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História

Turmalina,vida na roça naqueles tempos.

História de: Joana Ferreira Mauricio
Autor: Sueli ferreira Mauricio
Publicado em: 28/06/2014

Sinopse

Relato da vida da minha mãe e minhas tias na sua infância na roça , em Turmalina , MG , norte de Minas. Suas aventuras e a "lida diária". Das décadas de 1930 e 40. Antes da energia elétrica e da água encanada. Acredite , não havia telefone celular !!!!!! Ninguém conhecia avião.!!!! Vida muito sofrida, mas muito feliz.

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História completa

Memórias das filhas de FRANCISCA Lembrar, conhecer, para dar mais valor ao presente e melhorar o futuro. Durante a nossa vida toda, nós, netos e netas da Vó Francisca ouvimos relatos das nossas mães, tias e tio sobre como era a vida deles quando crianças lá na roça e a sua saga na cidade grande, Belo Horizonte. Cada um ouviu uma parte da história, com detalhes e episódios diferentes. Vou relatar o que ouvi da tia Dorinha, a primeira filha, a mais velha, e da minha mãe, Joana, a sétima filha. Espero que todos os primos e primas também ouçam as histórias, relembrem as que já ouviram e as escrevam, para que não se perca uma parte da nossa história. Deixar registrada a nossa história é um presente para todos nós, desta família que conhece tão pouco do seu passado. Início de um livro que pretende reunir as memórias de infância e juventude das filhas e filhos da Chiquinha, escrito por SUELI. Para que não se perca a memória da nossa família, dos nossos antepassados. Se você sabe alguma história, que ouviu dos seus pais ou das tias, escreva também , vamos publicar . Depois vamos reunir estes relatos e formar um livro, o nosso presente. SECA DA 2ª GUERRA MUNDIAL (1939 a 1945) Final da 2ª guerra mundial – 1945- na roça, em Turmalina , MG, Norte de Minas , Vale do Jequitinhonha . A população passava fome, segundo os relatos de minha mãe: Joaninha ( Joana Ferreira Mauricio ), 7º filha dos dez filhos da Chiquinha ( Francisca Gonçalves de Macedo ), e da TIA DORINHA ( Izidória Gomes Ferreira). O povo culpava a guerra, mas era, na verdade uma grande seca, que não deixou a lavoura crescer. Palmito A Chiquinha, filha de Maximiliano e Izidória , ia no mato pegar palmito de espinho , serviço de homem, mas ela tinha que fazer isso para alimentar os filhos e os vizinhos, que iam até à casa dela porque sabiam que lá teria algo para comer. O Palmito, e era “muito gostoso” ( segundo relato da Joaninha). Chiquinna dava uma “ colherada” para cada um, de vez em quando alguém pedia : “ Ô Chiquinha, me dá mais uma “ coerada” . E a minha avó respondia : “ Já dividi tudo , acabou.” “Ninguém ajudava a lavar aqueles pratos de barro pesados, feitos pela vovó Leopoldina”. “Era minha tarefa lavar tudo, tinha que buscar a pouca água que havia , no córrego, ninguém ajudava, comia e saia. “ Deus te pague , Chiquinha” , e iam embora, eu ficava com muita raiva de fazer a tarefa sozinha”. ( relato da Joaninha) “ Minha mãe espinhava a mão toda com os espinhos do coqueiro , e fazia um tacho de cobre muito grande de palmito.Formava-se um filão de pessoas e crianças para comer, um pouquinho para cada um, mas ninguém ia ajudar a fazer” ( relato da Joaninha). A Chiquinha descobriu uma vagem no mato, que não era venenosa, que serviu para alimentar a todos por um bom tempo. Comiam também folhas do “mato “, o “cariru de porco” , uma folha que era comida pelos porcos. Farinha de coco O “Zé Luiz”, como era chamado meu av , seu nome verdadeiro era José Gomes Ferreira, filho da Leopoldina, mãe solteira. E marido da