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História

Um dia escoteiro, sempre escoteiro

História de: Severino dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/07/2005

Sinopse

Severino dos Santos fala de sua infância em São Paulo, os contatos com a pesca e o escotismo. Sua Relação com a família, formação escolar e o ingresso na Light. O trabalho que realizou como professor, e sua participação na fundação de entidades e clubes. 

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História completa

P - Sr. Severino, gostaríamos de iniciar a entrevista com o nome do senhor, local e data de nascimento.



R - Nome, local e data de nascimento? Nasci na Paulicéia, na Rua Oriente, em 5 de junho de 1910.



P - O nome do senhor?



R - Einh?



P - O nome.



R - Severino dos Santos.

P - Qual era o nome do... dos seus pais? E que atividades eles exerciam?



R - Na ocasião? Bom, meu pai era... meu pai era... era... quando eu nasci papai era sargento da Força Pública, da Guarda Cívica da Força Pública, onde ele seguiu carreira. Mamãe, prendas domésticas.



P - E a casa... Onde é que vocês moravam?



R - Na ocasião? Na Rua Oriente, não me lembro o nome... o número.



P - E você tinha mais irmãos?



R - Não, eu fui o primeiro.



P - E depois?



R - Depois vieram os, os demais. Veio a Idalina, Arlindo, Alcides, Flora, Jacy, Jair, mas antes tinha... a menor Mari... Mariquinha morreu... morreu em 19... e... 1920... 22 com pouca idade.



P - Que lembranças o senhor tem da sua casa, da sua infância?



R - Bom, lembranças as mais agradáveis. Eu fui... eu fui moleque... eu fui um bom moleque. É... me lembro da... depois... onde vivi minha molequice, minha meninice mais tempo foi na Rua João Bueno. Lá é a rua das minhas saudades. A Rua João Bueno, em pleno Brás.



P - O que que acontecia lá? Que boas lembranças o senhor tem?



R - Bom, ali eu jogava... eu jogava futebol, futebol com bola de meia. Jogava... ia pescar, já nessa idade, né? O Rio Tietê era perto, fim da Rua Santa Rita e... eu tinha, tinha a minha... como todos os menores tinha a... eu tinha também a minha (trocinha?), os meus companheiros de brincadeiras. Fui moleque, como eu disse, moleque no bom sentido, sem prejudicar a paciência de quem quer que fosse. Não procurava quebrar vidraças. Fui bom. Dali... ali... ali fui... ali , ali foi não só... foi a minha meninice como mocidade. Depois mudamos para a rua... dali fomos para a Rua Casemiro de Abreu, ali fiquei noivo, casei... casei na Rua Casemi... casei na Rua Casemiro de Abreu, em 30... em 1931. Desse casamento me vieram os filhos: Yara, Paulo, Bartira, Iracema, e a família que foi crescendo, se desenvolvendo.



P - A gente gostaria de voltar um pouquinho. O senhor falou em pesca.



R - Sim? Ein?



P - Na pesca, na pescaria...



R - Na pescaria?



P - Quem incentivou esse hábito?



R - Meu pai mesmo. Meu pai gostava muito da pesca. Aliás, mais tarde eu fui também um inveterado caçador. Vivia... eu passava... eu passava férias... férias da Light no mato, eu tirava férias e passava 10, 15 dias no mato sem agasalho sem nada, dormia em plena mata. Muitas vezes... às vezes o travesseiro era, era um tijolo, um barranco. Mas eu tenho saudades desse tempo. Caçava... caçava e pescava mas meu pai não foi muito dado à caça mas a pesca sim, mas um tio meu sim. Ele era afeiçoado à caça, algumas vezes acompanhei... acompanhei nas matas da... da... do fim da rua... da rua... da rua, da rua Santa Rita, tinha o capinzal e as matas dos Bresser e lá havia... meu tio ia caçar rolinhas e eu acompanhava. Daí... daí veio a minha... o meu gosto pela caça. Mais tarde comprei espingarda, fiz com ela sempre caça, passei a ser caçador.



P - E a pescaria, você ia com quem?



R - Na pescaria eu ia... durante muito tempo com meu pai e mais tarde... mais tarde até com meus filhos. Meu filho Paulo foi meu grande companheiro de pesca e meus companheiros... meus companheiros foram também meus cunhados, meus irmãos, o Arlindo foi meu grande companheiro... falecido, foi meu grande companheiro de pesca e de caça.



