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História

Uma brasileira na Inglaterra

História de: Rosemeire Chamberlain
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/10/2015

Sinopse

Rosemeire conta em seu depoimento sobre sua relação com os pais e a família, como era a rainha da casa quando pequena e quais eram suas brincadeiras de infância. Ela comenta sobre seus trabalhos, de caixa do jogo do bicho a office-boy, e como começou sua relação com o cinema. Rose fala sobre como conheceu seu marido, com quem foi morar na Inglaterra e teve dois filhos. Fala sobre sua paixão pelo cinema, sobre os festivais de cinema brasileiro que organizou em Londres, e a paixão recente pela culinária naturopata.

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História completa

Meu nome é Rosemeire Chamberlain. Eu nasci em São Paulo, na Beneficência Portuguesa, no dia 11 de setembro de 1974. Meus pais são nordestinos, retirantes da leva dos anos 70. Os dois são pernambucanos. Minha mãe nasceu em Recife, mas depois foi criada na cidade de Bezerros. Meu pai nasceu em Sairé, que é uma cidadezinha pequena, e também depois mudou para Bezerros e eles se conheceram lá, meu pai com 14 anos, minha mãe com 13 anos. Eu sou a mais velha, nós somos três. Sou eu que tenho 40 anos, meu segundo irmão nasceu quando eu tinha sete anos, e o meu terceiro irmão quando eu tinha dez anos: Rose, Rodrigo e Rogério. Quando eu nasci nós morávamos num bairro chamado Jardim Miriam, que é ali perto da Americanópolis, Diadema, aquela região ali de São Paulo. E quando eu tinha de quatro para cinco anos, meu pai comprou um terreno em Itapecerica da Serra, junto com a minha madrinha, tia Luzia, e nós mudamos quando eu tinha cinco anos. Foi em Itapecerica da Serra que eu cresci. Quando a gente foi morar naquela Rua Inglaterra não tinha água encanada, tinham três ou quatro casas, e eu lembro que no final da rua tinha uma bica que era onde a mãe levava às vezes para tomar banho, lavava uma louça, às vezes trazia uma água ou senão comprava esse caminhão pipa que vinha e vendia água, por um bom tempo. Eu tive uma infância bem de rua, não tinha asfalto na rua até acho que até pouco perto dos anos 2000, não tinha asfalto. Até eu ter 17 anos, não tinha telefone na minha casa. Então, eu brincava na rua com os meninos, andava de carrinho de rolimã, tinha o mato assim, a gente ia e catava bambu para fazer festa junina, aquelas coisas mesmo, jogava queimada, taco, quebrei o braço duas vezes brincando de esconde-esconde.

Com cinco anos, até os sete anos eu fui a rainha da família, porque tinha um bando de tios e eu era a única sobrinha-neta.  Na Páscoa eu ganhava uns 20 ovos de Páscoa. E quando a minha mãe resolveu ficar grávida, as minhas tias também, então perdi o reinado de uma vez só, foi um processo difícil. Quando eu fiz 16 anos eu fui trabalhar com o meu pai. Primeiro eu fui trabalhar como caixa de jogo do bicho. Eu estudava de manhã num colégio em Itapecerica, eu estava no segundo ano. No primeiro ano eu fui fazer Cefam, mas eu fiz um ano e eu falei: “Esse negócio não é para mim, não”. Sai fora, fui pro colégio normal. Tudo em Itapecerica, fui estudar no João Batista. E à tarde, uma amiga que estudava no colégio, me arrumou esse emprego para trabalhar dentro da banca de bicho.

