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História

Uma luz no fim do túnel

História de: Francisco Edmisio da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2007

Sinopse

Francisco migrou de uma pequena cidade rural no Ceará para São Paulo com vinte e um anos. Ao chegar na metrópole, deparou-se com a dificuldade latente que muitos migrantes nordestinos têm na busca por emprego. Nesse período difícil, encontrou ajuda na religião, que mudou a sua maneira de olhar o mundo. Acreditando na presença de Deus em sua vida, começou a ajudar os moradores das ruas do entorno de sua casa. A convivência com essa população foi a chave para que o seu projeto pessoal desse certo. Hoje, ajuda dezenas de pessoas em situação de rua e dependentes químicos, oferecendo moradia, alimentação, cuidados e a possibilidade do contato com a religiosidade. Acredita bastante nos pequenos milagres que acontecem com ele diariamente e, olhando sua trajetória e quantas vidas já mudou, considera-se uma luz, que ilumina o escuro das noites paulistanas. 

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História completa

P/1 – Para começar a entrevista então vamos começar pelo seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Sou Francisco Edmísio da Silva, nasci em 17 de agosto de 1968, Nova Olinda, Ceará.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?  

 

R – Meu pai é Francisco Antônio da Silva e Maria Joana da Conceição.

 

P/1 – Eles nasceram onde?

 

R – Também são lá de Nova Olinda, Ceará.

 

P/1 – Se lembra dos seus avós?

 

R – Pouco. Eles faleceram eu ainda era muito jovem. 

 

P/1 – E o que seus pais faziam?

 

R – Meus pais trabalhavam na agricultura. 

 

P/1 – E você se lembra desse tempo?

 

R –Ah, tempo bom... Eu era feliz, talvez não sabia. Com tão pouca coisa nós conseguíamos ser felizes. E isso hoje ainda traz alegria no meu coração. Eu creio no coração de muitas pessoas que se criaram na simplicidade, com o carinho, o amor dos pais. Que para muitos hoje pode ser uma maneira rude, mas na época nos trouxe uma formação de vida. Era viver com pouco, mas ter alegria no coração.

 

P/1 – Quantos irmãos você tinha?

 

R – Nove irmãos.

 

P/1 – Eles estão vivos?

 

R – Alguns. Eu queria que fossem mais. Eu gosto muito de criança, e meus sobrinhos…(pausa). Mas alguns já faleceram, mas os que estão vivos nós nos damos muito bem.

 

P/1 – Você se lembra da sua vida da infância, sua casa? Como é que era a sua infância?

 

R – Ah, lembro. Nove pessoas, nove filhos comigo, pai e mãe e alguns outros parentes. A casa enorme. Muito grande. E ali nós, ao lado tinha aquele terreiro enorme onde nós jogávamos bola. Nós tínhamos o nosso próprio campo. Por sermos tantos na nossa própria casa, nós tínhamos o nosso próprio time dentro de casa. Nós tínhamos o nosso campinho e aí nós fizemos a nossa própria lagoa. Nós tomávamos banho no nosso açude ao lado da nossa própria casa. E era muito bom. 

 

P/1 – Seus pais viviam da agricultura?

 

R – É, todos nós vivíamos da agricultura.

 

P/1 – Vocês também trabalhavam, os filhos?

 

R – Também. Eu, apesar de ser já dos últimos não cheguei a se dedicar mais ao trabalho, porque logo cedo meu pai me tirou, colocou em uma cidade maior, uma cidade grande, para estudar. Então eu já não tinha muito tempo de trabalhar. Eu vivia mais para estudar. Foi aí onde eu concluí o meu segundo grau. Com dezoito anos de idade eu concluí dois segundo grau. Foi técnico-pedagógico, e eu consegui o técnico científico também, em eletrônica. Isso com dezoito anos eu estudava em dois horários, porque eu morava na cidade grande somente para estudar.

 

P/1 – Como foi essa passagem sua da vida do campo para a cidade?

 

R – Um pouco difícil no princípio, mas fomos nos adaptando rapidinho, e foi muito bom.

 

P/1 – Fomos? Era mais de um filho que foi para a cidade?

