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História

Um bebê a bordo

História de: Alfoncina Kypriads Papazanakis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Dona Alfoncina recorda momentos importantes de sua vida, começa contando o caso de seu nascimento dentro de um navio no meio do Oceano Atlântico, depois conta como conheceu e casou-se com seu marido, passa pelo momento que considerou o mais triste de sua vida que foi o acidente que levou a vida de seu quarto filho, por fim, fala sobre receitas e costumes da tradição grega e sua participação na Liga Beneficente das Senhoras Gregas de São Paulo

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História completa

P/1 - Dona Alfoncina, vamos começar a entrevista, a senhora fala o nome da senhora, de onde a senhora veio, como era o nome dos seus pais, o que eles faziam e os avós também.

 

R – Meus avós eu não conheci, nenhum, eles já tinham falecido quando eu nasci.

 

P/1 – Eles eram de onde?

 

R – Eram de Chipre, depois foram pra Ásia Menor, meu pai, por exemplo, cresceu lá, minha mãe também e depois viemos para cá, quer dizer, aí foi acrescentado mais um filho que seria eu, uma filha, que nasceu no navio. Quando saíram de Pireus, porque eles perderam o navio, era pra eu nascer aqui, tinha a parte religiosa do meu pai que era muito forte, da minha mãe também. Eles subiram lá no Lykavittos em Atenas, antes de pegar o navio para vir definitivamente, foi aí que quando eles chegaram em Pireus, o navio já tinha ido embora, tinham tirado todas as malas deles, as coisas que eles tinham e ficaram lá esperando 15 dias outro navio, foi aí que atrasou e, por isso, que eu nasci no navio, mas por sorte da minha mãe, eu acho que foi ótimo porque ela não saberia falar português e nem Italiano, né, que veio no navio italiano. Mas foi muito bem atendida pela parteira, capitão, os marinheiros. Enfim, a minha mãe disse que ela viveu os melhores dias dela no navio por minha causa, né? Porque nasceu o bebê.

 

P/1 – Então, a senhora nasceu onde?

 

R - Nas águas entre italianas e africanas, mais ou menos, tá saindo por Atlântica.

 

P/1 – E quando seus pais chegaram aqui no Brasil, eles vieram para o Brasil por quê?

 

R – Bom, meus pais já tinham dois irmãos aqui e foi porque o pessoal que saia de lá da parte da Turquia, tem que se acomodar em algum lugar e como meu pai tinha irmãos aqui, eles chamaram para cá e ele veio com família, porque os irmãos eram solteiros, casaram depois, aqui né, mas meu pai já tinha três filhos e mais eu a quarta, né?

 

P/1 – Como era o nome do pai da senhora completo e o da mãe também?

 

R – A gente fala Caralambos aqui, mas era Caralambos (com outra pronúncia) em gringo, Caralambos e Catina.

 

P/1 – E o nome da senhora completo?

 

R – Alfoncina (Yryd?) (Giovanna?) e, naturalmente, o sobrenome Kypryads, que era o nome do capitão, da esposa e da filha, ele quis pôr e ele queria ser o padrinho, mas o meu pai não foi até a Argentina, ele preferiu ficar aqui, já estava com saudades do irmão, então desceram aqui e o navio continuou porque eles desceram de madrugada em Santos porque o navio não ia parar, só pararia em Buenos Aires, né? Mas aí o meu pai falou não, então fica só o nome, o nome ficou, mas ele não batizou.

 

P/1 – Então o pai da senhora, quando veio para cá, estava pensando em vir para o Brasil ou ele estava pensando em pra...

 

R – Para o Brasil, especialmente, para o Brasil, já definitivamente para cá.

 

P/1 – E os motivos que fizeram ele sair de (Agana?) na Grécia.

 

R – Porque lá na época que os turcos estavam, né? Com aquela perseguição dos turcos pelos cristãos, aí todo mundo foi saindo mesmo, mas eles não sofreram muito na saída, tiveram muita sorte ainda porque teve gente que morreu, muita gente que eles passaram a baioneta, os turcos, mas o meu pai saiu um pouco antes e os pais dele já tinha falecido, né, e vieram pra cá direto. Quer, dizer ficaram um ano em Atenas.

 

P/1 – Ficaram onde? Morando com quem? Com um parente?

 

R – Não, em casas que o próprio governo cedeu para os gregos refugiados e depois de um ano é que ele veio pra cá. Ainda ficou um ano lá.

 

P/1 - Quando chegaram aqui no Brasil, como é que foi? Que lembranças a senhora tem?

 

R – É, eu não tenho, assim, logicamente, cheguei bebezinha, né? Agora, eu imagino a minha mãe, meus pais, né? Sem saber falar a língua e os irmãos não estavam lá no porto porque era de madrugada, né? Eles tinham ido, mas não sabia o horário. Aí chegaram de madrugada despejaram eles ali (risos), minha mãe trouxe irmãos, meu pai trouxe sobrinhos também, não viemos só nós, eles vieram juntos com meu pai, então veio uma boa parte de parentes também. E aí, como eu falei, nós fomos direto lá para Penha, né? Que meu tio tem uma chácara lá, o tio que já morava aqui, e puseram lá numa casinha também e nós estávamos lá. Depois daquela Guerra de São Paulo e Rio, que caia as bombas, meu pai ajudavam os soldados porque eles ficavam por ali, então mandavam bomba pra cidade de lá pra cá, daqui pra lá, impressionante, né? Coisa ridícula, mas aconteceu. Eles perderam, quer dizer, aí meu pai depois de uns dois anos porque isso foi em 24, nós chegamos 22, né? Então, até 24 nós estávamos lá na Penha que eu não estava lembrando agora até quando, né? Depois ele veio para cá, aí nós viemos morar aqui no bairro da Luz, ele se estabeleceu, antes meu tio tinham fábrica de malas, né? E depois eles passaram para calçados, meu pai também estava junto e depois cada um teve a sua loja, porque cada um tinha a sua família já, tinha que separar mesmo. E assim foi o começo, era fábrica de malas que naquele tempo vinha aquelas folhas de flandres da Inglaterra, né? Aquela suja, não existia nada aqui, tudo era estrangeiro, né? Até fita para pôr na cabeça que a gente comprava era fita francesa, isso no tempo que eu já tinha casado, mas agora nós temos tudo, né? Aqui tem demais as coisas, mas naquele tempo tudo era estrangeiro e fruta, legume, essas coisas, não tinha como tem hoje, né? Era tudo com bichinho dentro, não tinha coisa boa também. E quem podia comprar, comprava, quem não podia tinha que se virar. Mas aí eu tive mais três irmãos que nasceram aqui no Brasil, então vieram três de lá e três daqui e eu fiquei na divisa, né, que eu divido a família, eu sou sempre a do meio. Eu sou a do meio da família. Sou do meio porque são três gregos e três brasileiros.