Teve um tempo que eu fui trabalhar com o meu pai no Largo do Socorro, eu era office-boy dele. Foi quando eu comecei a andar, eu pagava todas as faturas dele, não sei o quê, ia no banco, quando tinha que ir nos cartórios, porque tinha coisa de prestação atrasada, eu fazia esses cartórios no Centro, tudo. Às vezes, eu ia no cinema à tarde, eu sempre gostei. Eu comecei a gostar muito de cinema. Eu tinha quatorze anos. E o meu pai sempre me dava um dinheiro, e tinha o shopping center de Santo André, e tinha o cinema. E foi aí que eu comecei assistir Almodóvar, eu adorava! Então quando eu fui trabalhar de boy para o meu pai eu já tinha esse costume do cinema e eu dava uns PTs nele. Eu fiquei um tempo. Quando eu terminei o colegial eu fui trabalhar no Shopping Iguatemi e fui fazer cursinho no Etapa, aqui na Frei Caneca. Eu trabalhei no Shopping Iguatemi um tempo só, mas depois eu não aguentei mais porque eu saía de casa às cinco e meia da manhã pra chegar na Frei Caneca às sete, pra começar a estudar às sete, sete e pouco, ficava até umas quatro horas, eu acho, até depois do horário de almoço, ia pro Shopping Iguatemi, ficava até às dez no shopping pra pegar o ônibus e ir pra Itapecerica. Eu chegava meia-noite em casa. E não dava, meu pai pagou o cursinho um tempo, ajudou, tal. Eu passei na FEI, fiquei na lista de espera da Unesp e depois eu entrei na Unesp, mas era para fazer em Ilha Solteira, e pra fazer Elétrica, eu não queria. Só que eu fui pra faculdade e eu pirei nos primeiros seis meses porque eu saquei que não era aquilo que eu queria só que eu não tinha coragem de falar pro meu pai. Eu tomei um pau na universidade, eu não consegui enxergar desenho geométrico de forma alguma, não conseguia tirar do papel. Era semestral, eu falhei três semestres, eu não consegui passar naquela matéria, porque você tem que ver 3D, hoje eu consigo ver, mas naquela época eu não conseguia. Minha melhor matéria era Filosofia (risos). Filosofia e Química eu arrasava, Cálculo também. Agora Física e Desenho Geométrico era horrível, não consegui passar. E virou uma bola de neve. E eu fui ficando deprimida, ficando deprimida, eu fiquei dois anos na FEI, eu consegui passar pro segundo ano, com dois anos, eu resolvi mudar pra Unip, em São Paulo. Eu fui trabalhar na Moto Remaza, vendendo consórcio. Odiei, morria de vergonha. Eu detestava vender consórcio, depois eu consegui arrumar emprego pra trabalhar dentro da Moto Remaza, eu vendia moto, CG 125. A venda do consórcio era de porta em porta, como vender bíblia.

Em agosto de 1998 eu fui violentada. Eu fui numa festa do meu ex-gerente do hotel onde eu trabalhava em Itapecerica. No começo da noite a gente estava fumando um baseado e chegou um rapaz jovem e a gente ofereceu e ele falou que não queria, que ele tinha uma coisa mais forte pra mais tarde. Às duas horas da manhã eu já estava quase completamente bêbada, eu estava sentada na frente da casa, ele veio e me ofereceu uma linha de cocaína, e eu aceitei. E ele me guiou pro estacionamento do sítio. E aí ele pediu que eu abaixasse pra ninguém nos ver. E no que eu abaixei ele já veio por trás, me deu uma gravata, me puxou pra dentro do mato e a gente brigou muito. Eu lembro que chegou uma hora que era como se tivesse saído do meu corpo e tinha me visto lá morta e eu só pedia a Deus: “Meu, eu vou fazer 24 anos”, faltavam 11 dias para eu fazer 24 anos: “Ai, eu não quero morrer assim, pelo amor de Deus, eu tenho tanta coisa pra fazer, não deixa eu morrer, o que eu faço?” E veio na minha cabeça: “Finge que você está morta”. Eu fingi que estava morta, aí ele respirou assim: “Ah, morreu” e saiu fora. E aí eu levantei, voltei pra festa. E eu tive que fazer uma reconstrução de nariz, eu tenho 15 centímetros de platina no meu braço, com cinco parafusos e tive que fazer uma reconstrução de períneo. Eu falei quem era, aí foram pra casa e ele estava dormindo com a roupa toda ensanguentada do lado, faltava 20 e poucos dias para ele fazer 18 anos. Ele era menor, ele foi tratado com menor, foi pra Febem, com três meses ele fugiu. E no que ele fugiu eu fugi de Itapecerica, foi quando eu vim morar em São Paulo e aí nunca mais voltei.

