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História

Um empresário consciente

História de: Walter Schalka
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2005

Sinopse

O jovem Walter viveu a parte mais difícil da ditadura se graduando em engenharia pelo ITA entre os anos 1970 e 1980, longe dos pais e da cidade natal. Sendo ativo politicamente maior parte de seu período na instituição militar, fez amigos para a vida toda e adquiriu grande conhecimento como cidadão. Graduado, retorna para a capital e faz pós-graduação em Administração Empresarial pela FGV, sendo convidado para trabalhar na Dixie Lalekla por um conhecido de seu pai. Logo em seguida é convidado pela SOS Mata Atlântica para cuidar da estruturação da Fundação e tornar seus projetos possíveis.

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História completa

P/1 – Bom dia, Walter. Obrigada por você ter vindo. Nós gostaríamos de começar com você falando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Bom dia. Obrigada por estar aqui com vocês. Meu nome é Walter Schalka, eu nasci em São Paulo em quatro de dezembro de 1960.

 

P/1 – Em que região você morava?

 

R – Eu nasci no Bom Retiro, mas logo com um ano de idade eu mudei, fui morar no Jardim São Paulo, que é na Zona Norte de São Paulo. Morei no Jardim São Paulo até os treze anos de idade, depois fui morar em Higienópolis, onde fiquei até entrar na faculdade, aí fui morar fora da cidade de São Paulo. Depois voltei para São Paulo, morei mais algum tempo lá e quando casei saí da área urbana e fui para o interior.

 

P/1 – E seus pais faziam o quê?

 

R – Minha mãe sempre foi de casa e meu pai trabalhava em uma empresa de papel chamada Klabin. Ele trabalhou durante 49 anos na mesma empresa, o tempo todo ele trabalhou sempre na mesma empresa.

 

P/1 - E seus pais nasceram em São Paulo?

 

R – Não. Meu pai é de Santos e minha mãe é de Bauru.

 

P/1 – Eles são descendentes de...?

 

R – São todos do Leste Europeu. Tem uma mescla enorme de descendentes, mas o seguinte: do lado da minha mãe, meu avô era romeno e minha avó era italiana; do lado do meu pai, minha avó era russa e meu avô era polonês. É uma mescla enorme de descendentes aí. Mas já sou da segunda geração de brasileiros, tanto meus pais quanto eu somos brasileiros.

 

P/1 – E você tem mais irmãos?

 

R – Eu tenho. Tenho mais dois irmãos, uma irmã mais velha e um irmão mais novo. Os dois também de São Paulo, hoje os dois moram aqui. Minha irmã morou um tempo fora do Brasil, mas hoje mora em São Paulo de novo. 

 

P/1 – Como era sua infância? Você morou um tempo no Jardim São Paulo, na Zona Norte, como era isso? Essa relação com o bairro, você poderia falar um pouquinho?

 

R – Eu tenho memórias muito interessantes da minha infância. Eu morava em uma rua que no começo era uma rua que não tinha asfalto, absolutamente nenhum, então minhas atividades eram atividades de moleque de rua o tempo todo. Era aquela história de jogar bola, empinar pipa, pião, bolinha de gude, ou seja, chegava da aula, fazia a lição de casa e depois o resto da tarde inteira ficava me divertindo na rua. Isso é uma história que me marcou muito. Eu morei em duas casas diferentes na mesma rua, primeiro em uma casa alugada, depois o padrão de vida melhorou, meu pai comprou uma casa. Aliás, construiu uma casa na mesma rua, então criei um grande grupo de amigos que até hoje mantenho. Aquele grupo de amigos de rua foi uma coisa muito gostosa na minha infância e eu hoje me ressinto um pouco de não poder propiciar aos meus filhos porque no ambiente urbano já não dá mais para fazer isso.

 

P/1 – Você estudava perto de casa?

 

R – Estudava. Até certa idade estudava em um colégio que era muito próximo, era um externato, Nossa Senhora das Graças. Depois eu fui estudar no próprio Colégio Jardim São Paulo, a partir da terceira ou quarta série do primário. Aí estudei até a sétima série, quando nós mudamos para Higienópolis. Aí mudei para o Colégio Rio Branco.

 

P/1 – E como foi essa mudança do Jardim São Paulo para Higienópolis? Deixar os amigos lá...

 

R – Eu senti demais isso, porque eu tinha uma amizade muito grande com todo mundo, apesar de que continuou depois que nós mudamos, mas o dia-a-dia já não era a mesma coisa. Morar em lugar urbano, em apartamento, tinha sido a primeira experiência da minha vida. Não gostei muito, era uma coisa que, para mim, morar na rua era muito mais gostoso, em uma casa, mas depois de um certo tempo eu fui me adaptando. Apesar de que eu só fiquei em Higienópolis quatro anos porque fiquei da oitava até o terceiro colegial, depois entrei na faculdade e fui morar fora da cidade de São Paulo, só vinha em eventuais fins de semana para São Paulo.

 

P/1 – Quando você estava no Rio Branco, que você optou pela faculdade, qual curso você...?

 

R – Na realidade, é o seguinte, eu era muito moleque quando entrei na faculdade. Eu prestei vestibular com dezesseis anos de idade e quando eu fui prestar vestibular eu tinha uma característica. Meu pai era muito incisivo em relação a estudo, ele exigia muito dos filhos homens. Da mulher, não, mas dos homens exigia muito em relação a estudo. O que aconteceu foi o seguinte: eu era um bom aluno, eu tinha ótimas notas em matemática, física e química. Então naquela época era o seguinte: “Você vai fazer o que”? Eu ia fazer engenharia, então meio que não optei pelo meu curso, eu fui sendo mais ou menos levado pela minha história. Aliás, a minha história tem muito disso, as oportunidades irem aparecendo e eu não ser muito de ter um sonho e ir em busca de realizar um sonho, trabalhar em cima do sonho. As oportunidades foram surgindo e eu fui me adaptando às oportunidades. Naquele momento eu fui prestar vestibular em engenharia. “Você vai prestar onde? Vai prestar nas melhores escolas, na Poli, na Mauá, no ITA [Instituto Tecnológico Aeroespacial], Mackenzie. Aí acabei entrando no ITA, que era a melhor escola. Foi por aí que eu fui. É uma história de oportunidade muito mais do que de opção, vamos dizer assim.

 

P/1 - Só voltando um pouquinho. Antes de você entrar na faculdade, nas férias vocês viajavam? A família ia para algum lugar especial, como era?

 

R – Nós viajávamos muito para a praia. Meu pai nasceu na praia, e eu tenho até hoje paixão por praia, então a minha vida inteira as férias de verão eram na praia. No começo em Santos, quando meu pai não tinha condições. Depois ele comprou apartamento no Guarujá, fomos para o Guarujá, mas eu não gostava muito. Eu viajava muito com meus amigos para outras praias e a minha vida sempre foi em praia durante o verão, e no inverno viajar para algum lugar de campo, montanha, esse tipo de coisa. Mas sempre foi, uma das coisas que eu mais gosto na vida é viajar a passeio.