 

P/1 - E geograficamente (risos).

 

R – É, e geograficamente, eu sou sempre a do meio, interessante isso. Aí depois, o meu crescimento foi aqui na Luz, eu tenho muitas saudades desse bairro que eu cresci, por exemplo, estudei na Prudente de Morais e quando eu passo lá, eu tenho vontade de tirar o sinal da cruz, porque eu acho que para mim é como um santuário. Naquele tempo, era... Não sei hoje como é que está lá dentro, mas naquele tempo era um espetáculo o prédio também, até hoje o prédio por fora é, não sei como é que funciona as classes lá, mas era muito bonito. Então, eu cresci aqui, eu acho que eu tive o privilégio de estudar em um colégio do governo, mas espetacular em todos os sentidos, né? E depois eu fui estudar o ginásio no Colégio São José que já era um colégio pago na Rua da Glória, de freiras, estudei lá. Tinha uma escolinha que era de pré que era pertinho de casa ali na travessa da São Caetano também, onde eu fiz o pré, aí que eu comunguei, que teve a comunhão católica. Tinha aula de catecismo tudo, que a gente é tudo igual, no fim a ortodoxa, hoje a gente acha diferente, quer dizer, até o Papa reconhece, na Patriarca também, o papa tudo, mas naquele tempo tinha muita perseguição achavam que ortodoxo... Mas nós éramos ortodoxos e era aquilo mesmo, imagina se o meu pai ia mudar, de jeito nenhum. Mas eu fui e comunguei porque o Bispo entrou no meio, foi uma briga de igrejas, e não sei o quê, mas no fim acabei comungando na igreja católica. É a primeira e única comunhão que eu fiz na católica. Eu já tinha comungado, quando você batiza, ortodoxo já comunga, mas aí eles não entendiam isso. Porque o grego fala que a criança é ingênua, né? Então pode comungar desde que nasce e o católico só aceita o uso da razão, quando se entende que pode comungar, aí que eles dão a primeira comunhão, né? Então a diferença era essa.

 

P/1 – E isso causou algum problema pra senhora?

 

R – Não, pra mim não. Eu fui uma criança muito, quer dizer, entendia tudo, achava tudo uma boa, muito quieta, muito comportada, obediente, então conforme vinha as coisas, ia lá fazia, não teve problema assim de afetar alguma uma coisa, né?

 

P/1 – Não ficou um trauma, né?

 

R – Não, não ficou trauma nenhum.

 

P/1 – Como era a infância no bairro com seus irmãos?

 

R – Com os irmãos era muito boa, minha infância foi ótima, com os meus irmãos, relacionamento, tudo, mas era de trabalho porque a gente não ficava fazendo nada, todo mundo tinha sua função na casa, né? Naquele tempo, não tinha empregados, nem nada, era minha mãe, meu pai e os filhos, cada um tinha sua coisa para fazer, as suas obrigações e a minha era de limpar a casa, arrumar camas... Eu sempre fui forte, a forte da família era eu, era bem forte, então todo mundo já aproveitava, então vem você (risos). As minhas irmãs já eram mais delicadas, uma era pequena, outra também era mais delicada, a mais velha, então, eu era mais forte das mulheres também. Eu aguentava bem o tranco, né? Então, cada um tinha a sua função, eu ajudava muito minha mãe também, passava roupa, não tinha máquina de lavar roupa, nem nada, era tudo nós mesmo que fazíamos para crescer. A gente ajudava na loja porque a loja era na frente e nós éramos na travessa, tinha outra porta para entrar, onde tinha a casa, então nós fizemos ligação ali e eu quando podia já estava na loja para ficar no caixa. Era uma corrida da vida, mas era uma corrida da vida que valia a pena, não sei porque a gente tinha aquela esperança de melhorar e crescer, né? Hoje, por exemplo, se trabalha do mesmo jeito, mas eu não vejo resultado no final. Antes a pessoa trabalhava com aquele pouco que se ganhava, mas tinha a esperança de crescer. Então, se comprava depois uma propriedade, podia comprar sua roupa, se vestia, quer dizer, nunca faltou o sapato, meia, roupa nunca faltou, né? Mas era tudo com sacrifício. Mas, no fim, você tinha um resultado bom, no fim do ano você via um lucro do que você fez. Hoje em dia, você trabalha o ano inteiro e não vê que sobrou alguma coisa que você possa fazer alguma coisa. Tá ruim nesse ponto, eu não digo por mim que eu já sou ponto pacífico, tudo bem, mas pela mocidade que vem aí. Eu percebo que eles lutam, trabalham e não vejo, assim, um resultado como a gente via naquele tempo que era muito menos o valor do dinheiro, quer dizer, não é menos, o dinheiro tinha valor porque 200 réis eram 200 réis, tinha aqueles 200 réis desse tamanho, 400 réis desse tamanho, né? Mas era dinheiro. Hoje você tem 100 mil cruzeiros na mão e não compra nada, não tem nada, sai assim na mão. Mas naquele tempo tudo tinha valor, tudo.

