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História

Um legado para as filhas

História de: Carlos Henrique Aiello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

A entrevista de Carlos Henrique Aiello foi gravada pelo programa Ponto de Cultura no dia 19 de agosto de 2008. O depoimento de Aiello começa com a memória de seus pais e da cidade de Araraquara, sua cidade natal, onde vive até hoje. Ele conta sobre a sua formação rígida na infância e como isso o ajudou a conseguir um bom emprego em uma multinacional ainda na juventude. Apaixonou-se por uma mulher através de fotografias e por ela nutriu uma paixão platônica até ser convocado para cursar Relações Públicas na UNESP de Bauru. Sabendo que ao mudar de cidade poderia perder seu amor para sempre, Aiello se declarou e os dois começaram a namorar. Hoje são casados e possuem duas filhas pequenas, às quais Aiello deseja passar o seu legado através desta entrevista. No dia em que gravamos, o depoente comemorava sua aprovação como mestre em Comunicação e Cultura Midiática pela UNIP (Universidade Paulista), local onde também atua como professor desde 2004.

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História completa

P/1 – Comece falando pra mim o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Carlos Henrique Aiello e eu nasci em Araraquara no dia 10 de setembro de 1975.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai se chama Antônio Carlos Aiello e minha mãe Vera Lúcia Dias Aiello.

 

P/1 – Eles são também de Araraquara?

 

R – Sim, de Araraquara. Meu pai já é falecido e minha mãe tá morando lá na cidade.

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram, o que eles faziam?

 

R – Na época meu pai trabalhava com vendas e minha mãe, que eu me lembre também trabalhava na Lupo... Numa empresa lá da cidade, que hoje é a Lupo, conhecida internacionalmente. Pelo que contam eles se conheceram, se encontraram, começou o namoro e foi até o casamento.

 

P/1 – O que você se lembra de pequeno dos seus pais, como eles eram? Como era o teu pai, como era tua mãe? E o seu relacionamento com eles?

 

R – Às vezes algumas lembranças ficam, né? Eu me lembro de algumas saídas com o meu pai. A gente caçava e pescava lá no interior. Com a minha mãe era mais uma relação ali de casa, era mais ou menos essa relação. Lembro-me também das viagens que a gente fazia em família pra praia. Quase todo ano a gente fazia essas viagens de família. Muito bacana, me lembro. Tenho várias recordações disso. São momentos que ficaram registrados na minha memória, bem presentes.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho. Eu sou o caçula, tenho uma irmã e um irmão. O irmão primeiro é o mais velho, depois a minha irmã do meio, e eu em 75.

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – Meu irmão é André Luís Aiello. A minha irmã é Ana Lúcia Aiello e aí veio eu em 75.

 

P/1 – Como que era Araraquara quando você era pequeno? O que você tem de lembrança da cidade? Da casa onde você morava...

 

R – É como uma cidade do interior, sem grandes acontecimentos nesse momento das décadas de 80, 90. A gente jogava bola na rua, a gente tinha algumas brincadeiras na rua. Brincadeiras com os vizinhos, com os amigos. A gente cultivava aquelas brincadeiras que hoje a gente não mais vê; desde bolinha de gude, futebol, gol caixão, corre-corre. São brincadeiras que a gente na época tinha. Hoje não vemos mais isso com as crianças.

 

P/1 – E como que era a tua casa lá em Araraquara?

 

R – Minha casa era uma casa boa, uma casa grande. Tem um quintal... Era um quintal grande. Eu tinha um cachorro – sempre gostei de cachorro – a gente brincava que era o Sheik. Eu brincava com os carrinhos e fazia naquele quintalzão pistas de carrinho, gostava muito de maquete. Então a gente sempre esteve brincando ali no quintal, era uma coisa bem gostosa. Eu adorava a minha casa, a casa dos meus pais. É o que eu lembro, porque eu não nasci lá, nasci numa outra casa. Fui lá de pequenininho, a única recordação que eu tenho é nessa casa em que passei toda a minha infância até minha adolescência.

 

P/1 – E você brincava com os seus irmãos? Como era a relação com eles?

 

R – Era complicado, viu? A gente brigava bastante, mais do que brincava, mas acho que era coisa de moleque, de família. Não era aquela relação sadia de irmandade, até porque eu gostava de algumas coisas, meu irmão mais velho gostava de outras coisas e sempre pintava aquele ciúmes, mas a gente foi convivendo com isso. Eu tinha mais uma relação com os amigos – eu gostava muito de jogar bola – do que uma relação com os meus irmãos.

 

P/1 – Você tem alguma memória marcante desse período com os amigos? Uma briga forte com os irmãos?

 

R – Não... O que me vem à tona é mais essa questão da brincadeira que eu tinha com os vizinhos ali na redondeza de casa. A gente brincava quase todos os dias, jogava bola quase todos os dias: à noite, à tarde, final de semana... Era uma relação muito próxima. Isso é uma coisa que a gente tem muita saudade, então a gente tem essas lembranças.

 

P/1 – Esses seus amigos da rua, vizinhos e tal... Quando você entrou na escola eles também se davam com você?

 

R – Nós tínhamos ali um grupo que não era só pela proximidade de vizinhança, tinha uma relação de escola – desde os primeiros anos até o colegial. Então a gente tinha essa relação muito próxima. Eu vivia muito fora de casa nesse sentido de rua, de brincadeira. Era uma coisa bem sadia e até hoje a gente tem relação, contato. Um pouco mais distante, por conta da gente estar construindo a nossa família, cada um com a sua família. Então a gente vai perdendo um pouco desse contato, mas a gente ainda lembra.

 

P/1 – Você tem lembrança dos seus avós?

 

R – Tenho, sim. Tenho a lembrança do meu avô, pai da minha mãe. Eu ainda tive essa fase de contato com ele, mas o perdemos rapidamente; não lembro de ter convivido muito tempo com ele. A minha vó que é mãe da minha mãe até hoje está com a gente, convive com a gente. Depois, por parte de pai, eu tive a perda: primeiro do meu pai, depois do meu avô e, recentemente, da minha avó, há pouco mais de um ano.

 

P/1 – E como que eram os seus avós?

 

R – Olha, o que eu mais lembro é em relação aos avós paternos, porque eu perdi o meu avô materno há mais tempo, mais cedo, então eu não tenho tanta lembrança assim. A minha avó – graças a Deus – a gente convive, eu frequento; embora pouco pela vida corrida, a gente ainda tem essa proximidade. Por parte dos meus avós paternos, pelo tempo de convivência ter sido mais duradouro, eu acho que eu tenho mais lembranças. O meu avô era super engraçado, era um comediante mesmo, de profissão – trabalhou em rádio e tudo, lá pro interior. Veio aqui de São Paulo, nascido aqui, era um personagem. Tudo era motivo de gozação, de piada, de riso. Uma pessoa sinceramente extrovertida. A minha avó, com aquela calma, com aquela paciência, era um ponto de equilíbrio dele, embora o meu avô, com toda essa alegria, era uma pessoa também às vezes explosiva, nervosa. Mas a gente tem muitas saudades.

 

P/1 – Você se lembra dessas viagens de família que você comentou? Ia a família inteira – o avô e a avó, todos os irmãos?

 

R – Não, ia a nossa família: pai, mãe e os meus irmãos. A gente ia e eu me lembro muito das viagens à praia. Meu pai viajava com a gente desde pequenos pra praia, então a gente conhece muito as cidades do litoral. A gente viajava em família e conhecemos muitos lugares, isso eu tenho bem registrado na memória –  momentos de praia, momentos de passeios. A gente fez muito isso na minha infância, eu tenho muita lembrança disso.

 

P/1 – Como eram esses momentos que você disse que você passou com o seu pai? Que vocês iam pescar, caçar... Como que era isso?