 

P/1 – E quando você não ia para o Guarujá, que você ia viajar com os amigos para outras praias, você ia para onde?

 

R – Geralmente litoral norte de São Paulo. Na época nem tinha estrada, não tinha nada, íamos viajar pelas praias, ficávamos em alguns lugares ou acampando ou em alguma pousada pequena, sempre nas praias do litoral norte.

 

P/1 – Você podia falar um pouquinho como era esse litoral norte nessa época, sem a estrada ainda?

 

R – Era uma maravilha. Hoje eu tenho casa no litoral norte e eu adoro lembrar o que era naquele momento. Era muito gostoso você ter uma liberdade total, você ter uma vegetação que era intocada, acho que uma das grandes belezas que tem o nosso litoral é o fato de ter praia e montanha simultaneamente. Então tem o verde da montanha, todo o mar maravilhoso que nós temos, principalmente esse litoral maravilhoso que é entrecortado, norte. Era muito gostoso você poder viajar e ter uma liberdade total e muita tranquilidade. Praias vazias, não tinham lixo nenhum, era muito bem cuidado. Hoje virou muito comercial, um condomínio atrás do outro, uma praia atrás da outra, apesar de que ainda é muito melhor que Guarujá e Santos, que já acabaram com a praia. 

 

P/2 – Voltando para a época da faculdade, o ITA é em São...

 

R – José dos Campos.

 

P/2 - José dos Campos. Aí você se mudou para lá?

 

R – É, eu me mudei para lá.

 

P/2 – Como foi essa transição para você?

 

R – Eu fui para lá com dezessete anos de idade, fiz vestibular com dezesseis, era um moleque. Não estava preparado, eu era meio que muito filhinho de papai. E foi a maior experiência de vida que eu já tive. Porque eu cheguei lá e a cada ano no ITA entram 120 estudantes, na época era só masculino. Então você chega lá, são seiscentos homens, porque são cinco anos, 120 a cada ano, que moram todos juntos. O ITA propicia um alojamento conjunto. Era uma coisa que tinha meio militar, moram seiscentos homens juntos, era uma bagunça. Eu acabei criando um grupo de amigos ali que até hoje não são meus amigos, são meus irmãos, porque você vive muito o tempo todo junto. Você acorda de manhã, vai tomar café junto no refeitório, depois você vai para a aula, depois você volta, faz esporte junto. Aí você sai à noite para passear na cidade, para beber, para jogar cartas, você sai junto com os seus amigos. Então durante cinco anos você acaba criando uma amizade muito forte. Você viaja nos finais de semana, você viaja nas férias com os seus amigos. Quer dizer, está o tempo todo com aquele grupo de amigos. Outra coisa que eu aprendi muito foi a viver em uma comunidade com uma diversificação enorme, porque tinha todo tipo de gente que você pode imaginar. Tem meio o estereótipo de que o aluno do ITA é um aluno bitolado, que é o cara que só sabe estudar, o que não é verdade. Tem esse também, mas não é isso, a abrangência de personalidades é muito maior do que essa. E era muito gostoso você aprender com pessoas de outro nível social e até financeiro, com outras pessoas de uma mentalidade completamente oposta a sua. Eu tinha uma dicotomia que eu sempre conto para todo mundo que é o seguinte: eu chegava à faculdade, e como eu tinha uma condição financeira melhor, no segundo ano de faculdade meu pai me deu um carro usado, mas me deu um carro, quase ninguém tinha carro. Então o Walter era considerado lá o capitalista selvagem, achavam que eu tinha muito dinheiro, não sei o que lá. Usava uma barba desse tamanho, brinco, mas eu era o capitalista selvagem. Quando chegava em São Paulo, meu pai falava que eu era comunista, porque os meus pensamentos eram pensamentos comunistas. Falei assim: “Eu tenho um problema de identidade, porque, de um lado eu sou comunista no final de semana, e sou capitalista selvagem durante a semana na faculdade.” Mas essa vida na faculdade foi uma vida fantástica. Foi a maior experiência de vida que eu já tive, não só pela diversidade das pessoas, mas pela amizade que eu acabei criando com as pessoas. Até hoje se mantém intacta, nós somos muito próximos, nós somos irmãos mesmo e foi muito gostosa essa época na faculdade. Eu era um aluno medíocre na faculdade, no segundo ano da faculdade eu descobri que não queria engenharia mais, porque aí já tinha um pouco mais de maturidade, mas meu pai ficou pressionando. E depois acabei criando amizade com um professor, uma pessoa muito legal que, aliás, tenho amizade até hoje com ele, e esse professor me falou: “Walter, os dois primeiros anos não é engenharia. Engenharia vem depois. Você está no básico, espera que engenharia vai começar”. E o terceiro ano realmente foi uma maravilha, adorei o terceiro ano. E aí eu fiquei: “Vou me formar.” Aí quando chegou na metade do quarto, falei: “Não quero trabalhar com engenharia.” Mas todo mundo falou: “Walter, você está na metade do quarto ano, se forma e depois você vai fazer outra coisa.” Foi o que aconteceu. Me formei, peguei o CREA [Conselho Federal de Engenharia e Agronomia] provisório no dia da formatura e nunca fui buscar o definitivo, quer dizer, não tenho a menor condição de exercer a engenharia hoje.

 

P/1 – Walter, você fez engenharia do que?

 

R – De aeroportos. Chama Infra-Estrutura de Aeronáutica.

 

P/1 – Ah, não sabia que...

 

R – Naquela época tinha quatro especialidades: você fazia engenharia aeronáutica mesmo, de aeroportos, eletrônica ou mecânica aeronáutica. Uma das quatro. Eletrônica-Aeronáutica também.

 

P/2 – Tudo vinculado?

 

R – Tudo voltado à aeronáutica.

 

P/1 – Walter você estava falando que fez a faculdade na década de 1970.

 

R – Final, entrei em 1978 na faculdade, me formei em 1982.

 

P/1 – De qualquer forma, o país estava passando por um momento político complicado. Você até comentou que na faculdade você era visto como capitalista selvagem e em casa como comunista. Como era isso na faculdade? Existia essa discussão?

