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História

Uma história sobre os fios

História de: Sebastião José Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/02/2019

Sinopse

Sebastião conta sobre a cidade em que nasceu, sobre a sua vida simples com os seus familiares, seus trabalhos em fazendas, sobre a sua atual família, sua mulher e seus filhos. E relembrou sobre o momento de sua vida em que ficou no alto, arrumando os fios, pois trabalhou trinta e seis anos na empresa Telefônica, instalando fios e fazendo centrais.

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História completa

P - Gostaria que o senhor me dissesse o seu nome completo, o dia e o local onde o senhor nasceu, e o nome do seu pai e da sua mãe.

 

R –Bom, nasci em Monte Alegre do Sul. Filho de José Marcolino Rosa, e a minha mãe se chamava Maria Antonia de Jesus, mas no meu registro é Maria Clara, porque o meu pai inverteu as marcas aí. Eu fui registrado pra casar… (risos) Bom, casei...

 

P - Que dia o senhor nasceu?

 

R – Eu nasci em quinze de fevereiro de 1927.

 

P – Como era o seu pai?

 

R – Meu pai era baixinho, moreno, ele tinha sumido dezoito anos, nem notícia. O dia que eu soube o paradeiro dele, eu saí daqui de Uberlândia e falei: “Eu vou atrás do meu pai. Saí daqui eu e um sobrinho meu - sobrinho está até aqui numa fazenda aqui - eu saí daqui num dia, no outro dia eu cheguei na casa dele. Ele não me conheceu. Magrinho... E trouxe ele pra dentro da minha casa. Ele e a véia, que era minha madrasta. Levei ele lá em cima, quartinho lá no meio ali, e falei: “Meu pai, ó, esse quarto aqui é do senhor mais a véia. Ele olhou tudo, aquela beleza, as parede tudo maciazinha, tudo, (taquiadinho?), envernizado, tudo, e falou: “Muito bom, meu filho. Mas isso aqui num serve pro véio. O véio não dá conta de subir essa escada aqui”.

 

P – O local era esse aqui mesmo?

 

R – É, esse local aqui. Rua República do Piratini, número 494. Ele ficou aqui comigo dois anos, até ele morrer. Aí o que é que eu fiz. Tinha um quartinho aqui no fundo, e não tinha essa porta aqui não. A porta era do lado de lá. Levei ele lá, coloquei uma cama de casal lá pra ele mais a véia. Mostrei pra ele e falei: “Meu pai, isso aqui serve pro senhor?”. Ele falou : “Serve, meu filho”. E daí ele ficou lá até morrer. Eu tava lá no meu serviço a hora que ele acabou aqui. (soluço)

 

P – Que atividade ele tinha?

 

R – Nada, ele não sabia fazer nada... Ele não conhecia o…

 

P – O senhor tinha quantos irmãos?

 

R – Da minha mãe, só eu.

 

P – E como era a sua casa da infância?

 

R – Bom, quando eu tava com oito anos, perdi minha mãe. Fui pra casa dos meu avô, pai do meu pai. Marcolino Antonio Rosa. Lá no Córrego da Estiva. E meu pai ficou perambulando, solteiro, ficou viúvo, de lá fui pra casa de uns padrinhos meu. Lá estudei oito meis.

 

P – Onde?

 

R – Lá no Pântano. Meu professor chamava Ambrósio. Já morreu também. E de lá meu pai foi me buscar. Ele empregou na fazenda do Honorato Bernardo, município de Monte Alegre. Morou lá muito tempo e foi lá me buscar. Eu indo pra fazenda do Honorato. Aí um dia descombinou com o Honorato, e mudou pra cima, na fazenda do Roque. Lá a gente morou, fizemos um ranchinho na beira de uma cabeceira, moramos lá muito tempo. E eu trabalhava na fazenda. O Roque alugou a fazenda dele pra um tal de Hildo, e eu fui trabalhar na fazenda.

 

P – O que o senhor fazia?

 

R – Puxando enxada. E a horta lá era um mundo véio de horta, parecia uma roça. Trabalhava na horta. Todo o fim de semana eu recebia meus 35 mil réis. Chegava lá em casa, meu pai: “Fala no corpo e não na (alma?), que Deus dê-lhe o reino da glória”.

 

P – O que o senhor plantava na horta?

 

R – Lá plantava de tudo. Plantava milho, mandioca, plantava de tudo. Tinha arvoredos, muitos, muitos arvoredos. ___ muito boa.

 

P – Na suas infância o senhor tinha tempo de brincar?

 

R – Não brincava mais não, uai. Aí já estava com os meus quinze anos, tinha brinquedo mais não. Chegava de tarde eu pegava meus 35 mil réis, botava no bolso e ia embora pra casa. Chegava em casa, o meu pai catava ele. Aí lá um belo dia eu recebi meu “dinheirim”, cheguei em casa, e meu pai queria o dinheiro. Falei: “Meu pai, esse dinheiro eu preciso dele porque minhas roupas tão rasgando e preciso comprar uma roupa pra mim”. Ele foi e me tocou de casa... É.

 

P – O senhor com quinze anos?

 

R – De quinze pra mais. Eu sentei no rabo do fogão, num banquinho, botei os pés assim no rabo do fogão, ó, debrucei assim e chorei, chorei, chorei. Noiteceu, não amanheceu. Nunca mais voltei em casa pra morar. Meu avô tinha um sítio na Furna, perto da fazenda do Antônio Cândido de Moura - já morreu também. E eu fui lá pro sítio do meu avô. Ele mexia com moagem de cana, tinha uma porção de tio que era solteiro, eles ajudava ele também, e eu fui pra lá. Nós levantava quatro horas da manhã, ia lá pro Antônio Cândido, moer cana. E eles pegaram confiança comigo, me entregaram um carroção com seis bois. E eu puxava cana e lenha pro engenho. Aquilo ali foi tempo, e depois o serviço foi diminuindo e eu fui trabalhar pro pai da mulher do Antônio Cândido. Fernando Pimenta, esse foi minha testemunha de casamento. Vim pra aí, trabalhei muito tempo aí de (bateção?) de pasto. E depois peguei na fazenda do Abílio Soares, que era gerente do banco do Brasil. Uns brejos pra tocar. E aí toquei esses brejos lá dois anos...

 

P – Desculpa, seu Sebastião, o que é que é tocar brejo?

 

R – Plantar de tudo. Milho, feijão, arroz, no brejo esgotado. Tem que esgotar aqueles buracos, aquelas valetas dessa fundura assim, aquelas terras preta, que era uma beleza. Pra arroz não prestava não. Pra milho, feijão, abóbora, dava despropósito. Eu peguei na ____ três quartos de roça de brejo. E lá na fazenda, tinha essa menina, minha véia, essa meninona aí, era filha do véio que era encarregado da fazenda. Chamava João Luca. E ele me levou pra casa dele. Morei três anos solteiro dentro da casa dele. Ela levava comida pra mim lá na roça. Ela solteira e eu também. Um irmão dela trabalhava comigo. Chamava José Luca, era mestre de obra. Morava lá na Saraiva. Lá um belo dia eu resolvi casar. Cheguei da roça de tarde, os portalão de fazenda, aqueles madeirão dessa grossura assim, ela escorada de um lado e eu do outro. Perguntei à ela se ela queria casar comigo. Só nós dois. Ela falou: “Ói, se você quiser, eu, da minha parte, eu quero”.

 

P - Assim na lata?

 

R – Na lata. Ela de lá e eu de cá. “Então eu vou pedir o casamento pro seu pai”. Dia 24 de janeiro foi o que marquei pra pedir o casamento.

 

P – Que ano foi isso?

 

R – Ah, agora você me apertou, que eu não marquei... Casei em cinquenta. 1950. Aí quando foi no dia 24 que eu falei pra ela, estava só eu e o véio na cozinha, todo o mundo já tava dormindo. Um fogãozão que saía da parede pro meio da cozinha, o véio embicado no fogão, e eu de lá. E a gente conversando ali. Eu expliquei o caso pra ele. O véio riu... riu… Eu sabia. Ele gostava de mim demais da conta… Falou: “uái, seu Sebastião, eu da minha parte eu faço muito gosto. Agora ver da menina, a menina e a véia amanhã. Tão dormindo…” E nessa época que eu tava mexendo com as roça lá, que no começo meu pai me procurou lá. Tinha um retiro e ele foi morar lá nesse retiro. E esse dia ele ia trabalhar para o compadre João Luca. Chegou cedinho lá na fazenda. Estava reunido tudo lá na cozinha e lascou, o véio, meu pai abanou a orelha, não quis que eu casasse, não. Eu tinha 23 anos nessa época. Falei: “Meu pai, eu estou cansado de viver sozinho, já corri bastante, agora quero sossegar e quero casar mesmo. E vou casar.” Aí, ele não falou mais nada. O véio falou: “Ói, seu Sebastião, a data é o senhor que marca”. Eu pedi a ele três dias pra dar a decisão. No dia dos três dias chamei ele a atenção ____ “Seu João”. Ele falou: “Tá feito, seu Sebastião”. Nós marcamos para o dia primeiro de julho. E entrou uma transferência nesse meio aí, de uma comadre dela que ela era madrinha de um menino dessa comadre dela, eu não sei se ela tinha interesse por mim, mas eu não tinha interesse nenhum por ela, porque ela tinha o marido dela, se tratava ele de Tatão. E arranjou porcariada pra ela, ela teve enrolada na folha de bananeira.