P - É... o senhor se lembra da época da escola, dos estudos do senhor? Que lembranças o senhor tem?



R - Ah, me lembro... me lembro... me lembro foi da... em 1920, e 20 mais ou menos no Grupo Escolar do Pari, quando... quando foi... quando foi iniciado o escotismo em São Paulo esse... esse... o diretor desse grupo instituiu o escotismo, o grupo escoteiro na escola. E nessa... aí eu passei a ser escoteiro dessa época em diante. E até pouco tempo eu fui... eu fui conselheiro da... da União Brasileira de Escoteiros. Continuo sendo escoteiro.



P - O...



R - Dizem até que uma vez escoteiro sempre escoteiro.



P - Mas como é que era a casa do senhor com um monte de irmãos, como é que era o funcionamento, a divisão de tarefas...



R - Bom, era a mais... era a mais agradável possível. Nunca houve... nunca houve... eu não posso... eu não me lembro de nenhuma briga entre irmãos e nem nada, sabe? Fomos uma verdadeira irmandade. Campeava a satisfação e a alegria em casa entre irmãos e com os demais parentescos. Meu pai gostava... meu pai era muito festeiro, gostava de festa, os aniversários eram comemorados com bailinhos em casa, na Rua João Bueno.



P - Os seus pais incentivam o senhor a desenvolver alguma atividade ou eles deixavam...



R - Não, não, à vontade. Era idéia minha inteiramente, né?



P - E quantos aos estudos?



R - Também. Aliás eu fui sempre... o curso... fiz o curso primário, depois de um curso... um curso... um curso na Escola de Comércio lá na... no Largo da Concórdia, essa escola não existe mais é do Professor Camurim, depois passei a ser um au... um autodidata bastante ativo.



P - Quando o senhor percebeu que era autodidata? Como começou...



R - Não... foi automaticamente. Lendo, escrevendo, etc. Eu conheci... consegui conhecimentos superiores... correspondente a um... a um curso superior quase. Autodidaticamente eu passei a... eu passei... eu consegui ser um professor de inglês, lecionei numa escola da... da Lapa durante três anos. Sai... sai porque eu não podia ficar toda a... era lá na Lapa, eu morava no Brás, eu saía da Light ia lecionar... ia diretamente pra lá pra lecionar e voltava de noite última aula, encontrava sempre os meus filhos dormindo, era uma situação que já não estava me agradando muito. Um dia eu pedi... eu disse ao Professor Guzzo, o diretor da escola que ia sair. Aí ele disse: "Se é por causa de... de endereço eu mando toda a escola procurar casa pro senhor aqui na Lapa". "Não, mas não quero, não quero sair do Brás, não vou sair". E foi assim que eu saí.



P - Antes de entrar na Light, que outras... além de ser professor de inglês, que outras... que outros trabalhos o senhor teve?



R - Não, a Light... o inglês foi... foi... foi um bico, né, foi só a noite. Mas antes da Light... antes da Light eu trabalhei... eu trabalhei... antes, eu trabalhei em farmácia, fui quase prático de farmácia mesmo como mocinho, trabalhei num clube... numa loja... numa loja na Avenida... no centro, numa pequena... uma pequena... uma pequena... foi um pequeno, um pequeno Mappin... foi uma pequena casa Mappin, era uma loja de presentes, etc. Trabalhei... agora estou me esquecendo. Trabalhei na farmácia, fábrica de brinquedos, esse foi o primeiro emprego... meu primeiro emprego mesmo foi uma farmácia, depois foi a própria fábrica de brinquedos, depois foi esse clube de... essa casa de... essa loja de... essa loja na cidade, depois, depois Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira na Rua Joly e acabei caindo na Light e ficando trabalhando pouco tempo, 45 anos de Light, de Light.



P - E como é que o senhor entra na Light? Como é que se dá a entrada na Light?



R - Ah, sempre com saudade daquele tempo.



P - Mas, não. Como? Como é que o senhor entra para trabalhar?



R - Fui apresentando... fui apresentado por... por um amigo de papai... que... foi um bilhete... um bilhete dele ao Dr....Dr. Ubirajara, alías era, era do (Tiço?) Martins, e antes do (Tiço?) Martins, era o Ubirajara. (Tiço?) Martins era...era tio do Ubirajara. E o Ubirajara me apresentou ao Durval de Souza, que era, era o chefe da... do registro do pessoal da Light, e ele me encaminhou à Seção de Subestações a ali então fiz... fiz a carreira na Light até a aposentadoria.



