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História

Um escritor cearense "fuleiro"

História de: Ricardo Kelmer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2010

Sinopse

Ricardo nasceu em Fortaleza em 21 de outubro de 1964 e passou toda sua infância lá. Nos conta sobre as origens de sua família, parte do Acre e parte do interior do Ceará. Desde muito cedo se interessa pela escrita, escrevia poemas no aniversário de suas professoras quando era criança. Fala sobre como era a cidade de Fortaleza nos anos 70, muito diferente e menor do que é hoje. Kelmer cursou Jornalismo e Letras, mas não concluiu os cursos. Sempre viajante em busca de novas aventuras, os trabalhos já o levaram para diversos lugares. Um deles o trouxe até o Rio de Janeiro para trabalhar com um instituto de Projecionismo, após conflitos, saiu de lá e escreveu seu primeiro livro místico e humorístico que lhe rendeu um sucesso inesperado. Desde então, Ricardo quase sempre escreveu seus próprios projetos em diversas áreas como escritor independente por preferir este modo de trabalhar e nos conta como foi utilizar a internet em seus primórdios aqui no Brasil, sendo um dos primeiros escritores que experimentou o ambiente virtual para transmitir suas obras e conversar com seus leitores.

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História completa

P/1 – Então, Ricardo, boa tarde. Eu queria começar a entrevista perguntando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Ricardo Kelmer de Oliveira Galvão. Nasci em Fortaleza, Ceará, em 21 de outubro de 1964.

 

P/1 – Ricardo, você poderia falar o nome dos seus pais e atividades deles?

 

R – Meu pai se chama Sebastião de Oliveira Galvão, ele é médico veterinário e minha mãe se chama Vilma de Oliveira Galvão e trabalha com ele numa clínica veterinária, é uma gerente da empresa.

 

P/1 – Isso aonde?

 

R – Em Fortaleza.

 

P/1 – Em Fortaleza. E eles têm que idade mais ou menos?

 

R – Meu pai tem hoje, 2009, ele tem... Fazer as contas aí, 1932...

 

P/1 – Sessenta e sete...

 

R – Setenta e sete...

 

P/1 – Setenta e sete?

 

R – Setenta e sete.

 

P/1 – Rapaz.

 

R – Isso. 77. E minha mãe não sei, não tenho certeza, mas ela deve ser uns dez anos mais nova.

 

P/1 – Então ele deve ser um dos veterinários mais antigos em atividade lá.

 

R – Certamente é.

 

P/1 – E ele é o que? Cearense?

 

R – Ele é acreano. Ele nasceu em Tarauacá. Tarauacá é uma cidadezinha no interior do Acre que metade do ano se chega de carro, normalmente, e a outra metade não se chega. Porque quando caem aquelas chuvas torrenciais na Amazônia as estradas ficam impraticáveis aí tem que ir de teco-teco.

 

P/1 – Então a cidade fica isolada mesmo.

 

R – Fica isolada por terra, aí só chega de barco ou de avião. E minha mãe é do Assaré no sul do Ceará, no Cariri. Cidade do Patativa, né? Patativa do Assaré.

 

P/1 – Que é o poeta.

 

R – É.

 

P/1 – Pra quem não... Conta um pouquinho pra quem não sabe quem é o Patativa.

 

R – Patativa inclusive esse ano é o centenário dele, é o centenário de nascimento do Patativa. Patativa foi um, resumindo bem, um homem da roça, um homem da terra, um homem do campo, agricultor, analfabeto que se notabilizou por adquirir um conhecimento prático da vida, do mundo, tão distinto que o levou a ser considerado um dos maiores poetas populares da cultura brasileira. Dono de uma memória prodigiosíssima ele conseguia memorizar os seus poemas e recitá-los sempre que queriam e isso era uma façanha assim, até mesmo em idade avançada. Patativa inclusive é considerado um... Uma pesquisa que fizeram recentemente, um dos cearenses mais notáveis da história do Ceará. Minha mãe é dessa cidade.

 

P/1 – Que beleza.

 

R – É.

 

P/1 – E, Ricardo, você chegou a conhecer seus avós maternos e paternos?

 

R – Conheci meus avós paternos e maternos com exceção do meu avô paterno que era acreano. Meu pai foi morar em Fortaleza no começo dos anos 60 e aí quando eu fui ao Acre visitar a família, conhecer a família, ele já havia falecido, então conheci apenas os meus outros avós.

 

P/1 – Tá. E a atividade dos seus avós era de trabalhar com o que?

 

R – Esse meu avô paterno ele era dono de seringais no Acre, mas com a decadência econômica da coisa da seringa, dos seringais, ele perdeu... Acho que ele perdeu propriedades e enfim, a vida deve ter ficado realmente difícil pra forçar a saída do meu pai e dos outros irmãos de lá. Então muitos deles se espalharam pelo Brasil, Manaus, Belém, Maranhão, Ceará, Brasília. Chegaram até a ir até o Rio de Janeiro. A minha avó era, aquela cultura tradicional do Acre, era uma dona de casa parideira. Teve acho que 14 filhos, 13, 14 filhos. Meus avós maternos foram do Cariri pra Fortaleza nos anos 50 ou 40, fizeram aquela coisa. Ele era comerciante, um pequeno comerciante na cidade, juntou um dinheirinho, queria dar um estudo, uma qualidade de vida melhor pros filhos, juntou tudo, botou tudo mundo no lombo de três cavalos, 12 filhos mais a mulher e foram pra Fortaleza.

 

P/1 – Nossa.

 

R – É. Chegaram até o Icó, aí no Icó pegaram um trem, que é uma cidade mais ou menos no centro do Ceará... Foi capital, né? O Icó foi capital do Ceará nos primórdios da história do Ceará. De lá pegaram um trem e foram direto pra Fortaleza, uma viagem que deve ter durado mais ou menos uma semana.

 

P/2 – Mas por que Fortaleza?

 

R – Pra poder... Pros filhos poderem estudar melhor. Lá no Cariri na época não tinha ainda o estudo que o meu avô queria que os filhos tivessem pra dar melhores condições de... Principalmente de estudos. Ele valorizava muito a questão da leitura. Meu avô era poeta. Era. Escrevia muito, muitos versos, até a idade avançada... Não tinha um aniversário de filho, ou de filha, ou de neto que ele não fazia seus versinhos pra homenagear, aí para a festa pro meu avô...

 

P/2 – Declamar.

 

R – Declamar os poemas, o poeminha que ele fazia.

 

P/1 – Que ótimo.

 

R – É. Talvez eu tenha dado um pouquinho aí desse sangue, né...

 

P/1 – Ah, provavelmente...

 

R – De escritor. E ele quando chegou a Fortaleza, ele foi ser comerciante no Mercado Central. Vendia rapadura, cachaça, coisinhas. Ele tinha um boxezinho no mercado, pequenininho assim e com esse boxe ele conseguiu sustentar a família.

 

P/1 – Quer dizer, como o depoimento fica pra uma leitura aí maior, você podia contar um pouco o que é o Mercado Central lá de Fortaleza.

 

R – O Mercado Central é um grande mercado público. Hoje ele é considerado uma atração turística na cidade. Existe ainda o Mercado Central?

 

P/2 – Não esse tradicional aí que você tá falando porque foi transferido praquele outro prédio ao lado da Catedral, prédio novo, entre aspas, que é inclusive, arquitetonicamente falando, ele é meio polêmico.

 

P/1 – Mas o dessa época do seu avô então ele ficava no centro de Fortaleza?

 

P/2 – Era o antigo Mercado Central.

 

R – Era o antigo Mercado Central do centro da cidade nos anos 60, nos anos 70. Exatamente. Ele era comerciante lá, ele tinha um boxezinho pequeno onde ele vendia comida, bebida, essas coisas de pequenos comerciantes.

 

P/1 – Sei. Sei.

 

R – De mercado público.

 

P/2 – Mas só coisa da terra ou ele trazia coisa de fora pra vender? Como é que era?

 

R – Não. Mais coisas locais da terra, lá da região dele, do Assaré. E era apontador do jogo do bicho. (risos)

 

P/2 – Isso não pode esquecer.

 

R – Isso não pode esquecer. Tinha lá, cadernetinha lá, quando os filhos sonhavam com águia, com cavalo, não sei o que mais ele “ops” já fazia a fezinha lá e já marcava o jogo.

 

P/1 – E, Ricardo, você tem mais irmãos?

 

R – Tenho três irmãos, eu sou o mais velho. Tive uma irmã antes de mim que teve problemas de hidrocefalia, né? Ela tinha uma cabeça bem grande, eu me lembro de fotos, eu vi fotos dela, chamava-se Gina e ela faleceu com dois anos de idade, eu já era até nascido quando ela faleceu. Tenho foto dela, eu pequenininho do lado dela, ela deitada na cama e ela não tinha realmente condições de sobreviver, mas meus pais ficaram com ela, aceitaram o nascimento e cuidaram dela até ela não ter mais realmente condições. Vim eu, depois de mim tem mais minha irmã, Ana Érica, tem meu irmão, Marcio Régis e a caçula Luciérida.

 

P/1 – Todos os nomes compostos?

 

R – Todos os nomes compostos, menos a Gina. A Gina era só Gina.

 

P/1 – E o que significa Kelmer?

 

R – Kelmer é... Diz minha mãe que conheceu uma Kelma uma vez, na escola normal quando ela estudava, achou bonito o nome e pôs no filho.

 

P/1 –   Ah, tá.

 

R – E pôs no filho, Kelmer. Mas ela poria se fosse menina Kelma.

 

P/1 – Kelma.

 

R – É. Mas como nasceu menino ficou Kelmer.

 

P/1 – Ricardo, você tem... Você se recorda assim, quando você era criança de como era essa sua casa ou apartamento que você passou a infância?

 

R – As lembranças mais antigas que eu tenho em relação à residência, nós morávamos numa vila, Vila Padre Mororó ali na Rua Padre Mororó perto do cemitério, de um cemitério... Como é que era o nome daquele cemitério?

 

P/2 – São João Batista.

 

R – São João Batista. Perto do cemitério São João Batista. Ainda bem que você tá aqui, senão eu... (risos)

 

P/2 – Não sei nem se eu até posso soprar, né?

 

P/1 – É, pode soprar. Pode soprar.

 

P/2 – Eu não entendo muito bem ainda a metodologia...

 

R – Ah é? Não pode soprar? Não pode soprar, não? Então tá bom.

 

P/2 – Porque aqui tem todo um... Sabe? Uma metodologia que eu ainda tô aprendendo.

 

P/1 – Não, mas pode. Não pode.

 

R – Não. Tudo bem, eu vou...

 

P/2 – Mas é, o São Gilberto é um lindo cemitério, o mais antigo.

 

R – Então era uma casinha pequena de um quarto, uma sala e uma cozinha e eu tenho uma lembrança que eu considero impressionante dessa época, porque eu tinha o que? Uns quatro, cinco anos de idade mais ou menos, quatro anos de idade e a moça cozinheira que era empregada da casa, ela parece que fumava e... Não sei o que aconteceu com a ponta do cigarro, não sei o que mais que pegou no cortinado da minha rede onde eu dormia. Eu dormia numa rede na sala e pegou fogo, eu fiquei naquela sauna dentro da rede... Nossa, foi uma loucura. E eu tenho uma lembrança de eu deitado na cama dos meus pais com as costas pra cima em carne viva e ele passando um trem ali, né? Unguento, alguma coisa e tal. E eu me lembro do quarto, da janela, da porta pra que lado ficava e tal e depois eu confirmei com eles essas lembranças e realmente eles... Procedia. Eu vi que procediam as lembranças.

 

P/1 – Então você se machucou mesmo?

 

R – Foi. Foi. Foi bem sério. Foi a minha primeira vida.

 

P/1 – Nasceu de novo.

 

R – Tipo de videogame, né? Você tem sete vidas, a primeira foi aí.

 

P/1 – Rapaz.

 

P/2 – E a moça...

 

R – A moça? Tadinha. Não sei o que aconteceu, como é que foi a história.

 

P/2 – Já pensou...

 

P/1 – Ricardo, então nessa casa nasceram seus outros irmãos também?

 

R – Nessa casa nasceu minha irmã, a Ana Érica e acho que somente... Agora não tenho certeza se o meu irmão nasceu nessa casa também ou na próxima casa que nós moramos. E a minha irmã mais nova com certeza nasceu na outra casa.

 

P/1 – Tá. Então você pode descrever o entorno, você já... Não. Você era pequeno, nem saía muito de casa ainda pra brincar, né?

 

R – Não. Não lembro bem, mas era uma vila simples, pequenina, era uma quadra só, nossa casa ficava já quase no finalzinho encostada num... Acho que era a penúltima casa. Meu pai disse que ele foi o primeiro a ter televisão na vila, uma televisão preto e branco, na época dos anos 60 e as pessoas iam assistir televisão lá e chamavam de televizinho. Televisão no vizinho.

 

P/1 – É, o vizinho que assistia na sua casa...

 

R – Era...

 

P/1 – É um bom nome.

 

R – É um bom nome. Mas não me lembro do entorno, não.

 

P/2 – Nem do cemitério, nada?

 

R – Não. Não. Não lembro.

 

P/2 – Você ficou lá até que idade?

 

R – Eu fiquei lá... Nós ficamos acho que até mais ou menos 1968, então eu tinha o que? Quatro anos de idade? 69, 68 por aí. Então realmente eu não lembro. Mas lembro dessa noite, lembro-me desse... Da sensação de ardência nas costas. É. Lembro-me disso e do cuidado que eles tiveram comigo e lembro-me do ambiente do quarto. Minha mãe disse que é dessa época a minha primeira frase, né? Quatro anos já era pra ter falado mesmo alguma coisa e que minha primeira frase foi no quintal... Não era um quintal, era uma areazinha assim depois da cozinha e tinha um coqueiro e um dia ela preocupada comigo porque eu já tava com dois anos, um ano e... Dois anos, três anos, não falava nada, um dia eu virei pra ela e falei assim: “Caiu um coco”. (risos) Minha primeira sentença: “Caiu um coco”. (risos) Poderia ter sido cientista, físico, percebendo a ação da gravidade: “Caiu um coco”. (risos) Já foi uma frase...

 

P/2 – Quase uma letra de música.

