Então, com o tempo, ninguém limpava, e ia formando um carvão entre os contatos. Não só dos relés de linha, como dos reg, que eram umas máquinas registradoras, registravam os impulsos decádicos – não existia multifrequenciais. E era uma central crossbar, então era tudo de pulso. Você discava zero, o relezinho batia dez vezes, “ti ti ti ti”... Então se aquele contato criasse um carvãozinho de tanto ele operar – era normal se criar um carvão –, saía um foguinho e aquilo ali... O que acontecia? Eu ia pegando de cabo a rabo. Os seletores, por exemplo, tinham um eixo vertical com as engrenagens, e o seletor tinha um ímã que, quando ele recebia corrente, operava para cima. Como aquilo girava, ao ele operar para cima o braço dele, procurava o número do seu múltiplo de vinte, e entrava no número do seu telefone, atingia esse relé de linha, e relé de linha ia lá buscar o sinal de ruído para você poder discar. Daí já passava para o comando do seletor de barras cruzadas, que é o reg, que registrava os números que você discava, que até então não estava muito ruim. O pior era que, às vezes, a linha faltava. Mas o que acontecia? Formava sujeira também entre o ímã da engrenagem que operava para buscar o eixo, então tinha que limpar aquilo ali e às vezes até passar uma lixinha, para quando viesse a voltagem, ali, houvesse a imantação do relé, aquela chapa que tinha a engrenagem subisse, colasse na bobina e, automaticamente, o eixo girando, ela ia girar e buscar o número no seletor.

 

P/1 – Como limpava esse carvãozinho do relé?

 

R – Você tinha uma espatulazinha com uma camurça e a benzina, que é um líquido que absorve... Você, com um metro, assim, joga um pingo e ele não cai no chão. Na época era assim, agora, hoje é capaz que caia. Você pegava aquilo ali e limpava, relé por relé. Fiz todo esse sistema de limpeza geral nas duas mil linhas.

P/1 – Fez isso sozinho?

 

R – Praticamente sozinho, porque eu ficava com medo do pessoal, na hora de limpar, empenar ou tirar, às vezes, a flexibilidade de uma palheta daquelas... Porque aquilo tinha um medidor de peso para operar. Se você colocasse o relé um pouco pesado, ele não operava. Então, vamos supor, tinha um reloginho que marcava tantas gramas de peso que podia ter uma palheta. Tinha palheta que já estava com peso em excesso, então o relé vibrava e não operava; também era um defeito grave. Também, entre o núcleo e a âncora, devido ao funcionamento de dois anos, sem manutenção, aquilo ia aumentando a camada de carvão e de sujeira, de poeira, havendo a impossibilidade de às vezes o relé operar. Então eu fiz uma limpeza geral em tudo, a primeira coisa que eu cheguei e fui fazendo. Dentro de três meses, mais ou menos, eu deixei 50% da central limpa. E o pessoal sentiu firmeza: “Ó, o negócio está melhorando para dar linha. Está melhorando para discar...” E assim foi, e eu fui aprimorando. O Luiz Garcia olhava lá e trabalhava junto comigo também, olhando como é que fazia o sistema. O doutor Ricardo, o Cleber Garcia, o doutor Romeu e todos: eu explicava para eles também o sistema, o que era que estava acontecendo e tal, porque a parte deles era só teórica, prática eles não tinham nenhuma, e eu tinha as duas. Na Ericsson eu peguei a prática e a teoria.

 

P/1 – E foi formando uma equipe para trabalhar com o senhor?

 

R – Fui formando uma equipe. Tinha uns três que já trabalhavam lá só para fazer limpeza de chão, às vezes alguma carga de bateria, limpeza de seletor. Mas de que jeito eles limpavam? Eles limpavam o prato do seletor, que não tem nada a ver. Tiravam o seletor, assim – que era uma máquina desse tamanho, mais ou menos –, tirava o prato e limpava por baixo aquela sujeira, sendo que eles tinham que limpar as palhetas, a bobina, o engate, lubrificar o eixo... Eles não tinham conhecimento, mas foram apanhando conhecimento através da minha pessoa. Eu já tinha convivência com o equipamento. E assim eu apanhei nome dentro da Companhia Telefônica. Dava problema em Monte Alegre, por exemplo... Naquela época, daqui para Monte Alegre tinha uma linha física. Depois a Companhia Telefônica foi adquirindo várias cidades. Itumbiara, Goiatuba, Centralina... Foi adquirindo. Eu sei que aí começou a aumentar.

 

P/1 – Aí já não era uma central, apenas.

 

R – Não, já eram várias. Mas as outras já eram todas de magneto. Eu praticamente não me preocupava, porque aquilo para mim era café pequeno. Um telefone, quando era magneto, você tocava ele: se não vibrava a campainha era porque a bobina estava aberta. Eu mandei comprar uma máquina de enrolar bobina. O tanto de bobina que abria, rapaz! A máquina era elétrica, então eu enrolava bobina. Enrolei mais de mil bobinas para o seu Alexandrino. Pegava o fio aqui assim... A máquina girando e eu levava o fio para cá, assim. Tinha uma pecinha, o fio entrava no meio, você levava para lá e para cá para encher a bobina no normal. Depois eu vinha, passava o papel nela, media, contava o número de espiras na hora em que eu estava retirando e colocava o mesmo número de espiras, quando estava enrolando, com a mesma bitola do fio. Mandei comprar as bobinas de fio em São Paulo... Economizei pra caramba para essa Companhia, economizei barbaridade. Depois me colocaram para sair montando centrais. Eu pegava dois peões... Eles mandavam os peões de rede, de montar rede, e eu colocava a central dentro do caminhão. [Eu] mais um peão, só ia para uma cidade, montava a cidade, entregava para a prefeitura e vinha embora. Então montei várias cidades para eles.

 

P/1 – Por exemplo?

 

R – Montei Lagoa Formosa, montei Santo Antônio da Alegria, Carneirinho – chamam Alexandrita –, montei... Rapaz, me fugiu agora.

 

P/1 – Quanto tempo demorava um procedimento desses?

 

R – Um mês, mais ou menos.

 

P/1 – O senhor ficava lá esse mês?

 

R – Não, às vezes eu vinha dois fins de semana aqui.

 

P/1 – E o Seu Alexandrino, como era a relação com ele?

 

R – A minha relação com ele sempre foi meio... Ele era um sujeito muito fechado, mas tinha os motivos dele. Apesar de toda a riqueza dele, ele era um homem muito doente. Inclusive teve uma passagem que eu me revoltei com ele, porque eu era delegado sindical. Ele chegava a agredir o pessoal, agredia com cabo de vassoura! Eu falei: “Mas esse cara não pode ser normal”. Mas geralmente era gente mais humilde, porque isso não é normal. E agredia até o próprio filho dele, batia no Luiz Garcia, xingava o filho dele, assim, na frente de todo mundo. E eu ficava com dó, o Luiz chorava, e eu falava: “Mas o que está acontecendo com esse homem, gente? Não pode uma coisa dessas”. Agora, comigo não. Ele chegava: “Seu Gumercindo, eu vou montar um sindicato para o senhor. Eu vou botar a moça mais bonita que o senhor quiser aqui para ser sua secretária. O senhor pode escolher os móveis no Móveis Testa”, que era a loja de móveis mais chique de Uberlândia. “Eu monto um sindicato que é paro senhor não pegar mais no meu pé, pelo amor de Deus!” Ele queria mandar os caras embora sem pagar nada! Eu chegava: “Não, o senhor vai ter que pagar isso, isso e isso para o cara”. E ofendia o cara, xingava a mulher, xingava o cara, se o cara fizesse qualquer coisa ele agredia. Ele era terrível. Mas, por outro lado, um homem dinâmico. O cara que fez a Companhia Telefônica multiplicar por cem: o Alexandrino. Era um cara trabalhador, para ele não tinha... Viajava comigo e falava: “Ó, seu Gumercindo, para o senhor ter uma ideia, o médico falou que eu tinha um ano de vida. Isso já tem dez anos que o médico fala: ‘não pode pegar peso’”. Quando ele via um trilho ali, o cara com moleza para pegar o trilho, ele pegava o trilho e botava no ombro, era um caboclo forte. “É assim que se faz, cara! Pega aí...” Às vezes ele enfezava mesmo – e com razão –, com um... Cara com preguiça, e apelava e partia para a briga mesmo, agredia o cara mesmo. O cara, como era humilde, não reagia. Uma vez o cara reagiu, mas os outros chegaram e seguraram, não deixaram acontecer o pior. Mas, como homem, ele era um cara superdinâmico, supertrabalhador, não tinha horário para ele. Viajava para tudo quanto é lugar de avião. Depois o Luiz brevetou, a gente ia comprar a central telefônica lá em Belo Horizonte, em Brasília, e eu ia com eles. Então ele era um cara superdinâmico, nunca vi trabalhador assim, e esperto para fazer negócio, muito esperto. Um belo dia ele me fez essa oferta e eu deixei ele muito nervoso, porque falei: “Ó, seu Alexandrino, acima de tudo o nosso sindicato não é patronal. O nosso sindicato é democrático e cristão. Eu não vou aceitar a sua proposta. Eu fico na sala, lá de dentro da sua central, nunca parei o meu trabalho para poder defender ninguém, certo? Eu só faço as contas fora do expediente, do horário, daquele funcionário que o senhor mandou embora, que eu acho que é legal o que eu estou fazendo com o senhor. O senhor quer mandar o fulano, ciclano, beltrano embora sem pagar nada, isso não é legal. Então eu estou aqui como delegado sindical para defender o pobre, e como tal eu vou continuar sendo”. Daí nós criamos atrito e quase não nos cumprimentávamos. O Luiz até chegava para mim e falava: “Gumercindo, o meu pai diz que você não cumprimenta ele”. Eu falei: “Luiz, às vezes eu chego de manhã cedo falo ‘Ô, Seu Alexandrino, bom dia.’ Ele vira a cara para mim. Outro dia ele chega: ‘Bom dia, seu Gumercindo’. Ô, espera aí! Ou o senhor me cumprimenta todo dia, ou o senhor não cumprimenta dia nenhum. Eu não sou puxa-saco. Nunca fui puxa-saco e o senhor sabe muito bem disso. Eu sou o único aqui que enfrenta o seu pai cara a cara, todo mundo tem medo do seu pai aqui, e você sabe muito bem. Até você. Você apanha dele aqui, uai. Ele é seu pai, tudo bem, você não vai bater nele. Mas eu acho que ele não devia fazer isso na frente do pessoal, devia te respeitar como o homem que você já é, engenheiro formado. Não pode, isso aí não deve acontecer”. E o Luiz era um cara humano, é até hoje, um cara cem por cento – o filho dele –, Nossa Senhora! Eu só tenho a agradecer ao doutor Luiz. Ele ia na minha casa me buscar para viajar com ele, de avião. Minha mulher falava: “Bem, mas...” Daí ele chegava: “Ó, vim roubar o Gumercindo aqui para nós viajarmos”. Viajava para Brasília, ficava nos melhores hotéis de Brasília e tal.

 

P/1 – Para fazer o quê?

