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História

Uma educadora destemida

História de: Helena Martins de Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2013

Sinopse

Helena Martins de Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1937 “na época era Estado da Guanabara”. Formada em Serviço Social Helena foi uma educadora destemida muito à frente do seu tempo. Começou a trabalhar no Centro de Treinamento dos Correios, implantando ações e métodos de ensino inovadores. Viajou por vários países dando treinamento e consultoria pela União Postal Universal (com sede na Suíça é o principal fórum internacional de cooperação entre os atores do setor postal). Helena sempre buscou atualização profissional e pôde, com seu empenho e dedicação, contribuir para a melhoria dos serviços dos Correios.

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História completa

Eu nasci no Rio de Janeiro, na época era Estado da Guanabara, em 27 de janeiro de 1937. Meu pai é Ignácio Martins de Araújo e Maria de Jesus Amorim de Araújo. Meu pai era militar e minha mãe era doméstica. Nós éramos seis filhos, eu sou a terceira na ordem de nascimento. Minha mãe, apesar de ser muito simples porque era filha de fazendeiros no interior e naquela época filha de fazendeiro só estudava piano, bordado e essas coisas, mas ela era de uma sabedoria! Eu aprendi muita coisa com ela e com o meu pai também. Era a forma que ele nos educava, apesar de dizerem que militar é rígido, meu pai, apesar de ser militar de cavalaria, era do Rio Grande do Sul, uma pessoa muito atenciosa, muito humilde, uma pessoa muito amiga dos filhos. Tudo que era pra fazer em criança eu fiz, tudo que era pra fazer em adolescência eu fiz. Era uma alegria muito grande meus irmãos e nós nos dávamos muito bem porque um castigo que a gente recebia era se nós brigássemos e ele sempre dizia: “Irmãos têm que ser amigos, irmãos têm que ser companheiros. Então vocês não podem brigar”, então quando nós brigávamos todo mundo ficava de castigo. Nós somos até hoje muito amigos. Eu lembro que era muito alegre, seis crianças, meu pai, minha mãe, minha avó e uma tia que morava com a gente. A mesa de casa eram 15 pessoas. Então nós fomos sempre incentivados a estudar. Ele acompanhava os nossos estudos, eu me lembro que ele chegava em casa do quartel, imagine, cansado ele chegava e antes dele ir tomar banho, jantar, sentava conosco na mesa, eu, meus dois irmãos, que eram mais velhos, e conversava conosco, tirava as nossas dúvidas.

 

Cresci em São Cristóvão, que tinha fama de ser o bairro imperial então é daqueles bairros muito tradicionais no Rio de Janeiro. Tinha os colégios, meu primeiro colégio era na rua onde eu morava, eu não esqueço Dona Darcy, era a nossa diretora da escola. Quando meus irmãos iam pra escola eu queria ir, eu me arrumava, botava minhas coisas, ia pra escola, chegava na porta da escola eu fazia o berreiro porque eles entravam e eu tinha que voltar pra casa. Essa senhora diretora chamou meu pai, meu pai e ela disse: “Faz o seguinte, deixa ela vir pra escola, ela vai cansar, logo, logo ela cansa, deixa ela na escola, não tem problema, não” e eu fui pra escola, só que eu não cansei. Nessa ocasião acho que eu tinha cinco anos, tanto é que eu tive que repetir o ano porque eu não tinha idade. Eu tanto brincava de boneca como eu jogava, eu era campeã do futebol de botão e bola de gude, eu ganhava dos meninos. A gente brincava muito de bola de gude, de coisa, soltar balão, correr atrás de balão. Eu sempre gostei da escola, nunca dei problema pra estudar, eu nunca ouvi meu pai e minha mãe dizerem: “Vai estudar”, eu sempre fui antes, até responsável demais. Eu gostava de estar sempre com um livro, gostava muito de ler e era incentivada. Eu queria ser médica psiquiatra. Eu fui fazer vestibular pra Medicina, fiz e passei, eu trouxe até ali o diploma dos burros que a gente ganhava dos veteranos. No primeiro dia que eu fui saber o resultado, eu estava assim de costas, um veterano chegou: “Ah, vocês são os novos calouros, muito prazer”. Eu virei e ele tinha amarrado uma mão de defunto e eu apertei a mão do defunto. Gente, eu passei tão mal. Eu fui no dia seguinte na faculdade, ver o currículo, eu queria ser médica psiquiatra, não imaginava que eu tinha que passar um ano no Instituto Médico Legal. Eu desisti. Saí procurando os cursos. Quando eu vi o currículo de Serviço Social eu digo: “É isso que eu quero”, que eu gosto de trabalhar com pessoas. Me encontrei no Serviço Social, é aquilo que eu queria mesmo. Logo depois eu fui trabalhar na Fundação do Bem Estar do Menor, eu acho que é o meu carma porque onde eu caio pra trabalhar eu trabalho com criança e adolescente. Eles abriram a vaga pro curso de Comunicação e Jornalismo, que houve uma transformação da Faculdade de Filosofia por causa da ditadura, aquela confusão toda e fui fazer o exame de seleção e passei. Quando chegou pra fazer o exame de seleção, eu olhei as pessoas que estavam ali e eu recém formada. Eu disse: “Eu não vou passar nesse exame”, eram três vagas. Tinha uma entrevista primeiro você tinha que saber pelo menos dois idiomas, eu sabia três, então me salvei porque eles davam um texto de comunicação pra você traduzir. Logo depois abriram a inscrição pra pós, o mestrado, eu comecei o mestrado.