 

R – É, foi trazendo numa sequência. Ia crescendo, terminava o quarto ano primário no sítio, nós íamos passando para a cidade. Então como era uma escadinha, todos os anos vinha um a mais para a cidade, estudar na cidade.

 

P/2 – Mas ficava com quem na cidade?

 

R – Com o irmão mais velho. Nós ficávamos com os mais velhos. Os menores ia ficando com os mais velhos, que já eram adultos.

 

P/2 – Mas numa casa?

 

R – É, nós tínhamos casa. Meu pai comprou casa na cidade grande.  Nós morávamos, somente estudávamos e toda semana vinha um sustento do sítio para nós permanecermos na cidade grande estudando. 

 

P/2 – Que cidade era?

 

R – Crato. Crato, Juazeiro do Norte, lá, a história do Padre Cícero. Foi ali que depois de treze, catorze anos eu vivi boa parte da minha vida.

 

P/1 – E depois dessa fase o que é que aconteceu na sua vida?

 

R – Começou tudo de novo. Nós éramos todos no sítio. Começou vindo um para a cidade grande e foi puxando, até que veio todo mundo. O pai e a mãe também. Colocamos um pessoal para ficar cuidando lá no interior. Aí o mais velho que já estava aqui veio para São Paulo.... Aí começou puxando, veio todo mundo para São Paulo.

 

P/1 – Em que data você chegou em São Paulo?

 

R – Olha, faz uns dez anos. A data em si eu não lembro.

 

P/2 – Mas por que é que todo mundo… O que é que seu pai plantava no sítio? O que é que era?

 

R – Arroz, feijão, um milho.

 

P/2 – Era para vender para fora também?

 

R – Para comer. E aquilo que sobejava dava para vender, era para o vestuário, calçado.

 

P/2 – Mas vocês tinham dificuldade de sobreviver ou não tinham?

 

R – Não, na época chovia bastante. E nós éramos um grupo grande. E aquilo que plantava dava para sobreviver muito bem.

 

P/1 – E ainda dava para custear os estudos na cidade?

 

R – Os estudos dos outros na cidade.

 

P/2 – E por que é que então começaram a vir para São Paulo? Quem inventou essa moda?

 

R – Quem inventou essa moda? (risos) Sabe aquela necessidade, ou aquela conversa? Por exemplo: “Vem para o meu lado que o meu lado está melhor.” Então alguém veio: “Vamos lá que é melhor, é mais fácil.” E há vinte e cinco anos atrás, vinte anos atrás era um pouco mais fácil. Não tinha tanto desemprego, não tinha tanto o que nós temos hoje. E começou vindo. E a partir do momento que eu concluí o segundo grau, e na cidade Crato, Juazeiro não houve uma abertura de uma porta de serviço, de trabalho, você tem segundo grau, é jovem ainda: “Vamos para São Paulo, lá você consegue.” E aí fomos vindo, fomos vindo, praticamente viemos toda a família para cá. Só que depois começou a retornar. Começou alto índice de desemprego, isso que nós estamos vendo hoje nesta cidade. Aí começou a retornar, alguns retornaram para lá e continuam com a vida de antes. E outros permanecem aqui, inclusive deles eu sou um dos tais.

 

P/1 – E a casa continua lá, essa casa?

 

R – Continua. Hoje nós temos três casas.

 

P/1 – Lá, no sítio?

 

R – No sítio e também na cidade.

 

P/1 – E todos os irmãos ajudam os pais, eles ainda trabalham? 

 

R - Não, os pais não mais trabalham. Tem uma vida razoavelmente boa. Trabalhamos bastante, Deus abençoou e conseguimos comprar algumas casas e hoje tem umas pessoas que cuidam das terras, terras arrendadas, e dá para sobreviver.

 

P/2 – Que é que você imaginava que era São Paulo? Você chegou aqui você tinha quantos anos?

 

R – Tinha vinte e um anos.

 

P/2 – Você já tinha visto, imaginado alguma coisa? O que você imaginava?