 

R – Existia muito forte. Na época, era o seguinte: o ITA tinha passado por um momento onde várias pessoas tinham sido desligadas da faculdade alguns anos antes por razões políticas, até perseguição. Até hoje existem processos para reativar aquele pessoal que saiu da faculdade naquele momento. Eu entrei na faculdade e tinha um Centro Acadêmico que era muito forte. Aquele Centro Acadêmico era de pessoas que tinham uma tendência à esquerda muito maior do que a parte direita. Então, apesar do sentimento militar, existia um conjunto de todas as pessoas da faculdade de serem muito mais revolucionários do que a média das faculdades. O ITA, o grupo de alunos, era um grupo eminentemente de esquerda e nós tínhamos muito, não só discussões, mas ações para poder propiciar uma mudança da questão política do país. Era muito interessante que eu morava no mesmo apartamento que um comunista histórico, uma pessoa muito ferrenha, e ele falava assim para mim: “Schalka, vamos sair para distribuir o jornal Voz da Unidade.” Então tinha a questão da Libelu, Voz da Unidade. Nós estávamos envolvidos em todas essas discussões e eu distribuía para todos os alunos o jornal Voz da Unidade naquela época para mostrar a nossa não concordância com o status quo político daquele momento. Lutamos muito contra todo esse estado de coisas, até depois da faculdade, do movimento Diretas Já! participei. Quer dizer, em todo o processo de mudança política do país eu tive uma participação muito ativa — obviamente nos bastidores —, como aluno no começo e depois como profissional. Mas isso era muito interessante e tem uma história muito interessante, que tinha um poema muito à esquerda do Manuel Bandeira, que foi colocado em um quadro de avisos pelo pessoal do Centro Acadêmico e chegou um sargento lá do ITA, olhou aquele poema, falou: “Isso daqui é de esquerda! Eu quero saber quem é esse Manuel Bandeira, porque eu quero punir esse Manuel Bandeira!” (risos)

 

R – E essa é uma história interessante que nós tivemos lá, e tivemos muitas dessas histórias. Você pode imaginar o que significa colocar seiscentos homens juntos em um ambiente que era dentro do CTA [Centro Técnico Aeroespacial], e fazendo milhares de bagunças que nós fazíamos. Festas à noite, desfiles que nós fazíamos dentro do Centro Técnico, aí o pessoal da polícia correndo atrás da gente. Nós fizemos um monte dessas atividades que eram atividades contra o regime militar dentro do regime militar.

 

P/1 – Existiam as punições?

 

R – Existiam. Fui preso. Quer dizer não preso em jaula, em grade, mas preso no sentido de ter que fazer apresentação todo dia à noite. Porque uma vez nós fizemos uma rebelião porque nós éramos obrigados a fazer o CPOR [Centro de Preparação de Oficiais], todos os alunos do ITA tinham que fazer naquela época. O CPOR era quarta à tarde e sábado de manhã. E ninguém queria ser militar, todo mundo detestava aquilo, não tinha o menor espírito. Para você ter uma ideia, da minha turma de 120, só três seguiram a carreira militar, os outros todos ninguém seguiu. Mas no primeiro e segundo ano tinha que fazer CPOR e eles faziam regras que eram absurdas, e o pessoal do CPOR era um pessoal muito limitado, os tenentes, os sargentos, era coisa assim bem básica. Eu até me lembrei de uma história. Como a gente colava nas provas — porque tinha que fazer provas sobre as questões. Uniforme militar, como a gente colava era muito interessante porque as provas eram testes e nós chegávamos assim, alguém perguntava: “Ô sargento, não estou Entendendo essa questão 37”, porque era E a resposta. Ou: “Essa questão 41 é bem Bolada”, era B. (risos) E assim todo mundo passava de ano no CPOR sem fazer nada. O CPOR era muito duro e eles criaram muitas regras, regras de punição até para um dedurar o outro, que nós obviamente não aceitávamos. E uma das vezes no auditório, alguém fez um barulho estranho de brincadeira e um tenente virou e falou o seguinte: “Quem fez o barulho”? Ninguém se manifestou. “Se ninguém se manifestar eu vou escolher qualquer aluno para punir!” Aí ninguém se manifestou, ele escolheu um lá que não tinha feito o barulho, by the way, ele falou: “Bom, você vai ser punido. Você pode sair daqui, vai receber uma punição.” Aí alguém se levantou e falou: “Eu sou contra isso porque isso é um absurdo!” “Se você se levantar você também vai receber a punição.” Aí saiu. Ele falou assim: “Quem mais se levantar vai receber punição.” Todos se levantaram e saíram e todos receberam a punição, que foi ficar preso uma semana, se eu não me engano. E tiveram várias situações. Teve uma vez que nós tínhamos horário para entrar e nós nos rebelamos, falamos que nós não íamos entrar naquele horário porque estava combinado uma e meia e não uma e cinco. Aí nós fomos todos à uma e meia, todos receberam punição. Então foram várias dessas situações porque o grupo era muito unido, todos eram muito unidos, era uma relação de que se desrespeitava um, desrespeitava todos. Foi muito gostoso isso, não o CPOR, mas o período do ITA foi muito gostoso. Como eu era um aluno medíocre na faculdade, eu passava sempre no limite do limite do limite, quase não passava. Eu comecei a me voltar muito para as atividades do Centro Acadêmico. Atividades de esporte, eu sempre fui fanático por esporte, então acabei envolvido em atividades do Centro Acadêmico na parte de esportes, em atividades, nas discussões políticas. Fui candidato eterno do Centro Acadêmico, sempre perdi todas as eleições, mas sempre me envolvi muito em atividades sociais, passeios, festas, jogar cartas e esportes. Em todas as atividades eu estava sempre muito envolvido. Não nas atividades estudantis, nessas não estava tão envolvido.

 

P/2 – Você se formou em 1982?

 

R – Isso.

 

P/2 – Aí você retornou a São Paulo?

 

R – Retornei a São Paulo. Aí é o seguinte: naquela época era o auge da indústria militar brasileira, então eu recebi inúmeros convites para trabalhar naquela época na Embraer. A Embraer estava no auge, tinha um projeto muito interessante naquela época que era um projeto de fazer um avião militar com a Itália, chamava MX o nome do avião. Era um projeto em parceria com todos os alunos, 100% dos alunos eram convidados para trabalhar na Embraer e grande parte ia para a Itália. Eu fui convidado também para ir para a Embraer, Avibras, IAE [Instituto de Aeronáutica e Espaço], todos aqueles institutos de lá. Mas eu nem fui fazer a entrevista porque não tinha o menor interesse em trabalhar nessa área. E naquele momento recebi alguns convites para trabalhar fora também na Johnson’s, no Itaú e no Citibank. E o que mais me interessou foi trabalhar no Citibank, porque era um programa de trainees onde eu ia aprender administração, porque não tinha a menor experiência, só tinha experiência em engenharia. E eu fui trabalhar no Citibank. Essa foi a opção de vida que eu tive naquele momento. Como o Citibank era em São Paulo, voltei para São Paulo.

 

P/2 – E você ficou quanto tempo como trainee?

