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História

Uma educadora revolucionária

História de: Haydee Nogueira Augusto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2007

Sinopse

Haydee Nogueira Augusto conta em seu depoimento fatos sobre a história de São Paulo e do Brasil, como a Revolução de 1932, a Segunda Guerra Mundial e o IV Centenário da Cidade de São Paulo. Fala também sobre a transformação de São Paulo de uma cidade relativamente pacata, na década de 1920, a megalópole. Haydee, que atuou na área educacional por mais de três décadas, fala também sobre sua trajetória e sobre a situação atual da educação no país. 

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História completa

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Pra começar eu gostaria que a senhora dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Haydee Nougueira Augusto, nasci no dia 7 de abril de 1924 na cidade de São Paulo, no Pontilhão da Rua Vergueiro.

 

P/1 – E... qual é o nome dos seus pais e dos seus avós?

 

R – Meus avós por parte de pai era João José Remigio Nougueira e a minha avó era Caetana Tereza Gali, o papai teve 11 irmãos. Por parte de minha mãe era Francisco Gentili e a vovó Fortunata Mastrodi Gentili, são italianos.

 

P/1 – Ah, são italianos?

 

R – E o papa... por parte de pai são uruguaianos.

 

P/1 – E qual era a atividade dos seus pais?

 

R – Papai era comerciante.

 

P/1 – Ele era comerciante em São Paulo?

 

R – É, comerciário.

 

P/1 – O quê que ele fazia, mais especificamente?

 

R – Ele... trabalhava numas lojas tradicionais de São Paulo, lojas de tecido, pale royal, que pessoas antigas devem lembrar e tecelagem francesa e Casa Moisés.

 

P/1 – Ele fornecia?

 

R – Ele era gerente dessas lojas.

 

P/1 – Ah... gerente, entendi. E a senhora tem irmãos, irmãs?

 

R – Eu tenho uma única irmã, Geni Nougueira Vasilievi.

 

P/1 – Ela é mais velha ou mais nova que a senhora?

 

R – É mais nova, 4 anos.

 

P/1 – E mora em São Paulo também?

 

R – Mora em São Paulo, é professora também.

 

P/1 – E... a senhora disse que nasceu no Pontilhão da Rua Vergueiro, é isso?

 

R – Na Revolução de 1924, por isso eu sou meio revolucionária.

 

P/1 – A senhora nasceu em casa ou em...?

 

R – Nasci em casa, naquele tempo era... não... não existia maternidade.

 

P/1 – E o seus pais eles moravam em São Paulo quando a senhora nasceu, mas eles eram originários da cidade?

 

R – O papai era de Campinas, nasceu em Campinas e a mamãe era de Capivari.

 

P/1 – A senhora sebe como eles se conheceram, como foi que se casaram?

 

R – Como se conheceram?

 

P/1 – Foi em São Paulo, será?

 

R – Foi em São Paulo, aqui em São Paulo.

 

P/1 – Ah, foi aqui mesmo.

 

R – Aqui em São Paulo que a mamãe conheceu..., a mamãe passou pela gripe espanhola aqui em São Paulo, né? Em 1918/19, né? Que ela veio de Jaú pra cá. E o pai da mamãe foi aluno de Verdi, o Francisco Gentili; e muito amigo de Carlos Gomes lá na Itália, por isso, ele veio pro Brasil diretamente pra Campinas. Ele era um sonhador, um artista, era um sonhador; ele era decorador, ele era pintor, tem muitas obras dele..., compositor, tem muitas obras dele aí esparramadas pelas fazendas antigas de Campi... de... Minas Gerais.

 

P/1 – Que ótimo. E quando a senhora nasceu aqui em São Paulo, quando era criança, na sua infância, quais são as recordações que a senhora tem do bairro, ali da região onde a senhora morava?

 

R - Eu morei... A maior recordação que eu tenho daqui de São Paulo é que eu morei na Rua Conde São Joaquim, em 1932, na Revolução de 32. Então, depois das dez horas a cavalaria tava na rua e laçava os homens pra ir pro fronte. A mamãe montou um batalhão de crianças e... que era pra estimular o pessoal e pra a Revolução de 32, a Revolução Constitucionalista. Então, a gente fazia desfile. E me lembro muito de..., eu morava na Liberdade, era um local de muito conflito, então, de vez em quando tinha os tiroteios e não existia televi-... é... rádio... nem rádio naquele tempo e eu, papai, a mamãe nós íamos no Largo da Pólvora, tinha uma pensão que tinha um rádio, então a gente ia ouvir... reunia diversas pessoas pra ouvir as notícias da Revolução de 32. Fui no enterro, me lembro de ter ido no enterro de Pedro de Toledo, que foi o governador de São Paulo. Eu me lembro... muitas coisas de 32, que a gente fazia campanha, a mamãe fazia campanha, ganhou o parabéns de São Paulo. O papai recolhia os...; nós morávamos na Conde de São Joaquim, hoje é 23 de Maio, onde eu morava, hoje, é a Avenida 23 de Maio, minha casa foi derrubada. E tínhamos um porão e papai ficava com pena dos... voluntários que vieram do norte e punha tudo lá no porão da minha casa...(RISOS)...

 

P/1 – E ficavam lá?

 

R – Ficavam lá por uns tempos, né? E até, esse tema fuchico, era um tema que veio do norte, porque quando via qualquer movimento ele falava: “Tem um fuchico é... na cidade”.

 

P/1 – E dona Haydee, nessa época da Revolução de 32, foi uma época de carestia, de dificuldade de alimentos...?

 

R – De alimento não.

 

P/1 – Não?

 

R – Só na Segunda Grande Guerra sim, que eu senti isso, carestia, mas em 32, eu não sei se eu era muito jovem, não, não senti. Eu sei que a gente estimulava muito o pessoal ir para o fronte; mas eu tenho um tio que foi pro fronte e ele falou que não existia hã...é... metralhadora, então, ele pegava uma matraca e toca... e tocavam, que era pra assustar os outros combatentes do Rio de Janeiro, né?

 

P/1 – E...e...

 

R – Ele foi enfermeiro, esse meu tio, Francisco Gentili Filho, ele foi um herói da Revolução de 32. Meu sogro também foi, meu sogro era padeiro, português, puseram ele na padaria...(RISOS)..., fazer pão na Revolução de 32. Eu tenho dois heróis na família.

 

P/1 – E ainda quando criança, nessa época ou um pouco antes, fala um pouquinho sobre a cidade de São Paulo, como era?

 

R – Ah..., eu morei no Largo Conde Sarzeda, é bem aqui na esquina da Glicério, hoje tem um colégio grande, municipal, eu morei lá e.... era muito bom, a época era muito boa, era só japoneses que moravam lá, mas só japoneses na Conde Sarzeda, foi quando veio a imigração japonesa, né? O começo eles se localizaram tudo na Conde Sarzedas. E papai mon... trabalhava na 25 [de Março], então, nós morávamos perto, mais ou menos perto; papai atravessava o Parque Dom Pedro e...tinha o Parque Shangai, tinha o...quartel no Parque Dom Pedro, o quartel do exército, que depois, esse quartel começou a brigar com os alunos da es...do...do estado, que era uma escola em frente e... precisou mudar, porque tinha...brigas tremendas, então, eles mudaram pra Rua do Carmo. E eu estudei na Escola Muni...hã...Escola Estadual Miss Browne, que era bem em frente o quartel no Parque Dom Pedro II. Era muito bom, eu me lembro que eu saía com a minha irmãzinha pequena, que era 4 anos mais nova; uma vez o Miss Browne foi fechado e eu peguei, por causa de política, qualquer coisa, justamente, por causa dos soldados e saiu, então, eu peguei a minha irmã, eu devia ter uns 7, 8 anos, peguei a minha irmãzinha e fui na Praça da Sé, onde era a delegacia de ensino, falei: “Eu vim aqui, porque eu quero que “reabrem” a Escola Municipal... a Escola Estadual Miss Browne.” Então, eles falaram: “Mas uma criança pequena.” Me puseram em cima da mesa do delegado de ensino e a minha irmã também, então eu comecei a falar que eu queria voltar pra escola e que a escola tinha sido fechada, tal. Então, eles alugaram uma casa na Rua Guaianases e fizeram a Escola Estadual Miss Browne, na Rua Guaianases; eu saía da minha casa e ia lá na Rua Guaianases estudar.

 

P/1 – E era uma escola só pra meninas, era...?

 

R – Não, era mista já.