(problema na gravação)

...não sei o que ele faz na prefeitura. Ele até morreu. Ele já matou muita gente lá, naquela época. Aí de lá mudei pra Rio Claro. Morei um ano no ___ Jatobá. Voltei pra Rio Claro, e um dia minha sogra apareceu e viu a minha situação, encontrei com ela subindo a serra, ela ia comprar um capado. Cheguei em casa depois da meia noite, mas comprei o capado. E ela ainda trouxe uma penca desses capado. Fui lá no __Liezer, _____ a dona Coraci emprestou um cavalo pra ela, --?-- e a comadre negra, na garupa, encontrei com ela descendo a serra. Depois da meia noite cheguei lá no rancho. No outro dia matei o capado. Ela pegou uma _______ Aí ela viu nossa situação, como é que tava lá, roupa não tinha mais, não. Era uma trapeira. Eu, o que fui, não nego. Ela falou: “Compadre, não fica aqui não, vai embora, vai embora pra Uberlândia. Parece que os anjos falaram: “amém”. E eu fui só ________. No ano que eu tinha pra entregar formado em capim eu chamei o dono da roça lá e perguntei se ele aceitava a forma da roça, precisava mais um ano e formar. E aceitava a forma da roça, plantar, e formar e entregar pra ele. Ele aceitou, o que eu pude eu vendi, o que eu não pude eu dei pros outros e fui embora pra casa da sogra em Uberlândia. De lá, _____ nas mãos, com trinta dúzias de ovos, um caixote de panela, uns colchão de palha que tirei as palha e levei só os pano, e vim pra casa da sogra. Aí passei trinta dias procurando serviço, não arrumava. Enfrentei depósito de lenha, rachando lenha a seis mil réis o metro. Com as mãos tudo rachada de mandar as marretas nas cunha. Chegava de duas horas, saí pra rua naquelas conduções procurando serviço. E lá um belo dia que eu cheguei nessa obra lá do seu Alexandrino, ele não estava, não. Estava só o mestre de obra.

 

P – Que ano era isso?

 

R – Ah, foi em 54. Eu trabalhei seis meses nessa obra, eu passei lá de tarde, pedi serviço, o Eduardo ___ falou pra mim que não tinha serviço, não. E eu fui descendo. Cheguei numa outra obra, do seu Oswaldo Garcia, _____ Cheguei lá e tinha um pedreiro, sentando (azulejo?) num banheiro. Aí conversando com ele ali, ele chegou com a cadernetinha azul.

 

P – Ele quem?

 

R – Oswaldo. Aí fui pedir serviço pra ele. Contei a minha vida, como é que tava pra ele, ele falou: “Ó, rapaz, a minha obra aqui tá em arremate, só tem esse pedreiro aqui e um servente pro banheiro”. Contei minha vida pra ele, como eu estava passando, ele parou... olhou pra cima e falou : “Ó rapaz, amanhã você traz uma lata e uma enxada que eu te dou serviço”. Aí subi, fui lá no Sérgio e voltei. No outro dia, quando ele chegou lá na obra eu já estava esperando. Ele foi lá dentro, olhou lá, falou: “Põe sua lata aqui, sua enxada e vamo ali, entra aqui comigo, aqui.” E me levou lá onde eu passei de tarde, pedindo serviço e que ele falou que não tinha. Esse português. Chegou lá: “Eduardo, dá serviço pra esse rapaz aqui. Eu tava com os meus 28 anos, louco pra trabalhar. Ele colocou uma montanha assim de areia de campo, e me entregou aquilo ali pra eu massear reboque. ______ ______ Lá trabalhei seis mês, onde não tinha serviço. Um dia o véio apareceu lá de tarde, ele já tinha conhecimento comigo...

 

P – Desculpe, o senhor estava nessa época morando onde?

 

R – Na casa da minha sogra. Falou: “Ô Bastião, nós compramos a Telefônica do Tito Teixeira, amanhã você vai pegar sua farramenta e vai passar pra lá. Nós vamos começar a obra lá”. Lá eu trabalhava até duas horas da manhã, no concreto. A (Marico?) ela incomodava e mandava o irmão dela ver meu paradeiro. Tinha cerquinha na frente assim, feita de ____ que a Telefônica também tava ruim da perna quando eles compraram, ele olhava lá, via eu na betoneira, voltava pra trás, contava pra ela, e aí ela ia dormir. Sabia o que é que eu tava fazendo. Aí de madrugada tava eu chegando. E aquilo ali foi anos, anos, anos.

 

P – O senhor está falando do prédio da Teixeirinha?

 

R – Lá naquele primeiro prédio que foi feito lá.

 

P – O senhor trabalhou na reforma, é isso?

 

R – Não, foi num outro prédio ao redor daquele. Aquele lá era um casarão antigo, muito velho, depois é que fez aquele de fora, foi que desmanchou o de dentro. E aí, rapaz, lá vai, não tinha hora pra trabalhar, não. Precisava ganhar… Aquilo ali, ó. Então eu fui pra rede, voltei da rede...

 

P- Rede?

 

R – É, fazendo rede de telefone, fincando aqueles pontão de aroeira assim, no caminho de Monte Alegre, (lavração?) e aqueles pau tudo passando na minha mão, ___ tuba, aí o Chiquinho foi buscar poste lá na fazenda do ___ (turco?). Na beira do... Pra lá de Paranaíba, lá. No Rio dos Bois. Agora, também fiz uma viagem com ele lá...

 

P – Rio dos Bois? E trazia as árvores pra lavrar aqui?

 

R – É, cortava só os pau, e de lá já vinha tudo lapidada.

 

P – E que árvore era usada?

 

R – Aroeira. E aí foi indo, foi indo, acabou esse serviço, um dia...

 

P – Desculpa, deixa só eu insistir um pouquinho nisso, seu Sebastião. Então, o senhor esticando rede aqui na cidade, ou fora, já começando a sair fora de Uberlândia?

 

R- Fora de Uberlândia também.

 

P – Nessa época, onde é que o senhor se lembra por onde andou esticando fio também?

 

R – No caminho de Monte Alegre. Daí me puseram no prédio. E fizeram uma reunião lá dos diretor, era o Cardoso, o Caparello, Alexandrino, me chamaram e perguntou se eu queria tomar conta do prédio pra zelar.

 

P – O prédio novo que vocês tinham construído?

 

R – O prédio novo. Tinha uma escada que fazia desse jeito assim...

 

P – Caracol?

 

R – É. Falei: “uái. Se o _______ que eu sirvo pra tomar conta, eu preciso de trabalho”. E ele falou: “Então você pode começar”. E aí tinha um preto que trabalhava na oficina lá no fundo, um tal de Bardino. Ele começava a fazer o serviço da firma e depois começou a fazer brinquedo pra menino. O véio foi lá, já viu ele fazendo brinquedo pra menino, mandou ele embora na hora.

 

P – Quem mandou?

 

R – Seu Alexandrino. E subiu lá onde eu tava e falou: “Bastião, só você indo trabalhar na oficina também. Eu mandei o Bardino embora”. Bardino, ele era um preto. Preto novo. Bom de trabalhar. Tava fazendo brinquedo pra menino. E comecei aquela vida. Eu limpava aquilo de mais ou menos, e descia pra oficina. Trabalhava até meia noite.

 

P – Mas o senhor tinha alguma experiência de oficina?

 

R – Nunca trabalhei com _____. Nunca.

 

P – Aprendeu sozinho?

 

R – Da minha cabeça. Tudo que aparecia, graças a Deus, eu fiz. Tudo. O primeiro DG que apareceu, que veio da Suécia, fui eu que desencaixotei, chamei o seu Jane (?) e falei: “Eu faço isso”. “Então você vai fazer um pra mim”. Peguei as ferramenta, dentro de quatro dias entreguei um monte assim, pra 360 linhas de telefone. Daí comecei a fabricar qualquer tamanho.