 

P/1 – E brincadeiras tinha?

 

R – Ah, tinha. Brincadeira de rua, a gente jogava bola na rua porque não tinha carro, não tinha nada, passava um caminhão de vez em quando, os caras do Matarazzo IRFM Matarazzo, tinha aqueles carros enormes puxados a cavalo, tinha os cavalos na frente puxando, né? Desciam a Rua São Caetano, porque eles tinham lá na Penha, né? Então a gente via aquilo lá e se parava para ver passar, mas, fora isso, a gente brincava de bola na rua, sempre tinha o grupo da vizinhança, né? E não era só os irmãos, tinha a vizinha também e brincava de amarelinha, fazíamos aqueles riscos na calçada para brincar. Crescemos brincando na rua mesmo. Tinha balança na árvore, na frente da minha casa tinha uma árvore, então tinha um galho que dava para fazer balanço, a gente punha a balança, imagina, com corda e tudo, sentava lá e brincava na rua. Eu sou também do tempo do lampião de gás, na nossa porta tinha um lampião de gás que vinha um senhor, hoje, eu lembro dele, até da cara dele, do corpo magrinho, franzino, mas era um senhor já de idade, ele vinha acender, todos os dias seis horas, seis e meias, imagina, passava nas ruas para acender o lampião de gás. Isso é interessante para mim.

 

P/1 – A senhora ficou na Luz até a adolescência?

 

R - Fiquei até casar.

 

P/1 – E como é que foi?

 

R – Eu casei nessa Rua São Lázaro.

 

P/1 - Como é que era a adolescência das mocinhas?

 

R - As mocinhas, olha, as mocinhas não eram como eu, eu era muito mais quieta, muito mais, sabe? Muito certinha para o meu tempo, mesmo para o meu tempo era eu era muito certa, porque naquele tempo não era como hoje, né? Mas negócio de namoro, quer dizer, eu nem pensava. Aconteceu porque o meu marido que me achou, né, acho que senão eu estava... Ele achou, gostou e eu tinha 12 anos quando ele me viu a primeira vez. Como grego, naturalmente, na igreja que a gente vai, ele me viu sozinha, ele achou “Essa moça deve ser filha de gregos”, a igreja era síria, não era de gregos, mas nós frequentávamos lá porque não existia igreja grega. Começou em 60 a igreja grega. Aí ele ficou numa paquera e eu nem sabia que era paquera, nem nada, quer dizer, eu vi o rapaz, mas nem estava... E, no fim, ele insistiu, insistiu até eu fiquei com os meus 19, mais ou menos, 20 anos, aí ele veio falar. Mandou os tios falarem porque ele era sozinho também, né? Tinha só tios aqui, os tios vieram antes de nós, tinha um tio que veio antes de nós, mas ele veio depois, ele veio em 34. Insistiu tanto que, no fim, aconteceu, quer dizer, fiquei noiva e casei. Casei e fui morar no Brás, fiquei oito anos no Brás, tive três filhos lá e a outra tive aqui já no Paraíso. Mas como meus pais já tinham mudado para cá, ele falou assim “Aí não, preciso mudar para lá também” porque eu fazia ele vir toda noite para ver meus pais, ele não aguentava mais (risos). O trabalho dele era lá, então...

 

P/1 – Ele nasceu onde?

 

R – Ele é de Creta.

 

P/1 – Ah, ele é da Ilha de Creta.

 

R - Costumes e tradições rígidos também, quer dizer, costumes e tradições, mais ou menos, como os nossos, né? Ele também tinha.

 

P/1 – Você sentiu muita diferença entre a cultura que vocês tinham quanto gregos e a cultura da sociedade brasileira? A cultura brasileira na época?

 

R- Bom, era bem diferente, né? A gente até se isolava, né? Os brasileiros eram tudo assim colônias italianas, portuguesas, né? Era mais esses daqui que tinha... Árabes, armênios e cada um tinha o seu, a sua cultura, seus costumes e tradição, mas tinha uma parte que era, mais ou menos, igual. Tinham outras que eram um pouquinho mais evoluídas. Mas naquele tempo era, mais ou menos, tudo igual porque eram colônias, não era ainda a raça brasileira mesmo, porque hoje já é terceira geração, quarta geração, já todo mundo é brasileiro. Naquele tempo, não, era grego, era o árabe, era armênio, era o japonês, japonês era amarelo naquele tempo, mas amarelo total, hoje não, hoje você vê japonês amarelo? Dificilmente, né? São todos brancos, quase brancos. Mas, naquele tempo, era um amarelo chocante. E tinha preto, preto, né? Hoje já o preto também é mulato, não é aquele preto cor de raça mesmo, né? Até que era uma raça bonita, bem preto, lustroso. Meu tio tinha muitos empregados e tinha esses pretos que a gente tem na memória, né? Quando meu pai veio para cá, meu tio já tinha seis, sete empregados na casa dele, era um casal que tinha mordomia total, né? E estava super bem de vida. E nós começamos no ABC. Não foi fácil.

 

P/1 – Quais foram as dificuldades que vocês enfrentaram? O que você lembra que foi marcante?

