Busca avançada



Criar

História

Um mineiro cheio de histórias

História de: José Luiz Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2014

Sinopse

Em seu depoimento, José Dias lembra sua infância na região de Córrego Seco, município de Mutum, Minas Gerais. Fala da casa de infância, das brincadeiras e de como o pai se tornou uma figura respeitada na região. Recorda os acontecimentos que levaram o pai a se matar ingerindo formicida.  Conta como casou aos 25 anos e constituiu família em Mutum, decidindo migrar para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Em São Paulo, trabalhou em várias empresas e criou sua família de 9 filhos. Finaliza falando sobre a sua cegueira, originada por um glaucoma não curado.

Tags

História completa

Meu nome é José Luiz Dias, eu nasci dia 5 de junho de 1935, mas os funcionários públicos errarem. Quando eu fui pegar a minha aposentadoria por idade é que achamos aquela diferença. No documento está 5 de julho de 1935, mas o nascimento mesmo é 5 de junho. Eu nasci lá no Córrego Seco, no Distrito de Centenário, município de Mutum, MG. Fica lá na zona de Governador Valadares, já divisando com o Espírito Santo, à esquerda, na Estrada Vitória-Minas. Meus pais são de Santa Isabel do Rio Preto, estado do Rio. O nome do meu pai era Manuel Luiz Dias e minha mãe, Maria Neves Dias. Esse pessoal veio da zona norte do estado do Rio pra nossa zona lá. Quando eles começaram era tudo mata. O meu pai e mais outros abriram lá as matas e formaram suas lavouras. Ele trabalhou pra um fazendeiro de tropeiro. Antigamente, de onde a gente estava até o Aimorés, onde tem a estrada Vitória-Minas dá mais ou menos uns 70, 80 quilômetros. Se precisasse comprar sal, querosene, arame de cerca, tinha que ir buscar no carro de boi ou nas costas de burro. Então, dez burros era uma tropa, encangava aqui, punha a saca e descia, ia lá embaixo buscar, depois trazia. Meus pais se conheceram nas rezinhas da roça lá, católico conhece seus namorados lá na igreja, na reza. Porque rezava mês de Maria, a novena de Santa Luzia, São Sebastião, São José.

Minha casa era de interior, eram dez metros por 20 ou 25 assim. Aí subia o centro da casa, eles punham aqueles pau-a-pique que era cumeeira que falava. Era a casa que meu pai fez pra gente morar. Eu tenho oito irmãos, comigo nove que escapou, antes desses nove acho que morreu três filhos da minha mãe e do meu pai. Meu pai era baixinho, pequeninho, brabinho. A minha mãe também, calculo mais ou menos, acho que ela era da mesma altura do meu pai, um pouquinho mais alta. Mas nenhum deles era gordão. Como meu pai nasceu na roça, mexendo com burro, ele era pequeno, mas era forte, virou atleta. Depois que ele namorou e casou com a minha mãe foi lá pra esses cantos lá da roça, comprou esse pedaço de terra, derrubou mato, plantou café, fez casa. Ele chegou a fazer acho que seis casas de colônia. Esses cafés nossos, nessa época, quando começava lá, colhia ele, limpava e ia levar lá no Aimorés. Aí, depois mudou, melhorou, surgiram alguns proprietários, caras mais ricos, começou a aparecer o caminhão. Aí já vinha pro lado de Ipanema, Manhuaçu, lá tinha estrada de ferro que pegava e ia pro Rio.

Esse pedaço de terra, lugar que era isso aí, dava 12 alqueires e meio de terra. Embaixo, tinha umas várzeas, depois subia um morro assim, aquela pradaria, depois dava uma descida, aí outra planicezinha, ali ele fez a nossa casa. O papai ficou um homem de destaque, ele ficou conhecido. Como ele era tropeiro, estava sempre indo de fazenda em fazenda buscando café, levando cereais pra eles. Na Revolução de 32, o Governo de São Paulo pediu ao Governo de Minas pra ajudar e o Governo de Minas, então, juntou todos os soldados que ele tinha na capital. Aí as cidadezinhas do interior ficaram tudo sem autoridade, sem soldado, sem nada. Como papai era conhecido na cidade e as autoridades sabiam que ele era uma pessoa de destaque, de representação, chamaram ele lá e disseram: “Olha, seu Manuel, o senhor vai ser o bate pau daquela região ali. Se precisar prender alguém você vai prender e traz pra cá. Você vai ser uma autoridade ali”. Aí, terminou a revolução, ele foi tocando a vida, mas o nome dele ficou lá na delegacia. E quando terminou a revolução e normalizou tudo, cada um tomou seus postos. E nessas alturas o papai ficou conhecido. Mas a nossa casinha lá na roça, no Córrego Seco, ficou alembrada pra esses policiais.