P - E o quê que o senhor fazia na área de subestações?



R - Eu... eu era escriturário. Eu comecei como auxiliar de escrita e... fui promovido até... até chegar a chefe de escritório, chefe de escritório. O chefe da seção mesmo era um engenheiro... um engenheiro, mas o escritório da seção... do... era... era,era sempre... ficou comigo.



P - Naquela época como é que era a cidade de São Paulo?



R - A cidade de São Paulo era completamente diferente da de hoje, era limpa, sossegada, limpa, sossegada, não... era mais paulista. Eu tenho que... nós temos que lamentar esse fato. Dormia-se sossegado, sabe? Podia-se andar na rua livremente sem... sem medo de ser assaltado. Eu já fui assaltado... assaltado 8 vezes na cidade, no centro. A oitava vez eu estava com a minha filha, vínhamos de Indaiatuba à noite e jogaram a minha filha contra a parede e me enfiaram... me enfiaram a mão no bolso. A gente na hora fica que nem... que nem um bobo, tem gente na frente, gente atrás, se reagir morre. Foi a oitava vez, o oitavo assalto e as outras... os outros foram tudo no centro durante o dia. Não sei se me acham com cara de rico, qualquer coisa, mas hoje... hoje... hoje assaltam qualquer um. Vai ser... vai ser... nós vamos chegar uma época em que vai ser difícil encontrar um paulistano que não tenha sido assaltado pelo menos uma vez.



P - Antigamente...



R - Ah, havia sossego, havia tudo.



P - O quê que o senhor gostava....



R - E havia bons... bons representantes do povo. Agora é lamentável, agora é lamentável.



P - O quê que o senhor gostava de fazer naquela época? A sua recreação qual era? O senhor trabalhava e depois pra se divertir o senhor fazia o quê? Que atividades?



R - Eu me divertia de acordo com a... com a... a ocupação que a Light me deu de chefe de recreação e esporte, eu me divertia em arranjar diversão para os outros. Ganhava pra isso. Cheguei a ser arroz de festa mesmo, fazia programação... programação pra divertir os colegas.



P - Depois de quanto tempo que o senhor chegou a ter esse cargo de organizador de eventos?



R - Bom, foi em 19... comecei em... começou em 1957, 57. Em 57 que eu fui transferido da Seção de... de Subestações para... para o Registro Pessoal, mas já com a promessa de dirigir a Seção de Recreação. E passou... passei a dirigir e desenvolver. E dentro das minhas funções na recreação eu ajudava a funcionários dos... dos vários departamentos da Light, daqui e do interior, ajudava-os a fundar clubes. Então... clubes de futebol, fundei clubes de futebol no escritório central, ajudei... eu sou co-fundador do Clube de Xadrez, fundador do... fundei o teatro amador, o coral... uma porção de sociedades. Ajudei a fundar um clube no departamento, departamento jurídico, ajudei a fundar o clube das moças, também um clube, uma associ... um grupo... um grupo... um grupo que se dedicava anualmente a realização da... das... do natal, natal dos lighteanos, e eu me... me dedicava a isso. E a Light... a Superintendência correspondia e me incentivava.



P - O senhor quando entrou na Light já passava pela cabeça...



R - Não, nada disso.



P - Não?



R - Nada disso, nada disso. Essa coisa veio... veio... veio evoluindo depois.



P - Antes da Seção de Recreação qual era o lazer do lighteano?



R - Uhn?



P - Qual era o lazer do lighteano antes da Seção de Recreação? O quê que o lighteano...



R - Quase não tinha, quase que não tinha. Fora... fora do expediente eles... eles... antes da recreação... foi por isso que eu fui... fui indicado... fui lembrado pra recreação. Antes disso, sem prejudicar os serviços da Light, eu fazia programação para sábados e domingos: futebol, pescaria, excursões, tinha um jornalzinho que eu fundei dentro da Light com o nome de "Tudo Azul", era muito bem... benquisto, bem procurado. Já era reclamação... já era recreação. E a... quando Marinho Lutz fundou a Seção de Recreação já se lembrava dessas minhas atividades e foram me buscar e me transferiram da Seção de Subestações para o Registro do Pessoal já... já com esse intuito.



P - E a idéia do Clube das Moças, o quê que era concretamente? Em que consistia? Por que Clube das Moças?