 

R – Tudo era difícil, mas tudo tinha seu sabor de bom, no final porque a gente fazia tudo em conjunto, a gente, se sofria, sofria junto, meu pai passou dificuldades na Crise de 29, 30, 31 foi de arrasar qualquer cristão, né? Ele passou dificuldades porque a família, você sabe, para comer tem que comer todo dia, não tem jeito, mas os negócios, Nossa Senhora, como acabaram tudo. Era uma crise muito forte, quer dizer, a de hoje também é, né? Mas naquele tempo, sei lá... E com tudo isso a gente ainda superou, conseguimos superar e vencer nessa crise, mas era tudo assim, um irmão pensava numa coisa, o outro pensava em outra, como fazer, eles ajudavam, colaboravam os homens, os dois mais velhos porque os dois são menores. Então, eles ajudavam muito meu pai, davam opinião, quer dizer, colaboravam. Era um tal de entregar sapato ou então entregar malas, mesmo carregando nas costas eles iam entregar para quem comprava. Não sei para que compravam tanta mala, daquelas malas tipo baú, mas compravam naquele tempo, né? Não sei pra quê (risos). Eu fico pensando, mas que vendia, vendia, o meu irmão carregava nas costas “Não, eu entrego” ele fazia qualquer sacrifício. Mas depois a gente pensando aí foi recompensado tudo, graças a Deus, mas foi com sacrifício, não foi caído do céu, tudo foi com sacrifício. Mesmo depois que eu casei com meu marido também começamos novamente, né, mas foi progredindo, tudo na vida foi progredindo, agora que nós estacionamos paramos e estamos lá (risos). Vamos ver no que vai dar né? Mas antigamente, era como eu falei, sempre tinha progresso. E sempre cada ano uma coisa você fazia, tinha previsão, hoje não se tem mais previsão, “Vamos fazer isso, fazer aquilo, né?”.

 

P/1 – Hoje não tem mesmo, é verdade. Na época da juventude, quais são as lembranças que são marcantes pra você?

 

R – Como eu falei, a minha foi muito tranquila, sempre fui uma moça muito quieta e muito retraída, sempre fui, aliás, até hoje eu sou, eu nem sei como estou falando agora, até eu estou espantada como estou falando agora, mas sempre fui muito, tanto é que agora fiquei quatro anos na presidên da liga, que você sabe, mas para falar nem como presidente eu consigo falar, me dá uma emoção que eu não consigo a palavra já não saí mais, então eu prefiro evitar porque aí entra o coração no meio, entra a emoção no meio, não dá e a gente sofre também internamente, o corpo, tudo. Então, eu evito até de falar, eu passava para minha sobrinha, você resolve, fala aí para turma porque eu não vou falar. Mas fiquei como presidente mesmo sem falar, sabe aquele repórter mudo? Eu era assim.

 

P/1 – Faz muito tempo que a senhora está na liga?

 

R – Desde a fundação da liga.

 

P/1 – Quando foi a fundação da liga?

 

R -  Foi em 57, mas antes disso nós trabalhamos para Cruz Vermelha Brasileira, antes da (Aspasia?) nascer, eu já era casada, antes dela nascer, eu estava esperando a primeira filha, mas era no tempo da Guerra e a gente mandava coisa através da Cruz Vermelha, mas nós trabalhávamos aí embaixo do MAP, tem um espaço ali e o Ademar de Barros, na época, tinha cedido para nós para Cruz Vermelha, e nós, as gregas, também estavam lá trabalhando e mandando coisas através da Cruz Vermelha para Grécia.

 

P/1 – O que vocês faziam na época?

 

R – A gente costurava, tinha umas que cortavam lençóis, outras cortavam camisas e tinhas as máquinas e quem sabia costurar, sentava na costura, quem sabia cortar no corte e angariávamos também coisas como botão, linhas, essas coisas também da Rua 25, a gente ia na rua 25 para pedir e todos colaboravam também, mas se mandavam caixotes imensos de roupas e tudo para Grécia.

 

P/1 – Para a Grécia.

 

R – Pra Grécia, nós para a Grécia, mas a Cruz Vermelha mandava em geral através da Cruz Vermelha, mas era um trabalho, viu? Semanal lá todo dia para costurar, para fazer e tinha a turma das brasileiras que ajudava muito, né, era como, por exemplo, a liga hoje, mas era com os brasileiros trabalhando duro ali.

 

P/1 – E eles tinham um movimento pela paz naquela época?

R – Deveria ter. Agora até aí eu não sei. Eu era jovem.

 

P/1 – Já era casada, né?

 

R – Já era casada, ainda jovem...

 

P/1 – A senhora sempre teve contato com a colônia grega, né?

 

R – Sim. Mesmo quando não tinha nem colônia grega, os gregos que estavam aqui no começo antes de eu casar, por exemplo, né? Eram, praticamente, só família minha, por exemplo, tinha irmãs do meu pai e tinha os primos do meu pai, da minha mãe e irmãos, então eram sobrinhos, os primos e também os patrícios do mesmo lugar que eram como parentes, todos unidos. Dava, mais ou menos, 120 famílias, na época, mas todos se conheciam, todos eram interligados.

 

P/2 – Faziam festa?

 

R – Tinha que ver, qualquer coisa era motivo. Eles sentavam pra comer ou beber qualquer coisinha, já começavam, um tocava o alaúde, outro tocava violino, outro dançava, mas era assim toda semana, tinham danças, eles se juntavam para não perder o contato um do outro. Tinham sempre essas festinhas. Eram muito animadas até. Era tudo pretexto para dançar. Pretexto para cantar. Pra relembrar a terra deles, os homens sentavam, conversavam, contavam os casos que passaram por lá, tudo. Quer dizer, era muito interessante, mais do que hoje que você tem até preguiça de juntar uma turma. Mas os parentes e amigos, tinha que ver, e morávamos quase todos no mesmo bairro aqui, uma turma era aqui e a outra ficou lá na Penha mesmo, continuou na Penha, então quando a gente ia daqui para lá, depois que viemos para cá, era uma viagem, para ir daqui para Penha era tudo mato e depois tinha outro pedaço da Antônio de Barros ali que já tinham casas e tudo, né? E a gente ia para lá, uns iam dormindo no bonde porque não tinha nem ônibus naquela época, depois começou o ônibus, mas aí parecia um trenzinho ia, ia, ia que não acabava mais para chegar lá. Hoje é tudo perto, né? Tudo ficou perto. Não tem distância mais.

