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"Uma libertação para mim"

História de: Dalva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Dalva nasceu na Paraíba em 1991. Filha de um pai violento, que espancava os filhos e a esposa, passou a ser abusada sexualmente por ele quando tinha apenas oito anos de idade. Os abusos continuaram, os episódios de violência e ameaça também e, só quando Dalva consegue ser mandada para a casa da avó, é que consegue denunciar o pai. Com uma vida marcada pelo medo e pelo desespero, Dalva encontra uma segunda chance no Projeto ViraVida, onde conhesse a si mesma e passa a ter oportunidades de construir seu futuro e recomeçar.  

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História completa

Minha família era meu pai, minha mãe e quatro irmãos. Eu sou a mais velha. Nossa casa ficava num sítio, era muito simples, humilde. Sempre foi. Nunca teve muitas coisas, muitos móveis. Nela meu pai guardava as ferramentas de trabalho, ele era camponês, tinha uma roça.

 

Eu gostava muito de ler a Bíblia, sempre gostei de ler e de estudar. Pegava os livros e ficava estudando ou brincando de professora. Como irmã mais velha, eu tinha que ter muita responsabilidade, cuidar dos irmãos, tomar conta da casa. Eu era o segundo pai, a segunda mãe, tinha que cuidar deles quando meus pais saíam para trabalhar na roça.  Quando chegava a época de fazer a colheita da roça, do feijão, do milho, ou de fazer o roçado, a gente tinha que ir junto, pra ajudar também.

 

Quando era pequena, eu e meus irmãos não podíamos brincar na rua, nem fazer amizades na escola. Meu pai controlava tudo e, por qualquer motivo, ele nos espancava. Minha mãe, que também sofria agressões, ficava sempre quieta na dela quando éramos espancados, com medo de apanhar também. Além de bravo, meu pai era muito ignorante, agredia a gente por nada. Tínhamos que fazer as coisas do jeito dele, senão... Se um dos meus irmãos saísse da linha com ele, eu também pagava pelo erro por ser a mais velha.

 

Isso acontecia e minha vontade era de matar meu pai, no início, mas eu não tinha forças. Eu tinha medo dele, muito medo. Eu muitas vezes chamava o meu irmão, que agora tem dezesseis anos, para a gente poder agredir ele, tirar ele de dentro de casa. Mas a gente nunca teve força nem coragem para fazer isso. Eu me sentia cada vez mais recuada, cada vez mais, eu tinha medo da situação. 

 

Ele vendia banana e macaxeira na feira de uma cidade próxima e me levava junto nas sextas-feiras, depois da aula. Na cidade, dormíamos numa casa que era da gente e, em uma dessas vezes, quando eu tinha oito anos de idade, ele falou pra mim: “Vamos brincar!” Quando ele falou: “Vamos brincar”, eu não entendi o que ele estava querendo fazer. Ele me apertou e me abraçou, começou a fazer cócegas e a tirar minha roupa. E eu: “Não, não quero, não quero brincar!” E ele: “Vamos, vamos! Cala a boca e vamos brincar.” Aí ele pôs a mão na minha boca e fez o ato. Ele praticou comigo à força. E eu chorando, porque não queria mais brincar, queria que ele parasse, estava doendo.

 

Senti como se tivesse morrido algo dentro de mim. Me senti muito mal. No dia seguinte, passei a manhã inteira calada, com a cabeça baixa, não comi durante o dia todo, tive febre alta. À tarde, uma senhora, que era amiga da minha mãe, passou na feira e falou: “Essa menina está doente.” Aí ela perguntou: “O que você tem?” Eu comecei a chorar. Ela me levou pra casa dela, me vestiu uma blusa, me enrolou numa coberta e eu tomei remédio. Ela disse: “O que tá acontecendo?” Mas eu fiquei com medo de falar pra ela e ela falar para ele e acontecer novamente aquela situação.

