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"Tudo que eu passei foi uma lição de vida"

História de: Dandara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/08/2019

Sinopse

Dandara sofreu muito ao longo da vida. Viveu até os seis anos em um orfanato, quando foi adotada. Na casa da mãe adotiva sofreu racismo por parte da avó e violência por outro membro da família, decidindo assim sair de lá e acabando em um eduncandário para meninas, onde passou grande parte da vida. Em todas as fases da vida teve apoio de uma madrinha e um padrinho, que passavam alguns finais de semana com Dandara e sempre estavam dispostos a ajudá-la. Devido a alguns obstáculos acabou em um reformatório por engano e de lá foi internada em um hospital psiquiátrico. Teve cinco filhos, perdeu a guarda de todos e depois lutou muito para recuperá-los. Hoje vive com sua companheira e com alguns dos filhos.

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História completa

Meu nome é Dandara e eu nasci em agosto de 1966, no Rio de Janeiro. A data não é bem a data do meu nascimento, porque quando eu me entendi de gente, tava num orfanato e não tinha nome, nem data de nascimento, não tinha registro. Quando eu fui registrada, aos cinco, seis anos, tinha que ter o nome de uma mãe, uma data de nascimento, e eles criaram. 

 

Lá no orfanato eram várias crianças que tinham uma vida assim. Nós brincávamos, mas éramos muito presos, nós só saímos no dia de visita. Esse lugar era como um mercado de crianças, que a gente se sentava e as pessoas olhavam para escolher uma criança, que na época até ficava muito difícil, porque eles nunca queriam crianças negras, adotar crianças negras, e fui ficando, fui ficando. Eu tinha muita vontade de ser adotada.

 

Eu fiquei nesse orfanato até seis anos. Porque uma senhora uma vez chegou e gostou de mim. Ela andou, andou, não quis ninguém, gostou de mim. Aí se abaixou, perguntou se eu gostaria de ir para a casa dela, eu disse que sim. E tinha a mãe dela que olhou para ela e disse: “Você vai levar essa? Essa negrinha que você não sabe nem se tem sangue ruim ou não?”. Eu nunca me esqueci disso. Eu era criança, mas isso eu não esqueci. E ela me levou, ela era solteira, uma pessoa muito boa. Eu passei um ano com ela e ela tinha um sobrinho também que me maltratava, me batia, a mãe dela também não gostava de mim. E eu não quis ficar, pedi para voltar, só que dessa vez não foi mais para um orfanato, foi para um educandário.

 

Esse sobrinho dela me batia, e quando eu completei de dez para onze anos, ele começou a tentar querer me aliciar. E aí a situação foi ficando pior, e eu pedi para voltar. Eu comecei a fazer um tratamento com um neurologista e para ele eu contava tudo o que eu sentia, aí ele conversou com ela. Eu fazia esse tratamento por causa do tratamento que eu tinha dentro do orfanato. A mãe da moça que me adotou me maltratava com palavras. Eu era muito pequenina, me botava um tamborete, que eu não achava ruim não, para lavar a louça. Se eu não fizesse alguma coisa certa, eu era xingada.

A primeira escola, quando eu fui adotada, estudei no Colégio Vital Brasil, lá no Rio. E era muito bom, as professoras eram ótimas, as colegas eram muito legais. Eu ia para a escola de manhã, quando chegava à casa, às vezes eu almoçava e me levavam lá para onde ela trabalhava, eu gostava de ficar com ela. Eu ficava desenhando, escrevendo. Eu sempre gostei muito de desenhar paisagem: árvore, flores...

 

Mas com a situação que eu estava passando lá na casa, eu não quis mais ficar lá, não queria ficar mais, mas não contei o que estava acontecendo, para não magoá-la. Aí voltei, fui para um educandário. Eu fui primeiro para um centro de triagem, que eu tinha que ficar para aguardar vaga para ir para um educandário, porque ali era só triagem mesmo. Lá não era ruim, porque os educadores eram bons, mas era assim… Porque eram menores de todos os lugares, às vezes uns tinham famílias, outros eram pegos na rua, uns eram infratores, então não era bom e ao mesmo tempo… Eu não conhecia esse outro lado da rua, de menores infratores, então foi difícil, mas como eu sou acostumada, eu me dou com todo mundo, de repente fiz amizade lá dentro.