 

P/1 – Mista?

 

R – Já era mista naquela época, era de 1ª a 4ª sé... 4º ano, né? Que antigamente falavam 4º ano.

 

P/1 – E... como era essa escola, como era o cotidiano, como era... a relação com os professores nesse período?

 

R – Ótima! Minha primeira professora foi dona Estela Madeira, que me alfabetizou, mas ótima! Professoras muito dedicadas e... o meu primeiro diretor foi o meu chefe de escoteiro, Horácio Coalho, uma página na educação brasileira, foi Horácio Coalho, era o diretor dos pioneiros paulistas, combatente também de 32, o corpo dele está no Mausoléu.

 

P/1 – E... nessa fase ainda de criança, quais eram as brincadeiras que a senhora gostava?

 

R – Ah..., as brincadeiras era... cobra cega, era... lenço atrás, era... ping-pong, era... gigolô, era um... que gente jogava, era muito gostoso, era muito bom.

 

P/1 – Existia uma convivência com as crianças do bairro, da vizinhança?

 

R – Tinha convivência com as crianças do bairro, havia amizade, muita amizade, amizade pura, amizade maravilhosa, muito diferente de hoje. Uma... um vizinho, eu acho que é mais do que um parente, um bom vizinho é mais do que um parente.

 

P/1 – E...nessa época que a senhora disse que morava ali na região de... estavam os japoneses que tinham chegado há pouco tempo do?

 

R – Era quase tudo...

 

P/1 – Como que era a interação com a comunidade japonesa, existiu? Ou eles eram uma comunidade fechada...?

 

R – Eles são meio reservados, mas quando a gente conquista a amizade da família japonesa eles são muito... amigos, é...é muito bom ter uma amizade com uma família japonesa, porque eles são muito amigos, muito sinceros.

 

P/1 – E a sua família tinha...

 

R – Amizade...

 

P/1 - ...amizade com família de japonês?

 

R - ...tinha, tinha... com a família japonesas lá do bairro, quando eu morava na Conde Sarzedas.

 

P/1 – E... como era o cotidiano da sua casa, na sua infância, que a senhora lembra?

 

R – Papai saía cedo, ia pra loja trabalhar, vinha, voltava na hora do almoço, almoçava, descansava e depois voltava pra loja, tinha 2 horas de almoço, então, até dormia, e depois ia pra loja trabalhar. E... papai...7, 8 horas ele tava em casa novamente. Eu fiz o curso noturno, né? De... contadora, eu fiz o curso noturno...

 

P/1 – Mas assim, é...depois do Miss Browne a senhora fez o ginasial, é isso?

 

R – É..., não, depois do Miss Browne eu entrei no Propedêutico. Propedêutico seria um pre...um...um ginásio de três anos, depois fiz três anos de Contabilidade na Rua 11 de Agosto, hoje é a...Praça Clovis, onde tem o metrô, era no prédio Santa Helena, é um prédio histórico de São Paulo. Esqueci de dizer, que...antigamente, as quintas-feiras, tinha o matinê das senhoras, então, todas quintas-feiras a gente ia assistir...ia no cinema, pagava muito baratinho e a gente ia no Santa Helena, no Paramont, ia assistir filme, a  gente... Eu me lembro de ter assistido o King Kong no Santa Helena, horrível, aquelas cenas do King Kong, eu era bem criança, devia ter uns 8 anos.

 

P/1 – E...aí, nessa época que a gente tá falando a senhora já era maiorzinha, já era uma adolescente...?

 

R – Não, adolescente não.

 

P/1 – Criança adoles... ainda era criança?

 

R – Era, ainda sou criança...(RISOS)...

 

P/1 – Ah...tá, só pra eu me situar. E... aí, depois da contabilidade, porque foi o...o Miss Browne, o Propedêutico?

 

R – O Propedêutico técnico, que era o contador, depois eu...; o meu marido é da minha turma de contador e... fizémos o curso junto, mas só no fim do ano que nós começamos a namorar. Então, fomos escolher a ba...a...no teve a última aula, falamos: “Então, vamos na Barão de Itapetininga, escolher o anel.” Tinha as joalherias, então, nós fomos ver os anéis pra..., porque anel de formatura era o essencial...(RISOS)...naquela época, então, nós fomos... E aí comecei a namorar com ele, mas ele foi meu colega de turma durante os três últimos anos.

 

P/1 – E quando jovem, o quê que a senhora fazia pra se divertir com os amigos?

 

R – Ah..., o quê que eu fazia pra me divertir? Eu frequentava a UNE, então, eu ia aos bailes do Trianon, que eram maravilhoso, era UNE, era União dos Estudantes, né? Eu frequentava e tinham os bailes, matinê, das duas em diante, eu gostava de dançar, dançava Swing, é... tinha campeonato de Swing, cheguei a ganhar tacinha porque...ia eliminando, eliminando e eu fiquei por última. E quem ia nessa época também, frequentava a UNE, era a Inezita Barroso e eu era muito parecida com ela, nós duas éramos tão parecidas que as duas se assustavam quando se encontravam, e ela frequentava também a UNE... União dos Estudantes. Aí, eu tinha uns dezesseis, dezessete anos, não era nem formada ainda contadora.

 

P/1 – E nessa época como que era a Avenida Paulista?

 

R – Avenida Paulista? Eu conheço a Avenida Paulista anterior, quando eu era menina, quando era só palacetes, maravilhosos! Eu me recordo que teve uma... um desfile dos Integralistas do...Plínio Salgado, né? E... eu sei dizer que não...; a mamãe foi, a mamãe era muito cívica, gostava muito de movimentos e teve um levante com a turma de comunista, então, a gente notava que ele... os comunistas fechavam a mão firme e os Integralistas levantavam os braços e falava: “Anauê, anauê!” E eu me recordo que teve um tiroteio tremendo e...e nós pulamos aquelas grades enormes dos palacetes pra fugir do tiroteio. E eu morava é... na... Rua Cubatão já, nessa época, mas foi um levante muito grande de que... qué... qué...aconteceu com os integralistas e os comunistas.

 

P/1 – E nessa época da sua juventude, que a gente tá falando mais ou menos, São Paulo já era uma cidade dessas proporções...?

 

R – Era uma maravilha! Eu vou dizer, eu saía às dez e meia da Rua 11 de Agosto, atravessava...; e... uma vez houve um incêndio muito grande, papai me esperava, costumava me esperar..., aí, eu morava na Mooca, na Rua da Mooca e papai me esperava no ponto do ônibus, porque eu ia no Largo do Tesouro, tomava o ônibus e descia pra a...a Rua da Mooca, mas houve um incêndio muito grande e nos bondes estavam passando, então, eu...eu ia a pé, eu fui a pé da 11 de Agosto, a Rua 11 de Agosto, atravessei o Parque Dom Pedro, mas a gente podia atravessar, atravessei o Parque Dom Pedro, atravessei o Rio Tamanduateí e cheguei na minha casa, junto com o bonde, porque aí apareceu o bonde...(RISOS)..., mas era onze e meia da noite. Papai..., eu lembro que o papai ficou bravo, né? Porque ele tava esperando o bonde e num... o bonde não desceu, eu vim logo atrás, porque o bonde andava mais depressa e... Mas... não havia assalto, não havia roubo, não havia nada, era uma maravilha você andar, onze e meia da noite, onze horas da noite, qualquer horário você podia andar em São Paulo.

 

P/1 – E...o convívio na cidade de São Paulo, como era? Não era da maneira como nós conhecemos hoje certamente?

 

R – Não, o relacionamento... a gente conhecia todo mundo, conhecia o dono do empório, conhecia o dono da farmácia, é...conhecia todo mundo, tinha amizade com todo mundo, era muito bom! O carnaval era muito bom! Eu me lembro do carnaval, nós...o papai nos levava assistir os desfiles carnavalescos com aqueles carros “alegório” de... a..., como é? O... diabo não sei o que, era uma porção de coisa. Eu me lembro também de... eu gostava da parte de teatro, assim, eu apresentei uma porção de vezes na classe laboriosa dançando, cantando, na escola declamando, a mamãe gostava muito dessa parte e me preparava, então, eu declamando o 7 de Setembro, foi um dia de glória, uma coisa muito bonita. Eu devo tudo a minha mãe, minha mãe foi uma heroína, uma educadora maravilhosa que soube nos orientar muito bem; e o exemplo do meu pai foi também maravilhoso, porque ele era um homem honesto, um homem fabuloso! Eu fui premiada.