 

P – Me conta antes de falar dos DGs e das centrais, como é que o senhor foi aprendendo sozinho a mexer tão bem com ferramentaria?

 

R – Tudo da minha cabeça. Tem uma circular, o serviço da circular. Eu recebi sete conto, 920 DB(?), a SulAmérica me pagou.

 

P – Como é que foi esse acidente?

 

R – Na circular.

 

P – Sim, mas como é que foi?

 

R – Arrancou as de aroeira pra fazer cruzeta. Era um disco desse tamanho assim.

 

P – Que tamanho é esse?

 

R – Redondo, doze polegadas.

 

P – E como é que aconteceu?

 

R – Olha, eu precisava de um esmeril pra amolar a broca, pra furar a cruzeta. A broca ali é grossa, colocar pistolim de madeira, colocar os isoladores. Tem nas redes, nas estradas, onde tem linha de telefone, o senhor vai observar e o senhor vai ver ainda. Eu fabriquei até aqueles (tornim?). Tinha um torno, de tornear a madeira, aí o serviço foi só apertando, só apertando, fazer a limpeza do prédio, fazer o serviço da oficina, um dia eu falei pra ele...

 

P – O senhor (Gian ?)?

 

R – É, e falei: “Olha, eu sozinho não dou conta de fazer a limpeza do prédio e o serviço da oficina. A Telefônica tá aumentando, o serviço tá aumentando e eu sozinho não dou conta”. Então ele falou: “você arranja um da sua confiança, põe limpeza do prédio e você fica só na oficina”. E tinha um tio da minha mulher, que trabalhava de servente com um cunhado meu - é irmão dela - numa rua de uma tal de Lolita, lá em baixo, _____, chama Carloto, ele hoje tá morando lá em Franca. Fui lá e tomei ele do meu cunhado. Levei pra lá. Ele saiu de lá aposentado, só lá na limpeza do prédio. Ele fazia aquilo e o serviço de banco também. ________ Mandaram ele fazer, e ele fazia, o ___. E aquilo ele foi indo, foi indo, foi indo, o serviço foi aumentando, e eu fui aumentando gente, quando aposentei...

 

P – Conta do acidente, que o senhor não contou, do acidente com o seu dedo.

 

P – Ah… Eu precisava de um _____ pra amolar a broca, e não tinha. Tinha uma sobra da ponta da circular, e eu coloquei uma pedra de esmeril na ponta do eixo da circular. E eu fui serrar um caixote pra fazer dois caixotes, aqueles caixotes que vem com equipamento, e o caixote pegou nessa pedra, (matou?) um sururu, um barulhão, e esse caixote virou ____ também. E a minha mão foi na circular. A unha saiu todinha, é que cortou assim, virou pra trás, foi tudo costurado, mas não parei de trabalhar também não, com a mão enfaixada, e ó! Nunca parei. E ó, eu e o seu Alexandrino, a gente não tinha hora pra sair de casa nem chegar. Eu saí daqui uma vez, fui lá na ponte (Findelta ?), tirei medida dos pilares, vim, fiz o equipamento, levei o (Joaquim Pires?) estava construindo lá no estado de São Paulo, rede de telefone. Eu e o véio. Saímos daqui de Uberlândia, levamos o material, o Joaquim veio de lá pra cá pra me ajudar, coloquei, passei uma rede de telefone à direita da ponte, de um lado ao outro. Tudo. Por cima d’água assim. Parecia um macaco. Nunca caiu um serviço meu. E aí depois disso teve um aumento lá do prédio… Não, isso aí foi em antes, que eu não contei. O mestre de obras da CTBC entregou todos os andaimes pra fazer, por dentro e por fora. Nunca caiu um andaime meu. Nunca teve um acidente com um prego fincado no pé de um companheiro, porque eu não deixava. Arrancava uma tábua lá de um andaime, pegava o pé de cabra, mandava arrancar. Não deixava. Aquilo ali foram anos. Fizemos uma caldeira lá pra cozinhar a cruzeta… Um dia eu coloquei uma tampa em cima da dobradiça do tambor de ____ pires?__ cabia cinco cruzetas assim, no fundo do tambor, dentro do _pires __?. Deixava ferver aquilo ali, e punha pra escorrer. Um cano assim na parede de fora a fora, ali encostava as cruzeta, ___,___ tinha uma canaleta, o (piche?) escorria ali, e caía num buraco. Depois eu tirava, voltava em cima do tambor. O véio apareceu lá, e ele não viu o fogo que estava de baixo e o fogo tava alterado. Tinha uma tampinha de correr, debaixo do fogão, a cadeira lá tinha dois metros e meio de comprimento. Dois metros e sessenta, porque a cruzeta tinha dois metros e meio… E aí quando ele puxou a tampa o fogo furou dentro desse tambor. Foi um Deus nos acuda, caiu tudo, tudo, tudo, tudo. Ele chegou, olhou, falou: “Bastião, bota fogo aí na ___ , parece que o fogo tá muito fraco. Mas ele não viu que o fogo tava tampado, lá embaixo. Tinha uma chaminé dessa grossura assim, seis polegadas, saía o prédio pra cima. Um mundo velho, ___ assim, falei na cara dele assim: “Olhe seu Alexandrino, olha a cor da fumaça, bota mais fogo aí, pula fogo aí dentro.” “Não, joga a lenha lá debaixo”. E quando ele puxou a tampa lá aquilo fez assim PEFF, e encheu a caldeira de fogo. E aí esse menino aí começou a chorar, foi aquele rolo danado. Queimou a oficina todinha. Tudo, tudo, tudo – e o seu Alexandrino?

 

R – Correu, foi embora. Deixou queimar tudo. Quando ele viu aquilo ferver lá ele largou. Levou uma hora e vinte pro Corpo de Bombeiro chegar lá. E subindo na parede lá, __ quatro metros de altura, com aquelas mangueironas de água pra apagar aquele fogo, e aí já tinha caído telhado, caído tudo...

 

P – Acabou com a sua oficina.

 

R – Cabou com a oficina, mas era tudo segurado naquela época...

 

P – Mas o senhor Alexandrino chegou a comentar outra vez...

 

R – Não… Não falou mais não. Só no outro dia que ele apareceu lá, mas não comentava nada, não. Ele só olhava, assim...

 

P – Como é que era a sua relação com ele.

 

R – Nós brigávamos muito, porque ele era muito teimoso, mas não fazia pareia comigo. Uma vez os menino tava reclamando que o salário não tava dando, tava passando fome. Eu sempre pedi aumento pros menino, ele falava em aumentar, mas o aumento nunca saiu. E então, um belo dia, eu cheguei lá de manhã, tava o Divino, o Luiz Carlos, que era sobrinho dele, e o de Souza ___, esse também morreu,_____ trabalhou catorze anos comigo. Um companheirão. Tava os menino reclamando, eu disse: ”Óia, cês senta aí, e não liga nenhuma máquina”. Fui no telefone e telefonei pro véio. E disse: “A oficina tá parada por isso, isso, isso.” E tinha uma cassa velha assim, tinha um material usado lá, material de centrais telefônicas. Eu fui lá, até pra separar lá umas peças, doutor Luiz me entra na oficina. Tava todo mundo sentado, perguntou o que que foi, eu fui e contei. Eles contaram pra ele o que que tava acontecendo. Ele e mandou eles pra rua também.

 

P – Mandou o que?

 

R – Mandou meus menino pra rua. O Divino, Pedro e o Luiz. Ah, quando cheguei lá que não achei eles, fui na portaria saber o que tinha acontecido, ele me contou, essa escada que fazia assim, subi lá, quase uma bala. Fui lá no escritório do Luiz ___. Ele sentado lá ________. Eu de cá, ele de lá, falei todo um ABC pra ele, mas foi daqueles. Falei: “Você mandou meus companheiros embora, ___________. Ele é mais novo que eu... Aqueles negocinho, ___ igual o pai dele. “Você mandou meus companheiros pra rua, você vai acertar a conta deles e a minha também, que eu vou junto com eles. E qualquer solução tô esperando lá embaixo. Mas falei até o canto da boca. Quando eu desci no pé dessa escada já encontro o velhio. “Ah, Bastião, que atitude foi essa que você tomou?” Eu contei o caso da onça pra ele. Falei a verdade. Falei: “Seu Alexandrino, eu tô pedindo melhoramento de ordenado pros menino, porque os menino tão passando fome, o senhor tá só me prometendo, e esse melhoramento não saiu até hoje”. Ele foi lá fora na mesma hora, recolheu os menino, mandou trabalhar. Divino tá aí pode contar. Quando foi de tarde o dindinho saiu pra eles. Daí pra cá, graças a Deus, normalizou tudo. Aqui em cima, depois que a gente mudou pra cá, um dia eu pedi um aumento pro seu Wilson, ele era diretor. Nessa época, não sei se seu Alexandrino já tava na cadeira de roda, acho que ele já tava. Ele não tava enxergando mais. Aí ele falou: “Quanto é que o senhor ganha, seu Sebastião?”. Falei: “Eu ganho tanto”. “ E os meninos?” “Tanto”. Ele caçou a caneta, e falou: “Seu Sebastião, eu posso aumentar só pro senhor, pra eles eu não posso”. Aí perguntei pra ele: “Seu Wilson, quanto que o senhor pode aumentar pra mim?” Ele foi, falou: “Eu posso aumentar tanto”. Falei: “Então esse que o senhor vai aumentar pra mim o senhor divide entre os três. Ele fez desse jeitinho. Ele dividiu pros três, eu já estava satisfeito, nessa época eu ganhava mais de dez salários, eles ficaram satisfeitos, melhorou a produção, porque a pessoa sendo bem recebido, ele trabalha com mais gosto, mais esforço.

