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História

Um futuro que brilha

História de: Ferdinando
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Tendo vivido uma infância bastante conturbada, Ferdinando possui poucas lembranças felizes dos tempos de pequeno: um afago distante da mãe diante da ausência dos pais e o abuso sexual. Com o pai preso e a mãe desligada da família, Ferdinando passa a morar com os avós, quando larga a escola pela primeira vez ainda criança. Mais velho, aos quinze anos, passa a frequentar festa onde o uso de drogas parece conveniente. Por influência de um amigo passa a se prostituir para conseguir o dinheiro necessário para sustentar o vício nas drogas. Percebendo a diferença de sua vida em relação aos demais jovens, decide se afastar das drogas e da prostituição quando conhece o ViraVida. Hoje em dia, cultivando sonhos, pretende fazer um curso de cabeleireiro e pagar sua faculdade. Se percebe como um rapaz transformado, feliz e capaz de mudar sua vida.

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História completa

Meu nome é Ferdinando, e eu tenho vinte anos de idade. Minha infância foi um pouco complicado. A vida com os meus pais foi conturbada pelo fato do meu pai ser ex-presidiário e ter aprontado muito. A minha mãe se desligou totalmente da nossa família e deixou a mim e a minha irmã ao relento, sem ninguém por nós. É uma coisa muito esquisita, eu não tenho como explicar muito bem porque eu não convivo nem com um e nem com outro. Minha irmã tem 25 anos e já tem família, só que eu moro com meus avós, não tenho convivência com ela. Sempre morei com os meus avós, desde que os meus pais se separaram e até hoje. Não ter mãe e pai presentes foi difícil. Eu espero que ninguém passe por isso, dói. Às vezes você quer ter uma lembrança alegre, feliz. E a única coisa que eu lembro de alegre era quando eu recebia um carinho da minha mãe, o resto era só briga, droga e tudo que rolava. 

 

O meu pai usava maconha. Foi preso porque roubava, matava as pessoas. Eu sabia porque uma vez quando nós estávamos todos dormindo a polícia invadiu a nossa casa e o levou. Esse dia foi muito sufocante. Uma criança ver o pai ser preso, chorar e tentar soltar ele… Ele ficou por oito anos preso e a minha mãe o ajudava muito, só ela. Ele não tinha apoio da família. Quando ele saiu, a única consideração que ele teve por ela foi terminar com ela. Ela tinha que cuidar de mim e da minha irmã e se virar para levar as coisas para ele lá dentro quando ele estava preso, sofreu muito. Ela fazia faxina, tinha que pagar as pessoas para cuidar de nós, sempre soube se virar sozinha.

 

Nós íamos visitar meu pai, ele ficava muito alegre, muito feliz que nós estávamos vendo ele. Mas eu lembro que era muito ruim, muito sofrimento uma pessoa passar por isso. A prisão é um ambiente que não serve para pessoa nenhuma, por mais que eles tenham feito o que fizeram. Eu e a minha irmã dormíamos em uma cama de solteiro e a minha mãe dormia em rede. 

 

Nossa casa ficava em um bairro muito perigoso. Tinha muitos traficantes, assaltantes, brigas, rixas. Eu me lembro que uma vez um tio meu tinha acabado de assaltar e estava com uma arma. Ele chegou na frente de casa e deu um tiro. Eu peguei, cheguei perto dele e pedi para ele me mostrar como era. Ele me mostrou. Logo a minha mãe saiu e começou a me bater, disse que não era para mim, para eu nunca mais fazer isso.

 

 A minha mãe brigava muito para eu estudar. Mas meu dia a dia era assim: ia para escola, chegava da escola, almoçava e ia para rua. Não tinha nada de interessante, de importante. Gostávamos é de ir nadar com a família e os amigos. Eu gostava de brincar na rua de pipa, peteca, de boneca.

 

Quando eu tinha cinco anos os meus pais se separaram e eu continuei morando só com a minha irmã e minha mãe, que arrumou outro marido. Ela passava a semana toda com a família e, quando chegava o final de semana e ele aparecia, ela saía louca com ele pras festas. Ficávamos sozinhos eu e minha irmã, que já era um pouquinho mais velha do que eu e, então, cuidava de mim. Tinha vezes que minha mãe aparecia só na metade da semana, não vinha. Então peguei e fui para a casa dos meus avós. Falei para a minha irmã ir também, ela foi, só que ela não se acostumou e voltou. Eu continuei lá. 

 

O marido da minha mãe era bacana, não era uma pessoa ruim, não. O único mal era a minha mãe não nos dar atenção. Não estava nem aí. Isso foi bom mas também foi um pouco ruim, na minha concepção. Porque quando eu fui morar na casa dos meus avós eu não tinha liberdade de brincar na rua, era o tempo todo dentro de casa. Eu não podia sair na rua se quisesse brincar e, na minha visão de criança, isso era ruim, porque eu fui acostumado a sempre estar na rua brincando. Eu pensava que era ruim, mas vi que é diferente, foi bom. 

 

A primeira vez que parei de estudar foi no tempo em que eu mudei para a casa dos meus avós. Eu ia de lá sozinho estudar, tinha que ir e voltar todos os dias. Então fiquei dois anos sem estudar. Depois foi por mim mesmo, por conhecer outro tipo de pessoa totalmente diferente do que eu convivia. Foi quando eu conheci o álcool, a bebida e as drogas. Primeiro eu comecei no cigarro, depois eu conheci a maconha e a bebida também. 