 

P/1 - (RISOS) E dona Haydee, como que era, nessa sua época de juventude ainda, a questão da moda, da roupa, como as pessoas se vestiam?

 

R – Ah..., eu..a gente se vestia muito bem, mas a... completamente diferente, você era incapaz de pôr um...um vestido rosa com uma fita vermelha, Deus me livre! Ou um vestido rosa com uma fita azul, usava-se muito fita e era uma moda muito bonita. A minha mãe era muito caprichosa e zelava muito por... pra... por... pela roupa, pela apresentação. Eu tinha a minha madrinha que era massagista da família Matarazzo, minha madrinha era francesa e os Matarazzos tinha... o casal Matarazzo tinha uma neta que era casada com... um filho dum príncipe lá da Itália, quando era a época do príncipe, e ela tinha minha idade, então, vira e mexe eu recebia umas caixas da madrinha, recebia umas caixas com roupa da princesa, cê imaginou?...(RISOS)... Eu vestia as roupas das princesas, eu era... meus pais eram pobres, mas eu cheguei a vestir roupas da princesa.

 

P/1 – E... hã... quais partes de São Paulo mais a senhora se recorda de frequentar naquele período, de como era, contar pra gente mais detalhes?

 

R – Ah..., eu me recordo da gente ouvir o... Orlando Silva na sacada da Rua Direita da Rádio Record, então, Orlando Silva cantando aquelas canções maravilhosas e o povo embaixo assistindo a apresentação do Orlando Silva. Conheci também, muito, o Adoniran Barbosa, que ele foi trabalhar na loja do papai e ele só batucava, o dia todo, não atendia cliente, só batucava, um dia o papai falou assim: “Adoniran, é melhor cê ir lá pra Record, porque você não nasceu pra ser vendedor não, vai ser artista.” Ele era jovem, ele tinha vindo de...Valinhos, que era a terra dele: “Vai pra lá, porque você não nesceu pra ser vendedor.” E... então, ele saiu e nas entrevistas dele, ele dizia: “O turco me mandou embora, porque eu vivia fazendo batucada no balcão.” É... eu me lembro é...do papai comentar, depois nós nos tornamos amigos do Adoniran Barbosa, né? Porque ele lembrava do papai, tudo e ele... eu frequentava lá. A Isaura Garcia, ela cantava no Quá Quá 40 na Rua Espírita e ela ia escondido dos pais, então, ela deixava..., ia um dia antes, deixava a roupa na casa da minha avó que morava lá no Quá... perto do Quá Quá 40 da Rua Espírita, deixava as roupas lá pra no domingo ela ir se apresentar no Quá Quá 40, que era o Otávio Mendes que apresentava o Quá Quá 40, dentro da fábrica, era um programa de calouros, de lá que saiu a Isaura Garcia. Eu tinha um tio que cantava tango também, mas a namorada não deixou ele prosseguir.

 

P/1 – E o centro de São Paulo, é... tinham o hábito do footing, não é...? De caminhada...?

 

R – Ah... tinha, todas as noites, todo o bairro tinha um lugar de footing, então, eu...eu ia na Brigadeiro Luiz Antonio, a gente ia em frente ao Paramont, então, a gente...as meninas passavam na calçada e os meninos ficavam encostados na...nas casas, né? E... ficava na beira da calçada e a gente ficava passando, tinha no Trianon, tinha na Brigadeiro Luiz Antonio e era normal esses passeios...

 

P/1 – Tinham lugares determinados pra... acontecer?

 

R – Um lugar determinado pra fazer o footing, a gente ia passeando lá, olhando, flertando, era muito gostoso, tinha bastante flerte. Tinham flertes..., eu não conheci... eu não...não sabia, mas um dia ele me falou assim: “Eu venho aqui na Brigadeiro só pra te ver.” E né? E... depois nós...

 

P/1 – Seu fã?

 

R – É, é: “Ia lá na Brigadeiro só pra te ver.” E era tão delicado, eu me lembro que tinha um rapaz chamado Jo...José Coelho, ele pegou assim: “Quer ver a minha namorada?” Falou pra mim: “Quer ver a minha namorada?” E me mostrou um espelho...(RISOS)..., era eu, quer dizer, ele tava de olho.

 

P/1 – Mas, é... nessa época a senhora ainda não conhecia o seu...o seu marido, né? Ou pelo menos não namorava?

 

R – Ah... não, não era namorado, não era namorado.

 

P/1 – E começou a namorar no último ano do...do...da...da...?

 

R – É, comecei a namorar, mas eu fui namoradeira, viu? Namorei até japonês.

 

P/1 – Ah...

 

R – Mas aquele namoro era um... era um namoro puro, bonito, maravilhoso! Da gente encostar o ombro no cinema, quando chegava no cinema, eu ia no cinema Capitólio, era na Rua São Joaquim, era uma maravilha! O papai falava assim pra mim: “Haydee, você me cata o cabelo branco.” E punha 1 Real, que era 1...Re... 1 Cruzei...não, é...1 Réis, 10 Réis, não sei quanto que era, punha as...em cima do criado mudo, ele tinha poucos cabelos brancos: “Cê cata o cabelo branco, na hora que eu dormir cê pega o dinheiro e vai pro matinê.”...(RISOS)... Então, eu começava a mexer na cabeça dele, ele dormia e eu ia pro matinê. Ah... era maravilhoso! A gente sentava... os meninos: “Posso sentar perto de você?” Tinha um lugar desocupado: “Posso sentar perto de você?” A gente sentava, mas era um respeito! Pra pegar na mão, era um respeito que cê precisa ver, eu sempre... não sei se é...é...o meu temperamento, mas sempre exigi muito respeito. Então..., mas a gente só de encostar o ombro, a gente sentia uma sensação tremenda, até tremia..., era muito...

 

P/1 – E a senhora casou com quantos anos?

 

R – Hã?

 

P/1 – A senhora casou-se com quantos anos?

 

R – Com 24.

 

P/1 – 24?

 

R – Fui noiva quatro anos.

 

P/1 – E... a questão da Segunda Guerra, como foi na cidade de São Paulo, que a senhora disse que daí sim teve essa questão da carestia, quantos anos a senhora tinha na época da guerra?

 

R – Na... na época da guerra eu devia ter... foi em 1900...

 

P/1 – Começou em?

 

R - ...e quaren...

 

P/1 – 39, mais ou menos.

 

R – 39, 40, né? Eu... trabalhava no Licor de Cacau Xavier, era do Assis Chateaubriand, do dono dos Diários Associados, eu trabalhei, sabe com quem? Com as duas irmãs da Hebe Camargo, trabalhei com a Estela, com a Cida , conheci a Hebe Camargo menininha, com 13 anos, mas sempre danada. E... o Paulo, irmão dela, e o Figo e a Lurdinha, são os irmãos da Hebe. E... no meu casamento o pai da Hebe, o Figo Camargo tocou hã...tocou na igreja. E... eu fui em muito...muitos bailes com a Hebe Camargo, uma coisa muito íntima, nem sei se eu devia falar, emprestei até vestido pra ela, ela falava assim: “Aí Haydee, que vestido lindo o seu de formatura! Eu vou fazer a caravana da alegria.” Era na cidade do interior: “Cê me empresta aquele vestido?” Eu emprestei o meu vestido de formatura pra ela. Hoje, ela..., mas ela merece, viu? Era uma... mulher maravilhosa, mas sempre danadinha, aquele jeito tremendo dela, sempre foi, tinha o Paulo e o...Figo, pai dela, atrás dela, mas ela sempre dava umas rasteiras neles.

 

P/1 – E...hã...isso foi no período da guerra?

 

R – E a gente frequentava os bailes com a Hebe também.

 

P/1 – Ah, frequentava também?

 

R – Ah...ela ia na minha casa...; um dia ela foi na minha casa fazer uma...nhoque, só que nós comemos de colher... a nhoque...(RISOS)...

 

P/1 – Não deu muito certo?

 

R - ...(RISOS)... Não deu certo.

 

P/1 – E a senhora tava falando que na época da Segunda Guerra a senhora trabalhava no Licor Xavier, é isso?

 

R – Eu ta... é...na Segunda Guerra eu trabalhava no Licor Cacau Xavier.

 

P/1 – E como foi quando começou a guerra, que chegou essa notícia de que tinha começado uma guerra?