 

P – Como que o senhor conseguia conviver tão bem com o seu Alexandrino brigando tanto com ele, conforme o senhor disse aí?

 

R – Porque eu era justiceiro. Olha, foram muitas plantas que os engenheiros faziam e mandavam pra mim, tinha uma mesona com sessenta centímetros de largura, uma prancha dessa grossura assim, uns três metros de comprimento. Eram duas pranchas. Uma mesa era minha dessa aí. Eu ia executar aquilo ali, o que funcionava eu fazia. O que eu via que não funcionava, eu não fazia. Eu não gostava de ver material desperdiçado. Eu chamava o velho. Ele ia lá, e falava: “Chamou?” Eu chamei o senhor pra explicar isso aqui. Isso aqui eu não vou fazer, porque isso aqui não funciona, isso só vai desperdiçar material. Ele chamava o engenheiro na mesma hora e botava ele no cobre. Era desse jeito.

 

P – Ele confiava muito no senhor?

 

R – Confiava em mim. Tem o meu barracão ali, lá onde é o refeitório. Tem uma placa de bronze desse tamanho assim, fundida dentro da parede: “Refeitório Sebastião José Gomes”, tá lá. Na véspera da inauguração, eles foram lá em casa me buscar. Aí falei: “Hoje não vou, não, mas amanhã vou. Amanhã meio dia tô lá”. Fiquei de ir no outro dia, fui eu e a velha, viemos aqui, trocamos de roupa e...

 

P – Que ano foi isso?

 

R – Ah! Não sei mais não. Perdi até a conta de quando eu parei de trabalhar.... Só olhando minhas carteiras pra saber, duas carteiras profissionais vencida .

 

P – Quanto tempo o senhor ficou lá trabalhando?

 

R – 36 anos e quatro meses. Com trinta anos me aposentei, não deixaram eu sair, passou seis anos, eu pedi as contas e não quiseram me dar, continuei, passou quatro meses e voltei de novo, e aí resolveram e eu já tinha um ranchinho com três cômodos lá na beira do rio. Tinha comprado um lote dentro de um condomínio. E agora vou pra lá. Vou aumentar meu rancho. Tô lá até hoje. Uns dez anos que tô lá.

 

P – O senhor começou dizendo que quando chegaram as primeiras centrais... A primeira central que chegou da Suécia chama DG, o senhor disse que faria uma igual.

 

R – Igualzinha. Dentro de quatro dias entreguei montada. Comecei fazer de todo o tamanho da precisão, da necessidade. Até hoje. O Divino aí toma conta dessa parte hoje, quando tem muito serviço eu venho ajudar ele, tem uns companheirinhos ajudando ele aí, e começou a judiar dele, aí ele dispensou, e quando tem muito serviço ele me fala e eu vou te ajudar.

 

P - O Divino é seu filho?

 

R – Meu filho mais velho.

 

P – Que seguiu os passos do senhor?

 

R – Ficou no meu lugar, lá na oficina. Eu saí, ele ficou e eu falei pra eles: “Olha, eu vou sair dessa oficina e essa oficina vai ser fechada. ______ eles tinham morrido. Tava o Divino, o Jerson o um outro moreninho, o Carlinho. Os três. E foi fechado mesmo. Foi só eu sair, aí pegaram as ferramenta, vendeu pro Divino uma parte, porque ele precisava, e começou a fazer serviço pra CTBC. Comprou uma casa, construiu uma parte dela, depois “destrambicou” com a mulher, a mulher ficou com a casa e ele ficou sem nada. Só com o ___ que estava na porta. Aí arranjou aquela outra mulher, aí ele não tinha... Tinha que alugar casa, a casinha ali tava à toa, o inquilino que tava morando lá mudou, morou quatro ou cinco anos. Aí falei pra ele: “Olha, em vez de você ir pagar aluguel, eu dou uma limpadinha na casa, e nós passamos pra lá”.

 

P – O senhor não saía de Uberlândia, não. Ficava mais trabalhando por aqui?

 

R – Na oficina.

 

P - Fazendo serviço pra fora?

 

R – Eu fazia, levava fora e eu montava.

 

P – O senhor mesmo montava?

 

R – Eu mesmo montava. Agora, quando era serviço pequeno, eu levava montado daqui, quando era grande não tinha jeito de levar, aí levava só as peças no caminhão, eu ia lá e montava.

 

P – E que mais o senhor fazia além dessa manutenção e dessas centrais?

 

R – Ah, eu toda vida mexi só com isso.

 

P – O senhor Alexandrino chegava a pedir coisas pro senhor “ah, eu quero uma coisa assim”, e o senhor: “não, isso não dá pra fazer”?

 

R - Aí a gente ia executar, mandava executar. Ele ria... Só vendo. Ele parecia meu pai. Quando eu estava construindo isso aqui, um dia ele parou a caminhonete lá fora e veio aqui no último andar, lá em cima, nesse pavimento aí. Tinha uma escada ali. Ele foi chegando e aprumando pra escada acima. Falei _______ a escada vai cair com esse velho. Peguei a escada por trás dele e ele não viu não, firmei a escada _____. Ele olhou tudo, desceu, bateu no meu ombro: “É, Bastião, você tá de parabéns, desse jeito”. Ele me ajudou muito já. De uma vez lá ele só me deu 230 sacos de milho ___. Tem o Zé Leonardo aí que pode te contar como ele era comigo.

 

P – Até onde eu sei, seu Sebastião, o senhor era a única pessoa que ele parava pra ouvir, né?

 

R – Ah, não sei. Eu me lembro dele lá do escritório, eu pouco ia lá no escritório.

 

P/2 – Seu Sebastião, e o seu Chiquinho?

 

R – O Chiquinho foi o encarregado de rede, de turma. Tomava conta de um caminhão, e ele tinha a turma dele pra controle de rede. Chiquinho, Joaquim Pires, tem apelido de Branco... Joaquim Pires acho que ainda está trabalhando até hoje na CTBC. Agora o Chiquinho não.

 

P – Ele saía pros caminhos aí esticando fio?

 

R – Fincando poste, abrindo picada… Nossa luta foi muito grande. Nossa experiência foi um romance.

 

P – Um romance?

 

R - É, foi um romance. Nossa Senhora! Uma vez deu uma ___ no velho, só a velha que sabia, Dona Maria. Tava com uma horta lá no mato, aí eu peguei o caminhão de ____ eles moravam lá no Tibério? Arrumei treze chaveiros. E nós fomos pra horta do velho. Ele não tava, mas quando chegou nós estavamos lá. Todo o mundo garrado na enxada. Só a velha que sabia. Fez aquele almoção pra nós, fez canjicada, precisa de ver. Mas ali pras duas horas, mais ou menos, passou o Pedro.

 

P – Pra dar um trato na horta dele?

 

R – Isso, mas estava suja, no meio de uma mandioca. Precisava de ver. Bom, viemos embora. Sei que passou, não sei se foi no mesmo dia ou no outro dia. Apareceu lá na oficina um punhado ______ pra distribuir por dia de serviço dos companheiros pagou um por um. Cada um com o dinherinho dentro do envelope.

 

P - O senhor lembrou um pouco as suas origens, seus tempos de...

 

R – Eu levei um garrafão de pinga, cinco litros pra gente beber lá no _____. Rapaz do céu, um sol quente, eu destreinado em cabo de enxada, não arrebentou tudo de calor, mas foi bom. Ele ficou satisfeito demais.

 

P – Como é que o senhor foi acompanhando o crescimento da empresa?