Na Faap tinha vários cursos rápidos de roteiro, de não sei o quê e eu comecei a fazer esses cursos e rapidamente já me envolvi com o pessoal da ABD, que é a Associação Brasileira dos Documentaristas, que se reuniam toda semana no MIS. Comecei a entrar nesse grupo. O Walter Salles foi meu grande padrinho, eu falava que ele era o meu futuro marido, porque ele era muito bonitinho e uma figura maravilhosa. Nessa retomada do cinema brasileiro, cinema nacional, eu me envolvi, comecei a ver documentários. Eu vi Poeta dos Vestígios, que é um filme sobre o Krajcberg, que o Walter faz. Depois ele lança Central Station. Mas o Central Station foi quando ele estava fazendo o filme do Krajcberg, que o Krajcberg falou da Socorro Nobre, que era uma presidiária, que depois que o Krajcberg tinha dado uma entrevista para a Veja, ela começou a se corresponder com ele, tanto é que o Walter vai conhecer a Socorro e faz o Socorro Nobre, que é o documentário dele. E eu já fiquei ligada, tudo que tinha do Walter eu falava do pessoal pra todo mundo, toda vez que eu via eu falava: “Ah, meu futuro marido, meu futuro marido”. Então meus amigos já ficavam assim: “Teu futuro marido vai estar não sei onde”. Ele lançou o Central do Brasil e eu não tinha visto, mas já tinha lido tudo, sabia o plot do filme, não sei o quê. E um amigo me ligou no trabalho, eu trabalhava na Berrini, e falou: “Ó, o Walter vai estar lançando um filme sobre o André Bazin, que é do Cahiers du Cinéma, na Fnac, hoje”. Eu falei: “Vou lá”. Saí do trabalho e voei. E escrevi uma carta pra ele dizendo: “Eu sou ouvinte da ECA”, na época eu era ouvinte da ECA. Eu trabalhava na produtora, era ouvinte da ECA e fazia parte do diretório da ABD, cheia dos engajamentos.

Eu fui pra FEI em 93, a gente está falando em 1998. Morava em Itapecerica ainda, mas estava trabalhando na Berrini, já numa produtora. Já tinha saído do hotel. Fui encontrar com ele, levei a cartinha, bonitinha, ele estava em pé, eu toquei assim no ombro dele. Eu falei: “Olha, eu quis entregar em mãos, eu fiquei com medo que alguém engavetasse”, que era o plot do filme dele, que a mulher escrevia as cartas e não mandava. E ele adorou aquilo: “Você é muito inteligente, não sei o quê”. Ele veio, conversou comigo, eu fiquei toda encantada. Depois eu comecei a fazer pesquisa do meu filme. Estava se aproximando 2000, o Brasil ia completar 500 anos e eu fiquei com essa vontade de querer saber desses 500 anos através do viés do olhar do índio. Comecei a fazer uma pesquisa, o Walter estava lançando o livro do Central do Brasil, fui com um amigo na feira do livro, passei um cheque sem fundo conscientemente pra comprar o livro, entrar na fila e pegar um autógrafo. E o banco era Unibanco, então até tudo bem. Fui lá, estava a Fernanda Montenegro, não sei o quê. Ele lembrou de mim e eu perguntei pra ele: “Foi você que fez”, tinha uma série sobre o Xingu que passava na TV Manchete na época e eu achava que ele que tinha feito. Ele falou: “Não fui eu, não, mas foi um grande amigo meu, por quê?” “Porque eu estou fazendo uma pesquisa sobre os indígenas, quero fazer um documentário”. E ele de pronto me deu o telefone do amigo dele e falou: “Liga pro meu amigo e fala que fui eu que pedi pra você ir lá. Vai pro Rio de Janeiro ver os arquivos dele pra você fazer sua pesquisa”. E o cara me recebeu de braços abertos, eu fiquei lá uma semana. Era uma produtora na Urca. E eu fiquei a semana inteira lá vendo realmente os arquivos, não sei o quê, enfim, fiz minha pesquisa, tal. Quando foi em 99, eu estava fazendo todo o processo pra Capes Jovens Artistas, que mesmo que se você não tivesse uma universidade eles estavam dando pra especialização uma bolsa pra você ir. E eu entrei em contato com o Walter novamente e ele me deu uma carta de recomendação. Eu tinha um projeto que eu vinha trabalhando há um tempo, chamava Nosso Olhar, que era pra fazer um projeto com meninos de rua. Eu fiquei uns três anos tentando financiar, arrecadar dinheiro pela Rouanet, eu virei especialista em fazer projeto pra Rouanet, mas nunca consegui levantar um centavo pra esse projeto. Mas eu dei o projeto pra ele analisar, ele gostou e ele me deu uma carta de referência falando que eu era o futuro do cinema brasileiro.