 

R – São Paulo só de ouvir falar. Um paraíso. Quem está lá pensa assim. Alguém contou uma história fora de São Paulo. Essa história ela é muito conhecida: “Ah, vamos para São Paulo, lá tudo é fácil. Olha eu estava telefonando, e o vento estava levando uma nota de dinheiro, e eu nem parei de ligar porque eu sabia que quando eu terminasse de telefonar viria uma outra.” Se conta essa história. E as pessoas começam a vir por causa dessa história. As pessoas que vêm aqui para São Paulo moravam lá no campo, aí vem aqui para São Paulo, trabalha um pouco, compra uma roupinha toda bonita, um gravador, um som. Volta, vai visitar lá. Chega lá todo arrumadinho, o som e tal, as pessoas falam: “Ô, São Paulo é bom. Já está rico, como está bonito, engordou. Mudou um pouco a pele por causa do calor lá.” E aí aquela pessoa que é jovem que está lá, e que também tem um desejo de uma mudança de vida, viu fisicamente uma mudança em tão pouco tempo e começa a vim para cá. Só que nós que estamos aqui sabemos que é história. Se é difícil lá também é difícil aqui. 

 

P/1 – Assim sendo, qual foi sua primeira impressão da cidade?

 

R – Bonito. Apesar de que eu também morava em uma cidade grande. Mais ou menos um trânsito também assim. Cheguei aqui, na época que eu cheguei eu fazia atletismo, eu sonhava em ser um atleta. Fui muitas vezes no Ceret, participei da São Silvestre. A princípio eu vinha por causa dessas corridas, eu não trabalhava, só estudava. Então dedicava minha vida só para treino, tanto futebol como atletismo. E foi minha primeira impressão: eu posso jogar em um time de futebol, mas não foi assim. Houve algumas mudanças e hoje eu sou um atleta de um outro time. 

 

P/1 – Você tinha muita religião na sua casa? Os seus pais eram religiosos?

 

R – Eram. Mas tínhamos...

 

P/1 – Qual era a religião?

 

R – Nós éramos católicos, tínhamos que ir à missa todos os domingos. Era uma regra na casa. Nós íamos todos os domingos à missa. E tínhamos a nossa vida comum, como todo mundo.

 

P/1 – Agora, voltando aqui para o seu atletismo, daí o atletismo não deu certo?

 

R – Não deu, porque na época eu quebrei o braço, fiquei muito tempo afastado. E depois quando eu regressei já não tinha mais aquela garra, aquele desejo. E aí em seguida eu tive que trabalhar. E trabalhando houve muito desgaste. E aí aquilo foi ficando para um segundo plano. 

 

P/1 – No que você trabalhava quando chegou aqui?

 

R – O primeiro serviço foi em uma firma aqui no Largo do Belém, chamava-se Polifilme, nem existe mais aí. Eu comecei como apontador de produção. No princípio tinha um bom emprego, sempre sentado, apontando produção do setor, foi meu primeiro emprego aqui em São Paulo. Meu primeiro emprego no geral.

 

P/2 – Vocês vieram morar aonde aqui?

 

R – Aqui no Belém, aqui na Rua Passos. Minha família ainda mora aí, lá do Largo do Belém.

 

P/1 – E aí quais foram seus outros empregos?

 

R – Depois que eu consegui com que comprar uma roupa melhor do que a que eu vim...

 

P/2 – E um som. (risos)

 

R – ...claro, eu voltei lá, né? Voltei lá. Um som, televisão, vídeo, arrumadinho. Na época eu parei atletismo, deixei um pouco o futebol, fui fazer musculação. Treinei aqui pelo Belém em algumas academias, fiquei praticamente três anos treinando, fiquei com corpo, aí voltei lá. E lá fiquei um bom tempo. Mas também não surgiu oportunidade de emprego. Foi naquela época que houve uma recessão, Collor, aquela coisa toda. Aí: “Vou voltar novamente para São Paulo.” E eu vim novamente para São Paulo. Fiquei pouco tempo lá.

 

P/2 – Em Crato?

 

R – Em Crato. Agora já estava na cidade grande, e retornei novamente aqui para a cidade grande.

 

P/1 – E aí foi fazer o quê?