 

R – Quase um verso de música. (risos)

 

P/1 – Ricardo, então vocês se mudam pro mesmo bairro?

 

R – Não. Mudamos-nos pra outro bairro que já fica mais periferia da cidade, na época, né? Hoje já não é periferia. Que era ali pro lado da Bezerra de Menezes já chegando ali pra Mister Hall, já meio que saindo da cidade pro lado oeste.

 

P/1 – E como é que chama o bairro?

 

R – Ali é... Era uma rua chamada Gustavo Sampaio. Eu não sei como é o nome daquele bairro ali.

 

P/1 – Depois você lembra.

 

R – É.

 

P/1 – E era o que? Era uma casa?

 

R – Mas é... Era uma casa. Era uma casa. Antes de chegar ali pro lado da Igreja Redonda ali da Parquelândia, entre Bezerra de Menezes e Parquelândia.

 

P/2 –   Pici?

 

R – Não. Era quase no Pici. Era quase chegando no Pici ali pelo meio, entre Bezerra de Menezes e Jovita Feitosa, Pici, mais ou menos por ali. E era uma casa, aí já era uma casa maior, acho que tinha dois quartos, tinha um quintal... E uma lembrança que eu tenho dessa casa é a Copa do Mundo de 1970 que é interessante porque na época a televisão tava... A televisão em cores tava chegando, ainda estava sendo implantada no Brasil e os jogos ao vivo da Copa do Mundo... Muitas pessoas acham que a Copa foi transmitida ao vivo pra todo Brasil, mas não foi.

 

P/1 – Ah não?

 

R – Não. Não foi. Foi só pro Rio e São Paulo. Não foi pra todo o país.

 

P/1 – Olha...

 

R – É. Não foi porque o sistema da televisão ainda não abarcava. O sistema ao vivo ainda não abarcava o país todo. Então o que acontecia? A gente assistia pelo rádio e a Televisão Verdes Mares, do sistema Verdes Mares da Globo lá em Fortaleza, que estava começando a ser implantada, também a ser construída lá, recebia o sinal nos estúdios, as pessoas lá viam, assistiam. Então elas conseguiam, os funcionários, os jornalistas, eles viam os jogos lá nos monitores, conseguiam ver. Mas a população que tinha TV em casa não recebia o sinal ao vivo, então nós víamos o vídeo tape depois. A cada vitória do Brasil as pessoas iam todas lá em torno da praça que fica em frente a televisão pra comemorar, porque lá recebia-se as notícias ao vivo, você podia acompanhar o jogo direto, sabendo como é que tava o jogo sem ser pelo rádio. E nós esperávamos meu pai chegar do trabalho com a bandeirinha verde e amarela na mão na calçada, dos filhozinhos na escadinha, eu minha irmã, meu filho, minha irmã mais nova, todo mundo na calçadinha esperando de bandeirinha. E aí ele vinha do trabalho, daí pegava a gente e a gente saía pra cidade pra comemorar, buzinaço, aquela coisa toda.

 

P/1 – Que beleza. Foram muitos buzinaços, né?

 

R – Muito. 1970.

 

P/1 – E de que vocês brincavam ali? Em casa ou na rua.

 

R – Lembro que brincava de bola de gude, que lá a gente chama de bila.

 

P/1 – Bila?

 

R – É. Jogo de bila. E não lembro... Também não tenho muita lembrança porque a gente ficou muito pouco tempo lá. Em 1972 nós já mudamos pra uma casa no centro da cidade e também não tenho muita lembrança dessa época lá nessa casa. Foi pouco tempo também.

 

P/1 – Vocês... Então você já tá na terceira casa? Mas, em geral, se a gente fosse fazer um resumo assim, do que se brincava na infância na sua época? Bila...

 

R – Bola de gude, pega-pega, esconde-esconde...

 

P/2 – Futebol não?

 

R – Futebol na rua... Eu gostava muito de brincar de Forte Apache. Aqueles bonequinhos, né? E eu lembro que eu brincava com o meu irmão, mas na maioria das vezes meu irmão mais novo, ele tem três, quatro anos no máximo, ele me pedia pra que eu manipulasse os bonecos e inventasse as histórias. Então eu já era meio que roteirista nessa época e todo, eu não sei como, mas todo dia eu tinha uma história nova pra inventar com os bonequinhos, um roteiro novo da história. Eu pedia pra ele brincar comigo, mas ele gostava de ver, de assistir a história, olha que... É um teatrinho na verdade de bonecos. Forte Apache. Meu preferido nem era o soldado, na verdade era o índio. Adorava o índio. Um índio que eu tinha posto o nome de Malaque. (risos) Não me pergunte por quê. Malaque. Aí eu virei um Malaco depois, né? (risos)

 

P/2 – Virou um Malaca.

 

R – Era o Malaque e o mocinho era o Dim.

 

P/1 – É. Porque o jogo foi bolado que assim, com o forte estavam os brancos, né?

 

R – Isso.

 

P/1 – E os índios vêm atacar o forte.

 

R –      [E os índios atacando o forte. Mas o índio lá, o Malaque é que era o cara, ele tinha um tacape assim na mão, montado no cavalo...

 

P/1 – Que legal. Ricardo, olha, falando então de brincadeiras e como é que foi que a leitura aparece pra você?

 

R – Ih rapaz. No Colégio Santo Inácio, eu estudei lá desde os... Era um colégio jesuíta, né? Eu estudei lá desde... Eu comecei lá a alfabetização. Eu lembro que na alfabetização, então eu tinha o que? Uns seis anos mais ou menos? Tinha aula de leitura na biblioteca, uma vez por semana eu acho, duas vezes. A professora pegava os alunos, tirava da sala de aula e levava pra biblioteca. Era uma biblioteca pequena, infantil, mas pra mim era o universo. Aquele ambiente silencioso, os livros nas prateleiras, passava um ar de mistérios, alguma coisa assim. E um dia eu fiz uma traquinice. A professora anunciou que estava na hora de voltar pra sala de aula, recolheu os alunos e foi pra sala e eu fiquei escondido debaixo da mesa porque uma hora era pouco. Aí fiquei lá durante um tempo que pra mim pareceu uma eternidade, mas talvez tenha sido, sei lá, meia hora, 20 minutos. Até o tempo de a professora chegar à sala, contar os alunos, dar falta de mim e voltar pra me pegar, o que foi uma frustração.  Mas eu me lembro da sensação de ter ficado sozinho naquele ambiente durante 20 minutos, meia hora, não sei, folheando todos os livros que eu queria. Então alguma coisa aconteceu nesse dia e eu lembro que nesse... É a primeira lembrança mais, digamos assim, de caráter numinoso que eu tenho em relação ao livro e a literatura e a leitura. Foi por essa época, seis, sete anos. Depois as minhas aulas prediletas no primário foram sempre ligadas a português, gramática e redação principalmente. Nossa. Aula de redação era tudo. Eu não tinha orgasmos ainda naquela época, mas era um orgasmo espiritual as aulas de redação. Então eu virava o aluninho querido dos professores... Das professoras. Não tinha ainda professor de... Ainda não tinha professor. Das professoras. Principalmente porque eu fazia poeminhas no aniversário delas. Olha só. O cara já tá mal intencionado, né? Então todo aniversário das professoras eu pedia pro meu pai me ajudar a escrever uns poeminhas, pegava lá o papelzinho, aquela coisa toda. Eu me lembro da sensação dos peitões da Dona Conceição assim, sabe, me abraçando: “Meu filho como você...”. Eu lá no meio dos peitos dela: “Tenho que escrever mais poemas. Tenho que escrever mais poemas”. E fiquei com essa mania de escrever poemas pras professoras.

 

P/1 – Uma boa mania.

 

R – (risos) É uma boa mania. Dona Conceição, Dona Jovelina... Olha, Dona Jovelina e Fátima, era outra professora se não me engano. Mas os peitos da Dona Conceição é que eu lembro mais assim. Eu acho que foram os grandes incentivadores da minha carreira literária, foram os peitos da Dona Conceição. (risos)

 

P/1 – Ricardo, nessa época já tinha livros infantis que se liam na sala de aula? No...

 

R – Tinha. Tinha, sim. Tinha livros infantis. Tinha os paradidáticos, eu me lembro dos paradidáticos, inclusive eu me lembro dos contos dos Irmãos Grimm que... Na época era terceiro ano primário, eu tinha então nove anos, oito, nove anos, mas tinha, eu me lembro de livros infantis, sim, por essa época. E com dez anos eu... Era isso que você queria saber?

 

P/1 – É. Porque nessa época chegava pouco na escola o livro infantil, isso é um fenômeno mais recente. Eu queria saber o que aparecia. Tinha Monteiro Lobato também?

 

R – Não lembro agora exatamente do Monteiro Lobato lá nesse colégio. Não. Não lembro. Não estou lembrado. Mas tinha livro infantil, não sei dizer agora exatamente quais eram.

 

P/1 – E a história em quadrinho?

 

R – Teve um fato ainda ligado a livro muito interessante, com dez anos de idade eu peguei uma pneumonia braba, quase que eu danço. Essa foi a terceira vida que eu joguei fora. A segunda foi quando eu fui atravessar o clube, saindo da praia, o Clube dos Diários, me soltei do braço da minha mãe, saí correndo atrás da serra, veio um fusca e puf, me pegou assim...

 

P/1 –   Te atropelou?

 

R – Me atropelou e o porta... O capô do fusca ficou assim, que era a minha cabeça que ficou dentro do... Quase que eu danço. Então foi a segunda. E por essa época, também no Clube dos Diários, eu me afoguei e morri afogado lá alguns segundos e meu pai foi me resgatar, respiração, aquela coisa toda e tal. Quer dizer, não era pra eu tá aqui dando esse depoimento pra posteridade. Então três. Depois a pneumonia. Quatro. Eu fiquei vários dias sem poder ir à aula por conta da pneumonia e eu lembro que na volta do hospital, que meu pai se tranquilizou um pouco, viu que eu ia escapar, mas que teria que ficar um bom tempo convalescendo, sem poder ir à aula, descansando em casa deitado numa cama, ele parou numa banca de revista falou assim: “Escolhe aí o que você quer pra você ficar lendo. Vai ter que ficar mesmo aí 15 dias em casa aí”. Ave Maria. Eu falei: “Quero ter mais pneumonia”. Então eu lembro que fiz a feira, né? Naquela época eu lembro que tinham umas edições infantis do Príncipe Valente de quadrinhos. Você me perguntou, né, de quadrinhos. Príncipe Valente. Eram uns quadrinhos infantis. E também tinham os gibis da Turma da Mônica, do Maurício de Souza e tinha também umas edições do Tarzan, do Edgar Rice Burroughs. E aí foi que, lendo Tarzan, eu decidi que eu também queria escrever histórias como aquelas. E aí decidi que eu queria ser escritor, por conta da pneumonia. Então foi a morte talvez, junto com os peitos da Dona Conceição... Os peitos, a morte...

 

P/2 – A vida.

 

R – Que me puseram em contato com a minha vocação literária.

 

P/1 – Interessante.

 

R – Engraçado. Pra não morrer eu virei escritor ou porque não morri eu virei escritor. Alguma coisa a ver com a morte.

 

P/1 – E, quer dizer, isso você já estava então com?

 

R – Dez anos.

 

P/1 – Dez anos. Você citou aí a coisa da praia, né? Então Fortaleza é uma cidade de praia. Eu queria que você contasse um pouquinho dessa coisa de menino ainda frequentando a praia, que praia vocês iam, como é que era o lazer a família.

 

R – O lazer da nossa família até essa época era praia. Meu pai gostava de jogar vôlei, na Praia do Futuro tinha um clube dos veterinários lá, que ele já tava estudando veterinária nessa época, ele se formou tarde. Ele era farmacêutico, ele era representante farmacêutico e paralelamente começou a estudar. Nós já éramos garotos, eu tinha já uns dez anos, doze anos. Quando ele se formou eu acho que eu tinha uns doze anos, treze anos. Ele se formou depois dos quarenta, praquela época era considerado já de idade avançada. Hoje não tem idade pra ir pra faculdade, mas em 1974 ele começou tarde. E aí nós íamos pra praia, era o lazer da família. A praia era ali, as praias centrais da cidade ou então algumas mais afastadas que ficavam pro lado do Icaraí, que é zona oeste, e a prainha que era pro outro lado, a cidade de Aquiraz que ficava pro outro lado, pra zona leste. Eram lazeres simples, minha família era de classe média, não tínhamos luxo, ostentações, então os prazeres eram simples. E sair pra Casa de Itália comer pizza. Até hoje eu me lembro do sabor da pizza da Casa de Itália junto com a coca-cola que tinha na 13 de Maio, na Avenida 13 de Maio, uma Casa de Itália... Maravilha, aquela hora de... E passeávamos de carro. Olha que loucura, passeávamos de carro pela cidade. Gasolina era barata, naquela época não tinha trânsito congestionado e passeávamos de carro pela cidade, pra conhecer a cidade. Interessante.

 

P/1 – Ricardo, você falou que vocês iam também às praias centrais...

 

R – É.

 

P/1 – As praias centrais são quais?

 

R – Praia do Meireles, que é a Beira-Mar, nós chamamos lá e algumas praias... Praia do Futuro, que já começava a ser uma praia mais frequentada na época, hoje é uma praia mais turística, com estruturas de barracas de praia bem estruturadas como se fossem restaurantes, shows ao vivo... Mas na época pra se chegar lá era uma odisseia.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É. Porque não tinha avenida pra praia. Nego pegava o carro, ia por cima dos morros, das dunas, atolava, desce todo mundo, empurra o carro, não sei o quê. Aquela coisa toda você levava duas horas pra chegar à praia que fica a cinco quilômetros do centro da cidade. Isso em 1974 mais ou menos. Aí nossa vida mudou muito porque meu pai comprou um terreno que na época ficava numa zona afastadíssima da cidade. Hoje tá bem dentro da cidade, mas na época era afastadíssimo, longe pra caramba. Que era o que é hoje o Bairro do Cocó onde fica o Shopping Center Iguatemi, aquela zona ali. Em 1974 ali, não tinha ninguém, não morava ninguém, era um matagal, tinha rios, tinha lagoas, dunas, e eu me lembro de que meus tios... Meu pai convidava meus tios a irem lá, passar o domingo e tal e eles não iam porque era longe demais, tinha que parar o carro assim numa, onde hoje é a Avenida Santos Dumont, ali no viaduto ali, e caminhar durante... Caminhar um quilômetro pra chegar na casa e aí minhas tias reclamavam, porque o salto alto na areia e a calça ficava cheia de carrapicho, e as cobras cruzavam o caminho, gaviões, vaca, boi... Ninguém ia lá em casa, então meu pai tinha que oferecer cerveja e churrasco pra que as pessoas pudessem ir lá de graça, churrasco... E aí o lazer começou a ficar muito mais na casa e no bairro. A violência começou, o crescimento da cidade se expandindo pra lá, os vizinhos, a turma de vizinhos, nós crescendo, adolescentes, meus irmãos, então ficamos mais próximos a residência, o lazer começou a se concentrar mais por ali.