 

R – Eu fiquei dois anos e meio como trainee, trabalhei aqui em São Paulo de 1983 até 1985. Eu trabalhava em uma área muito interessante naquela época, era o electronic bank, que não existia. E o projeto, naquela época, era dar um microcomputador para as empresas — grande parte das empresas não tinha microcomputador. Então a gente dava, desde que eles dessem como contrapartida serviços que eles podiam acessar pelo computador: cobrança, fundo de garantia, aquelas coisas todas absolutamente simples hoje para nós. E foi um enorme sucesso naquela época, o programa que eu participei dentro do Citibank. O que aconteceu? Eu estava indo muito bem lá, eu tinha sido promovido já, mas o Roberto Klabin, através do meu pai, me conhecia. Roberto Klabin tinha perdido o pai e tinha montado uma holding para administrar as participações que ele tinha, aí o Roberto me convidou para trabalhar nessa holding. Eu era jovem, recém formado na GV [Fundação Getúlio Vargas]. Nesses dois anos eu fiz pós-graduação na Getúlio Vargas, de 1983 até 1985, então já tinha me formado na GV. Então a ideia era trabalhar nessa holding para ajudar ele a administrar as participações dele que ele tinha naquela época na Klabin, na Metal Leve, na Lalekla, na fazenda. Ele tinha o objetivo de fazer um hotel voltado ao meio ambiente que depois foi criado, que eu ajudei a criar naquela época, e fui trabalhar nessa holding com ele. Trabalhei de 1985 até 1989 nessa holding. Dentro dos trabalhos da holding, um dos trabalhos era fazer com que a holding crescesse. E o Roberto tinha uma participação em uma empresa naquela época que se chamava Lalekla, que era uma empresa de distribuição de toalhas de papel. A ideia era fazer a Lalekla crescer muito, então o que nós fizemos? Nós fizemos uma parceria, internamente discutimos qual a melhor forma de buscar a Lalekla crescer e aí nós acabamos comprando a Dixie, em 1989. Foi aí que eu mudei da holding para trabalhar na Dixie, aí mudou o nome para Dixie Lalekla e eu fui trabalhar na Dixie Lalekla no começo, como diretor financeiro. Isso foi em 1989. Esse foi o começo da minha carreira profissional em termos empresariais. 

 

P/1 – Só voltando um pouquinho... Quando você foi para a GV você foi por conta do seu trabalho no Citibank, não?

 

R – Foi por opção minha.

 

P/1 – Sua. Você quis fazer uma pós?

 

R – Eu entrei imediatamente. Eu saí da faculdade e entrei na GV para fazer um curso chamado Seagram, fazer pós-graduação para não administradores, administração lato sensu, como eles falam. E a minha ideia era a seguinte: eu entrei no Citibank, não sabia o que era débito e crédito, não entendia nada de administração, não entendia nada de finanças, absolutamente nada. Eu falei: “Preciso fazer algum curso para ver se eu gosto.” E acabei fazendo pós-graduação na GV em Marketing e foi esse curso que eu fiz durante dois anos e meio na Getúlio Vargas. Quer dizer, eu trabalhava de dia e estudava à noite durante esse período de 1983 até 1985.

 

P/2 – Aí nesse ínterim, em meados da década de 1980, que você teve contato com o Klabin, e devido ao seu pai vocês se aproximaram. Como era para você? Como você enxergava o movimento ambiental desse período, como era a movimentação, a mídia, o enfoque que dava? Você tem alguma lembrança sobre isso? 

 

R – A minha percepção é que era zero. Não consigo lembrar de nenhum movimento social organizado ligado a meio ambiente. Foi uma curiosidade interessante para mim porque quando o Roberto me convidou para ajudar na montagem da SOS Mata Atlântica, eu passei a conhecer os ambientalistas da época, começando pelo Fábio Feldmann. Mas aquele grupo de ambientalistas, eu falei: “Bom, esse aqui é um outro mundo, é um mundo que eu não conheço.” E era um mundo que não tinha divulgação nenhuma no nível de mídia. Eram algumas pessoas, era aquela briga no escuro, sem saber para onde ir, sem saber com qual orientação, sem saber como se estruturar para conseguir, sem nenhuma força política, nenhuma voz junto à parte educacional, nenhuma voz junto à mídia. Quer dizer, não tinha estruturação nenhuma, eram sonhadores, basicamente sonhadores na parte ambiental. Eu falei: “Esse movimento não vai para lugar nenhum desse jeito, não adianta as pessoas terem sonhos mas não se estruturarem para conseguir.” Foi naquela época que eu comecei a ler muito sobre os movimentos ambientais externos que já estavam muito mais estruturados do que nós aqui. Entender como eles faziam captação de recursos, como eles faziam projetos. Quer dizer, como saía daquela história do sonhador de meio ambiente que é contra derrubar árvore mas não tem nenhum plano alternativo para as coisas, não tem nenhuma estruturação, não tem nenhum projeto para resolver o meio ambiente sem ser interpretado pela sociedade como sendo alguém que está indo contra o desenvolvimento. Eu me interessei e eu me apaixonei pela questão ambiental. Foi aí que eu comecei a aprender com o Roberto e com todo esse grupo de ambientalistas muito sobre meio ambiente. Antes o meu nível de envolvimento era absolutamente zero.

 

P/2 – E o convite do Roberto? No caso, qual foi a proposta, qual foi o motivo?

 

R – O Roberto queria naquele momento, junto com esse grupo de ambientalistas, montar a SOS. Era um grupo muito interessante de pessoas, mas se percebia que eles não tinham nenhum critério de administração, nenhum olho para o futuro no sentido de estruturação econômica financeira dos projetos, no sentido de estruturação da própria organização. Não tinham nenhuma fonte de captação de recursos, não tinham absolutamente nada. E o Roberto falou: “Nós precisamos de alguém que tenha uma visão um pouco mais pragmática e mais de administração do processo”. Aí ele me convidou para participar, entre muitos, desse conselho de administração nos primeiros dois ou três mandatos. O objetivo era estruturar a SOS e permitir que ela tivesse um caminho a seguir no sentido de captação de recursos, de organização, de ter um orçamento, de ter recursos no sentido de poder pagar profissionais. Porque, também, uma questão que nós aprendemos logo no início é a seguinte: não dá para trabalhar em uma organização só com voluntários, isso não existe. Voluntariado é um programa maravilhoso, muito interessante, mas só voluntários, é alguma coisa que você não pode cobrar das pessoas, elas dão o horário que elas podem dar e quando não podem não dão e simplesmente não dão. E tem uma questão fundamental no voluntário, que ele hoje é voluntário mas amanhã ele deixa de ser voluntário porque ele acha uma outra atividade que é mais interessante e acaba saindo da organização. Então a organização, no começo, tinha muitos adeptos, mas perdia muita gente, então qual foi à ideia naquele momento? A primeira ideia foi a seguinte, nós temos que montar um sistema de captação de recursos. Aí nós criamos a questão dos sócios, que a ideia era os sócios contribuírem naquela época para ter alguma coisa. Depois começamos a nos aproximar de empresas, mas empresas não para pagar a manutenção do negócio, mas empresas para subsidiar projetos específicos. Eu me lembro muito bem que um dos primeiros a apoiar o projeto foi o Bradesco. Eles fizeram um programa muito interessante de captação de imagens, de monitoramento para ver o que tinha sido destruído da floresta Mata Atlântica. Era um projeto específico que era pago pelo Bradesco com profissionais dedicados àquele projeto e foi assim que a SOS Mata Atlântica começou com esse conceito. Nós percebemos um engajamento da sociedade fantástico. Eu me lembro muito bem de uma reunião na Ilha do Cardoso, que o governador Franco Montoro na época foi até a reunião na Ilha do Cardoso e chegou à reunião e começou um discurso de ambientalista. Me lembro do Fábio muito exaltado falando e o governador falou: “Vocês têm que se estruturar. Meio ambiente é uma questão fantástica, é uma questão que vai crescer muito, mas vocês têm que se estruturar.” E eu me lembro muito bem que quando o pessoal fez aquele logotipo que tem até hoje da bandeira brasileira tirando uma parte do verde, “Estão tirando o verde da nossa terra”, foi um sucesso monstruoso. Nem me lembro quem criou, não me lembro de cabeça, foi uma agência que também era um voluntário nosso. Mas não me lembro quem era e foi um sucesso extraordinário esse programa e acabou mostrando para a sociedade que era possível fazer uma organização, uma ONG estruturada com recursos e que defendesse um fim específico que era o meio ambiente. Acho que foi uma das primeiras ONGs bem estruturadas que aconteceram no país. Ela passou por inúmeras transformações, mas está viva até hoje, o que é uma maravilha.