 

Na noite do dia seguinte, quando voltávamos pra casa, tentei dar um fim em minha vida. Para a gente chegar na casa, na roça, a gente ía na carroceria de um caminhão e tinha que atravessar um rio, que tinha enchido demais por causa da chuva, então o caminhão não podia passar. A gente ficou parado, sem poder atravessar o rio. A gente tava na carroceria do caminhão, eu, meu pai e uns amigos, que também trabalhavam na roça. Eram homens e só eu de menina, fiquei lá, nessa situação. Como não podíamos atravessar com o caminhão, um dos rapazes disse: “Vamos seguir sem o caminhão, com a criança. Os adultos ficam e podem continuar no dia seguinte. A criança tem que atravessar, senão vai passar fome e frio”. O rapaz me levou na frente e meu pai foi comigo, logo atrás. Quando a gente tava atravessando o rio, soltei a mão do rapaz para que a água me levasse. Não queria mais viver. Ele me puxou pela blusa, começou a gritar e todos correram para ajudar. Conseguimos chegar à outra margem, mas cheguei em casa com febre, tremendo, chorando. Minha mãe pensou que eu tava com medo por causa do rio.

 

Daquele dia em diante, não fui mais a mesma. Não conseguia conversar com meus irmãos, com minhas coleguinhas, ficava calada, afastada das pessoas. Olhava para a minha mãe e começava a chorar. Aí meu pai me puxou num canto e falou: “Cala a boca, senão tu vai apanhar e eu mato a sua mãe!” Ele mostrava várias vezes o facão, dizia que ia rasgar minha mãe no meio. Eu sabia que ele já tinha cortado a barriga de uma ex-mulher dele e pensei que faria o mesmo com minha mãe, por isso eu não falava nada e não revidava.

 

A partir de então, toda semana ele queria me levar para a cidade e eu nunca queria ir. Uma vez ele me deu uma surra, eu implorei pra minha mãe: “Pelo amor de Deus, diga a ele que não quero ir!” Então, ele ameaçou: “Se você não for, apanha você e sua mãe.” Ele sempre batia em minha mãe pra me incomodar, sabia que aquilo mexia comigo. Eu fazia de tudo pra ele não machucar minha mãe.    

 

Acho que minha mãe nunca percebeu. Se sabia, não teve coragem de falar. Ficava sempre calada, também tinha medo dele, ele agredia muito ela. Meus irmãos também não percebiam nada. Ele sempre dava uma de santo, dizia que a gente tinha que ser educado daquela forma, porque senão a gente ia dar para ser puta ou os meninos para serem veados. Ele repetia que a gente não podia sair da linha. Queria que eu fosse professora. Ele fingia ser um bom pai na frente da minha mãe, das pessoas. Só que, por trás, era um verdadeiro monstro. Quando ela saía pra buscar leite, ele aproveitava esse momento, me chamava no quarto: “Dalva, venha apanhar isso aqui!” No início eu não sabia o que era, ia até o quarto e ele me obrigava a tirar a roupa e a fazer o que ele queria. Tinha vontade de me matar, de arrancar as partes do meu corpo onde ele tocava. 

 

Os abusos ocorriam várias vezes, principalmente se a gente fosse pro roçado de manhã, que é o dia inteiro. Pronto, ele dizia: “Vamos na frente”, aí ele me levava, fazia, às quatro horas da manhã, quando ainda estava escuro, no mato. Ele fazia e dizia: “Cala sua boca, porque senão eu mato você e jogo aqui, enterro”. Várias vezes ele me mostrava buracos enormes, porque lá, como era sítio, às vezes, ele fazia buraco para plantar bananeira, essas coisas, aí ele me intimidava: “Coloco você nesse buraco e ninguém vai perceber onde que você morreu, ninguém! Eu digo que você sumiu no mato e pronto”. 