 

P/2 – E era que tipo de lazer nessa região?

 

R – Ah, tinha um que eu gostava muito que era o... Como é que chama? Pera, uva ou maçã. Juntava os garotos, as garotas, fazia aquele joguinho do beijo, abraço, não sei o que. Toda noite se reunia a turminha na esquina assim... (risos)

 

P/1 – Era pera, uva, maça. Qual quer era o beijo? Era a uva?

 

P/2 – Era a maçã.

 

P/1 – Ah, era a maçã.

 

R – É. Eu acho que era a maçã. Mas tinha o salada mista também. Salada mista era tudo.

 

P/2 – A pera era um aperto de mão.

 

R – Era. Uma coisa assim. Aperto de mão. (risos) E a gente brincava disso. Nossa. E jogo da verdade, aquela garrafinha rolando. E tinha o futebol, pingue-pongue na casa do amigo, WAR, jogava WAR.

 

P/1 – WAR é um jogo de tabuleiro, né?

 

R – É. Jogo de tabuleiro... Eram esses lazeres.

 

P/1 – Olha, passando então do Tarzan pra adolescência, quais foram as suas leituras da adolescência?

 

R – Eu comecei escrevendo redações pro colégio, mas logo em seguida eu descobri a poesia. Descobri a força tanto da poesia, da erupção da poesia quanto das acnes. Então fazia poemas pra compensar minha feiura de garoto cheio de espinha que estudava no colégio militar, cara. Nossa. Todo mundo nos anos 70 tinha cabelão e eu era samango, sabe assim, aquele cabelinho... Meu pai me pôs no colégio militar, minha mãe porque era... Além de ser um ensino considerado de boa qualidade, era muito barato, era uma... Pagava-se por semestre um valor simbólico, apenas pra custear a farda do aluno e tal. E era um ensino muito bom, então pra gente foi muito bom porque eles economizaram muito na minha educação de adolescente.

 

P/1 – E você usava farda?

 

R – Usava farda, batia continência, marchava no colégio, no Sete de Setembro lá com o rifle, era...

 

P/2 – Desfile...

 

R – Desfile, nós vivíamos ainda a ditadura, em 1974, meu pai queria que eu fosse presidente da república. Quem era o presidente era o...

 

P/2 – Dá tempo. Ainda dá tempo.

 

R – É. Ainda da tempo.

 

P/1 – O Médici...

 

R – Era o Médici... Geisel. Era o Geisel. Começávamos a viver ares de abertura política, mas ainda era uma ditadura em 1974.

 

P/1 – Só dar uma pausa pra trocar a fita.

 

R – E eu pra tomar uma água.

 

(troca de fita)

 

P/1 – Então, Ricardo, você tava falando um pouco da... Você descobre então na adolescência a poesia, né? Como é que isso acontece?

 

R – Descobri a força da poesia e... Bom, eu já escrevia os versinhos pras professoras, então eu já sabia da força da poesia. Comecei a escrever os poemas, lembro que assim, o despertar mesmo pra coisa de escrever poemas mesmo foi por volta de 12, 13 anos. Poemas românticos, apaixonados, a coisa da mulher muito presente, do feminino, do fascínio pelo feminino, sempre teve isso muito presente desde essas primeiras criações literárias. Aí acontece uma espécie de um hiato, nessa época dos 14, 15 anos. Não foi bem um hiato, mas a minha experiência religiosa. Eu tive uma experiência mística religiosa num desses encontros de jovens da comunidade católica e virei integrante de grupos de jovens. Todo domingo, todo sábado lá e tal e alcancei assim o grau... Cheguei a ser coordenador desses grupos de jovens. Era na Paróquia de São Vicente, depois fui pra Paróquia da Paz. Lembro que na Paróquia da Paz eu queria montar uma banda de rock no grupo de jovens, que hoje é só o que tem, mas na época monsenhor Amarílio, saudoso monsenhor Amarílio de quem eu gostava muito, achou muito avançadinho pra época, era 1981 e não permitiu. Foi a minha primeira tentativa mais artística assim, digamos foi frustrada. Falei bom, então vamos criar pelo menos um jornalzinho, um informativo, alguma coisa. Comunicação. Eu queria agitar a coisa. E aí no jornalzinho eu... Mimeógrafo. Saía com cheiro de álcool, sabe, saía aquela coisa azul, a tinta azul. Então distribuíamos pros paroquianos na missa e eu coroinha ajudando o padre a fazer a missa, aquele que lê as coisas assim e tal. E aí nessa época eu acho que parou um pouquinho a coisa do poema, mas ainda bem que essa fase passou logo e aí eu saí do grupo de jovens e entrei pra faculdade de Jornalismo, na época Comunicação Social da Universidade Federal, da UFC Universidade Federal do Ceará. Aí voltou a coisa da literatura bem forte e eu li um livro que mudaria a minha vida que foi o livro do Fernando Sabino O encontro marcado. Foi uma pedrada na minha cabeça, eu li aquele livro... Eu faltei à aula a tarde na faculdade porque eu não conseguia largar o livro e li num dia. Cheguei à noite, terminei de ler o livro, abri a janela do meu quarto, olhei pro céu e percebi, entendi que eu não poderia ser outra coisa na vida senão escritor. Isso eu tinha 18 anos. Então foi meio que uma confirmação da decisão que eu havia tomado aos dez anos de idade quando escrevi os poemas pras professoras, mas agora foi uma confirmação mais consciente. Eu sabia que tinha que seguir esse caminho, mas como eu veria depois seria um caminho bem difícil e eu demoraria ainda mais um bom tempo até realmente assumi-lo totalmente.

 

P/1 – Sei. E aí? O que acontece depois então do pós O encontro marcado?

 

R – Eu fiz a faculdade de Jornalismo, de Comunicação Social, a habilitação era em Jornalismo, mas eu queria Publicidade porque eu achava que pro meu, essa minha ânsia de criatividade que eu tenho, de criação, a publicidade teria mais a ver do que o Jornalismo, do que ficar numa redação de jornal e tal. Também seria interessante, pode-se fazer Jornalismo mais criativo também, mas pra mim a publicidade encaixava melhor nos meus anseios de criação. Só que não abria a habilitação pra Publicidade e eu semestre após semestre esperando que abrisse a habilitação pra Publicidade e não abria. Não abria até que eu enchi o saco e abandonei a faculdade e aí fui trabalhar com publicidade. Aí fui ser publicitário, freelancer nas agências, escrevendo, criando campanhas... Mas aí me desencantei com o mundo da publicidade, achei meio sujo, eu não conseguia me afinar muito com essa coisa de você, sabe, convencer uma pessoa a comprar algo que ela não precisa. Tudo bem, me parece um pensamento assim, falando assim, muito purista, muito ingênuo, mas eu não consegui conviver bem com aquele mecanismo, esse mecanismo da lógica da publicidade, né? E aí saio da publicidade e sempre pensando na coisa da carreira de escritor. Mas como ser escritor num país de não leitores? Uma pesquisa, um dia desses eu vi, a média de livros anuais, anuais que o Brasileiro lê é de 1,3, sem contar com os livros técnicos e didáticos. Poxa. Um livro por ano. Hoje que melhorou. Naquela época ainda não era tão bom assim. Como ser escritor em Fortaleza? Que na época, ainda hoje ainda é uma coisa meio provinciana em termos de produção cultural, de literatura no país. Eu não sabia como fazer. Com 20 anos eu queria ser escritor, mas não sabia como fazer. Mas continuava escrevendo, continuava escrevendo, continuava escrevendo... Contos, crônicas, poemas. Tinha uma veia de produção cultural forte já nessa época, eu queria fazer coisas ligadas à cultura e aí montei um bar, chamava-se...

 

P/1 –   Montou um bar?

 

R – Chamava-se Badauê. Saudoso Badauê. Ficava na Praia de Iracema, 1988. Nossa, foi uma loucura.

 

P/1 – E você tinha sócio?

 

R – Tinha dois sócios. Pegamos um terreno baldio e construímos um bar simples. Tinha 20 por 20 o terreno todo e tal, tinha uma construção, um palquinho pra apresentação dos amigos músicos tocarem e durante um ano foi um sonho assim, foi uma loucura.

 

P/1 – Ia muita gente?

 

R – Muita gente. Ganhamos muito dinheiro e torramos muito dinheiro.

 

P/2 – O que era a Praia de Iracema nessa época?

 

R – A Praia de Iracema nessa época seria como se fosse uma comparação assim, o início do Bixiga nos seus áureos tempos.

 

P/1 – Daqui de São Paulo?

 

R – Daqui de São Paulo. Ou seja, a Praia de Iracema se tornou um Bexiga, se tornou uma Vila Madalena, o que é hoje. Mas isso nos anos 80 lá em Fortaleza, final dos anos 80 e começo dos anos 90. Chegou a ter 200 estabelecimentos entre bares, restaurantes, boates, inferninhos... Uma loucura. Tudo concentrado ali no espaço e tal. Então já tinha uma vocação boemia artística e ela se intensificou muito. Nós fomos um dos primeiros a iniciar nesse movimento da intensificação da vocação artística, boemia artística da Praia de Iracema. E o Badauê funcionou durante um ano e era aquela loucura, eu tinha 24 anos, dinheiro no bolso, balotado, o que eu fazia? Fechava o bar, falava: “Agora birita de graça pra todo mundo”. Olha a minha mentalidade empresarial. Aí depois ficava até sete horas da manhã, todo mundo no bar eu falei: “Agora vamos tomar café no Esplanada Hotel por minha conta. Vamos todo mundo”. Arrasto 15 pessoas pra ir tomar café num hotel cinco estrelas. Depois você tira como é que era a mentalidade da pessoa humana.

 

P/1 – E quem tocou no Badauê?

 

R – Quem tocou no Badauê na época todos os músicos ligados a MPB, blues, jazz da cidade. Nós não trazíamos pessoas de fora, não tínhamos grana pra isso, mas os amigos ligados a MPB, blues, jazz tocaram lá e realmente marcou época, foi...

 

P/1 –   Você citaria alguém?

 

R – Jabuti, que hoje mora na Alemanha, tocava muito lá. O Eudinho que é um grande guitarrista, também mora na Alemanha, os cearenses vão saindo, né? Essa coisa de cearense. A Idilva Germano que era uma cantora na época que estava surgindo assim, mas que depois não ficou muito ligada a música. As pessoas todas da época... Toinho Martan meio que se lançou lá, é um amigo que se tornou músico depois abandonou um pouco também a carreira.

 

P/2 – Na banda...

 

R – Na Intocáveis, né? Que já é outro capítulo posterior.

 

P/1 – E por que o Badauê durou só um ano?

 

R – Porque eu e meu sócio... Éramos três sócios e eu me entendia muito bem com um que era o Paulo Macio, grande amigo até hoje e com o outro, o Nelsinho também grande amigo até hoje, eu não me entendia comercialmente muito bem. Então... E o Nelsinho tinha um pavio curto e o... O tio dele era o dono do terreno e, enfim, Nelsinho um belo dia encheu o saco e falou: “Não. Não vou mais ter bar, não”. Fechou o bar. Quando eu cheguei lá pra abrir o bar, pra começar a noite o bar estava fechado, não funcionou mais e aí pra não perder a amizade, pra gente... Deixamos o bar de lado e continuamos amigos.

 

P/1 – E aí você foi fazer o que?

 

R – Fiquei perdido. Fiquei perdido. Aquele bar era meu sonho. O bar era maravilhoso. Eu não teria um bar novamente hoje, prefiro ficar do lado de fora do balcão, é mais vantajoso. Mas na época era maravilhoso e... Fiquei perdido, foi uma época sem saber o que fazer e aceitei o... Isso foi em 89, aceitei o convite, a proposta do meu pai de trabalhar na clínica veterinária dele. Então fui ser funcionário de clínica veterinária. Levar saco de ração de cachorro de 18 quilos nas costas até o carro da madame. Fazia ficha do cachorro lá, levar pra tomar banho: “Olha, essa ração aqui é muito boa. A senhora não conhece a ração de gato aqui tal? Esses produtos... Xampu aqui tal”. Virei funcionário de clínica veterinária durante cinco anos. Mas era um problema porque eu chegava ao trabalho e tava com um poema na cabeça, um conto pra escrever, uma crônica. Então eu ficava lá escrevendo e tal e os clientes chegavam e eu nem percebia os clientes chegando. Eu escrevendo, tinha uma maquinazinha lá, depois veio um computador. Nossa. Isso aí não ia dar certo nunca. Acabei tendo discussões muitas com meu pai por conta da minha inabilidade pra esse tipo de trabalho, mas durei cinco anos lá. E nesse intervalo recebi um convite de um amigo pra trabalhar em uma empresa de um amigo dele que estava lançando um produto revolucionário no mercado, em 1991. Água de coco congelada. Água de coco congelada numa garrafinha de plástico assim. E ele tinha um contato lá em Manaus...

 

P/1 – Mas por que ela é congelada?

 

R – Pra durar mais tempo. Pra você comprar e por na geladeira e ficar três, quatro dias.

 

P/1 – Ah, tá. Ela vive mais.