 

P/1 – Walter, na verdade você pegou o início mesmo, a discussão até anterior à criação da SOS. Antes disso, qual era o contato que você tinha, a intimidade que você tinha com a questão ambiental?

 

R – Quase nenhuma. Eu conhecia através do Roberto e algumas pessoas ligadas a meio ambiente, mas eu não conhecia absolutamente nada do conceito ambiental, que não é aquele conceito que é pregado nas escolas. Era pregado nas escolas que nós temos que preservar o meio ambiente, mas sempre nada de prático, sem nada estruturado, absolutamente nada.

 

P/1 – Quando você foi para a Ilha do Cardoso, para a Fundação qual foi a sensação? Como era esse momento?

 

R – Para mim foi uma experiência fantástica, primeiro porque, apesar de viajar muito para o litoral, eu não conhecia o litoral sul de São Paulo. Segundo, não conheci e nem tinha escutado falar na Ilha do Cardoso. A Ilha do Cardoso tinha uma estação lá, hoje não sei como está. Até meu filho vai viajar para a Ilha do Cardoso agora porque as escolas vão viajar muito para lá. Mas tinha um lugar meio abandonado, muito mal cuidado e foi muito interessante porque nós fomos, se não me engano, acho que em trinta, quarenta pessoas para passar um fim de semana para estruturar algum programa ambiental que acabou culminando com o nome SOS Mata Atlântica na Ilha do Cardoso. E foi muito interessante porque eu nunca tinha sido exposto a isso, nem a esse grupo de pessoas e nem àquele tipo de meio ambiente. Então para mim foi um grande aprendizado, mas o nível de exposição que eu tinha anterior era muito baixo. Então meu nível de conhecimento para discutir temas específicos do meio ambiente era quase nulo. Tive muita oportunidade de aprender, foi uma grande lição para mim.

 

P/1 – Foi depois disso, quando você pegou intimidade, começou a se relacionar com a questão ambiental, que você ajudou o Klabin a construir o hotel? E como foi essa coisa do hotel também?

 

R – O Roberto tem uma característica muito interessante, que ele é um sonhador que transforma os sonhos em realidade. Ele tinha um sonho que era o seguinte: ele tinha acabado de receber uma parte de uma fazenda no Pantanal, era uma fazenda muito grande, voltada à criação de gado da família Klabin como um todo e os primos resolveram dividir a fazenda. E o Roberto acabou pegando uma parte importante dessa fazenda, se não me engano 53 mil hectares, nesta divisão. E basicamente era criação de gado — aliás muito pouco estruturada — e o Roberto tinha uma questão que era o seguinte: na mesma área ele queria ter uma reserva florestal que ele acabou criando, um lugar que ia ser totalmente intocado, ele queria ter a criação de gado e ele queria ter um hotel voltado à ecologia. O Pantanal, como você sabe, é uma maravilha em termos de ecologia, e a ideia era trazer os Birdwatchers da Europa e dos Estados Unidos, principalmente, para ter acesso a esse tipo de meio ambiente. Roberto acabou indo fazer uma viagem para a África do Sul para ver como funcionavam os lodges ecológicos na África do Sul e Quênia, se não me engano. Depois ele voltou, falou: “As características dos hotéis são essas, essas, essas, vamos começar a estruturar o hotel.” E foi assim que nós começamos a pensar como seria feito o primeiro hotel realmente ecológico do Brasil. Acabamos criando e o objetivo do hotel era o seguinte: nós não tínhamos que ter, na época, muito conforto na parte estrutural, mas tinha que ter um trabalho fantástico em nível de informação ecológica e do meio ambiente para os turistas. Então, na época, a ideia foi contratar pessoas que eram veterinários ou biólogos da USP, formados já em veterinária ou biologia, dar um curso para eles de como atender os clientes e todos eles tinham que ser bi ou trilíngues, porque grande parte vinha de fora. Aí eles faziam um esquema que era o seguinte: um pequeno grupo de turistas, geralmente seis ou sete turistas tinha um biólogo o tempo todo com eles fazendo passeios a cavalo, fazendo passeios a pé. Nós bolamos um caminhão estranho onde as pessoas iam em cima para ver melhor a paisagem, iam de caminhão ou iam de canoa e as pessoas passavam parte da manhã, das seis da manhã às nove no passeio. E, depois, no final da tarde e no meio do dia praticavam uma atividade no hotel porque é muito quente, os bichos desaparecem, não adianta ficar no campo. E foi assim que o hotel foi criado. O hotel foi criado com um grande sonho que era fazer, só esquecemos de uma coisa que era o turista, de captar o turista. Aí demoramos certo tempo para estruturar o sistema de captação na Europa e nos Estados Unidos, mas o hotel deslanchou depois, até hoje está aí, e o Roberto continua com planos de fazer cada vez um hotel melhor e continua trabalhando nesse plano. Acho que o grande charme do hotel sempre foi trabalhar em um lugar maravilhoso, Pantanal, com diferentes animais e dar para as pessoas informações que nenhum outro hotel do Pantanal pode dar. Esse conceito de terem veterinários ou biólogos continua existindo até hoje, então você vai lá e vai receber todas as informações possíveis sobre o Pantanal.

 

P/2 – Walter, voltando para a SOS. Nessa época que você entrou no Conselho, no início da Fundação, quem eram essas pessoas que estiveram juntas na formação e quem também eram os seus companheiros de Conselho? Se você se lembrar alguns nomes... Você lembra de algumas pessoas?

 

R – Alguns nomes eu lembro. Eu lembro do Clayton Lino, que era espeleólogo — há muitos anos que eu não o vejo, mas ele era; o Capobianco, que hoje está no ministério; o Fábio Feldmann; o Roberto. De cabeça eu não lembro de outros nomes, mas eu tenho certeza que se você me falar eu vou lembrar deles pessoalmente.

