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História

Um coração alviverde

História de: Benedito Sergio Alves Arques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2016

Sinopse

Em seu relato, Benedito nos conta momentos de sua infância na Vila Aida e no Jaçanã, onde começou seu gosto por futebol. Relata como seu amor pelo Palmeiras foi crescendo ao longo dos anos, o que o levou a assistir mais de 700 jogos do seu time do coração no estádio e entrar para a torcida organizada TUP [Torcedores Uniformizada do Palmeiras]. Ele relembra diversos momentos relacionados ao Palmeiras: a paixão, os causos, os jogos marcantes, os ídolos, a violência e a camaradagem das organizadas. Também relata como seu amor pelo time afetou seu casamento, fazendo a esposa classificar o Palmeiras como seu maior rival.

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História completa

P/1 - Começamos com você se apresentando, dizendo nome, data de nascimento e onde nasceu:

 

R - Eu sou paulistano, nasci em 29 de janeiro 1966 e me chamo Benedito Sergio Alves Arques. Minha mãe caprichou nisso. O pessoal me chama de Benê.

P/1 - Como seus pais se chamam e onde nasceram?

 

R - Meus pais são migrantes, vieram do interior de São Paulo. Meu pai se chamava Diogo Arques, natural de Bernardino de Campos e minha mãe, Valdomira Guilhermina Alves Arques, natural de Santa Cruz do Rio Pardo. Sou paulistano da Lapa. Meus pais vieram para São Paulo em 1962, por causa da falta de trabalho no interior. Meu pai era pedreiro, minha mãe, costureira. Eles chegaram aqui e tiveram grande ajuda da Sra. Sara Martínez Nieto, se estabelecendo na Vila Aída. Meu pai foi tocando a vida como pedreiro e minha mãe como costureira. Tenho uma irmã que nasceu em 1960, no interior.

 

P/1 - Como era a relação com seus pais na infância?

 

R - Quando meu pai faleceu eu tinha nove anos. O que eu me lembro dele nesse período é que era uma pessoa brincalhona, conversava comigo. A minha mãe também, sempre de bom humor. Só que a mãe ficava com a tarefa de educar os filhos, então, se alguma coisa desse errado, e sempre acontecia comigo, eu acabava apanhando um pouquinho.

 

P/1 - Como foi sua infância, como você cresceu? Do que brincava?

 

R - A minha infância foi muito divertida. Antigamente, não tinha essa violência que tem hoje, a gente brincava na rua, tinha muitos amigos, era diferente. Eu vejo minha filha que brinca sozinha, com vídeo, desenho ou brinquedo. Aproveitar mesmo, só no final de semana quando conseguimos trazer uma priminha pra dentro de casa, diferente do começo da década de 1970 quando todo mundo brincava na rua, jogava futebol, esconde-esconde, pega-pega. São brincadeiras, eu acho, que hoje ninguém mais conhece, não tem como deixar a criança na rua.

P/1 - Onde estudou?

 

R - Do pré até a sexta serie foi na escola Vitor Oliva, na Vila Aida. Depois nos mudamos para o Jaçanã e estudei em outra escola que se chamava Eurico Figueiredo. Meu pai não nos deixou uma casa, nos mudávamos sempre que necessidade surgia. Em 1980, fui morar em Cerqueira César, interior de São Paulo onde tínhamos parentes, mas acabou não dando muito certo e fiquei só um ano, dos 14 aos 15, mas um ano de muitas memórias boas. Eu era de fora, estava em um lugar diferente, recebia atenção especial, a cidade era pequena, foi tudo muito bom. Éramos três: eu, minha irmã e minha mãe. Quando meu pai morreu, minha irmã tinha 15 anos e já trabalhava. Eu comecei aos 14, como office boy, e no interior, trabalhei sem registro por um ano em uma casa agropecuária, onde eu e outro moleque mais destruíamos as coisas do que vendíamos. Voltei para São Paulo em 1981, arranjei emprego e terminei o colegial no Fernão Dias, em Pinheiros. Estudava à noite e trabalhava como office-boy em uma firma de publicidade, que tinha um pessoal bem louco.


P/1 - Louco por quê?

 

R - A ideia de empresa é um lugar com chefe, de quem você recebe ordens. Como era uma firma de publicidade e tinha essa coisa de criação, eu fazia ideia de que trabalhar em uma agência, com aquele ambiente muito liberal, seria e foi muito divertido. Tinha umas fanzines onde um tirava sarro do outro e para um menino de 15 anos, aquilo era o máximo. Até pensei em fazer publicidade na época porque admirava muito o pessoal com quem trabalhava, mas foi algo passageiro.

 

P/1 - Como era seu processo de adaptação com essas mudanças todas?

 

R - De início, foi mais difícil para minha mãe que chegou até a ficar doente. Nós morávamos no Alto de Pinheiros, um lugar bem localizado que em 1979/80, não tinha problemas com drogas ou violência. Não era tão elitizado como é hoje, mas não tínhamos esse tipo de problema. De repente, mudamos para o Jaçanã: um bairro distante, mais popular e o problema das drogas bem presente. Foi lá que comecei a ouvir que alguém usava drogas, porque na Vila Aída, até meus 15 anos, isso não acontecia. Sem falar que era muito longe de tudo.Para minha mãe, foi um baque muito grande e para mim, em um primeiro momento, foi complicado perder contato com amigos, tanto é que minha mãe chegou a levar um amigo de infância para passar as férias de junho comigo. Passado o choque me vi em outra realidade. Na Vila Aída, eu tinha por baixo, uns 20 amigos e no Jaçanã, quando íamos jogar bola, tinha entre 30/40 moleques reunidos. Aquilo passou a ser uma festa. Antes, quando eu ia empinar pipa, por exemplo, tinha seis no ar. No Jaçanã, não dava para contar a quantidade. Era um bairro cercado de favelas na época, como a pipa é um divertimento barato, todo mundo podia empinar. Se por um lado sofri por me mudar para longe dos amigos, por outro, ganhei milhares de novos amigos. Foi muito divertido para mim, mas só percebi que aquilo tudo fez muito mal para minha mãe depois.