 

R – Ele ia fazer alguma reunião lá e eu ia como companhia para ele. Às vezes eu ia olhar alguma central para ele comprar.

 

P/1 – Quando o senhor foi eleito delegado sindical?

 

R – O presidente se chamava seu Zé Carlos, de Belo Horizonte, do Sindicato dos Empregados em Empresas de Telefonia de Minas Gerais. Nas idas e vindas dele aqui em Uberlândia, ele percebeu que eu era um líder. Inclusive eu tenho um curso de relações humanas, de um canadense, que ele disse que de mil homens que nascem, um nasce para ser líder, e eu cheguei à conclusão de que isso é verdade. Porque de duzentos e tantos funcionários que passaram na minha mão, eu devo ter aproveitado uns quatro que hoje estão na liderança, dentro da Companhia Telefônica. Mas não para ser líder, uns quatro que puderam me dar chance de sair de férias, trinta dias, e manter a central mais ou menos equilibrada. Não que o cara tivesse um comando como o meu, porque eu sempre fui um comandante. Eu abri a minha empresa, graças a Deus sou um empresário de sucesso. Tudo o que eu quero eu consigo, eu realizo. Eu sou realizado como vendedor, como técnico, como empresário. Aquilo que eu quero, eu meto na cabeça e vou em frente, eu não temo nada. Fui, durante sete ou oito anos, delegado sindical. Aí foi em que Seu Zé Carlos viu, na minha pessoa, um cara que podia cuidar aqui de Uberlândia e da região, porque até então o Seu Alexandrino já tinha adquirido Patos de Minas, Lagoa Formosa, Presidente Olegário... Das sete ou oito cidades de quando eu entrei, já tinha uma média de 50 cidades. Ele ia comprando essas cidadezinhas onde tinha esses telefones magneto e era uma riqueza! Porque era tudo arame de cobre, ele arrancava todos aqueles arames de cobre e vendia. Por quê? Porque era telefone magneto na época, os caras usavam linha nua... Puxar telefone em fazenda. Agora, você imagina, de uma central, o que é uma mesa desse tamanho, com aquelas pegas antigas, entendeu? Puxava dois fios para uma fazenda à de dez, vinte quilômetros. Olhe o tanto! A cidade inteira, cheia de ‘fiarada’, aquela ‘fiarada’ de arame de cobre. Quantos mil quilos de arame de cobre o homem não vendeu picado para depois nós ir lá e montar uma central OS. Aquela OS que eu peguei funcionando quando eu saí da Goiana, foi montada lá em Itumbiara!

 

P/1 – Da velha Teixeirinha.

 

R – Da velha Teixeirinha. Não se perdia nada aqui! Eu saía para as cidades comprando central velha para montar aqui. Então o que acontecia, o Seu Alexandrino começou a ter raiva de mim.

 

P/1 – O senhor chegou a levar duas suspensões na empresa, não foi?

 

R – Cheguei. Não só levar... Fui mandado embora da empresa como chefe geral, depois de quinze anos. Agora, eu participei do progresso dessa empresa, ajudei, dei o meu sangue para essa empresa... Eu tomava conta de tudo, até o almoxarifado estava à minha disposição. Veja bem o que é a criação de uma pessoa: não sumia um parafuso de dentro da Companhia Telefônica, tudo na minha mão. Peça de reposição de todo modelo que você possa imaginar, rolos e mais rolos de fio, bobinas e tal. Se eu quisesse montar uma empresa para mim, eu montava, mas jamais eu peguei um parafuso da Companhia Telefônica.

 

P/1 – O seu Alexandrino era uma pessoa ciosa contra o desperdício...

 

R – Tudo eu aproveitava. “Seu Gumercindo, vê se dá para aproveitar isso.” E eu aproveitava. Não se jogava fora nada. Fusível, estourava um, eu pegava aquele fusível, furava ele, colocava outro araminho que eu já tinha, pegava o amperímetro, media ele: três ampères, “pá”! Cortava, soldava, botava lá de novo. Não se comprava nada, a não ser que a necessidade obrigasse. Mas tudo se aproveitava ali, eu não deixava nada. O Sebastião Gomes fabricava cruzetas, aquelas roldanas, enchia as roldanas... Fabricava aqui. Enchia elas de chumbo. Criou-se um fogão lá, derretia o chumbo, enchia. Para não se comprar nada, fazer tudo aqui. Tudo o que a gente pudesse fazer aqui, nós fazíamos. Aí, deu um defeito daqui para Monte Alegre, seu Alexandrino mandou o Luiz Garcia – e tinha um Jeep para fazer essa manutenção – ir daqui para Monte Alegre para tirar esse defeito. O Luiz ia e voltava, ia e voltava, parava em Monte Alegre. Ia embora, lá... Centralina, Itumbiara, Campina Verde e tal, ia dando sequência, certo. Ele falou: “Seu Gumercindo, pelo amor de Deus...” – esse dia ele estava uma arara – “Meu filho foi formado engenheiro...”. Ele abriu o leque, eu fiquei até chateado, porque eu sempre gostei muito do Luiz, e ver um negócio daquele, ele falar um troço daquele... “O que está acontecendo aí?” “Pelo amor de Deus, dá um jeito de tirar esse defeito dessa linha, porque não se fala mais interurbano aqui. O meu lucro está no interurbano”. Eu falei: “O, eu não vou pegar Jeep, eu não vou pegar nada”. Eu peguei dois caras, com duas bicicletas, botei uma escada numa bicicleta... O Seu Lamartine, um velhinho, e um tal de Galo Cego, que trabalhava na parte de rede. E saímos a pé. Atravessamos aqui, pegamos essa rodovia daqui para Itumbiara seguindo a linha, debaixo dela. Passamos o posto seis, andamos seis quilômetros embaixo da linha. Quando chegamos mais ou menos no quilômetro nove ou dez, eu estou vendo lá uma árvore, com um galho. Ela cresceu e fechou as duas linhas no galho dela. Mas como é que o Luiz pôde não ter visto isso, sendo que tinha uma estrada de Jeep que você podia andar? O Jeep foi feito para andar na terra, né? Ali debaixo, onde nós andamos de bicicleta, ele podia andar de Jeep. Mas como o Jeep estava ocupado para outras coisas, eu fui de bicicleta. Eu peguei: “Seu Lamartine, prepara a escada, pega o facão aí”. Subi no poste de espora! Não tinha aquelas esporas de uma finca assim? Você fincava o poste de madeira, batia o outro pé, fincava, e ia subindo no pau, até chegar lá em cima. Isso eu fiz porque não tinha como eu fazer de outra forma. A escada não dava a altura do poste para eu pegar as duas linhas, porque elas não estavam cortadas. Se estivessem cortadas, tudo bem, eu pegava as duas pontas, colocava um telefone de magneto, que eu tinha ele, e “nhem, nhem, nhem, nhem”, na munheca, tocava aqui e falava com o homem. Eu subi nessa árvore arriscando a cair de cima, peguei o facão e “tchuf”! Quase uma hora cortando os galhos dessa árvore, rapaz! Era cada galho dessa grossura, assim. Cortei os galhos e tal e coisa e liberei a linha. Aí Seu Lamartine ainda brincou comigo, falou: “Seu Gumercindo, hoje o doutor Luiz vai apanhar” “Não, eu não quero que aconteça isso. Eu só quero mostrar paro seu Alexandrino que a pessoa tem que vir é debaixo da linha, e não na rodovia”. Subi no poste até onde a escada deu, depois eu subi na espora. Cheguei lá em cima, meti o magneto na linha e “nhem, nhem, nhem”. A hora que a chapinha caiu, o seu Alexandrino estava na mesa já, estava agoniado: “Alô! Seu Alexandrino?” “Ô, seu Gumercindo, tudo bem?” Aí, no tocar aqui, tocou para lá também, porque as linhas estavam emendadas. Então toquei a munheca aqui, saiu lá em Monte Alegre. Aí a menina lá de Monte Alegre: “Alô! Eu estou falando... Estou ouvindo daí, seu Alexandrino!” Aí: “Seu Alexandrino, eu vou sair da linha, está perfeito agora.” “Alô, Seu Gumercindo, muito obrigado! É só o senhor mesmo para quebrar meu galho!” Desliguei e desci. Aí o Luiz já veio me buscar de Jeep, coitado. Ele estava apavorado. Eu cheguei e disse: “Não, esse negócio seu, você tinha que ir debaixo da linha, você tinha achado esse defeito. Você vê que a linha estava fechando em curto, é o galho da árvore. Você passou no asfalto” “É, eu passei aqui dez vezes e não vi isso.” “Então você não olhou, cara. Se você tivesse olhado, tinha visto.” “Ah, como é que eu faço para enfrentar meu pai?” “Infelizmente eu não posso fazer nada. Só posso te falar que, de agora em diante, você aprendeu que em rodovia não se tira defeito em lateral de linha.” Aí houve uma discussão danada, eu fiquei chateado pra caramba, porque eu não gosto disso. Eu recebi muito elogio do seu Alexandrino, mas eu não gosto de ofensa às pessoas, principalmente ao filho dele, fazer uma coisa daquela... Mas depois eu fui saber o porquê da coisa. Um belo dia Dona Maria me chamou para reparar um defeito no telefone dela, um defeito que estava dando lá, não sei, acho que era na linha. Eu subi lá no apartamento dela, falei: “Dona Maria, por que o seu Alexandrino é tão nervoso assim? Ele chegou a ofender até a própria mulher do doutor Luiz!” Ela falou: “Meu filho, vem cá. Eu já me perguntei isso várias vezes, eu vivo com ele há tantos anos...”. A hora que abriu uma porta assim, rapaz, mas tinha de tudo que você pudesse pensar: gêneros alimentícios, o que você pudesse pensar que existia para comer, estava ali. Abriu o freezer: o que você pudesse pensar que tinha de carne, ali tinha. Carne de todo tipo. Abriu a adega lá, vinho de todo modelo. Uísque, o escambau. Cerveja, tudo. Aí chegou: “Agora o senhor vem aqui no fogão”. Chegou no fogão, tinha uma panelinha desse tamanhozinho. Ela destampou, pegou a colher, tirou um pouquinho, deu uma soprada... “Abre a mão.” Abri. “Agora come!” Arroz sem sal, uma papinha de arroz. “O senhor sabe o que esse homem come há dois anos, ou três? É isso aí.” “A senhora está brincando!” “É isso aí que ele come! O senhor viu que nós temos tudo para comer aqui, carne de todo tipo, verdura de todo tipo, vinho, e ele não come nada disso, ele é diabético. O motivo pelo qual esse homem é supernervoso.” “Ah, Dona Maria, agora eu entendi. Agora eu vou mudar o meu sistema com ele, já não vou ser aquele cara ignorante, igual eu era”. Porque ele falava um “a” lá e eu falava dois aqui, nunca abaixei para ele. Ah, isso nunca! Porque dentro do meu direito eu sou mais homem do que qualquer um, não existe um homem melhor do que eu. Mas eu nunca dou o meu direito para os outros, graças a Deus. Porque o homem, dentro dos seus direitos, ele vale por dois. Então eu nunca abaixei para o seu Alexandrino, porque eu sempre fui trabalhador, sempre cumpri meus deveres, minhas obrigações. Na medida em que ele passou a não cumprir as dele... Porque eu tinha contato com a Ericsson, com a NEC, com a Telequipo, com a GTEC, que depois virou Multitel... O pessoal vendia equipamento aqui na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba e ligava pra mim. Sabiam que eu era competente, já tinha curso de todos os equipamentos deles. “Seu Gumercindo, está indo um PABX lá para Patos de Minas, o senhor monta para nós?” “Monto, perfeitamente, pode mandar.” Eu saía no sábado ou no domingo, cinco e meia da manhã, pegava o meu carro, vazava para Patos e mandava o sarro, eu e meu irmão – formei um irmão meu, que trabalhava comigo –, trabalhava dia e noite. Chegava na segunda, eu sem dormir, sete e meia, oito horas, oito e meia, eu estava dentro da Companhia Telefônica. “Por que você chegou oito e meia?” Eu falei: “Olha, seu Alexandrino, eu saio dez horas, onze horas, meia-noite, duas horas da manhã e o senhor nunca me perguntou por que eu saio uma hora dessas. Agora eu tenho que entrar oito e meia, sete e meia? Não senhor, eu sou chefe geral aqui. O senhor esqueceu que o senhor me nomeou chefe geral? Chefe não tem hora de saída. Agora, por que eu vou ter de entrada? Não vou ter não senhor, eu entro a hora que eu quiser”. Esse era outro grande atrito nosso, e eu nunca entrei na hora que ele queria. Depois, passado uns tempos, ele começou a descobrir. Me chamou lá dentro do escritório: “Seu Gumercindo, eu estou descobrindo que o senhor está fazendo um paralelo com a Companhia Telefônica.” Eu falei: “Seu Alexandrino, não é um paralelo. Quem está vendendo equipamento não sou eu. Quem está vendendo é a Ericsson, é a Standard, a NEC, a Telequipo. Eu simplesmente sou instalador. Mas eu não estou deixando a desejar na minha central aqui, eu saio daqui cinco e meia, nunca saio daqui três horas, duas horas para montar equipamento fora. Eu cumpro o meu dever aqui dentro, saio e vou montar fora” “Por que o senhor está fazendo isso?” “Porque o meu dinheiro está pouco, não está dando para cobrir as minhas necessidades.” “Mas o senhor ganha muito bem!” Eu falei: “Bom, o senhor acha que eu ganho muito bem, né? Mas eu ganho menos do que os seus engenheiros. Eu já ganhei mais, hoje eu não estou ganhando. Eu ganho menos do que os seus engenheiros, que não sabem nada! E outra coisa, não dão a produção que eu dou para o senhor, seu Alexandrino! O senhor já parou para pensar o que que eu já fiz aqui dentro dessa Companhia Telefônica, depois que eu cheguei? Eu cheguei para cá tinha oito cidades aqui, hoje o senhor tem cento e tantas cidades! Eu colaborei com tudo isso, com tudo! Qualquer coisa que dava eu estava pegando o carro e estava indo para lá. Chegava aqui, dava um defeito aqui, estourava um cabo de mil linhas, começava até a querer pegar fogo na central. Duas horas, vocês me ligavam lá dentro da minha casa, eu me levantava da cama, [você] falava que a central estava pegando fogo, eu vinha aqui, consertava tudo. O senhor está lembrado que um dia eu coloquei o senhor para fora da Companhia Telefônica?”