 

R – Quando eu cheguei aqui fiquei desempregado, bate aquilo que: sem dinheiro. Eu sempre gostei de trabalhar. Eu acho que todo trabalho que é trabalho digno. Como eu tinha um corpo avantajado porque eu treinava, bati em todas as portas tudo estava fechado: “Eu vou aproveitar meu corpo vou carregar alguma coisa. Vou ser chapa.” Sabe o que é que é ser chapa? Fica na marginal, na Dutra, passa aquele caminhão você dá com a mão. O rapaz tem uma carga dentro do caminhão. Ele pára, você vai com ele até o destino dele, seja onde quer que for, e lá você descarrega nas empresas aquilo que ele está levando. Eu jovem, segundo grau, uns cursos, curso de Senai, algumas coisas, mas eu precisava trabalhar para comer do fruto do meu próprio suor. Eu sempre achei que deve ser assim. E eu comecei trabalhar de chapa, fazendo carreto, e me virava. Saía de manhã, não tinha dinheiro, mas saía de manhã e eu tinha que arrumar dinheiro para mim comer para não ficar dentro de casa, dependendo de um, outro. E quando eu retornar à tarde ou à noite para casa eu ter alguma coisa para trazer para casa. E eu fiquei um tempo trabalhando nisso depois.

 

P/2 – Você foi a que lugares quando você foi chapa, assim, você lembra?

 

R – Ah, não, muitas empresas, né?

 

P/2 – Mas você ia para longe de São Paulo ou...?

 

R – Não, até São Bernardo. Mais até aqui São Bernardo. Aqui o pessoal atravessa aqui eles fazem mais essa área mesmo.

 

P/1 – Não tinha dificuldade deles pararem sem conhecer?

 

R – Muita dificuldade. Para cada quinhentos, pára um. 

 

P/1 – E compensava o dinheiro que pagavam?

 

R – Não era um dinheiro compensador. Mas eu me alimentava e não dependia dos meus irmãos, da minha família. Permanecia na casa, mas sempre lutando, batalhando e mostrando para eles e para mim mesmo que eu estava me esforçando para ganhar o meu pão de cada dia. Foi nesse ínterim que eu conheci uma transportadora e comecei a trabalhar agora diretamente dentro da transportadora. E dentro dessa transportadora ela começou a carregar produtos da Nestlé. E eu comecei a trabalhar na transportadora de terceirizado dentro da Nestlé, aqui na Catumbi. E eu trabalhando ali, vendo todo aquele povo, eu tinha dentro de mim um desejo de trabalhar naquela companhia. E hoje eu trabalho lá.

 

P/1 – Na Nestlé?

 

R – É. Inclusive daqui a pouco tenho que ir. (risos)

 

P/1 – Qual é seu cargo lá?

 

R – Eu sou maquinista, eu sou, vamos dizer assim, tapa buraco. Deus me abençoou e eu aprendi fazer um pouquinho de cada coisa.

 

P/1 – O que é um maquinista?

 

R – Trabalha na… Eu trabalho em fabricação. Fabricação de biscoito. Tem um equipamento que chama-se rotativa, é ele onde faz o rolo onde nasce toda a produção de biscoito. Mas aí, por causa do conhecimento, porque graças a Deus eu me dou bem com as pessoas, eu fui aprendendo um pouquinho em cada coisa. Então tanto em recheadora de biscoito como rotativa, forneiro, pacoteiro, e aí eu fui me inteirando um pouquinho em cada coisa. Passei a ser folguista. De repente eu entro na empresa, folgou alguém em tal lugar. Leva o irmão lá, leva o irmão. Então isso foi abrindo uma porta, e eu fui aprendendo a fazer um pouquinho de cada. 

 

P/1 – Mas espera aí: irmão, leva o irmão, quer dizer, nessas alturas é bom perguntar em que momento você começou com trabalho religioso?

 

R – É, eu, quando eu estava na transportadora eu, houve uma recessão, estava indo toda semana. E chegaram à seguinte conclusão: “Vamos mandar os solteiros embora.” E desses solteiros, me mandar embora, eu era solteiro. Então me mandaram embora quando eu trabalhava na transportadora dentro da Nestlé, e eu...

