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Um segundo lar

História de: MHD Sarya Ghazi
Autor: Fernanda Zientara
Publicado em: 26/05/2019

Sinopse

Essa história narra a trajetória de Mohamed Sarya Ghazi, 12 anos, desde a sua saída da Síria, com a intensificação dos conflitos, até a fixação da família no Brasil. Nesse percurso, relata algumas de suas lembranças, o que deixou para trás, a convivência com a escola e com os colegas brasileiros, sua cultura, suas tradições e os sonhos que tem para o futuro.

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História completa

Essa poderia ser mais uma história de um garoto que gosta de estudar, frequenta a escola pública, pratica judô e imagina as coisas que irá fazer no futuro. Mas a história de Mohamed Sarya Ghazi, 12 anos, começou do outro lado do oceano, mais precisamente na Síria, país em que viveu seus primeiros anos de vida. Infelizmente as circunstâncias mudaram a vida das pessoas. E mudaram drasticamente a vida do menino. Dessa época, lembra-se de pouca coisa: quando sua mãe estava grávida de sua irmã menor, de como era bagunceiro e muitas vezes não queria dormir, a creche que frequentou com 3 ou 4 anos, a saída repentina para a casa da avó, a proximidade da guerra, o preconceito. Nesse tempo a mudança tornou-se a sua rotina. A família foi para a casa da avó, que era mais afastada do centro de Damasco, capital da Síria. Depois, viajaram para o Líbano, distância que venceram em duas horas de viagem. Lá permaneceram cerca de uma semana apenas. Mohamed e sua família seguiram para a Jordânia, país em que moraram por um ano e do qual ainda traz algumas lembranças. Algumas tristes. O garoto deixa transparecer a dor do preconceito. Marcou-lhe a sensação de que os jordanianos não gostavam dos sírios, que eles não eram bem-vindos, que eram perseguidos e relata: “tinha luz no prédio inteiro, menos no nosso”. Nesse país estudou até o começo do terceiro ano. Meninos e meninas, em prédios separados. Regras, rígidas: se sujassem o pátio, os alunos deveriam limpá-lo. Das brincadeiras, lembra-se apenas de um dia que passou com seu pai na neve, que chegava até os joelhos naquela ocasião.

 

O próximo destino: Brasil. Segundo Mohamed era o único país que aceitava imigrantes. Seu pai chegou a passar um mês no país, verificando as condições locais, antes que a família se mudasse definitivamente. Assim, seu pai já tinha muitos conhecidos por aqui. Quando chegaram ao país, Mohamed já tinha aprendido algumas expressões essenciais, como “posso ir ao banheiro? ”, “posso beber água? ”, através da internet. Mas aprender um novo idioma, em sua primeira experiência escolar, na Mooca, não foi tarefa tão fácil logo de início, recorda-se de ocasiões em que o colocavam diante de uma parede azul e repetiam constantemente a palavra “azul”. Depois , por imitação e com a ajuda dos colegas aprendeu rapidamente a língua.

 

Mohamed deixou parte de sua família para trás: a avó, o avô, dois tios. Alguns de seus parentes foram para outros países, como a Alemanha, o Egito, os Estados Unidos. Apesar da distância, o menino fala com carinho dessa relação. Todos os dias, graças à tecnologia, ele e sua mãe conversam com com a avó, que pergunta sobre o Brasil e deseja saber quando vão se reencontrar. Mas eles pensam em retornar apenas para uma visita. A família não fala muito do país que deixaram no passado. Algumas vezes relembram de como a vida era boa, de como as coisas eram baratas. Mas a guerra piorou tudo, inflação, falta de trabalho, lares desfeitos, casas destruídas. Inclusive a casa onde Mohamed havia vivido. Assim, sua família não pensa em viver na Síria novamente. Escolheram o Brasil como seu novo lar. Mohamed sente que o país recebeu muito bem a sua família. Aqui foi bem acolhido na escola, principalmente no Infante, lugar onde nunca sofreu bullying. Segundo ele, nessa escola há muita diversidade: estudantes da Bolívia, do Peru, de Marrocos. Da Síria, apenas ele e a irmãzinha Mayas, que está no terceiro ano. Ele gosta muito dessa diversidade e acaba aprendendo com colegas de outros países. Mas isso não o impede se sentir diferente em algumas situações. Durante o Ramadan, período de jejum entre os muçulmanos, os colegas oferecem comida ou bebida para ele, mas ele não pode aceitar. Apenas recusa e agradece. Os colegas acham isso diferente. Eles também estranham que no WhatsApp tudo seja escrito ao contrário e ele tenta explicar que “é assim mesmo”. Em outra ocasião, durante reunião escolar, sua mãe estava falando em árabe e ele lhe pediu que falasse em português, porque não queria. Tinha vergonha. Atualmente sua mãe ainda sente dificuldades com a língua, mas nesse momento está fazendo um curso para estrangeiros. Ela o ajuda com as lições de matemática. E Mohamed a ajuda com as lições português, ensinando o que são substantivos, verbos e outros temas. Fala com bastante fluência o nosso idioma, sem se esquecer do árabe, que utiliza para se comunicar com a avó paterna e para as conversas dentro de casa, lugar em que outras línguas não são permitidas. Uma estratégia de sobrevivência. Uma forma de não se esquecer do árabe.

 

Como todos os meninos de sua idade, sente a necessidade de se conectar com os demais, conhecer pessoas e estabelecer amizades. E assim, em certa ocasião, abriu um pouco desse mundo tão particular para um amigo brasileiro, Mateus. Ele foi convidado a entrar na mesquita, onde Mohamed e sua família moram. Explicou ao amigo sobre as solicitações que a mãe lhe fizera em árabe, falou sobre o alcorão, livro sagrado do islamismo, sobre as rezas que realizam diariamente. Convidou-o para conhecer mais de perto seus hábitos, algo que o amigo topou imediatamente com um “Beleza. Vamos lá conhecer”. Enquanto Mohamed rezava, Mateus apenas observava de longe. Uma experiência que ele achou “bem legal”. Esse não foi um momento de constrangimento ou estranheza para Mohamed. Apenas cumplicidade entre dois amigos de universos tão distintos. Para o futuro, o garoto não sonha em ser jogador de futebol, como outros tantos jovens, mas deseja em se estabelecer em Dubai, ser um grande comerciante ou algo assim, quem sabe?! Até lá, busca se dedicar aos estudos, sem esquecer suas origens e suas tradições. Um garoto de gentileza no riso e olhos sonhadores. 

 

 

Nota: esse texto foi construído a partir da entrevista que Mohamed Sarya Ghazi gentilmente concedeu às equipes do Museu da Pessoa e da EMEF Infante Dom Henrique, escola da rede municipal de São Paulo. Quando o fechamento desse texto, soubemos de uma notícia desagradável. Seu pai havia perdido e emprego e a família estava novamente de mudança, para outro bairro de São Paulo. E infelizmente, Mohamed não é mais aluno de nossa escola. Concluímos essa história com nossos votos de que esta família, que admiramos e com quem tanto aprendemos, seja muito feliz!

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