 

P/1 – A liga foi em 1957, antes disso foi na Cruz Vermelha, de qualquer forma, os gregos eram poucos, os que estavam aqui na época, como que foi a organização da coletividade?

 

R - Antes da liga já tinha coletividade, foram esses que formaram os primeiros. Eu até tenho fotografia que mostra as pessoas, então era o meu pai, o meu tio, esse senhor Abraão Nasser, que eu te contei que também são ligados com meu pai, o sobrenome dele é Nasser, mas ele é filho de grega, mãe grega, então eles são gregos, são considerados gregos, mas o pai é árabe, né, mas eles nunca falam que são árabes, sempre foram os gregos. Depois entrou meu cunhado, meu cunhado já era mais antigo que o meu marido e veio agora não lembro, mas acho que é 29, não sei. Não, é, mais ou menos, 28, 29, ele veio antes, mas aí começou a formar, já estava formada, aí era a nova chapa também, mas eles pensaram em fazer uma coletividade, para reunir justamente e a gente fazia tudo na igreja síria porque a gente não tinha espaço, né? Eles tinham salãozinho lá que cediam, na rua (etubi?), hoje é outro nome lá Basílio Jafet, né? Antigamente, era (etubi?) e eles tinham salãozinho atrás daquela igreja que hoje puseram um prédio na frente, não tinha prédio, quando eu casei tinha jardim na frente e a igreja lá no fundo, né? Eu casei naquela igreja também, depois eles fizeram ali para render, os sírios, né, e fecharam a igreja porque eu não sei se você já entrou, mas é bonitinha, né? Muito bonita a igreja, era pequena, mas era bonita e servia os sírios e os gregos que fazem parte da mesma religião, a gente ia lá, batizamos os que nasceram depois, todos, inclusive, (Aspasio?), Leônidas foram batizados lá, depois os outros foram já na catedral, né? Que era dos sírios também, mas na catedral e agora temos a nossa igreja, né? Igreja Grega Ortodoxa.

 

P/1 – Como é que foi formada essa igreja ortodoxa que a senhora é ligada?

 

R – Aí já estava Seu Pedro (Papadakis?), da parte do meu marido que já estava aqui e ele estava há mais tempo, ele já fazia parte da diretoria da coletividade, depois o meu marido quando veio também, naturalmente, logo entrou como secretário, né? Agora, ele tinha um ideal que era fazer uma igreja, ele queria que queria fazer uma igreja, coitado, levou na cabeça, né? Mas o amor dele porque ele era filho de padres, né? E a ascendência do meu marido toda é de padres também, os primeiros filhos são sempre padres, o único que saiu da linha foi o meu sogro e o meu marido e daqui para frente não são mais. Mas até lá eram padres e o seu Pedro tinha esse ideal porque o pai dele era padre também, né? Quando ele conseguiu esse terreno, procuram muito o lugar, tal, o espaço e conseguiu esse terreno que era dele e, naturalmente, da mulher dele, ele ofereceu e a mulher aceitou também porque a mulher era católica e ela aceitou que fosse uma igreja ortodoxa. E foi feita a igreja assim, aí uns foram contra, outros a favor porque uns queriam fazer aqui nos Jardins outros fizeram no Brás. Mas ainda eu acho que o lugar é bom porque tem muita gente para o lado de lá. Depois do Brás, muito grego e que não tem possibilidade de ter carro e pode vir de condução, que condução é caro, né? E os que moram nesse lado dá para ir de carro tranquilamente que não tem problema, é só querer. Então, o lugar não foi mal não, até que foi bem escolhido. O ruim foi aquele negócio de fazer a coletividade embaixo, que a igreja estaria no térreo, única coisa é a escada, né, que atrapalha um pouco o que foi feito. Aproveitar o terreno, mas foi uma coisa boa que foi feita, né? Pelo menos temos uma Igreja Ortodoxa Grega que não tinha até 60, foi inaugurado em 1960.

 

P/1 - Quando a senhora teve os filhos, como foi mudando a vida da senhora?

 

R - Cada um veio vindo na hora que veio e foi aumentando a família, mas numa boa muito... Não sei, foi tão natural, tão normal. Eu, por exemplo, que sempre fui uma pessoa mais retraída, menos vivida na vida, mas foi tudo natural para mim. Não sei, eu também tive a sorte de ter um marido como o meu, que foi uma pessoa para mim muito especial, né, em todo sentido. Então os filhos foram vindo, parece que foram mandados por Deus mesmo, na hora que ele quis e foi aumentando a família tranquilamente, normalmente, sem problemas.

 

P/1 – O que mais marcou na vida da senhora?

 

R – A vinda dos filhos é uma coisa muito importante para uma mamãe, acho que é a coisa mais importante, cada filho que nasce, né? Para mim, foi uma coisa também, se for falar de tristeza, foi muito triste quando eu perdi meu filho.

 

P/1 – Como foi isso?

 

R - Por acidente.

 

P/1 – Foi o quarto?

 

R – Era o quarto porque o André é o quinto já. E depois eu fui premiada com o André. Foi a benção de Deus porque apareceu um filho na idade que eu tive.

 

P/1 – A senhora teve ele com quantos anos?

 

R – Com 44 anos. Eu já tinha os filhos, estava tudo...

 

P/1 – Quantos anos ele tinha quando aconteceu?

 

R – Ele tinha 12 quando aconteceu. Então essa foi uma época mais triste e continua sendo, mas...

 

P/1 – Como a senhora enfrentou isso?