 

R – Isso. É. Ela não tinha conservantes, então ela enquanto tava congelando descongelando você poderia deixá-la dois, três dias na geladeira, enquanto que a água de coco mesmo natural, ela não aguenta muito tempo. E aí lá vou eu pra Manaus. Eu lembro que eu vendi um Fusca que eu tinha, um Fusca caindo aos pedaços, o Lombriga. Lombriga era aquele tipo de carro que os homens tinham nos anos 70, 80 que era o carro que serve pra tudo, né? Motel, quarto, casa, tudo. Não tinha dinheiro, dinheiro curto então botava de dois em dois litros de gasolina, então era... Dois litros davam pra 20 quilômetros. Então tinha que rodar aqueles 20 quilômetros, mas sempre parava no meio da rua por falta de combustível e aí eu andava com uma garrafinha de álcool Lord. Álcool mesmo. Álcool... Esse álcool domiciliar, álcool caseiro. Ali onde ficava o extintor, onde era pra ser o extintor de incêndio, né? E ficava ali. Quando o carro começava: “Tum, tum, Tum...” eu falava: “Opa”. Parava o carro, pegava o álcool, jogava ali no... E era a gasolina, misturava com álcool...

 

P/1 – Princípio do carro flex então, né?

 

R – É. Eu acho que eu inventei o carro flex, mas aí... Vendi esse Fusca pra ir pra Manaus vender água de coco congelada, aí foi uma negação. Você me imagina em Manaus vendedor de água de coco congelada. Foi uma desgraça. Dei prejuízo pra firma.

 

P/1 – Você ia aos estabelecimentos vender, né?

 

R – Isso. Mas tinha que esperar o carregamento chegar de Fortaleza no navio e demorava três meses, dois meses, atrasava, enquanto isso a gente lá, sem dinheiro, aquele calor desgraçado de Manaus, sem conhecer muitas pessoas. Foi uma experiência difícil. E aí voltei depois de seis meses, depois de cinco meses pra Fortaleza sem carro, sem dinheiro, com o dente doendo, magro. Nossa. Aí voltei a trabalhar na clínica do meu pai e fiquei lá até 94. Fiquei lá em 94, até 94 quando eu me mudei pro Rio de Janeiro pra tentar a carreira literária.

 

P/1 – Ah, tá. E...

 

P/2 – Não. Tudo bem. Eu ia perguntando, esse meio tempo você paralelamente fez algum tipo de atividade ligada à cultura?

 

R – É. Quando eu ainda trabalhava na clínica do meu pai eu comecei a me envolver com produção cultural novamente, porque já meio que mexia com isso na adolescência e comecei a produzir festas, fazia festas, festas loucas, festas à fantasia, fechava uma casa no centro da cidade, fazia uma festa bem louca, divertida. E comecei a me especializar nisso, peguei gosto pela coisa, comecei a fazer cada vez mais festas e começou a entrar um dinheirinho, falei: “Opa. É por aqui que eu vou”. E um dia um amigo meu me fala: “Vamos montar uma banda”. Eu já tinha tido uma experiência com banda, uma banda meio brega, na época do... Logo depois que o Badauê fechou, que eu fiquei perdido, eu aceitei um convite de um amigo meu pra montar uma banda meio brega de músicas satíricas bregas, que acontecia lá no Pirata que era um bar na Praia de Iracema, ainda hoje existe, na época ele tava no começo e nós participamos lá do festival. A minha banda chamava “Os The Breg Brothers”. Era eu, o Jabuti e o Cadínio, Cadínio Batista o fotógrafo. Era...

 

P/1 – Você tocava o que?

 

R – Eu não tocava nada. Tocava nada. Eu era uma enganação total. Eu cantava...

 

P/1 – Ah, tá.

 

R - Mal pra caramba, vestido de paletó branco, flor na lapela, cabeço engomalinado, bigodinho pintado aqui assim. Fazia o estilo brega horroroso. A banda durou três meses porque o Jabuti recebeu uma proposta pra ir tocar no Piauí, nós ficamos sem o nosso guitarrista e compositor principal e a banda interrompeu o seu grande e glorioso caminho rumo ao sucesso.

 

P/2 – Você compunha pra banda?

 

R – Eu compunha.

 

P/2 – Então tinha uma atividade compositora?

 

R – Eu comecei a compor sério por essa época. Nós fazíamos composições nossas e tocávamos músicas bregas, Bartô Galeno, Reginaldo Rossi, Odair José, Diana, Fernando Mendes... Mas aí só durou três meses. Aí em 94 foi o segundo convite. Dessa vez nós montamos a “Intocáveis Putz Band” pra tocar rock’n’roll junto com teatro, uma linguagem bem humorada e aí a banda... Eu fiquei na banda durante um ano e era eu, Toinho Martan, uma cantora que tava surgindo na época nessa cidade, uma alma, era uma alma assim meio perdida que ficava cantando Tigresa nos bares, que se chamava Karine Alexandrino que hoje é uma diva dos Cadernos B do Brasil. O baixista era o Emílio Slefer, o Rian Batista começou também, mas saiu, na guitarra. Depois o Flávio Rangel entrou e passavam... Tinha o baterista que era o Claudinho, mas antes era o Nonô, enfim, todo mundo passou por essa banda. Lembro que um dia botamos um anúncio no jornal assim: “Procura-se cantora modelo”. Tinha que ser cantora e modelo: “Tratar com Ricardo à noite”. Aí botava o meu telefone lá e o pior é que recebíamos várias cantoras modelos interessadas em serem cantoras da banda.

 

P/2 – E você recebia?

 

R – E nós fazíamos uma triagem... E várias cantoras passaram pela banda, cantoras maravilhosas. (risos) Olha, era uma sacanagem muito grande. Na televisão: “Qual é a proposta musical da Intocáveis?”. Eu disse assim: “Olha, a nossa proposta musical é incentivar o bissexualismo feminino”. A repórter: “Hã?”.

 

P/1 – Na TV?

 

R – Na TV. Era uma grande gozação que funcionou muito bem enquanto eu estive lá. Até que um dia, a banda muito bem mesmo, tínhamos acabado de receber uma proposta da produção do Jô Soares pra fazer uma entrevista, então a gente iria viajar, viria pra São Paulo, mas teria que ter um clipezinho, fomos gravar o clipe ainda, mas não deu certo o clipe... Enfim, nessa época eu esqueci, não deu mais pra ser escritor. Era muito ensaio, muito show, rock’n’roll, sexo, drogas e rock’n’roll pelo meio da canela e aí o sonho de ser escritor ficou anestesiado. Não dava. Não tinha condição, o ritmo era muito louco. Aí um dia, é uma coisa estranha, nem eu sei explicar direito, mas caiu a ficha e através de um grupo de amigos que estavam indo morarem no Rio e falaram assim: “Ricardo, nós temos um convite pra te fazer. Vem morar no Rio com a gente”. Eram amigos ligados a uma escola iniciática, meio esotérica e, segundo eles, eu tinha uma missão de vida que estava ligada a escrever e eu estava desperdiçando a chance de realizar essa missão na vida que eu estava levando em Fortaleza. De fato eu não estava satisfeito, estava bebendo muito, estava insatisfeito por não conseguir ser escritor. Gostava de ser músico, ter banda e tal, mas meu caminho era realmente escrever e isso me dava uma insatisfação muito profunda. Eu acho que eu queria me matar nessa época. Aliás, eu tentei me matar de formas sutis, bebendo muito, me drogando muito, sem cuidar da saúde. Nessa época perdi dentes por falta de cuidado, eu tava largado, não tava cuidando de mim. Eu acho que eu queria morrer, eu tava meio numa crise de valores pessoais, muito forte, tudo isso causado por eu não estar no caminho que eu sabia que era o meu caminho. E esses amigos um dia chegaram, inclusive o Bedê, o meu amigo Moacir Bedê era um deles. Foi o Bedê, a Ana Cláudia, a Eduarda que me acordaram pra esse fato. E quando eles me falaram ficou tão claro que eu não titubeei, eu falei: “Eu vou”. E aí larguei a faculdade de Letras, aí já estava fazendo Letras, larguei a banda... Nossa. A banda não me perdoou. Eu era muito importante pra banda, fazia a produção, enfim, eu levava meio que a banda junto com o Toinho Martan. E larguei namorada, banda, a faculdade, o trabalho na clínica do meu pai, ainda tava lá, as festas que eu produzia. Larguei tudo e quinze dias depois tava morando no Rio de Janeiro. Nós fomos pra sermos pesquisadores do Instituto Internacional de Projeciologia. O que é isso? Projeciologia. Parece alguma coisa de... Alguma coisa estranha, projecio... O que é isso? Pois é. Projeciologia seria assim, um espiritismo com pretensões científicas. Por que Projeciologia? Porque ele lida muito com o fenômeno da projeção da consciência para fora do corpo, a chamada viagem astral. E tinham outras coisas ligadas à reencarnação, guias espirituais, essa coisa toda. Eu gostava daquilo, achava interessante, mas já nessa época eu já estava começando a questionar minha educação cristã, meu teísmo, e eu fiquei meio dividido, mas eu falei: “Bom, vamos nessa”. Parecia-me ser uma coisa interessante, lidava com coisas de seres extraterrestres, falei: “Vamos lá. Vamos pro Rio de Janeiro. Eu vou com vocês, vamos ver que história é essa de ser pesquisador desse negócio, quem sabe eu viro um pesquisador e escrevo livros sobre isso. Tá ligado aí ao meu sonho”. Mas aí chegamos ao Rio de Janeiro... As meninas tinham os contatos com os guias espirituais delas e esses guias espirituais disseram pra elas que a gente deveria ir ao instituto e falar umas verdades para o dono do instituto, senhor Waldo Vieira, que teve uma convivência muito forte com o Chico Xavier. Ele foi meio que preparado pra ser o sucessor do Chico Xavier e aconteceu alguma coisa na convivência deles que eles separaram, e esse Waldo Vieira hoje é meio que um constrangimento dentro do movimento espírita. Um assunto não muito fácil pra eles, não sei o que aconteceu, mas ele fundou uma espécie de dissidência, mas com pretensões mais científicas. Não sei até que ponto dá pra ser científico lidando com essas coisas, mas enfim, era a pretensão do Waldo e ele fundou, montou uma escola, ele é muito culto, muito inteligente, ele é formado... Ele era dentista, né? E aí nós fomos expulsos do instituto. Chegamos lá pra trabalhar pro instituto, sermos pesquisadores...

 

P/1 –   Mas que verdade que vocês falaram?

 

R – Ih, rapaz... Olha, umas coisas assim muito absurdas, mas... Vamos lá. Uma das coisas que os guias pediram pra ser dito na cara do cidadão lá, era que ele estava assediado por um espírito maligno e aquele espírito maligno ia botar a perder o instituto e tudo o mais. Você falar isso na cara do dono do instituto é uma coisa meio pesada. Outra coisa que elas disseram... Eu fiquei calado durante a reunião. Era uma reunião assim, na frente da mesa dele no instituto, eu não consegui dizer nada. Eu não via nada, eu não escutava nada, eu nunca vi guia espiritual nenhum, eu não me lembrei de vida passada nenhuma, mas eu queria que tudo aquilo fosse verdade porque era emocionante. Mas as meninas viam tudo e tal, inclusive elas se lembravam de vidas anteriores onde eu e o Bedê estávamos, na Dinamarca no século 14. Uma delas chegou a escrever um romance... Publicou o romance com a nossa suposta vida. O Bedê inclusive, meu amigo, era mulher e eu tinha um caso com ele. É um assunto também não muito fácil pro Bedê hoje em dia, não sei se...

 

P/1 –   Deve ser.

 

R – Bedê, não sei se você tá vendo agora esse meu depoimento, mas já que é pra dizer tudo aquilo vou dizer, bicho, a gente vai morrer mesmo depois todo mundo. Mas você era bacana aquela época Bedê, você tinha umas pernocas. Chamava-se Andrija ele nessa época, olha, tinha até nome, Andrija. Quem conhece o Bedê pode o chamar de Andrija que ele responde, viu? Mas então, fomos expulsos, ele bateu na mesa, expulsou, disse que tava todo mundo expulso do instituto, não sei o que mais. Então nós tínhamos ido pro Rio, largado toda a vida que nós tínhamos...

 

P/1 – Você rompeu tudo pra ir pro Rio...

 

R – Fomos estudar, sermos pesquisadores desse instituto, chegamos lá fomos expulsos desse instituto com dois meses, dois meses que a gente chegou. E agora? Fazer o que? Eu tô no Rio, Bedê também, as meninas também, tava todo mundo lá sem saber o que... E agora? Vamos fazer o que? Bedê foi dar aula de música, conseguiu dar algumas aulas de música e voltou pra Fortaleza um ano depois, não conseguiu se manter no Rio. Mas eu tive a ideia de escrever um livro sobre aquelas ideias que nós vivíamos, guias espirituais, reencarnação, experiências fora do corpo, extraterrestres... Eu já tava meio que me desvinculando disso e começando a me interessar por ideias como psicologia Junguiana, uma coisa mais ligada a ecologia, xamanismo, uma coisa ainda meio mística, filosofias orientais como taoismo. Então assim, eu não tava mais me sentindo muito a vontade dentro daquele ambiente esotérico, mas mesmo assim eu escrevi esse livro contando as ideias que nós vivíamos de uma forma bem humorada como convém a um cearense fuleragem que eu sou. E o livro chamou-se “Quem apagou a luz? Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar o vexame do lado de lá”. (risos) Conheci um editor aqui em São Paulo que tinha uma editora de fundo de quintal, o cara leu o meu livro, começou a ler e falou assim: “Publico na hora. Publico na hora. Quando é que você me entrega?”. Falei: “Nossa, ainda tô escrevendo...”. “Não. Me entrega logo que tem a bienal do livro no Rio, não sei o que...”. Fiz o livro, escrevi o livro a toque de caixa e entreguei pra ele, ele publicou e... Caramba. Aí eu entendi uma coisa incrível, as pessoas querem verdades fabulosas, elas querem magias nas suas vidas, elas querem a sensação de estar vivas, sabe? E é muito fácil oferecer isso pras pessoas através dessas coisas. E aí eu me vi do dia pra noite um best-seller da área espiritualista de autoajuda...

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Eu era reconhecido nas livrarias no Rio de Janeiro, isso em 95. Meu livro abriu as portas pra editora, era muito pequenininha, mas esse livro teve uma repercussão grande, foi...

 

P/1 – Então vendeu bem?