 

P/1 - Para que time você torce?

 

R - Graças a Deus, Palmeiras. (risos)

 

P/1 - Quando surgiu esta paixão?

 

R - Muito cedo. Além da minha família ser muito grande, a maioria é palmeirense. Meu pai era palmeirense, mas não tão fanático quanto eu – tenho recordações antes mesmo de ir ao estádio relacionadas ao Palmeiras – meus primos vinham do interior para assistir jogos importantes; nos reuníamos em casa e íamos ao Morumbi ou ao Parque Antártica. Antes mesmo do meu pai morrer, o Palmeiras sempre esteve muito presente na minha casa.

 

P/1 - Quem alimentou esta paixão pelo time?

 

R - Foi natural. Meu pai morreu muito cedo sem ter a oportunidade de me levar ao estádio; por incrível que pareça, a Vila Aída é um bairro atípico para torcedores – isto pode ser comprovado estatisticamente; o Palmeiras é a segunda ou terceira maior torcida, apesar de ser motivo de briga porque uns acham que é o São Paulo e outros o Palmeiras, mas na Vila Aída o Palmeiras é o quarto colocado em torcida – não sei o que ocorre lá, mas como em todo lugar, o Corinthians ganha, seguido pelo São Paulo em segundo lugar, pelos santistas e só então Palmeirenses. De 20 pessoas sempre, era eu e mais um ou outro palmeirense. Em 1977, quando comecei a torcer de fato, indo aos estádios, eu tinha que me virar sozinho, arranjar alguém que fosse ao jogo. Mas continuei a ser palmeirense, mesmo sendo a época ruim do time, que desde 1976 deixou de ganhar títulos, e apesar da pressão que sofri de um primo mais velho que me chantageava para ir ao jogo do São Paulo e Palmeiras vestindo a camisa do São Paulo – eu ia, mas vestia a do Palmeiras por baixo e ficava lá torcendo. Esse meu primo era meio gago quando ficava nervoso e a primeira vez que fez isso comigo, eu tinha 11 anos, exatamente num jogo entre São Paulo e Palmeiras em 1977. Fui com a tal camisa do São Paulo e fiquei no meio da torcida. O jogo, muito disputado, seguia empatado em 0 x 0, até chegar aos 40 minutos do segundo tempo, quando um jogador do Palmeiras chamado Toninho, bateu um pênalti na trave; tinha me levantado para ver e quando a bola não entrou, não me segurei e soltei um uhhhhhhhhhh! Que fez meu primo gaguejar muito tentando explicar aos são paulinos se eu era ou não palmeirense. (risos)

 

P/1 - Você começou a frequentar os estádios sozinhos? Tinha uma turma?

 

R - Íamos eu, um amigo meu companheiro de campo, que se chamava Brasílio, o único palmeirense da Vila Aída, um ano mais velho do que eu. Não havia o problema da violência, por isso, fui criado solto na rua. Íamos de bicicleta para a Lapa, Pinheiros. Pegávamos o ônibus sem pagar passando por baixo da roleta e íamos ao Parque Antártica. Desde 1977 que acompanho os jogos do Palmeiras. Nós tínhamos que arranjar um jeito de entrar sem pagar porque não tínhamos dinheiro. Em 1978, a Federação Paulista lançou uma carteirinha que liberava de pagamento menores até 14 anos, desde que fossem acompanhados dos pais fazê-la. Para mim, foi uma maravilha. Convenci todo ano minha mãe a tirar um dia na semana e ir até a federação para fazer a carteirinha, aí sim eu não perdia jogo nenhum. Assistia jogo até de outro time.

 

P/1 - Qual a sensação de ir, chegar ao estádio pela primeira vez?

 

R - A única coisa que lembro do primeiro jogo foi o pênalti. Hoje eu acho que o povo engordou... Cabem 60/70.000 pessoas no Morumbi em contra partida aos 150.000 de antigamente. Tudo bem que as condições não eram as mesmas, todos ficavam apertados, mas nesse jogo de que falo haviam umas 80.000 pessoas. Imagina uma pessoa que nunca tinha ido a um estádio, que só ouvia os jogos pelo rádio – naquela época não era televisionados – chegar ao Morumbi, aquele estádio imenso, com toda aquela multidão, me lembro de ficar olhando para as pessoas para ver como torciam. Vi os jogadores entrarem em campo, mas do jogo propriamente dito não me lembro. Lembro do pênalti. Foi uma coisa diferente, mas foi amor à primeira vista. Me senti, soube que era ali que eu tinha que estar – quando estou em São Paulo, tem jogo do Palmeiras e eu não vou, fico meio doente.

 

P/1 - Quantos jogos você acha que já assistiu?

 

R - Ontem à noite, estava fazendo os cálculos e no estádio eu já assisti a mais de 700 jogos, desde 1977. Quando fiz 13 anos, entrei para a torcida uniformizada (TUP) e então acompanhava todos os jogos, inclusive os realizados no interior, mas com certeza foram mais de 700 jogos.

 

P/1 - Como era participar de uma torcida uniformizada nessa época? Você tinha quantos anos?

 