R - Era... era clube de... clube de... beneficente. Elas faziam... se cotizavam, faziam bene... ajudavam pessoas pobres, dentro e fora da Light. Tinha... tinha... era tinha, era já... era quase uma associação religiosa, funcionava. Essa... essa associação... essa associação ainda está funcionando.



P - O senhor naquela época, né, década de 30 em diante, é... o senhor andou muito de bonde? O senhor podia contar como era isso?



R - Se viajava muito de bonde, né? Via...viajava muito pendurado nos estribos, eu fui... também fui um pingente (risos).



P - Mas como é que era isso? De ir, de subir, de burlar o cobrador, o trocador, de...



R - Havia isso.



P - Como funcionava?



R - Havia isso... havia... havia... havia os que... bom, havia os condutores meio desonestos também, falavam até... havia até uma brincadeira aquele negócio de tim-tim, né, que falava: "Tim-tim, três pra Light dois pra mim" então eles cobravam e embolsavam uma parte, e falava muito... sempre houve venenos na vida, né? Falava muito de que os portugueses, os condutores da Light, condutores e motorneiros quando... construíram casinhas na Vila Maria com dinheiro do tim-tim (risos). O fato é que eles foram... construíram a Vila Maria, um bairro... um bairro hoje muito populoso e progressista, né?



P - Até quando o senhor foi pingente? É pingente, né?



R - É. Bom, enquanto... enquanto os bondes caminhavam eu usei bondes. Depois os ônibus prevaleceram, né? Os ônibus... foram tirando os bondes, aliás não deviam ter tirado os bondes porque poderiam ter continuado, numa cidade... na cidade americana de São Francisco ainda os bondes funcionam, podiam funcionar aqui também.



P - E sobre os irmãos do senhor, eles, alguns trabalharam na Light?



R - O Alcides trabalhou pouco tempo na Light, depois ele ingressou... ingressou na... na... como funcionário público, aposentou-se no Tribunal de Contas.



P - E da sua família, o senhor depois frequentava com a sua família as... os lugares e os campeonatos e futebol.



R - Ah, frequentava, frequentava. Eu sempre gostei. Uma coisa que eu frequentava bastante... Bom, frequentava nos dias... nos dias especiais, nos dias 15 de novembro eu não faltava às paradas militares no Prado da Moóca. No Prado da Moóca era usado nos dias 15 de novembro pela Força Pública, lá eles faziam as paradas militares, grandes paradas. Meu pai era militar, tanto que eu tive o prazer... o prazer de em 1920, 1921 ver meu pai desfilando... desfilando garbosamente no Prado da Moóca. Depois o Prado da Moóca foi... foi... terminou, transferiram o Prado da Moóca, transferiram as corridas, o Hipódramo para a Cidade Jardim então ali ficou abandonado e acabou-se a minha festa também.



P - Como é que era o cotidiano do senhor? O dia-a-dia quando entrou na Light? Entrava que horas? Que funções o senhor faz... desempenhava? Como é que era o funcionamento interno?



R - Da Light? Bom, era... um funcionamento de um escritório... de muito movimento né? A... o escritório da Subestações, por exemplo, coordenava... coordenava a atividade dos funcionários, dos trabalhadores horistas ou não, das demais... subestações, subestações da Light. Eu tomava... eu tomava conta, eu controlava também por intermédio dos meus auxiliares também, o ponto... o ponto do pessoal das subestações.



P - O senhor controlava isso?



R - Vinha... vinha, vinha o ponto vinha para o escritório central, vinha pra mim e eu mandava... eu con... somava, conferia e mandava pra Seção de Apontadoria, tinha uma seção competente que tratava disso. A Apontadoria que trabalhava de comum acordo com a Pagadoria.



P - E quando o senhor foi transferido para a área de Recreação e Lazer na Light?



R - 57.



P - Como... com quem o senhor trabalhava? Como é que era o trabalho em grupo?



R - Bom, eu tinha... eu tinha... eu chefiava um grupo de uns 20... 20 escriturários, subdividos em grupos de serviço: tinha o Serviço de Arquivo, o Serviço de Ponto, o Serviço de Correspondência, etc, né? Todos ali... serviços no escritório central.



P - E a organização mesmo de... era o senhor e...