 

Nesse tempo eu tive que interromper os estudos. Quando eu fui para o educandário, depois de um ano foi que foram providenciar a escola, essas coisas. No Centro de Triagem tinha terapia ocupacional, desenho, pintura, a gente pintava tábua, fazia crochê, essas coisas. Eu gostava muito de pintar. Não tem essas tábuas de carne? Pronto, eu pintava, aí pintava a colher de pau igual e botava aqueles lembretezinhos para exposição. As peças eram vendidas e o dinheiro ficava pra gente, mas eu não juntei, porque como eu era criança e eu gastava muito com bala, pirulito, essas coisas.

 

Depois, no educandário foi onde eu passei a maior parte da minha vida. O educandário, quando eu cheguei, eu gostei. Gostei, porque o lugar era muito bonito, era muito limpo, e as educadoras eram muito boas. E era um local que parecia um lar. Foi o local que mais chegou perto para mim de um lar, foi o educandário,  porque nós éramos tratadas com carinho, com respeito. 

 

Só que lá eu sofri agressão, física não, mas muito psicológica, pela diretora. Eu me sentia muito carente, então eu me apegava muito às pessoas e me apeguei a uma pessoa que gostava de mim, que era enfermeira. E ela me levava às vezes, de final de semana. E a diretora achou que ela estava muito próxima a mim e isso não era bom, e demitiu essa enfermeira. Foi a minha primeira decepção na vida, eu adoeci, fiquei depressiva. Foi esse episódio pior, mas eu gostava do local, porque tinham outras pessoas que me tratavam também muito bem, o médico, que era pediatra, o nutricionista. 

 

Lá no educandário não tinha processo de adoção, porque a maioria das crianças tinha família, então órfã só tinha uma ou duas, aí não existia esse processo de adoção. Eu tinha padrinhos, que eu conheci no orfanato, e eles continuaram me acompanhando no educandário, eles me levavam para passear. Eles não tiveram filhos e também não gostavam muito de barulho de criança, mas eles gostavam de mim, porque eu fui uma criança que não era barulhenta, eu gostava muito de brincar sozinha, não sabia ler direito, mas pegava um livro, ficava apontando as letras, então eles se acostumaram comigo. 

 

Gostavam de sair. Também eles não gostavam de praia, diversão, não. Eles eram pessoas muito sérias, jornal, jornal, jornal. Mas eles me deixavam bem à vontade quando eu ia para a casa deles. eu saía com meu padrinho. Ele às vezes ia tomar um chope, eu ia tomar sorvete, a gente conversava, a gente ia para o Horto em Niterói. Às vezes ele ia para a Praça XV botar comida para os pombos, eu acompanhava.

 

Eu fiquei no educandário até treze, não, até quatorze, quando essa pessoa que me adotou, e eu pedi para voltar, veio morar aqui no Rio Grande do Norte. Eles queriam porque queriam me trazer para cá, conversaram lá com a assistente social e com o juiz, conseguiram, e eu vim. Quando chegou aqui, o sobrinho dessa pessoa tinha sofrido um acidente, pior ele estava do que quando era adolescente, pior, porque ninguém sabia, mas ele era usuário de drogas, e começaram os maus tratos mais ainda. 

 

Nessa época ele me deixava cheia de hematomas, ele me batia. Eu às vezes tava dormindo, quando eu abria os olhos ele tava ali. Eu fiquei com muito medo. E eu mais uma vez fiquei triste em decepcioná-la, decepcionar a moça que tinha me adotado, e fiquei aguentando, aguentando tudo aquilo. Aí um dia eu conversei com ela e disse que tava difícil para eu ficar aqui, ela perguntou o porquê, e não quis dizer, aí ela disse: “E você pensa em fazer o quê?”. Eu disse: “Eu queria muito voltar para o educandário”. Ela tinha um amigo que ia para o Rio nesse período e ela perguntou se ele podia me levar. Ele disse que podia, aí ela pediu para ele me deixar no educandário. Antes de eu ir ela foi para um rodízio, um almoço para despedir, daí ela chorou, me abraçou e disse que no dia que eu quisesse voltar para cá, para a casa dela, as portas estariam abertas. Aí eu perguntei, porque eu a chamava de tia: “Tia, e se no dia que voltar a senhora não estiver mais aqui? O que vai ser de mim?”. Ela chorou, se emocionou, eu também, e ele me levou. 