R - Eu tinha entre 13 e 14 anos quando eu entrei para a torcida e achava muito bonito. Eles tinham coreografias, estavam todos uniformizados e com bandeiras. No início, é realmente isso. Quando eu entrei, acho que foi em 1982... Não, foi em 1980, era uma torcida organizada. Em 1987, quando saí, era uma gangue organizada. Acho que essa imagem está mudando, mas começou a ter muita briga e eu comecei a sentir que ali estão torcedores que amam o time realmente e também dividem seu amor entre time e torcida – são torcedores da torcida também – não cabe divisão, e no meu caso, eu torço só para o Palmeiras, eu sou torcedor do Palmeiras. Não consigo torcer para a torcida, nem me ver batendo em outra pessoa porque está usando a camisa do outro time. Azar dela se torce para outro time. Para mim, já está bom de mais... (risos). Torça para o Corinthians, que eu torço para o Palmeiras – eu não vou brigar. Em 1986, quando as brigas começaram já tinham acontecido outras antes, mas era coisa de um contra um ou dois contra dois. Quando começou o confronto mesmo, com muita gente, você ficava em situação complicada – porque você tem amigos ali dentro que nem sempre são honestos, mas são seus amigos. Você faz parte daquele grupo e se alguém começar uma briga, apesar de errada, talvez dentro de uma ética do torcedor (que nem sei se pode ser chamado assim) você vai querer acompanhá-lo, defendê-lo. A partir do momento em que participei de uma briga por esta razão, eu saí fora. Eu tenho amigos que continuam na TUP, que é mantida por pessoas dedicadas, apesar da fase de extinção que enfrenta. As torcidas uniformizadas têm outro lado que é social e é bonito, mas como todo ajuntamento de pessoas há os bons e os ruins. No começo foi uma fase de deslumbramento pelo visual e pelo que faziam, depois vi que não era aquilo que eu queria. Eu gosto de torcer para o Palmeiras, de estar no estádio.

 

P/1 - Você chegou a integrar os quadros da torcida, de direção?

 

R- Não. Isso daí é uma coisa que percebi que leva certo tempo. Como toda organização, tem aquela famosa panelinha, e também não era uma coisa que me interessava. Você pegar uma coisa dessas, que teoricamente não tem fins lucrativos, onde não há salário e você vai ter que dispor do seu tempo, como adolescente que eu era, não cabia. Eu trabalhava de dia e estudava a noite, final de semana, saia para me divertir, então, eu não me via ali trabalhando para a torcida, porque você realmente tem que trabalhar, o que nunca me interessou.

 

P/1 - Quais são as imagens mais marcantes que você tem dos jogos que participou? Que você assistiu?

 

R - Bom, tenho várias. Tenho um arquivo imenso na minha cabeça de jogos importantes, alguns que marcaram mais que outros – como um jogo em 1979, apesar de eu ser bem novo, me lembro que foi uma fase em que o Palmeiras foi dirigido pelo Telê Santana; era um time novo, não tinha muitos talentos conhecidos: tinha o Jorge Mendonça, jogador que tinha disputado a Copa, Rosemiro, um lateral muito bom, mas sem grande projeção porque havia outros melhores e os outros, todos moleques. O Telê Santana, com toda a capacidade que tinha – acho que foi ali que ele apareceu de fato – montou um time que jogava por mágica. Na época, um pouquinho antes de entrar para a torcida, eu já ia a todos os jogos e me lembro que foi um Campeonato Brasileiro diferente, com 96 clubes separados entre 300 chaves; o Palmeiras caiu em uma chave basicamente local com Santos, Portuguesa, Comercial e São Bento, Dalí sairia um classificado para a próxima fase. Eu fui aos quatro jogos seguidos: 5 x 1 Santos; 5x1 Portuguesa; 5x1 Comercial e 4x0 São Bento. Foram 19 gols em quatro jogos – era uma coisa que não dava para esquecer.

Me lembro que no jogo contra o Santos, o goleiro chamava-se País – um negro enorme que veio do nordeste - no quinto gol do Palmeiras, um jogador novo com 19 anos na época chamado Jorginho, meu grande ídolo na adolescência – apesar da gente não ganhar nada, ele marcou um gol dando um chapéu no País. A hora que ele saiu para comemorar o goleiro saiu atrás dele... Foi uma coisa que marcou. Acabando esta fase, o Palmeiras ia disputar uma quarta de final contra o Flamengo – só que o Flamengo da época era um esquadrão: Raul (tremendo goleiro), Leandro, Mozer; o meio de campo era Andrade, Abílio e Zico – não precisava falar mais nada; tinha Júnior, Nunes – era um timaço! E o Márcio Braga, que está aí até hoje (o pessoal não larga esse negócio de futebol, deve dar muito lucro). Quem ganhasse, faria o primeiro jogo contra o Internacional em Porto Alegre – ele reservou hotel, comprou as passagens para o Flamengo e disse que os moleques do Palmeiras iam tremer o Maracanã. Dia de jogo, estádio lotado com mais de 150.000 pessoas – eu briguei para a minha mãe fazer a autorização e ela não cedeu (lógico, né? Nem tinha dinheiro para pagar a passagem), assisti pela TV a vitória de 4x1 do Palmeiras em cima do Flamengo lá no Maracanã. Foi esse jogo que fez com que o Telê fosse para a seleção. Me lembro que aquilo, mesmo corintianos, são paulinos, santistas, foram para a principal avenida chamada Guapira, no Jaçanã, comemorar a vitória inesperada e de forma tão bonita que todo mundo quis celebrar. O primeiro jogo que marcou foi esse, depois vieram outros, que marcaram para o lado bom e lado ruim.

 

P/1 - E as histórias de torcedor? De assistir o jogo em campo, de ver os companheiros lá suando?

 

R - É assim: quem vai ao estádio, mesmo que não goste de futebol, mas se gostar de analisar o comportamento humano, vai se divertir – nem precisa olhar para o campo – você vê as pessoas, e isso acontece comigo também, eu me acho um pouco racional, só que com o Palmeiras eu não consigo – entramos como torcedor mesmo, e às vezes, estamos xingando um jogador o tempo todo, de repente, ele marca um gol e passa a ser nosso ídolo do momento – começamos a cantar o nome dele (risos).

 

P/1 - Como é a vivência no estádio?

 

R - A gente sofre junto, por exemplo, eu tenho esse amigo – o Brasílio – até hoje vamos juntos ao estádio. Eu tenho mais tempo junto com ele do que com a minha mulher; vamos ao estádio todo jogo – imagina: ele começou a ir depois de 1980, fase do exército, e sofremos aqueles 16 anos de filas – a gente ia, torcia, voltava “p” da vida porque o Palmeiras não ganhava nada de título – ganhava muito jogo, mas chegava à fase final e perdia. É um negócio engraçado – às vezes você está com uma pessoa que até então não conhecia, e quando sai o gol, você sai abraçando e beijando... Extravasa o sentimento – ser torcedor é uma coisa diferente – não dá para você explicar. Você vai falar assim: vou lá, ficar sentado e torcer, tem gente que até consegue fazer assim, mas eu não o considero um torcedor e sim um espectador. É diferente.