 

P/1 – Como foi essa história?

 

R – Um dia estourou um cabo de mil e duzentas linhas e as máquinas ficaram todas loucas! Começou a esquentar os relés, começou a feder queimado. Uma fase da energia tinha caído e, então, o retificador – que era um painel grande –, tinha umas chaves que ligavam a central e, automaticamente, carregavam as baterias. Como faltou uma fase, essa chave caía e voltava, caía e voltava. A bateria impulsionava elas, não aguentava, caía. Nisso, saiu aquela labareda de fumaça e as telefonistas acharam que estava pegando fogo, estava explodindo, e saíram todas para a rua, correndo. Aí me ligou desesperado que estava pegando fogo na central. Eu cheguei lá e falei: “Não, não apavora.” “Ahn? O senhor dá um jeito? Não, chama um cara da Ericsson, que isso aí vai pegar fogo!” Eu falei: “Seu Alexandrino, pelo amor de Deus, deixa eu trabalhar, porra! Se o senhor ficar em cima de mim eu não trabalho.” O Luiz falou: “Gumercindo, está saindo fogo ali!” Calma, não vai pegar fogo aqui, é só questão de falta de uma fase. Eu vou desativar, mas não é... “Não, porque o senhor não pode!” Começou a me azucrinar a cabeça, entendeu? E eu pelejando para pegar os números. Tinha chovido e rompeu um cabo de cento e vinte pares, e entrou em curto, as máquinas ficaram doidas. Mil e duzentos telefones entraram em pane, todas as máquinas ficam procurando linha. É a mesma coisa que mil e duzentas pessoas tirarem o fone do gancho numa hora só. Então aquilo começou a esquentar as bobinas e começou a feder queimado. Ele falou: “Vai explodir isso daqui”. Eu falei: “O senhor quer saber de uma coisa? Se o senhor não sair daqui agora, eu paro de mexer com a central! Saio eu! O senhor tem que descer lá agora e, outra coisa: tem que bloquear as linhas lá que eu vou te mandando. O senhor e o doutor Luiz”. Só estavam os dois lá, duas horas da madrugada! “E, se possível, mandar essas moças também. Fala para subir tudo aqui para cima. Isso aqui não é explosivo não.” Ele mandou a mulherada subir, aí o Luiz falou: “Pai, vamos embora que o rapaz está nervoso” “Mas será que ele vai dar conta, Luiz?” O Luiz: “Vai dar conta”. Eu falei: “Não, eu vou dar conta, mas se o senhor deixar. Então desce, desce! O senhor quer me ajudar?” “Quero”. “Então desce, vai lá para baixo! O lugar do senhor é lá embaixo.” Aí ele desceu. Desceu ele e o doutor Luiz. Aí eu pegava e ia anotando. Pelos seletores eu anotava os números. A maior dificuldade do mundo, rapaz! Você não tinha aparelho nessa época, não tinha nada! Tinha eu, que tinha conhecimento. “Dois, três, quatro, quinze, noventa e dois, dois, três quatro, quinze, noventa e três, dois, três, quatro, quinze, noventa e quatro, dois, três, cinco, quarenta setenta...” Então pegava essa lista e jogava lá embaixo, na escada: “Bloqueia esses telefones para mim!” E eles só plugando no DG, lá embaixo. Aí era menos um curto, menos uma máquina zoando. Depois de três, quatro horas de trabalho... Quatro horas, foi às seis horas da manhã, a central aquietou. Ele subiu lá, pegou a minha mão: “Seu Gumercindo, meus parabéns! O senhor é um cara competente!” Nunca que ele fez isso na vida dele, para ninguém. Ele era durão, mas quando reconhecia a capacidade de um cara, realmente ele agradecia. E até então eu já tinha conhecimento da vida dele, o que ele passava... Arroz e água! Então eu comecei a ter um pouco mais de consideração por ele, pena dele, e a me considerar mais rico ainda do que eu era. Porque veja bem: você, com uma fortuna daquela, e não poder usufruir! Você comer uma papinha de nenenzinho! Não podia ser legal, não podia ser um cara normal, você tinha que ser nervoso mesmo. Eu comecei a dar mais valor para ele, e entender mais as coisas que ele fazia, os atos dele. Ele me deu os parabéns e ficou muito feliz pelo que aconteceu, Uberlândia voltou a funcionar normalmente. Quando foi no outro dia, pegou o pessoal de rede, que era um tal de Marciano que trabalhava aí, um cara muito competente que tinha trabalhado na Ericsson. O Marciano foi lá e nós detectamos onde o cabo estava estourado. Ele entrou na galeria, cortou, e foram mais dois dias para ir emendando cabo e liberando, aí voltou tudo ao normal. Eu peguei uma moral violenta com ele, depois disso. Depois do defeito que eu tirei na linha de Monte Alegre, na central que eu montei lá em Itumbiara. Um belo dia, um cara: “Ó, está dando um problema aqui, não tem linha e o pessoal está desesperado.” Eu falei: “Rapaz, você vai lá no contato tal do relé tal, pega uma lixinha, passa lá e vai dormir”. “Mas como é que o senhor sabe?” Eu falei: “Rapaz, eu estou mandando você fazer”. O cara foi lá, lixou e tal... “Está funcionando maravilhosamente bem!” Eu falei: “Eu estou te falando o que é o defeito...” “Mas me conta qual é o segredo? O senhor tira o defeito por telefone.” Acontece, meu amigo, que na minha vivência, eu não sou burro. Eu já peguei vários defeitos desse tipo, então eu fazia minhas anotações. Eu tive um livro de anotações que eles me roubaram... O pessoal ficava impressionado comigo. Ligavam de fora: “Está dando um defeito...” “Você vai em tal lugar, tal relé, de tal máquina, tal contato, dá uma limpadinha nele que já vai passar o positivo direto. Ele está passando só a metade e não está operando o relé tal, para dar sequência no circuito.” O cara ia lá: “Pô, funcionou, Gumercindo! Você é um gênio!”

 

P/1 – Qual era o seu segredo?

 