 

R – Olha, começou a guerra, né? O...o... Getúlio..., o povo brasileiro é...não queria que entrassem na guerra. O Getúlio Vargas não queria, porque diziam que o Getúlio Vargas era meio... hã...lá da Gestapo, ele gostava, era... Mas o povo obrigou ele entrar; eu... adoro o Getúlio Vargas, acho que foi uma figura maravilhosa, que foi um homem que deu progresso no Brasil, principalmente, pras classes de trabalho, eu recebi meu salário mínimo a primeira vez foi com o tempo de Getúlio Vargas, ele era uma simpatia, ele era um... E eu sei dizer que em 32 o povo, então, na guerra o povo obrigou ele a entrar em guerra, ele foi quase que obrigado a entrar, que ele não queria entrar em guerra, então, as autoridades, os militares procuravam os nomes mais... de pessoas, de italianos, descendente de italiano pra mandar pra Itália, sabe? Era um negócio, que era convocado pra ir pra guerra. E... japonês, é...italianos, ele já procuravam, punha esse pessoal lá. Mas eu tive na Itália e eu fui lá no mausoléu aonde estão enterrado os...todos os pracinhas, vi nome de pessoas amigas, conhecidas lá na...naquele lugar maravilhoso, agora que eu esqueci o nome lá, “Pistoera”, né? Não é “Pistoera”, não. Não me recordo, onde estão os... estavam os pracinhas enterrados.

 

P/1 – E...aí, essa época fo...foi uma época também complicada de...de...trabalho de...de...?

 

R – Complicada de... de... Aí, não tinha trigo, as padarias..., a gente começou a ir pro fubá, era pão de fubá, era dificuldade de carne, dificuldade de pão, comprar pão precisava fazer fila, de tudo, foi muito difícil no tempo da... da Segunda Guerra, muito mais do que da Revolução de 32. E... as pessoas sofreram bastante com a guerra, então, eu trabalhei, como eu era auxiliar de guerra, eu fui..., como é? Eu era... vigilante do ar, então, nos blecautes a cidade escurecia todinha dava o sinal de blecaute, tava preparando, né? O pessoal procurava esconder-se no abrigo e... não podia um cigarro tá aceso. Então, eu me lembro de ter trabalhado na Rua... hã...na Rua Líbero Badaró, na Rua...Boa Vista, o meu setor era aquele, então, a gente ficava vigiando pra quem fumasse, aonde tinha uma luz, que tinha que apagar, preparando o povo pra uma possível bombardeio. Lembro, também, de navios que foram... a pique, né? Que eles fi...; os alemães tiveram aqui nas costas do Brasil e diversos navios fo... foram a pique, naquela época, que eles derrubaram. Foi uma época “meia” triste pro Brasil, mas vencemos.

 

P/1 – E a senhora casou-se em que ano, dona Haydee?

 

R – Eu casei em 48, 1948.

 

P/1 – Então, foi logo depois da guerra, né?

 

R – É, 9.... é... 25 de setembro de 1948, casei na Nossa Senhora do Carmo. E quando eu era menina, Nossa Senhora do Carmo fica aí na Martiniano de Carvalho, quando eu era menina morava na... São Joaquim, Conde São Joaquim, estavam construindo a Igreja do Carmo e eu... lembro que tavam fazendo a escada, tem uma escadaria muito bonita, eu subia os degrauzinhos e falava assim: “Eu vou casar nessa igreja.” Olha!

 

P/1 – E casou?

 

R – E casei naquela igreja.

 

P/1 – E como foi o dia do seu casamento?

 

R – Ah...foi...um casamento normal, bonito.

 

P/1 – Mas marcou muito a senhora, a senhora tava muito nervosa?

 

R – Não, acho que não, quatro anos já noiva, tudo. Foi muito bonito, foi... a igreja tava muito bonita e todos os meus amigos, bastante amigos e...foi tudo muito bom, teve uma festa na casa da minha mãe e com muita coisa, depois a mamãe...o que sobrou a mamãe foi e distribuiu prum asilo que tinha da Divina Providência na Rua da Mooca, foi... E eu fui de lua-de-mel um dia só, pra Santos, fiquei num Balneário Hotel, que era um hotel mais de luxo, mas fiquei só uma... é...depois..., porque o meu marido tinha...o meu sogro tinha um..., em frente a...Mackenzie, ele tinha um bar lá e meu marido precisava ajudar, então, não dava, então, a minha lua-de-mel foi só...(RISOS)...dum dia, mas depois eu voltei.

 

P/1 – E quando a senhora se casou, a senhora...?

 

R – Quando eu me casei?

 

(troca de fita)

 

P/1 – E...quando a...a...a senhora se casou, a senhora se mudou pra onde?

 

R – Quando eu me casei eu me mudei pra Água Rasa e..., uma casa do meu sogro. E como o meu marido... não queria que eu trabalhasse mais..., porque num...queria que trabalhasse em escritório, eu tinha um bom emprego, eu era...trabalhava...no Sindicato dos Químicos, no 14º andar do prédio Martinelli, eu...era secretária executiva do Sindicato dos Químicos do Estado de São Paulo, ganhava até mais que o meu marido, mas ele falou: “Não, tem que sair.” Eu não me conformava, porque eu trabalho desde a idade de 14 anos, trabalhava. E chegar pro marido e pedir 10 Reais era duro, viu? Eu era independente, eu sou independente, mesmo com 83 anos, meus filhos não se conformam de eu ser independente e resolver tudo. E eu não me conformava de precisar depender, aí, saiu o liquidificador e eu tinha amizade com a cunhada do Ranieri, que era o representante de liquidificador em São Paulo, eu vendia liquidificador, eu fazia é... bico de pena em trabalhos manuais pra ganhar dinheiro, porque eu não me conformava ter que pedir...dinheiro. Aí, sem o meu marido saber eu fui fazer o normal, ele ia trabalhar, aí, eu fui fazer o normal. Eh... meu Deus do céu, foi uma guerra!

 

P/1 – Ele não queria?

 

R – Ele não queria, a minha sogra, principalmente, era daquelas mulheres antigas, achava que a mulher tinha que aprender bordado e costura. Ser dona de casa. Eu tinha um espírito completamente diferente, então, existia muito choque. E eu, então, fui fazer normal e o primeiro dia que eu recebi o diploma já fui trabalhar, fiz dois anos de normal, deixava as minhas crianças no parque infantil, os três que eu tinha, e... ia pra escola fazer o normal, sofri muito, porque fazia dez anos que eu não estudava, sofri bastante, mas venci, foram... Me formei no Domingos Faustino Sarmiento, é lá na Rua 21 de Abril, me formei normal pelo meu...o meu diretor, também, um grande educador, professor Volnir.

 

P/1 – E... mas seu marido em algum momento descobriu que a senhora tava cursando?

 

R – Ah... ele tava...descobriu, bravo, mas depois que começou a entrar um dinheiro...(RISOS)...mudou as coisas.

 

P/1 – E... e logo que a senhora terminou o normal a senhora passou a dar aula?

 

R – Passei dar aula, comecei na Vila Industrial, era o tempo do Toledo Piza, ele foi o prefeito de São Paulo, e ele fez uma revolta na educação, Vladimir de Toledo Piza, ele era médico, mas ele falou: “Aonde existir uma árvore a gente abre uma escola.” Então, as meninas..., normalmente, “as escolas estaduais” precisavam ir pro interior, deslocar, ia tudo pro interior. E o ensino municipal localizava aqui no estado de São Paulo, aqui, né... em São Paulo, então, eu sou fundadora do ensino primário municipal, eu sou das primeiras 100 professoras nomeadas e eu pe...peguei a Vila Industrial, então, eu fazia o levantamento de 40 alunos, eles nomeavam como professora, provava que é...tinha o curso normal e nomeavam como professora. O local onde eu trabalhava era tão pobre que os alunos...; eu tinha um aluno que achava normal comer casca de banana, era uma pa... Eu fiz um levantamento médico, pedi um levantamento médico e foi constatado, tenho isso registrado nos Diários Associados, no jornal da época, que 99% das crianças eram subnutridas. Então, num dia das mães eu e os professores fizemos uma festa, a “Sopa Escolar”, eu fui num programa da Tupi pedir..., não tinha nada, porque o ensino primário municipal tava começando, eu pedi, fiz um apelo no programa do Maurício Loureiro Gama e do Tico-Tico, e fiz um apelo ao meio-dia... pra querer fazer uma sopa escolar pra aquelas crianças que estavam subnutridas, aí, surgiu a sopa escolar, porque não existia a sopa escolar, todo mundo, anteriormente, levava o lanchinho de casa, aí, surgiu a sopa escolar, foi um passo que eu dei, aí, as outras escolas começaram a imitar. Recebi da Fundição Brasil, do Comendador, dono da Fundição Brasil, três fogões, quando eu fiz o apelo. Recebi da Panex muitas panelas. A Wilson do Brasil ofereceu a carne, então, todo dia eles mandavam os... dois, três quilos de carne pra minha escolinha. E eu ia na feira, pedia pros negociantes lá no bairro, que era um bairro paupérrimo, Vila Industrial, e eu pedia e a...aí, no dia das mães nós inauguramos a sopa escolar, foi a primeira sopa escolar em São Paulo, depois começaram a fornecer, as outras escolas seguiram, a dona Ana Silveira Pedreira, que era a diretora da parte social do ensino primário municial, começou a divulgar, as outras escolas começaram a fazer a sopa escolar, mas a minha escola foi a primeira.