 

P/1 - Você guarda os ingressos?

 

R - Até 1988, os ingressos eram devolvidos – eram de papel e tinham um canhoto. Eu tenho alguns desses ingressos – minha mãe fez um pequeno favor para mim (risos) – eu tinha um baú onde guardava um monte de coisas, inclusive a coleção de gibis. Quando casei, o baú ficou ali guardado e ela acabou doando para o garrafeiro (risos) e nessa, se foram alguns canhotos; mas eu tenho boa parte. Depois, ele passou a ser eletrônico – você passava na máquina e ficava retido – hoje em dia, no estatuto do torcedor, diz que quem vai ao jogo tem o direito de ter o comprovante, então, de um mês para cá, eles estão devolvendo; dos novos, tenho só quatro, dos antigos, uns 100 mais ou menos.

 

P/1 - Você colecionava esses álbuns de figurinha?

 

R - Eu não peguei muito álbum de figurinha porque isso daí é um pouco mais antigo – eu lembro que na década de 1980, tinha o Futebol Cards – um tipo de cartão – mas meu problema era que vivíamos em uma situação financeira meio complicada; minha mãe era costureira, eu era office boy e não sobrava muito dinheiro, mas sempre que dava eu comprava – lembro de não ter conseguido montar os outros times, mas tinha o do Palmeiras inteiro, eu trocava ou acabava comprando o jogador, mas nunca fui muito de comprar figurinhas porque não tinha condições financeiras. Mas gostava e quando podia, comprava.

 

P/1 - Tinha uma também que vinha no chiclete?

 

R - Esse era o do Chiclete Futebol Cards – era da Ping Pong – vinha com dois chicletes e um cartão – coisa muito comum na Europa. Depois, nunca mais lançaram por aqui, mas sei que foi no começo da década de 1980.

 

P/1 -Você estava como torcedor, mas também jogava bola?

 

R - Jogo até hoje.

 

P/1 - Nunca teve a pretensão de jogar como profissional?

 

R - Tive a pretensão de jogar como todo moleque, mas a minha técnica é mínima. Eu jogo muito é por vontade. Na Vila Aída, tínhamos um time bom, inclusive são os irmãos da Carla – eu era o único que não era da família – eram os Nietos – dois irmãos dela e quatro primos – e eu, que era de fora. Tínhamos um time de salão que hoje acabou, cada um foi para um lado. Era muito bom esse time. Eu acabei fazendo teste – punha minha chuteirinha e ia – era um jogador sem técnica, mas como chutava muito forte, marcava muito gol. Depois que passou a adolescência, vi que não era nem 1/10 do necessário para ser profissional – isso na minha época – hoje, acho até que daria – o pessoal só corre, não tem muita técnica. Eu fiz alguns testes, só não consegui fazer no Palmeiras – acho que não aceitaria uma negativa, fiquei com medo mesmo. Mas fiz teste no Corinthians, Juventus, Nacional, duas vezes e no São Paulo, mas por mais incrível que pareça, o único que consegui fazer alguma coisa foi no Corinthians – esse negócio de peneira é muito injusto e tem também muito dessa história de cartucho – de gente que entra sem fazer teste – você reúne 1000 garotos, todos achando que jogam o máximo e eles entram sem entrosamento – jogam dez minutos. No Nacional, onde fiz dois testes, foi muito engraçado porque não peguei na bola – porque ninguém vai te passar a bola – cada um vai tentar mostrar o que sabe. No Corinthians, eu marquei um gol, inclusive o cara que fazia testes (nem sei se ainda está vivo) era um senhor grandão, negro, chamado Bolão – ele revelou muita gente. Eles têm um olhar clínico, sabem quando você joga bola, quando tem técnica. Eu recebi uma bola no meio, dei um pique e uma bica lá do meio (risos) e a bola entrou. Todo mundo que joga sabe que quem chuta de bico é grosso – e eu, só chuto de bico – é meu único recurso. Sei que acabei de marcar e ele me chamou: “Magrão, vem cá...Do que você aquela bola?”; aí na minha cabeça, eu falei “Vou falar que chutei de trivela, que é o jeito de chutar dos craques” aí respondi “Eu chutei de bico” – “É, eu vi. P.... bicuda, hein meu. Que golaço!” e eu: é...”Você chuta sempre de bico?” “Eu só chuto de bico, mas marco muito gol.” “É, você deve marcar muito gol mesmo. Olha, hoje, (isso eu achei muito interessante porque é um jeito simpático de falar que você é ruim) não estamos precisando de atacante, mas volta outro dia para fazer teste”. Nesse dia eles pegaram oito atacantes (risos). Depois, ouvi uma entrevista do Bolão, num desses momentos do esporte, em que dizia “... O garoto domina a bola e ele já sabe se o cara tem técnica ou não”. Quando eu dominava a bola, ela ia a três metros de distancia de mim – eu já sabia que era ruim.

 

P/1 - Para você seria uma tragédia jogar no Corinthians?

R - Não sei. Fui fazer o teste junto com outros garotos da vila e quando tinha teste no Palmeiras eu não ia. Vai ver, inconscientemente, já sabia que era grosso e não queria prejudicar meu time (risos), então, nunca fui fazer teste no Palmeiras, mas é interessante, não sei como seria a relação se pudesse jogar no Corinthians – não sei se conseguiria.

 

P/2 - Tinha um nome esse time de futebol em que você jogava?

 

R- Era ‘os Nietos’.

 

P/1 - Qual sua posição?