Em 2000 eu fiz o documentário. E um dia eu estava tomando banho lendo o jornal e estava falando que ia ter a Primeira Conferência Indígena na Bahia durante aquela semana de comemoração dos 500 anos do Brasil, que 180 tribos estavam vindo do Brasil inteiro pra ficar em Cabrália. Eu catei o jornal, consegui ligar pra Folha de São Paulo, descobri o jornalista, ele me deu o contato. Consegui, na época, fazer parte de uma cooperativa de cinema, entrei em contato com a Rede Bandeirantes, os índios não estavam deixando os repórteres entrarem dentro do acampamento, só amadores como eu que ia ter acesso, e eu ia ter acesso. Então eu vendi algumas imagens, troquei algumas imagens pela minha passagem e um câmera, meu amigo que ia fazer câmera, que eu já tinha feito um trabalho de graça pra ele antes. E a gente foi, passou uma semana em Cabrália, meio que dormindo com os índios, comendo junto e eu voltei com 14 horas de material. Demorei nove meses e cortei esse filme, fiz um documentário de 26 minutos chamado ABA. Esse documentário ficou pronto em janeiro de 2001. Eu mandei pra cá, uma amiga me falou do Museu da Pessoa e eu mandei pro Zé a minha fita. E ele gostou, ele assistiu ao documentário e me chamou pra trabalhar. E eu comecei a mandar pra festivais internacionais e fui selecionada para ir pro Fica - Festival Internacional de Cinema Ambiental, em Goiás Velho, onde conheci o Mike, meu marido, ele é inglês. Trabalhei no Museu da Pessoa de janeiro a dezembro de 2001. Depois fui para a Inglaterra. O Mike foi me buscar no aeroporto com um par de luvas e um cachecol, eu achei super bonitinho porque era inverno, eu cheguei dia 29 de dezembro. E a gente nunca mais se desgrudou, estamos juntos há 13 anos. Eu descobri que na Inglaterra, na área de Artes, se você tiver cinco anos de experiência comprovada você não precisa ter um BA, você não precisa ter um bacharelado, você já pode fazer um mestrado ou um PhD, um doutorado. E eu tinha os cinco anos de experiência comprovada porque eu tinha meu documentário, eu tinha um portfólio que eu tinha feito. Então foi assim que eu consegui. Eu tenho um papel que diz que eu sou Master of Arts. Os nossos dois filhos foram planejados. A gente parou, olhou um pra cara do outro e falou: “Vamos fazer filho”, e a gente fez, de primeira. Não foi nenhuma surpresa, a gente queria. Eu, quando eu fiz 25 anos comecei a ter um comichão, eu falei: “Ah, acho que eu vou ter um filho”.

Eu trabalhei com cinema de 2005 até 2010, aí a minha filha nasceu, eu pedi demissão, fiz o último festival, em 2010, pedi para não renovar meu contrato e fui fazer um curso de chef. Também me matriculei num curso de nutrição naturopata, pra ser terapeuta, e comprei um café. E abri um buffet. E trabalhei durante três anos, foi uma loucura. Aí eu falei: “Não, café não dá, não quero isso pra minha vida”, tomei um grande prejuízo que a gente está pagando até hoje. Recentemente terminei meu curso de Nutrição Naturopata. Eu fiz um curso um ano de biologia, de biomedicina e dois anos de clínica aplicada, de nutrição aplicada à clínica. Então eu servi 200 horas de clínica vendo paciente, observando paciente.

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