 

P/2 – E quais foram os principais desafios que vocês tiveram nesse início, nessa reestruturação?

 

R – Na estruturação da SOS, o principal desafio que nós tínhamos era trazer o pessoal para a terra. Todo mundo sonhava, nós falamos: “Vamos ver o que é possível, não qual é o sonho de vocês.” Trazer isso foi acho que o principal desafio. E acho que o Roberto teve um papel fundamental nesse trabalho porque todo mundo sonhava e a ideia era a seguinte, quando você sonha meio ambiente e você não tem uma ideia específica para fazer, você vira um ET no mundo dos políticos ou no mundo empresarial. Qual é a proposta que você tem? Qual é o trabalho que você quer fazer? Proposta de preservação. Preservação do quê? Como? Como trabalhar com as sociedades locais? E para tudo isso foram surgindo projetos específicos. Então, como no começo não existia projeto nenhum, só existia um sonho de preservação total, foi muito difícil. E acho que esse foi o grande papel do Roberto, trazer o pessoal, falar: “Bom, agora vamos trabalhar em projetos específicos.” Lembro-me de projetos que hoje eu não sei como estão, mas lembro que o que foi um sucesso extraordinário no começo foi a questão de ostras em Cananéia. Quer dizer, as pessoas em Cananéia não tinham nenhuma estrutura e era basicamente a coleta das ostras ia levar à destruição total. A ideia era: “Vamos criar ostra!” Vamos montar um programa para criar ostra para permitir que a sociedade local tenha uma renda adequada e não comece a diversificar. Porque o pessoal de ostra estava se voltando para o palmito, e palmito é devastador, você corta, mas você não faz absolutamente mais nada. Então foi feito um programa naquela época e me lembro que existiam muitas famílias envolvidas nesse processo e até hoje. Isso eu imagino, não sei, que esse processo de ostras continue em Cananéia e as famílias locais, os caiçaras, passaram a ter uma atividade rentável, que pudesse sobreviver e que não destruiu a natureza. Acho que esse foi o grande pulo do gato, achar atividades para as comunidades que permitissem a elas ter uma boa qualidade de vida sem obrigatoriamente destruir o entorno onde ela vivia.

 

P/2 – E durante, você disse, três mandatos você fez parte do Conselho?

 

R – Dois ou três mandatos.

 

P/2 – Os mandatos são anuais?

 

R – É, são anuais.

 

P/2 – Então você permaneceu nos primeiros três anos na SOS? Nesse início aconteceram mudanças que você pôde acompanhar dentro da SOS? Mudanças, por exemplo, de projetos que tenham dado resultados como esse da ostreicultura que você disse, outras campanhas, programas que tenham dado certo.

 

R – Acho que o principal projeto inicial era divulgar a causa, isso foi um sucesso monumental. Quer dizer, como eu falei, meio ambiente era uma coisa completamente desestruturada, muitas pessoas tinham sonhos mas não tinham estrutura para cuidar de meio ambiente adequado, nem a nível governamental do país ou do estado, nem a nível da sociedade organizada, a sociedade civil. Não tinham absolutamente nada e era uma coisa latente na população que nós precisaríamos fazer alguma coisa, então teve uma aceitação tremenda. O grande projeto de divulgação no começo foi um sucesso extraordinário. Depois desse processo de divulgação é que surgiu aquela crise de identidade: “Mas divulgar só não resolve, nós precisamos fazer projetos específicos”. Que foi acho que esse período entre o primeiro e o terceiro ano. E depois do terceiro ano já tinha muitos projetos em curso e a entidade SOS começou a decolar. Decolar no sentido de poder proporcionar à sociedade benefícios específicos e não simplesmente divulgar que a causa do meio ambiente era importante. Nós nos empolgamos tanto com a aceitação pela sociedade no começo, no primeiro ano do projeto da SOS, que esquecemos o fundamental, que era poder proporcionar esses projetos para a sociedade. Acho que entre o segundo e terceiro ano teve essa estruturação e depois a entidade decolou. Eu acompanhei muito de longe o que aconteceu na SOS ao longo desses anos. Sei que tiveram algumas alterações de projetos, de conceito dentro da SOS, mas continua sendo uma entidade muito forte e das entidades ambientais brasileiras que eu conheço é a mais forte que existe.

 

P/2 – Dessa época que você fazia parte do Conselho para hoje, você acha que a questão ambiental melhorou? As pessoas se conscientizaram mais dela, diminuiram os problemas ambientais ou não, na sua opinião?

 

R – Acho que o Brasil, como qualquer outra nação, tem um grande dilema sobre como conduzir esse processo ambiental. Está muito claro hoje que é possível realizar projetos econômicos que não produzam danos ambientais ou minimizem esses danos ambientais. Ainda existe muita restrição a isso, mas o nível de conscientização da sociedade civil hoje é muito maior, o nível de conscientização do empresariado hoje é muito maior. O empresariado naquela época, a questão de degradação era total. Quer dizer, efluentes líquidos que iam para os rios, o sistema de tratamento era nulo. A questão de coleta seletiva, zero, então melhorou demais isso daí. O que falta ainda em minha opinião é a sociedade de uma forma estruturada poder saber como conduzir os projetos para minimizar os impactos ambientais. E aí vou lembrar do projeto que a SOS está envolvida agora, que é o projeto “Florestas do Futuro”. Ou, inclusive, fazer ao contrário, que é restaurar o meio ambiente para a sociedade. Acho que é impossível fazer esse processo de compensações dentro da sociedade de uma forma muito positiva e sem degradar meio ambiente. Esse projeto “Florestas do Futuro” é um projeto com que eu me empolgo demais, porque é um projeto que vai permitir — se houver uma grande mobilização principalmente do meio empresarial — que nós façamos o reflorestamento de tudo que nós perdemos. Não adianta, e é um pouco do dilema que a gente via naquela época. Quer dizer, naquela época era o seguinte: “Nós já devastamos 93% da floresta da Mata Atlântica e agora temos que preservar os 7%.” Agora a questão é a seguinte, nós devastamos 93% ou 94%, não sei se aumentou, o quanto aumentou a devastação, mas ao invés de ficar tentando lutar para ter 6% ou 7%, vamos lutar para ter 10%, 12%, para restaurar uma parte da Mata Atlântica que foi devastada. Isso é fantástico para a sociedade como um todo.

 

P/2 – Em sua opinião, Walter, quais são os principais problemas enfrentados pela Mata Atlântica? Você como usuário de regiões como o Litoral Norte, que observa a degradação, quais são os principais problemas que a Mata atlântica enfrenta hoje, em sua opinião? 

