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História

Um árduo caminho para as artes

História de: Liana Lacerda Keller
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Liana começa seu relato contando sobre sua difícil infância com pais ausentes e, por muitas vezes, violentos. Fala sobre sua vida na escola e suas questões com a socialização, além também da própria violência. Aborda o machismo que sofria no Sul e em Portugal e também sobre suas viagens pelo Brasil, Argentina e Europa. Conta sobre seus trabalhos no campo da moda, arte e como os expôs por onde viajou.

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História completa

Meu nome é Liana Lacerda Keller, eu nasci em Porto Alegre no dia 10 de junho de 1978. Vivi com a minha mãe até os 15 anos. Eu morei numa casa até os seis anos e depois eu mudei. Nesta casa que eu morei até os seis anos, era bem numa mata. Era legal, era perto do rio que tem lá, que é... é como o Tietê aqui. É o rio Guaíba, que é bem poluído, tudo, coitado. Mas era legal, a casa; tinha muito cachorro, aquela coisa com a natureza mesmo, a ligação com a natureza. Depois eu mudei pra um apartamento, então vida mudou completamente. Não sei, é diferente, não tem nem comparação.

Minha primeira infância foi muito solitária, eu era bem anti-social, tanto que foi bem difícil depois pra me socializar com as crianças na escola. Não queria nem saber, não queria conversar, não queria interagir... Depois eu fiz amigos, em geral era muito amiga de meninos. A gente brincava na rua, tinha umas brincadeiras de... Tinha uma que chamava meia-lua, que era de correr, parar, tinha umas brincadeiras de estátua, eu gostava muito de brincar na rua. Jogar futebol... subir em árvore. Não gostava de brincar de boneca, detestava. No fim, é isso mais ou menos que eu lembro assim. Que eu comecei a brincar com outras crianças. Sozinha eu ficava viajando. Brincava com os cachorros, os cachorros viravam gente, aquela coisa.

Meus pais eram hippies, bem hipponga. Eles faziam artesanato em couro, então era sapato, bolsa, aquelas coisas. E isso punham em feira, então eu ia bastante com eles, isso até os meus sete anos e então a família começou a pressionar, que aquilo era muito instável e eles começaram... Mas tiveram outro filho. Quando eu tinha quatro anos nasceu um dos meus irmãos e eles tinham uma vida muito doida, eram nudistas lá, eram naturistas e relacionamento aberto e a família de cabelo em pé, aquela coisa. Então o meu pai fez um concurso público, passou pro BNH, que é extinto hoje em dia, não existe mais. A vida mudou, porque a gente foi morar num apartamento. Meu pai mudou completamente o estilo, completamente e a minha mãe não trabalhou mais, a partir desta época. Meu pai virou um bancário e ele se viciou em cocaína e ficou uma pessoa bem difícil. Era, era solitário, porque... a solidão eu me sentia em relação mais aos pais, mas tinha muita criança no entorno. As crianças da vizinhança e os meus irmãos. Uma coisa que foi da rotina, que não foi legal, foi que meu pai, como ele começou a cheirar muita cocaína, ia um traficante em casa ficar lá rolando, todo mundo cheirando e eu ficava perguntando: “Que que é isso? Eu também quero!”, a criança... (risos)

Um dos irmãos era filho do amigo do meu pai, uma coisa assim de outro planeta. (risos)  Então não sei, a gente ficava muito solto, pela rua, a gente podia ficar de madrugada na rua. A gente ficou muito exposto. Eu sofri diversos abusos sexuais e os meus irmãos também e a vida foi ficando muito dura, muito ruim. E meus pais não estavam nem aí. Minha mãe entrou numa onda lá de... Não sei, entrou no planeta. Ela e meu pai abusavam bastante de drogas, e minha mãe tomou muito LSD e ficou meio com um tipo de esquizofrenia na verdade. Ela abstraiu que ela tinha filho, ela abstraiu tudo, ficou... E meu pai entrou também numa coisa de fazer balada, não queria nem saber, não voltava mais pra casa. A gente ficou lá, meio à deriva.