 

Ele sempre me ameaçava de um jeito ou de outro e, durante o dia, às vezes, ele dizia, quando mainha já chegava no roçado com meus irmãos: “Vamos pegar banana para a gente comer durante o lanche”, daí ele me levava junto e fazia a mesma coisa, me colocava no chão, colocava o facão ao lado e fazia o ato. Me abusava na frente e atrás. Eu chorava muito nessa hora, da parte de trás, porque doía muito, muito mesmo. Eu chegava a gritar e ele não tinha piedade, ele falava: “Isso é para ver se você tá virgem”, e não tinha nenhum motivo de ele desconfiar. Era só uma forma dele falar que queria fazer aquilo, uma forma dele tentar chegar perto.

 

Quando eu fiquei mocinha eu gritei de início, no banheiro, e chamei mãe, porque eu achei que ele tinha machucado alguma coisa e que estava sangrando. Eu comecei a gritar, aí mãe veio e ela disse: “Não, isso aqui é porque você tá mocinha”, e eu pedi pelo amor de Deus para ela não falar para ele, com vergonha, aí ela chegou e falou: “Mas tenho que falar, para você comprar um absorvente”, “Não diga não, pelo amor de Deus!”, comecei a chorar e ela: “Você tem que falar”. Quando ela falou, eu não estava presente, eles estavam almoçando e eu estava trancada no quarto, com vergonha. Aí ela falou, ele me fez comprar absorvente na rua. Eu nem sabia o que era absorvente, ele disse: “Vai lá na rua comprar”, eu não sabia, estava com vergonha também de chegar na mercearia. Comprei e voltei para casa. Ele falou: “Quer que ensine como colocar?”, aí a mãe fez: “Não, isso é papel meu”, aí ela fez isso. 

 

Mas ela nunca desconfiou disso e ele esperou eu melhorar e fez. Quando ele começou a fazer, a minha menstruação não veio mais. No outro mês, não veio mais. Aí ele falou: “Tá vindo?”, e eu: “Não tá.” E eu começava a chorar, porque eu também não entendia o que era, porque estava atrasando, aí ele ia lá no banheiro, procurava papel sujo quando eu saía, pegava minhas calcinhas, ficava olhando, e não sei o que ele queria ver. Aí ele começou a apertar a minha barriga na hora do ato. Quando ele fazia as coisas, ele começava a apertar a minha barriga e perguntava: “Você sente alguma coisa?”, e eu só gritava: “Tá doendo, pára! Tá doendo, pára!”, e ele não parava. Ele fazia mais ainda aquela coisa violenta, ele queria apertar e, hoje em dia, eu entendo, ele pensava que eu estava grávida. 

 

Ele começou a obrigar a tomar remédio, muito forte, chá de quebra-pedra, essas coisas. Ele me obrigava a tomar e, na mesma hora, eu vomitava, porque era muito forte. Eu ficava o dia inteiro com aquela dor me incomodando. Eu sentia muitas dores e não sabia o que era. Aí ele falou: “Oh, se você sentir alguma coisa, me fala”, mas a minha menstruação não continuou, não descia. Ele ficou muito perturbado, ficou preocupado, ele “encarcava” muito a barriga, apertava. Ele me dava surra, porque ele batia em mim por todos os motivos, se eu pegasse um copo de água, ele me batia. Ele deu um murro na minha barriga, aí mainha disse: “Por que tá batendo na menina desse jeito?”, porque eu fiquei desmaiada na hora. Ele esperou eu deitar no quarto, passando mal, aí ele pegou o facão e disse: “Olha, eu vou abrir a sua barriga no meio”, aí eu disse: “Por que você vai fazer isso?”, aí ele disse: “Oh, eu vou matar você”, eu não entendia (choro). 