Nessa época, dessa nossa casa até a cidade devia dar uns 70 quilômetros, mais ou menos. Morria gente cá, punha num banguê lá, não era nem nesse caixão que faz assim, levado na mão. Não tinha condição nem nada, levado na mão lá pra cidade. Então, houve a necessidade de fazer um cemitério lá. O papai e os outros amigos dele fizeram uma igrejinha lá. Papai pegou o cemitério de empreitada da prefeitura pra fazer. Mandou derrubar uma sapucaia lá, rachou e trouxe. Deve estar até hoje lá. E o papai fez o cemitério. Estava pronto o cemitério, morreu uma velha lá na cabeceira de Santa Elisa. Então, os homens logo: “Vem cá, morreu” “Traz pra cá”. Mas não tinha oficializado o cemitério, papai tinha terminado, mas as autoridades da prefeitura não vieram pra oficiar o cemitério, né? Então todo mundo ficou de acordo com papai, aí conversou lá com meu tio: “Não, não tem problema. Nós vamos enterrar aí e amanhã nós vamos dar baixa lá”. Assim ficou, fez o enterro. A primeira pessoa que foi enterrada lá foi uma senhora de idade, a mãe do Chico Espanhola, dona Antonieta, outra família lá.

Daí uns tempos a vida seguiu, o papai comprou outra propriedade lá no município de Pocrane, vindo pro lado de Aimorés e de Assaraí. Então, ele pôs uma outra fazendinha lá. Era uma fazenda que tinha máquina de limpar café, máquina de limpar arroz, rodas d’água, tinha também a eletricidade pra iluminar a fazenda. Meu lazer era ajudar meu pai. Eu tinha lá meus aninhos de escola, a gente descascava milho, debulhava e levava pra moer no moinho. Prendia bezerro, tirava leite, prendia os porcos, tratava dos porcos e terminava a obrigaçãozinha e ia pra escola. E chegava na escola a gente ia, a meninada ia bem antes de começar a escola pra jogar bola na frente da escola. A escola era na fazendinha de um fazendeirinho lá, até na frente assim da escola era cheio de esterco, bosta de boi, esse negócio. As primeiras bolas que a gente brincava eram bolas feitas de meia. Botava meia e enchia de pano velho. As mamães sempre costuravam aquela bolinha. Era o meu lazer aquilo.

O meu pai fez uma tragédia, ele se suicidou, ele tomou formicida Tatu. E ele está enterrado lá em Assaraí, no município de Pocrane. O meu sonho, se eu pudesse, ir lá conversar com os prefeitos de lá, fazer uma sepultura pro meu pai lá no cemitério que ele fez. Aquele túmulo que nós fizemos pra ele lá em Assaraí, está lá a foto dele, tirar os restos mortais dele e trazer pro Córrego Seco, pro cemitério que ele fez. Esse é um dos meus sonhos. Quando ele se matou eu tinha 18 anos, foi em 1952. O meu pai gostava de beber. O meu irmão montou um negócio de jogo, toda vida foi viciado em jogo. Então, tinha um joguinho num canto lá no quarto, ficou meu irmão lá jogando com uns caras. E tinha um cara lá que era soldado foragido, o cara fugiu da polícia. Naquela região ele batia em todo mundo, ele dominava todo mundo. E o meu irmão encrencou com esse cara e brigaram. Meu irmão saiu de casa, tirando a garrucha, saindo pra fora e o outro vinha com uma faca e um chicote na mão, um barbeiro foi tentar segurar o cara. Todo mundo escutou um tiro e caíram dois homens mortos no chão. Papai chamou o advogado, escondeu ele. Faltavam três meses pro júri, papai apresentou ele lá, prendeu, ficou três meses preso, entrou no júri e saiu livre, livre. Aí esse meu irmão ficou bravo, ficou valente, criava problema com todo mundo e o papai acudindo daqui, acudindo dali, e ele não foi morto porque papai era uma pessoa de nome, de respeito, consideração, as pessoas toleravam. Então um cara noivou com a minha irmã. E como esse meu irmão era um cara valentão, encrencou com o noivo da minha irmã. Esse rapaz chamou a minha irmã e terminou o noivado com ela. Quando o papai ficou sabendo já tinha acabado o casamento, aquilo foi uma tragédia na cabeça do meu pai, porque ele gostava muito desse rapaz. Quando acabou o casamento, passou poucos meses, aí ele só bebia, só bebia, saía, bebia. E aconteceu dele suicidar.