 

P/1 – E a senhora ficou durante toda a sua vida nessa escola ou mudou de escola posteriormente?

 

R – Não, eu fiquei...um...fiquei dois anos nessa escola. Em 1958 eu fui pra escola que eu fiquei 27 anos como diretora, Escola Municipal Leonor Mendes de Barros, era uma mulher fabulosa, era uma mulher... esposa do Adhemar de Barros, mas era um coração, ela era fundadora da.. Liga das Senhoras...  hã...das Senhoras Tuberculosas lá de Campos de Jordão, ela é...ela cuidava demais, ela fazia o Natal das crianças pobres, distribuía em todo...a periferia, cartão e as crianças recebiam bola, brinquedo, tudo, foi uma mulher fabulosa. Tenho a honra de dizer que foi minha amiga, nós nos tornamos amigas e ela gostava demais da minha escola, ela falava assim: “Como que está a minha escola?” Era a escola dela, dona Leonor gostava demais, duas, três vezes por ano ela estava na escola, no dia das mães nós fazíamos uma festa muito bonita, em maio, a escola foi inaugurada no fim de março, então, a dona Leonor estava presente sempre na inauguração da escola. Eu fiquei 27 anos nessa escola.

 

P/1 – A senhora começou como professora?

 

R – Eu comecei como diretora já.

 

P/1 – Ah, já começou como diretora?

 

R – Como... comecei como diretora, eles indicavam a pessoa mais..., não prestei concurso, é...a pessoa mais experiente, eu já tinha um curso de contadora, eu já era casada, porque comecei com jovens tudo de 18 anos. Mas olha, vocês podem ver no Orkut, na televisão tem a escola Leonor Mendes de Barros, tem mais de... 600 inscritos já.

 

P/1 – E como foi, ao longo do tempo que a senhora esteve como diretora nessa escola, a evolução da escola, as mudanças no ensino?

 

R – Olha, o ensino primário munici... hã...antigamente o ensino público era uma maravilha, eu tenho...os seis...os três primeiros filhos são formados pela Unicamp, pela USP com base do ensino público, era uma maravilha, todo...é...escola hã...particular...era em segundo plano e todo...você vê que todos os grandes personagens vieram de escolas públicas. E eu... era um ensino muito bom, eu tinha alunos lá de...da periferia que entraram em Física na USP, tenho alunos que formaram em medicina pela USP, lá da periferia, que essas crianças não sabiam nem usar a instalação sanitária quando eu fui pra lá, eu ia com as crianças pra ensinar como usar as instalações sanitárias, era um...um bairro pobre, cresceu. Um aluno fez uma declaração no Orkut: “A Dona Haydee foi o progresso da...da cidade, daqui do nosso bairro.”

 

P/1 – Em que bairro fica a escola?

R – Santa Clara, é...Água Rasa mais ou menos. E... ele...esse aluno fez esse depoimento, que eu fui..., que eu ajudei todo mundo, eu ajudava mesmo, naquela época não precisava...hã...não havia concurso público e eu com a amizade com dona Leonor, eu consegui fazer muita gente feliz e ter uma meta de vida arrumando emprego, então, eu pedia pra dona Leonor, a dona Leonor dava uma cartinha e arrumava o emprego. Um dia desses, foi muito interessante, eu tava no Banco do Brasil numa fila, e nisso, tinha um senhor na minha frente também, nisso, quando eu cheguei no...abriu a porta do banco a gerente falou: “Bom dia dona Haydee!” Esse senhor virou pra trás e falou assim: “dona Haydee, a senhora era diretora da Leonor Mendes de Barros?” Eu falei: “Fui.” “Eu fui seu aluno, a senhora não lembra que a senhora me deu...” Olha o termo dele: “A senhora me deu um papelzinho, uma vez, pra mim ir lá na Regional pra arrumar um emprego.” Eu falei: “Lembro.” Ele falou: “É, tô me aposentando hoje.“ E...a gerente...a gerente falou: “E ele tá aposentando aí, tá assinando aqui, recebendo as coisas que ele tá se aposentando.” Mas eu arrumei muitos empregos, arrumei pra pessoal de...juizado de menores, arrumei pra diversas pessoas no juizado de menores, que faziam 18 anos e não tinha pra onde ir, então, eu mandava lá pra dona Leonor. Resolvia tudo, a dona Leonor era fabulosa, ela pedia pro Dr. Adhemar e então encaminhava. Encaminhei gente pra... pro pronto socorro municipal como guarda. Olha...

 

P/1 – E a senhora ficou de quando a quando na... a frente dessa escola?

 

R – Eu fiquei de...1958 a 1985... 1984, 85 mais ou menos, fiquei 27 anos lá.

 

P/1 – Aí, a senhora já se aposentou?

 

R – Aí não. Eu fui pra supervisora, mas supervisão é horrível, fui porque é obrigado ir, mas eu gosto de administração, de direção.

 

P/1 – Mas supervisão você fica numa escola também ou não, como que é?

 

R – Não, você supervisiona diversas escolas, então, tem o setor seu e você faz a supervisão nas escolas, vê como é o trabalho da diretora, a dificuldade que a diretora tem, procura ajudar. Mas... eu gosto mais é administração, foi um tempo, as vezes, eu fu... quero analisar, o que foi melhor na minha vida, Criar seis filhos ou ser diretora duma escola? Eu fico em dúvida, viu?

 

P/1 – E... como supervisora a senhora tinha uma região específica?

 

R – Específica.

 

P/1 – Qual era a região que a senhora cuidava?

 

R – Campo Limpo, Jardim das Rosas, Campo Limpo, aquilo tava começando e foi bem duro, bem difícil a gente progredir lá, mas parecia que nascia gente pela terra, eu pedia pra minha... chefe: “Eu preciso de 2 classes.” Ela dava 4, criava mais 4 classes, você não acredita, quando a...a... era criação precisava mais de 4, nunca vi é....a...ó...o tempo que vieram o pessoal do nordeste, então, localizava tudo por lá, pelas zonas de Santo Amaro, Campo Limpo, e aquela vila lá, tudo...hã...aquelas vilas... de fi... do nome lá..., progrediu tudo lá... Santo Amaro a área de Santo Amaro. E a gente comprava um terreninho por...por...por...40 Reais, e hoje, diz que tá uma maravilha, eu num voltei mais lá. Mas é... via aonde tinha a necessidade de mais escolas e pedia a criação de escola. Ensino municipal era uma maravilha, era o melhor ensino que tinha em São Paulo, ultrapassava o estadual, talvez pelos professores que ganhavam muito..., ganhavam o dobro do estado, viu? Os professores municipais até hoje ganham quase o dobro do estado.

 

P/1 – Mas naquela época o que o... o que o professor ganhava, né? O que um professor ganhava era uma quantia boa, era uma quantia...?

 

R – Era, era o suficiente.

 

P/1 – Era o suficiente?

 

R – Era o suficiente. O ensino primário municipal, eu não me lembro.o dinheiro que era naquele tempo, era 8 e 400, quando...o... o estado era bem menos, mas era o suficiente. Mas naquela época, eu vou te dizer, os homens diziam assim: “Hoje em dia não vale a pena mais casar com professora, hoje a gente tem que casar com gente que trabalha em rádio.”...(RISOS)... Que ganhava mais que professora, eu não sei se você sabe que o Maluf falou assim: “Os professores dão... municipais não ganham, os professores em “gerais”, não ganham mal, eles são mal casados.” É o que o Maluf pensa...(RISOS)...