 

R – Você nem queira saber. Não só eu, como meu marido, como toda a família, como toda colônia, foi uma coisa triste para todo mundo, mas aconteceu que a gente nem sabe o porquê, né, que as coisas acontecem e depois foi a torcida de todos também para que tivesse mais um filho porque eu já não podia mais, né? Já faziam 12 anos, 13 anos e veio, até o médico disse que era impossível ter filho porque já tinha passado muito tempo, mas Deus permitiu, graças a Deus, eu tive um filho, um filho que seria pra... Porque cada um é um, né? Mas que ajudou muito, ajudou, em todos sentidos, não só nós que éramos os pais que estávamos arrasados, como os irmãos, como toda a família, todo mundo ficou na torcida mesmo para o nascimento do pequeno. Isso foi a coisa mais terrível da minha vida, foi isso.

 

P/1 – Qual foi a grande alegria?

 

R – As alegrias são muitas, tive muitas alegrias. Tive, até esse ponto, a minha vida era somente de alegrias mesmo, aí que ficamos arrasados um bom tempo, não dá para recuperar. Não dava para esquecer, né? E não dá até hoje, mas a gente vai superando, né? Porque a gente não pode atrapalhar a vida de todos os filhos porque a minha cabeça não quer esquecer, né? Então eu pensei, bom, todos são filhos, estou só pensando em um que foi, né? Então tinha que deixar de lado para poder viver normal com todos eles que estão aqui, né? Com a graça de Deus, graças a Deus.

 

P/1 - E com o marido da senhora, como é que foi a paixão?

 

R – A paixão. Se eu disser que foi mais dele por mim, do que eu por ele, no começo, né? Mas eu sempre tive muita admiração em todo sentido, ele era uma pessoa super inteligente, muito firme nos propósitos dele, ele tinha uma meta traçada e ele conseguiu o que ele queria em todo sentido, tanto na parte de casamento que ele casou com a moça que ele quis, como na vida profissional, na vida dele em geral, né, de se sentir realizado e nós também. Porque ele era uma pessoa forte do lado, uma pessoa que quando eu perdi, justamente, eu perdi as costas, eu achei que não tinha mais encosto quando ele faleceu, ele faleceu cedo também, mas foi resquício também do caso, né? Ele ficou enfraquecido. Tinha 63 anos, mas eu quando ele faleceu, foi como perder um encosto porque ele era tudo, assim, para todos, para mim, para a família dele, era uma pessoa muito admirável em todos sentidos, ele foi um homem que só tenho boas lembranças dele.

 

P/1 – E como é que foi com os filhos, depois que a senhora ficou sozinha, só com os filhos?

 

R - Aquela união todo mundo porque tem os meus filhos e eu tenho meus irmãos, eu tinha minha mãe também que estava viva, né? Quando aconteceu, todo mundo ajudava, colaborava com a gente, as minhas irmãs estavam vivas. Uma já tinha falecido, só uma que estava viva. Então, a gente quando acontece, parece que todo mundo se ajuda na dor, na alegria também, né? E na dor também, tá todo mundo junto com a gente querendo ajudar. Eu tive o amparo de todos, dos filhos sempre, né? Até hoje eu tenho que eu sinto, eu quero às vezes bancar a forte com eles, mas eles que são mais fortes como ninguém.

 

P/1 – Na liga que trabalho vocês desenvolvem? Como vocês desenvolvem o trabalho?

 

R – O trabalho nosso é pra ajudar os que são mais necessitados da colônia grega. Eu pensei que até hoje nós não teríamos mais, pelo menos, necessitados, infelizmente estamos tendo mais do que há uma época atrás, que estava diminuindo, né? De repente, agora a situação do país também, os que já não tinham é pior ainda, né? E o que a gente pode ganhar para eles é muito bom, então a gente faz essas promoções de chá, de bazar, nós já fizemos bazar e junta-se o dinheiro das próprias pessoas gregas que colaboram com a gente, né? Para a gente dar uma mensalidade para eles de acordo com cada um, com as necessidades. Temos três bolsas estudo, que estamos pagando e que está pesando demais, porque cada mês é um preço, né? Temos gente, por exemplo, na A Mão Branca [Associação de Amparo aos Idosos]. Grego na A Mão Branca temos dois lá, né? Mas um é colocado por nós e outro de Santos que veio.

 

P/1 – O que é A Mão Branca?

 

R - É um asilo que ajuda os sírios, mas nós temos, que dizer, a gente ajuda quando pode também alguma coisa, colaboramos, para ter uma porta aberta e temos um grego lá que não tá muito bom agora, ele é sozinho, sozinho de tudo, não tem ninguém. Temos até casa no tempo que dava para comprar milheiro de tijolo, ajudava na prestação do terreno, nós fizemos isso e tem famílias, por exemplo, um que já faleceu agora também, que ele teve aquele acidente de carro que ficou paraplégico, né? E nós ajudamos comprando a casa, compramos a casa. Hoje, tá valendo bem, pelo menos eles tem um teto para morar e a outra nós ajudamos desde o terreno dando as prestações, a senhora me traz recibo, que a gente não podia dar o dinheiro e ver que gastaram no bingo, qualquer coisa, né? Tem que ver, não você vai pagar agora, me traz o recibo que eu quero ver e foi assim. Hoje ela tem uma casa boa que os filhos moram lá também, vão casando e ela foi ampliando. Temos feito coisas muito boas e interessantes e foi depois da Cruz Vermelha que veio uma senhora de lá da Grécia para que a gente formasse essa liga para ajuda dos que vinham para cá, dos imigrantes gregos, para a gente dar uma orientação tudo, foi para isso que começou, né? E depois aí foi cada um se encaminhando, dos que chegaram aqui tinham um ponto de encontro, um ponto de apoio também. Aí foi o Dr. (Sinópolis?) que também estava junto com a gente ele como médico, né, da Cruz Vermelha também, de lá da Grécia. E aí os gregos que vinham tinham onde se dirigir, aí que começou a liga beneficente dessas gregas. E, naquele tempo, não tinha igreja, depois então fizeram a liga das filiadas à igreja, mas nós como tínhamos outras raças no meio, não dava para ser filiado a igreja.

 

P/1 – Não eram só gregos.

