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História

Um grande contador de histórias

História de: Carlos Sereno
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/03/2014

Sinopse

Em seu emocionado depoimento, Carlos Sereno fala de sua infância e as brincadeiras com os amigos, no bairro da Vila Metalúrgica em Santo André, SP. Recorda a primeira professora e como voltou a estudar depois de casado. Lembra dos empregos que teve antes de se tornar professor de arte para crianças e como começou o trabalho como voluntário na Associação “Viva e deixe Viver”.

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História completa

Meu nome é Carlos Sereno, eu nasci no dia primeiro de agosto de 1947 em Utinga, Santo André, São Paulo. Meu pai chamava-se Valentin Sereno e minha mãe Maria Teonila Martin. Minha mãe era prendas domésticas e fazia de tudo realmente em casa, era uma época em que as pessoas tinham várias habilidades. O meu pai era pedreiro de profissão. A minha mãe tinha um temperamento tranquilo, meu pai também, mas eles eram espanhóis e o espanhol, eu não sei se ele paga um boi para não entrar numa briga, mas eu tenho certeza que ele paga uma boiada para não sair. A vinda deles para o Brasil foi no começo do século XX, então 1900 e pouco, meu pai era de 1901 e minha mãe de 1911, então imagino que eles tenham vindo por volta da década de 20. Tenho um irmão que é filho do primeiro casamento do meu pai, chamava-se Pedro e ele era de 1929. Então, o Adolfo ele era de 1931, o Cândido de 1932 e eu tinha uma irmã de 1945, a Maria.

 

A primeira casa que eu lembro era uma casa que era no mesmo bairro, Vila Metalúrgica, mas eu lembro, assim, muito vagamente uma coisa ou outra. Depois nós mudamos para uma outra casa que é na Rua Japão, e depois nós mudamos, no dia cinco de agosto de 51 para esta casa que foi a primeira que eu tive o meu histórico de infância, ali eu fiquei até casar. Essa casa, nós mudamos em um domingo, ficou sem cerca, o terreno era caído para o fundo, era uma rua sem asfalto, um paraíso. Passava um caminhão por dia para entrega nos estabelecimentos comerciais que eram poucos também, muito mato. Atrás da minha casa não tinha casas, tinha uma ou duas e o resto era mato, e quando chovia passava um aguaceiro por lá. A casa foi feita da maneira mais simples possível, meu pai era pedreiro, mas ele trabalhava para construir a nossa casa de sábado e domingo. Não lembro exatamente como estava aquilo no dia que nós viemos, mas eu imagino que minimamente deveria ter pelo menos um cômodo para se dormir e uma cozinha para se cozinhar. O banheiro era fora, era de madeira, as paredes de madeira e era daquele que a gente chama de aviãozinho, que você precisa segurar na parede de medo de cair lá para dentro, uma coisa muito segura, muito tranquila, verdadeira maravilha, com muita higiene também, sem descarga, era fossa, é o que havia na época. Logicamente, com o passar do tempo isso tudo foi sendo melhor estruturado, melhor feito, mas eu lembro de várias mudanças internas, vai para cá, arruma lá, faz isso aqui, vai para o outro cômodo. Eu fiquei desde o dia cinco de agosto de 51 até um pouco antes de eu casar que foi primeiro de outubro de 77.

 

Brincávamos de futebol, empinava pipa, jogávamos fubeca, que é a tal de bolinha de gude, uns jogavam para ganhar e nem tanto, outros para brincar mesmo. Colecionávamos figurinhas de vários tipos, nunca enchemos álbum nenhum. Eu fui entrar na escola no ano que eu fazia oito, Grupo Escolar Doutor Júlio Pignatari. Ficava na esquina da Rua Haia com a Avenida Utinga, a Avenida Utinga é a rua principal lá do bairro. Adorei a escola, adorava ir para escola. Eu termino o primário em 1958, assim raspando. Eu fiquei até 63, eram cinco anos, eu já estava trabalhando, já estava começando a trabalhar e tal, em 60 eu comecei, e por conta de um emprego em que eu para trabalhar nesse setor eu teria que estar fazendo o colégio, o ginásio, que era chamado. Depois fiz o supletivo e fiz em um ano e meio o que eu faria em três, e fui para faculdade, nessa época eu já tinha casado.