 

P/1 – E...fa...falando, vol...

 

R – Mas eu ganhava muito bem.

 

P/1 – E...e...logo que a senhora terminou essa questão da supervisão, a senhora já se aposentou, é isso?

 

R – Eu me aposentei e fui trabalhar numa escola ortodoxa, é porque eu não me conformava de ficar parada, eu tenho condições de ir pra frente, fui trabalhar na Igreja Ortodoxa, que tinha uma escola e eu fui trabalhar lá como secretária do diretor, mas eu vou te dizer, já comecei a me desiludir, porque dentro do ensino público o professor era respeitado e dentro da escola particular os alunos falavam pra professora, alunos pequenos: “Nós pagamos, viu? Cê tem obrigação de me cuidar.” Isso eu vi logo depois que eu me formei, eu detestei o ensino particular por causa disso. Que é obrigado a aturar, porque eles eram os tais, viu? E na minha “oneidade” não, eu sentia humildade, o agradecimento dos alunos. O ensino público, tudo que a gente fazia era maravilhoso pra eles.

 

P/1 – E a senhora ficou pouco tempo nesse colégio?

 

R – Ah, fiquei pouco tempo no... a minha... filosofia não batia com a filosofia de escola particular, porque eles veem cifrão, infelizmente, são poucas escolas que não veem cifrão.

 

P/1 – Voltando só um pouquinho dona Haydee, a senhora se lembra quando foi o quarto centenário de São Paulo, como foi a cidade, como foi essa movimentação?

 

R – Oh...lembro, como foi lindo o quarto centenário! Foi aqui no Anhangabaú, as músicas, né? Aquela música, agora não me lembro o nome, foi muito bonito, eu me lembro. Eu era solteira nessa época, foi mui...a...o...também o quarto centenário, depois o que mais que eu lembro? O Congresso...

 

P/1 – Foi no quarto centenário que teve no Ibirapuera, não foi? Foi na época que começou o Ibirapuera?

 

R – No Ibirapuera? É, não o..., era o Congresso, o...quarto Congresso Eucarístico, que foi no...no Anhangabaú, foi muito bonito! O quarto Congresso Eucarístico no Brasil, foi no Anhangabaú, depois foi no Ibirapuera, é, realmente.

 

P/1 – E aí, fala um pouquinho sobre a evolução da cidade, né? De lá pra cá, aí, teve o quarto centenário, como foi a cidade? Como era São Paulo de 60, 70, que já começou a mudar de figura, já começou a crescer e tomar essa cara que nós conhecemos hoje?

 

R – É, eu morava até meio perto do Ibirapuera, que eu morava aqui na Tomás Carvalhal, mas antes, quando eu era menina que eu morava na Afonso de Freitas, porque eu já morei na Afonso de Freitas em 32, a gente tinha só o quartel da polícia militar...é da...do exército e umas casinhas que eram do pessoal do exército e tinha o Ibirapuera, eu me lembro, que nos dias 7 de setembro a gente descia a rua e ia lá no Ibirapuera passear lá, já tinha o lago, né? Mas não era...tão bom como é hoje, e então, a gente ia passear lá. Mas uma coisa que eu vou contar, vou voltar pra o passado, no Centenário da Independência a mamãe e o papai eram noivos e moravam aqui na Rua Estela e eles foram com a minha avó, com o meu avô, com os meus tios, eles daqui da Rua Estela foram a pé até o Ipiranga pra assistir a festa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, mamãe sempre contava isso. Eles eram noivos, a mamãe e o papai, diz que foi muito bonita também, a festa da Independência do Brasil.

 

P/1 – E quando a senhora olha hoje pra São Paulo e lembra da São Paulo de antigamente, quê que a senhora mais sente falta? Quais são as maiores diferenças que a senhora vê?

 

R – É uma tristeza muito grande, eu preferia o São Paulo antigo, preferia o São Paulo de Piratininga, era maravilhoso.

 

P/1 – E a senhora tem filhos, né?

 

R – Eu tenho seis filhos homens.

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – Valdemar, Vagner, Vagmar, Valdener, Vanderlei, Eduardo Guilherme.

 

P/1 – São seis...

 

R – O último é Eduardo Guilherme que é o nome do meu pai e do meu sogro.

 

P/1 – E a senhora tem netos?

 

R – Tenho sete netos, cinco homens e duas meninas.

 

P/1 – Ainda assim, os homens são a maioria, né?

R – É..., é..., a maioria.

 

P/1 – E... aí, falando de novo, voltando um pouquinho pra questão de São Paulo, né?

 

R – São Paulo?

 

P/1 – Aí, as décadas de 60 e 70 foi quando a cidade começou a mudar um pouco de figura e ficar com a cara que a gente conhece hoje, né?

 

R – É, a mudar.

 

P/1 – A senhora percebeu isso naquela época, que a cidade tava mudando?

 

R – Ah...já...era bem..., percebi..., a gente percebia isso, modificando, aí, começaram os roubos. Antigamente, quando você via um mendigo na rua o jornal saía, no jornal: “Olha, na rua tal tem um mendigo.” No dia seguinte não tinha mais, saíam publicado no jornal, o governo tratava de ir lá e pegar o mendigo e encaminhar o mendigo. Hoje, a cidade é de mendigos.

 

P/1 – Hoje, a senhora mora aonde?

 

R – Eu moro no Paraíso.

 

P/1 – Mora no Paraíso?

 

R – É...é...meu...ninho antigo...

 

P/1 – Mora a senhora e seu esposo?

 

R – Eu e meu esposo, sozinhos, nós dois.

 

P/1 – E como é o seu cotidiano hoje em dia, o quê que a senhora faz pra passar seu tempo?

 

R – Olha, eu... eu sou muito ativa, meu ma...eu falo que eu sou um passarinho, o meu marido é um caramujo, nós somos diferentes, mas ele respeita a minha personalidade, então, eu vou em...eu pratico yoga, eu...faço hidroginástica, eu gosto de viajar, agora não tô viajando muito, mas eu viajava sozinha, fazem 10 anos, eu peguei um ônibus na rodoviária e fui pro Chile, atravessei.. .eu queria ir de ônibus pra descer a Cordilheira do Chile, eu fiquei... Maravilhoso! País mais lindo do mundo é o Chile, o Chile tem a mão de Deus, ao passo que a Suíça tem a mão do homem, você sente Deus no Chile, o sul do Chile é lindo. E eu fiquei 45 dias sozinha, sozinha! Ia “nas albergues”, adoro “as albergues” da juventude, porque “as albergues” você tem uma... uma..., como é que chama? Uma troca, então, eu viajei pra Europa em albergues, é uma delícia albergue. E eu, então, viajava em albergues, eu fui lá pro Chile, eu me lembro que uma vez eu fui num albergue que tava é... devia ser... era fora de época de... de excursões, né? E era...devia ter sido no Chile, devia ter sido ou um hospital ou uma cadeia, eu bati lá, me atendeu, falei: “Olha, eu queria uma acomodação aqui na albergue.” “Ah..., pois não.” Era enorme, mas tinha só eu, o gerente e... de manhã cedo que eu vi que tinha uma senhora lá e eu falei: “Nossa! Eu dormindo aqui.” Eu peguei uma faquinha, que eu tinha uma faquinha pra cortar pão, eu falei assim: “Se alguém entrar aqui no meu quarto eu mato....(RISOS)..., eu me defendo.” É..., mas fui lá...viajei por todo Chile sozinha, então, o pessoal falava: “A senhora tá sozinha?” “Não, tô com Deus.” E viajei, fiquei 45 dias, viajei todo o sul do Chile, fui pra Argentina e fui pro Uruguai, conhecer a terra do meu avô, fui na Pia Batismal dele, onde ele foi batizado, fui...fiquei lá... Uruguai também é maravilhoso, Argentina? Mais ou menos, mas Uruguai é um povo também culto, muito bom e o Chile... É uma marvilha a América do Sul.

 

(troca de fita)

 

P/1 – E... Dona Haydee, a gente falou já sobre a sua vida profissional, sobre São Paulo, eu queria que a senhora falasse agora, um pouquinho sobre sua vida pessoal, no sentido de como foi criar seis filhos, como foi o convívio com o seu esposo ao longo de...a senhora tá casada há mais de 50 anos?

 

R – 60 anos, vai fazer agora em setembro.

 

P/1 – Então, como foram esses 60 anos? Faz um resumo pra gente, conta um pouquinho sobre isso?