 

R – Inclusive, judeus nós tínhamos, judias, gregas judias.

 

P/1 – Isso na década de 40?

 

R – Não, aí foi 57, foi inaugurada, mas começou em 55 essa conversa toda até se formar a liga, porque em 44 foi quando começamos trabalhar para Cruz Vermelha pra mandar coisas, aí a liga começou depois. 57 foi inaugurada, a data mesmo é 57. Mas em 55 ela já veio conversar, para começar a procurar fazer aquelas palestras que faziam por causa dos gregos e veio muito grego na época.

 

P/1 – Por causa da Segunda Guerra Mundial, né?

 

R – Exatamente, muito grego veio para cá, apesar de que muitos já voltaram.

 

P/1 - Deixa eu perguntar as coisas mais precisas. Receitas de comida que tipo de comida você... Qual é a tradição da comida grega?

 

R – Comidas, tem as comidas que a minha mãe fazia. Essas são as tradicionais da família. Quer dizer, o dia que eu faço e eu que faço, então os meus irmãos ficam assim esperando porque, né? Então, eu estou tentando passar agora para todas porque para sobrinhas e cunhadas também porque é uma coisa que vai ficar, isso é costume da família. Uma tradição da família e como (Aspásia) diz: “Mãe, tem que fazer um livro de receitas da família para senhora poder transmitir” porque agora fiquei só eu das mulheres das minhas irmãs que as duas faleceram, está só eu e os quatro irmãos da família, né? Agora eles são casados um é casado com uma grego-brasileira, né? Porque a mãe é brasileira, pai grego, outro com brasileira e o outro é com grega também que é (Kety), aquela que acho que você conhece a (Kety). A Silvia também tem mãe grega quer dizer, é meia a meia, mas a brasileira faz mais comidas da minha mãe, porque o meu irmão gostava muito, ela foi aprendendo e ela faz.

 

P/1 - E quais são as comidas principais?

 

R – Uma sopa que faz um sucesso tremendo é a que você faz o caldo de carne com músculo, né? E põe tomate e grão de bico também e seu caldo. Aí você faz sua massa, ela é meio trabalhosa, então você tem que abrir a massa fininha, né? E depois tem que dividir a massa, quer dizer, dobrar a massa de acordo para sair as tiras, depois corta tudo em quadradinhos desse tamanho, assim, quadradinhos, né? E esses quadradinhos são recheados com carne, tem carne, cebola, sal e pimenta. Esse é o recheio. Então você dobra em triângulo e aperta dos dois lados, fica três pontinhos dos dois lado você aperta, e aí aquele caldo você depois coa, tira os pedaços de carne, arruma direitinho e depois que está tudo pronto, é como se fosse um ravioli, vamos dizer, mas não é redondinho, é um triângulo, aí você põe nesse caldo, cozinha e depois põe manteiga com hortelã em cima, né? Derrete a manteiga e joga por cima, fica um espetáculo. Pode comer com coalhada, um tipo de (...) com alho ou sem alho porque tem uma turma que não põe alho na boca de jeito nenhum, mas tradicionalmente seria com ela, é uma sopa espetacular, é uma sopa, mas é uma comida não é sopa, sopa, você come aquilo e não precisa comer mais nada, né? Já alimenta mesmo e é uma delícia de sopa, tem outro também que faz com trigo inteiro e carne também, depois tem que cozinhar, cozinhar, depois mistura vai misturando e também serve com manteiga derretida do lado, manteiga derretida e põe em cima, né? Esse daí também é muito tradicional. Esses são as tradições, agora em casa, nós fazemos de tudo, né, desde comida tradicional da família como do que a gente aprendeu durante a vida, né que tem comida italiana, francesa, entra tudo no meio, se faz de tudo, brasileira, naturalmente, feijoada todo mundo gosta, né?

 

P/1 - A origem dessas receitas é de Aganon?

 

R - Eu acho que tem algumas que não é só de Aganon, seria da parte da Ásia Menor, Turquia, como, por exemplo, a feijoada daqui se você vai para a Grécia, você aprendeu no Brasil, então seria como eles foram morar lá aprender a comida do lugar porque eu já vi armênios que moram lá, essas comidas eles fazem e na Grécia eles não conhecem. Não conhecem, interessante isso, né? Então eu acho que deve ser do lugar, mas aí eu até acho ótimo porque é coisa tão boa de se comer, essas comidas que então valeu a pena nesse caso, quer dizer, passou-se essa tradição, foi aprendido. E, por exemplo, os irmãos da minha mãe casaram com brasileiros também, tem que ver ele passa, o meu tio passou para esposa, a esposa aprendeu, ela passou para os filhos, eles passaram mais a tradição do que nós que somos gregos, eles que saíram do... Mas a comida ficou e tem que ver os netos, os bisnetos querendo comer aquela comida do vovô, é impressionante. Então, eu passo muito a tradição nesse ponto, é interessante.

 

P/1 – Deixa-me perguntar, a senhora já voltou para a Grécia?

 

R – Eu fui, a primeira vez eu fui em 60, primeira vez que eu voltei...

 

P/1 – Foi sozinha?