 

R – Eu acho que a principal questão que sempre se colocou é como buscar uma atividade econômica e social para as pessoas que vivem nessas regiões, para que elas não sejam cooptadas pelo sistema para degradar o próprio sistema onde elas vivem. Acho que esse é o maior desafio que tem. Eu vejo no Litoral Norte, por exemplo, que o sistema urbano vai invadindo a floresta e é uma luta para ficar preservando. Então se nós não dermos qualidade de vida para aquelas pessoas, vai ser natural que isso aconteça. Nós temos que buscar atividade econômica e de moradia para essas pessoas para que isso não aconteça. Quer dizer, a responsabilidade, a culpa não é delas, a culpa são dos líderes da sociedade da qual nós fazemos parte.

 

P/1 – Você tem casa no litoral norte?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Como você vê isso, essas construções, como elas ocorrem? Como que as pessoas se comportam quando vão construir? Elas têm essa preocupação com a questão ambiental ou não? 

 

R – A média da sociedade não tem, é muito baixa. Quando você fala para alguma pessoa, cai a ficha. Todo mundo fala: “Realmente tem.” Mas normalmente as pessoas, esse individualismo que reina na nossa sociedade ainda é muito forte. Pessoas muito mais preocupadas com o bem estar pessoal do que com o bem estar coletivo. Mas isso está mudando, essa conscientização vai aumentando, educação ambiental nas escolas está melhorando muito, mas ainda a preocupação é próxima de zero. E uma questão fundamental que a gente fala muito, em devastação do meio ambiente, é a questão dos efluentes. Quer dizer, é muito difícil conscientizar as pessoas para isso. Eu tenho uma história que me dá arrepios. Eu construí uma casa no litoral com excelente arquiteto, com excelente engenheiro e o engenheiro chega no final da obra e fala assim: “Vamos fazer uma gambiarra e ligar o efluente da sua casa no sistema de águas fluviais que vai para um riozinho que vai para o mar.” Falei: “Mas você está louco!” “Mas é muito mais fácil, você não vai conseguir resolver o problema de fossa na sua casa.” No final eu realmente não consegui resolver, tive que contratar um sistema de tratamento de efluente só para a minha casa, mas nunca eu ia jogar esgoto in natura no rio. E essa foi à proposta dele, e é um grande arquiteto e um grande engenheiro. Quer dizer, é mais ou menos isso, todo mundo vai pelo lado mais fácil.

 

P/1 – Voltando um pouquinho. Na época que você estava na SOS, logo no começo que você ajudou, você lembra de algumas coisas engraçadas que tenham acontecido nesse período? Com essas pessoas, com você, quando vocês estavam...

 

R – Eu lembro de reuniões históricas muito interessantes onde o pessoal só faltava me bater. Eu lembro de uma reunião muito interessante onde o pessoal ficava discutindo durante três, quatro, cinco horas, temas de como salvar uma área específica. Seis horas discutindo, eu falei: “Mas qual é a proposta que tem?” E quando eu perguntava isso: “Chega de perguntar qual é a proposta que tem! A proposta é salvar.” “Mas como nós vamos salvar? Como nós vamos criar?” E eu me lembro, essas reuniões eram muito interessantes. Eu saía exausto das reuniões porque reunião de seis, sete horas, cinco, seis horas de reunião... Você não aguentava mais, aí o pessoal chegava assim: “Klabin, não traz mais esse cara aqui porque esse cara só atrapalha, não ajuda em nada.” (risos)

 

P/1 – Uma pessoa malquista.

 

R – Completamente diferente de grande parte da média das pessoas ali.

 

P/1 – A SOS, quando ela surgiu que você participou disso, teve uma grande força. Você acha que tendo o Klabin, que era um empresário, um Fábio Feldmann que tinha já o nome, isso contribuiu?

 

R – Ah, contribuiu com certeza! O Klabin fazia o papel — até hoje faz — de organização mais empresarial do negócio. E o Fábio Feldmann, na época, não tinha nenhuma posição, mas logo depois teve a Assembléia Nacional Constituinte e nós trabalhamos fortemente para a eleição do Fábio. E a partir do momento que o Fábio teve um mandato na Assembléia Nacional Constituinte, a questão ambiental passou a ter uma outra dimensão. O Fábio teve um efeito de divulgação na sociedade muito forte, isso ajudou demais a divulgação, não só da SOS, mas da questão ambiental como um todo. Aquilo foi um efeito muito grande. A partir daí se conseguiu influenciar nas decisões políticas, nas questões ecológicas, vários membros da SOS passaram a fazer parte da PPRA [Programa de Prevenção de Riscos Ambientais], vários órgãos ambientais. Isso começou a mudar o conceito de meio ambiente na sociedade como um todo, então eles tiveram um papel fundamental.

 

P/1 – Como foi esse trabalho de vocês com os sócios? De chamar as pessoas para se tornarem sócias da SOS? Você podia contar um pouquinho?

 

R – No começo foi um trabalho muito interessante e tinha uma explosão no número de sócios. Mas aí a gente começou a perceber, porque o objetivo no começo era fazer com que os sócios pagassem para manter a sociedade. Na época, a ideia que nós tínhamos era ter uma estrutura mínima de pessoas remuneradas que têm que trabalhar em prol da causa e da entidade, da SOS. Nós tivemos um grande crescimento, mas algumas pessoas começaram a perceber que tinham que pagar, começou uma dúvida nos sócios: “Quem estava por trás da SOS?” Se eles estavam contribuindo por uma causa justa ou estavam contribuindo para pessoas? Essa desconfiança na sociedade brasileira, e justa, tem razão para ter, é muito grande. Então as pessoas falaram assim: “Para que estou contribuindo? Será que estou contribuindo para dar dinheiro para algumas pessoas ou realmente para defender uma causa?” Foi uma discussão muito grande interna, como fazer com que a sociedade tivesse uma imagem positiva. Nós tivemos um grande crescimento no número de sócios, depois uma queda. Começou a cair o número de sócios porque nós tínhamos muita dificuldade em convencer as pessoas de que a causa tinha uma estrutura mas tinha que ter uma manutenção para essa estrutura, e no começo foi uma dificuldade. O nome do Roberto ajudou muito porque ele começou a ir a vários empresários e pedir contribuições para ajudar a fazer com que sustentassem a SOS. Depois nós percebemos que não dava para fazer isso porque ninguém ia ficar eternamente contribuindo para manter uma estrutura sem nenhum projeto específico. Aí que surgiu a história dos projetos. Mas foi muito difícil no começo a parte financeira, a arrecadação financeira do projeto. Tinha muita credibilidade, mas a partir do momento que você começou a pedir contribuição financeira para os sócios, aí à credibilidade começou a ser questionada.

 

P/2 – Walter, você já citou alguns dos programas, alguns projetos da SOS. Quais foram os que mais te marcaram? Não só no período que você estava lá, mas mesmo posteriormente, que você tenha acompanhado.