 

R – Olha, foi muito bom, o casamento é uma adaptação, cada um precisa se acomodar de acordo...; o meu marido me ama do jeito dele, né? E eu retribuo da mesma forma. Criar os meus filhos não foi trabalho, foi ótimo, eu nem senti, criei seis filhos homens, eles foram sempre muito ordeiros, muito...100%, eu tive uma senhora que trabalhou comigo trinta anos e que eu... nos meus últimos partos eu vinha da maternidade e entregava pra ela, é a mãe Lála da minha vida, ela... tá dentro do coração dos meus filhos e do meu, ela foi 100%, era uma mulher viúva que nunca teve filhos, então, quando chegou na minha casa os meus filhos começaram a chamá-la de mãe, então, ela se sentiu realizada, aquele... aquele amor materno floriu e ela se dedicou com muito amor, ela me ajudou muito na vida, essa senhora, do... mãe Lála da nossa casa. Os meus filhos respeitam, eu acho, que mais do que eu, a mãe Lála.

 

P/1 – Mas ela... ela ainda...?

 

R – Ela é viva, tem 93 anos.

 

P/1 – 93?

 

R – É. Está viva. Eu procuro sempre estar com ela.

 

P/1 – Então, criar os 6 filhos não foi um grande trabalho pra senhora?

 

R – Não..., eles eram educados, nunca me deram trabalho. Olha, seis filhos homens, nunca nenhum quebrou uma perna, um braço, cê acredita? Eu não sei se era a alimentação, que eu cuidava muito bem da alimentação, comer bastante fruta. Tinha uma fruteira na minha casa e eles passavam e pegavam uma cenoura, pegavam um tomate, pegavam uma banana, então, eu nunca levei os meus filhos no médico, cê acredita? Remédio? Eu não conheço, meus filhos não conhecem remédio.

 

P/1 – O mais velho tem quantos anos e o mais novo tem quantos anos?

 

R – O mais velho tem 58 anos, 58, 59, nasceu em 49.

 

P/1 – E o mais novo?

 

R – E o mais novo tem 42. Teve uma diferença grande...

 

P/1 – Teve uma diferença grande hein?

 

R -... Entre... entre os filhos. Eu tive três filhos, depois de sete anos tive um, o Valdener, depois eu fiquei doente e disseram que era um pré-câncer, foi a primeira operação feita no Hospital dos Servidores Públicos pelo Dr. Guarnieri Neto, então, era um pré-câncer. Me assustou bastante, falei: “Eu...eu...” O câncer naquela época morria, eu falei assim: “Se eu vencer essa batalha eu vou arrumar mais dois filhos...mais um filho.” E eu arrumei mais dois filhos, porque eu venci...

 

P/1 – E o último, a senhora tinha quantos anos? Quando a senhora o teve?

 

R – Eu tinha... ele tem 42, eu tenho...eu tinha...53 anos, 53 anos.

 

P/1 – Não, quarenta e tre... A senhora tem quantos anos hoje?

 

R – Eu...84.

 

P/1 – 84?

 

R – 83 pra 84.

 

P/1 – Ah, quarenta e poucos anos a senhora devia ter na época.

 

R – É... quando..., é, quarenta e...

 

P/1 – Quarenta e pouco?

 

R – É, quarenta e... é três anos eu tinha quando nasceu o meu...

 

P/1 – E...a senhora passou a maior parte do tempo em um... em um bairro específico com o seu marido, com os seus filhos? Ou mudou bastante na cidade?

 

R – Eu...morei..., eu não mudei muito não, porque eu tinha uma casa e eu morei na Água Rasa quando me casei, depois eu mu...morei...aqui pra minha casa, comprei a minha casa aqui na Vila Mariana.

 

P/1 – E é aonde a senhora continua hoje?

 

R – Não, eu vendi, precisei vender, na Rua...Tomás Carvalhal, porque começou a fazer prédio e eu precisei vender a minha casa. Hoje, eu moro num apartamento numa rua paralela.

 

P/1 – E como é o convívio da senhora com os seus netos, com os seus filhos hoje?

 

R – Como é...entra em choque, né? Porque eu ainda sou diretora, apesar de ter aposentado há vinte e tantos anos, é horrível, viu? A gente continua a ser diretora e meus filhos não aceitam, então, a gente entra em choque, bastante: “Mãe, a senhora já se aposentou, a senhora não é mais diretora, a senhora é autoritária.” É...e os meus netos também: “Oh...a vó é autoritária, hein?” Mas foi a minha profissão que me ensinou assim, porque um diretor não pode pensar, ele tem que realizar. E eu aprendi na minha profissão a realizar.

 

P/1 – E o seu esposo ele fez o quê durante a vida? Trabalhou com o quê?

 

R – Ele foi funcionário público, ele foi o contador particular de quatro primeiras damas do Brasil...de São Paulo, de São Paulo. Ele era o contador delas, então, tinha assistência social, ele que fazia as escrituras da assistência social, trabalhava no palácio, tinha conta aberta com a primeira dama e ele. Ele é muito bacana, o meu ma...

 

P/ 1 – Hoje é aposentado também?

 

R – Ele é aposentado hoje. A... ele..., mas ele é acomodado, ele é o contrário, como eu falei, ele é o contrário da dona Haydee. A dona Haydee é... é um negócio, eu nem sei. Olha, como eu sou, sou muito autoritária, eu fui aprender até..., pra me corrigir, eu fui aprender é..., como é que se diz? Hã...teatro, porque o teatro tem que esperar a vez pra entrar, né? E olha, eu desisti.

 

P/1 – Não deu conta?...(RISOS)...

 

R – Não deu conta... (RISOS)... de ser uma boa atriz. Eu...desisti, mas eu fui...eu falei: “Eu preciso me corrigir, eu vou ser...eu vou aprender teatro.”

 

P/1 – E... olhando hoje pra educação pra educação no país, né? O quê que a senhora tem a dizer da época que a senhora começou..., de toda essa... carga que a senhora tem?

 

R – Tá no fim a educação, filho, tá no fim! E nós vamos sentir melhora só daqui uns 40 anos se o Brasil começar agora! O reflexo vai ser daqui uns 30, 40 anos, porque está no fim, a educação brasileira tá em falência. Eu assisti pela televisão um programa..., uma se...é Colombia, né? Que tem o... Como mudou a educação lá em pouco tempo, mas aqui nós estamos... no final da educação, não existe mais.

 

P/1 – Onde será que deu errado? Foi... na opinião da senhora, olhando pra trás, onde será que começou a dar errado as coisas?

 

R – Olha, começou a dá errado, formação de professores, professor hoje não tem formação nenhuma, infelizmente. Curso de pedagogia não forma professor, infelizmente, essa é a realidade. Antigamente, diziam que o curso normal, que o pessoal comentava: “Ah...faz..vai fazer curso normal? É esperar marido.” Então, fazia o curso normal pra casar, nada disso! Era um curso completo, a gente aprendia desde engraxar sapato no curso. Que a professora não podia... tinha que se vestir discretamente, que a professora não podia usar jóias pra não chamar a atenção das crianças. A parte cívica, a parte física, a parte psicológica, a parte social era uma maravilha. Hoje, infelizmente, não existe nada disso. E eu acho, tenho certeza, que é a falta de formação dos professores. Os professores não têm formação pra transmitir nada. Eu conheço uma escola, infelizmente, a minha, que a atual diretora tirou o quadro da patrona e mandou jogar fora aquela difunta, que formação tem essa diretora? Se quando era o dia do aniversário da escola eu reunia todos os alunos, lia a biografia da mulher, da patrona, pros alunos terem um modelo de vida. Hoje, uma diretora de escola tira a fotografia da patrona: “Tira essa difunta daqui. Dá o fim nessa difunta.” E a servente, sem cultura nenhuma, guardou no almoxarifado pra não jogar fora, porque ela sentiu. Aquele quadro tá há 50 anos pendurado lá, a gente fazia reverência ao ver aquela patrona lá, porque era um exemplo de vida. Infelizmente, o ensino tá ruim por causa disso, o professor não tem formação.

 

(troca de fita)

 

P/1 – E...dona Haydee, a senhora hã...a gente tá chegando no final do depoimento, mas eu queria que a senhora falasse, ainda, mais um pouquinho sobre São Paulo?