Chiquinha. Tia Dorinha acha que ele chegou a conhecer o pai. Dizem que ele recebeu este apelido porque o pai dele chamava-se Luiz, mas ninguém sabe ao certo. Zé Luiz ia ao mato cortar coqueiro para fazer farinha do tronco, na fábrica de farinha de mandioca de um vizinho, e muitas vezes na casa do seu irmão Egídio, pois não havia mandioca, a seca queimou tudo. A farinha era “gostosa e docinha” ( Joaninha ). Ele fazia a farinha e dava para todos que iam até a casa deles em busca de um pouco de comida , pois sabiam que lá sempre tinha alguma coisa. Ele também fazia de couro as “precatinhas”, um tipo de chinelo, para nós( filhos) irmos para a cidade. Bem feita 2 Ela era uma mula, faltava falar. Ela levava crianças e muitas pessoas para a cidade. Era uma mula, dócil, bonita, faltava falar, entendia tudo. Se parece com o burrinho “Platero” do livro “ Platero y yo” de Juan Ramón Jiménez.. Bem feita Quando ela carregava crianças nos balaios de mercadoria, jacá, feitos de bambu, ela ia devagar, pisava de mancinho. E nós, os pequenos, íamos para a fábrica de farinha dentro dos balaios, cochilando, e as mais velhas iam colhendo flores pelo caminho e jogando dentro do balaio. E também os doentes. Com os adultos ela andava depressa , sem muito cuidado. Ela trouxe uma doente de Minas Novas pra se tratar em Turmalina. Zé Luis fez promessa de emprestar a mula Bem Feita para carregar os mantimentos de doação das bandeiras da Festa do Divino. Ela acostumou-se tanto que quando ela ouvia o toque da caixa da Folia do Divino , já queria acompanhar. Ele sempre cuidava dela, tratava as doenças dos cascos. Quando o Zé Luis estava para morrer ele deu o cavalinho para o Geraldo ( filho mais velho) a Bem Feita para a Chiquinha e pediu para não vendê-la. O Geraldo a colocava na tropa, carregando carga, mas batia muito nela com o cabo da açoiteira, ele era revoltado porque o pai batia muito nele. Depois que ele se casou não usou mais a mula. Quando ela deu novamente a doença nos cascos, foi colocada num pasto, do outro lado do córrego, ela não conseguia voltar para o terreiro da casa, e foi abandonada, desprezada no pasto e morreu à míngua, depois de ter servido tanto à família. Relógio Era o nome do nosso cachorro. O melhor cachorro que já existiu. Ele era marrom com branco, muito manso e prestativo. Só faltava falar. Um dia o vizinho matou um porco, preparou, mas esqueceu meio porco do lado de fora da casa e foram para a festa na cidade. Três dias depois encontraram o Relógio do lado do porco vigiando, o coitadinho vigiou por três dias para bicho nenhum pegar a carne e nem ele mexeu na carne. O homem ficou muito admirado e elogiou muito o cão, mas o coitado voltou para casa com “ a barriga nas costas” , com muita fome, o homem não deu nada para ele, depois de salvar meio porco. E nós em cãs chorando por causa dele, porque ele era muito querido. Um tempo depois o Relógio sumiu, não sabíamos se ele tinha morrido ou o que tinha acontecido. Outro vizinho chegou lá em casa e perguntou se nós tínhamos dado o cachorro para o vizinho, porque tinha visto o Relógio lá. Então descobrimos que o vizinho, o que tinha matado o porco, prendeu ele lá , até ele se acostumar para não voltar mais. Ele gostou tanto do cachorro que resolveu tomar ele de nós. Certa vez uma criança de colo foi esquecida no mato ou na beira do córrego, o Relógio ficou vigiando e lambendo a criança para acalentá-la. A criança chorava e os dois morrendo de fome. A pessoa lembrou-se da criança e foi buscar, e o Relógio ficou famoso nas redondezas, pelo cuidado e pela lealdade.
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