 

R - Eu era atacante. Ate os 23 anos, eu achava que era um bom atacante, marcava muitos gols. Tinha um dos jogadores que se chamava Mané, o Manezinho, que era o craque do time. Ele driblava três, quatro, jogava para mim na cara do gol – dava um bico e marcava gol. Como eu marcava muitos, eu me achava o bom do time, coisa que não era – na relação de valores, num time de sete, eu ficava entre o sexto, sétimo. O sétimo, eu acho - e ele discute isso comigo - que era um cunhado meu, que mora em Portugal – o Marco – ele era muito ruim, mas acha que eu era pior do que ele. Era atacante no salão, depois, descobri que se fosse zagueiro, a minha técnica seria suficiente, então, passei a ser zagueiro e hoje me considero um jogador mediano. Iludi-me querendo ser atacante, mas não tinha técnica para isso.

 

P/1 - Geralmente quando se joga futebol, você quer ser alguém do seu time em campo. Você era alguém?

 

R - Ah! Sim – Jorginho. Quando eu era moleque e jogava na rua - inclusive está lá até hoje e disse para minha filha, que retrucou dizendo que eu já havia falado isso – acho que vamos ficando velhos e repetindo as histórias; tem a Rua Salaré, esquina com a Dr.Luiz Augusto de Queirós Aranha, um balão grande – na Copa de 1978, no primeiro jogo do Brasil, se não me engano contra a Suécia – eu não assisti porque estávamos pintando a rua para fazer nosso campinho – nós jogávamos na rua – pintamos esse balão na Copa de 1978 e vira e mexe a molecada que sobrou – que é muito raro, porque não joga, se junta e passa um calzinho porque o campinho fica demarcado.Quando eu jogava lá, e isso durou até 1978, porque fui para o Jaçanã, por pouco tempo para mim e depois também, quando marcava um gol, saía: gol do Jorginho – todo moleque falava isso – um era o Waldir Peres, outro, o Leão... A gente tem esse ídolo de infância, se põe no lugar dele jogando bola e sai comemorando como se fosse um gol dele.

 

P/1 - Você se considera um apaixonado enlouquecido pelo Palmeiras?

 

R - Sim, com certeza. Acho até que isso faz mal para relação com minha esposa de vez em quando, mas acho que ela já se acostumou – é uma coisa que não consigo controlar. Não saio discutindo com ninguém – gosto de tirar sarro e só faço isso com alguém que aceite – é uma coisa até doentia com o Palmeiras. Estão jogando: Palmeiras x Itumbiara, jogo treino – eu tenho que ouvir pelo menos, se não fico desesperado. Já fui a casamento e saí cinco, seis vezes para ir ao carro saber quanto está o jogo; isso porque minha mulher brigou muito – eu ia de walkman e ela: ”Isso não vai pegar bem...” é uma relação complicada. O problema maior é que eu sei que é doentio, uma coisa que foge à normalidade, mas que é normal para quem é torcedor. Quando estou na torcida, onde tenho amigos antigos, eu conheço um monte de gente que é igual e se você for para o lado do Corinthians, que é uma torcida maior, vai ter muito mais gente assim, ou seja, para o torcedor é normal.

 

P/1 - Qual foi a coisa mais absurda que você fez por causa do futebol?

 

R - Dormi quatro vezes na porta do estádio para comprar ingresso. A última vez foi a mais absurda – sei que minha mãe entendeu – ela estava com uma doença terminal: câncer, já no finalzinho de vida; sei também que ela fez um esforço para dizer que estava bem para que eu pudesse ir ao jogo – eu não tinha ido a alguns jogos e também não iria nesse porque ficaria com ela, mas minha mãe ligou para alguns primos meus pedindo que levassem o Serginho (mico terrível) ao estádio porque ele está precisando, ele está muito triste – foi o jogo de 2001, semifinal da Libertadores contra Boca jr.; eu já sabia como funcionava a organização de venda de ingressos – um absurdo, uma máfia mesmo para sobrar para cambistas (alguém deve estar lucrando). Para garantir ingresso, perguntei se minha mãe estava bem mesmo e fui. Era um domingo. Essa última vez eu achei a mais absurda de todas, depois fiquei vendo. Dormi na porta para comprar ingresso. Tenho certeza de que ela se segurou até quinta-feira falando que estava bem... Foi se segurando até depois do jogo quando foi para o hospital e não voltou mais. Essa foi a maior loucura que fiz. Eu sabia que ela estava me enganando, mas eu também precisava ir naquele jogo. É difícil entender essa situação; não me sinto culpado porque sei que ela me forçou a isso, me enganou,  acho que essa foi a pior coisa que fiz pelo Palmeiras.

 

P/1 - Sua mulher vai ao estádio com você?

 

R - Não. Ela fala que é anti-palmeirense; o Palmeiras é seu grande rival (risos), ainda assim, eu me considero um bom marido e um bom pai. Eu tenho esse negócio de ir ao estádio e ela sabe disso; minha mulher estudou comigo desde pequena, minha sogra fez o curativo do meu umbigo, desde pequeno ouço aquela conversa de que eu seria o genro ela – apesar de que, quando eu quis namorar a filha dela, ela não deixou. A gente se conhece – ela sabia que eu era meio louco pelo Palmeiras. Quando eu estava na fase de querer namorar, abandonei um pouquinho meu time, depois que pegou firme, eu voltei – agora que já está garantido (risos)... Ela não vai ao estádio, se diz são- paulina e que torce contra o Palmeiras. Consegui levá-la ao estádio uma vez, jogo entre Brasil e Argentina na eliminatória da Copa de 2002 – foi em 2000; ela adorou. Eu olhei para o lado – e nesse dia eu até me comportei – ela estava xingando o juiz mais do que eu; ela gostou. Estádio é um lugar divertido; acho que as pessoas comuns, que não são torcedores, não vão ao estádio por causa do problema da violência, por não ter conforto. Você terá que deixar o carro na rua, pagar R$ 10,00 ao guardador, vai sentar em um ‘cimentão’ horrível; o Morumbi fez uma adaptação e colocou um meio banco um degrau que tem 70 cm e quem não tiver pelo menos 1,70, fica na ponta do pé, com uma dor na coluna terrível – não tem conforto – mas quem souber disso e aceitar essa aventura, vai se divertir com certeza, lógico que se tiver violência, a pessoa não volta mais. Um jogo entre Brasil e Argentina, onde teoricamente a torcida fica toda do mesmo lado, não houve problema e ela gostou bastante.