 

Só que esse senhor não me deixou no educandário, ele me deixou na porta de um reformatório na Ilha do Governador. E quando eu cheguei, quando eu me virei, eu disse: “Mas tio, aqui não é o educandário”. Ele já não tava mais lá, ele tinha saído e eu fiquei. Abriram a porta, me botaram para dentro, e as meninas, meninas muito grandes, diziam: “Oba, carne nova na área”. E eu me assustei, não tava habituada a essas coisas, aí perguntei à educadora: “Moça, isso aqui é um matadouro?”. Só fiz uma pergunta, porque nunca tinha ouvido aquelas expressões. Aí ela foi, me deu um empurrão, disse: “Passe para dentro”. Aí foi um desespero para mim. Foi um desespero, que era um lugar feio, era um lugar muito feio.

 

A minha maior dificuldade foi a convivência, porque os educadores não estavam ali para educar, eles estavam ali para obedecer as adolescentes que eram mais perigosas. Quer dizer, que elas tinham medo. Tanto que lá havia várias rebeliões, que na época até no Jornal Nacional apareciam essas rebeliões, e eu ficava bem encolhidinha num canto. E eu sofri vários abusos alí, por parte dos funcionários também. Tentativa de abuso sexual… Não tinha com quem reclamar, lá era um reformatório, era uma prisão. Era uma prisão, onde existia castigo, onde existiam cubículos, inclusive eu até fiquei no castigo.

 

Eu fiquei no castigo porque eu ainda tinha aquele jeito muito meigo e eu pedi para assistir a novela das seis, na época a “Sinhazinha Flô”, e a educadora disse que eu não assistiria e me bateu. E assim, num ponto eu achei aquilo tão... Aquele tapa, sem noção, que eu me descontrolei e a agredi. Aí ela chamou o rapaz, o segurança, que inclusive foi já me batendo, me espancando. Levou-me para dentro do cubículo e lá ele quis rasgar a minha roupa, me bateu. E eu dei uma dentada nele, parece que sentiu muita dor, e ele me deu um soco, que nesse soco eu cuspi sangue, e ele me chutou muito e eu fiquei lá nua no chão.

 

Nesse cubículo era para ficar uma semana, mas eu tava tão revoltada, eu já não era mais aquela menina que entrou lá dentro. Eu tava já tava tão revoltada com tantos problemas, que eu me recusei a comer, a beber água, eu comecei a fazer tipo uma greve de fome, que eu tinha jurado para mim mesma que eu sairia dali, nem que fosse morta. E fiquei dentro do cubículo, eu não aceitava alimentação, não aceitava nada. Eu continuava no cubículo sem comer, sem beber, daí eles me tiraram e me levaram para um hospital psiquiátrico.

 

Ave Maria, o lugar era horrível, era horrível. Pessoas amarradas no chão, comendo feito animais. Era muito feio, muito feio. Pessoas amarradas na cama, que passavam o dia todo amarradas. Pessoas que machucavam umas às outras, que tiravam sangue. Eles lidaram comigo da forma que as pessoas do reformatório lidavam, nunca me davam ouvidos. Criança praticamente, órfã, quem me daria ouvidos? Ninguém. Voltei a me alimentar, vivia muito dopada, sempre dopada. E passei um mês, após um mês voltei para o reformatório, muito calada, não conseguia dormir, não reagia, e continuava dopada, que eles me dopavam muito. Eu tomava uma injeção por dia, que eles chamavam de sossega leão, que eu vivia mais em outro mundo do que no mundo real.

 

Eu fiquei quatro anos no reformatório. E um dia eu recebi uma visita, que era essa pessoa que eu também chamava de tia, que ela era casada com o irmão dessa senhora que me adotou. Eu recebi uma visita dela e dos meus padrinhos. A assistente social chamou e me comunicou, eu disse: “Não. Não conheço, não”, “Não, mas eles vieram de...”. Eu digo: “Eu não quero falar com eles, eu não conheço ninguém, eu não tenho família”. Aí demoraram dois dias para eu poder recebê-los, para eles explicarem o que tinha acontecido, que não conseguiam me localizar. Eles disseram que tava difícil de me encontrar, que com um parente dela que era desembargador no Rio, ou em Brasília, nem lembro, foi que conseguiu me localizar. Mas foi muito difícil, até para aceitá-los.