 

Eu tinha cinco anos quando houve minha primeira relação sexual. Eu não digo que foi uma relação sexual, mas um abuso. Foi o meu primo. Na época ele tinha quinze anos e nós dormíamos juntos. Eu gostava de brincar com coisas de menina, com brinquedo, já queria vestir roupa de menininha, só que era muito reservado. Certo dia eu estava dormindo, quando ele acordou e começou a mexer comigo. Foi quando aconteceu. Como eu era criança, eu não senti nada. Depois, quando eu fui crescendo, foi que percebi que minha atração sexual era assim. Quando eu tinha dez anos, foi com outro primo meu, que também tinha quinze anos, mas foi porque eu quis mesmo. A primeira vez que eu contei isso foi aqui no projeto e para vocês. Não contei pra mais ninguém.

 

Eu comecei a sair de casa com quinze anos. Ia para festas. Foi quando eu comecei com o pó. Como era uma coisa um pouquinho cara e eu não tinha condições de estar o tempo todo comprando, eu comecei a me prostituir. Eu saía com as mariconas por dinheiro, para usar droga. Eu tinha um amigo que já fazia isso e deu meu número para uma dessas pessoas. Ela me ligou, a gente combinou, saímos, e eu continuei. Era um velho muito ridículo, mas eu estava ali para ganhar o dinheiro e fui, ganhei cinquenta reais. Eu não sentia nada, só fingia para ele fazer rápido e eu poder pegar o dinheiro pra ir embora. Eles iam me buscar perto da escola ou perto de casa, um pouquinho distante para ninguém ver. Nesse tempo eu me aprofundei mais nas drogas. 

 

Por estar ganhando bastante dinheiro, eu saía para festas, passava dias fora de casa. Minha tia sempre perguntava, eu sempre desandava. Foi o período em que a minha convivência dentro de casa piorou. Me tornei rebelde e não queria mais ouvir ninguém. Parei de estudar, vivia na farra, em muita bebedeira, muitas drogas. Combinávamos com as mariconas de ir todo mundo ao motel para beber e usar droga. 

 

Se eu pudesse voltar atrás, eu faria totalmente diferente. Eu já cheguei a vender as minhas coisas quando acabava meu dinheiro. Trocava na boca com os traficantes, penhorava para pagar depois. Encarar minha homoafetividade também foi difícil. No começo foi um pouco ruim, tinha muita briga. Até hoje meu avô não aceita e eu não falo com ele. Eu fugi de casa também, tentei ir para outra cidade. Hoje em dia já é mais tranquilo, minha tia já foi aceitando. 

 

Quando eu estava ficando mais velho e vi que as pessoas que eram da minha idade já estavam totalmente evoluídas nos estudos e eu estava regredindo, comecei a pensar. Foi quando eu voltei a estudar, parei de usar drogas e de me prostituir. Um dia eu estava sentado fumando um cigarro e passou uma amiga minha aqui do projeto com a mãe. Ela chamou uma menina para ir à igreja se inscrever em um projeto,  que era o ViraVida. Eu escutei e fiquei esperando elas terminarem de falar com a menina e fui perguntar. Aí eu fui. Chegamos lá e eu soube que era um projeto voltado aos jovens em risco de violência, drogas e marginalidade. Me identifiquei na mesma hora e pensei comigo que essa era minha a oportunidade de mudar. Passamos por um processo seletivo e eu consegui entrar.

 

No começo eu não sentia nada, mas com passar do tempo eu fui sentindo que no ViraVida estava uma esperança de um futuro melhor. Antigamente eu não tinha objetivos, deixava a vida me levar e pronto. Hoje, não. Eu tenho o objetivo de entrar em uma faculdade de administração ou pedagogia, trabalhar para construir a minha vida e ser feliz. Hoje em dia chego em casa à tardezinha, às vezes à noite, tomo um banho, estudo um pouquinho, deito e durmo para estar pronto no outro dia para vir ao projeto. 

 

Eu vou iniciar o curso de cabeleireiro e espero conseguir um emprego bom e que dê para pagar uma faculdade. Tenho um pouquinho de paixão por cabelo, estar mexendo, fazendo as coisas, passando química. Quando estou livre, às vezes vou dar uma voltinha, saio para as festas de vez em quando, mas não uso mais drogas. 

 

O ViraVida me transformou. Minha avó percebeu a mudança, me vê totalmente diferente no meu modo de agir. Hoje ela já sente mais a minha presença dentro de casa, eu já sento à mesa no domingo para almoçar com todo mundo junto, conversar um pouco. Me vejo totalmente diferente pelo fato de ter tido uma oportunidade que muitos jovens não têm. Sou alegre e me vejo com um futuro brilhante pela frente. Me sinto feliz por estar incentivando as pessoas a mudarem assim como eu mudei. Por ter ouvido histórias de conquista e de mudança. Assim como se influencia para o mal, se influencia para o bem. Escutar um pouquinho de uma história que aconteceu na vida é uma grande ajuda. Eu me sinto uma pessoa de responsabilidade e de muitos valores agora. Incentivado a lutar.

 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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