Comecei, então, a me tornar uma capeta, infernal. A minha mãe também começou a ficar agressiva, porque os dois começaram a se bater e virou uma violência só o negócio. E, também, como os filhos acabam pegando as coisas do pai, a gente começou também a todos se baterem, aquela coisa trash. (risos) Eu era a única diferente e não sabia fazer laço no tênis, eu andava com os cabelos cheio de dread, cheio de nó, porque eu não sabia pentear o cabelo, eu não sabia escovar os dentes, eu não sabia essas coisas. Ninguém me ensinou. Eu fui aprendendo, meio na casa da família dos amigos, então era super discriminada, era muito quieta e não interagia. A criançada não perdoa. Eu só comecei a ser respeitada quando eu tinha nove anos, porque eu comecei a quebrar a cara das pessoas que estavam me incomodando. Eu ia lá e quebrava a cara... (risos) E, nossa, era agressiva, começou a haver mais respeito, mas os meus amigos da escola eram sempre os rejeitados. Aquela pessoa que repetia de ano, que estava lá há cinco anos fazendo a mesma série, ou então, a pessoa que tinha piolho, que ninguém queria chegar perto. Tinham poucos negros na escola, eu era amiga dos negros, eu gostava das pessoas rejeitadas, porque elas eram as mais interessantes que tinham. As outras eram chatíssimas pra mim.

Quando eu tinha 12 anos, meu pai morreu de overdose dentro de casa. Estávamos só nós os filhos dentro de casa. Foi uma coisa bem horrorosa... Logo depois, meu tio, que eu considerava meu amigo, que era um tio divertido, tentou me estuprar, que foi outra coisa que acabou com a minha cabeça, foi uma semana depois. E a minha mãe ficou mais louca ainda do que ela já era, ela ficou violentíssima, ela só... Ela começou a me bater muito, a gente começou a brigar muito e ela parou com isso um dia que eu quase matei ela. Mas muito logo eu saí de casa. Com 15 anos eu saí de casa já. Fui morar com amigas, começou a minha vida de aventuras, de morar em toda parte, tal e viajar e pegar carona.

Com 15 anos eu comecei a trabalhar com tudo que foi coisa também. Eu trabalhava com pesquisas, com panfletagem, trabalhei num supermercado, depois trabalhei numa padaria e fui sempre tendo esses trabalhos temporários. Enquanto estudava também. E o primeiro trabalho que fiquei mais tempo foi numa balada. E eu trabalho em balada até hoje. (risos) Depois eu: “Nossa, não quero saber de balada, chega.” Eu arrumei um trabalho numa cooperativa ecológica, porque eu sou vegetariana e nessa época, eu não bebia. Foi tanta droga na minha vida, que não fui eu que usei, que eu não quis nem saber. Também comecei a trabalhar com pintura

Aos 24 anos, eu cansei da vida social, de querer fazer o bem, pois eu vou cuidar de mim, vou ser egoísta, acabou isso aí. Eu voltei a trabalhar à noite; fui trabalhar num bar, e nesta época, eu pintava as minhas roupas. Começou o povo que ia no bar a se interessar pelas roupas. Eu comecei a pintar roupas e vender pra essas pessoas e comecei a participar de eventos. Eu comecei a juntar material da rua, como gavetas e comecei a fazer quadros nas gavetas, fui fazer exposições, começou a acontecer um monte de coisa também nesse sentido da arte. Eu comecei a me firmar mais como artista. Começou a acontecer um monte de coisa diferente. Rolaram desfiles. Começou uma outra fase da vida. Por um tempo, gostei bastante. Depois, não. Tudo uma hora fica chato. Nessa época, eu comecei a beber muito, comecei a fumar, comecei a fazer muita balada, fiquei meio doidona demais da conta. E, também, mas como eu sou meio contra isso, uma hora meio que me deprimiu. Foi mais duns três anos pra cá que eu me acalmei.

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