 

R – Quando pequenos, a gente acompanhava ele, tanto eu como o meu irmão. Era o hobby, a atividade que ele gostava, até a vinda do meu avô paterno. Então essa questão de pescaria, de caça, eles faziam viagem pro Pantanal, mas a gente fazia mais na região ali. Ainda se caçava na região naquela época, em matas fechadas, mas caçava com a intenção não só da prática esportiva – a gente até comia lá as caças, então eu acompanhava... Por incrível que pareça, a gente tinha um cachorro inclusive, que era o Tabu, que era o cachorro Perdigueiro. Depois eu deixei de acompanhar – meu pai sempre continuou, mas eu fui perdendo essa vontade. Não tinha mais vontade disso, acho que eu tinha dó dos bichos. Quando bateu essa consciência acho que eu tive mais dó dos bichos do que vontade de caçar, e aí foi aflorando a questão do jogo de bola, do futebol, coisa que o meu pai nunca jogou. Meu pai só gostava da seleção brasileira, mas nunca, nunca, nunca jogou bola. Ele tinha um problema na perna também, acho que está aí um dos motivos que o fez nunca se interessar tanto pelo jogo de bola. Meu pai tinha, desde pequeno, um problema na perda e ele fez um implante. Conta o meu avô que [quando] ele veio pra São Paulo, veio até a caráter de sitiante, de pobre, pra tentar uma operação que era naquela época cara e de risco. Não se tinha isso feito no interior, então eles vieram pra São Paulo. Meu pai tinha um implante na perna de osso de carneiro e naquela época foi uma operação de sucesso, porque havia a preocupação de se o osso acompanharia o outro osso da perna na mesma evolução, no mesmo ritmo – mas foi sucesso. Então talvez seja por isso que ele nunca se interessou por bola. Aí eu fui aflorando o esporte, até pela molecada da vizinhança... A gente jogava bola direto, então acabei deixando de acompanhar o meu pai nessas aventuras e fui partindo mais pro jogo de bola. A gente entrava em campeonatos nos clubes e tudo, então foi se distanciando aos poucos isso.

 

P/1 – Como foi quando você entrou no colégio, como que era a sua escola?

 

R – O colegial foi ainda na década de 90. Eu fui fazendo primeiro, segundo e terceiro colegial, né? Eu não sabia na verdade...

 

P/1 – Ah, não – a sua primeira escola, o primário. Você se lembra?

 

R – Ah, o primário. Lembro-me da creche do Meimei, que era uma creche de jardim, lembro disso. Eu brincava bastante no parquinho – adorava aquele ambiente ali. Depois eu fui pra uma escola, que é o Anjoca (Escola Estadual Antonio Joaquim de Carvalho), fiquei lá praticamente da primeira série até a oitava série. Foram nove anos no mesmo colégio e aí sim, depois, eu parti pro colegial.

 

P/1 – Como que era essa sua primeira escola? Era perto de sua casa? O jardim... Você diz que ela era muito verde?

 

R – As duas escolas eram próximas de casa mas a gente caminhava um pouco, fazia esse percurso a pé. Eu lembro, inclusive, desse percurso – não no jardim, mas na pré-escola –, lembro que eu fazia com os meus irmãos. Depois acho que o meu irmão acabou estudando de manhã, mas eu continuei à tarde, então a minha irmã era a companhia – eu a seguia nesse trajeto à tarde. Sempre estudei à tarde, até a oitava série. Era uma escola assim... Ali eu fiz grandes amigos, amigos que desde a primeira série [me] acompanharam, até a oitava série. Foram nove anos de convivência. Algumas pessoas conseguiram passar com nove anos ali, porque a escola era muito boa. Naquela época, escola do município, do estado... Município não, mas do estado era muito boa – eram escolas bem referenciadas, então me lembro de ter passagens assim... Na escola, a escola tinha um porão onde fazíamos a parte de ciências, de química; então era aquela coisa de... A gente não via a hora de fazer as disciplinas de física, química e de... Na verdade chamava de ciências, né? A gente adorava ir ao porão pra fazer isso. A escola era um monumento muito grande, era um espaço muito grande ali, mas eu me lembro que a gente seguia regras: fazer fila indiana pra entrar – esperar a primeira série entrar, a segunda série entrar, a terceira série –, chegava na sala de aula e a gente rezava, a professora punha de castigo atrás da porta, não podíamos chegar atrasados, coisas assim, extremamente disciplinares. Hasteávamos a bandeira e cantávamos, coisa que nunca mais eu vi. Acho que nem tem mais isso hoje na escola, né? É uma pena que isso foi se perdendo, mas, naquela época, a gente tinha essa postura.

 

P/1 – Como era você aluno? Que tipo de aluno você era?

 

R – (risos) Eu era um aluno disciplinado. Eu me lembro que eu tinha essa busca do conhecimento muito presente dentro de mim. Eu queria conhecer as coisas, eu queria saber muita coisa. Eu sempre gostei muito de estudar, sempre fui uma pessoa de fazer muita tarefa, ser rígido, ser disciplinado, mas também eu acho que eu embuti algumas coisas da fala do meu pai de às vezes, infelizmente, fazer algumas comparações – às vezes até entre eu, meu irmão, minha mãe... Enfim,  [ele] acabava deixando essa carga que a gente acabava seguindo. Aquilo se introjetava dentro da gente e correspondia, muitas vezes, àquilo que ele colocava enquanto pai. Eu acabei sendo um aluno super disciplinado, estudioso, nunca tive nenhum problema com escola, mas eu gostava também; era uma coisa que eu gostava.

 

P/1 – Mas o teu pai era um homem rígido ou ele era tranquilo?

 

R – Era um homem tranqüilo. É que às vezes, numa fala, numa conversa, numa comparação, às vezes... Porque meu irmão eu me lembro de ter dado muito trabalho em termos de escola, de busca, mas eu que acabei também introjetando muitas colocações e me posicionei assim como uma pessoa que buscava o conhecimento, essa disciplina de escola, então... Mas ele não era rígido, nunca foi de ficar no pé, de querer saber também. Acho que as coisas fluíam naturalmente.

 

P/1 – Lembra-se do cotidiano na tua casa, quando você era pequeno?

 

R – Ah, eu lembro. Lembro-me de coisas assim, de horário pra almoço: todo mundo almoçava junto. Horário pra janta: todo mundo junto. Minha mãe fazia almoço, fazia janta e todo mundo ia lá – almoçava em família e jantava em família. Coisa que você não tem hoje também acontecendo. Situações que se perdem. É uma pena que essa correria do dia a dia, essa contemporaneidade faz perder essas coisas. Mas eu me lembro nitidamente. Chegava no horário de janta, podia fazer o que tivesse fazendo: parava, ia lá e jantava todo mundo, depois voltava a fazer, assistir uma televisão e tal. Tinha esse momento de estanque que era a família mesmo; de almoço e de janta.

 

P/1 – Na escola, você entrou no time de futebol? Você falou que você jogava bola... Você jogava pela escola?

 

R – Não, na escola eu não tinha, mas eu tinha a moçada ali da rua, dos bairros, da vizinhança. A gente jogava muita bola e praticamente todos os dias eu tinha essa rotina de ir jogar no final da tarde. Vinha da escola e já ia correndo pra jogar bola, era uma rotina. Hoje eu não vejo a molecada jogar bola na rua. Muito pouco.

 

P/1 – Você se lembra das festas que tinha na escola? Nesse primeiro e nesse segundo colégio que você estudou.

 

R – Não. Eu fiz o jardim, mas eu não tenho memórias, não tenho lembranças dessas passagens do jardim. Tenho mais lembrança da primeira série até a oitava, que foi numa escola única, num lugar lá em Araraquara. Lembro-me de festas, coisas infantis. Tem uma passagem muito bacana que eu me lembro, que foi quando fizemos um teatro lá na escola onde a gente imitou a Escolinha do Professor Raimundo, na época do Chico Anysio. Eu me lembro... Nossa! Foi uma coisa super bacana: interpretar, representar. Isso foi uma coisa que a gente curtiu ter feito. A gente tinha os atores ali, então, nossa... Eu adorei. Adorei mas nunca segui, nunca fiz disso uma coisa que eu quisesse buscar, mas foi muito bacana. Eu me lembro dessa passagem. Lembro-me também, tinha algumas brincadeiras ali na escola. Chegava a ter brincadeiras com bola, correria; [o que tinha] mais era o corre-corre, aí chegava suado na sala de aula e a professora punha a gente de castigo. Eu me lembro disso: não podia chegar suado, porque aí ela punha a gente de castigo. Não podia assistir aula. Então era aquele medo – a gente tinha medo dos professores na época.