 

P/1 - Você não vai ao estádio assistir jogo de outro time?

 

R - Vou. Hoje não muito porque ela fica brava por eu ir aos jogos do Palmeiras, se eu for em outros jogos, ela ficará ainda mais brava e com toda razão.Trabalhamos o dia inteiro e se no momento que tivermos para ficar junto, eu me afastar... Já vou aos jogos do Palmeiras; estou evitando de outros times, mas gosto muito de futebol. Se pudesse, assistiria aos jogos de todos os times – mas nem poderia – estádio não é uma diversão barata, se for contar, são R$ 10,00 de estacionamento, R$ 10,00 de ingresso e comer alguma coisinha, fica em torno de R$ 30,00; quando levo minha filha, gasto R$ 50,00 por baixo; não dá para ir toda hora.

 

P/1 - Qual é a sua seleção dos sonhos? Do Palmeiras?

 

R - De imediato e eu posso fazer alguma injustiça, mas os melhores jogadores que já vi no Palmeiras e considero são: o goleiro Leão, lateral direito Arce, zaga (sem nenhuma dúvida) Luis Pereira, o maior jogador que já vi em campo (apesar de vê-lo na segunda fase) Vagner Bacharel (que atuou junto com Luis Pereira) e Júnior que agora está na Itália; meio de campo – César Sampaio, Jorginho e Zinho (apesar de sua última fase); na frente – Edmundo, Evair e aí fica meio complicado – coloquei o Zinho no meio... O Rivaldo, que jogou pouco, mas jogou bem. O maior jogador do Palmeiras e que eu vi atuar, foi Luis Pereira. Foi em uma fase ruim; ele tinha ido para Espanha, voltou para o Flamengo e para o Palmeiras, em 1982, numa época terrível - o time era muito ruim, mas ele tinha categoria – era zagueiro e saía jogando com a bola, diferente de hoje. Na época, o Palmeiras tinha três jogadores: Vagner Bacharel, um cara que veio meio a contra peso, ninguém conhecia; Luis Pereira e Jorginho. Rubens Minelli, que era o técnico, começou uma jogada – o Jorginho batia o escanteio no segundo pau, Vagner cabeceava e Luis Pereira marcava, ou o contrário, Luis Pereira no segundo pau tocava pro Vagner; todo jogo tinha um gol desse. Os dois zagueiros eram os maiores atacantes; acho que o Palmeiras fez uma grande injustiça com Luis Pereira – ele está na Espanha – não deve estar por causa do dinheiro, porque não deve ganhar muito – como técnico do time B do Atlético de Madri, podendo estar aqui no Palmeiras. Na minha opinião, Ademir da Guia, Luis Pereira e Dudu, deveriam ser pagos pelo Palmeiras só para andar pelo Parque Antártica para ver se os outros jogadores captam alguma coisa; amor à camisa é coisa antiga, que já não existe mais, porém, é preciso ter comprometimento com o time. Não pode estar hoje em um time - o futebol envolve – pessoas como eu, que ficam doentes, tristes, são a grande maioria dos torcedores. É preciso ter a visão de que se eles não levarem a sério a profissão deles, estarão prejudicando uma pessoa que gosta porque haverá tristeza, desilusão. Tirar sarro é normal, isso é o gostoso do futebol, mas quem é torcedor fica triste mesmo, envergonhado ás vezes. Tinha que ter comprometimento, gente como: Ademir da Guia, Dudu, Luis Pereira e César – dentre muitos que passaram – tem um carinho pelo Palmeiras, basta ouvir quando falam; isso poderia ser transmitido aos novos jogadores.

 

P/1 - Como foi o primeiro título depois desse jejum?

 

R - Se tivéssemos feito um roteiro, não poderia ter sido melhor. Ninguém conseguiu imaginar uma coisa assim. Foram 16 anos, quase 17 de fila; era aquele negócio que não dava certo. O time estava bom, mas chegava no último jogo e por algum detalhe, perdia. De repente, a Parmalat tinha chegado – não sei se esta estatística já foi feita, mas o Palmeiras subiu do sexto lugar em 1988/89 uma posição por ano até ser campeão em 1993. Foi melhorando; parecia coisa que vinha de encontro - a Parmalat chegou e deu a força, montou um super time. Imagina estar a 17 anos na fila: uma final contra o Corinthians, uma campanha onde a vitória valia dois pontos; o Palmeiras com seis pontos a mais que o Corinthians; a final se deu em dois jogos – perdemos o primeiro por um a zero – ganhamos o segundo por dois a zero – mas, se perdêssemos na prorrogação, o título seria do Corinthians – uma coisa meio injusta. Perdemos o primeiro jogo e todos pensaram que ficaríamos na fila de novo. No segundo jogo, 12/06/1993, dia dos namorados (minha mulher ficou muito brava comigo), saí de casa as dez da manhã e não poderia ter sido melhor – há 17 anos na fila, sair dela jogando contra o Corinthians, ganhando por quatro a um - apesar deles reclamarem que o juiz havia roubado – queria saber em qual dos quatro gols houve o roubo – não tem como discutir quatro a zero. Não teve melhor. A melhor saída de fila possível foi a do Palmeiras. Naquele dia eu fui para Av. Paulista – via-se velhinhos de 70, 80 anos gritando o grito de guerra da torcida, xingando o Viola – aquilo foi o máximo, foi a felicidade plena. O palmeirense se realizou em 1993.

 

P/1 - Qual a situação mais engraçada que você viveu no estádio?