 

R – Ele vendeu na época, vendeu em dois anos sete mil exemplares. Pra uma editora de fundo de quintal, sem divulgação, sem distribuição, sem nada, é uma tiragem bem considerável. E eu vivi por conta desse livro durante essa época no Rio de Janeiro. Era convidado pra dar palestras e cada palestra que eu ia vendia uma carrada de livro, as pessoas adoravam e eu comecei a meio que ser tratado como um ser meio que especial, meio guru. Eu lembro que uma senhora uma vez na livraria me reconheceu e falou assim: “Você escreveu esse livro? Eu já li esse livro. Eu já presenteei fulana, fulana minha amiga, não sei o que, mas eu tô comprando mais um aqui. Olha, meu filho, você depois de Jesus Cristo você foi a pessoa mais especial que nasceu nesse planeta”. Nesse dia a ficha caiu e eu vi: “Eu não quero mais isso, não. Não tô gostando disso”. Aí comecei a me sentir muito incomodado com aquilo. Já tava com um livro novo na praça, um romance, por essa mesma editora, um romance sobre rock’n’roll meio misturado com misticismo ainda, erotismo, ainda tava meio vinculado ainda um pouco a esses temas, mas já tava tratando de uma forma mais pop. A editora topou publicar, não vendeu tão bem, vendeu um... Acho que vendeu duas edições de mil exemplares e um belo dia eu chego pro editor e digo: “Olha, não quero mais que publique esse livro”. Não tinha nem contrato, porque se tivesse um contrato ele poderia publicar durante cinco anos e eu não teria nada a ver com isso. Mas não tinha nem contrato, era uma coisa na amizade e eu pedi pra ele não publicar mais, ele não gostou nada, era o livro que mais vendia da editora dele, mas eu tentei explicar os motivos, não sei bem se ele entendeu até hoje, e ele aceitou e não mais editou, não mais publicou o livro. Aí eu comecei a ir pro meu lado mesmo de ficcionista, de romancista, contista, cronista e... Mas nunca vendi tão bem quanto esse primeiro livro. Recebi propostas da Record pra levar esse livro pra lá. Eu lembro que a Rose Marie Muraro ficou encantada, ela era editora de um selo na Record, da Rosa dos Tempos. Ela ficou fascinada por esse tratamento da coisa da espiritualidade, do esoterismo com humor, né? Mas aí eu não quis, porque eu achava que eu ficaria com o nome muito ligado a coisa da autoajuda e isso desviaria o foco pelo qual eu queria que o mercado visse em mim, que era um escritor contista, um cronista, um ficcionista e até mesmo um ensaísta, mas não ligado a esse gênero literário. E aí voltei pra Fortaleza dois anos depois, com dois livros publicados, depois mais um terceiro por essa mesma editora, um de contos. O segundo livro, o romance chama-se O irresistível charme da insanidade e depois o terceiro livro que é um livro de contos fantásticos chama-se Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos. Eu gosto desses títulos meio...

 

P/1 – Você é bom de título, rapaz.

 

R – É. Esses títulos meio estranhosos assim, né?

 

P/1 – Bom de títulos e subtítulos. Como é que é? Um guia prático para quando...

 

R – Esse daí é o...

 

P/1 –   O primeiro.

 

R – Ah, não. O primeiro Quem apagou a luz? é o título, o subtítulo Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá.

 

P/1 – É muito bom.

 

R – Eu lembro que um dia eu naquele programa da TV educativa que é a Leda Nagle, Leda...

 

P/1 – Ah. Da Leda Nagle, Sem Censura.

 

R – Sem Censura. Eu com o meu Quem apagou a luz? lá, com aquela cara de intelectual da espiritualidade e do meu lado a Simony que tinha acabado de pousar pra Playboy. E eu olhando a Playboy aqui, eu querendo: “Pô, vamos trocar aí o meu livro com a sua Playboy...”, mas ela não gostou muito. (risos)

 

P/2 – Ela já sabia tudo isso aí, todas as dicas de o que fazer quando chegar lá.

 

R – Não me diga que tá acabando, não, que agora que a coisa tá esquentando.

 

P/1 –   Não. Vai trocar a fita.

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – Ainda tem cinco minutos, é isso? Vamos lá. Aí você chegou a Fortaleza com o terceiro livro, você...

 

R – Aí acabou o dinheiro, o Quem apagou a luz? não me sustentava mais, os outros também não me sustentavam eu tive que... Vim pra São Paulo, fiquei seis meses ainda aqui, tentei por aqui, não consegui me manter e voltei pra Fortaleza em 1997, depois de dois anos Rio - São Paulo. E lá ainda consegui, ainda editei mais um livro por essa editora, que é o Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos, um livro de contos fantásticos e... Isso em 97. E morando lá, em 98 eu decidi ter uma experiência no mercado editorial paralelo, independente e lancei um livro por minha própria conta, uma tiragem de mil exemplares, sobre um tema que não tinha nada a ver com o que eu vinha escrevendo. Decidi escrever sobre a maconha. Maconha mesmo. Aquele negócio que a gente fuma e dá barato. Baseado nisso o nome do livro.

 

P/1 – Baseado nisso.

 

R – Era. Era um livro de contos sobre o universo folclórico dos usuários e vinha um glossário de termos e expressões que eu coletei...

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Entre a rapaziada, tanto da minha turma quanto de outras turmas, quanto de outras cidades e peguei termos... Nessa época, em 98 já tinha internet. Aliás, eu tive uma homepage em 1996.

 

P/1 – Ah, início da internet...

 

R – Logo que surgiu a internet eu tava no Rio e era ligado a PUC, por conta de um amigo meu que trabalhava lá, e eu ia escrevendo o livro de madrugada lá, usando o cartão dele que ele fazia mestrado na PUC, eu passava a madrugada escrevendo meu livro Quem apagou a luz? na PUC. Então eu conheci a internet através do ambiente acadêmico da PUC. Eles na verdade já tinham uma pré-internet antes, um sistema de comunicação entre as universidades que era meio que internet por computador. E quando a universidade, quando a internet surgiu esse meu amigo falou: “Cara, dá pra criar uma página pra ti. Olha que legal. Todo mundo vai ler...”. Então em 96 eu já comecei a minha vida de internauta divulgando o meu trabalho. E aí foi. Em 98 publiquei o Baseado nisso lá em Fortaleza. Ninguém entendeu muito bem, como é que um cara que era autoajuda não sei o que, guias espirituais não sei o que, agora escreve sobre maconha... O fato é que o livro foi um sucesso de...

 

P/1 – Sucesso?

 

R – Um sucesso de público...

 

P/2 – Crítica.

 

R – Crítica mais ou menos. Eu lembro que o jornalista da cidade, o Emerson Maranhão, disse que era um livro “paia”. Aproveitando que “paia” no glossário significava maconha ruim. Então o livro era apenas uma “paia”. Mas hoje a gente ri muito disso, eu e o Emerson.

 

P/1 – Vamos trocar aqui a fita.

 

P/2 – Sério? O Emerson escreveu...

 

(troca de fita)

 

R – Eu sempre tenho aqui, eu não sei quais títulos que eu tenho. Tenho. Tenho alguns aqui.

 

P/1 – Ah, depois eu quero ver. Tem um do, tem um nome lindo aí dos caranguejos, né?

 

R – A arte zen de tanger caranguejos?

 

P/1 – É. Esse é maravilhoso.

 

P/2 – Isso é depois, né?

 

R – É. Isso é depois. Esse é o próximo, né?

 

P/1 – Então, Ricardo, você tava lá, você lança o Baseado nisso até então sucesso de crítica e público e o que acontece a partir daí?

 

R – É. E aí eu tomei gosto pela carreira independente.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – Isso em 98. A internet ainda não era essas coisas todas, mas eu percebi uma possibilidade de trabalhar de forma não necessariamente ligada ao esquemão dos grupos editoriais do país. Ainda não daria naquela época. Hoje já começa a ser possível, mas em 98 não. E aí aconteceu uma coisa muito importante na minha vida que não tem a ver com os livros, mas que, enfim, acaba influenciando que me libertou, que foi uma relação amorosa. Eu sempre fui muito temeroso de me relacionar, não sei por que aconteceu exatamente isso, mas é... Sempre evitei aprofundamentos sentimentais, mas em 97 quando eu voltei do Rio comecei a namorar uma garota que eu já conhecia do tempo da banda, da Intocáveis, três anos antes. E aí a gente teve um relacionamento muito profundo e viveu uma crise muito forte por conta desse relacionamento que me fez me entender melhor, no final das contas, depois de passar a tempestade toda, e me desestruturou bem e me reestruturou depois. Com essa reestruturação a minha criatividade deu um salto e eu comecei a escrever melhor e me sentir mais seguro desse caminho de realmente querer ser escritor. Chamava-se Beatriz. Ela me levou ao inferno e depois eu subi aos céus por conta dela. Bom, isso estamos em 98 agora, né? Tá. Vou seguindo aqui?

 

P/1 – Não. Vamos seguindo. Porque daí você volta pra São Paulo... Não? Você continua em...

 

R – Não. Ficaria em Fortaleza até 2004.

 

P/1 – Ah, tá. Então mais seis...

 

R – Mas sempre com o pensamento de: “Eu tenho que voltar pra São Paulo. Eu tenho que voltar pro Rio”. Mas eu não tinha grana, aí eu já tava trabalhando com produção de eventos de novo, me envolvi em várias atividades, bicos, revisão de texto, criei um jornal de bairro lá onde eu morava.

 

P/1 – Qual bairro?

 

R – No bairro do Cocó. No bairro Papicu, Cocó, por ali assim. E fazendo mil coisas pra conseguir me manter escrevendo ainda a espera de uma chance de voltar pro eixo Rio - São Paulo. Ia escrevendo em jornal, desde 93 eu escrevia crônicas pro jornal O Povo lá de Fortaleza. Sempre tive uma ligação muito forte com esse jornal, meu pai era assinante e cresci lendo esse jornal desde adolescente e me tornei cronista do jornal e ele me ajudou a me aperfeiçoar nesse gênero, a me tornar um cronista. Antes dele eu escrevia também... Nessa época eu também escrevia pra um jornal quando eu morava no Rio, mas um jornal ecológico, um jornal alternativo e tal. Isso tudo me deu uma base boa pra me tornar cronista, né? Em 98, Baseado nisso... E aí fiquei cinco anos sem escrever um livro novo, me envolvendo com muita produção cultural na cidade e meu próximo livro foi o Arte zen de tanger caranguejos.

 

P/1 – Que você escreveu em Fortaleza.

 

R – Morando em Fortaleza, em 2003. Independente.

 

P/1 – E ele trata...

 

R – Nem eu ofereci pra editora nenhuma. Ele é uma seleção de crônicas. Crônicas publicadas no jornal e crônicas inéditas, nunca publicadas. Em 2003.

 

P/1 – E como é que foi a vida desse livro?

 

R – Esse livro até hoje ele... Então, como ele é um livro independente ele só poderia ser adquirido diretamente comigo. Eu deixei em algumas livrarias da cidade, mas não me liguei muito nesse esquema tradicional de distribuição. Eu vendia pelo meu site e não vendia só pra Fortaleza, vendia pro país inteiro, vendia até pro exterior. Eu começava já a vislumbrar uma possibilidade de viabilizar uma carreira literária sem depender necessariamente de um esquema tradicional representado pelos grupos editoriais do país. Ainda é difícil, mas já é possível.

 

P/1 – Mas você pensava isso de uma maneira de postura de vida como escritor ou por essa coisa também do escritor ganhar tão pouco com livro, de ganhar só dez por cento?

 

R – Por isso também e pela dificuldade de se passar no funil das editoras. Eu ofereci todos os meus livros anteriores depois pra editoras, mas não houve interesse de nenhuma. Tinha aquele interesse naquele esquema de você paga a publicação, a gente distribui e te dá um percentual, não sei o que mais. Mas enfim, não queria isso e aí arrisquei a carreira independente... Aí um amigo meu, Valdemar Falcão, que eu conheci no Encontro da Nova Consciência que é um festival multicultural muito interessante que acontece anualmente na cidade de Campina Grande na Paraíba, desde 1992. Desde 1996 eles me convidam a participar, fazer palestras lá, lançar meus livros, mandam a passagem, hospedagem, eu vou por conta da organização do evento. E conheci pessoas interessantíssimas lá, de ONGs, cientistas... É um encontro que reúne arte, ciência, tradição, filosofia, mistura tudo isso junto, um festival digamos... Como é que chama? Holístico, né? Hoje o forte dele é muito na coisa da cultura, da preocupação social e tal. Antes começou muito esotérico. Então conheci o Valdemar Falcão lá que é músico, ele trabalhou como flautista do Zé Ramalho nos anos 70. E o Valdemar astrólogo, uma cabeça bem aberta, já tava trabalhando no mercado editorial como editor e aí foi pra uma editora aqui em São Paulo, pra Elevação. E aí a Elevação comprou o direito de um dos livros meus, aquele de contos o Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos e reeditou. Aí eu me vi numa editora mais estruturada, com distribuição. Eu comecei a entender mais do mercado editorial, mas mantive ainda os meus livros independentes. Então eu era um autor que tinha o meu trabalho ainda independente, que eu tinha total controle sobre ele e experimentando novamente a realidade de pertencer ao esquemão tradicional do mercado. Aquela parada de receber a cada três meses um chequinho e tal, mas a editora quem manda em tudo, comanda tudo, livro... Ela diz quanto vendeu e te paga segundo o que ela diz que vendeu e você... Enfim, aquela história toda. Foi interessante. O livro ficou cinco anos nessa editora e depois eu mesmo não tive interesse de continuar porque eu via o meu livro um pouco, não muito... Não tava muito bem encaixado dentro dos títulos da editora, ela não tinha um trabalho de especificação de temas muito bom e a coisa ficou meio perdida, meu livro ficou meio perdido no meio de muitos títulos que não tinham muito a ver e preferi sair. Isso foi em 99 que essa editora comprou esse livro, isso eu lá em Fortaleza, morando lá ainda. E comecei a, nessa época, desenvolver o trabalho de palestrante. Engraçado que quando eu fazia grupo de jovens com 17 anos eu dava palestras sobre Francisco de Assis, que até hoje pra mim é uma puta figura. Era meu ídolo na época, então eu dava palestra nos grupos de jovens sobre Francisco de Assis. E vem desde essa época esse meu gosto por falar em público sobre temas que me fascinam e eu aprendo sempre muito quando eu faço palestras. E a primeira palestra que eu voltei a fazer foi sobre o filme Matrix, que eu tinha assistido em 99, e levei uma senhora porrada naquele filme. Eu vi duas sessões seguidas e tive uma experiência cósmica. Aquele filme mexeu muito comigo... O um, né? O filme um, o Matrix um. E eu falei: “Caramba. Eu tenho que escrever sobre isso. Tenho que falar alguma coisa sobre isso, sobre esse filme, sobre essas ideias que o filme trata”. E escrevi uma crônica pro jornal O Povo chamada O segredo dos predestinados em que eu comparava a trajetória do personagem com o mito da Jornada do Herói. Ali é o mito da Jornada do Herói. Na verdade os filmes, a grande parte dos filmes trabalha em cima desse mito da Jornada do Herói e nós vivemos esse mito da Jornada do Herói. Todo mundo vive esse mito, né, na sua vida, que é o mito da pessoa que procura realizar a si própria, resumindo bem, e pra isso ela tem que passar por uma série de dificuldade e provações até ela conseguir realmente realizar a si própria. E tem o ciclo todo, é muito interessante porque geralmente essas pessoas que lutam pelo que elas acreditam, elas precisam mostrar... Primeiro elas precisam se desligar um pouco dos valores representados pela sua família, pela sua sociedade. Então de certa forma elas são expulsas da sociedade, a sociedade as rejeita, a sociedade rejeita o novo, né? E aí elas têm que, enfim, viver seus valores meio que a parte pra depois aqueles valores, através do exemplo de vida dessa pessoa ser reintegrado a sociedade, a sociedade aceita aqueles valores, enfim, aí o ciclo vai indo. É a sociedade precisando expulsar as pessoas que na verdade ela vai precisar depois reintegrar pra poderem os valores se atualizarem. Eu escrevi sobre aquilo no jornal O Povo e recebi um retorno que eu não esperava, de leitores. E vi que eu tinha tocado em alguma coisa muito preciosa e resolvi estudar mais sobre esse tema. Já estudava psicologia junguiana, juntei isso com a mitologia, com Joseph Campbell, antropologia, as culturas do mundo, as mitologias do mundo e percebi que o mundo inteiro, as culturas têm esse mito da Jornada do Herói, dentro das suas especificações culturais. Desenvolvi uma palestra sobre isso e comecei a fazer essa palestra em espaços culturais, colégios, faculdades, empresas, ou seja, eu voltei a ser palestrante. Fazia palestras no Rio de Janeiro sobre espiritualidade, guias espirituais e tal e agora voltei a fazer palestras, mas agora falando sobre mitologia e psicologia e cinema. E me encontrei.