 

P/1 – Entre os alunos tinha festinhas? Até a oitava série, que vocês estão ficando mais velhos?

 

R – Tinham umas festinhas que a gente fazia... Dança da vassoura, as festinhas de casa, coisas bem infantis, ingênuas. Eu me lembro das músicas, Mike... Simoni, Balão Mágico, essas coisas. Tinham umas brincadeiras que a gente fazia até com intenção de namoro e tudo, mas bem ingênuo; umas coisas bem diferentes. Eram poucas as recordações que a gente tinha.

 

P/1 – E o colegial?

 

R – Quando a gente entrou no colegial, a gente saiu da escola. A gente perdeu alguns laços de amizades de nove anos porque cada um foi buscar o seu colegial, então a gente quebrou ali algumas amizades. Isso foi um pouco complicado porque a gente queria estar junto, aquele grupo que estava há nove anos ali – não era toda a sala, mas eram pessoas que conviviam sempre. Todo ano passava as mesmas pessoas e quando chegou no colegial isso se quebrou um pouco. Então um grupo foi pra um lado, outro grupo foi pra outro, mas uma parte foi pro mesmo lugar que eu estudei, o colégio Duque de Caxias, que tinha o colégio técnico e o colegial normal. Eu acabei fazendo o colegial normal. Cursei o primeiro, o segundo e o terceiro colegial e ali já começou aquela busca, aquela ansiedade da profissão, de saber o que a gente quer fazer da vida. Eu acho muito cedo pra escolher o que a gente quer ser da vida, porque você tem só três anos ali pra definir a entrada ou não na faculdade, então foi muito rápido – eu achei que a coisa voou ali e eu não tinha certeza do que eu queria fazer. Eu recebia algumas orientações do meu pai, ele falava assim: “Faz direito, você presta um concurso público. Faz uma profissão para que você possa, amanhã, trabalhar pra você mesmo – e nunca trabalhar pros outros.” Eu me lembro dessa preocupação, mas eu não fui... Não segui aquilo que ele me indicou, não. Ele queria mais que eu fizesse alguma coisa que pudesse buscar um concurso público. Ele tava pensando nessa preocupação de dar essa tranquilidade, mas eu acabei escolhendo uma coisa que desapontou ele. Me lembro que ele ficou preocupado com isso, que é a comunicação. Ele falou: “Mas o que você vai fazer com isso? Não tem campo. Você vai sair pra outra cidade, estudar numa universidade fora pra fazer alguma coisa que você nem sabe o que é.” Eu me lembro disso, dessa fala dele, mas eu sempre acreditei em mim, sempre busquei aquilo que eu acreditava e adorei fazer o que fiz, que foi relações públicas, que foi comunicação. Depois ele viu que realmente eu ia me achando na vida; então ele ficou mais tranqüilo, porque eu já logo no terceiro ano de faculdade consegui um grande emprego. Eu disputei uma vaga que já tinha gente formada disputando, acabei entrando, conseguindo... Era na Coca-Cola. Já era uma multinacional, então foi a grande escola da vida. Eu já tive essa carreira sendo formada logo no terceiro ano de faculdade; eu nem estava preparado ainda e já tinha uma carteira registrada. Naquela época, eu era um dos poucos alunos na universidade que tava numa multinacional com carteira registrada e empregado. Não era estágio, era emprego.

 

P/1 – Onde foi que você cursou a faculdade?

 

R – Eu cursei na cidade de Bauru, na UNESP (Universidade Estadual Paulista), onde tem a única graduação de comunicação com habilitação em relações públicas. Depois você só vai encontrar isso em algumas particulares e na USP (Universidade de São Paulo), em São Paulo, na ECA (Escola de Comunicação e Artes). Eu acabei fazendo lá.

 

P/1 – Voltando um pouquinho pro colegial, você falou que você tinha esses amigos muito próximos... Como foi essa escolha dentro desse grupo de amigos? Eles te apoiavam? Eles também tinham dúvidas? Depois do colegial tinha uma faculdade de Araraquara ali, ou o destino era esse mesmo de ir pra um outro...

 

R – Tinha uma faculdade ali na cidade, mas do colegial cada um começou a seguir os seus objetivos, ou seja, a gente ali já tava meio que cada um por si, buscando aquilo... Porque, queira ou não queira, você acaba competindo até com aquela pessoa da própria sala, competindo na busca do conhecimento. Às vezes, se você escolhe a mesma profissão, você tem um concorrente ali do seu lado, mas a gente tocou bem até o terceiro colegial. Dali em diante é que a gente realmente se desvencilhou dessa amizade porque cada um foi pra um canto. Algumas pessoas eu nunca mais tive contato; nem sei no que se formou ou o que acabou fazendo. Mas eu não parti direto do colegial para a faculdade. Eu ali tive um momento que foi o Tiro de Guerra. Como eu trabalhava, eu fazia o colegial e trabalhava...

 

P/1 – Onde você trabalhava?

 

R – Então, aí tem uma história que eu queria contar. É uma história, uma passagem da minha vida muito significativa, que acho que me faz estar aqui hoje, no Museu, contando isso. Meu pai sempre preocupado ali com o que vai ser, o que vai fazer... Embora ele sempre fosse super tranqüilo, ele sempre teve um pouco presente nessa participação. Ele carregou eu e o meu irmão para trabalhar com ele naquilo que ele fazia. Meu irmão praticamente acompanhou o meu pai durante toda, toda essa parte profissional; meu irmão fazia administração, e eu ainda no colegial, no primeiro momento, acompanhei o meu pai. Depois, como eu gostava muito de eletrônica, de mexer, de inventar as coisas e tal, meu pai tinha um vizinho muito próximo ali, que é o Seu (Ilton?) – tá vivo até hoje, tá com a gente e tudo, mas era tido como um vizinho ali pro meu pai – e o meu pai sabia de algumas experiências desse Seu (Ilton?), desse senhor, que ele fazia alguns aparelhos de medicina. Meu pai precisou porque teve uma vez que ele teve um problema de coluna e, numa consulta com esse Seu (Ilton?), que era vizinho ali, meu pai praticamente foi curado daquele problema, naquela passagem ali. Aí como eu tava mexendo com aquelas experiências de eletrônica, que eu gostava muito de mexer e de inventar essas coisas – coisa de moleque –, meu pai então indicou pra que eu pudesse ir conhecer esse Seu (Ilton?) e tentar trabalhar com ele. Eu fui pra pedir uma ajuda pra montar um projeto: na verdade, eu queria fazer um semáforo pra maquete. Eu sempre gostei de maquete, de carrinho, de brinquedo e eu queria fazer um semáforo que piscava. Meu pai, então, orientando: “Ó, por que você não procura o Seu (Ilton?)? Ele te ajuda e tal, vai lá. Você gosta dessas coisas, ele faz isso.” Era tido como esse cientista louco, fazia essas coisas e eu fui. Aí fui, conheci o Seu (Ilton?) e o laboratório dele, a oficina dele, fiquei maravilhado. Eu, que era aquela criança que queria fazer os projetos, vi uma pessoa que tinha ali uma oficina pra eu poder fazer um monte de coisas. Eu acabei gostando e comecei a trabalhar com ele ali, então já desvencilhei do meu pai, ficou só o meu irmão, que continuou. Fiquei trabalhando ali com o Seu (Ilton?) e estudava; até o terceiro colegial eu fiz essa jornada. Depois eu não consegui passar direto do terceiro colegial pra faculdade: eu prestei e tive que fazer o Tiro de Guerra, e aí foi uma decepção, porque eu não queria fazer o Tiro de Guerra.

 

P/1 – O que é o Tiro de Guerra?

 

R – Eu tinha que fazer o Tiro de Guerra. Todo adolescente, pré-adolescente, com 18 anos, tinha que prestar...

 

P/1 – Entrar no Exército, você diz?

 

R – É, tinha que prestar o Tiro de Guerra.