 

Depois eu voltei para o reformatório , comecei um tratamento, um tratamento com psicólogo, com neurologista. Eu não quis mais estudar e ficava lá muito quieta. E o médico achou melhor continuar com a medicação, porque eu já tava muito paradona. Eu nunca fui agressiva, ao contrário, era muito paradona, parecia até que eu era uma pessoa autista. Eu ficava ali sentada, não conversava, não brincava. Eu nem sei definir o que eu sentia, eu acho que eu não sentia nada, eu sentia muita tristeza. E quando eu tava perto desse professor, eles contrataram um professor para me ensinar violão,  ele fazia me sentir pessoa, me sentir humana, viva. Conversava muito com ele. 

 

Meus padrinhos continuaram me vendo, mas o que eu conversava com os meus padrinhos não era nunca sobre o reformatório, não. Eu perguntava muito a ele, que ele era advogado, se ele poderia me ajudar a encontrar minha verdadeira mãe. Aí ele passava a mão na minha cabeça e dizia: “Ô, minha filha, você já sofreu tanto, deixe essa história para lá”. Era o que eu conversava com ele. Ele me incentivava muito a ler também. No apartamento dele tinha uma biblioteca e ele gostava de me dar livros de presente. O sonho dele era que... Eu não contribuí para que isso acontecesse, era que eu me formasse em Direito.

 

quando eu saí do educandário, eu não tinha para onde ir, eu fui jogada na rua. Porque... Hoje não, hoje os abrigos não fazem isso, mas naquela época faziam, me jogaram na rua, quando eu tinha dezenove anos. Aí fui para a casa do meu padrinho, lembrei, fui, e como sempre ele muito amável, eu poderia ficar e já tinha um quarto para mim. Aí eu passei duas semanas com ele e disse para ele que não ia querer ficar no Rio, não ia conseguir morar naquele lugar. E ele comprou minha passagem e eu vim embora, morar com a família que tinha me adotado. Ele perguntou se eu realmente queria isso e eu disse que sim. 

 

Quando eu cheguei, minha mãe adotiva tinha falecido. Estavam em casa a mãe dela e a cunhada, que era essa tia que me encontrou no reformatório, que eu passei a amar muito. Elas me aceitaram. Minha tia era uma pessoa boa, compreensiva, calma, mas como a mãe da minha mãe adotiva já estava muito idosa, pior ela ficou. Ela sempre me expulsava, ela dizia que eu era muito atrevida, mas não era que eu fosse atrevida, é porque às vezes eu falava a verdade para ela. Às vezes o neto ia visitá-la, agredia, uma vez quebrou o braço dela, eu fui dizer, ela disse que era mentira minha. Essas coisas é que aconteciam, mas minha tia sempre tentando: “Tenha paciência, tenha calma”. E eu tinha toda a calma do mundo.

 

Voltei a estudar, eu fazia cursos. Eu fiz de Auxiliar de Enfermagem, eu fazia vários cursos, de... Como eu posso dizer? Pintura, essas coisas. Tinha uma menina que trabalhava lá, que seria futuramente a minha cunhada, que tomava conta. Eu gostava, às vezes eu tava na cozinha, aí ela lavava a louça, eu enxugava. Aí chegava essa senhora e dizia: “Ei, Elisabete, saia da cozinha, que a cozinha é só para os empregados e você é como se fosse uma das donas da casa”. Depois conheci o irmão da menina que trabalhava lá e nos casamos. 

 

Esse meu marido era muito violento. Quando eu casei era sair de dentro de casa que eu queria. Ter liberdade, que eu achava que teria, mesmo que não fosse... Eu queria ter o meu espaço, mandar, desmandar, ter tranquilidade. Mas ele bebia muito, me agredia. A família toda dele tinha problemas com bebida. Foi muito sofrimento, oito anos de sofrimento. Tivemos uma filha, que ele nem olhou para a menina, foi uma alegria só para mim. Tivemos ao todo três filhos. A minha filha vendo tudo isso, passou por situações difíceis. Não foi fácil, não. Fiquei casada quase oito anos,  no dia que saí de casa dei queixa dele para a polícia. Eu fiquei com ele tanto tempo porque não tinha para onde ir. Não tenho família, não tinha ninguém.