 

R – Mas foi só (colocando?) em cidade, a Telefônica. Tinha que ampliar. Não, nós vamos colocar tantos telefones em tais cidades assim, assim, eu comprava o material, pedia lá no escritório, mandava comprar o material, levava pra oficina, cortava, fazia, pintava. O que era pra levar montado, eu montava. O que era pra levar desmontado, botava no caminhão, aí eu ia pra montar.

 

P – Eram as centrais?

 

R – Centrais.

 

P – Eram manuais ou automáticas?

 

R – Automáticas.

 

P – Como é que o senhor aprendeu a fazer essas centrais?

 

R – Minha cabeça. Primeiro por aquilo que veio da Suécia, eu falei pra ele que fazia e fiz, deu quatro dias e entreguei montadinho.

 

P – Como é que o senhor teve...

 

R – Corte vertical, 36O linhas.

 

P – Como é que o senhor teve essa certeza de bater o olho e...

 

R – É, minha convicção toda a vida foi aquela. Toda a vida. E eles foram pegando confiança comigo, e então nem se preocupavam.

 

P – Conta como é o processo da construção de uma central. Passo a passo. Como é que o senhor fazia?

 

R – Ihhh! O senhor quer ver alguma peça delas?

 

P – Não, gostaria de ver, mas não agora. Gostaria que o senhor contasse, porque eu não posso sair com o gravador daqui pra...

 

R – Ah.... Por aquilo que apareceu eu fui fazendo conforme os pedidos da montagem. Por exemplo, quer montar tantas linhas aqui, então tal lugar assim, assim, tal lugar assim, assim, então eu fazia aquilo tudo de acordo... Com uma barra de ferro de seis metros, traz pra cá, tá ali cortado aquele ferro lá. Põe debaixo da trena, mede, risca, coloca lá que ela corta. Ela trabalha sozinha. Acabou de cortar a peça cai. Chega outra no lugar. Enquanto corta uma, aí vou fazer outra.

 

P – Mas o senhor fazia isso sem planta?

 

R – Sem planta. Só por aquilo que eu vi. Tudo, tudo que tem aqui foi fabricado nosso. Só a parte de alumínio, que existe aqui hoje que não é fabricação nossa. Só. Mas a montagem é nossa. Comprar lá fora uma quantidade grande, e eles vão entregando, o indivíduo cobra não sei se duzentos reais ou quatrocentos reais cada um pra montar, mas até o meio dia tá montado. Quer dizer que é um bom negócio.

 

P – Com o crescimento da empresa, seu Sebastião, o senhor Alexandrino começou a se afastar também do comando?

 

R – Ih, mas foi passado muitos anos.

 

P – Mas o senhor continuou na linha?

 

R – Eu continuei, mas já fui desgostando por causa da ausência dele. Ele gostava demais da oficina. Ele chegava lá e ia todo o dia, lá eu tinha dois litros de café por dia. A gente bebia café o dia inteiro. Tinha um filtro, pedi um filtro pra a gente, aí um dia chegou lá, e ele chegou e disse: “___, parafuso não __  no pilar”. Pilar tá lá até hoje, tem um metro de grossura. __ um furinho pra colocar uma ferragem, para colocar uma plataforma pra por o filtro. Filtro em cima. Ele: “Bastião, filtro não dá certo com ferro, não”. Falei: “Mas aqui dá”. Nunca quebrou. Nunca. Graças a Deus. Lá tinha aparelho de ____, tinha aparelho de oxigênio, tinha circular (forga?), tinha umas peças… Tem umas peças da forga, tá ali...

 

P – Quantas pessoas trabalhavam com o senhor lá?

 

R – Lá a gente era cinco pessoas comigo.

 

P – Não era tanta gente assim.

 

R – Não, muita gente, uns estrovavam os outros (risos). E dá mais preocupação, né.

 

P – Mas nesse ritmo de trabalho que não tinha hora, a família não reclamava?

 

R – Não, não senhor. Aquilo ali era uma rotina. Todo o dia tinha que fazer. Manda uma coisa pra uma cidade, manda outra coisa pra outra cidade, é serragem de fundo de cama, de galeria, tudo feito dentro da fábrica até hoje.

 

P – Isso continua sendo feito aqui?

 

R – Aqui. Divino é que faz. Como eu tô aqui eu sempre ajudo ele, né? Eu corto as ferragens pra ele, ele solda, pinta...

 

P – O senhor continua gostando do serviço, embora...

 

R – É... É bom, sô. Faz parte da vida da gente. É bom.

 

P – Ainda mais o senhor aprendeu com tanta sabedoria.

 

R – Graças a Deus. Tirado da minha cabeça.  Aqui ó, tem um papel no quadro ali.

 

P – O que a sua filha estava contando...

 

R – Não, isso aí... Larga isso pra lá. (risos) Se for contar isso tudo, esses anos tudo, é muito difícil lembrar tudo. E eu não gosto de falar as coisa pra aumentar, não. Gosto de falar coisa que é.

 

P – Ele não saiu de sua casa?

 

R – Graças a Deus. A casa lá hoje é da minha filha.

 

O – Onde fica?

 

R – Lá na (Saraiva?), 1530. Eu vendi lá por mil e oitocentos cruzeiros na época. E aluguei uma casa aqui na rua Paraíba, morei dois anos e meio. E aqui eu tinha o jipe, tinha uma bicicleta, eu largava o jipe lá e vinha de bicicleta, porque são cinco quarteirões aqui, é pertinho. E eu vou subindo, tinha dois corredores medindo e olhando os terreno aqui. Sebastião e Carlos. Aí eu parei com ele lá, perguntei o preço, ele me deu os preço. Era quatrocentos contos esse terreno aqui. Aí eu falei uma bobagem pra ele lá. Falei se ele quisesse 380 eu dava. Falou: “Não, não pode, 380 é pouco. São quatrocentos metros quadrados aqui. Bom, a gente já conversou, deixa eu ir pro meu serviço. Montei na bicicleta, fui saindo, ele me chamou pra trás. E eu não tinha nem um puto. Cheguei lá, fui lá no escritório do velho. Ele sentado lá nas mesas, cheguei do lado de cá, ele : “Pois não, Bastião”. Desse jeito. Falei: Seu Alexandrino, preciso de quatrocentos conto hoje”. Ele assustou. E falou: “Ô, Bastião, o que você quer fazer com quatrocentos conto?”. Eu fui, contei. Fui com a cara e a coragem. Aí ele pegou no telefone na mesma hora, telefonou na tesouraria. “Dona Ilze, arruma quatrocentos conto pro Bastião aí agora”. Desse jeito. Isso foi de manhã. Trabalhei, quando sai pro almoço, já saí com o dinheiro no bolso. Fui lá embaixo no cartório. Daí trinta dias recebi a escritura registrada, mas aí eu não tinha dinheiro pra começar. Pus minha casa na rotina _________, pus ela à venda, e aí apareceu negócio. Peguei e vendi por mil e oitocentos conto. Peguei mil e oitocentos conto e enfiei aqui. E lá vai, lá vai, lá vai, eu tinha feito um depósito na firma de trezentos sacos de cimento. O cimento acabou, depois desses trezentos sacos o velho deu mais 320.

 

P – Aí o senhor levantou pra sua casa?

 

R – Graças a Deus. Foi a época que ele veio aqui olhar a obra. E num dia só ele mandou dois caminhões de doze metro cada um, puxou 110 metro de terra pra aterrar isso aqui. O desnível do lado de baixo aqui deu um metro e vinte de desnível. Aterrou isso aqui tudo num dia. Não gastei um centavo.

 

P – Ele fazia isso pra mais outras pessoas da empresa?

 

R – Muito difícil, muito difícil.

 

P – Por que o senhor acha que o senhor e ele se deram tão bem assim?

 

R – Parece que as nossa naturezas deu uma só. Porque ele é português, e eu não sou português (risos). Mas os nossos espíritos deu certinho. Graças a Deus. Deus que dê ele o reino da Glória. Ele chegava lá na cadeirinha de roda dele, eles levavam ele num veraneio, e ele tinha que ir lá na oficina. Quando eu via que ele vinha entrar na oficina eu ia ao encontro dele. Ele pegava na minha mão assim, e ficava segurando minha mão e apertada. Precisava de ver, mas ele não enxergava.

 

P – Sabia que era o senhor, né?

 

R – A gente conversava porque ele conhecia minha voz.

 

P – Mas os senhores falavam quando ele já estava debilitado?

 

R – Aí ele me perguntava como é que ia à oficina, eu explicava pra ele: “Tá muito bom, Bastião. Muito bom. Porque do meu lado, eu nunca deixei a peteca cair. Nunca deixei! Todo o dia, todo o santo dia chegava às sete horas e eu estava abrindo a oficina. E o horário é às sete e meia. Os outros vinham chegando e já caçando um banco pra sentar. Eu começava o meu trabalho. Eu gostava do meu trabalho e eu tinha satisfação com ele.