 

Daí, com o tempo, eu senti muita dor, muita dor, muita dor, comecei a sangrar. Era a menstruação que tava voltando, mas eu também não sabia se estava abortando. Era menstruação normal, não era de um aborto, hoje em dia eu entendo que não era, mas ele fazia isso sempre: fazia o ato e me fazia tomar remédio. Toda vez, ele me fazia tomar sempre remédio para ver que não estava grávida, para ele ter a certeza. Ele obrigava a tomar e evitava, não sei como. 

 

Minha mãe via ele me batendo mas ele dizia que era porque eu não queria pegar algo que ele pediu. Eu cheguei até a contar para ela, de início, eu falei: “Mãe, eu tenho um negócio para lhe contar, vem aqui”, aí ela sentou, “Senta aqui”, eu comecei a chorar. Só que tudo que eu dizia a ela sobre ele, ela falava para ele. Ela falava, discutindo, ele dava a surra, “Cala a boca” e pronto. Ela ficava acabada. 

 

Como era cidade pequena, eu achava que seria a mesma coisa, se eu falasse, ela não ia tomar nenhuma decisão. Quando eu ia começar a falar, eu dizia: “O pai tá fazendo uma coisa comigo, mãe”, ela: “Fala o que é?”, “Ele tá fazendo uma coisa que tá me machucando muito”. Aí na mesma hora ele chegou, escutou e começou a bater em nós duas, ele bateu que mainha sangrou muito no rosto, eu também fiquei toda roxa na hora.

 

Uma vez, assisti na televisão uma criança que pedia para denunciar quando acontecesse isso. Eu achei que o que acontecia comigo era o mesmo que ela tinha falado, igual ao que ela tava passando. Eu vi também que na cidade aconteceu a mesma coisa, uma menina denunciou e o pai foi preso. Ela era da mesma idade que eu, mas o pai foi solto em poucos dias e eu pensei: “Não vai dar certo. Pra onde eu vou? Eu vou ficar aqui. Se ele for solto, vai fazer a mesma coisa ou talvez me matar, vai matar a minha mãe.” Eu achava que aquilo que ele estava fazendo era errado e que ele tinha que ser preso, tinha que pagar pelo que estava fazendo, mas eu não tive coragem de ir à delegacia, com medo também daqueles policiais, que eram amigos dele, porque ele levava frutas para os policiais. Então, eu comecei a provocar ele, provocava dizendo que eu tava namorando, ele tinha ciúmes. Eu achava que com isso ele ia me mandar para a casa da minha avó, que morava com minha tia em outra cidade. Assim, ele me mandaria pra casa delas pra eu esquecer o namorado, porque elas eram muito rígidas. Deu certo, ele me mandou para lá e disse: “É só pra você esquecer esse negócio de namorado.”

 

Quando fui preparar a minha mala, estava rindo à toa no quarto com a minha vó, que foi me buscar. Ele entrou no quarto e disse: “Não fique tão feliz, não. Daqui a alguns dias, você volta.” E pediu pra eu levar pouca roupa, tirou algumas que eu tinha colocado a mais na minha mala, mas quando ele saiu do quarto eu coloquei a roupa de novo na mala e escondi debaixo da cama. 

 

Às quatro horas da manhã, eu acordei pra pegar o ônibus. Me arrumei e disse pra minha avó: “Bora vó, vamos sair daqui!” Minha vó disse: “Calma, por que isso? Pra que tanta pressa?” “Vamos, vamos, vó!” Estava feliz. Ele acompanhou a gente até o ponto de ônibus. Quando cheguei no ponto de ônibus, deixei a sandália velha com ele, empoeirada e tudo, e entrei no ônibus descalça. Quando partimos, calcei a sandalinha nova, que ele tinha me dado, e fiquei feliz de ir embora dali! Conversando com a minha avó, rindo à toa, eu disse: “Vó, eu tenho uma coisa pra contar, mas só em sair daqui eu estou feliz!” Eu olhava pra trás na estrada e dizia: “Nunca mais eu volto aqui! Nunca mais eu volto aqui!” Minha vó perguntou: “O que você tá falando?” Eu respondi a ela: “Depois a senhora vai entender.” Não consegui dormir durante a viagem, estava muito feliz e ansiosa. 