R – Dava um defeito desse aqui na Companhia Telefônica, de Uberlândia, certo? Vamos supor, faltava sinal numa máquina aqui. Eu olhava lá, seguia o esquema e tal, passa aqui, passa aqui... Chegava aqui nesse relé, ele estava empurrando o jogo de palheta para fechar, mas a sequência para operar o outro relé, quando esse contato fechasse com esse aqui, ele tinha que mandar um positivo lá para aquele outro relé, que já tinha o negativo, que ele operava para dar sequência no circuito. Acontece que com o funcionamento ele sujava, formava aquele carvãozinho ali, então não passava o positivo direto, passava um positivo com uma resistência de 200, 500 ohms. Então ele não operava o outro relé, ficava vibrando, não passava, não fechava o circuito. Dava uma lixadinha, operava, eu media lá, o positivo chegava normal lá, o relé “pau!”, atracava! Aí eu anotava. Defeito tal, assim, assim, relé tal, bobina tal, vertical tal. Quando acontece defeito tal tem que ser sujeira no contato tal, que é o que mandava corrente, então saía mais faísca nele, e a tendência dele era sujar mais de carvão, ficar mais sujo de carvão e ocasionar aquele defeito. Essa era a minha agenda. Por isso que às vezes eu era o dez de dentro da Companhia Telefônica. Não porque eu tinha superinteligência, mas porque eu agendava todos os defeitos. Mas tudo! Tudo o que eu fazia eu agendava. Tanto que o seu Alexandrino foi ampliar mil linhas aqui... Na época a Ericsson pediu 270 mil dólares para montar mil linhas aqui. Eu falei: “Seu Alexandrino, o senhor me dá um zero a menos para eu montar para o senhor?” Vinte e sete mil reais, vinte e sete mil cruzeiros. “Ah, o senhor não dá conta!” Eu falei: “Eu estou falando para o senhor. Se o senhor me der...” “Eu vou botar um equipamento de duzentos e tantos milhões na mão do senhor? É muita responsabilidade!” “Eu estou dizendo para o senhor que eu dou conta de montar. Se o senhor deixar eu montar, o senhor tem que me dar, além do meu ordenado, vinte e sete mil cruzeiros”, que era cinco vezes ou sete o meu ordenado. É muito melhor do que o senhor pagar duzentos e... “Mas e se o senhor não montar?” Eu falei: “Eu boto fé no meu taco. Eu confio no meu taco”. Por que eu fiz isso? Durante a noite eu pegava o esquema, botava um fone de ouvido na cabeça, pegava uma linha, pegava um peão, botava lá... Testei toda a fiação de uma central para ver aonde ia aquele fio. Durante todos os anos que eu trabalhei na Companhia Telefônica, fiquei uns quatro ou cinco anos fazendo teste. Então eu tinha tudo na cabeça, ninguém me ensinou. Eu sabia fio a fio, aonde aquele fio ia, ou o cabo. Porque era cabo de 80, 84 pares, cabo de 105 pares, cabo de 63 pares, cabo de 42 pares. Eu sabia quantos cabos de quarenta e dois pares eu ia passar para ligar os relés de linha, quantos cabos eu ia passar para ligar um cabo de um seletor final, de quantos, de oitenta e quatro, de sessenta e três, de quarenta e dois, sabia tudo. Então eu falei: “Eu monto isso aí tranquilamente, seu Alexandrino”. O Luiz falou: “Pai, pode confiar! Nós te pagamos os vinte e sete mil”. Acontece que, com esse excesso meu de trabalho, trabalhando dia e noite, direto e tal, me deu um stress. Eu fui ao médico, ele fez uns exames e falou: “Ó, o senhor está com estresse”. Eu peguei e pedi uma licença. “Ah, mas o senhor vai parar a central”. Eu falei: “Eu vou parar porque eu estou um pouco estressado. Eu quero só noventa dias de prazo para poder me recompor”. Mas acontece que não era stress, era uma parte espiritual... Ela subia assim e tal, e eu tinha a impressão que eu ia desmaiar. Fui para Belo Horizonte, fiquei na fila lá, de madrugada, para fazer exame. Me fizeram um exame lá, que a minha mulher assistiu, botaram meu queixo no peito aqui, me chucharam uma agulha grande na cabeça, que o médico depois disse para ela e disse: “Ó, minha senhora, eu não faria esse exame que o seu marido está fazendo, porque pode causar a morte dele. Se eu errar essa agulhada, ele pode morrer”. Mas eu estava tão desesperado com a situação... Às vezes eu saía daqui de casa – eu morava ali na Praça do Líbano – para ir trabalhar. A hora que eu chegava no meio do caminho, vinha aquele negócio em mim, e eu falando: “Eu vou cair aqui, eu vou desmaiar”. Eu segurava num poste, a turma brincava: “Ô, Gumercindo, larga o poste, cara! O que é isso? O poste não vai cair não”. Começou a gozação. Aí os caras: “É, o Gumercindo está ficando doido”. Eu chegava: “Não, rapaz. É porque eu estou me sentindo mal” “Mas eu nunca vi um cara se sentir mau e agarrar num poste.” E eu falei: “É, rapaz, eu tenho medo de cair. É um negócio estranho que está me dando. Mas eu vou chegar na Companhia Telefônica”. Chegava até mais ou menos no meio, me dava aquele troço e eu “pá”! Batia na porta de uma casa de uma amiga minha... Ela abria a porta, eu ficava com vergonha. Eu falava: “O Zé Antônio está aí?” “Não, ele saiu. Vamos entrar, parece que você está pálido.” Eu falava: “Não, eu estou bem.” “Não, entra um pouquinho.” Eu ficava com medo de desmaiar lá dentro, e eu já havia desmaiado. No dia que o meu concunhado faleceu, eu desmaiei perto do caixão dele. Aí eu fui para Belo Horizonte. Mas todo mundo já achou que eu estava pirado. Eu não conseguia chegar na Companhia Telefônica, aí eu pedi a licença. Nessa época trabalhava o sobrinho do Alexandrino Garcia, o Gilberto. O Josino, sobrinho do Boulanger Fonseca, que era outro diretor: “Nós vamos pegar o cargo dele.” Quando eu estava naquele estado, eu falei: “Eu tenho que ficar calmo e dar um jeito de me cuidar”. Eu fui para Belo Horizonte e fiz tudo quanto era exame. Fiz exame lá, chegou um psicólogo, ele falou: “Ó, moço, o senhor quer que eu fale a verdade? O senhor não tem nada, o senhor está com preguiça...” Quase bati nesse cara, rapaz! Falei: “Rapaz, se você fosse uma mulher muito bonita eu falava que eu vim aqui pra te ver” – minha mulher estava comigo – “mas você é um cara feio, e falar que eu estou aqui porque eu estou com preguiça? Se tem uma coisa que eu nunca tive na minha vida foi preguiça. Eu estou doente, certo? Eu estou doente da mente, e você, infelizmente, estudou para burro para você me falar um negócio desse aí.” Porque eu já estava a fim de pegar o cara nos tapas mesmo, sabe? Porque eu sou meio estourado. Aí eu falei: “Vamos embora, bem. Vamos embora. Vamos embora para Uberlândia que eu já fiz tudo quanto foi tipo de bateria de exame: eletroencefalograma, já meteram a agulha aqui para ver se eu tinha sífilis no cérebro, entendeu? E uma série de radiografias da cabeça, e eu não tinha nada, não deu nada”. Eu cheguei a Uberlândia de novo e falei: “Agora eu vou levantar e vou trabalhar”. Aí começava de novo. “Bzzzzzz...” Nossa Senhora! Aí o meu cunhado, irmão dela, falou: “Gumercindo, tem um cara espírita, lá de Palmelo, vamos lá em Palmelo que você vai se curar lá. Você está com um encosto espiritual que não está te deixando trabalhar”. Eu tinha moto. Eu falei: “Eu não posso ir de moto, senão eu caio”. Eu adorava moto, tive umas vinte motos. Saía daqui para Brasília em turma de dezoito caras, passeando de moto. Isso não era asfaltado. Você via cada tombo, rapaz! Era uma farra. Aí eu vi minha moto lá, mas falei: “Eu não posso” “Não, vamos de ônibus, eu te levo.” E eu: “Mas eu não aguento ver pessoas, não aguento ver muito aglomerado de pessoas perto de mim”. “Não, mas nós vamos! Você vai junto comigo e nós pegamos o banco da frente, tal.” E eu fui, mas dei trabalho. Porque parece que eu me senti ansiado de ver tanta gente perto de mim, sabe? Eu falei: “Gente, eu não estou normal, eu estou com um problema sério. Ele falou: “Você está com um problema sério, mas fica calmo, não fica nervoso”. Um cara passou com um saco, encostou o saco, eu empurrei o cara. Ele falou: “Não procura confusão, não” “Pô, esse cara vem encostar esse saco de banana, parece. Logo em mim, porra! Tem tantos caras para você encostar essa merda aí!” Comecei a apelar com o cara. Ele falou: “Não, calma, você está nervoso demais.” Mas tudo isso era consequência. Chegou lá, tinha uns cavalos esperando a gente. Eu montei num cavalo, ele montou em outro e nós fomos para a fazenda. Chegamos lá, tinha um alemão, o cara dava dois de mim. Eu fui cumprimentar, o cara nem me cumprimentou, falou: “Tudo bem?” Eu falei: “Por que esse cara não me cumprimentou?” “Para você ver a situação que você se encontra. Esse cara é o maior médium de Palmelo, ele não quis pegar na sua mão, então você não está bom. Você está ruim, está péssimo” “Rapaz, eu tenho medo!” Ele falou: “Você tem medo, mas você vai ter que enfrentar essa bateria aqui”. Quando foi de noite, escureceu, eles pegaram a sala grande da fazenda, colocaram vinte cadeiras. Colocaram uma no centro e mandaram eu sentar lá no meio. E começou o trabalho. Fizeram orações, orações, orações, orações, orações... O cara começou a falar assim: “Esse espírito que está com nosso irmão Gumercindo, deixe ele em paz.” Rapaz, você via cadeira cair de lá, nego esgoelar de um lado, esgoelar do outro, e ele ali, fazendo as orações. Melhorando aquele médium ali, passava a melhorar o outro médium, melhorava o outro e tal... Sei que foram umas três horas para terminar o trabalho, aí eu fui direto para a cama, estava cansado. Bati na cama e dormi, dormi que foi uma maravilha. Acordei no outro dia, eu vi ele lá, assim, com os olhos vermelhos. Eu falei: “Tudo bem?” Ele se afastou. Eu falei: “Por que o senhor está se afastando dessa forma, o senhor não quer me cumprimentar?” Ele falou: “Eu passei a noite inteira acordado por causa da entidade que estava com você, mas você está liberado. Você tem uma entidade com você que só você mesmo vai tirar ela com o seu desenvolvimento espiritual. Você é um médium de transporte e, como tal, você vai ter que se desenvolver espiritualmente, trabalhar para você poder ficar livre dessa entidade. Mas da outra que estava lhe prejudicando, você está liberado, e eu não tenho por que pegar na sua mão. Eu acho que o que eu podia fazer por você, eu já fiz”. E eu falei: “Eu sou muito grato ao senhor, porque eu fui à Belo Horizonte, me submeti a uma carga de exames e não me curei, e essa noite eu já dormi maravilhosamente bem, como eu não havia dormido há três meses, então é sinal de que eu já estou bom. Para o senhor ter uma ideia, eu já estou com vontade de pegar... Se tivesse uma moto aqui eu já ia embora de moto”. Ele falou: “Fico feliz com isso aí”. Eu e meu cunhado ficamos lá dois dias, três dias e o cara já foi embora logo. Viemos de ônibus, eu já vinha numa boa dentro do ônibus. Ele falou: “Gumercindo, olha o tanto que você já melhorou. Você estava implicando com todo mundo dentro do ônibus, você estava querendo brigar com todo mundo. Só porque o cara te encostou um saco de banana você já queria bater no cara”. Eu falei: “Graças a Deus, Nossa Senhora! Não tem coisa melhor no mundo do que a saúde. Eu vou chegar em casa, vou trocar de roupa, não vou esperar nem os três meses da Companhia Telefônica, já vou meter o sarrafo lá, porque eu tenho...”

 

P/1 – Que montar uma central.