 

Comecei a trabalhar de 12 para 13 anos. Meu pai trabalhava numa construtora, chamava-se Companhia Construtora Módulo Engenharia e Arquitetura, é no IAB, Instituto de Arquitetos do Brasil. O meu pai conversou com um dos proprietários da empresa e entrei nessa empresa para trabalhar de office-boy. Trabalhei um ano e meio sem registrar, meu pai ficou muito bravo que não me registravam, estavam me sacaneando e ele era um dos pedreiros, podia ser dispensado se ele começasse a pressionar demais, mas ele não tinha medo de nada. E acabaram me dispensando e acertando tudo, registrando em carteira. Comecei a trabalhar com uma autorização do Juizado de Menores, assinada pelo meu pai, porque na época não se podia começar registrado com menos de 14 anos, foi feito isso e depois eu fui para outras empresas por meu intermédio, e na segunda que eu trabalhei não foi, meu pai falava: “Não trabalhe sem registro” e na segunda que eu trabalhei, fiquei sem registro, sem registro, quase no final do ano eu falei com o homem, no dia eu falei com ele no outro dia eu estava na rua. Da outra em diante, que foi a Máquinas Piratininga, na Mooca, sempre registrado. Acabou ficando com a minha mãe o primeiro, segundo, o décimo terceiro pagamento, décimo quinto pagamento, assim por diante, sempre foi entregue para minha mãe. E a partir de um determinado momento, você já é rapazinho, começa a querer determinadas coisas, então, eu entregava e depois pegava de volta, em parte, ela ficava muito brava e tinha essas discussões. Uma das coisas que eu comprei foi um toca-discos, daqueles de vinil. Eu já tinha uns 15 anos, 16.

 

No ano de 60, o que nós fazíamos era assim, o pessoal que não dançava ia para o cinema, então tinha os colegas que iam para o cinema. Cinema de Santo André, Utinga, que é onde eu nasci, chegou a ter quatro cinemas, que hoje é impraticável ter isso em cidade Santo André, por exemplo, na cidade de Santo André, e chique, Utinga Palace, olha que chique. Os filmes eram os enlatados americanos, aquilo tinha muito, na década de 50 e 60 nós nos alimentávamos do que os americanos mandavam. A minha infância é rádio, então tinha, por exemplo, na Rádio Nacional, depois passou a ser TV, Canal 5. A Rádio Nacional, em São Paulo, tinha um programa chamado Programa Manoel de Nóbrega, de rádio, de variedades, principalmente, humorísticos, quadros humorísticos, tinha o Ronald Golias, tinha o Carlos Alberto de Nóbrega...

 

A minha esposa foi uma coisa muito interessante como nos conhecemos, eu trabalhava na Chrysler, levado por um amigo meu que também me levou para Máquinas Piratininga, Nilton Tomano, já falecido. Eu trabalhava em folha de pagamento, inicialmente RH, admissão e demissão de funcionários, então, fazia só o trâmite do cara ser dispensado ou admitido, depois a folha de pagamento que eu ia cuidar do pagamento, essas coisas todas e tal. Em 73 a minha esposa estava trabalhando com o dentista da Chrysler e eu fui fazer um tratamento dentário para chegar perto, fiz o tratamento, conheci e dei um jeito, na minha seção, de mudar o meu horário de almoço para ir no horário que ela ia, vai para cá e vai para lá, você vai se aproximando, vai conversando, começamos não a namorar. Fomos conversando e tal e ela falou: se fosse para namorar precisaria falar com o pai dela, o pai dela era um caboclo tocador de boiada na região de Bauru. A minha esposa é Maria Zélia Marques Pereira dos Santos e passou a ser Sereno com o casamento. Ficou estabelecido quinta, sábado e domingo na casa dela e não existe passeio, existiria passeio se a gente fosse com a família a algum lugar, num casamento, numa visita, não sei o que, aí ia, aquilo que a gente chamava de vela antigamente, ia um castiçal inteiro, todo mundo atrás e junto e não sei o que lá.

 