 

Quando cheguei, minha tia disse logo: “É, seu pai teve que mandar você pra cá por causa de namorado. Espero que você não me dê trabalho aqui.” No outro dia, eu contei tudo pra uma amiga da minha tia, porque eu tinha muita vergonha de contar pra minha tia e para a minha vó, e pedi pelo amor de Deus pra que não atendesse as ligações dele.  Quando eu contei tudo pra ela, senti uma sensação de alívio, como se eu estivesse me libertando de algo, mesmo tendo a sequela, mesmo tendo as marcas, foi aquela sensação de alívio, por estar longe dele, por não estar vendo o rosto dele. Bom, essa amiga da minha tia contou tudo pra ela, eu escondida no quarto, de vergonha. Aí minha tia contou pra minha avó e elas choraram muito, ficaram abaladas, passando mal. Minha avó dizia: “Eu vou matar ele!” Ela ficou desesperada e minha tia também.

 

Depois minha tia procurou saber o lugar certo para ir denunciar. Ela me levou pra delegacia e lá pediram pra eu falar tudo novamente pro delegado. Minha tia olhou pra mim e disse: “Dalva, pelo amor de Deus, se isso for tudo mentira eu vou ser presa. Eu vou ser presa e seu pai vai te matar com uma surra, você sabe que ele é muito ignorante!” Depois me mandaram fazer os exames no IML, onde viram que o hímen estava rompido e a parte de trás tava toda rasgada, tudo cortado, machucado mesmo. No dia seguinte mandaram prender meu pai.  

 

Eu fiquei muito ansiosa, muito nervosa. Não comi, não dormi nesse dia. Fiquei esperando só a hora de ele ser preso. Quando chegou à tarde do outro dia, eram cinco ou seis horas, ligaram pra mim e disseram: “Ele está sendo preso agora, sua mãe está em estado de choque, chorando muito. Ele, por enquanto, vai ficar na cadeia da cidade esperando julgamento”. Meu pai teve a sentença de quinze anos de prisão, mas saiu depois de cumprir cinco anos, por bom comportamento. 

 

Foi bem complicado esse tempo, porque eu achava que a casa da minha tia não tinha segurança e, mesmo meu pai estando preso, eu vivia com muito medo, eu pensava que os irmãos e o pai dele viriam fazer alguma coisa pra se vingar. Foi uma fase que eu tive que passar por psicólogo. No tratamento com o psicólogo eu tinha que conversar, desenhar, explicar o que estava acontecendo, porque mesmo eu estando bem por ele estar preso, eu, a todo momento, pensava que ele poderia ser solto ou que alguém viria se vingar por ele. 

 

Uma vez minha avó e minha tia quiseram que eu fosse visitar a minha mãe. Foi num dia de Natal e eu não queria de jeito nenhum, tinha vergonha de encarar a minha mãe e os meus irmãos, mas eu fui. Quando caminhava em direção à casa de minha mãe. Naquela hora eu sentia que todo mundo olhava para mim. Eu fui caminhando de cabeça baixa. “Ai meu Deus do céu!”, pensei. Me sentia pequenininha, sem força para nada, nem para andar. Sabia que todo mundo da rua conhecia a minha história. “E agora, o que eu faço?”, eu pensava. Soltei o cabelo, escondi meu rosto e segui de cabeça baixa até chegar à casa da minha mãe. 

 

Quando entrei na casa, pedi a benção a minha mãe, mas ela não respondeu. Olhou pra mim e disse: “Desapareça da minha casa!” Daí eu perguntei: “Por que, mãe?” “Você é a rapariga do meu marido, você é a puta do meu marido.” Aí eu saí do sério, saí do meu controle: “Como a senhora entende tudo errado?! A senhora via que estava acontecendo alguma coisa comigo e a senhora nunca teve coragem de me defender!” E ela: “Não quero ver sua cara, desapareça!” Naquele Natal eu almocei na casa de uma vizinha. Quando cheguei de volta na casa da minha tia, contei o que tinha acontecido, fiquei doente e tive que voltar para o psicólogo novamente. 