 

R – Que montar uma central. Cheguei, troquei de roupa e fui embora trabalhar na central. Aí comecei a escutar aquele “tititi”: “O homem está doido...” e coisa e tal. O Valquir, um amigo meu, falou: “Olha Gumercindo, O Gilberto e o Josino estão traçando um esquema aqui para te tomar a chefia da central”. Eu falei: “Quem são eles para tirar a chefia da minha central?” Ele falou: “Bom, eu estou dizendo para você aquilo que eles falaram para mim.” “Então tudo bem, vamos ver se eles têm capacidade para isso. No que eu sentei... Eu estava fazendo o cabo de LV – cabo do seletor final, de linha, um cabo dessa grossura – e dei a ordem para todo mundo, o que eles deviam fazer. Na hora que eu sentei, que eu comecei a pegar o alicate, começou a vir a dormência de novo. Eu levantei e falei: “Não, eu já estou curado! Não vai ter mais boca para você! Você não vai me derrubar mais não.” Aí o Josino e o Valquir vieram e seguraram no meu braço. Eu falei: “Me solta, rapaz!” Nisso as telefonistas todas de lá levantaram e viram. Quando elas viram, eu saí... Dei uma corridinha dessas de aquecimento de futebol, fui atrás do retificador, comecei a respirar fundo e falei: “Meu Deus, se eu estou liberado, por que está acontecendo isso comigo? Eu tenho que trabalhar. Eu não posso, casca fora! Deixa eu trabalhar, pelo amor de Deus”. E o pessoal assistindo eu falar desse jeito, mas eu estava falando comigo mesmo. Falei: “Eu vou trabalhar agora, e pelo amor de Deus, me deixa em paz, eu vou trabalhar”. Sentei no banco, continuei trabalhando até as seis horas. Deu seis horas, a turma ficou me olhando de lado e tal e coisa. Seis horas parei, fiz lá uns seis ou oito joguinhos jack de relé e já saí feliz: “Pronto, acabou! Isso aqui foi só uma ameaça.” No outro dia voltei de novo... “Ripa”! Trabalhei normalmente, numa boa. E a minha mulher ficou lá na fazenda, eu fiquei sozinho em casa, porque ela estava sendo submetida a um tratamento espiritual lá. Aí acabou, graças a Deus. Fui montando a central... Eu escutei um “tititi” lá. O cara: “É, porque está pirado. Agora mesmo ele levanta daqui e sai correndo.” Aí, rapaz, eu falei: “O que você falou aí, cara?” “Não, não falei nada, não.” “Falou, rapaz. Você larga de ser vagabundo, você tem que falar a coisa na cara, não fala nas costas não, fala na cara de um homem, seu cachorro!” Afastei a mão para trás e soltei o murro no meio da cara dele. O cara bateu na parede e já foi caindo. Sobrinho do homem.

 

P/1 – Sobrinho do seu Alexandrino...

 

R – É, o cara que estava querendo me tomar o posto. Aí a turma me segurou. Eu falei: “Deixa eu bater mais nesse vagabundo. Eu quero mostrar para ele quem que toma posto de quem aqui”. Ele desceu, foi lá e contou para o Seu Alexandrino e Seu Alexandrino mandou me chamar. “O que é que é isso? O senhor está batendo no meu sobrinho?” Eu falei: “Seu Alexandrino, não só bati como vou bater. O cara que falar que eu estou ficando pirado aqui dentro. Vai apanhar mesmo! E outra coisa: ou eu, ou esse sobrinho seu, lá em cima.” “Mas já trabalha há tanto tempo com o senhor!” Eu falei: “Ou eu, ou ele! Eu já montei metade da central, mas eu desisto, porque jamais eu quero um cara cochichando na minha orelha, falando que eu estou ficando pirado, que eu estou ficando maluco. Se for para continuar dessa forma, eu vou liquidar aqui e cascar fora da Companhia Telefônica”. Ele falou: “Não senhor! O senhor vai terminar de montar a central”. Aí falou para o cara passar para a rede, lá embaixo. Terminei a central, cara! Ele mandou chamar os caras da Ericsson. Os caras da Ericsson chegaram assim, fizeram teste na central e falaram: “Seu Alexandrino, até hoje nós nunca vimos uma central tão bem montada no Brasil. O nível de defeito dessa central é zero! Não tem defeito, a central. O senhor está de parabéns. Seu Gumercindo, estão abertas as portas da Ericsson para o senhor.” O homem ficou doido! Ele me deu os parabéns, o doutor Luiz também. Reconheceram a minha competência e subiram um pouco o meu salário. Mas não... Me pagaram os vinte e sete mil e tal, mas não do jeito que eu queria. Eu queria mais, porque eu acho que eu merecia. Eu falei com ele que, devido a tudo isso... Ele tinha me parabenizado, então estava ciente da minha capacidade, e que eu achava que eu merecia um pouco mais de dinheiro do que os engenheiros que, praticamente, eram meus funcionários: eu estava ensinando eles a trabalhar ali. E trabalhavam quatro ou cinco engenheiros comigo, sob minha orientação. Ele falou: “Quanto é que o senhor quer?” Eu falei: “Quanto que eles ganham?” “Ah, eles ganham quinze mil cruzeiros” – Eu estava ganhando doze. “Ah, mas o senhor ganhou vinte e sete mil”. Eu falei: “Eu ganhei vinte e sete mil por uma coisa que eu fiz, que o senhor ia pagar duzentos e setenta mil. Eu ganhei muito dinheiro para o senhor. Ganhei, praticamente, dez centrais para o senhor, o senhor tem que ver isso aí. E outra coisa, Seu Alexandrino; eu entrei aqui, Uberlândia tinha oito cidades. Uberlândia hoje tem cento e tantas cidades. Então eu acho que eu colaborei para o progresso da Companhia Telefônica, dei tudo de mim. O senhor me chama às duas horas da madrugada, eu venho, se me chama à meia-noite, eu venho, eu saio daqui altas horas, o senhor só vê a hora que eu chego, não vê a hora que eu saio. Tudo isso o senhor tem que relevar, uai! Seu Alexandrino, eu vou dizer um negócio para o senhor. Eu vou ser mais humilde um pouquinho, vou parar de montar esses equipamentos.” A Telequipo tinha ligado para mim dizendo que tinha um equipamento lá no Armazém Martins para instalar, e eu já tinha conversado com o Seu Alair Martins, tinha dado o preço para ele para montar o equipamento e ele falou: “Pode meter o pau!” O equivalente a dois salários mensais! Trinta mil cruzeiros para montar o Armazém Martins todinho! Um PABX. O que eu montaria em uma semana, em um mês, quatro sábados e domingos, e mais as noites, eu ganharia duas vezes o meu salário. Eu falei: “Seu Alexandrino, eu não vou montar nada.” Liguei para o seu Alair e falei: “Seu Alair, eu estou fazendo um contrato com a Companhia Telefônica. Como o armazém ainda não inaugurou, vai inaugurar daqui a dois meses... Mas eu entrego para o senhor dentro de um mês, instalado. Eu estou resolvendo aqui, um mês de prazo eu resolvo aqui com o seu Alexandrino o que eu devo fazer e o que eu não devo. O senhor me aguarde que eu vou montar esse equipamento para o senhor. Se eu não montar, eu arrumo quem monte para o senhor, dentro do limite da inauguração”. Aí eu tive essa conversa com o Seu Alexandrino Garcia, falei: “Não quero nada além do que... Eu não vou ultrapassar o filho do senhor, o sobrinho do senhor, que é engenheiro, nem nada. Eu quero ganhar igual a eles, quero ganhar quinze mil mensais.” “Não, mas aí o senhor está indo demais!” Eu falei: “Olha a produção que eu dou para o senhor e olha a produção que eles dão para o senhor: nenhuma, em relação à minha. Eu dou mil por cento, eles não dão nada. Eles estão aprendendo, não têm prática, só teoria.” “Mas eles estão montando...” “Eles não estão montando nada, quem está montando é a Standard, um DQ-12, para funcionar em cima das linhas físicas. Quem está fazendo tudo aqui sou eu, e eu acho que eu mereço isso.” Conclusão: “Está certo, eu vou pagar os quinze mil para o senhor. Estamos combinados, a partir de hoje o senhor não pega mais nenhum serviço.” Eu falei: “Nenhum serviço, eu vou dispensar todos”. Eu tinha mais um equipamento para instalar lá em Patos, dois aqui em Uberlândia, tinha um para instalar em Tupaciguara. Botei todo mundo debaixo da bacia, não dispensei ninguém, segurei os caras: “Aguenta a mão aí que eu estou muito ocupado.” Mas eu ia, literalmente, liquidar com isso, ia mandar outros caras para montar. Meu irmão – que já estava formado comigo –, eu ia orientar ele, ele ia montar, eu não ia montar mais. Isso foi no dia dez, mais ou menos, dia quinze, que nós conversamos. Quando chegou no dia primeiro, o dia em que eu fui receber, veio quatorze mil cruzeiros na minha folha de pagamento. Eu olhei a folha do Cleber, quinze; do Luiz, quinze. Falei: “Espera aí, Dona Ilce. O seu Alexandrino falou que ia me pagar quinze mil!” “Não, Gumercindo, ele falou que é catorze”. Eu falei: “Não, conversei com ele”. Ela falou: “Não, Gumercindo, acho que catorze está bom demais. Você também está querendo demais!” “Tudo bem, então estou querendo demais. Vou assinar minha folha”. Assinei a folha, saí dali, vazei, falei: “Seu Alair, a partir de sábado eu estou aqui”. Meti o sarrafo, eu e meu irmão. Fizemos toda a rede do Armazém Martins, porque era um mundo velho, era um quarteirão de armazém. Hoje eles são uma potência. Fiz e, quando foi no dia da inauguração, deu na televisão: Armazém Martins, PABX número tal, tal, tal. O Seu Alexandrino pega, liga lá para a telefonista do Armazém Martins: “Olha, esse PABX não está cadastrado na Companhia Telefônica, quem montou esse equipamento?” “Ah, foi Seu Gumercindo”. Rapaz, esse homem virou o cão! Diz que dava murro nas paredes... Dona Ilce que sabe contar mais. Iolanda, Dona Rita, o pessoal que trabalhava lá no escritório. “Eu vou mandar esse rapaz embora! Eu falei para ele não fazer mais isso!” Não sei o que, e “pá, pá, pá...” “E vai para a rua!” A Iolanda subiu correndo a escada, falou: “Gumercindo do céu! Você vai ser mandado embora” “Mas por quê?” “Porque o seu Alexandrino diz que você montou um equipamento.” Eu falei: “Montei, mas eu falei para ele me pagar 15 mil, ele não quis me pagar”. “É, diz que vai mandar o senhor embora, que é para o senhor ir lá embaixo”. Eu falei: “Eu não vou não”. “Ah, por que você não vai?” “Você sabe como é que ele é, ele é nervoso, é doente. Ele é acostumado a bater nos outros. Você falou que ele está dando soco na mesa, nas paredes, e se ele fizer uma dessa eu vou matar ele, porque eu sou bem mais jovem do que ele. Uma que, se ele der em mim, eu esquivo e dou uma nele, pronto.” Porque eu já tinha três faixas de caratê, eu ia enfrentar um velho? Ainda mais um dono da empresa? Eu estava na cadeia. Aí o telefone tocou: “Alô! Seu Gumercindo, é Alexandrino. Desce aqui agora!” “Eu não vou descer, não” “Eu estou mandando!” “Não, eu não vou descer, seu Alexandrino. Eu estou muito ocupado aqui.” Ele “pá”! Desligou o telefone. Eu falei: “Meu Deus do céu, faz com que esse cara não venha aqui, porque se ele vier, vou ter que... Não sei o que eu vou fazer. Eu vou fechar essa porta para ele não entrar, porque do jeito que ele está, o negócio vai feder chifre queimado aqui”. Graças a Deus que ele não veio, veio o Luiz. Luiz ligou: “Gumercindo, papai está chamando você lá embaixo” “Mas Luiz, eu não vou.” “Mas eu quero que você vá” “Mas eu não vou, uai!” “Você vai, sim!” Eu falei: “Então desce aqui e vem me buscar”. Ele estava lá em cima, eu escutei os passões dele descendo, porque o Luiz é bem grande. Tinha um cinzeiro de bronze desse tamanho assim, eu encostei, peguei o cinzeiro de bronze, fiquei segurando. Falei: “Apanhar eu não apanho nunca na vida”. Ele chegou: “Você vai ou não vai?” “Vem me buscar! Você não é grande? Vem cá me buscar” “Você vai ser mandado embora!” “Rapaz, eu estou sabendo disso. Deixa quieto, eu vou ser mandado embora. Agora eu quero te falar uma coisa: pelo amor de Deus, faz o meu acerto agora, porque está na hora do almoço e eu não quero voltar aqui depois do almoço” “É isso que você quer?” “Exatamente isso que eu quero.” “Você é chefe, vai ser mandado embora?” “Eu sou chefe, vou ser mandado embora.” Ele subiu lá, deu uma hora, mais ou menos, demorando, demorando... O pessoal foi chegando, eu fui entregando minhas ferramentas. “Mas o que é isso? O que aconteceu de uma hora para a outra?” Eu falei: “Ah, não esquenta a cabeça...” “Você, chefe, ir embora, rapaz? Isso é humilhação para você.” “Não, ser mandado embora não é humilhação, não. Uma que eu tenho os meus motivos. Eu acho que todo mau funcionário é mandado embora. Você me acha um mau funcionário?” “Não” “Você me acha um mau chefe?” “Não”. Eu falei: “Isso é que é importante para mim. Não importa o resto, o que eu tenho que falar com vocês. O que importa é o que está dentro da minha consciência. Eu tenho a consciência tranquila, porque eu estou sendo mandado embora injustamente”. O Luiz chegou lá, falou assim: “Vamos lá embaixo”. Eu falei: “Luiz, eu já falei que eu não vou”. “Não, o meu pai já foi embora. Vamos lá embaixo que nós vamos conversar.” Fui lá para dentro da diretoria e ele começou a conversar comigo. “Larga disso. Desconsidere o meu pai.” “Não, Luiz, o negócio é o seguinte, eu perdi o clima, todo mundo já sabe que eu fui mandado embora, não dá. Eu conversei com o seu pai antes, falei para ele que eu não ia mais montar equipamento, que ele tinha que me pagar quinze mil, ele falou que ia me pagar. Eu não reclamei, eu não sou homem de reclamar. Isso nós já conversamos anteriormente, ele tinha que me pagar os quinze mil, não mandar catorze, ou treze e oitocentos” – saí recebendo treze e duzentos. – “Eu queria quinze mil cruzeiros, igual vocês recebem. É líquido, entendeu? Agora, quanto eu recebi? De catorze, caiu oitocentos, treze e duzentos, pô? O que ele aumentou? Eu ganhava doze mil e duzentos contos, cara! O que eu fiz para vocês, Luiz? Eu aumentei, ampliei mil linhas para vocês aí! Estou no comando aqui, ninguém tem reclamação de mim! Agora, eu acho isso uma ofensa, pô!” “Não, nós vamos desconsiderar isso. Eu vou te pagar os quinze” “Agora já não quero mais. Acho que, pelo que ele me xingou aqui dentro, que eu escutei, falou que eu sou um paralelo da Companhia Telefônica, que eu sou um concorrente da Companhia Telefônica, deu murro nas paredes, pintou o diabo. Então acabou o meu ambiente aqui, já foi a zero! Eu estava a mil, eu era considerado aqui, e você sabe muito bem.” Ele falou: “Não, nós gostamos de você...” “Mediante a isso, eu já fui a zero. É melhor você me despachar. Talvez amanhã eu resolva, mas por enquanto eu estou estourado, não estou satisfeito. Acabou a Companhia Telefônica para mim.” “Não, mas não é assim. Você pode voltar...” Aí eu saí. Acertou. O Seu Alexandrino andou atrás de mim umas duas ou três vezes. Para você ver como é o negócio: eu saí hoje, quando foi amanhã chegou o Checon e o Bustamante, direto do Rio de Janeiro, dois caras da Ericsson, de avião... Pergunte à minha mulher: chegou lá dentro da minha casa, um dia depois, notícia ruim corre. Notícia boa corre, a ruim voa. Eles voaram de lá para cá, ficaram sabendo. Chegaram dentro da minha casa: “Gumercindo, quanto é que você ganhava na Companhia Telefônica?” Eu falei: “Quinze”. “Nós te damos trinta, mais casa... Você vai para Vassouras, Estado do Rio, mais casa para morar e as passagens de avião estão aqui, você e a sua mulher”. Eu falei: “Não, eu não vou, não”. “Rapaz, nós estamos te oferecendo o dobro!” Eu falei: “Eu não vou. Eu quero assentar minha cabeça um pouco. Posso até ir, mas agora não”. “Então nós te damos um mês de prazo, mas você vai montar duas mil linhas lá e tem várias centrais para você montar para nós.” Eu falei: “Tudo bem. Mas você pode levar as passagens”. “Então nós vamos deixar o telefone, o cartão aqui, você pode ligar para a gente, você pega o avião e vaza. Vá antes porque você vai escolher a casa que você vai morar, nós vamos pagar aluguel da casa.” Quando foi no outro dia, eu peguei, levantei e falei: “E agora, aonde que eu vou? Ah, eu vou zoar por aí, vou lá na minha mãe, vou dar uma rodada e tal.” E fui vou escovar os dentes. Peguei a escova assim, fui escovar os dentes. Aí eu vi a marca da escova: Tek. Aquilo me eu um estalo. Sabe aquele estalo? “Olha aqui, eu vou é abrir uma firma para mim, está aqui o nome dela”.