 

P/1 –                                                             [Ah, tá. Que você falou de mitologia e cinema é A Jornada do Herói.

 

R – É. Exatamente.

 

P/1 – Você falou que você se encontrou. Como é que foi isso?

 

R – Foi. Eu achei um tema maravilhoso pra desenvolver e acabei escrevendo um livro sobre isso que é o Matrix e o despertar do herói, que é um ensaio sobre esse tema usando o filme como guia. Esse livro me abriu portas e me fez conhecer muitas pessoas ligadas a esses temas, esses assuntos e pra você ter uma ideia, esse ano em 2009 eu fiz, só essa palestra do Matrix e o despertar do herói umas 30 vezes.

 

P/1 – Opa.

 

R – É. 30 vezes. Empresas, colégios, espaços e tal. Esse tema toca as pessoas, o tema do... O mito da jornada... É porque na verdade nós vivemos os mitos e as pessoas não têm consciência de que vivem todos aqueles mitos gregos, os indígenas, os hindus, os mitos todos. Eles são contados de formas diferentes nas sociedades, nas culturas, mas o âmago, a essência da história é a mesma, é a pessoa que tem que realizar a si própria senão ela vai viver uma vida falsa até o fim. E aí as pessoas percebem isso e isso... Aí se estabelece um diálogo silencioso muitas vezes, mas verdadeiro entre esse tema e as pessoas que o escutam. Lancei esse livro já morando... Então, aí acontece outra coisa inesperada. Eu estou em Fortaleza, em 2004, trabalhando com produção cultural, produção de eventos, editando um jornal de bairro, namorando uma enfermeira, que foi outra paulada na minha vida, a Karine. A Karine me fez me libertar um pouco mais ainda pra essa coisa dos sentimentos, de relacionamentos. Tô em casa, já tinha terminado o namoro com ela, a gente tinha namorado dois anos, tô em casa, recebo um telefonema de Miami, de um produtor americano falando com sotaque português, brasileiro, americano, me convidando pra ser roteirista de um projeto que a produtora dele americana estava querendo implantar no Brasil pra produzir sitcons com temática nacional. Isso que o “Toma lá, Dá cá” hoje que a Globo faz, esses americanos queriam fazer em 2004. Queriam, não. Fizeram. Em 2003 já. Eu entrei em 2004. E aí eu... Ele falou: “Olha, não é pegadinha, se você quiser pode falar com fulano, foi ele que indicou tal...”. Um amigo meu que morava aqui em São Paulo, eu conhecia ele e ele tava atrás de escritores que tivessem uma veia de humor pra serem roteiristas sem vícios nessa área de roteiro. E ele viu lá o meu site, gostou e entrou em contato e me deu 24 horas pra eu ir morar no Rio de Janeiro, largar tudo que eu tava fazendo, tinha que tá lá em 24 horas. Americano é assim, essas coisas pragmáticas demais. Eu falei: “Caramba, 24? Não pode ser 48?”. “Tudo bem, 48 horas”.

 

P/2 – Vou matar a mamãe do coração.

 

R – É. E aí em 48 horas larguei tudo novamente e me mandei pro Rio e me tornei roteirista de televisão.

 

P/1 – Só queria dar uma pausa, antes de você pegar o avião pro Rio, que aí você depois disso você tá por aqui e não retornou a Fortaleza...

 

R – Não.

 

P/1 – Pra morar.

 

R – Não.

 

P/1 – Então você, não vou te pedir uma coisa grande de você fazer, por exemplo, um roteiro sentimental da cidade de Fortaleza, mas você podia marcar cinco lugares de Fortaleza que são marcantes pra você.

 

R – Cinco lugares marcantes?

 

P/1 – A sua história.

 

R – Meu bar, o Badauê.

 

P/1 – Que é Praia de Iracema 1800...

 

R – O meu bar que fica na Praia de Iracema, isso em 1988, 89...

 

P/1 – Que é o número 1800 e alguma coisa, não é isso?

 

P/2 – Ele quer saber a localização exata, o endereço.

 

P/1 – Você falou na entrevista.

 

R – Não. Acho que eu não falei, não. Ele ficava na Rua Potiguaras número 134, Praia de Iracema, Badauê. Lugares marcantes... A casa onde meus pais moram ainda até hoje, que fica na Rua Aroldo Aroeira número 40 no Papicu. Lugares marcantes... O Morro de Santa Terezinha, também conhecido como Morro do Mirante que durante certa época tornou-se uma área boêmia, gastronômica muito forte e tinha assim uma vista muito interessante na cidade. Isso nos anos 80 até meio dos anos... Até o final dos anos 90. Pô, só bar que eu me lembro, só noite.

 

P/2 – Bar também é cultura.

 

R – É. É verdade. Bom, a biblioteca do Colégio Santo Inácio. Aquele ambiente até hoje... Eu acho que o Jorge Luís Borges deve ter experimentado alguma coisa em relação... Também parecida em relação a essa coisa da biblioteca, da coisa dos livros, aquele ambiente, aquele portal dimensional que é uma biblioteca. É muito forte pra mim essa sensação. E outro lugar que eu acho que... Pra mim... Ah, a Volta da Jurema que é a beira mar de Fortaleza, que é uma espécie de calçadão. Hoje um ambiente muito turístico, hotéis, restaurantes e tal, mas nos anos 70 e 80 ela ainda era meio termo, meio ainda... A especulação imobiliária ainda não tinha pegado ainda a beira mar e era uma delícia, uma coisa maravilhosa.

 

P/1 – Ah, que beleza, então citou cinco, né?

 

P/2 – Citou.

 

P/1 – É que nós vamos fazer a experiência de botar no Google Maps esses lugares marcadinhos...

 

R – Que legal...

 

P/2 – Vem cá, agora você acha também, antes de você sair então de Fortaleza de novo, me fala como é que era a tua relação pessoal afetiva com a cidade, independente dessa história de querer sair, lógico, pra dar certo como escritor, porque aí era uma contingência para a profissão porque o mercado lá é restrito e claro que você só poderia abrir as portas que desejava nos grandes centros. Mas assim, pessoalmente, com relação a tua cidade, existia um desejo de sair de lá. Você falou dessa veia aí do cearense de que tá sempre indo embora, que existe mesmo isso, essa raiz do judeu, que tá sempre indo embora e tá em vários lugares do mundo ao mesmo tempo. Tem esse mito também de que qualquer lugar do mundo que você vá você vai encontrar um cearense, ou seja, ele tá sempre em exílio ou sempre em movimento no mundo, é um cidadão do mundo e isso às vezes parece que o cidadão do mundo tem uma rejeição em relação ao seu lugar, também porque é como se lá você não acontecesse assim, não tivesse, não pudesse voar muito alto. Como é que era a tua relação com a cidade nesse momento aí que você sai, que você foi e voltou várias vezes e como é que você enxerga essa relação do cearense com o mundo?

 

R – Minha relação com Fortaleza é paradoxal. Ao mesmo tempo em que eu quero estar lá, eu quero estar longe de lá. Não sei como é que eu vou explicar isso, mas eu quero estar lá porque os meus melhores amigos estão lá, minha família está lá e eu apesar de ser muito desencanado com essa coisa familiar, mas eu tenho uma espécie de ligação forte, tanto com a família quanto com os amigos e eu me sinto meio que, uma sensação meio estranha, mas eu me sinto meio que responsável por Fortaleza. Responsável no sentido de que eu preciso deixar alguma coisa lá, no sentido pra posteridade cultural da cidade. Eu preciso me eternizar através da minha cidade. Não sei se eu já consegui isso, se ainda tô longe de conseguir ou se eu nunca vou conseguir, mas através de todos os meus movimentos culturais na cidade, música, literatura, boemia, bares, é como se eu quisesse deixar a minha tatuagem na cidade pra que eu marcasse bem a minha passagem por ela. Mas ao mesmo tempo Fortaleza não me dá o que eu preciso e... (celular toca). Posso parar aqui? Só pra desligar. Deixei ligado, desculpa. Continua?

 

P/1 – Fecha mais ele pra tirar o joelho de quadro. Só tá tirando o seu joelho de quadro.

 

R – Então, ao mesmo tempo em que eu quero me eternizar nela, ela não me dá o que eu preciso que são possibilidades profissionais e, por conta disso rolam uns desentendimentos entre eu e a cidade ou é entre mim e a cidade? Você sabe que...

 

P/2 – Mim...

 

R – Pois é. Eu não me conformo com esse entre mim e a cidade, mas enfim... E aí eu preciso ficar longe da cidade pra até poder além de possibilitar a minha vida profissional, eu poder entender melhor a cidade e poder visualizá-la, enxergá-la melhor. Então é meio contraditório, mas eu não penso em voltar pra Fortaleza tão cedo. Eu acho que aqui eu posso fazer muita coisa também como eu fiz lá, aqui em São Paulo.

 

P/1 – Bem, então em 48 horas vocês desfez toda a sua vida e foi pro Rio?

 

R – Desfiz tudo e fui pro Rio e fiquei lá durante dois anos, e foi interessante porque eu nunca tinha trabalhado como roteirista de televisão. Os produtores nos pagavam bem pra que a gente escrevesse roteiros pros projetos que eles queriam. Nós escrevíamos todos os dias, de segunda a sexta, era uma equipe começou com 13 pessoas, 13 roteiristas captados do Rio, São Paulo, Minas, e eu era o único fora desse eixo e no final ficamos sete. O sitcom foi ao ar na RedeTV, chamava-se “Mano a mano”, um sitcom mais voltado pro público CDE e passava nas noites de domingo na RedeTV, em 2005 durante três meses, depois reprisaram. E aí eu fiquei no Rio, fazendo bico de roteiro, roteiro pra histórias em quadrinhos pra uma ONG, trabalhava com folders, com programação cultural. E aí começou a não aparecer mais trabalho, começou a não aparecer mais trabalho e o dinheiro que eu tinha economizado acabando... Um dia, no dia 12 de outubro eu tive um sonho, eu sonhei que eu estava em São Paulo. Nenhum momento nesse tempo de Rio eu tinha conjeturado sobre a possibilidade de vir morar em São Paulo, até porque eu não tinha contatos aqui, não tinha nada aqui que pudesse me trazer pra cá, mas tive esse sonho. No sonho eu tava me sentindo tão bem, tava num bar, restaurante, alguma uma coisa assim e me sentia tão bem. Quem tava nesse sonho comigo era um amigo, Rian, Rian Batista, Rian Bezerra. Eu dizia pra mim mesmo no sonho: “Eu tenho que morar em São Paulo”. E acordei com a sensação do sonho me envolvendo tão forte que eu não tive dúvidas, falei: “Ah, tô indo morar em São Paulo”. Levantei da cama, fui no computador, mandei uma mensagem pra todos os amigos que eu tinha: “Tô indo morar em São Paulo, quem puder me ajuda, um quarto, um corredor, qualquer lugar, não sei o que mais...”. Aí 15 dias depois eu estava aqui, tinha conseguido alugar um quarto lá em Congonhas, na casa de um amigo de um amigo e aí comecei a minha vida paulistana, minha segunda vida paulistana, outubro de 2006.

 

P/1 – Ah, então já temos aí três anos de...

 

R – Temos três anos de São Paulo

 

P/1 – E o que aconteceu então de literatura nesses três anos?

 

R – No Rio eu tinha publicado o livro do Matrix e o despertar do Herói, independente também. Até eu ofereci pra algumas editoras, mas aquela velha cartinha: “Parabéns pelo seu trabalho, mas infelizmente nesse momento não está muito dentro do nosso perfil editorial ou não estamos avaliando novos originais”. Enfim, aquela coisa toda aí a gente acaba enchendo o saco, falei assim: “Bom, o que eu vou fazer com isso? Vou deixar dentro da gaveta? Não vou”. E aí consegui publicar independente, de novo. Transformei todos os meus livros que eu tinha em formato de bolso pra facilitar na viagem, pra poder levar, aquela coisa toda. Continuei vendendo pelo site e em 2006 em São Paulo aqui comecei a ensinar roteiro de sitcom pela internet, através do MSN e por e-mail.

