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História

Tudo tem sua hora e sua vez

História de: Alfeu de Melo Valença
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/01/2015

Sinopse

Alfeu nos conta sobre sua infância em Garanhuns-PE, seu contato com o futebol e a leitura e o contato com o colégio católico de sua cidade. Fala da mudança para Recife, a moradia na Casa do Estudante de Pernambuco e a perseguição política sofrida por si e por seus amigos após o Golpe de 1964. Discorre sobre sua entrada na faculdade de engenharia no começo dos anos 60 e o concurso para a Petrobrás. Fala de como virou superintendente na Bacia de Campos, em 1977 e sua trajetória profissional até se aposentar como presidente da Petrobrás em 1991. Além disso, fala sobre as diversas gerações de trabalhadores da empresa, o regime e a segurança do trabalho, de seu casamento e família, finalizando com seus sonhos e balanço de vida.

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História completa

Bacia de Campos é um capítulo à parte, porque ela tem características muito interessantes. Quando ela foi descoberta, em 76, para começar a produção em 77, foi um laboratório muito grande. Primeiro que ninguém - nós da companhia - sabia como produzir um campo de petróleo a mais de 30 metros, 40 metros de água, que a gente fazia no Nordeste. E o primeiro campo já foi Enchova, com 110 metros de água - que nós achávamos profundo. Naquela época 110 metros: “Opa, esse negócio está muito profundo”. Então não tinha nenhum especialista, ninguém conhecia aquilo. E nós tomamos uma decisão muito arriscada - talvez arriscada demais até, mas com apoio da diretoria da época e o apoio da Presidência. Vamos fazer justiça aí ao Shigeaki Ueki - muita gente fala mal dele, mas ele foi realmente um presidente da Petrobras que ousou muito e confiou muito no corpo técnico da Petrobras, e isso realmente fez essa empresa disparar. Eu lembro um episódio, por exemplo. Quando eu fui para lá, eu fui chamado aqui no Rio pelo Marque Neto, que era o diretor; o Carlos Walter, que era o chefe do Dexpo na época, respondia para ele falou: “Ó, você vai entrar na unidade nova, vai começar a fazer a unidade nova, então acho que era bom você começar a pegar gente experiente da Bahia e de Sergipe para te ajudar nesse troço aí, gente que tem experiência em produção, em completação e tal e coisa”. E eu falei: “Não, vamos pensar isso duas vezes nessa coisa, eu tenho a impressão que nós não devemos pegar ninguém velho não, antigo não, ninguém experiente, por quê? Porque eu vou tirar uma pessoa experiente da Bahia e trazer pra cá, mas ele é experiente em campo de produção de terra, em campo de 110 metros de água ele não sabe nada, então ele e um estagiário é a mesma coisa, então vou desfalcar a Bahia e não vou fortalecer aqui; a mesma coisa trazendo de Sergipe, então eu preferi pegar os engenheiros que estão terminando o curso agora, trazer para cá e a gente forma ele, prepara ele, educa ele nesse negócio. E mais: ele não vem com vício de Unidade nenhuma, vício gerencial, empresarial de coisa nenhuma, a gente forma à imagem e semelhança. Topam arriscar?” Eu vi que eles vacilaram um pouquinho, mas arriscaram, levaram ao Ueki, e Ueki concordou e assim foi feita aquela turma de engenheiros de produção daquele ano. Quase 60 vieram todos para Macaé, vieram todos trabalhar comigo na Bacia de Campos, e aí começou a grande faculdade porque a gente pegava esses meninos, botava dentro de uma refinaria: “Vocês vão aprender como funciona válvula assim, pa, pa, pa e agora vamos lá pro xisto ver como funciona isso lá, vamos para o campo de petróleo ver como é isso”. Espalhamos gente nos Estados Unidos, no Golfo do México, gente na Escócia, na Inglaterra, no mar do Norte, vendo aquela coisa toda e foi que foi. “Só engenheiro não serve, essa turma está ficando boazinha, tem que treinar nível médio”. Teve uma época que nós estávamos com 1.500 pessoas de nível médio, mecânico, eletricista e instrumentista treinando pelo Brasil afora. Onde tinha alguma instalação da Petrobras tinha alguém treinando e aqueles engenheiros que tinham chegado no inicio já supervisionando esses treinamentos e tal, e a coisa foi indo. O que foi feito? Os cérebros, as cabeças mais experientes ficaram aqui na sede, ficaram aqui no Rio num órgão chamado Gecam - era Gerência Executiva da Bacia de Campos, um negócio assim. Então esses trabalhavam nos projetos, cuidavam dos projetos, nos contratos da construção das plataformas, e a turma