 

P/1 – A marca da escova.

 

R – A marca da escova. E eu tiro esse “k” aqui, ponho um “c”, Telefonia e Comunicações, e ponho um “s”. Assim, imediato, no outro dia! No outro dia eu já escolhi: TECS. Falei para a minha mulher: “Bem, eu vou abrir aqui na garagem de casa”. Liguei para uma amiga minha, da faculdade de artes e falei: “Suzana! Bola para mim aí um logotipo de um raio, assim... A espécie de um círculo, um raio caindo, escreve TECS em cima dele, ‘Comunicações’, e manda para eu ver”. No outro dia estava o Zé Leonardo lá, cunhado do Luiz Garcia, para poder me chamar de volta. Diz que o seu Alexandrino tinha mandado me chamar. Eu falei: “Zé, definitivamente eu não vou voltar mais. Eu não quero mais ser empregado da Companhia Telefônica” “Rapaz, o homem diz que te paga vinte mil!” Eu falei: “Mas eu não quero mais. Eu já entreguei as minhas ferramentas para o Jaime” – o Jaime é o outro cara que trabalhou comigo na Ericsson – “eu acho que ele tem competência para tomar o meu lugar. Põe ele no meu lugar, eu não vou mais, não quero mais, acabou. Eu sou amigo de todo mundo lá, fala para o Seu Alexandrino que eu sou amigo dele do mesmo jeito, apesar dele ter me xingado para o pessoal, eu sou amigo do mesmo jeito, sou amigo do Luiz, sou amigo de todo mundo”. Doutor Luiz já passou Natal dentro da minha casa, junto com a minha família, ele a Dona Ofélia, gente muito fina! O Luiz é um cara que eu vou te contar! O seu Alexandrino também. Todo mundo tem esses momentos de fraqueza, né? Mas eu não tenho nada a reclamar, nem do doutor Luiz nem do Seu Alexandrino, pelo contrário: eu só tenho a elogiar, porque se eu consegui um nome, se eu consegui a minha posição, foi graças à escola que eu tive lá dentro da Companhia Telefônica, porque foi lá que eu tive um equipamento para poder testar ele todinho, para eu escrever ele, mentalizar na cabeça, para eu ser um grande técnico. E através da Companhia Telefônica eu consegui entrar na Ericsson, para poder ir para São Paulo e fazer novos cursos. Então eu falei para eles: “Eu só tenho a agradecer vocês. De primeiro é o Gumercindo da Telefônica, agora vai ser o Gumercindo empresário, Gumercindo da TECS Comunicações”.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – Foi em 1975. Comecei na garagem da minha casa. Logo no primeiro mês eu bati a Companhia Telefônica em sistema de vendas. Deus ajuda quem trabalha. Veio um cara de São Paulo, bateu na minha porta para poder me oferecer a firma dele para vender, lá em São Paulo, a Líder Telecomunicações. Ernesto... E como o mundo dá muita volta, depois ele foi meu empregado. Ele era o dono e depois passou a ser meu empregado, foi meu funcionário.

 

P/1 – O seu negócio é de representação e montagem?

 

R – Venda, instalação e manutenção.

 

P/1 – O senhor também tem representação?

 

R – Sim, represento várias marcas. Aí comecei a vender. Depois de dois ou três meses o Seu Alexandrino estava maluco com o departamento de vendas dele. Acabei com o departamento de vendas dele, vendi o dobro do que o departamento deles vendia e fui sigilosamente em Brasília, contratei um engenheiro da Telebrás, registrei a minha firma na Telebrás – sendo que eles tinham empregado lá dentro da Telebrás. Quando eu levei o Diário Oficial para o Luiz Garcia, ele ficou branco. “Como é que você conseguiu registrar essa firma na Telebrás? Agora nós não podemos segurar você para trabalhar.” Porque mesmo assim eles usaram de um artifício. Eu vou te contar, viu rapaz! Eles bloquearam todos os meus PABX, você acredita nisso? Eu tive que chamar um advogado, primo do ministro Quandt de Oliveira, na época, para poder me defender aqui dentro da Companhia Telefônica, porque os telefones da minha firma envermelharam tudo, de tantas empresas, hospitais, firmas... Eles bloquearam todos os telefones.

 

P/1 – Mas podiam ter feito isso?

 

R – Não podiam, era inconstitucional. Mas eles fizeram.

 

P/1 – Sob que argumento?

 

R – Você sabe que dinheiro compra tudo. E eles criaram uma nova lei dizendo que todas as empresas que quisessem trabalhar particular, dentro da área da Companhia Telefônica, teriam que ser cadastradas na Companhia Telefônica. Como eu me recusei a me cadastrar na Companhia Telefônica, eles boicotaram meus equipamentos. Aí foi aquela briga. Eu chamei o advogado... O cara lá da Líder me deu assessoria, veio de avião, tivemos uma reunião aqui e o advogado ameaçou entrar com um mandado de segurança contra a Companhia Telefônica, que se ele não liberasse... “Mas deu defeito nos equipamentos.” Eu falei: “Não, se o senhor quiser, eu entro lá e mostro que tantos telefones estão bloqueados”. Aí foram lá e desbloquearam todos os telefones.