 

P/1 – Tá.

 

R – Eu não queria, porque eu queria entrar na faculdade ou continuar trabalhando. Trabalhava já com o Seu (Ilton?) na parte da manhã, mas não teve jeito. Acho que pelo fato de eu discutir ali com o sargento eu fui pego pra fazer o Tiro de Guerra. Eu acabei fazendo e continuei trabalhando e estudando por conta. Nesse primeiro momento eu não fiz o cursinho, então eu fiquei um ano inteiro fazendo o Tiro de Guerra, trabalhando com o Seu (Ilton?), que era esse vizinho lá de casa, de onde a gente morava, e estudando por conta sozinho, à noite.

 

P/1 – Como que foi esse tempo no exército?

 

R – Foi um tempo difícil, porque nós levantávamos de madrugada pra ir até o Tiro de Guerra; saíamos de lá as oito, nove horas, aí eu ia trabalhar. À tarde eu voltava a trabalhar e, à noite, eu estudava por conta. Então ali era uma rotina já... Acho que com 18 anos [é] muito cedo pra você ter uma rotina assim agitada, mas eu tive essa rotina durante o ano inteiro. Nós montávamos aparelhos, vendíamos, enfim, fazíamos toda essa experiência profissional. Chegou o final do ano, eu prestei novamente a faculdade e no primeiro momento não fui chamado. Fui chamado só na terceira lista. Eu já tava... Eu me lembro que mais um ano... Eu já tinha na cabeça que eu não tinha passado no vestibular porque eu não tinha feito cursinho; eu tava era fazendo o Tiro de Guerra e trabalhando. Aí eu entrei no cursinho. Entrei no cursinho e logo nas primeiras semanas eu fui chamado lá, porque uma ligação da UNESP havia me encontrado, que eu tinha sido... Passado na terceira chamada. Eu lembro que eu saí em plena aula do cursinho super contente, dizendo: “Nunca fiz cursinho, não é dessa vez que eu vou fazer.” Aquela ansiedade de ver aquelas pessoas no cursinho, enfrentando aquilo pra poder passar no vestibular e eu sendo chamado. Aí eu fui. Mais uma vez aquela preocupação do meu pai: “Mas o que você vai fazer? Vai fazer comunicação? O que é isso? Você não quer esperar mais um pouco? Eu pago o cursinho pra você, você faz lá, pra você poder fazer um direito, fazer alguma coisa de concurso público.” Falei: “Não, eu quero isso. É isso que eu quero.” Eu fui pra Bauru na loucura. Nessa passagem, logo quando eu passei no vestibular, eu já tive um ano inteiro de trabalho com o Seu (Ilton?) e conheci a neta dele. Foi amor à primeira vista, hoje é a minha atual esposa. Eu fiquei alucinado por ela. Eu nunca fui uma pessoa de relacionamentos, sempre fui ali do trabalho, do dia a dia, de jogar bola, eu nunca... Quando eu a vi, eu a vi por fotografia; não foi nem a pessoa... Foi um amor à primeira vista pela imagem, pela fotografia. Depois eu vim a conhecer e fiquei com aquele amor platônico. Quando eu passei no vestibular, eu falei: “Nossa! Agora eu vou pra Bauru, então eu tenho que ter uma chance de tentar falar com ela pessoalmente, ver se eu consigo namorar ela, né?”.

 

P/1 – Como que é o nome dela?

 

R – Maria Carla. Era Carlos e Carla. Eu escrevi uma carta que eu tinha passado no vestibular, mandei uma carta pra ela, tal e na carta eu peço ela em namoro e tudo. Depois eu fui falar com ela e a gente começou a namorar, mas eu... Mas foi um início de namoro e o início da faculdade. Eu fiquei fora. Namorando, mas vindo todo final de semana. Eu confesso também que a minha relação na faculdade foi uma relação super disciplinar, não era aquela coisa louca de “agora eu tenho independência, vou pras festas” porque eu já tinha ali um compromisso com ela; eu passei quatro anos assim, namorando. Quando eu voltei da faculdade acabei noivando, acabei casando com ela. Eu lembro de algumas passagens da faculdade, dessa fase minha, que foram super significativas. Eu vinha todo final de semana, eu viajava todo final de semana pra poder vê-la, aí eu chegava em casa e eu nem via os meus pais, porque eu já queria namorar com ela, eu já queria sair com ela. Eu tive esses quatro anos assim, nesse vai e vem. O nosso relacionamento também foi algumas vezes, voltou algumas vezes. Eu me lembro de todo final de semana voltar, sempre pegar carona, carona na placa, na estrada, carona no dedo e aí chegava em Araraquara, eu podia passar aquele final de semana ali com ela, porque ela morava com o avô. Ela também foi pra Araraquara pra estudar, e ali que a gente... Eu trabalhando com o avô acabei conhecendo ela. Era uma relação muito bonita, uma relação muito boa e desse amor aí nasceu... Nós tivemos um casamento, e aí nasceram duas meninas, que hoje são a Maria Laura e a Maria Luísa. São duas jóias que eu tenho hoje, são lindas e a gente tem uma família muito bonita. Amanhã ela completa mais um aniversário, a minha esposa. Também é o motivo de eu estar aqui, registrando, pra dizer pra ela o quanto que eu amo ela e dizer pra ela toda a felicidade do mundo. Porque a gente esteve passando por várias situações difíceis, como toda família. Primeiro, a morte do meu pai – acho que foi uma situação que a gente vai levar pro resto da vida, toda a nossa família –, porque meu pai morreu tragicamente. Morreu aí por uma situação trágica nos braços da minha mãe, da minha irmã. Eu não estava presente naquela cena, mas isso me pegou muito; isso desmoronou um pouco a nossa família. Desmoronou por um lado do acontecimento, mas por outro lado, no primeiro momento, nos uniu mais ainda. Não éramos tão unidos assim. Eu passei uma fase complicada com o meu irmão. Nós passamos uma fase de não se conversar. Enquanto eu tava nesse período de faculdade, eu não conversava com ele. A gente não se falava, que a gente brigava muito.

 

P/1 – Em que momento o seu pai morreu?

 

R – Meu pai morreu no momento em que eu já tava formado. Eu tava casado, fui o primeiro filho a casar, ele esteve no meu casamento e tudo. Um ano depois de eu casar ele acabou tragicamente morrendo. Eu me lembro que foi um mês depois do atentado terrorista do World Trade Center, que foi o maior atentado da história da humanidade. Eu me lembro dessa passagem, então... Foi em 2001, foi em novembro de 2001, logo próximo ao aniversário dele.

 

P/1 – Mas foi repentino? Ou ele já vinha doente?

 

R – Não, foi repentino. Foi um assassinato, foi um assalto ali em casa – aquela confusão toda, ele acabou perdendo a vida. Isso foi muito difícil pra nós, pra minha mãe. A gente reestruturar a família, repensar as coisas. Começar a vida de novo. Isso acabou transfigurando eu acho que a nossa emoção. Então a gente acabou... Eu tive muito bloqueio, assim. Isso foi dificultoso, pra minha esposa foi muito difícil a gente ter que passar por tudo isso. Foi um momento difícil pra ela, eu tenho certeza disso. Pra minha mãe, pra minha irmã, pra todos nós – pra família toda foi um momento difícil, trágico. Mas a gente... Pro meu avô... O que eu mais senti nisso tudo foi a consequência do meu... A situação do meu avô. Meu avô não se conformava pela perda, ele queria se vingar; ele não acreditava que aquilo tava acontecendo, que aquilo tinha acontecido ali. Então ele praticamente se entregou na tristeza. A minha avó, lógico, tentando segurar as pontas. Teve até um problema de câncer que somatizou e foi duro pra ela, ela ficou na depressão... Mas meu avô praticamente se entregou, mesmo. Interessante que a morte dos dois foi uma morte natural. Aquela questão de dormir, sem sofrimento. A gente acredita que eles se encontraram do lado de lá.

 

P/1 – Seus avós?