 

P – Seu Alexandrino sabia ver isso, né?

 

R – E ele enxergava o esforço que a gente tinha.

 

P – Eu soube que ele era uma pessoa que não gostava nada de desperdício.

 

R – Não gostava de jeito nenhum.

 

P - Procurava, catava prego no chão...

 

R – Veio de Franca uma carreta cheinha de ferragem, (caco?) serrado dos engenheiros. Sobrou da obra lá de Franca. Cada barra de ferro dessa grossura assim, ó. Cortei aquilo tudo e fiz ponteiro talhadeira, labanca e pé de cabra pras obras. Eu distribuí.

 

P – Aproveitava tudo.

 

R – Tudo, tudo, tudo. Levava aquilo lá pra ___ de corte, cortava aquilo tudo do tamanho que precisava, levava pra fora e batia em cima daquela bigorna ali, ó. Tem marreta grande aí.

 

P – O senhor trouxe essa bigorna pra cá?

 

R – O engenheiro quando comprou esses trem aí, desse PVC, veio essa bigorna.

 

P – Que era a sua bigorna?

 

R – Era a nossa bigorna, onde a gente trabalhava. Agora a circular não sei pra quem foi, dei trem pra muita gente, tinha muita coisa na oficina, muita mesmo.

 

P – Como o senhor vê a CTBC hoje? O senhor vê futuro dela?

 

R - Bom, a CTBC caiu muito. Entrou um tal de Mário (Grossi?) aí foi um ____ CTBC. Ninguém gostava dele. Com um homem desse numa firma que ninguém gosta dele, essa firma não pode ir pra frente.

 

P – Por que não gostavam dele?

 

R – Não sei. Sei que ninguém gostava dele. E aquilo ali foi só afundando a firma. Depois chegou uma hora que ele saiu da firma. Agora tem outro aí. Conheço não. Não gosto de ficar puxando o saco. Porque eu trabalhei lá, não gosto não.

 

P – Mas o senhor não imagina por que essa pessoa era tão antipatizada?

 

R – Ele foi... Vendendo fazenda, assim ouvi falar, que ele vendeu o resto das fazendas. Não sei.

 

P – As fazendas do Grupo?

 

R – É, a situação da CTBC não estava permitindo. Uma vez eu fui pescar na fazenda, na (Lapa do Lobo?). Eu fiquei lá uma semana, eu tava de férias e eu fui com ele, eu, dona Maria, a Edite, eu fui lá pra uma serraria. Ele telefonou lá pro encarregado e falou: “Ó, o que o Bastião precisar aí vocês arrumam pra ele”. Mas eu tinha levado de tudo, engraçado, eu não [estava] precisando de nada. Esse povo ficava lá... parecia uma currutela de tanta casa, de tanta gente que tinha lá que trabalhava na fazenda. Maquinário, _____. Ê mundo bom! Fizemos umas pescada divertida demais lá ,atando rede dentro d’água uma água assim, dava água na cintura, caindo aqueles caldeirão lá, ___ caía (risos). Foi bom demais da conta. Fui eu, a dona Maria, a Edite, e mais os empregados deles. Eles ia trabalhar, comia com a gente lá.

 

P – O senhor depois que deixou o serviço da CTBC, embora pegue no pesado aí de vez em quando, como é que ficou a vida do senhor?

 

R – Graças a Deus tá boa demais. Eu não tenho falta de nada, tenho o meu jipinho que o velho me deu, é... Tá com trinta e poucos anos na minha mão. Com o tempo agora gastei, retifiquei o motor dele, lá na (Retífica 10?) paguei mil e setecentos  reais pra retificar ele.

 

P – Que marca é o jipe?

 

R – É Willys. Capota de aço. Nessa semana agora, eu peguei minha menina e levei ela lá no telefone. Quando eu tô saindo, fui lá na beira da represa olhar meu barco, voltei eu a minha menina e a dona Maria. Entrei de frente, não, de ré. Hoje é que entrei de ré. Na hora que fui saindo não deu mais partida. Aí ela empurrou de ré assim, lançando abaixo pegou no tranco, aí levei ela na portaria, ela ia telefonar pro marido lá em Araguari. Tirei o motor de arranque, trouxe, e de tarde eu fui buscar. O motorzinho dele tinha estragado. A partida.

 

P – O senhor está vivendo onde agora?

 

R – Lá.

 

P – Como é que chama o lugar?

 

R – Lá é... Represa. Agora, a água lá vai embora. Abriram as comporta, eles falam que tão fazendo um serviço na barragem...

 

P – Na Barragem de São Simão?

 

R – Não, aqui de ____ .

 

P – Como chama?

 

R – Emborcação.

 

P – Emborcação.

 

R – E soltaram a água. Todo o dia ela vai indo embora, a água da represa. Agora até eu comprei uma pena de água lá, um poço artesiano, já liguei ela lá no meu rancho. Um mundo velho de água, vem limpinha que só vendo que beleza, sô. O poço lá tem 306 metros de profundidade, mas a água não dá pra um rancheiro. Já tem lá uns sessenta ranchos construídos. Essa semana ele tava furando outro poço.

 

P – O senhor está lá há quanto tempo já?

 

R – Há dez anos.

 

P – O que o senhor faz lá?

 

R – Nada (risos).



P – Que peixe que dá lá, seu Sebastião?

 

R – Ah, tucunaré, traíra, taquara , dá piapara, mandi, piau, (pé de cachorro?), piranha, dá de tudo (risos). _______, mas é bom demais o rancho. Manga lá caindo dentro da cozinha.

 

P – Tem nome o seu rancho?

 

R – Não tem nome nenhum.

 

P – Que tamanho tem a sua área?

 

R – A área é pequena, tem 824 metros quadrados.

 

P – Na beira mesmo da represa?

 

R – Retirado... Quando ela tava cheia, eram trezentos metros retirados. Hoje já tá com...

 

P – Ah, beleza.

 

P/2 – Seu Sebastião, o senhor participava de alguma associação ou sindicato na época que o senhor trabalhou lá na CTBC?

 

R – Olha, eu tinha uma… Eu era _____ de oficina...

 

P – Supervisor de oficina?

 

R – De oficina. Era pra eu ir pro Belo Horizonte fazer uns curso lá, mas aí tinha outro companheiro, não precisou ir dois. Companheiro da CCO, o outro foi. E eu tinha que largar o meu serviço, num fiquei sabendo o que resultou dos exame dele lá.

 

P – O que o senhor diria para uma pessoa que estivesse chegando agora na CTBC, que fosse começar a trabalhar. O que o senhor tem a dizer pra um jovem que vai começar a vida numa empresa onde o senhor passou a maior parte da sua vida?

 

R – Olha, hoje eu não posso dar informação de nada pros outro, se a empresa é uma boa empresa, se é ruim, ou se foi boa, só sei que pra mim foi boa. Meus companheiros que trabalharam comigo lá, quando saíram, cada um tinha seu ranchinho. Não pode ser ruim. Só que quando saí de lá o velho morreu e a empresa voltou atrás. Doutor Luiz só (mora?) viajando.

 

P – O senhor se dava bem com o doutor Luiz?

 

R – Se dava bem. Tive umas _____ no começo, mas foi na época que ele era solteiro ainda. Depois foi embora pra Suécia, pra lá, foi estudar, o velho falou: “O Luizinho vai embora e nós vamos ficar sossegadinho”. Como de fato foi mesmo (risos). Hoje, graças a Deus, a gente se encontra, brinca, caçoa, lembra do nosso tempo...

 

P – Com o doutor Luiz.

 

R – Doutor Luiz. Tá com a cabeça branquinha, parece uma pasta de algodão. Figueira _____. Ah, onde ele me vê ele vai mesmo onde que eu tô. Zé Leonardo de vez em quando ainda encontro.

 

P – Zé Leonardo quem é, filho também?

 

R – Não, cunhado dele. Gente boa demais da conta. Também me ajudou muito. Uma vez “encapotou” uma rural lá da firma, e fazia dois meses que arrumaram ela, mas estava cheirando ainda, da oficina lá da Intermax. Foi reformada. E encapotaram ela, aí não deu mais reforma. Eles ia vender ela pro ferro velho, tava com dois meses de retificar o motor. E o meu tava quebrando a junta do cabeçote, ___ do meu jipe. Aí o Zé Leonardo falou: “Sebastião, se o motor não tá bom, você leva essa rural pra Intermax, manda passar o motor do seu jipe pra ela, e tira o dela e passa pro seu jipe, porque o motor tá novinho. Durou seis anos. Agora que eu retifiquei ele de novo, faz dois anos já. Tá lá. Esse jipe... Eu saí de férias - eu trabalhei sete anos sem tirar férias - o dia que eu saí de férias foi com briga ainda. Aí deu marra mesmo, e falei: “De amanhã em diante tô de férias”.