 

P/1 – E hoje, como é a relação?

 

R – Aí fizemos um acordo. Eu saí com esse advogado e ele falou: “Gumercindo, veja bem: eu posso impetrar um mandato de segurança contra eles, mas eles têm muito dinheiro, podem comprar isso. Então, quando o adversário é muito forte, você não briga com ele, não: una-se a ele. É a mesma coisa que você estar enfrentando um faixa preta. Você é um faixa verde, você vai apanhar”. Eu disse: “O senhor sabe que o senhor tem razão?” “Mas você vai estabelecer o seu limite, não vai fazer aquilo que eles querem, nós vamos voltar para reunião e eu vou assistir a tudo”. Chegamos na reunião, depois do almoço continuou a reunião...

 

P/1 – Quem estava nessa reunião?

 

R – Doutor Lamartine, doutor Joel... Eu não sei se o Luiz estava, Luiz e o Seu Alexandrino. Eu sei que estava o pessoal de cúpula deles, a assessoria deles. Eles fizeram a oferta do seguinte: de eu trabalhar para eles. Eles falaram: “Nós nunca fomos inimigos do seu Gumercindo. Pelo contrário, nós sempre queríamos ele aqui dentro com a gente”. Eu falei: “Só que eu não queria mais, não quero [ficar] aqui dentro mais, agora eu sou empresário, quero trabalhar dentro da minha empresa. Eu vi as minhas possibilidades lá fora, vi que o meu mercado de trabalho é muito maior do que o meu mercado de trabalho aqui dentro, e eu não quero ser um cara instável na vida, quero sempre subir mais e mais, como vocês subiram. Eu acho que todo mundo tem direito a um lugar ao sol, e é o que eu estou procurando. Então só quero que vocês me deixem trabalhar, mais nada. Eu não estou agindo contra vocês” “Ah, mas o senhor está falando que a Companhia Telefônica vende ações e não equipamento.” “E eu estou falando mentira? O meu equipamento, que está dentro da minha casa, é meu ou é de vocês? Se for meu, eu vou falar o contrário” “Não, mas o senhor sabe que é nosso...” Eu falei: “Então eu não estou falando mentira, eu estou falando a verdade. Se eu pego um PABX e compro de vocês, 50% do meu investimento são ações que eu estou comprando da Companhia Telefônica. Eu não quero comprar ação da Companhia Telefônica, e todo cliente meu sabe disso!” Eu falo para ele: “Olha, se vocês quiserem comprar da Companhia Telefônica, vocês vão comprar 50% de ações e 50% do bem, certo?” “Não, nós queremos equipamento para nós. Nós estamos pagando o total do limite. É nosso, o equipamento é nosso, porque amanhã, se eu quiser trocar ele, eu pego, dou ele para o fabricante ou vendo para qualquer outra pessoa e compro um novo, esse é o meu argumento. Não estou prejudicando a Companhia Telefônica, eu estou falando a verdade, e quem fala a verdade não merece castigo”. “Então eu vou fazer o seguinte: nós vamos fazer uma proposta para o senhor. Nós damos 50% para o senhor, o senhor vai vender o nosso equipamento, de tudo, só que as peças de manutenção vão ser nossas”. Eu falei: “Por que vão ser de vocês? De maneira nenhuma! Quer dizer que se eu tiver que trocar uma cápsula lá no cliente eu vou ter que pegar aqui na Companhia? Não senhor! Eu acho que vocês não estão nessas condições de mandar, de impor. Eu sou cadastrado dentro da Telebrás, uai! Vocês vão ter que ouvir a minha proposta também”. Baseado num toque que o doutor Carlos me deu, me cutucou na perna para eu reagir, porque eu só falava aquilo que ele queria. Ele tinha me falado: “Se eles te propor 30, 20,, você não abaixa de 50 não. É de 50 para cima”. Eu falei: “Doutor, o que dá mais são as peça que gastam, é a manutenção. Onde se fatura cordão, se fatura cabo, disco, chave de equipamento, tudo isso é onde se ganha mais dinheiro”. Falei: “Olha, eu vou fazer a minha proposta. Vocês fizeram a de vocês, não é? Eu faço com 50% meu e 50% da Companhia Telefônica, e vocês faturam os equipamentos, certo? Inclusive recebem para mim e eu dou uma nota fiscal para vocês do serviço executado. Eu vou manter a minha loja do mesmo jeito, vou vender os meus equipamentos, mas vocês vão ter o controle de tudo”. Aí acertamos desse jeito. Eu trabalhava, trabalhava, trabalhava, eles não faziam nada e eu dava os 50% para eles. Esse é o monopólio.

 

P/1 – E isso ocorre ainda hoje?

 

R – Não. Hoje você pode ter a sua empresa, pode comprar o equipamento, vender o seu equipamento, instalar, pode manter. E você dá dez por cento para eles, para eles poderem faturar, vir na conta telefônica o preço da manutenção. Vamos supor: duzentos reais por mês do seu PABX, aí eles têm a listagem do que eu dou manutenção e eles faturam aquilo, tiram dez por cento para eles, do trabalho deles de cobrar, porque não é vantagem para mim, e eu conto com aquele dinheiro ali líquido e certo todo mês. Eu emito na minha nota fiscal o equivalente aos 10% para eles, pronto! Isso hoje, porque ontem era diferente, e ficou muitos anos trabalhando dessa forma. Aí o advogado ficou tão meu amigo, e ficou com pena de mim, que ele não me cobrou nada. Eu falei: “Não, doutor, o senhor tem que me cobrar”. Ele falou: “Eu não vou te cobrar nada. Eu quero que você venda, porque eu sei que você é um cara batalhador, eu vi o conceito que você tem na cidade e mesmo dentro da Companhia Telefônica. Eu gostei da sua forma de agir, da sua forma de trabalhar. Seu Ernesto fala muito bem de você...” – O Ernesto Palozzi era o dono da Líder, lá de São Paulo – “A única coisa, se você quiser fazer para mim, é pagar a viagem de volta.” Eu falei: “Perfeitamente, vamos lá comprar”. Paguei a viagem de volta, de avião, para ele. Essa obrigação eu devo para esse cara, que me ajudou demais da conta. Então terminou aí o meu relacionamento com a Companhia Telefônica. Eu vou lá todo mês para a gente ter alguma reunião, a gente vai lá bater papo sobre a reunião. Tenho amizade com todo mundo, gosto de todo mundo, sou amigo de mamando a caducando lá, do faxineiro até o engenheiro, eu sou amigo deles. Não tenho inimigo dentro da Companhia Telefônica, então me considero um cara parte integrante da Companhia Telefônica até hoje. Joguei muita bola com eles, tenho até as fotos, que posso te mostrar ali, a gente jogava futebol. Todo ano havia festa de confraternização, que era lá na Granja Marileusa, juntava todo mundo, era aquele churrasco, uma família! A Companhia Telefônica era uma família. Como tudo nesse mundo se acaba, foi acabando. Mas se foi uma coisa boa que passou pela minha vida, essa coisa boa foi a Companhia Telefônica, foi a Ericsson, a Goiana, o Bazar Vencedor. Nunca, na minha vida, tive ninguém que ousasse me dar um soco na cara, brigar comigo ou me agredir. Só esses desentendimentos que eu tive com o seu Alexandrino, mas pelo fato do nervo que ele era, pelo cara doente que ele era, que eu reconsiderei muito, porque jamais que eu queria estar na pele dele. E ele foi um cara que foi o maior homem que fez com que essa Companhia Telefônica crescesse assustadoramente, um cara esperto, trabalhador, dinâmico. O Luiz Garcia acompanhou ele também, da mesma forma. O Luiz evoluiu muito, foi para o Japão, fez vários cursos, hoje é um empresário da ativa, é o Alexandrino dois. Só que um pouco mais humano, o Luiz. Eu sempre achei ele mais humano. Mas depois eu fui analisar, é exatamente pelo fato da doença do Seu Alexandrino que ele não era tão humano quanto o filho. Na realidade, todo mundo tem um coração que bate no peito. E eu acho que esse coração existe em todo ser humano, mesmo sendo rico, que nem eles eram, mas tinham um coração e têm até hoje. Eu só tenho a agradecer o que eles fizeram comigo, a Dona Ilce, o seu Sátiro... Não tenho um inimigo lá dentro, até hoje. Eu sou o cara que entra na Companhia Telefônica de peito erguido, sou amigo de todo mundo, não tenho inimizade, e esse entrevero que houve foi consequência de algum mal entendido que houve entre eu e o Seu Alexandrino.

 

P/1 – Águas passadas. E o futuro? Como é que o senhor está enxergando o que vem pela frente?

 

R – Enxergando o avanço tecnológico e ingressando nele. Eu estou abrindo uma firma aqui embaixo, uma firma de informática. Eu quero, agora, entender da informática, porque sem informática você não é nada. Se você não informatizar sua firma, você não consegue enxergar ela. Hoje, eu acho que todo empresário deve ir até o limite que ele possa enxergar, e a informática dá essa condição, dá esse meio de você ser um grande empresário, igual é o Luiz Alberto Garcia, o Alfredo Resende, o Alair Martins, o Dilson, da Arcom, o Nilton Peixoto... São todos amigos meus. O Tubal, da TV Triângulo... São grandes empresários de Uberlândia que conhecem a firma deles, mas através da informática eles podem administrar totalmente a firma deles, por maior que seja. Eu estou entrando no setor de informática exatamente para isso, para poder crescer mais e mais, porque para mim os anos não contam. Eu tenho um pai com 97 anos de idade, se você conversar com ele hoje, ele vai falar com você que está com planos de fazer uma chácara, de plantar... Com 97 anos! De criar gado, de criar porco, criar galinha. Eu, com o nome dele, de Gumercindo, tenho o mesmo pensamento: a minha cabeça não fica velha. O meu corpo talvez envelheça, mas eu procuro manter ele da melhor maneira possível para eu envelhecer o menos possível, continuar sempre jovem, como é meu pai. E quero crer que se Deus me ajudar eu chego lá, porque ele já me deu as dicas. “Meu filho, não beba. Meu filho, não fume, não se estresse, não pegue a carga maior do que a que você pode carregar”. Eu procuro manter o meu nível de vida dessa forma, e eu acredito que com isso eu vou chegar lá. Você conhece Brasília? Já ouviu falar da Paulo Otávio?

 

P/1 – Sim.

 

R – Então, esse cara que vai trabalhar comigo era gerente da Paulo Otávio. É um expert na área de computação e informática. Eu aluguei a parte de baixo para ele por mil reais: eu vou ficar com a metade do espaço e ele vai ficar com a outra metade. Eu vou trabalhar na área de telefonia e ele na área de informática, então nós vamos trocar conhecimentos.

 

P/1 – Casamento perfeito.