 

R – Meus avós e com o meu pai junto. Porque o meu avô dormiu e morreu, e a minha vó a mesma coisa. A gente brinca que se a gente quer morrer... Como é que a gente quer morrer? Acho que a gente quer morrer assim, dormindo, não acordando mais. Se é que a gente pode querer a morte de algum jeito (risos). O fato é que a minha avó, com o berço espírita, conseguiu passar pra nós muita lição, muita experiência, muita vocação, então a gente soube encarar os fatos; pelo menos, a gente acredita que a gente soube encarar os fatos. A gente tem um outro lado de olhar as coisas. A gente tentou... Eu me baseei nisso pra superar esses fatos difíceis da vida. Deus contemplou a gente com pelo menos o nascimento das minhas filhas, o nascimento do filho do meu irmão, também, que pra ele a gente sabe que foi uma felicidade grande. Eu acho que esse momento é um momento importante de registro.

 

P/1 – Voltando pra um pouco antes desse período, lembra um pouco pra mim como foi o seu casamento, o dia do seu casamento, a festa. Como que a sua esposa estava, nervosa? E você?

 

R – Eu acho que eu tava mais nervoso do que ela. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Primeiro porque eu sempre a amei muito, eu sempre a tive como uma pessoa que eu queria muito, uma coisa enlouquecida. Eu busquei muito ela, sempre amei mesmo ela – e o casamento ali, aquela cena do casamento, pra mim, me marcou bastante. Primeiro, toda a nossa família. Eu fiz questão da festa, a gente fez uma festa maravilhosa. Eu acho que eu não me lembro de ter ido a casamentos como o nosso. Não porque tenha sido o nosso, [mas] porque nós cuidamos de todos os detalhes. Desde a música que fosse tocar, que era a música nossa, a música que a gente namorou; a gente lembrava da gente mesmo. Desde a música, desde os convidados. Fizemos questão de todos os convidados. Quem a gente podia convidar de família, a gente foi de casa em casa. Por ela ter uma parte da família numa outra cidade, que é Catanduva, eles foram de van, foi um momento muito alegre. A gente tem o vídeo, a gente tem a fita. O padre que a gente... Que ela tem um carinho, então foram palavras maravilhosas; os cumprimentos. Foi uma festa muito bonita. Da cerimônia religiosa a gente foi pra festa, um verdadeiro banquete, que eu olho o filme e eu acho que nunca mais nós vamos conseguir fazer aquilo, porque era um hotel maravilhoso, com um salão maravilhoso e uma cozinha maravilhosa. Teve muita coisa, muita comida – graças a Deus, a gente conseguiu dar um presente pra todo mundo, que era um presente pra gente mesmo, conseguir contentar todos os convidados. Só que é assim, aquela coisa que marca a gente: nós não pudemos viajar, até por conta da própria festa – ou a gente viajava ou a gente fazia a festa. Então a gente optou pela festa. Nós casamos na sexta e na segunda-feira a gente tava trabalhando. Não tivemos a lua de mel, mas depois ela veio; porque quando eu consegui bater as metas daquela profissão que eu exercia numa multinacional consegui, como presente, uma grande viagem de avião com tudo pago, uma semana. Então eu falava pra ela: “Bom, essa aqui é a nossa lua de mel. Agora que nós vamos fazer a lua de mel.” Então a gente pôde viajar, nós curtimos bastante. Planejamos antes de ter a primeira filha, o primeiro filho, então a gente viajou bastante, conheceu lugares. Eu acho que a gente conseguiu fazer aquilo que foi tudo planejado, pensado, sem que a gente pudesse sofrer com tudo isso. Muito pelo contrário, a gente curtiu muita coisa.

 

P/1 – Vocês se mudaram pra uma casa em Araraquara mesmo?

 

R – Isso. Meu pai, que foi uma pessoa que sempre planejou muito a vida – eu acho que isso eu peguei dele –, uma pessoa sempre muito preocupada com as coisas, com as contas, com a administração dos negócios, também... Eu acho que era uma época muito difícil de conquistar as coisas, bem diferente de hoje. Com a ajuda dele a gente conseguiu ter uma casa própria. Ele conseguiu construir algumas coisas, uma das coisas era doar uma casa pra cada filho, e isso ele fez. A gente hoje tem o que tem e eu devo muito a ele e à minha mãe também, que abriu muita coisa, que acompanhou tudo isso. Ele não faria o que fez se não fosse pela minha mãe. É isso. Hoje a gente tá na casa que eu tenho o maior carinho – uma casa maravilhosa, linda, que a gente também acabou. Uma casa que a gente pegou na fase da construção, mas era aquele lugar... Quando a gente bateu, eu e minha esposa, o olho naquela casa: “Eu acho que é aqui que a gente vai ficar. E aqui a gente vai construir a história.” E nós estamos lá até hoje.

 

P/1 – Como era essa rotina inicial de casamento? Começar a morar junto, trabalhar...

 

R – Eu me lembro de que a minha esposa, preocupada em querer ser dona de casa, no sentido de cumprir ali o papel de casa, foi fazer lá a primeira comida, o jantar lá. Eu fui chegar não sei que horas lá, estava frio e ela já estava dormindo. Aquilo foi uma decepção pra ela, porque ela fez com todo carinho, com todo amor e eu, no anseio de sempre trabalhar e voltar, voltar fora do horário que se espera voltar... Porque a gente trabalhava e não tinha hora pra trabalhar, eu voltei e aquela decepção de ela ter ficado esperando, esperando, esperando e desistido da minha volta. A gente já pegou nessa vida de casado, essa rotina atual. Eu acho que isso é um pouco prejudicial. Acho que a gente não se dá conta da família, do crescimento dos filhos. A gente não se dá conta, às vezes, de um olhar; se deixar levar por isso, a gente perde muita coisa. Porque já entramos nessa fase da informação, da interatividade, da eletrônica, da internet, então hoje trabalhamos muito mais por muito menos tempo, porque a velocidade informacional nos faz correr cada vez mais. É preocupante estar sempre buscando essa volta, e é um pouco difícil isso.

 

P/1 – Ela já trabalhava também?

 

R – Já trabalhava, ela sempre trabalhou.

 

P/1 – O que ela faz?

 

R – Eu me lembro de que, nessa fase da construção da casa, tudo o que a gente tinha era voltado pra construir esse nosso lar. Então a gente não tinha carro, a gente pegava carona, ela ia com as amigas dela e eu ia com os meus amigos. Era uma coisa de recém-casados, mas ela sempre soube entender que é um passo a cada dia e uma conquista a cada esforço.

 

P/1 – O que ela fazia?

 

R – Ela sempre foi professora.

 

P/1 – Ah, ela foi professora?

 

R – É, e eu nunca fui.

 

P/1 – (risos)

 