lá aprendia operar, não se preocupava com os projetos “Não vou perder tempo, não vou me preocupar em fazer um projeto, não, vou me preocupar em saber operar.” Então os desenhos iam daqui para lá, a negada se deitava em cima daqueles desenhos; trabalhava ali, e a gente em cima, cobrando. E aí começamos também a pegar gente com uma certa experiência, mas do mercado. “Quem é o melhor engenheiro de instrumentação que tem na Votorantim?” “É o fulano de tal, vamos ver se ele quer vir trabalhar comigo aqui na instrumentação.” E saía pinçando gente já de nível, muito experiente, mas não experiente em petróleo exatamente, para o cara não trazer os vícios lá da unidade dele pra cá. O fato é o seguinte: em 70, aí começou outra coisa, aí começou o projeto das grandes plataformas, das duas de Cherne, duas de Namorado, duas de Garoupa, de Enchova e uma de Pampa. Só que essas plataformas demoravam 5 anos para ficar prontas, e a gente sabia onde estava o óleo, então daí um grupo, chefiado por um engenheiro - não sei se ele vai ser chamado aqui - chamado Salim Armando... O Salim craniou o que se chama de produção antecipada e juntou um grupo de engenheiros pequeno com ele aqui e um grupo de engenheiro nosso lá em Macaé, isso fez uma sinergia muito boa, então partiu para um sistema de produção antecipado, que era o quê? Era uma plataforma de perfuração adaptada pra produzir, mas aquilo é para produzir enquanto as grandes plataformas ficavam prontas, era antecipado e temporário - mas foi igual ao CPMF, aquela técnica foi se desenvolvendo e o que era para ser temporário transformou-se numa tecnologia de produção permanente a partir de plataforma flutuante. Hoje todos os grandes campos do mundo estão numa linha aí, tem plataforma de 1.300 metros, 1.400 metros e nada mais é do que aquele primeiro modelo que Salim bolou, adaptado, que foi aumentando de 100 metros para 120, 150, 200, 300, 400 e hoje está em mil e tantos metros e ninguém mais questiona nada daquilo. Aquilo hoje é uma tecnologia que a Petrobras desenvolveu por necessidade, não tinha em canto nenhum e evoluiu, desenvolveu. O Cenpes entrou no circuito, e vamos dizer, aquilo que foi feito de modo mais empírico começou a coordenar melhor as coisas, arrumar pacotinho. Então virou tecnologia, na verdade é uma tecnologia que a Petrobras tem - a tecnologia de água profunda. Na verdade ela tem a tecnologia de água profunda em sistema flutuante, que é um troço que não existia e o mundo hoje todo faz também, né? E aí as grandes sete plataformas chegaram depois e convivem até hoje, estão lá produzindo com esse sistema moderno. Depois, outra evolução, que foi o flutuante. A partir de plataforma criou-se o flutuante, a partir de navios. Aproveitou os petroleiros antigos, adaptados para isso aí. Isso do lado da produção. Por outro lado o refino, o refino também teve uma evolução muito grande. O Cenpes tinha uma área de desenvolvimento de processo de refino. Antes, a Petrobras comprava uma refinaria, era um pacote; vinha um pacote lá do exterior, montava aqui. A Petrobras tem investido muito dinheiro nas refinarias - essa melhoria, que era 1 milhão de barris, hoje está 1 milhão e meio, isso foi tudo feito com adaptações do que já existia e com novos processos para melhorar a qualidade do combustível. Antigamente a gasolina tinha chumbo tetraetila, que era venenoso; óleo diesel tinha enxofre - essas coisas não tem mais. Foi feito um processo, desenvolvido em casa, com tecnologia própria também. Então não foi só um lado da produção e exploração que desenvolveu, não, o outro lado também. E interessante disso que chega um certo momento que se descobre o campo de Marlim, que tem um óleo superpesado, um óleo pesado, e nossas refinarias não estavam adaptadas para ele - foram feitas para um óleo médio 30 graus API - um tipo de intensidade, unidade - e a intensidade de Marlim 18, 17. Então quase metade daquilo lá, então foi uma correria muito grande Já se adaptou alguma refinaria, estão se fazendo novos investimentos nela, ainda hoje não consegue processar todo. Parte está sendo vendida para o exterior, mas ele sendo vendido como óleo cru pesado - ele tem um valor baixo no mercado. Se ele for processado aqui nós vamos ter um derivado com um preço internacional, então tem que fazer isso mesmo, você vê, é um desenvolvimento de tecnologia na área de refino provocado por uma descoberta lá. Senão não ia gastar dinheiro nesse negócio, ia continuar a mesma coisa.

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