 

R - Fui com o marido e com meu irmão, mas foi a primeira vez com meu marido após guerra, primeira vez também depois que ele veio, primeira vez. Para mim foi uma viagem espetacular porque nós giramos toda Europa, nunca nem tinha pensado, nem sonhado em conhecer a Grécia porque era a guerra, não sei o que, tal. Mas, de repente, meu marido quis voltar para ver os pais dele, né, que estavam vivos e o que mais me emocionou, fora ver a Grécia... A gente sabia pela história, pelo que se contava, tudo assim, né? Você sabe alguma coisa, mas depois você vê pessoalmente então aquilo foi a coisa mais emocionante, de arrepiar, de chorar, foi demais, foi tudo emocionante para mim é como eu falei, estava no auge da minha vida, antes era tudo felicidade. Então, eu deixei meus filhos aqui, mas mesmo assim... Eu deixei com a minha irmã que ficou olhando-os. Era tudo de alegrias, eu fui com meu marido e o meu irmão para ele ver os pais, né? E o encontro com a mãe dele foi coisa de se chorar, também. Os dois pararam um na frente do outro, ela largou um rapaz, né, meu marido veio aqui tinha 20 anos 21 e encontrou uma pessoa grisalha, o cabelo dele ficou branco muito antes, mas na Grécia ficou branco de uma vez. Aí ele tinha um chapéu de palha por causa do sol que era terrível, né? Quando ele cumprimentava um e outro com aquele cabelo branco, eu falava “Meu Deus, ele não tinha tanto cabelo branco”, a emoção dele fez o cabelo dele ficar branco lá, ficou branco total e brilhava. A mãe falava assim “Mas, meu filho, você ficou de cabelo branco”, a mãe não se conformava, mas o encontro dos dois que eles pararam, eles tinham medo até de se tocar, parecia que ia quebrar naquela hora, qualquer coisa e as lágrimas escorrendo dos dois, aí foi triste demais. Foi emocionante demais, logicamente, aquilo foi o choque mesmo do encontro. Depois foi bom.

 

P/1 – Depois foi leve, né?

 

R - Aliviou um pouquinho, mas foi muito marcante esse encontro dos dois.

 

P/1 – Deixa-me te perguntar, qual é o seu sonho hoje?

 

R - Meu sonho? Bom, eu tenho um sonho muito pequeno, seria pequeno. Sabe o que é? Conhecer os Estados Unidos, que eu não conheço. Talvez, então eu falo para eles, vocês vão me fazer ir lá quando eu não puder andar mais (risos). Que adianta ir pra lá sem poder andar? E vai passando. É que depois a minha filha morou na Grécia, né? Então eu nem sonhava em outro lugar, eu só queria ir para lá porque depois dessa primeira aí eu fui muitas vezes porque aconteceu de eu ter uma filha que morou lá, né? Casou e foi morar lá, eu nunca mais pensei em conhecer nada, para mim era só voltar para Grécia para estar sempre do lado da minha filha ou ela vinha para cá ou nós íamos para lá. Não teve outro sonho, acabou, morreu tudo, era só isso.

 

P/1 – Agora ela voltou?

 

R - Agora ela tá aqui, então estou começando novamente pegar os netos para ver se dessa vez com os netos, mas vamos ver só quando Deus quiser. Talvez seja um sonho bobo, que se não for, pra mim, tudo bem, né? Mas é um sonho que eu tive sempre, desde criança. Eu achava Estados Unidos uma coisa fora de série, pode ser na minha cabeça, né, na minha cabeça e continuo achando agora também, mas todo mundo fica: “Não é isso que você pensa” já me tiraram o encanto (risos), mas assim mesmo ainda gostaria de ver eu mesmo pessoalmente.

 

P/1 – Você tem netos, né?

 

R – Tenho.

 

P/1 – E tem filhos ainda jovens, pensando nas novas gerações o que você diria para eles? Já com toda a sua vivência, o que você diria para eles.

 

R – O que eu diria? Eu acho que não teria nada para dizer em palavras porque a gente não diz, transmite, né? O que você pode transmitir, transmite, se você joga em chão fértil é aproveitado, se é árido, não adianta nem transmitir. É tudo por exemplos, por costumes, por tradições, o que a gente pode transmitir é isso.

 

P/1 – O que você acha que é fundamental na vida?

 

R – Fundamental em primeiro lugar é a retidão de caráter, a pessoa tem que ter caráter, retidão de caráter pra poder enfrentar tudo que acontece na vida, de acordo com o que vem, com altos e baixos e ir em frente, não se desesperar porque hoje em dia, principalmente, a mocidade se desespera fácil porque não tem nem paciência de esperar chegar a hora, de acontecer, tudo eles querem com mais rapidez, não é como antigamente que era tudo tão lento, falo que a época tá passando tão rápido agora, não é como antigamente que um dia era um dia de 24 horas, hoje um dia não tem 24 horas. Acho que nem 12 porque passa tão rápido, a semana passa, é domingo hoje, daqui a pouco é domingo outra vez. Até o meu filho menor ele fala assim “Graças a Deus que hoje é sexta, sábado, domingo” falo: “Pelo amor de Deus, não fala assim, André, vamos viver com calma, pra que essa corrida? Todo dia você quer que seja sexta, sábado, domingo, fim de semana. Não é assim, a gente vive cada dia, você usufrua cada dia do seu trabalho, cada dia que passa, cada hora que passa, cada momento, tudo é aproveitável na vida”. É isso só que eu acho, é a melhor coisa que possa se falar pra juventude de hoje, não se desesperar, tudo tem sua hora, tem seu momento. Tudo com calma, com calma vai tudo melhor.

 

P/2 – O que a senhora achou de ter deixado uma parte de sua vida aqui?

 

R – Nunca imaginei, nunca na minha vida isso passou pela cabeça que fosse chegar um dia, não sei como saiu, nunca imaginei.

 

P/1 – O que a senhora gostaria que fosse feito?

 

R – Eu gostaria de ter uma cópia disso, para pelo menos meus filhos e os meus netos, isso eu gostaria. Mas eu nunca imaginei, nem nunca sonhei que isso um dia fosse acontecer. Eu sempre admirei as pessoas que tem uma vida, um passado, uma história, talvez eu não tenha uma’1 tão interessante, mas tem pessoas que eu conheci que tem histórias muito interessantes, mas eu nunca pensei que ia chegar nesse momento de ter uma história também. E com a graça de Deus, espero ter transmitido alguma coisa de bom pra vocês.

 

P/1 – Mais alguma coisa?

 

P/2 – É isso aí.

 

R – Deu pra emocionar?

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