R – Na verdade, depois eu fui ser professor. Hoje, dia 19, nós estamos aqui registrando um período super importante da minha vida, que eu venho com uma apresentação de banca de mestrado – eu acabo de ser aprovado como mestre em comunicação e cultura midiática pela UNIP (Universidade Paulista), que é a casa onde eu trabalho hoje. Eu tenho o maior carinho, o maior respeito, o maior orgulho de ter feito mestrado na casa em que hoje eu posso contribuir e devolver um pouco daquilo que eu recebi. Mas tem uma passagem que me bate na cabeça, que é essa passagem de faculdade, que eu fui namorar com ela e ao mesmo tempo eu tava longe. Ela ali naquele “como é que é esse namoro que você vai ficar uma semana sem ver e vai ver só de final de semana?”, sendo uma pessoa que você nunca tinha em mente em namorar – por parte dela, porque da minha parte eu sempre tive intenção de namorá-la. Eu me lembro de uma passagem, que tinha um professor... Todos ali da sala já sabiam que eu namorava, porque todo mundo ia pras festas de faculdade, as grandes festas de faculdade, e eu já não ia. Não tinha graça pra mim. Eu a tinha lá em Araraquara. Então eu me lembro de uma passagem que, já trabalhando lá na multinacional, na Coca-Cola, eu inventei de fazer uma visita à Coca-Cola. Como a Coca-Cola e a Kaiser eram duas empresas parceiras, a Coca-Cola oferecia visitas aos estudantes, aos empresários e à sociedade como uma atividade de relações públicas, pra vender a imagem positiva do produto dela no mercado. Não só a Coca fazia isso, mas a Kaiser fazia isso também, e Araraquara tinha fábrica da Kaiser. Mais do que nunca, eu tive lá um esforço danado de inventar uma visita às Cervejarias Kaiser, através da turma de relações públicas, mas eu funcionário, pra poder ir até Araraquara e vê-la. Fiz isso. Depois o pessoal descobriu que esse era o grande motivo de eu ir pra Araraquara, numa visita à noite, pra poder encontrar com ela lá. Como todo mundo sabia que eu já namorava todo mundo queria conhecer quem era essa pessoa, porque eu não ia nas festas, eu não acompanhava a turma. A turma fazia os encontros e eu não ia, eu nunca aparecia. Eu só ia pra aula.  Eu já trabalhava, também; eu tinha uma rotina de trabalho. Quantas vezes foram aquelas que eu cheguei à sala de aula com o uniforme da Coca-Cola, trabalhando. E quantas vezes foram aquelas que o professor falou A e eu falei B, porque o mercado era diferente daquilo que eles teorizavam. A gente trocava muita experiência. Eu era já muito respeitado pela profissão que eu tinha ali, naquele momento. Quer dizer, eu tava fazendo uma carreira profissional, uma carreira ímpar, ali: eu tinha a teoria pela faculdade, por uma UNESP, que tinha um peso; e uma Coca-Cola, que era uma empresa, uma iniciativa privada. As duas coisas pra mim já eram de peso. A gente combinou, então, de visitar as Cervejarias Kaiser, e aí toda a turma ali já sabendo do grande acontecimento que, na verdade, era o encontro, e não a visita à cervejaria. Mas todo mundo queria conhecer o chão de fábrica e tal. Eu me lembro do pessoal entrar no ônibus e fazer aquela farra, e eu comandando ali: “Olha, nós vamos pra visita, fui eu que agendei porque é a empresa onde eu trabalho.” Aí eu liguei pra minha mãe e falei: “Olha, você pega a Carla, leva ela lá na fábrica que eu vou chegar com o ônibus e com a turma lá. Vocês vão me acompanhar lá na visita, assim eu olho você; visito a fábrica, mas tenho uma oportunidade de ver você um pouco.” Porque a saudade de uma semana é muito grande naquela fase de namoro. Quando essa turma chegou à fábrica, o professor, que foi o primeiro a sair do ônibus com um buquê de flores pra entregar pra ela; o pessoal tocando música, fazendo serenata. A turma inteira foi a favor daquele encontro que foi um verdadeiro, assim... Eu nunca mais me esqueço dessa imagem. Foi platônico mesmo. Visitamos a fábrica e, quando nós fomos fazer a volta – que a minha mãe e a minha esposa ficaram, e eu voltei com a turma – foi feita uma serenata no ônibus. Foi batida uma foto inesperada, de uma pessoa, de uma menina que fazia as aulas comigo, depois ela me deu a foto, mas a foto foi tão espontânea e tão bonito o enquadramento da foto que talvez a gente... Em minha opinião é a foto mais bonita que eu tenho hoje com ela. O rapaz tocando violão no fundo, ela olhando pra mim, eu olhando pra ela, uma coisa linda. A gente fez um quadro, fizemos... A foto tá no celular, é a foto de estampa do celular, a gente faz dessa foto aí uma... É uma passagem muito bacana, um registro muito bacana. Depois de seis anos de casado, a gente resolveu ter filho e recebeu um presente de Deus, que foi a Maria Luiza. A Malu, como a gente a chama hoje, que é uma graça, uma menina inteligentíssima, uma pessoa assim... Uma criança que só traz alegria pra gente.

 

P/1 – E como foi essa experiência de ser pai? O dia do nascimento?

 

R – Eu fui filmar, né?

 

P/1 – (risos)

 

R – Eu fui filmar, ser pai coruja. Eu fiquei com medo dela ali, na sala da operação; a gente sempre fica com aquela angústia de fazer cesárea. Os médicos eram nossos amigos, o ambiente era muito propício, a nossa família tava ali muito presente, mas eu tava naquela angústia, naquela ansiedade. Eu tava ali... Um pouco daquele nervosismo como pai. Quando vem a criança a gente se solta. Eu filmei, registrei, batemos foto, foi um momento muito bacana. Toda oportunidade, seja oportunidade do nascimento desta minha filha, do aniversário, do Natal, sempre me vem à mente o meu pai. Eu espero que ele consiga ter registrado todos esses momentos junto com a gente, de alguma forma; eu tenho certeza disso. Depois, minha esposa queria ter um segundo: uma segunda filha, um segundo filho, enfim... Eu queria esperar um pouco mais, mas ela já queria ter – até pra que uma fizesse companhia pra outra e a gente pudesse terminar essa missão de ser pai e mãe. E aí um ano e pouquinho depois a gente veio a ter a Laurinha, que é a Maria Laura, que hoje tá com um ano e quatro meses, tá uma graça... As duas ali... Uma brinca com a outra, uma dá risada com a outra, então a gente se contamina com tudo isso. Eu acho que isso também foi um presente pra minha mãe, porque não é fácil, depois de ela conviver sem o meu pai durante todo esse tempo, morar sozinha... Porque cada filho casou e foi viver a sua história, sua vida; embora a gente acabe se encontrando, mas... Eu sempre tenho um pouco de preocupação, como é que é à noite ela dormir numa cama ali, sozinha? Esse momento de se recolher e de dormir, eu acho que é muito triste pra ela. Por mais que você tenha um dia agitado, um dia de neto, um dia daquela movimentação, eu acho que quando você se resguarda... Eu acho que tem sido muito difícil todas as noites pra ela – eu tenho certeza disso, embora ela nunca tenha falado... Pela ausência do meu pai, né? Agora tem uma passagem importante, que eu queria registrar, que é com essa perda do meu pai, duas situações eu busquei... A primeira situação é que mesmo quando meu pai estava entre a gente, eu sempre segui esse caminho espírita da minha avó paterna. Embora eu conhecesse situações da minha avó materna que foram pra mim inesperadas, de ela dizer pra nós, porque a gente não conversava sobre isso, mas dizer pra nós que ela acredita, que ela... Que realmente são situações que ela... Ela gosta, ela acredita. Isso me espantou... Mas minha avó paterna nasceu em berço espírita, criou meu pai e meu outro tio, filho dela, espírita; nós seguimos essa linha. Já frequentávamos os centros espíritas em Araraquara, então a gente... Eu fui muito de ajudar uma família, ajudar outra, ajudava com alimento e tal... Até que eu conheci um pessoal, amigos, e montamos uma videoteca, que foi o maior acervo audiovisual espírita do Brasil. Nós chegamos a ter quase 900 títulos de palestras, conferências, seminários, debates e mesas redondas de temáticas espíritas de vários assuntos: de morte, de espírito, de manifestação, de psicografia, de pinturas mediúnicas, coisas maravilhosas que eu tive contato ainda na faculdade, quando eu fui pra Bauru. Lá que foi... Eu conheci o grande acervo espírita que depois me incentivou a seguir essa linha. Nós montamos a videoteca. Eu coordenei esse grupo, e um dos integrantes desse grupo tinha um trabalho, já há muitos anos, em Araraquara, que era ajudar as famílias carentes. Ele, já na década de 80, alimentava famílias que se alimentavam do lixo a céu aberto da cidade. Isso eu vim a saber muito depois. Ele cuidava de umas famílias numa favela e fazia visitas nas casas pra entregar cesta, pão, sopa. Eu tomei conhecimento disso, me sensibilizei, fui conhecer essa favela numa das viagens e naquele momento mudei completamente minha postura de enxergar o mundo, de enxergar a vida. Eu comecei a ajudar ele, montamos um grupo e eu vim a ser o primeiro presidente desse grupo. Presidente só como figura, porque eles que faziam o trabalho, a gente só ajudava. Eu estou nesse grupo até hoje – são oito anos de trabalho voluntário. Grupo Assistencial Espírita Jerônimo Mendonça, em homenagem a Jerônimo Mendonça, que era uma figura tetraplégica, cega, com todas as dores físicas que uma só pessoa pudesse reunir. Eu acho que não teve nenhuma, na história... Nenhuma personalidade assim, que ficava na fila, em Uberaba, pra falar com as pessoas que procuravam por Chico Xavier por conta de ter perdido entes queridos. As pessoas iam em busca de Chico Xavier, de psicografia, de alguma notícia de alguém próximo e nessa fila encontravam Jerônimo Mendonça, que era uma pessoa que ficava deitado numa cama com um saco de areia no peito, diante de tanta dor, cego; só mexia o olho e a boca, mas falava coisas maravilhosas. As pessoas recebiam ali verdadeiras bênçãos de palavras, de conforto espiritual. A homenagem do grupo foi por conta desse trabalho. Nós montamos esse grupo e hoje temos oito anos de trabalho – completados agora nesse mês de setembro –, de ajuda voluntária, de entrega de cestas, de entrega de alimentos, de entrega de roupa, remédio, mobília. Tudo o que a gente pode fazer a gente faz. O fato curioso é que hoje nós estamos construindo um centro pra atender melhor essas famílias, construindo uma casa da sopa, construindo uma sala de aula pra dar educação pra essas crianças, construindo um consultório dentário, construindo uma sala médica. Eu quero dizer que eu faço isso com todo empenho e com todo o esforço em homenagem ao meu pai, em homenagem a minha avó, que me ensinaram tudo isso: a ser um pouco mais humano perante aqueles que têm menos condições de vida. Eu tenho isso com muito carinho, essa missão de vida. Eu tenho certeza que eles lá vão ficar muito mais felizes a partir do momento em que continuássemos a fazer pro próximo aquilo que gostaríamos que fizessem pra nós mesmos. Eu acho que essa é a grande lição de vida. Essa passagem que eu queria registrar é uma passagem que eu fui em busca de um contato com o meu pai já no plano espiritual, depois de ele ter falecido. Nós fomos a Uberaba, mas o Chico já não tava mais, já tinha desencarnado; o Carlos Baccelli, que é o precursor do trabalho dele, continua fazendo as suas psicografias. Lembro-me que fomos eu, minha esposa e esse nosso amigo Roberto Carvalho, que nos levou até lá, e lá eu recebi sim uma mensagem do meu pai; uma mensagem psicografada, que veio nos confortar diante de toda essa situação trágica que aconteceu com a gente. Isso nos ajudou a vencer esse obstáculo da perda, do jeito que a gente perdeu. Uma perda repentina, uma perda sem sentido, uma perda que não tem respostas pra gente; mas a gente se conforta quando a gente tem esse outro olhar. Isso foi pra nossa família um tripé, um esteio que nos segurou pra enfrentar as dificuldades e a ausência, que é o que mais nos entristece. Eu consegui uma psicografia e tive muita vontade de voltar outras vezes, mas o dia a dia não nos permite. Acho que agora, depois de alcançar o mestrado, que eu entro numa fase de alívio, de mais tranquilidade, eu tenho vontade de voltar e de me comunicar com ele, de dizer o quanto ele foi importante pra nossa vida. Isso que ele deixou de missão eu tenho buscado cumprir; do exemplo dele, do caráter que ele traduziu pra mim, pro meu irmão, pra minha irmã, pra minha mãe, pra toda a nossa família. Eu quero deixar pras minhas filhas esse registro, junto com a minha esposa.