 

P – O senhor disse isso pra quem, pro seu Alexandrino?

 

R – Falei pra todo o mundo na firma. Falei: “Vou tirar férias por minha conta”. Sete anos a gente esgota, sô. Ainda naquele serviço bravo ali... Nossa Senhora. Agora, o dia que eu saí de férias, por conta própria, eu saí numa bicicleta lá pro lado de Monte Alegre, lá pra onde eu morei. Botei um litro de óleo na panelinha, trenzinho _____, e o caminhão da firma tava trabalhando na rede. Na porta da CTBC da João Pinheiro eu pus a bicicleta e os trenzinho em cima do caminhão da CTBC, e fui até Itaquaquecetuba. Lá eu apeei, entrei na estrada de chão, parei lá com a espingarda parada no fio do ombro, assim a turma me contava. Eu não vi, não sei de nada... O velho me dizia _____ a ____ de ele comer a unha assim, diz que ele saiu na porta, me viu dentro do caminhão, diz que eu olhei ele e ri. Diz que eu tava zombando dele, mas não era isso, não. Eu nunca zombei de ninguém. Aí decidi ficar uma semana pra lá, o dia que eu voltei me acertam uma batida. ______ da linha de ferro.

 

P – Além da semana que o senhor tirou… (riso)

 

R – Aquela semana _____ uns trinta dias.

 

P – Como é que o senhor ganhou esse jipe?

 

R – Eu estava pra sair de férias, mas não foi essa vez não, foi de outra vez. Dessa época pra cá todo o ano eu tirava férias.

 

P – Depois da primeira, acostumou, né? (risos)

 

R – Todo ano, aí não tinha mais problema. Eu tava saindo de férias, e o ____ falou pro José Leonardo. “O Zé, o Bastião tá saindo de férias, ele gosta das pescadinha dele, e ele não tem condução, compra um carro pra ele pescar. Daí tem que ser um jipe. _____________. Porque o jipe é 62, tava novinho. O Zé foi lá e comprou o jipe por três conto e quinhentos, na época. O velho mandou ele lá pra Intermax, ___ tudo, e veio direto pro meu nome. Eu fui pra Mato Grosso com esse jipe. Foi eu, seu Carloto, compadre Arquimedes, compadre Zé do Prado, e o Amador Simião, também já morrido, é o sogro do compadre Arquimedes. Ele tinha um sitiozinho em Campina Verde, lá em Iturama, e tava alugado. E todos os meses ele ia lá receber o aluguel, e essa vez ele foi com a gente. Lá é tipo... E nós descemos os quatro pra Mato Grosso, ficamos quinze dias. Rapaz… Mas vai chover daquele tanto, a água do Ribeirão da Moranga virou um barro. _______ um douradinho, desse tamanhozinho assim, a gente comeu ele lá mesmo, bebemoa cachaça até... (risos) Ficamos lá quinze dias e viemos embora... Depois, um dia eu saí de (casa?), eu e o Oswaldo Saraiva. O Oswaldo Saraiva é empregado lá da Intermax . Ele levou um galão de óleo atrás dele no jipe, numa esquina saindo da Rio Branco pra sair na ________ no virar, o galão tombou dentro do jipe e o Oswaldo falou “Oh, Oh”, e eu assustei, rapaz, e subi. ____ poste de cimento _____ quebrou os grampos do feixe de mola, o eixo pegou… E foi na mesma hora que o guincho chegou lá. Foi lá no ouvido deles. Pegaram o jipe, levaram pra Intermax, entregaram ele novinho outra vez. Nunca paguei um tostão, graças a Deus. Também não tinha hora pra trabalhar. Quantas vezes levantei da minha cama pra eu soldar peça de um trator quebrado. Tava desmatando a fazenda. Isso foram muitas vezes. Vinha, arrumava aquilo ali, punha na ____, eles me levavam lá em casa e iam embora pra fazenda, pra não ficar quatro homens parados uma noite.

 

P – O senhor fez por onde?

 

R – Foi, nunca deixei a peteca cair mesmo, graças a Deus. E tô aí numa boa. Tô com 73 anos nas costas, completo agora dia quinze de fevereiro… E tô aí. E como toucinho cozido, como carne gorda, o porco tira o sangue e bebo, é extravagança. E o cafezinho pra nós, não saí não?

 

P – Puxa os peixes lá na beira do...

 

R – Graças a Deus. Comprei, mandei fazer uma boa canoa, comprei um bom motor, e ele não precisa mais do que trocar o óleo e trocar a vela. Até hoje.

 

P - Botou nome na canoa?

 

R – Não, não tem nada escrito nela. Só tem o número da nota fiscal. Código, né...

 

P – Quantos pés tem a canoa? Quantos metros?

 

R – Cinco metros. Nós enche ela de trem, duas lonas, e esses aí, os filho e a velha, e a gente vai lá pra perto de (Três Roxo?). Bem em frente, assim... Aí a gente arma a barraca, e quatro, cinco dias pra lá.

 

P – Ê, vida boa...

 

R – É ______ uma (cartola?) de gelo, e pegamos peixe e bota no gelo. A família quando vai em casa, eu tinha dois freezers. Aí vendi um, e disse: “esse não vendo! Esse é do uso da casa”. E tem de tudo: tem peixe, tem carne, verdura… Duas geladeiras no meio da cozinha. No tempo das águas, aqui fica com quatro metros de água. Agora esse ano deu fracasso por causa da fugida das água, as água dos poços secaram. Aí eu tava ficando ____ na represa. Comprei uma bomba a gasolina, ponho dentro da canoa e vou lá pro meio da represa, na água limpa. A carreta fica lá de fora com seis tambores de duzentos litros engatado no jipe. Dona Maria fica lá com a mangueira. Bom, trocando ____ quando encher, passa de uma mangueira pra outra, e eu dentro da canoa lá.

 

P – Tá certo...

 

R - É, são doze (ai?) são três de gasolina que eu gastava...

 

P – Então tá bom, tá feliz...

 

R – Graças a Deus.

 

P – Que bom, que bom.

 

R – Trabalhei muito, trabalhei muito, mas não morri, não. Serviço não mata ninguém, não. E quem quiser ter alguma coisa tem que trabalhar. Isso que veio de berço, é só o filho de papai. Meu pai e meus avôs foi pobres, eu nasci pobre, sem herança de ninguém, os pais da minha mulher também eram pobres… Quando tava lá no Goiás, ele me escreveu uma carta que tava comendo sem feijão, que não tinha dado feijão aqui.

 

P – Quem escreveu?

 

R – Meu sogro. Eu já tinha vendido, tinha colhido treze (volume?) de feijão, mas já tinha vendido tudo e tinha deixado dez quartos pro meu gato. Dez volume. O que que eu fiz: Tirei quatro quartos, botei num saco, costurei e mandei pra ele. Ele não comeu a metade do feijão, aí morreu. Ele sofria de ________. Ele comia só caldo, essas coisa, feijão com macarrão, uma sopa, duro não comia. Eh... Mas ele gostava de mim demais. Ele, a velha dele... A velha dele ______ do pé, pisava só com pontinha do dedo. Ela brincava com a dona Maria por causa disso. Dona Maria dizia: “Ela foi ranheta no tempo de solteiro”, e ela brincava mesmo. Catava aqueles (pagodes?), jogava lá na garupa, ______________. Pegava os pagodes, de roça, ela pra lá e eu pra cá. Ela _____ o que ela queria, e eu também. não tinha esse negócio de ficar... Ela, não. O povo de hoje… No outro dia, antes do sol sair, eu tava entrando na porteira, com o rabo pra (dentro?). A irmão compadre Luca, naquela época ele era novinho, ele levava a irmã dele, a comadre dele, ____________. E eu levava ela na garupa.

 

P – Seu Sebastião, alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e que não disse, nessa conversa que a gente teve? Alguma coisa que o senhor gostaria de ter falado e não falou, e eu não provoquei o senhor a falar...

 

R – Ah... Se for pra gente lembrar tudo que já passou, não é fácil, não. Tem muitos anos, né. Tem uns livrinhos que eu fiz aí, não sei onde é que eles andam. Parece que me pediram emprestado pra tirar um xerox, e nem sei se está aí. Pequeno, assim, do meu passado. Mas valeu a pena. Criei a família tudo, graças a Deus casei, só tem essa mais velha, não quis casar...