Eu casei em 1960, com 25 anos. A minha esposa é muito simples. Aquelas meninas antigas, aquele respeito dos pais, da mãe. Casei com ela por amor, por paixão. Eu vivi 53 anos, vivi apaixonado por ela. Fui honesto com ela. Eu tive muita namorada. Mas namorar de longe, fazendo frete. Eu abracei minha mulher na semana que nós fomos casar. Porque eu dei um abraço e tinha uma porção de menina perto, tudo vigiando. Quando eu casei eu tinha uma venda na casa. A gente era colega de escola, eu comprei uma vendinha que era na propriedade do meu sogro. Eu casei lá no Córrego Seco, fiquei dono daquela vendinha. Depois nós fizemos inventário lá, separou, comprei um outro pedaço de terra. E daquela terra peguei, vendi e fui pra dentro da cidade de Mutum. Lá eu pus venda e tal, depois comprei caminhão, uma vidona. Na verdade, antes de eu vir pra São Paulo eu queria ir pro Paraná. Eu já estava casado, estava no Mutum, tinha um caminhão, trabalhava. A minha esposa estava grávida do primeiro filho nosso que chama José Luiz Dias Filho. Ela foi na casa de outro irmão em uma outra propriedade pra baixo, foi de charrete. Ela estava barrigudona, foi junto com ela uma prima dela que era casada com meu irmão. Antes de chegar lá os arreios desarrumaram, foi em cima da égua, o animal que puxava a charrete e ela disparou morro abaixo, uma descida assim. O meu irmão e a minha cunhada pularam fora da charrete. A minha mulher, barriguda, agarrou o pé no estribo da charrete e foi arrastada. Eu estava na venda, peguei um jipe e levei pra Mutum. Mutum não tinha médico. Aí levamos pra Aimorés. Aí, deixaram ela internada lá na Santa Casa e eu voltei pra Mutum. Quando nasceu, fui lá buscar, fui pagar. Aí, fui lá paguei as despesas todas, pus ela no ônibus e viemos pra nossa casa. Esse é o primeiro filho, José Luiz Dias. Eu tive nove filhos. Lá no Mutum nasceu esse, José, e quando eu vim pra São Paulo nós trouxemos um menino com um ano e seis meses, chamado Geraldo, e ela trouxe na barriga a Marisa, a outra filha mais velha. Nós viemos em 1965. Quando eu estava no Mutum, o caminhão fazendo carreto e tudo, eu peguei uma mudança de uns caras lá pra levar pra Campo Mourão, no Paraná. E os outros companheiros, amigos da onça: “Ah, não vai com esse caminhão, esse caminhão vai quebrar com isso, vai encravar esse povão tudo aí, não faz isso, não”. Vendi o caminhão e passei a mudança pra outros caras fazerem. Então eu fiquei mais uns seis meses, lá no Mutum e de lá que eu vim pra São Paulo. Vim morar em Diadema. Eu estava no bairro do Jardim Portinari. Vieram uns primos meus que começaram a trabalhar na Padaria Santa Teresa, na Praça da Liberdade. Eles moravam lá na Piraporinha, então por intermédio desse primo meu que eu vim pra Diadema. Quando eu vim pra Piraporinha já tinha outros conterrâneos por ali. De um outro conterrâneo meu eu comprei esse terreno no Portinari, com casa e tudo. Uma luta aí.

Eu comprei uma barraquinha de fruta em frente a Forjaria São Bernardo e trabalhei uns quatro, cinco meses ali. E de lá de São Bernardo nós vínhamos fazer compra aqui no mercado. Tinha um bar perto, o cara tinha uma barraca de frutas e eu comprei do cara a barraca pra ir trabalhar. Aí achei que aquilo não era futuro, fiz conhecimento com o pessoal da firma lá. Trabalhei na Forjaria São Bernardo até eu ser demitido no dia 1º de abril de 70. Eu trabalhei quatro anos lá. A firma foi vendida. Desse trabalho, eu saí, fui trabalhar na Mercedes-Benz, trabalhando na profissão que eu aprendi na Forjaria, operador de Máquina. Quando eu trabalhava na Mercedes Benz, veio esse meu irmão, eles quebraram lá e vieram pra São Paulo. Ele comprou um terreno de um pernambucano lá em Diadema e deu uma parte em dinheiro e ficou devendo. Depois ele não arrumava o dinheiro, voltou lá em Minas e não teve um parente que emprestasse dinheiro. Ele fica me atentando, me xingando, vou cobrir ele na peixeira. Aí pedi ao chefe da forjaria da Mercedes Benz me mandar embora. Peguei o dinheiro, emprestei lá pra ele.  Logo em seguida eu já entrei na Volks. Trabalhei sete meses lá e pedi a conta. Fui trabalhar por conta, quebrei a cara. Deu tudo errado. Minha intenção era comprar uma máquina de raspar taco. É o que estava na moda naquela época, a gente raspava o taco, punha cascolac, sinteco, ficava o piso bonito. Aí comprei a máquina pra raspar, quando eu entrei no negócio, não explorei, nem nada, tinha raspador de taco pra tudo quanto é lado. Você dava um preço, o outro ia lá e dava o outro e dava o outro. A pessoa que trabalhasse mais barato fazia alguma coisa. Eu me ferrei. Aí passou, passou o tempo, parei de raspar taco e fui trabalhar de pedreiro. Fui trabalhar de pedreiro. Trabalhei de pedreiro e não progredi.

Sobre a minha vista a história é a seguinte. Comecei a tratar lá na Fundação ABC. Aí surgiu a propaganda das Clínicas: Mutirão da Catarata. Parei lá e vim pras Clínicas. Entrei aí, era uns dois mil velhos na portaria das Clínicas. Mas eles não fizeram o mutirão da catarata, não era pra curar ninguém, não. É pra levar bastante velho pra servir de cobaia praqueles médicos estudar. E eu fui um desses azarados que ele não me curou, me deixou jogado lá pro estudante e não passou médico especialista pra olhar minha vista e deixou o glaucoma acabar com a minha vista.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+