 

Eu morava no Rio, quando eu entrei no Serviço Social e fui trabalhar nos Correios porque eu achava um absurdo eu com 18 anos, 19 anos viver ainda dependente de pai e mãe. Iam criar o serviço nacional de telex e eu passei. Eu trabalhava nos Correios e fazia faculdade e não foi fácil porque eu entrava na faculdade às sete horas da manhã, não podia chegar atrasada. Saía meio dia, comia no bandejão quando dava, senão eu ia para os Correios, trabalhava até às seis horas, ia fazer estágio. Saía 11 horas da noite de lá do estágio, chegava em casa tinha que estudar, tinha que fazer os trabalhos. Eu comecei no antigo Departamento de Correios e Telégrafos, não tinha nada. A gente recebia aquele salariozinho. Minha intenção era realmente sair. Quando eu entrei pra pedir exoneração uma colega que trabalhava no Serviço Social dos Correios, descobriu que eu trabalhava nos Correios também e me requisitou. Só que o currículo foi indeferido. Comentei com uma colega que era secretária do diretor de pessoal na ocasião, Comandante Gurgel Neto, eu falei pra ela: “Não, eu vou marcar uma entrevista com ele, você vai conversar com ele, ele é boa gente”. Ele me explicou: eu indeferi porque o serviço de saúde não funcionava, porque não podia botar um profissional com aquele currículo pra trabalhar, que eu ia decepcionar... Eu fiquei calada, ele disse: “Mas eu vou fazer um contrato com a senhora, nós estamos começando o treinamento na empresa e eu preciso de profissionais. Eu procurei saber informação da senhora da faculdade, sei que a senhora gosta de estudar, de fazer projetos, essas coisas todas. A senhora vem trabalhar com a gente no treinamento e no dia que o serviço de saúde for reorganizado a senhora vai ser a primeira pessoa a ser convidada pra trabalhar nele”. Fomos fazer o curso de formação de instrutores, que era dado pro pessoal da Marinha e a gente tinha aula à noite nesse curso e durante o dia tinha curso de formação de técnico postal na empresa. Quando terminou o curso eu fui transferida pra Bauru, pro centro de treinamento de Bauru. Fui pra Bauru, fiquei pouco tempo. Logo depois o colega que foi convidado pra ser o encarregado do centro de treinamento me convidou pra ser adjunto de treinamento dele. Fomos pra Porto Alegre, chegamos, imagine, o centro de treinamento está recém instalado.

 