R - Antes... antes o pessoal de escritório não estava... não estava... não estava dividido em grupos de serviços, aliás essa organização foi eu quem dei. Separei em grupos de serviços. Escalei: "Vocês ficam um grupo de ponto, um grupo de arquivo, um grupo de correspondência e... o grupo que contava tomava conta dos mensageiros". Essa parte... eu organizei e tive sorte no sucesso.



P - Naquela época, que benefícios tinha os funcionários da empresa?



R - Einh?



P - Naquela época quais eram os benefícios dos funcionários da empresa?



R - Os benefícios? Bom, ordenado, a Light sempre pagou bem, viu? Sempre. Os empregados da Light não se queixavam muito de salário como nos anos mais tarde passaram a se queixar. Hoje todo mundo se queixa, né? Uns de barriga cheia, outros não, mas todo mundo se queixa. Mas o pessoal da Light foi... a Superintendência da Light foi bem servida com referência a empregados, difícil de controlar mas eu sempre... eu, por exemplo, não me queixava de salário, meus auxiliares também não se queixavam. De modo geral os empregados da Light estavam mais ou menos satisfeitos. E havia... havia... houve um tempo em que havia aumento por merecimento. A Light fazia aumento... dava aumento aos empregados de certos tempos por merecimento, depois acabaram... essa... essa, essa mamata do aumento por merecimento acabou quando vieram os aumentos por lei. O aumento por lei então aumenta vagabundo ou não pela mesma porcentagem (risos).



P - O senhor trabalhava na Light, e antes de trabalhar na Light o senhor casou ou o senhor veio a se casar...



R - Não, quando eu... quando eu casei eu já trabalhava na Light.



P - E como é que você conheceu a sua esposa...



R - Era minha vizinha.



P - E aí? Como é que...



R - Aí começou o namorisco e acabou em casar. Casamos, na Rua Casemiro de Abreu.



P - Foi a única namorada ou o senhor era namorador, gostava de...



R - Não, não fui namorador, mas tive umas namoradinhas, mas tive... mas firme mesmo foi essa, foi pra casar.



P - O senhor... embora a sua área do senhor não fosse de muito risco mas o senhor já teve acidentes de trabalho?



R - Não, não tive, nunca sofri, felizmente.



P - Nem na pesca?



R - Unh?



P - Nem quando o senhor pescava?



R - Não.



P - Agora, mais especificamente na Seção de Recreação, né? Como era essa organização das festas? Como o senhor fazia pra organizar esses eventos...



R - Bom. Os clubes tinham lá... todos os clubes eram autônomos e tinham lá as suas atividades e eles... eles apelavam pra mim con...constantemente e eu ajudava... ajudava muitas vezes na... na... na organização de uma festa, de uma excursão, etc., e ainda conseguia... ainda conseguia da Light um auxílio em dinheiro para o aluguel de ônibus, para um churrasco, aquela coisa toda. O tempo foi bom



P - E era o senhor...



R - Eu tinha... eu tinha quatro... tinha três auxiliares, era a Seção de Recreação era assim.



P - E o que eles faziam?



R - Eles me auxiliavam nas programações. Nós tínhamos... no escritório central... no escritório central nós tínhamos o pátio de recreação, que funcionava na hora do almoço e a... era responsabilidade da Seção de Recreação. E tinha o cinema, o cinema acabou. Eu... eu dirigia 5 cinemas na Light, tinha org... tinha contrato com as várias empresas cinematográficas onde eu alugava os filmes e eu fazia circuito com os filmes, né? Eu tinha cinema no escritório central, na Oficina do Cambuci, na... na Usina de Itupararanga, pra lá de Sorocaba, na Oficina do Cambuci. Tinha 5 cinemas e eu fazia circuito com os filmes. Mas era um tempo bom E as moças às vezes me ajudavam a... na programação. Elas reclamavam: "Ah, sr. Severino há muito tempo que o senhor... que o senhor não traz um filme com o artista tal, a artista tal", então eu ia buscar.



P - Que filmes eram exibidos? Quais eram... qual era a preferência?



R - Era... de acordo com a recomendação da Light eu censurava os filmes, eu censurava, eu buscava filmes bons, se bem que agora quase não existe filmes bons, né? Bom... era mais esportivos, excursões, tinha histórias, tinha novelas, tinha coisa, mas sem... sem escândalo, né? Hoje em geral nós temos que acost... ligamos a televisão e o escândalo... o escândalo vem a domicílio(risos), mas...



P - O que que as pessoas pediam pra que fosse programado nos cinemas?



R - É... mais as moças, mais as moças que...