 

P/1 – Você continua trabalhando na Coca-Cola?

 

R – Não. Depois de eu ter trabalhado na Coca eu fui pra um concorrente, que era a AmBev, que na época era a Companhia Cervejaria Brahma. Eu fiquei lá durante cinco anos. Consegui, graças a Deus, desenvolver um ótimo trabalho – fui reconhecido lá dentro, fui promovido e tido como o melhor supervisor do interior de São Paulo. Ganhei prêmios que foi esse pacote de viagem, a minha grande lua de mel com a minha esposa. Ganhei participação de lucro que, quando eu fui olhar, eu achava que alguma coisa tinha acontecido de errado. Eu falei: “Eu acho que vou ter que devolver tudo isso daí, porque não é meu.” Mas a companhia era ótima e sempre foi uma grande empresa – tinha uma política de remuneração que compensava tudo aquilo que ela nos sugava em termos de execução de trabalho. Pela empresa, consegui ser visto como uma pessoa que era chamada pra dar palestras, pra dar seminários em nome da empresa, em nome das marcas. Eu fazia com todo o prazer, com toda a vontade do mundo. Fui ganhando gosto pela coisa e fui me interessando em passar o conhecimento, em trocar experiência com as pessoas, explicar pra elas como é que funcionava a multinacional ali no mercado, até que falei pra mim mesmo que eu gostaria de seguir essa carreira. Fui em busca de ser professor. Em 2004 eu tive minha primeira experiência em sala de aula. Eu me lembro de ter entrado na sala de aula e as pessoas procurando: “Cadê o professor?” Eu também: “Não sei, gente, eu também tô buscando o professor.” Mas ali a gente começou. Graças a Deus eu fui muito bem avaliado – em seis meses de aula fui convidado a vir pra graduação. Eu comecei na gestão tecnológica, cursos de dois anos, cursos superiores de menor duração. Não é nem seis meses, mas quatro meses de aula e fui convidado a vir pra graduação. Fui pra graduação, já virei coordenador do curso. Tive uma oportunidade única e virei coordenador. Graças a Deus eu tive um bom desempenho, acredito eu. Aí fui buscar um atraso profissional que eu nunca busquei, porque nunca tinha essa meta como uma meta profissional. Mas eu confesso aqui que eu já tinha MBA, já tinha especialização, já tinha duas pós-graduações e aí eu tive que iniciar o mestrado. Esse início do mestrado é que foi um pouco complicado – não no início, porque no início ainda as coisas estão acontecendo, mas eu acho que do meio pro término foi um pouco complicado. Tive que me ausentar um pouco da presença da minha família, da minha esposa. Eu devo essa conquista a ela, a essa compreensão que ela cedeu – sabe da dificuldade. Muito difícil pra mim não poder brincar com as minhas filhas por conta de ter que ler, estudar, me concentrar, me retirar, aproveitar os poucos momentos que eu tenho no dia a dia pra me dedicar a um trabalho tão dificultoso que é teorizar uma dissertação. Eu comecei em 2006 pela UNESP, depois eu transferi pra UNIP, porque eu ganhei uma bolsa, um convite da universidade, um incentivo pra ser um mestre da própria casa. Eu acho que é importante pra instituição, já que eu era coordenador e professor. E de 2007 até a data de hoje, 19 de agosto de 2008, eu finalizo uma etapa que foi árdua, que foi difícil; que eu tive que abrir mão de praticamente todos os finais de semana, me dedicando a escrever. Muitas madrugadas. Quantas vezes eu dormi em cima do livro. Quantas vezes eu li sem entender o que eu tava lendo porque já me faltavam as forças, me faltava a concentração... O cansaço, tive que retomar as leituras, mas digo que compensou, que compensa. Eu acho que tem muito fruto ainda pra colher disso. Eu tenho certeza disso. O fruto é tentar devolver pra minha família uma tranquilidade pra que eu possa estar mais perto delas com mais tranquilidade, seja profissional, seja como pessoa. Então, eu queria agradecer a compreensão da minha esposa e essa ausência enquanto pai, enquanto marido. Isso eu faço questão de registrar em audiovisual, assim como eu já registrei na dedicatória do trabalho – eu dedico a elas a importância desse objetivo cumprido –, porque foi muito importante pra mim.

 

P/1 – Você pretende continuar como professor agora?

 

R – Eu acho que agora as coisas tomaram um rumo, mas eu tenho a consciência de que eu posso tranqüilizar um pouco mais a situação. Eu posso diminuir algumas investidas. Não que a gente vá parar – porque eu acho que a gente nunca para de ter o conhecimento, de buscar o conhecimento e de aprender com ele –, mas acho que se formou ali um caminho. Hoje ela é professora, eu sou professor, minha irmã é professora, minha cunhada é professora, nós ficamos ali numa teia de professores; mas confesso que nunca tive isso na cabeça, de ser professor. Embora eu ache uma das profissões mais dignas, mais respeitadas, enfim... Menos valorizadas hoje, pelo valor que tem a profissão.