Domingo de páscoa, 42 graus do Rio de Janeiro, eu cheguei em Porto Alegre dois graus. Nós tínhamos o retroprojetor, a lousa de giz, depois. Todo mundo tinha que ler a apostila. A equipe dos instrutores também tinham bons instrutores e nós fizemos pra cada curso dentro do nível deles então o técnico postal tinha que programar, tinha que planejar centros de distribuição domiciliares, centro de triagem, entrega dos aeroportos, transporte, aquele negócio. Então nós dávamos pra eles, eles faziam isso, maquetes. Nesse meio tempo o diretor de pessoal, Comandante Gurgel Neto, foi visitar o centro de treinamento porque tinham dito a ele que eu tinha transformado o centro de treinamento numa marcenaria e que eu estava gastando fortunas com material. O material que eu gastei foi 500 reais na ocasião, que eu tirei do meu bolso, comprei tinta e papel higiênico pros meninos fazer papel machê, o resto eu não podia dizer que tinha tirado. Ele chegou, não falou, não acusou, só perguntou, não sei o que, eu disse pra ele: “Eu quero convidar o senhor pra visitar a exposição que os alunos fizeram”. Nós fomos mostrando ele se empolgou, ele gostou. Quando ele voltou ele fez um relatório dizendo que nunca tanto tinha sido feito em tão pouco tempo, que ele estava, que o centro de treinamento estava de parabéns e nós continuamos. O Comandante Gurgel, 2 de fevereiro, feriado em Porto Alegre, ele chegou e disse assim, na hora do almoço : “Ela hoje é minha convidada pra almoçar”. Fomos parar um barzinho em frente ao Beira-Rio. Ele sentou e disse: “Sabe por que que eu convidei a senhora pra almoçar? Lembra da promessa que eu lhe fiz quando a senhora foi na minha sala dizendo que estava pedindo exoneração? Eu disse a senhora que quando o serviço de saúde fosse reorganizado a senhora seria a primeira pessoa que eu convidaria, eu estou aqui pra cumprir minha promessa. A senhora quer?”. Eu disse: “Não quero, não, comandante, não quero mais, não, vou continuar aqui”. Ele disse: “Ah, eu sabia. Eu fiquei, continuei gerenciando treinamento até 85, quando mudou a política. Para continuar como gerente do centro de treinamento, eu tinha que entrar no partido que estava no poder, eu disse pra ele: “Você me conhece há muito tempo, jamais deveria me ter feito essa proposta”, era o PFL. Saí e fiquei lá, fiquei, mas eu vi que eu tinha que sair porque as pessoas que estavam acostumadas a trabalhar comigo não se dirigiam ao atual chefe do centro de treinamento, o gerente, vinham pra mim, eu ficava na biblioteca esperando o que ia acontecer comigo. Eu achei aquilo uma situação muito desagradável pra ele e pra mim, eu não gosto disso, não gostaria que fizessem comigo eu pedi a transferência pra Brasília.

 

Eu vim pra ESAP, pra Escola Superior de Administração Postal, isso fim de 85, 86. Foi quando eu comecei a dar formação no curso de administradores postais pra empresa desde essa época até o último CAP, foi o tempo que eu fiquei lá. Quando eu vim pra Brasília não conhecia ninguém. Já estava acostumada, pois tinha viajado pelo mundo inteiro. Logo depois eu fui convidada pra me instalar na Universidade Católica. Era durante o dia nos Correios e à noite ministrando aula. Eram consultorias da União Postal Universal que é a união que congrega todos os países no mundo no que se refere a correios. Em 74 fui pra Colômbia participar do Seminário de Gestão de Pessoas. E logo depois, quando eu voltei, o centro de treinamento foi visitado pela União Postal da América e Espanha com o objetivo de transformá-lo numa sede dos cursos da UPAEP pra América Latina. Fomos então escolhidos pra dar esses cursos multinacionais, que foi de 76 a 78. Pelo meu desempenho foi solicitado uma bolsa de estudos pra mim na França e eu fui. Então todas as vezes que tinha missão de consultoria eu era convidada pela UPU, pra ministrar esse treinamento. Depois a UPU me convidou pra visitar os países de língua portuguesa, que eles tinham o objetivo de criar uma escola multinacional de língua portuguesa na África. Fui a Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, pra verificar desses países qual que tinha condições de instalar essa escola. Na Argentina fui convidada pra dar o curso de formação de instrutores, patrocinado pela UPU para todos os instrutores da América Latina. A universidade foi a transformação da Escola Superior de Administração Postal que passou pra Universidade dos Correios. Eles criaram a universidade, então o curso de Administração Postal foi pra lá. A gente começou a fazer os projetos de treinamento da universidade, principalmente gerencial e no treinamento da área comercial. Até o tempo que eu trabalhei nos Correios o treinamento era reconhecido porque ele era bom. A transformação dos Correios brasileiro foi através do treinamento, que não adianta você organizar, se o pessoal que vai trabalhar naquela instituição não está preparado pra isso. Então o treinamento realmente foi reconhecido no exterior. Hoje eu trabalho, sou professora na Associação de Psicanálise em Brasília, dou o curso de formação participo também da formação dos psicanalistas. O consultório eu fechei um pouco, mas agora reabri. Trabalho numa ONG, sou da diretoria de uma ONG, Casa Assistencial Casa Azul. Sonho a gente sempre tem, ai da gente se a gente não tem sonhos, mas os meus sonhos são esses, ver meus sobrinhos, que ainda estão em idade escolar, formarem a gente já, como eu disse, eu já vivi, eu acho que o que eu estou ganhando agora já é prêmio, já é gratificação então a gente tem de continuar esse trabalho, sonho de fazer sempre mais por alguém, sempre poder ajudar as pessoas não só na Casa Azul, mas todos aqueles que a gente gosta.

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