P - O que que elas pediam?



R - Elas pediam uns artistas... determinados artistas, né?



P - Quem eram os artistas?



R - Unh? Ah, esqueço os nomes deles. Esquece o nome dos artistas neste momento, mas os artistas da época, né?



P - O senhor no tempo que trabalhou na área de... de recreação, né, qual foi a... a obra, o trabalho mais importante, que o senhor se identifica mais, tem melhores lembranças...



R - Bom, eu achei importante tudo quanto... quanto eu achei importante realizar na Light, né? Eu tenho... eu tenho... pra isso fazia meus relatórios para a Superintendência, fazia relatórios à chefia do departamento que por sua vez encaminhava à Superintendência, etc. Recebi muito elogio por isso, etc.



P - Durante essas festas acontecia algum fato pitoresco, alguma coisa que o senhor se lembra assim que marcou...



R - Pitoresco? Eu acho que teve mas no momento... Pitoresco é mais no Clube de Pesca, pescador é sempre pitoresco mas... mas eu não me lembro no momento de nenhum agora, mas... mas teve um muita coisa boa, agradável, divertida mesmo. Uma vez por mês, o Clube de Pesca organizava... organizava pescaria... pescaria... nós tínhamos a nossa sede de pesca em Pirapora, aliás, logo que eu fui... logo que eu fui... tomei posse lá no... como chefe da Recreação eu pensei em duas coisas... as duas primeiras coisas que realizei imediatamente, com o beneplácito da Superintendência: o Clube de Pesca e o teatro amador e o coral. O Clube de Pesca, a Superintendência me deu logo sede, tinha lá num prédio... um prédio antigo lá, quase uma ilha lá em Pirapora, mandou reformar o prédio, etc.,mandou fazer uma barcaça na Oficinas do Cambuci, eu tenho tudo em fotografias aí. E... mensalmente... mensalmente, uma vez por mês nós tínhamos uma pescaria coletiva, então alugava... cheguei a alugar 5 ônibus num mês. Mas iam pescadores e família. Aí era... era sempre festa, pai e mãe pescando. E... uma vez por ano havia o campeonato de pesca. E... a coisa pitoresca e agradável é que as moças que pescavam, muitas vezes pescavam mais que os homens. Eu tenho fotografia das moças conseg... recebendo prêmios de pescaria, etc. Foi a época boa, muito, muito divertido A Gazeta Esportiva participava muitas vezes, fez muitas vezes... colaborou fazendo reportagens, né? Foi bom. Essa época, como outras, deixou saudades



P - Mas essa sem dúvida é umas das...



R - É uma satisfação minha.



P - Quanto tempo durou essas pescarias coletivas...



R - Eu me aposentei em 73, nessa ocasião eu já não era presidente, eu fui presidente... eu fui presidente 2 vezes, fui diretor de pesca 2 vezes e a... os que me substituíram... eu não sei o que aconteceu porque depois que aposentei houve uma debandada danada, o pessoal passou a não frequentar mais o Clube de Pesca. Me disseram... me disseram e eu acredito também nisso: a poluição, né? Os peixes morriam por falta de... vida, aliás tá morrendo no Rio Tietê e outros lugares, né, peixe quando pega no anzol é suicídio porque não quer mais viver naquela água, né? Então... então abandonou... e o clube morreu... acabou morrendo por abandono. Não sei como está hoje. Ficou, não, hoje a ADC... a ADC tomou conta e fez lá um acampamento esportivo, tem a pescaria, tem uma pequena... uma pequena... lazer de pesca, mas tem... tem... me parece que tem ping pong , tem uma sede... pra quem quer passar o dia, o fim de semana lá. Tá muito bom Mas como Clube de Pesca não existe... lá não tem mais.



P - Mas ainda tem essas atividades?



R - Tem atividade.



P - Aonde o grupo costumava fazer a pescaria, em que lugar?



R - Bom, nós... nós pescávamos também... pescávamos também... tínhamos a pescaria mensal, mas nem sempre era só na... em Pirapora, nós varíavamos, nós pescamos na... na... no... em Santos, na...no Boruré, na Ilha das Palmas, fomos pescar lá, era um lugar bonito de pesca. Pescamos em vários lugares. E alugávamos... Na Ilha das Palmas, parece que foram 7... se não me engano me parece que foram 7 ônibus lotados, superlotados de famílias. Foram... o objetivo era pesca e conhecer a ilha, que era muito bonita, Ilha das Palmas.