 

Quando eu saí, a polícia foi para que ele não impedisse a minha saída com as crianças. Só que quando eu saí, que eu me via, eu digo: “Meu Deus, com essas crianças, para onde eu vou?”. Não tinha para onde ir. Aí fiquei na praia quatro dias com quatro noites, com três crianças pequenas, sem ter o que comer, sem ter o que beber, mas fiquei. Quando foi no quarto dia eu digo: “Eu tenho que fazer alguma coisa, que eu não posso ver essas crianças morrendo de fome”. Aí me levantei e saí a pé pela praia, fui até à cidade pela praia. Quando chegou à Praia do Meio, eu subi aquelas escadarias e continuei a pé, já cansada, sem aguentar mais, fui até a Prefeitura. A prefeita pagou para mim um albergue, eu fiquei com o meu filho mais novo e as duas meninas foram para a Casa da Criança. Separar as crianças não foi fácil, nessa casa tinha a possibilidade de elas serem adotadas.

 

Eu fiquei dois anos no albergue, onde eu ajudava, e o meu filho ficava em uma creche. Eu saí por causa de uma proposta de emprego, mas não deu certo, a pessoa que me fez a proposta disse algo que me chateou, então eu falei com o meu padrinho e ele começou a mandar o dinheiro para o meu aluguel. Só o meu filho foi comigo, porque eu tinha que correr atrás de emprego. Daí, não consegui me reestruturar, porque eu comecei a ter problemas de depressão e comecei a me internar, me internar em hospital psiquiátrico aqui em Natal. E por incrível que pareça eu preferia estar dentro do hospital a estar em casa. Em casa não, porque nessa época eu morava de aluguel. Preferia estar lá dentro, porque eu me sentia protegida. E meu filho foi para um Lar, uma creche só de bebês.

 

Eu fiquei dois meses. Mas depois desse primeiro internamento, era sempre internamento, um atrás do outro, um atrás do outro. Eu nunca tava do lado de fora, sempre lá dentro, por causa de angústia. Eu entrava numa depressão profunda, não tinha vontade de viver, não tinha vontade de reagir. Eu ia sozinha, eu me internava só, eu que procurava o hospital. Mas em um dos internamentos eu fui submetida até a eletrochoques. E enquanto isso os meus filhos estavam no abrigo. 

 

Depois, através da assistente social, que descobriu sobre o meu padrinho, ele mandou dinheiro e eles compraram essa casa aqui para mim, porque ela disse que eu precisava de um lar.  Quando ele faleceu, ele disse a mim que pensava, que tava muito triste, que tinha me deixado numa boa casa. Porque quando eu falei com ele antes de ele falecer, eu disse que a minha casa tava cheia de problemas, tava rachando, tava em situação de risco. Ele disse: “Não, mas quando ligaram para mim do hospital, disseram que era uma boa casa”. Tanto que isso faz o quê? Isso faz mais de dezoito anos, naquela época ele mandou três mil reais e oitocentos, era para ter comprado uma boa casa naquela época e eu não sei por que compraram essa.

 

Vim para cá sem as crianças, porque já tinha ido um documento para a Vara da Infância dizendo que eu não poderia tomar conta dos meus filhos por problemas mentais. Mas isso, uma educadora lá do abrigo veio aqui, que ela disse que acreditava em mim: “Se você quer seus filhos, vá à luta. Vá à luta, porque vão tirar seus filhos de você”. Eu fui procurar uma pessoa que foi psicóloga, hoje ela é aposentada, para me orientar. Ela disse: “Não, ninguém vai tirar seus filhos de você, porque primeiro, você não é louca. Você pode criar seus filhos e eu acredito na sua capacidade”. Aí começou a correria, começou a me ajudar. Só que foi difícil, eu batalhei muito mesmo para recuperar meus filhos. 

 

Sofri até preconceito, pelas roupas que eu vestia. Foi nesse dia que eu vi que a gente, quando vai para algum lugar, a gente não é vista pelo que a gente é, é vista pelo que a gente veste. Nesse dia eu comecei, quando eu vou para algum lugar, eu tenho que ser atendida, porque eu sou uma cidadã, porque sou uma pessoa, não sou um lixo. E comecei a me impor graças a uma advogada que me ajudou e a algumas pessoas que passaram pela minha vida. Porque antes não, antes todo mundo aqui em Natal, quem eu me relacionava, me tratava como uma doente mental. Eu conheci algumas pessoas que: “Não, você não é. Você é inteligente, você é capaz”. Aí acabou essa história de doença mental, de remédio controlado.