 

R - Já vivi muitas; a mais engraçada de todas dava uma cena de filme: 1982, o Corinthians tinha um timaço que era a democracia corintiana – Biro Biro, Sócrates, Zenon, Casa Grande, Vladimir – o Palmeiras tinha um time meia boca, mas um grande técnico: Rubens Minelli – o estrategista da época – ele montou um time com Luis Pereira – aqueles três jogadores que o Palmeiras tinha – não havia condição para ganhar do Corinthians – o maior jogador corintiano – Sócrates –foi marcado por um jogador horrível do Palmeiras, o Márcio – o Minelli chegou para ele e disse: você marcará o Sócrates – esse jogo, foi a primeira vez que fui na cadeira cativa – tinha um amigo que tinha; estávamos lá (e não é porque fossem corintianos (risos) mas dois caras pularam da geral escalando a grade – isso acontece em todos os jogos, não só do Corinthians; um deles era um negro tão gordo que a camisa ficava na altura da barriga, além de um sotaque nordestino muito engraçado. Ele sentou perto – na cativa numerada, fica todo mundo junto – nesse jogo, o Márcio ganhou como melhor jogador em campo porque marcou o Sócrates, porém, ele não deixava o Sócrates andar – acho até que na época, o juiz errou – ele deveria ter sido expulso pela quantidade de faltas (não pela violência) – o Sócrates dava dois passos e sofria falta; aquilo estava irritando até a torcida do Palmeiras porque parava o jogo todo o tempo, até que aos 38 minutos do segundo tempo, Márcio fez uma falta no Sócrates agarrando a camisa – Sócrates tocou para Zenon, recebeu na frente e então foi de novo agarrado pelo Márcio – nisso, o rapaz negro se levantou e gritou: “Largue dele gonorréia” (risos) – acabou o jogo para todo mundo – foi muito engraçado (risos); é uma coisa que eu guardo e conto para todo mundo. O jogo acabou em um a um, Márcio foi o melhor em campo (eu não achei, mas os comentaristas da época acharam que sim). No jogo seguinte, o Minelli fez o mesmo esquema, mas quando o Márcio desgrudou um segundo, Sócrates marcou e o Corinthians foi para a final contra o São Paulo. Nem sempre dá certo o medíocre ganhar do craque, só de vez em quando.

 

P/1 - De técnicos do Palmeiras, que você acompanhou, qual...?

 

R - Luiz Felipe Scolari. Eu considero até hoje o Luxemburgo como o melhor técnico da atualidade, isso falando de técnicos. O Luiz Felipe Scolari é outra categoria. Eu posso falar dele porque falei mal durante um ano. Eu achava que aquele estilo que ele estava implantando no Palmeiras não tinha a ver com a história do time. O Palmeiras tem o ‘apelido’ de Academia de futebol não é à toa. É um time que sempre jogou cadenciado e primou pelo toque de bola; na época ruim, na fase que não ganhávamos nada, a Taça Jornal da Tarde, dada ao time que marcasse mais gols, foi nossa por quatro vezes seguidas – um time que não foi campeão, mas era o que mais marcava gols – esse era o estilo de futebol, baseado no futebol arte, bonito. A raça era coisa relacionada ao Corinthians – sempre foi um time de raça, de massa – com a chegada de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras, nós estávamos mal acostumados; tínhamos sido campeão Brasileiro em 1993/94, Bi- Campeão e Campeão Paulista. O Luxemburgo fez aquele time de 1996, que é o time dos sonhos, com 102 gols marcados – bonito de se ver jogar- de repente, chega um Luiz Felipe Scolari e implanta aquela filosofia gaúcha do time ter que marcar, se só ganhar de um a zero, ele marcava um a zero e fechava o time... Isso não entrava na cabeça do palmeirense mais tradicional; eu me considero mais tradicional, saudosista até de ler a história e achar que tinha que ser daquele jeito. Então falei mal durante um ano – de 1997 a 1998, na final do campeonato contra o Cruzeiro, quando o Palmeiras marcou o gol e ele teve aquela atitude antidesportiva, mas totalmente de torcedor, de ficar com a bola e jogar para atrapalhar o jogo – ele conquistou a torcida ali – eu passei a vê-lo como um torcedor,sei lá, um psicólogo, um motivador – eu vi o Palmeiras fazer coisas que nunca tinha visto em matéria de raça - corríamos mais – tem uma coisa que não gosto de fazer que é dar ponto para corintiano, mas tenho que fazer - eu passei a ver porque a torcida do Corinthians cresceu tanto – porque você ter um time que joga bonito e um time que joga na raça, pode ter certeza que o time de raça vai ter mais torcida – é mais gostoso ver isso – um cara que dá mais dribles em dez pessoas aplaudindo; um cara que dá um pique, consegue dar um carrinho e salvar a bola, 100 pessoas irão aplaudir. Quando o Luiz Felipe saiu do Palmeiras, depois de cumprir totalmente seu contrato, coisa que Luxemburgo nunca fez (risos), ele foi para a seleção e eu falava para todo mundo: deixa esse homem um mês no hotel com os jogadores da seleção e vocês vão ver o que ele consegue;o cara é bom, tem estrela. O Luiz Felipe Scolari, apesar de Telê Santana (que eu acho o maior técnico de todos os tempos) já ter passado pelo Palmeiras, montou um grande time e não ganhou nada, diferente do Luiz Felipe Scolari, que ganhou o título da Libertadores - tão perseguido pelo Palmeiras – além de fazer tudo o que se propunha. O maior técnico que o Palmeiras teve nessa época. Logicamente que os mais antigos dirão que foi o Filpo Nunes ou outro; na minha opinião, foi Scolari.

 

P/1 - Como você se sentiu quando o Palmeiras caiu para segunda divisão?

 

R - Meio absurdo o que eu vou falar, mas foi como se tivesse morrido um filho meu. Eu fiquei uma semana muito mal; chorei muito (sempre escondido senão iam tirar sarro), mas é o cúmulo do absurdo para um time como o Palmeiras, não se imagina. Quando começa qualquer campeonato, o Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Vasco, São Paulo, são candidatos a ganhar a taça, não dá para imaginar, principalmente em um país corrupto como o nosso, onde os times grandes sempre são favorecidos – acho que existe isso, embora não saiba como comprovar – um ajuda o outro e time grande não cai. Apesar de ser totalmente contra e nisso sou sincero – tenho muito orgulho do meu time estar disputando a segunda divisão – disputando mesmo. Não perdi nenhum jogo, o estádio está sempre lotado, mas foi triste mesmo – é um processo de crescimento do time e não sei se o pessoal sabe, não foi muito divulgado, mas o Manchester ficou quatro anos na segunda divisão, na Europa; na Itália, só a Juventus não disputou segunda divisão – é algo natural, você está em um jogo – perde – mas isso tem que acontecer dentro do campo. Esse orgulho é do Palmeiras, eu não sei se dependesse só dos dirigentes, se não teriam dado um jeito.