 

P/1 – Ah, que bacana.

 

R – É. Ainda fiz umas... Tive o que? Uns 12 alunos mais ou menos durante esse ano 2006 e 2007 morando lá em Congonhas. Só que nessa época eu já estava com a ideia de escrever um novo livro que se chamaria depois o Vocês terráqueas, que é um livro sobre o feminino, sobre a mulher, contos e crônicas. Mas eu senti que eu deveria trabalhar com mais calma nesse livro e estabeleci um prazo de uns três anos pra que eu pudesse efetivamente finalizá-lo. Nesse ínterim eu peguei as crônicas da época que ainda não tinham sido publicadas e publiquei num livro de crônicas chamado Blues da vida crônica. Fui pra Fortaleza em 2007, lancei lá... Isso tudo enquanto eu escrevia esse novo livro que pra mim significaria muito e realmente significou. Em 2008 o dinheiro acabou em São Paulo e nesses dois anos que eu fiquei em Congonhas eu praticamente não saí do quarto, escrevendo esse livro, parindo esse livro e parindo uma nova forma de me relacionar com os leitores que foi o blog. Então eu criei uma concepção de blog interativo onde os leitores pudessem... Olha só. É uma loucura, mas quem sabe se isso não vai ser bem viável pros autores a partir de agora. No meu blog eu disponibilizo os textos pra todo mundo que quiser ler, mas uma parte do blog só é possível acessar com senha. Então eu começo a escrever umas histórias eróticas e paro no meio e ponho: “A partir de agora, você leitor VIP pode acessar com a sua senha”. Nossa. Nego fica muito puto com isso.

 

P/1 – A senha é o que? Você tem que ser um assinante, é isso?

 

R – Você tem que ser um assinante do blog. E o assinante do blog é aquele que adquire um livro meu, qualquer livro, impresso ou eletrônico, que aí eu mando por PDF. Então a pessoa que compra qualquer livro meu, fazendo uma palestra, a pessoa compra o livro, eu anoto o e-mail dela ou peço pra ela me mandar o e-mail, na esquina, no bar...

 

P/1 – Aí você gera uma senha depois pra ela.

 

R – Depois eu mando pra ela uma senha e através dessa senha ela pode acessar o conteúdo total do blog. Ou seja, é um serviço de assinatura de blog na prática, mas que de certa forma é um incentivo pra que aquele meu leitor adquira algum livro meu. E aí quando eu fui lançar o Vocês terráqueas eu tive a ideia de criar um blog especificamente pra criar aquele livro junto com os meus leitores.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Pois é. Como assim? Eu queria que os leitores me dessem ideias de histórias, de contos e crônicas que seriam publicados no livro e criei um blog chamado kelmerparamulheres.blogspot.com. E aí um público feminino que tava crescendo muito... Isso é outra coisa interessante da minha carreira, eu sempre fui esse cara esculhambado, sabe? Essa fuleiragem grande como a gente chama no Ceará, o cara fuleiro. De repente eu comecei a escrever sobre o universo feminino e o público leitor feminino se identificou e o resultado é que hoje o público feminino, o meu público feminino eu acho que deve ser na faixa de uns 70, 80 por cento do meu público. Enfim, e aí esse livro Vocês terráqueas eu criei o blog, o Kelmer para mulheres pra que essas leitoras me ajudassem a escrever esse livro. Então durante nove meses, que foi o tempo simbólico, simbólico e prático que eu ia parir esse livro, eu fiquei em contato diário com esse público leitor.

 

P/1 –   Muitos leitores? Leitoras?

 

R – É. Hoje eu tenho três mil leitores cadastrados, mas são pessoas que se cadastram por vontade própria. Eu não saio colhendo e-mail por aí porque eu quero ter certeza que aquela pessoa tá interessada no meu trabalho. Esse negócio de comprar mail list de cinco mil, dez mil, 500 mil e-mail eu não gosto muito, manda pra todo mundo mas você não sabe se a pessoa tá nem lendo. Enfim, e aí lancei o livro. Antes de lançar anunciei: “Estou lançando o livro. Se você quiser adquiri-lo antecipadamente eu faço um desconto, te mando quando lançar e ponho uma página no livro, chamada “Galeria de leitores especiais” e terei o maior prazer de citar o seu nome, na sua cidade e tal”. Nessa historinha eu vendi uns 50 exemplares antecipados, o que me garantiu custear 30 a 40 por cento da edição de 500 exemplares. Ou seja, o que isso quer dizer? Quer dizer que se eu me tornar um pouco mais conhecido e tiver mais leitores, daqui a pouco eu consigo custear 50 por cento da edição, daqui a pouco eu consigo custear 100 por cento e aí no caso o livro já nasce com a venda garantida, já tá vendido. Aí pense bem: “Ah, mais você é um cara desconhecido e tal”. Tudo bem, mas imagine um escritor conhecido, mais conhecido que anuncie: “Eu vou fazer uma primeira edição do meu livro de três mil exemplares, ou mil exemplares, dois mil, sei lá, e vou vender apenas essa edição antecipadamente”. Poxa. Se você fosse o leitor do, sei lá, escritores que estão se tornando mais conhecidos agora, o Marcelino Freire... Vai, vou botar um escritor conhecido, o Luís Fernando Veríssimo. Você é fã do Luís Fernando Veríssimo, eu acho que você ia adorar ser citado na primeira edição do livro dele. Então você pagaria, você compraria antecipado esse livro brincando. Então outros autores também podem experimentar esse tipo de relação mais direta com o seu público. E aí isso elimina a necessidade de uma editora, obviamente, mas aí caímos no velho problema da distribuição. Como é que ele vai distribuir isso pra todo o país, pras livrarias? Aí é outro esquema, mas já é possível começar a fazer alguma coisa fora do âmbito do esquema tradicional dos grupos editoriais.

 

P/1 – Então, Ricardo, você que viveu os dois momentos, mimeógrafo, máquina de escrever, essa coisa toda e a internet, como é que você viu essa transição, você que já inclusive aderiu à internet como uma ferramenta aí pra divulgar seu trabalho.

 

R – Como eu vi a transição? Difícil. Ainda é difícil. Não é confortável ler no computador ainda. Já estão surgindo os dispositivos pra se ler livros digitais, alguns deles já nem emitem luz, a tela não emite luz, ou seja, não cansa o olho. São leves, acesso a internet, enfim, eu acho que não temos como escapar dessa transformação do livro, porque o livro sempre se transformou. O livro era pedra, depois se tornou couro, depois se tornou papiro, depois é que foi papel como a gente conhece e agora tá se transformando novamente pro formato digital. Continua se transformando, é só uma questão de se adaptar mesmo. A transição é difícil, mas vamos ter que enfrentar.

 

P/1 – Cara, vamos trocar a fita aqui pra gente fazer as avaliações finais, a Ethel vai fazer um bloco de perguntas só dela.

 

(término da primeira faixa)

 

P/1 – Então, Ricardo, nós já estamos aí chegando em 2009, né? O seu último livro publicado então é o?

 

R – Vocês terráqueas.

 

P/1 – O Vocês terráqueas, que é esse processo que você descreveu, é isso?

 

R – Isso.

 

P/2 – E aí como foi, Ricardo, a resposta mesmo assim das leitoras, objetivamente assim cita alguns episódios aí ou algumas sugestões que foram importantes aí nesse processo.

 

R – Ah, sugestões... Várias sugestões pra escrever sobre mulher. O Vocês terráqueas ele tem uma carga forte de erotismo e humor e de reflexão sobre gênero, sobre relação masculino feminino, sobre a condição feminina, sobre o feminino no homem, na psique masculina. Mas uma coisa em especial eu... Sinto, não. Eu vejo que toca no público feminino que é a questão da liberdade. A questão da mulher puder ser quem ela é. É interessante isso porque historicamente a mulher nunca pôde ser quem ela quisesse ser, ela tinha que... Aquele papel, ou a santa ou a puta na nossa sociedade ocidental cristã. A ela era reservado o papel da virtuosa, baseado na figura religiosa de Maria, se não fosse isso seria o quê?

 

P/2 – A Madalena.

 

R – Seria Madalena. Mas com a emancipação e as mudanças culturais a mulher se viu um pouco mais livre pra ser o que ela quisesse, né? O que ela quisesse ser. Inclusive um dia desse eu recebi uma crítica de um leitor falando assim: “Ah, a mulher tá livre pra... Essa liberdade não foi muito boa porque cada vez mais tem mais atriz pornô por aí, a mulher continua sendo objeto”. Mas aí ela quer ser objeto? Se ela quiser ela é objeto. Agora é uma questão de preferência, mas o mercado tá aberto, ela pode ser mil outras coisas, não apenas a santa ou a puta. Ela pode ser milhões de coisas, mas se ela quer... Se algumas mulheres querem ser atrizes pornô, enfim, é a liberdade. Agora ela tem a liberdade dela querer ou não. Eu vi que isso toca muito ainda as mulheres. Talvez as mulheres da geração mais nova não sintam tanto ainda esse peso, mas as mulheres que hoje têm 40 anos vieram ainda de uma educação repressiva. E aí uma crônica minha chamada A mulher selvagem foi a que me despertou pra essa questão do arquétipo da mulher livre, da mulher selvagem. O arquétipo da mulher selvagem que é a mulher ligada aos seus ciclos naturais de crescimento, a mulher sábia, naturalmente sábia, que não se boicota, que respeita a sua natureza e que é quem ela é, dizendo de forma bem resumida. Escrevi uma crônica sobre isso. Uma crônica com toda licença poética e tal, porque senão eu teria que falar sobre arquétipos, psicologia, mitologia. Então preferi fazer a coisa de uma forma mais poética. Caramba. É o meu texto mais lido e reproduzido e comentado. Já encontrei esse texto com outras autorias.

 

P/1 – Com outras autorias?

 

R – É. Eu digito lá uma parte do trecho, né, pra pesquisar do texto e aí sai centenas de sites e blogs e tal, estações e às vezes com outros autores. No começo eu: “Vocês me desculpem, mas esse texto é meu, não sei o que e tal”. Às vezes a pessoa me respondia pedindo desculpas, às vezes nem respondia. Chegou um belo dia que eu tava nadando contra a corrente e eu desisti, falei: “Ah, eu não vou mais, não tem como controlar”. Eu acho que o criador, quando ele chega nesse estágio em que as pessoas já estão usando a sua obra dessa forma, ele tem que encarar de forma positiva. A sua criação está se disseminando e ele não dá pra controlar. Aí eu desencanei, mas ele continua, continua... É incrível. Eu pus lá um mecanismo pra me avisar do Google cada vez que esse texto fosse reproduzido, fosse publicado em site ou em blog. Toda semana eu recebo essa notificação.

 

P/1 – Olha só.

 

R – Toda semana. Às vezes em dois, três, quatro, cinco blogs. Perfis de Orkut de mulheres têm essa crônica inteira.

 

P/1 – Olha.

 

R – E às vezes sem a minha assinatura e tal.

 

P/1 – Pronto. Depois disso é...

 

R – Pois é. O que eu quero mais? Então eu percebi que eu tinha tocado numa coisa forte, sabe, da psique feminina. Tem... E os homens? Os homens não se manifestam muito em relação a esse assunto. Um dia desses um aí me chamou e eu publiquei no meu blog, eu publico tudo, o cara me chama disso, daquilo, publico tudo. Às vezes quando é uma coisa, quando ficam muito pesado os termos que ele usa tal, dou uma filtradinha e tal, mas eu deixo a essência da crítica, do comentário. Um dia desses um publicou dizendo que eu era... Esse termo é bom, nunca tinha me xingado disso, puxa-saco de boceta. Achei sensacional. Ele ficou... Assinou: eu. Ele não teve coragem de botar o nome dele. Eu achei interessante, puxa-saco de boceta. Mas enfim, a história dessa crônica da mulher selvagem que eu publiquei em 2004, foi com essa crônica que eu tive a certeza de que eu deveria publicar um livro sobre isso e aí o Vocês terráqueas nasceu a partir desse texto.

 

P/2 – E esse título? Por que terráqueas?

 

R – Pois é. Olha, eu fiquei um tempão pra...

 

P/2 –   É a forma como você enxerga as mulheres?

 

R – Pra decidir como seria o título desse livro. Ele tem um subtítulo que é Seduções e perdições do feminino, Vocês terráqueas. Seduções e perdições do feminino. Eu não sabia que título pôr, mas eu queria um título que fizesse referência às mulheres e de certa forma uma referência como se alguém olhasse de fora. Então quando eu digo: Vocês terráqueas, a mim me passa a impressão de que alguém, que não é terráqueo está falando: Vocês terráqueas. Ou seja, é como se eu conseguisse pôr a cabeça de fora dos meus limites culturais pra poder enxergar o feminino. Foi uma... Não sei se eu fui muito feliz, mas era isso que eu queria passar, era um homem que tentou, que está tentando sair do seu limite cultural de educação e de cultura e enxergar o feminino nele mesmo e na mulher da melhor forma possível, e aí Vocês terráqueas.

 

P/1 – Ricardo, você contou então um pouco que você tá trabalhando como escritor de um jeito um pouco diferente, usando novas tecnologias e você veio aqui com a produtora, raríssimo um escritor que tenha o seu produtor. Você podia contar mais ou menos como é que é a rotina de uma semana sua?