 

R – Olha, era normal São Paulo, antigamente, no domingo, no sábado e domingo a gente ir passear na cidade pra ver as vitrines, então, as famílias iam na Rua Direita, Rua São Bento. Rua Direita era a rua mais hã... em foco, que tinha o Mappin, que tinha a Casa Alemã, que tinha a Casa Henrique, tinha a Casa Beethoven. Então, a gente ia passear pra ver as vitrines, as famílias costumavam ir passear pra ver as vitrines da cidade, a moda como é que estava, as vitrines eram muito bonitas, quando chegava tempo de Páscoa era... decorada com coelhinho, quando chegava o Natal decorada com os brinquedos. Ah... o Mappin, o Mappin era aqui na...na Praça Patriarca, o antigo Mappin, era uma maravilha, aqueles homens com aquelas fardas bonitas, tapete, com guarda chuva vinha pegar com... tapetes profundos que você deslizava, era uma coisa de louco, era um luxo maravilhoso, tinha a Casa Fachada, Fachada vendia só perfume importado, na Praça Patriarca. Casa São Nicolau. Era muito bonito.

 

P/1 – E quando a senhora vai pro centro hoje e olha do estado que tá, o quê que a senhora pensa, o quê que a senhora acha sobre isso?

 

R – Ah, eu fico muito triste, é só tristeza e a saudades de São Paulo antigo. Eu atravessei o Viaduto do Chá, porque eu atrave... A minha avó atravessava o Viaduto do Chá, sabe quando? Há 100 anos atrás, que eu me lembro de ter lido no jornal, porque eu leio todo dia, há 100 anos atrás o que aconteceu...e eu outro dia eu li, que o governador, o prefeito aqui de São Paulo proibiu os bombeiros de atravessar, porque é uma...; a vovó atravessava o Viaduto...o Viaduto do Chá com bombeiro, o bombeiro é que atravessava de um lado ao outro e dava uma gorjeta pro bombeiro. Eu atravessei hã... eu andei no Viaduto do Chá antigo, todo de ferro, quase igual ao de Santa Efigênia, que era muito bonito. E depois, eu inaugurei no carnaval, foi a inauguração do viaduto atual, descalça, porque eu fiz uma... uma roupa de bailarina, a mamãe no carnaval fez uma roupa de bailarina e o sapato tava muito apertado e eu tirei e... atravessei descalça a primeira vez o Viaduto do Chá. De bailarina, eu vestida de bailarina.

 

P/1 – E...e... dona Haydee...

 

R – Depois tem o... o mercado, que é uma coisa muito antiga, que descendo o Largo do Tesouro a direita era o mercado antigo. Nossa! Era baixinho, pequenininho, com galinha. É tudo galinha viva, não era galinha morta não, como é hoje. A tu...a galinha, depois os açougues, as verduras, aquele é...um cheiro característico, até o cheiro, o perfume do mercado lá... no Parque Dom Pedro. Era muito gostoso. O quê mais que eu lembro que a gente fazia? A Rua 15, era uma rua chique, era linda, era só bancos, como era bonita a Rua 15, Rua Líbero Badaró, tinha a Livraria Francisco Alves era... muito bonita, mas não era por causa do Francisco Alves cantor não, não sei quem era esse Francisco Alves, era um escritor, acho. Tinha a Livraria Francisco Alves. Largo São Bento era muito bonito. São Paulo era lindo, São Paulo era muito bonito, tinha os relógios da Praça da Sé, tinha o... É... tinha ó... continua ainda lá na Avenida São João, no começo, o tabuleiro da baiana, eu me lembro dos corsos na Avenida Paulista, corso na Avenida São João, tinha os corsos, carnaval era uma maravilha! Você não andava na rua de serpentina e de confete, era uma coisa de louco o carnaval aqui em São Paulo. Antes foi... primeiro foi... era na Paulista, depois foi pra... Avenida São João, mas era uma maravilha! Lança perfume, hoje, num... hoje se prender alguém com lança perfume..., lança perfume era normal, vendia aqueles lança perfume, jogava nas costas, não jogava nos olhos, porque é... era...ardia, era horrível, mas jogava nas costas, nas pernas das pessoas, era uma maravilha o carnaval! Os corsos, carro de couro, corsos bonitos descia a capota do carro, teve no Brás também. Eu me lembro da porteira do Brás, fechava lá pra passar o trem que ia pra... pro subúrbio e pra Santos, pra tudo que era lugar. Era muito gostoso. Eu me lembro da estação do norte, que a gente ia pro Rio. Eu me lembro da Estação da Luz, ai que coisa linda que era a Estação da Luz! Não sei se é porque eu era criança? A gente tinha uma visão diferente. Eu me lembro, que um dia fui na... eu ia pra Brotas, eu fui no centenário da cidade de Brotas, fui convidada a ir pra lá, então, eu fui pra Brotas numa casa dum pessoal amigo e quando eu cheguei na Estação da Luz, a mamãe tava me acompanhando, ia pôr no trem e eu ia embora, quando cheguei na Estação da Luz, um senhor falou pra minha mãe assim, a mamãe preocupada comigo, um senhor... aquele aberto que vendia passagem, que só dava o espaçozinho pequeno, falou assim: “Oh mulher, que cê quer? Oh... pra onde cê vai mulher?” Pra mamãe comprar passagem, eu fiquei indignada dele tratar a minha mãe assim, andei um pouco com a mamãe, a mamãe comprou a passagem, eu andei um pouco, peguei a mala, joguei assim no chão e voltei, enfiei a mão por dentro daquela janelinha, segurei aqui e falei: “Olha, mulher é a sua mãe, a minha mãe é uma senhora.” E voltei...(RISOS)... Porque eu não aguentei o homem falar mulher pra mamãe. Quando eu voltei, na hora que eu... eu joguei a mala, a mala abriu...(RISOS)..., a mamãe enfiando tudo a roupa...(RISOS)...na mala. Mas olha, eu não admiti, imagina? Chamar uma senhora de mulher, ele falou: “Oh mulher, anda depressa.” E eu falei, engolir aquilo, falei: “Ah...não vou engolir.”

 

P/1 – E dona Haydee, olhando pra sua vida hoje, né? Quais foram as principais lições que a senhora tirou da sua trajetória?

 

R – Ai, o quê que mais eu... aprendi da minha vida? Olha, eu tive uma vida maravilhosa! Eu tive uma mãe guerreira, uma mãe lutadora, eu tive um pai, que antes de ver Jesus Cristo, eu vejo o meu pai, depois que eu vou ver Jesus Cristo, porque o meu pai, eu convivi com o meu pai e Jesus Cristo é uma história. É uma realidade, mas é uma história que eu sei. Então, eu fui feliz na minha infância, como pobre, mas a minha mãe fazia todos os sacrifícios pra me dar o melhor, eu fui escoteira, ela me dava uma educação boa, eu... fazia tudo, o meu pai também tudo. Eu tive uma juventude maravilhosa, eu fui muito levada, muito namoradeira, mas com muito respeito, existia um respeito tremendo antigamente. Até nem sei se eu vou... posso falar aqui? Não, eu vou falar. Fui beijada a primeira vez pelo meu marido, não existia beijo não, antigamente, pelo meu marido. Namorei bastante! Namorei até japonês! Mas respeito, sabe? Uma distância. E eu fui muito feliz, fui feliz no casamento, fui feliz na criação dos meus filhos, meus filhos nunca me deram trabalho, se formaram, cresceram. Da minha vida eu tenho só felicidade! Só de pensar que Deus foi muito bom comigo, que me deu tudo do melhor. Eu vou pra outra, mas muito feliz, porque essa foi muito boa.

 

P/1 – E... Dona Haydee, eu queria, pra finalizar, que a senhora dissesse como...é...   dissesse pra gente, como se sentiu ao dar esse depoimento, contar a sua história pra gente?

 

R – Ah... aqui? Foi muito gostoso, pena que a minha cabecinha já não funciona tanto, porque eu poderia contar tanta coisa, né? E mas os 84 anos falha um pouquinho, mas foi muito boa a entrevista e eu acho que todas as pessoas que tiverem alguma coisa pra contar, que venha enriquecer futuramente esse Brasil que tá precisando de muita hã...hã...modelos, se eu servir de modelo pra alguém eu já tô feliz, pra uma pessoa eu já tô feliz.

 

P/1 – Então, dona Haydee, eu queria agradecer o seu depoimento, a disponibilidade da senhora em vim contar aqui um pouquinho da sua vida pra gente.

 

R – Eu que agradeço vocês, me senti muito a vontade, eu espero que vocês continuem o seu trabalho com êxito.

 

P/1 – Muito obrigado.

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