 

P/1 - O que mudou na sua visão de torcedor no estádio, do final dos anos 1970 para agora? Que imagem, que coreografia? Havia bandeira, papel higiênico?

 

R - Visualmente era mais bonito. Tinha a possibilidade de ir com a bandeira, tinha muita criança, muita mulher com bandeira pequena; as torcidas tinham aquelas bandeiras enormes, depois na década de 1980 apareceram àquelas bandeiras gigantes que cobriam o torcedor, tinha o lance do papel higiênico que acabou sendo motivo de briga porque quando o papel era jogado, acabava acertando na cabeça do outro; picávamos papel... A torcida do São Paulo, tinha fama de pó de arroz, mas eles jogavam farinha – pó de arroz é muito caro – era legal. A coreografia era mais bonita e do começo para cá, o que mudou foi isso: você hoje não tem mais a possibilidade de levar instrumento musical (apesar de achar que está voltando); bandeira; não pode mais levar papel higiênico hoje, por medida de segurança. Ficou uma coisa assim meio... A imagem era assim: antigamente era o torcedor fazendo festa, hoje, a torcida organizada passa um pouco de violência – tem esse problema de briga, do torcedor ‘normal’ chegar e sentar num lugar e de repente chega a torcida organizada e o tira de lá porque é o lugar deles... Esse tipo de coisa. Da mesma forma que a violência mudou na sociedade - nos anos 1970/80 não havia tanta violência como há hoje – isso tudo é consequência do problema social; da mesma forma que tudo está violento, há reflexo disso no estádio.

 

P/1 - Tem mais alguma história que você gostaria de contar pra gente?

 

 R - De futebol? De torcida é meio complicado porque tem algumas que são assim... O pessoal está xingando... Tem problema falar palavrão?

 

P/1 - Não.

 

R - Tem umas coisas que a gente não consegue entender no Morumbi. Eu assisti um jogo onde pensei – o que este cara está falando? Tinha um figura sentado uns três degraus atrás e ele ficou o jogo inteirinho gritando: Chavasca! Falei: meu, o que é isso? Esse foi o primeiro jogo em que o vimos no meio da TUP. Hoje (isso já faz uns 15 anos), ele tem um nome – é o Chavasca – quando ele aparece, alguém grita ‘Ô Chavasca, vem pra cá’ (risos). Esse tipo de gente, eu já vi em estádio. Eu levava o filho pequeno de um primo que entrava junto com os jogadores – e já tive até que sair correndo com ele no colo por causa de briga – teve um lance engraçado e até um pouco violento – por isso foi proibido – não tem mais aqueles potinhos de ketchup solto – você está sentado lá no meio da torcida (hoje eu sento lá no último degrau para evitar copinho de urina, essas coisas) de repente voou a tampinha do negócio de ketchup e bateu em alguém – os caras falaram ‘joga a mãe’ – o pote é jogado. Já fui num Palmeiras e Bahia, no Pacaembu, em 1994 – chegou o dia do jogo – no sábado, tinham jogado Corinthians e Vitória – um pouquinho antes do jogo, um cara parou do meu lado, bêbado, mas muito bêbado mesmo, inchado e falou arrastado: será que o Corinthians ganha hoje? ‘Amigo, você torce para o Corinthians?’– Bicho, o jogo do Corinthians foi ontem... Meu, você dormiu aqui? Vá embora antes que alguém te bata (risos). Tem esse tipo de coisa que é divertido, mas se alguém pega o corintiano ali, mata.

 

P/1 - O que você acha do Palmeiras fazer um trabalho de memória com os torcedores? Que escute essas histórias?

 

R - Acho importante. O futebol não é explorado nessa parte cultural; a gente vê os Estados Unidos, onde o basquete, beisebol, futebol americano são vistos em N filmes. Não temos nada a ver com beisebol – nunca vou conseguir entender a regra daquilo – acaba vendo o filme e se divertindo, torcendo. Há publicações sobre um monte de jogadores de basquete... Aqui no Brasil, onde futebol é esporte nacional e prova disso é a Copa do Mundo – a pessoa pode falar que detesta futebol, mas na Copa do Mundo, não tem como não se envolver – eu acho que falta explorar esse filão do futebol – biografia de jogadores não é comum, é raro; um ou outro que tem. Agora estão fazendo um filme mais elaborado sobre o Pelé, mas ele já deveria ter uns 500 filmes sobre sua vida; é esse tipo de coisa que qualquer pessoa que goste de futebol vai atrás. Eu tenho um livro do Palmeiras, ao procurar por mais coisas, acabei achando um livro do Ademir da Guia; eu acho que falta – até recebi um folheto sobre a mudança de nome do Palestra Itália para Palmeiras – isso com certeza dava um filme. Há toda aquela injustiça (em termos), porque podia até parecer sincero na época, por são paulinos terem entrado na justiça porque o Palmeiras defendia o inimigo da pátria, que era a Itália – você ter que trazer um general para entrar com o time e mostrar que eram brasileiros – se não conseguisse mudar de nome, perderia o título – eu acho que é uma coisa legal o Palmeiras fazer isso; tem muita história – dá para fazer um livro não só sobre o futebol do Palmeiras - porque em se tratando de Palmeiras, torço até pra futebol de mesa e pago para ver – o Palmeiras é uma sociedade esportiva realmente, que tem títulos em todas as modalidades: basquete – temos jogador do clube que foi campeão do mundo em basquete eu acho muito interessante, o presidente tem que ser parabenizado, apesar de o criticarmos as vezes, por causa do time, mas é uma boa atitude.

 

P/1 - Você gostou de contar sua história aqui?

 

R- Com certeza. Poderia ficar falando até três dias sobre o Palmeiras (risos).

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