 

P/2 – Isso foi em que ano, só para a gente se entender?

 

R – Hoje eu tenho, vou fazer oito anos dentro da empresa. Então em 1992, 1993. Aí eu saí. Novamente, vamos começar tudo de novo andar pelas ruas, procurar alguma coisa. Nesse andar pelas ruas eu passei em frente a uma igreja cristã. E eu tinha uma formação católica boa. Nunca tive nada contra alguém. Jesus, é Jesus, amém, graças a Deus. Você faz parte da sua eu faço da minha. Nós nos abraçamos, estamos felizes e amém. E alguém me convidou e eu adentrei. Enquanto isso alguém falava aquilo que eu estava precisando. Falava sobre emprego. E aquilo nasceu um desejo dentro de mim muito grande, de trabalhar segundo aquela palavra que estava sendo falada. E aí eu fiz um compromisso com Deus, compromisso no desespero, que se Jesus abrisse uma porta de trabalho para mim, e que fosse lá na Nestlé, que era o lugar que o meu coração queria eu ia procurar conhecer melhor quem é Jesus. E aquilo eu fiz. Eu fui para casa, no sábado de manhã eu estava aqui na Rua Passos, nasceu um desejo dentro do meu coração, estava chovendo, de eu sair na rua, mas estava chovendo. Vou sair na rua na chuva? E eu saí. Nessa saída eu desci lá pela Catumbi. Fui lá para baixo. Era umas onze horas da manhã. Quando eu estou passando na frente da empresa vem me saindo um rapaz. Disse assim: “Ô, eu lembro de você, trabalhava aqui na transportadora.” Eu disse: “É.” “Olha eu peguei uma senha aqui na Nestlé para alguém, eu vou dar para você então.” Eu falei: “Amém.” Ele me deu aquela senha, eu “ponhei” no bolso, fiquei pensando no compromisso que eu tinha feito que a coisa ia dar certo. Segunda-feira eu voltei, foi fácil fazer entrevista, porque eu já trabalhava na empresa e conhecia algumas das regras da empresa. E comecei fazer os exames. Aí fui novamente na igreja, fiquei ouvindo, não esqueci do compromisso que eu tinha feito. Esse compromisso que eu tinha feito, fazendo os exames, quando eu cheguei no último dia para entregar os últimos exames, cheguei onze horas da manhã. O médico disse assim: “Olha, deu problema no coração e no ouvido, você está reprovado, não vai poder trabalhar.” Eu falei: “Eu já estou tão próximo.” Lembrei de meu compromisso, e daquilo que eu tinha feito para com Deus, e senti que Deus tinha feito para comigo, que eu ia trabalhar naquele local. Ele disse: “Se você me chegar até três horas da tarde com o resultado desses dois exames, você entra na empresa. Mas eu já vou logo te adiantando que é impossível, se você está desempregado você não vai poder pagar particular. E onde que você vai fazer esses exames?” Eu disse: “Faz sentido.” A fé remove montanhas, e faz aquilo que nós não vemos ser real. Eu saí dali, entrei no Sesi Catumbi. Você entra dizendo: “Aqui vai ter minha resposta.” Eu cheguei para uma moça, conversei com ela, ela disse: “Nós temos o médico do ouvido de três em três meses aqui no Sesi. O senhor faz uma ficha, aguarda, daqui a três meses nós mandamos lhe chamar e marcar o dia.” Eu falei: “Muito bem,.” Aí eu estou conversando com ela, passou um senhor e ouviu a conversa. Ele disse: “Moço, o senhor quer fazer para um exame admissional:” Eu disse: “É.” Ele disse: “Eu sou esse médico, pode entrar.” Eu entrei. Ele fez tudo direitinho, falou: “Não, você não tem problema nenhum. É que o rapaz que está lá nessa empresa, já veio outras pessoas. Ele é estagiário. Ele tem medo de por alguém depois dar problema e sujar a ficha dele.” Me colocou, me deu o papel. Eu precisava de fé novamente, porque agora eu precisava do coração. Eu desci a Celso Garcia, em frente o Correio aqui do lado da Rua Passos também tem um médico, tem posto de saúde. Eu adentrei, conversei com a moça, ela falou: “Aqui é igual o Sesi. Lá atende ouvido, aqui atende coração, também de três em três meses.” Nós estamos conversando. Ela disse: “Olha, eu tenho uma novidade para o senhor: esse médico de três em três meses é aquele velhinho que está sentado ali conversando com aquela senhora. Se o senhor for lá e conversar com ele...” Eu disse: “Eu vou sim.” Fui lá, conversei com ele, ele só olhou para mim assim, colocou um aparelho aí disse: “Deixa eu fazer um atestado” Fez um atestado, assinou, peguei aqueles dois papéis, agora feliz (risos) fui até a fábrica, adentrei ali na fábrica fiquei esperando. Quando o médico ia saindo, eu disse: “Por favor, eu preciso falar com o senhor, aqui está o seu atestado.” “Não, mas não pode, você...” Eu disse: “Olha os papéis.” Ele olhou, estava direitinho, assinou minha admissão e eu estou lá até hoje. 