 

P/1 – Eu já visitei Araraquara uma vez, mas você que mora lá há tempo... Você vê a diferença de quando você era pequeno lá e de agora, morando com a sua família?

 

R – Araraquara é uma cidade linda, maravilhosa. Cidade como qualquer cidade do interior em alguns aspectos – como o trânsito, que flui diferentemente de São Paulo. Inclusive, minha dissertação é sobre a problemática de São Paulo na questão da poluição visual. Lá você não tem isso, esse trânsito maluco, essa exploração comercial publicitária na paisagem urbana, uma violência com tamanho volume; mas uma cidade que cresceu, também. Uma cidade que não é aquela Araraquara que a gente viveu na infância – hoje você tem violência, você tem hoje algumas situações que diferem um pouco do início, pelo menos da minha infância que eu lembro. Mas uma cidade que ainda consegue manter alguns modelos invejáveis pra qualquer cidade do mundo – por exemplo, uma das cidades mais arborizadas do Brasil. Tem um índice de metro quadrado de área verde por habitante extremamente acima dos índices orientados pela Organização Mundial da Saúde, por exemplo. É uma cidade que chega a atingir índices de asfalto, de iluminação pública e de urbanização que é modelo pra qualquer cidade e se compara a cidades européias. Uma cidade que não tem favela, você não vê pobreza. Uma cidade com alto índice de renda per capita. Você vê situações nítidas de diferenças socioeconômicas, mas você não vê, por exemplo, lixo a céu aberto, você não vê sujeira, você não vê pobreza – é bem acentuada –, você não vê favelas. Uma cidade que viveu, por várias décadas, o transporte servido pela eletricidade através dos trólebus. Somente quatro cidades eram servidas com trólebus. Mas Araraquara só era servida com trólebus, então ela ficou sendo ímpar nesse aspecto. Você tinha Recife, São Paulo, Araraquara e Santos como as quatro primeiras cidades a ter o trólebus. Você tem hoje lá a UNESP, nasceu em Araraquara. Você tem uma produção artística e cultural que é referência pro Brasil. Você tem grandes personalidades. Recentemente, a morte de Ruth Cardoso, ela é nascida em Araraquara, é uma araraquarense, esposa do Fernando Henrique Cardoso. Você tem o Celso Martinez Corrêa, que é ícone no teatro; o Ernesto Lia, que é ícone na pintura, reconhecido até internacionalmente, muito mais do que no próprio Brasil. Você tem grande produção cultural, uma cidade que preserva um pouco suas raízes. Acho que Araraquara é A-Ra-Ra-Qua-Ra, a morada do sol, em tupi-guarani. Uma cidade quente. (risos)

 

P/1 – Tem mais algum caso que você queira contar da sua história? Alguma história engraçada que você deixou passar?

 

R – (risos) Não, eu acho que consegui registrar os principais momentos, os pontos que me marcaram bastante como, por exemplo, a história do Sheik, que é um cachorro que meu pai comprou desde quando a gente era pequeno, ele veio pequenininho. Comprou ali pra nós: eu, minha irmã, meu irmão e minha mãe; e meu pai sempre gostou de cachorro, sempre teve. Lembro-me que o meu primeiro cachorro, que era o Tabu, o Perdigueiro, eu pendurava prendedor na orelha dele, então ele batia e tudo. Minha mãe conta essa história, eu me lembro um pouco dessas imagens de judiar do cachorro. Era um cachorro Perdigueiro que caçava com o meu pai e por isso a gente adquiriu um Cocker Spaniel, que tinha as orelhas caídas. Isso me faz lembrar essa brincadeira toda aí com o cachorro. Era um cachorro assim... O Cocker é muito dócil e apegado à gente. Lembro-me que ele dormia dentro de casa e minha mãe e meu pai queriam que ele dormisse fora de casa. Eu protegia, eu queria que... “Não, olha, deixa ele dormir dentro”, mas ele fazia anarquias, sujeira e aquela bagunça toda. Ele só conseguiu dormir fora de casa quando eu fiz uma viagem a São Paulo, na casa do meu tio. Quando eu voltei ele já estava dormindo fora. Eles conseguiram doutrinar até por esse afastamento, porque eu que brincava mais, eu que curtia mais o cachorro ali. Esse cachorro sempre me acompanhou. Eu jogava bolinha de tênis com ele, ele pegava. Nossa! Era uma farra com esse cachorro. Eu gostava mesmo – passeava com ele, dava banho e tudo mais. Quando meu pai morreu minha mãe teve que sair da casa, foi morar no apartamento – um lugar mais seguro –, e eu trouxe o cachorro comigo. Esse cachorro ainda conviveu comigo alguns anos e morreu de velhice. Morreu... A gente calcula aí uns 17 anos de vida, que é um período longo pra um cachorro. Também foi difícil ele se adaptar em casa, porque ele sentiu um pouco esse outro ambiente também, ele teve essa... Ele latia muito, ele não se acostumava. Eu lembro que ele nunca me mordeu, ele sempre me respeitava. Ele mordia até as outras pessoas –  chegava a morder meu pai, por exemplo. Quando meu pai se aproximava de mim ele tinha ciúmes, rosnava. O meu pai ainda ficava bravo que ele rosnava, queria bater nele. Meu pai não aceitava isso, mas entendia que era por essa aproximação –  porque eu protegia muito, ele tinha essa identificação comigo. Quando a gente mudou pra essa casa, que eu casei e fui morar – a casa que meu pai ajudou a gente a ter – eu lembro que ele teve dificuldade de se habituar. Nessa tentativa de bater nele para parar de latir ele me mordeu. Ele fez uma mordida que eu tenho uma cicatriz hoje, que eu levo como uma marca: não vou me esquecer dele nunca mais. Ele veio a morrer de velhice e não abri mão – o peguei na clínica e eu mesmo fui enterrá-lo perto de casa, porque era considerado um ente da família. Era alguém muito próximo da gente.

 

P/1 – Tem mais alguma história que você queira recordar aqui?

 

R – Não, Mariana; acho que eu consegui registrar. É muito difícil falar da gente, mas acho que eu consegui... São momentos bem pontuais. O momento da minha infância, das brincadeiras com os meus amigos, com a vizinhança – eu tinha isso muito forte. O momento do meu pai, da minha mãe, das viagens que a gente fazia pro litoral. O momento... Eu dou um salto porque aí eu chego, é um registro muito forte – o momento do meu namoro com minha esposa. Isso foi muito presente. O momento da faculdade, o momento do casamento, o momento da perda do meu pai e do nascimento das minhas filhas. Acho que é isso. Ah, e o momento da...

 

P/1 – Hoje.

 

R – O momento, hoje, da banca, do mestrado que eu concluo hoje; como uma etapa que eu consegui vencer com todas as dificuldades que eu tive.

 

P/1 – Legal. Você gostou de dar o depoimento?

 

R – Eu gostei muito. Eu queria que esse depoimento, um dia, pudesse ser visto por minhas próprias filhas. Eu deixo pra elas esse conteúdo. Não digo pra minha esposa porque a minha esposa conviveu tudo isso comigo, grande parte. Ela é a história viva. Mas às minhas filhas, que estão nascendo agora... Às vezes a gente não tem oportunidade de conhecer as histórias dos pais.  Eu não tive oportunidade de conhecer as histórias do meu pai e nem da minha mãe; então eu tenho dificuldade de saber o que eles fizeram na vida. A gente não tem muito esse hábito. Eu acho que o trabalho do Museu da Pessoa agrega nesse sentido de aproximar as pessoas, de você buscar histórias de vida – a sua vida faz parte da história da vida dos seus antecedentes. Então é isso. Espero que a minha filha mais velha e a minha filha mais nova possam enxergar esse depoimento como uma diretriz pra elas, que elas entendam o que foi a mãe delas e o que foi o pai delas.

 

P/1 – Tá ok, tá ótimo.

 

R – Então tá bom. Você vê que eu consegui não chorar...

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