 

P – O que o senhor achou dessa conversa, de ter contado tudo isso, de ter lembrado…?

 

R – Boa demais, uái. É uma lembrança eu a gente tem. Lá na CTBC, a gente já teve um comentário grande do nosso passado com a CTBC, mas não foi gravado, não. Esse aí é filho da __________ menina que mora, toma conta lá do meu rancho.

 

P – Eu gostaria, seu Sebastião, primeiro agradecer muito ao senhor pela gentileza e paciência.

 

R – Pra mim é um prazer.

 

P – Só vou tomar um gole de água.

 

R – Não, o cafezinho vem aí.

 

P – Não, um gole d‘água porque o senhor é que falou aí o tempo todo.

 

R – É, tava bom demais, graças a Deus. (salto na fita)

 

P - Como é que o senhor ganhou essas ações?

 

R – Presente do velho. Agora ainda tem da (IP?)

 

P – A (IP?) o que é, é a fazenda?

 

R – Não! É da... Agora eles falam que a IP não tem mais a IP aqui, mas eu tenho as ações. Tá aí, batido pela CTBC. É oitocentos e tantos mil ações. A parte da CTBC eu vendi, vendi pro advogado, seiscentos e poucos reais. Agora tem essa outra parte. Se a gente vai lá _______.

 

P – Eu acho que o senhor é o melhor amigo dele dentro da companhia.

 

R – Num toquei ________ contra a firma. Porque eu saí, vou tocar uma ação contra a firma, não. Depois que eu saí, eu ainda recebi ainda um pouco de dinheiro da empresa. Em duas vezes, foi parcelado. Sete mil e umas quirera. A última vez foi quatro mil e quinhentos e umas quirera. Aí acabou, mas pelo intermédio do sindicato, sindicato das Empresas Telefônicas do Estado de Minas Gerais.

 

P – Tinha trinta e...

 

R – Trinta e seis anos e quatro meses.

 

P – É tempo, é uma vida.

 

R – É uma vida.

 

P – Muito obrigado. Cafezinho tá ótimo.

 

R – Não vai comer por que? Precisa comer (risos).

 

P – Certo… (salto na fita).

 

P – Senhor Alexandrino era aprendiz de ferreiro, como é que é?

 

R – É… Ele fazia colher de ferro no Closária.

 

P – O que é o Closária?

 

R – Era uma oficina de fundição. Aí em cima, como é que chama aquela rua ali? Uma fundição muito grande ali.

 

P – Não teria sido por conta disso que ele se identificou com o seu trabalho?

 

R- Não sei.

 

P – Eu estou pensando isso agora...

 

R – (Risos) Não sei… Ele me contava a história dele e ria...

 

P – O que ele contava?

 

R – Quando ele tava trabalhando no Closária, fazendo cunha de ferro. Ele era moleque, nessa época. Guerreiro. Olha, o dia que você quiser ver alguma coisa... Acabou tudo... a gente vai levando. Eu não vou mexer com isso mais não… Bebe uma cachacinha e comendo uma carninha assada ____ debaixo da mangueira, aquilo ali é uma sombrinha, tudo acimentadinho (risos). Aquilo ali pra nós é um paraíso.

 

P – Tá certo.

 

R – Dar uma passeada nela também. Passeia à vontade...

 

R – No outro dia vou buscar o peixe, mas tem que buscar longe, porque lá perto não tem água. A água foge, e o peixe foge também, mas a gente pega cada Traíra desse tamanho assim...Tucunaré grande, assim ó.

 

P – Esse ano a chuva descontrolou toda, né?

 

R – Toda.

 

P Olha, seu Sebastião...

 

R -__________

 

P – Não, mas nós precisamos processar, começar a sentar e preparar o dia de amanhã, ainda tem trabalho pela frente.

 

R – É? (Risos) Fazia três anos que tava lá guardado. Um caderno que eu anotava. (pausa)

 

P – Mas o senhor estava falando que ele não gostava de malandro?

 

R – Não, não. Gente preguiçoso pra ele era o bodoque, não gostava mesmo. Eu tinha uma simpatia por isso, porque eu também nunca gostei, não. Pra ficar à toa, fora do trabalho. Entrou no trabalho, é pra trabalhar. Toda a vida fui ____

 

P – Seu Alexandrino tinha assim uns arranca-rabo quando vinha uma coisa errada, assim…?

 

R – Era direto. Com os engenheiros de lá, com ____, nossa senhora, a gente escutava o sururu dele lá.

 

P - Mas como é que era essa história.

 

R – Não, isso aí não tem nem jeito de comentar.... Mas ele era bom demais. ______ eles fizeram um acordo comigo, eu tava lá no rancho, o velho morreu, foi enterrado, daí dois dias que eu fiquei sabendo que ele tinha sido enterrado. Ninguém me comunicou.

 

P – Como é que o senhor recebeu essa notícia?

 

R – Foi gente daqui que foi lá. _____ que ele tinha sido enterrado. Portanto, eu não _____ muito esse povo, não.

 

P – Desculpa?

 

R – Eu não ____ muito eles, não. Só vou lá ____ porque tenho que ir mesmo. Porque ficam falando uma coisa _______ aí eu vou, ______ mesmo. Mas do contrário... Do pessoal ali de dentro, ali, tem muito pouca gente que é do meu tempo. Tudo gente nova, mas tá bom, graças a Deus.

 

P – Quem que o senhor se lembra que ainda está na empresa que o senhor trabalhou?

 

R – Ah, que eu tenho lembrança, é ______, mas também saiu tudo. Dona Ilze saiu, ihhh, tem a Leda, tem o Ciço esse tá lá ainda, aquele é puxa saco. Eu falo pra ele… Eu chamo ele de puxa saco (risos), que ele é mesmo (risos). Antigamente ele ia muito lá. Aí saiu, mas ele foi enriquecendo, foi ficando cheio de coisa, faz muito tempo que ele não vai lá. Comprou lancha, comprou caminhonete cabine dupla, até o doutor Luiz _____ a comprar uma, o Ciço até, ele era advogado muito bom, mas ele era feroz também. _____________ saía fora da cidade pra resolver problema da companhia. Ficava dois meses enrolado e não resolvia. Ele ia lá e dentro de duas semana _____ o Ciço. Ele era feroz, pequititinho, mas era fogão encerado (risos), mas era puxa saco (risos). Muito boa pessoa. Tratar com a gente, e tudo, mulher dele, comadre, _________.

 

P - Às vezes ele deixava de pescar pra ir estudar, né?

 

R – Eu fui na formatura dele. _____ ali, lá na Morada do Sol. Ficamos ali até quatro horas da manhã, bebendo, comendo, dançando, pintamos o bode. Eu e a velha (risos).

 

P – Tá certo..

 

R – Bom demais, né.

 

P – É isso aí. E essa relação que o senhor tem com o filho do doutor Luiz Alexandre, como é que ele conheceu o senhor, como é que foi?

 

R – Ih, vi ele engatinhando, desde quando ele nasceu. A convivência era muito grande. Ele gosta mais de mim do que o pai dele. Aonde ele bate com o olho em mim ele vai, aonde eu tô ele vem pegar na minha mão. Agora, o doutor Luiz é mais secarrão, tem muita preocupação, muita coisa pra olhar. E uns anos atrás era pior, mas a companhia subiu igualzinho leite no fogo. Aí ____ o velho era vivo, ele não deixava a (farinha?) por menos, e aí depois que o velho não enxergava mais parou de andar, aí a companhia estabilizou e andou diminuindo um pouco. Trouxeram esse italiano, ele veio da Itália, ______ contratado. __________ pouco fazendo.... Eh _______, pintou e bordou aí. _______ oitocentos contos por mês... Ele levou um dinheirão pra terra dele. Dizem, me falaram que ele montou telefônica lá na Itália, tudo tirado daqui. Falo o que os outro me contaram não o que eu vi.

 

P – Tá vendendo o peixe do jeito que comprou. (Pausa). Mas a sua ligação mais forte de toda essa história está mesmo com o seu Alexandrino, né?

 

R – É, com o seu Alexandrino. O esteio da firma. Eh... Já trabalhei nessa minha vida… Hoje tô sossegado, graças a Deus, criei a família toda, não tem nada que me amolar… Minha família toda reúne junto comigo. Quando não vem cá, eles vão lá. _________ vinte dias lá. Tava de férias, né...

 

P – O senhor fez uma colônia de férias pra família, né?

 

R – É, justamente. O Sérgio que é _____________ saiu de férias, de aula, leva ele, larga lá e vem embora. Fim de semana ele vai. Criatura boa demais.

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