 

R – Um projeto que eu acompanhei muito de perto foi de monitoramento que foi feito da Mata Atlântica, é um projeto que me marcou muito. E os projetos de retenção da comunidade local e apoio à comunidade local foram feitos tanto em Cananéia quanto em Picinguaba, foram naquela época os que mais me chamaram a atenção. Recentemente, o projeto que mais me chama a atenção é o projeto Florestas do Futuro, que eu acho que é o projeto que vai permitir uma nova era na questão ambiental. Eu tenho visto a receptividade dos clientes da Dixie Toga, porque a Dixie Toga está participando do projeto e está doando as árvores para os nossos clientes. E eu tenho percebido grandes empresas multinacionais de material de consumo, higiene e limpeza, de alimentos, ficando fascinadas pelo projeto. Porque é um projeto que tem repercussão não só junto ao corpo de funcionários das empresas, mas até em relação à sede dessas empresas fora do Brasil. Então estou extremamente motivado, acho que é um projeto que vai deslanchar muito rapidamente.

 

P/2 – E esse Florestas do Futuro? 

 

R – O projeto Florestas do Futuro consiste em uma empresa que vai patrocinar. A Dixie Toga, por exemplo, nós estamos patrocinando o replantio de quinze mil árvores próximas de um rio, que é uma área que precisa ser reflorestada, específica. Nós fazemos isso junto a comunidade, em Londrina. Nós fazemos o plantio das árvores, só que doamos essas árvores para os nossos clientes. Nesse caso nós doamos para a Unilever, doamos para a Colgate, doamos para o McDonald’s e para a Kraft. E essas empresas ficaram tão maravilhados com o projeto que eles também vão entrar no projeto e provavelmente doar para os clientes deles.

 

P/2 – Virar uma pirâmide!

 

R – Vai virar uma pirâmide e vai propiciar fazer com que aumente dramaticamente o número de árvores plantadas, exatamente é esse o conceito.

 

P/2 – Nossa, muito interessante! Agora, como administrador, o Walter administrador. Ainda que você não faça mais parte da SOS formalmente, você acompanha de uma forma ou de outra e acompanhou a evolução da Fundação. Você acha que existem pontos dentro da Fundação que necessitam de reformulação hoje?

 

R – Olha, Rodrigo, eu não consigo ter essa percepção, meu nível de envolvimento com a Fundação é muito baixo para saber como é o dia-a-dia na área administrativa, então não posso fazer nenhum julgamento sem conhecer. A minha percepção é de que houve um amadurecimento muito grande conversando com as pessoas sobre o que é a Fundação hoje, mas eu não sei te dizer como é a estruturação dela para julgar ou não. O que eu tenho absoluta convicção é de que, hoje, a SOS é uma entidade que tem sustentabilidade. Hoje ela não é mais dependente financeiramente, como foi, de alguns poucos empresários, ela não é mais dependente de alguns poucos ambientalistas, ela é uma entidade que tem vida própria, isso acho que foi a beleza da construção da SOS. A gente costuma falar o seguinte: que no meio empresarial a questão fundamental é se você tem uma vantagem competitiva sustentável em relação ao seu concorrente. No meio ambiental nós não precisamos ter diferenciação em relação à concorrência, nós precisamos ter sustentabilidade, e isso, em minha opinião, foi criado na SOS. 

 

P/2 – Então, fazendo um balanço desses dezoito anos da Fundação, você diria que foi um saldo positivo?

 

R – Não, foi positivo, foi fenomenal. Nós saímos de um sonho de algumas pessoas, de alguns ambientalistas e, hoje, esse trabalho que foi feito chegou em uma situação onde tem uma entidade sólida, uma entidade que tem sustentabilidade, sustentável. Uma entidade que tem projetos, uma entidade que é independente de pessoas, uma entidade que hoje tem um excelente reconhecimento junto à sociedade, junto ao meio empresarial, junto ao meio político. Houve também um equilíbrio e um balanceamento sobre essa questão de como fazer, defender o meio ambiente sem obrigatoriamente restringir o crescimento da sociedade, desenvolvimento econômico das pessoas. Então nunca nada é perfeito, não existe nenhuma entidade, nenhuma empresa, nada é perfeito. Mas hoje nós estamos a anos-luz do que foi o começo dessa entidade.

 

P/1 – Walter, a gente está chegando ao final. Você gostaria de falar alguma coisa que nós não te perguntamos? Que você lembre, que você ache interessante?

 

R – Não tenho nada específico para falar, Beth, com exceção do fato de parabenizar e agradecer às pessoas que durante dezoito anos trabalharam em uma causa tão nobre quanto a SOS. Eu acho que as pessoas se doaram para esse projeto, as pessoas fizeram com que esse projeto fosse viável, que fosse factível no sentido de estruturação e no sentido de estar preparada para o futuro, de ter planejamento adequado. E acho que a sociedade tem muito a agradecer a essas pessoas. Quer dizer, eu tive uma contribuição muito pequena nessa sociedade, nessa entidade como um todo, mas eu gostaria de poder agradecer às pessoas que durante dezoito anos trabalharam em um projeto tão lindo e propiciaram a nós todos, cidadãos civis, estar participando de uma história tão bonita quanto essa da SOS Mata Atlântica. Só uma mensagem de agradecimento.

 

P/1 – Walter, o que você imagina da Fundação para daqui a dez anos?

 

R – Eu acho que a Fundação vai ter que continuar com a sua característica fundamental, que é buscar projetos que possibilitem ter um equilíbrio de meio ambiente com o desenvolvimento sustentável. Um projeto de ter sustentabilidade econômica e é um projeto que tem uma fundamental atuação na sociedade que é a educação ambiental para as novas gerações. Acho que isso vai gerar um crescimento exponencial da mobilização das pessoas da sociedade em relação ao futuro. E é isso que nós temos que fazer e não é só na área ambiental, em todas as áreas da sociedade civil organizada do Brasil. A SOS tem o papel fundamental de ser o catalisador desse anseio da sociedade para o futuro. Eu só vejo coisas positivas para a SOS, é um aprofundamento do trabalho que já foi feito, não é uma mudança de direção, mas é só uma maior abrangência e um maior aprofundamento. Só isso que eu imagino para melhorar a SOS no futuro.

 

P/1 – Você quer deixar algum recado para os dezoito anos?

 

R – Nós estamos atingindo a maioridade, nós todos aprendemos na nossa vida como pessoas que quando se atinge a maioridade se tem que aumentar o nível de responsabilidade. E nós passamos a ser imputáveis a partir dos dezoito anos. Eu acho que a característica da SOS é que ela teve sempre muita responsabilidade, mas os dezoito anos são uma marca muito importante. E é uma marca que vai ter que fazer uma discussão interna em todas as pessoas para analisar o quão nós podemos transformar a SOS. Mas a única mensagem, como eu falei anteriormente, é uma mensagem de agradecimento para essas pessoas e uma mensagem de esperança. Esperança de que a SOS continue fazendo esse trabalho tão importante para nós todos da sociedade.   

 

P/1 – Walter, obrigada por você ter vindo, agradecemos o seu depoimento.

 

P/2 – Obrigado.

 

R – Obrigado a vocês e obrigado pela oportunidade de estar com vocês.

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