P - O grupo chegava a acampar nos lugares ou era só chegar de manhã...



R - Não, ia de manhã e voltava de noite... de tarde, né? Nunca acampamos. Fizemos isso, particularmente eu, meus irmãos, muitas vezes dormimos no Clube de Pesca lá, mas isso fora... coisa extra.



P - O senhor falou também do teatro amador...



R - Einh? Pesca amador.



P - Teatro.



R - O teatro amador eu fui funda... o nosso teatro amador se exibiu... se exibiu em todos os teatros da prefeitura, inclusive uma vez no Teatro Municipal, uma vez lá em Santos no auditório da City de Santos, ela era subsidiária da Light, com muito sucesso. O Coral da Light cantou em todos os canais de televisão, cantou inclusive uma... uma vez em... num... num programa... num programa... com uma porção de estações interligadas, cantou num programa de natal com muito sucesso... mas esse... tanto o teatro amador como o coral aos poucos foram também morrendo... muita gente aconteceu... eu verifiquei também uma das causas, o camarada ficava conhecendo uma das moças da... da... do teatro amador ou do coral, namorado, disse: "Eu cantei você, agora não quero que você cante mais em coral nenhum" (risos) e acabava o coral... e o coral acabou por falta de cantores. E o teatro amador a mesma coisa (risos). E é por isso que todos os corais sofrem essa doença.



P - Que peças eram levadas pelo teatro amador?



R - Einh?



P - Peças, quais peças?



R - As peças?



P - É.



R - Muitas peças, é. Não me lembro agora, mas "Cala a boca, Etelvina" é uma peça que fez muito sucesso. Eles represen... As nossas artistas representaram muito bem. Eu fiz uma... uma... um esquete... escrevi um esquete que foi... fiz o coral... o teatro amador ensaiar como... como... como prevenção de acidente e foi representada na... na... no Canal 5, Televisão Paulista, Canal 5, hoje é a Globo. Foi muito bom



P - E como é que era a divulgação dessas peças?



R - A própria Light divulgava, a própria Light divulgava.



P - Do ínicio do seu trabalho até a aposentadoria do senhor que coisas você destacaria...



R - Einh?



P - Que coisas você destacaria dentro... nesse período de trabalho.



R - Bom, eu destaco muito a minha função na Seção de Recreação, foi a que deu mais trabalho, muita satisfação, depois prestigiado pela Superintendência da Light, nunca posso esquecer isso, principalmente o superintendente Marinho Lutz, que foi um grande... grande superintendente. Foi ele que fundou a Seção de Recreação.



P - E a idéia das festas natalinas...



R - As festas natalícias, por exemplo, o coral... o coral nos natais cantava as músicas natalinas, né? Ensai... nós tínhamos um maestro competente, aliás ele ainda é... ainda, ainda é cantor do Teatro Municipal, foi empregado da Light e era cantor do Municipal, Oreste Nesti. Hoje é aposentado da Light também. E ele fazia boas programações natalinas.



P - Consistia em quê, além dos presentes?



R - Tinha... tinha além dos presentes... por exemplo, festa da bandeira... festa da bandeira era feita no último andar da Light lá, estiava a bandeira lá e o canal... o coral cantava ali. Era muito bonito também. Também a função do coral foi importante.



P - O senhor ajudou a criar algum grêmio dentro da Light?



R - Ah, uma porção.



P - E depois?



R - Eu criei... Bom, eu criei... eu criei o coral, o teatro amador, o Clube de Pesca, a... Associação das... esqueci o sobrenome... o nome completo da entidade, eu tenho o nome marcado nos meus livros aí. Ajudei a fundar... aí eu fui co-fundador, né? Mas... tem uma porção de entidades. Inclusive aqui e do interior, inclusive no interior ajudei a fundar. Eu fazia... eu fornecia até o estatuto, organizava... organizava... convocava... convocava reunião para a aprovação desse estatuto e a eleição da primeira diretoria de fundação de acordo com o estatuto já em função, depois eu entregava o clube à diretoria. E já pedia a Superintendência da Light uma verba para... para ajudar o clube. O clube... além disso, o clube tinha as mensalidades dos respectivos associados, mas a Light ainda dava uma pequena verba mensal. Então, um bom tempo esse



P - Nessa época dos vários grêmios já havia alguma idéia de unificação?