Meu filho André nasceu em 82, ano que a Zélia terminou a faculdade e que eu entrei a faculdade, então foi um ano muito marcante. Ela trabalhava num banco, Banco Bamerindus. O André foi meu irmão, eu não tive irmão menor, eu não sei o que é ter irmão menor, então, ele foi meu filho e meu irmão menor, isso foi enorme, é muito, não é pouco. E eu ia ter alguém sob os meus cuidados, mais novo do que eu, então foi uma experiência fantástica. A gravidez foi tranquila, primeiros três meses aquele problema de sempre, enjoo. Passou os três meses nós nem lembrávamos mais que tinha tido esse problema, foi, foi, foi e nasceu dia 27, ele deixou ela ter o Natal dela, foi cesariana, no ano novo ela estava em casa. Eu entreina faculdade no começo do ano que a Zélia ficou grávida, e a Zélia terminou no meio do ano. Eram dois anos básicos e um ano e meio de especialização, que eu fiz em teatro. Nesse meio tempo, em 79, dois anos depois de casado e três anos antes do André nascer, eu entrei numa empresa que eu fazia entregas de Kombi na rua, entrega daquelas etiquetas que em supermercado você colocava na época daquela inflação, que de manhã estava um preço a mercadoria, de tarde estava outro. A firma era Primark. Ela fazia etiquetas e montava o aparelho, eles tinham empresas que fabricavam as peças e lá era montado o aparelho, eu entregava das duas coisas. Foi em 84, 85, alguma coisa assim, o dinheiro mudou de nome três, quatro vezes, tinha carimbo disso, tinha não sei o que lá. Terminei a faculdade, em 86 nasceu meu outro filho. Nós queríamos uma companhia por causa dessa coisa, a preocupação de pai de que o filho não se torne uma pessoa gananciosa, que quer só para ele, essas coisas de sonhos da gente, e veio o Marcos Davi que um é o dia e o outro é à noite, e é uma coisa muito doida. Enquanto eu fazia as entregas durante o dia eu acabei terminando a faculdade, acabei começando nessa vida de educador. Então, era uma coisa muito louca, de dia eu estava entregando com perua, de noite eu fazia faculdade, mas eu estava há muito tempo na firma então continuei, não pedi demissão. Depois eu comecei a dar aula à noite. Dava aula na própria faculdade que eu me formei. A diretora me admitiu e tal. Eu dava aula de Artes, parte de teatro, história do teatro desde pré-história até gregos e romanos, daí para frente era outro professor que dava.

 

A partir do momento que eu aprendi a ler, eu comecei a ler muito, lia como eu te disse as histórias infantis e comecei a ler muito conto de fadas. E tinha um irmão dessa menina que se queimou, Osvaldo Keen, eu contei uma vez para ele e ele ficou maravilhado com “A galinha dos ovos de ouro”, eu fiquei maravilhado dele ter ficado maravilhado, que eu era maravilhoso. E eu ia contando, ia contando, depois teve um hiato grande, sabe, até eu retomar. Eu já estava casado e aquela amiga que eu te mostrei, que agora está na Bélgica, ela me mostrou um prospecto lá que ia ter uma oficina com a Regina Machado. E ela mostrou para mim, porque ela sabia que eu gostava de história e no fim eu falei: “Olha, eu vou fazer a inscrição, você já fez?” “Ah, eu não ia,” foi, e fomos juntos e acabamos formando o conjunto lá, eu, ela e a Sílvia e durante um tempo ainda com a Regina Machado. Então eu fiz uma série, mas muitas oficinas. Eu acabei conhecendo uma moça chamada Mônica e nós acabamos começando a dar oficina de contar história, era uma oficina que não era minha, não era dela e não era da Regina Machado, depois as coisas vão tomando um formato. O público, normalmente, são educadores, pode ser público em geral, mas 99% delas é para público adulto, principalmente, para educadores, para instrumentalizar o educador.

 

Eu dou aula em escola pública do Estado, sou professor efetivo desde 2006. Escola Estadual Vereadora Léa Aparecida de Oliveira, fica num bairro chamado Parque das Américas, na periferia de Mauá. Eu conheci o “Viva e deixe Viver” por intermédio de um rapaz que foi meu aluno na faculdade e hoje nós somos amigos. Ele me trouxe lá uma xerox de uma propaganda, alguma coisa que saiu sobre o Viva. Eu soube por intermédio desse e tentei entrar em contato ‘n’ vezes, foi uma dificuldade tremenda, porque você há de entender, aquilo está se estruturando e ele tem que tocar a vida dele, ele dá aula em faculdade. Então, consegui o contato, consegui passar pelo processo de treinamento. Ao final do processo, lá no finalzão, você acaba escolhendo um hospital onde você quer atuar. Em cada hospital tem um cabeça de chave que eles chamam que é o que faz o elo entre o Viva e o hospital, a direção do hospital, pelo menos da parte pediátrica que é os responsáveis e tal, o contador com esse pessoal e o contador com o Viva. E é sempre para crianças. Com o passar do tempo você, o que eu falo sempre agora para o pessoal, você entra, você tem que ler o quarto, tudo. Você entra e faz o teu trabalho, que é focado na criança, está cheio de gente em volta, tem acompanhante disso, você conta para criança. Tem hospitais que têm apartamento, duas crianças no máximo, ou uma criança, e tem lugares que é tipo enfermaria, tem dez crianças. Eu tenho uma série de histórias memorizadas e tem livros.

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