 

Quando eu recuperei meus filhos, não foi porque viram minha luta, foi por coleguismo à pessoa que estava me ajudando, que a filha dela era promotora. Na época eu tava com um companheiro e o juiz só: “Tá com companheiro?”. Esse companheiro compareceu e eu ganhei essa causa. Quer dizer, a minha luta foi grande, mas não foi isso que ele viu, não. Não foi a minha luta, foi por coleguismo. Conheci esse companheiro por aqui mesmo, foi outra decepção. Ele não era alcoólatra, entenda, ele não era briguento, mas ele tinha um problema muito mais sério, que se eu não fosse uma pessoa tão atenta... Ele tentou aliciar a minha filha com cinco anos de idade. Um dia vi que ele estava indo para o quarto dela, no dia seguinte ela me falou, disse  “Foi pai que mexeu aqui”. Conversei com ele, disse que ele era doente, que tinha que se tratar, e mandei ele embora de casa. 

 

Eu tive mais dois filhos, além dos três primeiros. Um deles foi fruto de um abuso sexual. Eu morava na casinha que eu aluguei na Praia do Meio e a minha porta foi arrombada à noite, foi quando eu engravidei. Ele era companheiro de uma ex-cunhada minha e eu não denunciei para a polícia, não por medo, mas por vergonha. Desesperei-me com a gravidez, porque com a vida que eu já tinha, já vinha tendo, foi difícil, mas até tentei fazer um aborto, que depois me arrependi muito, porque eu não sou uma assassina. Eu acho que quem comete um aborto é um crime. O bebê depois foi para o abrigo também, antes de eu conseguir recuperá-los.

 

A caçula foi filha do meu penúltimo companheiro, antes do que tentou abusar, e foi outro problema. Que eu não sei o que eu tinha, que nunca acertava para mim. E conhecia, não era assim, “vou me juntar”, não. Ficava um período conhecendo, mas eles só se mostravam ruins depois de estarmos morando juntos. a gente se conheceu em Ponta Negra, e ele já era alcoólatra, mas eu queria ajudá-lo a sair do alcoolismo, porque ele era uma pessoa boa, ele não era uma pessoa ruim. Ele ficou ruim depois que começou a misturar o álcool com a droga. Ele era trabalhador antes, mas um dia, por causa de uma overdose, quase que mata a própria filha, tentou afogar ela. Os vizinhos que me ajudaram. Ele voltou outras vezes para perturbar, quase me matou.

 

Quando recuperei meus filhos, a ajuda que veio foi que meu padrinho pagava o meu INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] há muitos anos, desde a minha adolescência. Ele falou isso para a assistente social e eles conseguiram a minha aposentadoria, que para mim não foi bom. Foi e ao mesmo tempo não foi. Porque é aposentadoria por invalidez, é uma vida que acabou, porque eu não posso trabalhar, eu não posso assinar a minha carteira, eu não posso fazer nada, quer dizer, eu sou um ser inútil. E hoje, mesmo que eu quisesse trabalhar, devido a tanto remédio controlado, eu tenho a minha saúde debilitada.

 

Depois que eu ganhei a guarda, eles estiveram no abrigo novamente só duas vezes, eu não me internei mais, decidi que não ia, que não precisava, como eu disse, com a ajuda de pessoas que... Porque assim, a sociedade acha que uma pessoa ex-abrigada, negra e órfã, não é ninguém, mas muitas pessoas que eu conheci aqui em Natal recentemente foram pessoas que me levantaram: “Ei, você, você pode, você consegue”. Me ajudaram inclusive me dando um trabalho, como voluntária do Conselho Tutelar. Eu era Auxiliar de Serviços Gerais e depois tentaram até fazer uma brinquedoteca para eu ser educadora, mas não deu certo.

 

O reencontro com eles foi muito bom. Parece até que eu, junto com eles, tinha virado criança novamente. A gente tinha uma convivência boa. Eu brincava com eles, eu ia deixar no colégio, eu ajudava. Agora, não sei por que, eu era um pouco severa, mas mesmo assim não adiantou, porque... Não que eu não goste daqui de onde eu moro, gosto muito, mas o bairro é... Como eu posso dizer? Para educar um filho é um pouco difícil, é um pouco não, é muito difícil.