R - Ah, já, já. Já havia e também havia.. havia alguma... alguma... alguns... algumas opiniões contrárias porque... porque achavam... achavam que, por exemplo, gente do Clube de Pesca, né, por ser clube de pesca, não quer outro clube que não seja clube de pesca. E achavam que a fusão, a fusão de clubes... o Clube de Pesca, os sócios do Clube de Pesca ficariam prejudicados, o sócio do Clube de Xadrez ficaria prejudicado, o Clube de Dança: "Ah, não me interessa a dança, não me interessa pescar", e assim por diante. Então achava que isolados... independentes como estavam funcionavam bem. Enfim venceu a outra idéia e a ADC está funcionando bem.



P - Pegar um pouco a atualidade agora. O senhor mora aonde, mora com quem atualmente?



R - Ah, moro com a minha filha viúva. Só eu e ela. Antes tava... a família tava grande, tava a... tinha as... as filhas da Yara, depois elas se casaram, depois minha mulher morreu, né? Minha mulher me morreu... minha mulher me deixou depois de 60 anos de casado, me deixou porque morreu. Então eu fiquei só com a Yara, a Yara viúva também. A Yara enviuvou com 3 anos e meio de casada, nunca pensou mais em casar, só tratar das filhas, morreu por causa de um raio que matou o marido, né? Deixou... deixou... deixou... o raio... quando um raio invadiu a casa na Vila Maria ali, tinha uma criança, a Jussara estava de berço e a Jacira tinha 2 anos. E o meu genro estava deitado no, no sofá vendo televisão assim e a Jacira estava ajoelhada brincando com o pai, nisso aquele, um... mal tempo e um raio. O raio queimou... queimou a televisão, todo o filamento do aparelho... pegava no fio ficava que nem pó de café, todo o filamento da televisão. O chuveiro elétrico no outro cômodo ficou queimado, o relógio... o relógio da luz no corredor externo, queimado. Veja o estrago que a faísca fez na casa. E o meu genro... e a minha filha vinha vindo da cozinha, levando café para o marido, levou aquele choque e ele também. Depois daquele momento meu genro deixou de ser a mesma pessoa, ficou amarelo, não vivia mais direito, era escriturário... escriturário de um cartório, passou a errar, etc. Depois de 2 meses morreu por causa disso. O raio arrebentou uma porção de vasos na cabeça e morreu por causa disso. E a minha filha... Esse assunto não devia ser registrado.



P - O senhor ainda mantém elo com a Light, com a Eletropaulo?



R - Einh?



P - O senhor ainda mantém algum elo com a Eletropaulo?



R - Ah, sim. Sempre... sempre, eu tenho muitos amigos, de vez em quando eu vou visitar... agora eles mudaram, saíram do escritório central, tão longe, tão na Granja Julieta não sei onde, mas eu preciso ver o endereço certo para poder visitá-los. Mas no escritório central da Light eu tenho muito... não daquele tempo porque os que... o que não aposentou morreu ou tá ...



P - Qual é a sua principal atividade hoje, sr. Severino?



R - Eu hoje eu participo de várias entidades que sou sócio, vez ou outra colaboro com eles na medida do possível e em casa eu gosto de rabiscar coisas, reminiscências, né? Sou... gosto muito de ler.



P - O senhor tem algum sonho?



R - Einh?



P - Tem um sonho?



R - Eu não sei qual seria. Meu sonho agora é ver meus... meus netos, meus bisnetos grandes e casando e progredindo. Esse é um sonho... adorável.



P - E se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o senhor mudaria? E o quê que seria?



R - Não, eu acho que agora eu não quero mudar, com 84 primaveras(risos)...



P - E para terminar qual a lembrança mais marcante na sua vida?



R - Bom, agora eu vou ter uma lembrança muito agradável, essa... essa reunião aqui, vou sair daqui olhando pra trás.



P - Muito obrigado sr. Severino, pela entrevista, tá bom?



R - Eu gostaria de poder ter lembrado muita coisa mas eu acho... a memória tá falhando... gastou um pouquinho, né?



P - Se o senhor quiser acrescentar mais um pouquinho pode acrescentar aqui.



R - Não, mas eu fiquei devendo umas informações, eu vou trazer aqui. Eu posso trazer aqui, né?



P - Pode. .



R - Qual é o horário? Nesse horário mesmo?



P - A gente liga pro senhor, tá bom?



R - Tá.



P - Obrigado.



R - Eu é que agradeço.

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