 

R – Exatamente. Porque hoje nós temos uma programação para informatizar hotéis, motéis e, ao mesmo tempo, nós estamos com diversos planos, que eu só vou citar para vocês quando... Senão a gente estará avançando o pulo do gato antes de acontecer. Nós temos planos aqui para avançar além do que já existe. Eu vendo um PABX, com o PABX vai o tarifador, vai o software, e ele entra com o programa e a máquina. Nós vamos fazer uma parceria e informatizar empresas, hotéis, motéis, entendeu? Inclusive já está a placa dele ali. A partir do mês que vem nós já começamos. Na minha cabeça só está o sucesso, não passa o pessimismo na minha cabeça, nunca passou. Veja bem: o Tubal é um cara que me elogia. Ele fala para mim: “Gumercindo, eu bato palmas para você, porque dentro da Companhia Telefônica, um elemento que ganhou seu dinheiro aqui em Uberlândia e aplicou aqui em Uberlândia...” Eu já fiz esse prédio, aquele outro prédio do lado de lá é meu, fiz uma casa na rua Santos Dumont, número 20, de trezentos e sessenta metros quadrados. Fiz uma casa no Bairro Santa Maria, uma casa no Bairro Santa Mônica... Todo o dinheiro que eu ganho em Uberlândia eu aplico em Uberlândia. Eu gostaria que o doutor Luiz fosse a mesma coisa, todo o dinheiro que ele ganha aqui, eu gostaria que ele aplicasse ao menos um décimo do que ele ganha aqui, em Uberlândia. Porque tem potencial para isso. Uberlândia tem dado tanto dinheiro para Companhia Telefônica, tanto dinheiro para eles, que eu acho que Uberlândia merece uma obra de vulto deles. Se eu fosse amanhã ter uma conversa com o doutor Luiz Alberto Garcia, essa seria uma coisa que eu iria pedir para ele, para ele fazer alguma obra. Porque ele tem potencial para isso, ele pode fazer isso. E aqui é o berço da CTBC, aqui nasceu a CTBC, e nós nascemos junto com ela, crescemos junto com ela. Então por que não dar de volta para ela o que ela nos deu? Eu acho que isso seria louvável, seria um gesto nobre dele, fazer um empreendimento de vulto aqui em Uberlândia, porque é uma cidade que dá retorno. Veja bem: eu comprei uma área perto do Praia ali, 3500 metros quadrados. Eu fiz um salão de festas lá para caber 300 pessoas sentadas. Inaugurei em novembro, e agora já estou com mais de 15 reservas feitas. Sabe quanto? Duzentos e cinquenta no fim de semana e 150 no meio de semana. Então aqui, o que você planta você colhe! Não existe esse papo de você falar: “Não, porque a crise...” A crise está na cabeça do povo, está na cabeça daquele preguiçoso que não quer trabalhar. Eu sou pescador, já falei para você, profissional e fanático. Eu conheço um cara aqui que tem carro adquirido com minhoca. Ele fica no brejo, catando minhoca para vender os litros de minhoca. Tem carro já! Tem cara que vende bosta de vaca aí, como esterco! Então aquele cara vagabundo que não quer trabalhar é que mete o pau no Fernando Henrique Cardoso, que mete o pau no Brasil. Na realidade, esse aqui é o maior país do mundo. Nós estamos em um país virgem, e Uberlândia, como parte integrante desse país, é uma cidade promissora. Geograficamente isso aqui é o centro. Uma que eu fiquei sabendo há pouco tempo, através do doutor Rondon Pacheco, que foi governador de Minas, participou da reunião com Juscelino Kubitschek... Uberlândia perdeu por um voto, para ser Brasília. Sabia disso?

 

P/1 – Não.

 

R – Por um voto Uberlândia perdeu para ser a capital do país. Então veja bem: por que ele perdeu por um voto? Porque geograficamente falando, isso aqui é o centro do país! Por que Uberlândia se chamava São Pedro de Uberabinha? Sertão da Farinha Podre? E hoje ela passou... Era subúrbio de Uberaba, e hoje já pegou Uberaba, já largou bem para trás. Porque o nosso comércio é ativo com o Mato Grosso, Goiás, parte de São Paulo... Geograficamente, nós estamos muito bem situados. É uma cidade promissora e, como tal, você pode investir aqui que você tem um retorno, com certeza absoluta, qualquer tipo de negócio. Esse cara veio de Brasília, pesquisou Uberaba, pesquisou Ribeirão Preto, pesquisou Uberlândia e veio para cá. Por quê? E assim com todos os caras que têm sucesso. Vêm para Uberlândia e tem sucesso. Porque realmente, a cidade é um polo de desenvolvimento. Você sai no Brasil inteiro... Eu fui lá para Porto Seguro, fui para a Bahia, para o Rio de Janeiro; e você vê caminhão do Armazém Martins, do Peixoto, da Arcom. Então, meu amigo, eu acho que isso é um grande potencial. A Companhia Telefônica local, através do doutor Luiz Garcia, é uma das grandes riquezas que nós temos em Uberlândia, e eu acho que eles estão de parabéns pelo desenvolvimento da parte de celular, porque entrou uma concorrência para eles aí e eles estão rasgando fundo. Eu até fui lá fazer uma permuta do meu celular com ele, nessa promoção que eles fizeram. O que depender de mim para a Companhia Telefônica, eu faço, e nunca subestimei a capacidade dos homens de comando da CTBC, pelo contrário, admiro muito o Dilson Dalpias Neto, que é um grande amigo meu; o Geraldo Caetano, essa turma toda. O Sátiro, Dona Ilce, até essa turma mais nova também, a turma que eu conheço é um povo trabalhador, um povo dinâmico. E, como não bastasse, o presidente, o Luiz Garcia. O filho dele também está seguindo o mesmo caminho agora. É um pessoal que não tem como você falar nada deles. Uma firma que só cresce é sinal de que a cabeça dos homens funciona.

 

P/1 – Tem história, tem trajetória, tem pessoas que fazem esse crescimento acontecer.

 

R – Exatamente. Eu acho que eu expressei para você, a minha pessoa, o meu agradecimento e o meu trabalho junto à CTBC, que durante todo o período que eu estive na Companhia Telefônica, eu só dei de mim para eles. Está certo que eles me pagaram, mas eu nunca, jamais subestimei os homens da Companhia Telefônica. Jamais eu comercializei algum produto fazendo um trampolim da Companhia Telefônica. Eu conversava com eles a respeito da Companhia Telefônica, mostrava o que era a Companhia e vendia o meu produto na maior honestidade do mundo. Eu acho que tanto eu fui honesto, que Deus olhou para mim e me deu tudo o que eu tenho hoje. Tantos amigos meus que trabalharam lá, eu chego lá e eles falam: “Gumercindo, como é que você consegue tudo isso aí?” Eu falo: “Eu consigo tudo isso aí trabalhando, sendo honesto, sendo amigo de todo mundo”. Porque eu acho que uma coisa que existe no mundo e você não compra é a amizade. E eu tenho demais em Uberlândia, principalmente a clientela que eu tenho. Nunca tive atrito, e procuro manter essa linha de raciocínio e de trabalho até... Como diz meu pai, até acabar. Porque o cara que se estabiliza, fala: “Não, eu estou bem só com o que eu tenho”. É que nem um carro que para: ele enferruja e desgasta. O cara, para viver muito, tem que estar sempre na ativa. Mas não só na cabeça, no organismo total. Tem que funcionar totalmente e, graças a Deus, eu sou um cara da ativa, não paro nunca. Minha mulher fala: “Bem, para com isso um pouco”. Não, eu vou ter muito tempo para descansar a hora que eu for para debaixo da terra. Eu vou ficar deitado, né? Por que é que eu vou parar agora? Não, tenho que manter, tenho que subir. Quanto mais degraus tiver para subir, mais eu vou subir. Eles não subiram? Por que eu não posso chegar lá? Eu não sou menor, nem minha mente é limitada. Eu acho que para toda pessoa que não tem limite, o sucesso vem mesmo.

 

P/1 – Qual é o seu método de atender o cliente? Como é que o senhor trata o seu cliente?

 

R – Primeiro, o meu cliente é leigo naquilo que ele vai adquirir. Você é um médico, você entende de paciente, então você quer adquirir um equipamento de telefonia. Eu tenho 35, 40 anos de janela com telefonia. Primeiro eu dou uma assessoria para ele, dou um limite de escolha para ele, mostro o tipo de equipamento, o tipo de função, o tipo de operação do equipamento. Eu o assessoro naquilo que ele está querendo. E vou mais além agora, porque agora eu posso dar uma assessoria maior para ele, agora eu já posso jogar informática em cima da assessoria dos conhecimentos que eu tive, eu estou apanhando novos conhecimentos, porque eu já apanhei ao menos um por cento dos conhecimentos da informática. Eu já jogo para ele a opção de ele manipular todo o equipamento de telecomunicações dele através da máquina de computação; acessar a internet, os e-mails, tudo isso. Agora eu já estou adquirindo maiores conhecimentos para poder passar por aquela assessoria restrita, de ontem, para o progresso de hoje.

 

P/1 – Uma coisa mais integrada.

 

R – É, mais integrada. O cara fica satisfeito. Eu falo para ele: eu tenho duas opções. O senhor quer qualidade ou só quer preço? Eu tenho os dois. Eu tenho esse equipamento que faz isso, isso, isso. E eu tenho esse equipamento que faz isso e isso. “Não, a minha empresa é pequena, eu quero só esse equipamento que faz isso e isso” “Está bem, então esse equipamento é tanto. Mas ele é limitado. Já esse aqui, se o senhor é um cara que está abrindo uma empresa agora e pretende crescer amanhã – que eu acho que é o pensamento de todo empresário, de todo executivo –, eu acho que o senhor deveria comprar esse aqui. O senhor paga um pouco mais caro, mas amanhã fala: ‘Gumercindo, coloca mais tantos ramais aqui para mim’, eu tenho condição de chegar lá e colocar um bloquinho de mais cinco ramais, mais dois ramais, e o senhor já ampliou o seu equipamento. Porque a sua empresa está crescendo.” Para eu ter o cliente satisfeito comigo eu faço isso. A concorrência aumentou, e automaticamente você tem que diversificar a sua área, eu diversifiquei a minha área. Eu mexo com circuito fechado de televisão, mexo com portão eletrônico, com interfone, com vídeo-porteiro. Por quê? Porque entrou muita concorrência na área de telefonia. Então o que você faz? Você vai parar? Logicamente que você não vai, você vai sair para a tangente. Mexo com alarme... Com essa área todinha, meu amigo, eu sei o que é o mercado, porque eu sou praticamente um pioneiro, aqui dentro de Uberlândia. Você pode olhar em toda firma aí, é ‘tel’ isso, Maxitel, Eletrotel, Comutel, não tem nenhuma TECS Comunicações.

 

P/1 – Está aí a sua história.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e não disse?

 

R – É aquilo que eu lhe disse, o mês que vem nós estamos com a Tecsoft, a empresa de informática, mostrando para Uberlândia que estamos devolvendo para ela o que ela nos deu e vai continuar nos dando, até o fim das nossas vidas. Porque é realmente uma cidade promissora. E mais: desejar aos meus amigos da Companhia Telefônica o maior sucesso, um feliz Natal e feliz Ano Novo a todos eles, inclusive a você também.

 

P/1 – Obrigado.

 

R – E muito obrigado pela entrevista.

 

P/1 – A única pessoa que tem que agradecer aqui sou eu. Muito obrigado.

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