 

R – Quando eu cheguei a São Paulo a minha rotina era me trancar no quarto e escrever esse livro. Então durante dois anos eu fiquei com essa rotina. Saí pouquíssimo, não fiz amigos praticamente, não conheci a cidade, fiquei lá nesse endereço em Congonhas preparando esse novo livro e preparando o blog, porque eu tinha tudo num site ricardokelmer.net, aquela coisa de HTML, de atualizar, eu tava em outro computador, em outra cidade e não podia atualizar. Então comecei a perceber que eu tinha que ir pra um blog mesmo por causa da funcionalidade, né? Da praticidade. Mas como que seria essa migração? O que eu levaria do site pra lá? Teria que postar tudo de novo. Olha, isso me deu uma... Qual blog escolher? Quais os melhores que se adaptariam pro que eu queria pro meu novo, minha nova forma de trabalhar com o público. Então fiquei em dúvida entre o blogspot e o wordpress, acabei escolhendo o wordpress porque ele me dava essa possibilidade de manter certos textos protegidos por senha, enquanto que o blogspot ou você protege tudo, ou deixa aberto tudo. Acredito que não tenha mudado isso, mas era assim e o wordpress, não. Então o wordpress eu vi a possibilidade de proteger certos textos por senha. Então aí me veio a ideia de criar uma assinatura pro meu trabalho. Você assina a revista época, a revista Veja, você assina televisão, você assina internet, por que não assinar um trabalho de um escritor? Seria tão absurdo pensar isso?

 

P/1 – Não.

 

R – Você é fã do Paulo Coelho, vai. Você não assinaria um blog dele sabendo que você receberia textos em primeira mão, você participaria de promoções, compraria livros com desconto, teria acesso a textos que outras pessoas não teriam. Parece-me ser bem razoável isso. Então é o que eu estou tentando viabilizar através desse trabalho com internet. Mas não deixo de ficar ainda seduzido pelo suporte físico do livro, o cheiro, tocar, folhear, essa coisa toda. Então é aquela coisa do período de transição, a gente ainda não saiu totalmente, talvez nem vá sair totalmente da coisa do livro impresso e tá entrando numa nova forma de publicar. Agora minha rotina depois disso foi que em 2008 o dinheiro acabou e eu não tava conseguindo aluno pra oficina, as palestras... Eu tava começando a fazer palestras aqui em São Paulo, em colégios. A Célia que é a minha produtora, ela gostou muito do meu trabalho de palestrante e me contratou pra algumas palestras, mas não estava me sustentando. A venda de livros é pingada, um livro aqui, outro ali e tal. E aí resolvi passar novamente um tempo em Fortaleza. Era um tempo curto que eu queria, acabei ficando dez meses. Acabei ficando dez meses lá e lancei o livro lá, o Vocês terráqueas. Fiquei esses dez meses lá... Aí lá eu me viro, eu faço festa nos bares dos amigos e vou me virando, palestras... Aí uma empresa me contratou enquanto eu tava lá pra fazer uma série de palestras do Matrix e o despertar do herói pros funcionários e isso me fez economizar uma boa grana, voltei em maio pra São Paulo. A partir daí eu vim morar no Sumaré e aí era aonde eu queria morar, mais inserido no circuito cultural, boêmio da cidade. Aí mudou tudo, muitas coisas aconteceram, conheci muita gente e as possibilidades apareceram. Eu tive a ideia de montar uma revista, a Letra de bar, pra falar sobre o mundo dos livros, dos escritores e da literatura numa linguagem acessível, público médio, sem muitos aprofundamentos e através disso ajudar também escritores independentes como eu a divulgarem seus trabalhos. E como isso acontece no ambiente boêmio da cidade, a revista é distribuída no ambiente boêmio da cidade, eu tenho que tá muito em bares. Não acho ruim, não. Eu faço parcerias com os bares pra levar os escritores lá, pra fazer noites de autógrafos individuais ou coletivas. Às vezes a gente junta dois, por exemplo, o tema é poesia, junto dois poetas, o tema é urbano, junto dois contista urbanos, o tema é erotismo, junto autores que trabalham com erotismo e fazemos as noites de autógrafos nesses bares que são ligados ao projeto. É uma forma de levar a cultura, a boemia e fazer com que os bares também vejam a importância de trabalhar, que dá retorno, que é viável se trabalhar não só apenas com venda de bebidas, mas com venda de cultura. Então minha rotina hoje é manter o blog sempre atualizado porque você acaba ficando meio que escravo dessa atualização e desse contato diário...

 

P/1 – Você dedica quanto tempo mais ou menos por dia à atualização de blog, responder e-mail etc.?

 

R – Oito horas em média. Geralmente oito horas em média. Não apenas cuidar do blog e do contato com os leitores, mas também escrever, criar textos novos e sempre atrás de divulgar o seu trabalho no ambiente da internet, através das redes sociais, enviar textos pra jornais, revistas, contatos com editoras. Enfim, você tem que ficar se movimentando também. Então é um trabalho como qualquer um de ficar no computador durante oito, dez horas por dia, normal.

 

P/1 – E você ainda tem a parte da noite aí pra divulgar o Letra de bar?

 

R – É. Eu tenho que sempre dar uma saída. Duas, três vezes por semana pelo menos tenho que estar no ambiente boêmio cultural da cidade pra levar esse projeto. E aí... Eu não consigo ficar muito numa expressão artística só. A música me fascina, a imagem em movimento me fascina, por exemplo, cinema e também eu nunca tinha mexido com teatro. Esse ano, logo depois que eu me mudei pro Sumaré, pensando numa palestra nova: “Poxa, que palestra nova eu posso oferecer agora e tal. Vinícius. Vinícius de Moraes”. Lembrei-me que eu gostava de Vinícius. Eu tinha esquecido que eu gostava de Vinícius. Na minha adolescência eu estudava obras de Vinícius, recitava os poemas na inauguração dos bares dos amigos... Nossa. Era vidrado em Vinícius e tinha esquecido que gostava de Vinícius de Moraes. E aí voltei a estudar novamente a obra do Vinícius, li biografias, conversei com pessoas que conviveram pessoalmente com ele e montei uma palestrinha que tinha participação do meu amigo Moacir Bedê na música, tocando Vinícius. Tive a ideia também de chamar uma cantora também pra se apresentar junto cantando. Aí a ideia surgiu, ué, então porque não transformar isso num espetáculo? E aí surgiu o espetáculo que é com o qual eu tô em cartaz hoje em São Paulo que é o Viniciarte. Vida, música e poesia de Vinícius de Moraes em que a gente fala... Na verdade é uma brincadeira metalinguística com o teatro porque a gente finge que tá ensaiando para apresentar esse espetáculo em 2013 no centenário do Vinícius. Então na verdade a plateia tá assistindo a encenação de um ensaio, mas a gente faz questão que haja espaço pra improviso. Então o Bedê erra pra caramba as falas dele. Ele sabe tocar música, mas ele não sabe... Ele olha pra fala dele na partitura aí diz: “Para quem você está ligando?” com aquela naturalidade, sabe? Aí o público se acaba de rir e ele fica envergonhado. Então aí acaba sendo que uma coisa, uma brincadeira, sabe, com o público. Ele esquece as falas, eu paro aqui no meio da minha falo: “Bedê, tu tinha uma fala agora”. “Ah, não sei o que e tal”. Então as pessoas acham que estão vendo mesmo o ensaio, que tudo ali é... Os erros são brincadeira e tal, alguns são, mas outros não são mesmo, são totalmente... Cada espetáculo é diferente um do outro por conta disso, né? E parece que acho as pessoas gostaram, a gente já desde setembro tá se apresentando lá na Benedito Calixto, naquele espaço cultural do Alberico e tem sido maravilhoso. Outro dia a nossa produtora, a Célia, ela vendeu um espetáculo pra um clube na zona norte e quem tava na plateia? Uma parceira do Vinícius, a Alaíde Costa.

 

P/2 – Nossa.

 

P/1 – Alaíde. Que beleza.

 

R – Quando ela me falou no final do espetáculo: “Alaíde Costa tá na plateia”. A Alaíde... Ela compôs com o Vinícius e cantou músicas do Vinícius. Aí chama a Alaíde. A Alaíde subiu no palco e cantou com a gente cara.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Nossa. Olha as coisas que acontecem, né? Então foi uma experiência realmente incrível e está sendo incrível. E pretendemos ficar com esse espetáculo até 2013 que é o centenário do Vinícius. Em 2010 são 30 anos sem o Vinícius, ele morreu em 1980. Então acredito que vá ter algumas homenagens, alguns eventos relativos a isso, mas 2013, se o mundo não acabar até lá...

 

P/1 –   2012 acaba, não é isso?

 

R – Pois é. Vai ser uma pena porque 2013 é que é o grande ano. 100 anos do Vinícius, imagina, esse país vai parar.

 

P/2 – Já providencia... Já negociou lá em cima?

 

R – Já negociou?

 

P/1 – Negociou.

 

R – Acho que tem que negociar por baixo. (risos)

 

P/1 – Ricardo, a conversa tá boa, mas as nossas fitas estão indo. Uma entrevista da história de vida pra durar a vida inteira, né? Então a gente vai caminhando aí pras perguntas finais. Então já que você é um dos primeiros participantes desse projeto aí da história digital de Fortaleza, então já contando aí sua história, eu queria que você fizesse uma definição do que é Fortaleza pra você que tá cá no exílio.

 

R – Fortaleza a cidade, né? Não é Fortaleza time, não, porque se for o Fortaleza time vai ser uma desgraça, caiu agora pra terceira divisão, mas não vamos falar sobre isso. Fortaleza, né? Teve um poeta que... Cearense. Era cearense ele? Que cunhou um termo que se usa muito pra falar de Fortaleza que é “a loira desposada do sol”. Poético, aquela coisa meio parnasiana assim, meio “a loira desposada do sol”. Então Fortaleza pra mim é uma loirinha, apesar dela ser bronzeada, mas eu a vejo como uma loirinha. Só que eu não gosto desse termo desposada, acho meio empertigado assim, poeticamente falando e tal. Eu prefiro usar “a loira desmiolada de sol”. Aí a gente cai de novo naquela relação contraditória que eu tenho com a cidade, de ame ou deixe, aquela coisa toda. Desmiolada porque eu acho que ela pega muito sol na moleira e realmente fica desmiolada mesmo. Isso na verdade é uma brincadeira por conta da gente ter que sair da cidade pra poder desenvolver uma carreira e aí a gente fica com essa magoazinha de: “Poxa, eu queria ter ficado, mas ela não me tratou tão bem e aí eu não pude ficar”. É uma desmiolada. Pensa muito em forró, em Fortal. Enfim, são coisas de casal, de relacionamento, né? Mas a loirinha desmiolada de sol tem coisas boas. Muitas tão saindo de lá, mas tem coisas boas.

 

P/2 – Ricardo, em termos de criação, o que lhe passa pela cabeça agora? O que você acha que... Vem algo novo assim, algo que você tá mirando no horizonte ou não? Ou tá voltado mesmo pra essa fase Vinícius. Vinícius combina com você, mas o que tá passando pela cabeça?

 

R – Eu sinto que vou ficar bem ligado na história do Vinícius mesmo daqui pra frente. Esse espetáculo tá cada vez tomando mais corpo e tem sido muito gratificante fazer, quero levar ele pra outras cidades, a Célia tá muito animada em vendê-lo não só pra espaços culturais, mas pra empresas, colégios, outros Estados. Enfim, eu acho que a coisa vai... Tem muito chão ainda com isso. Mas eu não posso perder o foco da escrita, ela que é meu alimento, né? Então em relação a novas publicações, tem. Tem dois livros já quase prontos, um romance e um de contos e... Eu tenho muita vontade ainda de trabalhar com roteiro, eu acho roteiro uma coisa muito interessante porque ele une a escrita com a imagem no caso de televisão e cinema. E quem sabe não pinta alguma coisa também nisso? Mas no momento é isso. O foco é a escrita e a questão do espetáculo do Vinícius.

 

P/2 – E quais são os temas dos livros?

 

R – O de contos é na minha área de contos mesmo que eu gosto que é contos fantásticos, um pouco erotismo, fantástico, coisa um pouco mística. Engraçado, eu assumi depois meu ateísmo depois de passado grupo de jovens, católico, esoterismo e tudo mais, mas eu ainda me considero místico. Eu tenho uma relação mística, por exemplo, com a Terra, com o planeta. Eu sinto uma coisa, uma ligação que eu só sei explicar como sendo mística, não é racional, com o planeta, com... Enfim, mas não tem Deus no meio, não tem entidades, não tem igrejas, não tem religião, não tem nada disso. Então os contos que eu escrevo que são místicos, eles continuam falando de coisas misteriosas, mas é dentro do universo da ficção. O outro é um romance sobre, dessa vez sobre o universo masculino, dessa vez sobre redenção pessoal, mas focando na questão masculina. Acho que refletindo um pouco a minha fase atual, eu tenho 45 anos, já sou quase um senhor de respeito, vai demorar pra ser um senhor de respeito, mas... Talvez refletindo um pouco essa fase do quarentão.

 

P/1 – Ricardo, a gente tem uma pergunta de avaliação que a gente sempre termina as entrevistas é o que você achou de dar, contar um pouco da sua vida aqui pro Museu da Pessoa e pro projeto que nós estamos começando da história digital de Fortaleza?

 

R – Putz. Primeiro pra coisa de Fortaleza, da história digital é como eu digo, isso pra mim é uma honra e também mais uma tatuagem que eu deixo pra cidade. Muito legal. Parabéns. Espero que Fortaleza acolha uma ideia como essa de braços e pernas abertas e que eu possa... Se eu puder ajudar de alguma forma. Quanto à questão de deixar o depoimento foi impressionante, foi muito bom, eu por mim falaria aqui pra caramba. Tive que pular muitas coisas interessantes, quem sabe depois faz um segundo...

 

P/1 – A gente pode fazer uma segunda rodada.

 

P/2 – Com certeza.

 

P/1 – Você marca aí os pontos que pularam e vamos ter o maior prazer em te receber de novo.

 

R – Pois é, né? Não contei a história do dia que eu tomei um chá de jurema.

 

P/2 – Foi? Chá de jurema? Aonde?

 

R – Chá de jurema no interior da Paraíba.

 

P/2 – Ah, tá. Pensei que era em Canoa.

 

R – Não foi em Canoa, foi no interior da Paraíba.

 

P/1 – Então já vai criando um suspense. Vai ter a história do chá de jurema, o que mais?

 

R – É. Vou criando um suspense.

 

P/2 – Aí você tem que assinar o blog pra saber.

 

R – Vou mandar a senha depois.

 

P/2 – Manda a senha dele depois.

 

R – Ah, mas bacana gente. Foi muito bom, obrigado por terem me convidado e parabéns pelo projeto, muito bacana mesmo.

 

P/1 – Muito obrigado.

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