 

Continuei morando com minha tia e minha avó. Mas por tudo que eu tinha passado, não queria nada com a vida. Já mais adolescente, passei a sair com amigas, só queria ficar na rua, curtir a vida. Não demorou muito comecei a beber... Quanto mais eu bebia, mais eu tinha o momento em que esquecia de tudo, eu esquecia o que tinha acontecido na infância. Foi neste período que tive o risco de me prostituir, usar drogas, mas não fiz isso. Eu chegava na escola, não tinha paciência mais pra ouvir nada, não tinha vontade de ouvir aqueles professores falando, eu ficava agoniada. Eu passei a sair com homens que eu nem sabia quem eram, como se não tivesse valor o meu corpo. 

 

A minha tia já não me aguentava mais, queria me devolver pra minha mãe e isso era tudo o que eu não queria. Ficava tentando arrumar emprego e implorando para a minha psicóloga me ajudar. Até que um dia a psicóloga me falou do projeto Vira Vida, disse que eu devia tentar, então me inscrevi. Fui selecionada para o Vira Vida e logo no início eu gostei pois percebi que os outros alunos estavam na mesma situação que eu, uns estavam nas drogas, outros na prostituição. Era quase idêntica a situação de todos. 

 

No Vira Vida passei a gostar de estar perto das pessoas. Só em falar um “oi”, bater um papo, pra mim já era tudo. As pessoas do Vira Vida abraçavam a gente, como se fôssemos filhos. A forma como elas conversavam com a gente era de mãe pra filha mesmo. Aos poucos eles me fizeram ver as coisas boas que tinham dentro de mim, e me ajudaram a lutar contra aquilo de ruim que estava me impedindo de ser feliz.

 

No projeto Vira Vida, cada dia era um momento em que eu me conhecia mais. Foi uma experiência mágica na minha vida, porque eu, antes do Vira Vida, não me conhecia. Foi ali que eu passei a me conhecer. Com minha família, meu pai e minha mãe, eu poderia ter descoberto quem eu era de verdade, mas não tive essa sorte. Fui ver quem era a Dalva no Vira Vida.

 

Com o tempo fui aprendendo a participar dos eventos, ter momentos de lazer... No início, eu ficava meio desconfiada, era muita coisa pra eles darem de graça para a gente. E me perguntava: “Será que mereço ficar aqui, será que não mereço?” Fui descobrindo que merecia sim, assim como outros jovens que passaram pela mesma situação que eu passei. Eles também mereciam.

 

Terminei o curso, aprendi uma profissão. Me lembro muito bem de quando tive a notícia do emprego, foi pelo telefone, eu estava limpando a casa, ah, eu pulei tanto. Larguei a vassoura, eu pulava tanto, peguei minha carteira profissional assim... Olhei, eu beijava minha carteira. Eu levei pra eles assinarem. Voltei pra mostrar pras minhas amigas a minha carteira assinada como depiladora. Eu já tinha um namorado, que me ajudava, e, agora, eu tinha a minha carteira assinada! 

 

Meu sonho agora é poder continuar estudando. Antes queria ser professora, agora quero ser alguma coisa ligada aos direitos humanos. Tipo ser advogada na área da infância. Eu quero trabalhar nessa área pra mostrar pras pessoas o que é certo e o que é errado. Quero trabalhar para ajudar pessoas a superarem o medo, a superarem as mesmas dificuldade que eu tive. Quero ajudar as pessoas a terem coragem de denunciar alguém que as esteja prejudicando. É isso. Quero ajudar as pessoas, estar ali trabalhando com elas.  


Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações. 

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