 

Um período eles ficaram aqui, iam para o colégio, era muito bom, eu brincava com eles, nós pulávamos corda juntos, nós escrevíamos, a gente se divertia. Mas depois de um tempo vieram as amizades no colégio, eles começaram a sair sós, começaram a beber sem nem eu saber, foram vendo assim... Não que ninguém induza ninguém a fazer, mas a primeira dose vem, depois a vontade de beber mais, e eles começaram com esse tipo de vida, que eu nunca gostei, porque eu nunca bebi. Eu fumo, mas beber não. E eles começaram a sair à noite, que me deixava preocupada, depois começaram a se envolver com algumas coisas erradas, prostituição. Eram problemas que também viram de dentro do próprio abrigo, de quando eles ainda estavam lá. Isso me deu muita tristeza.

 

Tentei colocar limites, mas eles já eram adolescentes, bem crescidos, já sabiam coisas boas e coisas ruins. Vou lhe dizer uma coisa, Maurício é um filho admirável. Ele nunca comentou, mas eu vou falar. Ele não comentou essas coisas para não me prejudicar diante da Vara da Infância, mas hoje ele me agradece. Ele não fugiu de casa não, eu o expulsei. Ele nunca comentou, ele nunca falou isso. Eu expulsei. Expulsei porque achei que o mundo precisava ensiná-lo, ele já tava até com hábitos horríveis e eu tava vendo a hora de alguém matar meu filho. 

 

Conhecemos o Projeto ViraVida através de uma pessoa que já conhecíamos do abrigo, por causa do Conselho Tutelar também, eles conheciam a história do Maurício e indicaram. Se Maurício pegar toda essa garra que ele tem, essa inteligência, e voltar para o bem, ele vai longe. Eu só tive que participar das reuniões, ele fez tudo sozinho. Ele foi fazer a inscrição dele, disse o porquê precisava do projeto e foi selecionado. A minha participação no Projeto era boa, a gente ia para as reuniões, tinha terapia em grupo, tinha algumas coisas. Era bom Depois teve com ele mesmo as participações. Ainda foi muito difícil, porque ele faltou muito.

 

Dos meus filhos, uma delas mora comigo, mas é difícil arranjar trabalho, por que ela usa um tipo de roupa… Ela é lésbica e, além das drogas, ela se veste com um homem. Ela não concluiu os estudos, ela fez até a quarta série e parece que é um retardo, porque ela às vezes quer ser tratada como uma criança pequena, ela é agressiva às vezes. Meu outro filho mora com uma amiga, porque ele e Maurício brigavam muito aqui em casa. As outras duas meninas, uma a madrinha levou para morar com ela, quando ela tinha cinco meses, estamos retomando o contato, estou mais amiga dela agora. A minha outra filha foi morar com uma prima, mas vem sempre me visitar, no meu aniversário, dia das mães.

 

Falando do ViraVida, a mudança no Maurício se deu que ele tava perto de completar a maioridade, já estava no Projeto e era a última chance. Porque o adolescente e o jovem que não se agarrar a essa oportunidade, fica difícil, porque outra não vai ter. Porque o projeto não vê só o jovem e o adolescente, ele vê a família. A principal mudança foi ele se conscientizar que precisa voltar a estudar, que precisa ter responsabilidade. Tiveram várias mudanças, porque com muito diálogo, não só aqui, como lá, eles lá conversavam, orientavam, eu aqui reforçava. Então a mudança foi total, em tudo.

 

Outra coisa que é incrível na minha família, na minha família reduzida, que são os meus filhos, incrível, eu nunca tinha visto uma situação assim, se eles tivessem sido criados com a mãe, a mãe teria sido a influência para a homossexualidade deles, que eu também sou, mas eles não foram criados com a mãe. Os dois meninos já vieram do abrigo homossexuais e as duas mais velhas vieram lésbicas. Eu me descobri talvez desde a adolescência, só que tinha medo da opinião das pessoas e não assumia. Tive um primeiro relacionamento, de seis anos, há alguns anos. Hoje tenho minha companheira, moramos juntas. Meus filhos também, sempre me aceitaram. 

 

Hoje o meu sonho é ver meus filhos formados, que não é impossível, eles são muito jovens, ainda têm essa luta para vencer. É ter o meu espaço dentro de casa, para que eu possa fazer o meu trabalho, porque eu gosto de artesanato, pintura, essas coisas, mas o dinheiro é curto, então o material sai caro, então eu não tenho feito nada dessas coisas de artesanato.. Eu não tenho muitos, tenho para eles, não para mim. Se eu pudesse mudar algo da minha vida, a primeira coisa seria nascer numa família, numa estrutura familiar melhor, que se ama. Mas tudo que eu passei foi uma lição de vida.

 

“Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações”.

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