 

P/1 – Mas aí era uma igreja católica que você entrou?

 

R – Não, uma igreja cristã.

 

P/1 – Ah, já era?

 

R – Já era. 

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – Aí, em um desses compromissos que eu fiz com Deus, foi que com o fruto do meu suor eu ia servir ao pobre e ao necessitado. Eu sempre gostei de Largo do Belém, Alto da Mooca, os meninos que estão na pracinha do lado ali, conheço eles todos. Tatuapé, biblioteca, os viadutos aqui do lado. E fazer um trabalho com essas pessoas: sentar e conversar. Porque eu só sei da sua vida, ou o que você está sentindo o dia que eu me colocar na sua vida. Que eu costumo dizer para os meninos de empatia, eu me coloco no seu lugar. Eu só sei o que é que é uma vida de alguém que passa fome no dia que eu passar fome também. Eu só sei o que é que é dormir na sarjeta no dia que eu dormir na sarjeta também. Uma coisa é ouvir falar, e outra coisa é viver aquilo que você está falando. E eu precisava ajudar essas pessoas, porque eu tinha prometido para Deus que ia ajudar essas pessoas, e eu, e aquilo que eu tinha pedido Deus tinha me colocado lá dentro da empresa. Eu estava lá trabalhando, e eu comecei a perguntar para Jesus o que é que eu podia fazer. E um dia Deus me tirou da cama, frio, junho, julho, três horas da manhã. Estava uma garoa muito fria. E eu saí ali na Rua Passos, fui ali em direção ao Largo do Belém, tem um canteiro na esquina da Cotegipe. E ali tinha um rapaz, ele era ex-detento, geralmente quando eu chegava do serviço era nove e meia, dez horas, eu dividia a minha comida com ele. Ele ficava do lado da minha casa também. E um dia uma voz falou dentro de mim, hoje eu sei que foi Deus: “Deita do lado dele” “Mas eu acabei de sair debaixo de um edredom, três horas da manhã, um frio, uma garoa dessa.” E aquela voz pulsava dentro de mim: “Deita ao lado dele.” E eu deitei naquela grama molhadinha onde ele estava. E eu olhava para ele, comecei a me tremer, e ele normal. Aquela voz dizia para dentro de mim: “Agora você sabe o que é que é a vida de um mendigo de rua?” Eu dizia: “Sei por que eu agora sou um mendigo de rua. Eu larguei minha casa, larguei minha família, e eu estou deitado aqui em uma grama. Alguém pode passar, fazer alguma coisa contra mim, porque eu agora sou um mendigo de rua. Eu agora sei o que é que é uma vida de um mendigo de rua.” E eu levantei e fui para casa. O coração contristado. Quebrado por ver que uma pessoa trabalhou uma vida inteira, chegou na velhice, não soube economizar, quantas pessoas não sabem economizar? Multidões. E agora depois de velho as portas de trabalho se fecharam, e ele não pode mais pagar aluguel, não pode pagar água, não pode pagar luz. E ele chegou a um ponto de ser jogado na sarjeta. O pior lugar na vida de um ser humano é ser jogado na sarjeta. Não tem dignidade, não tem respeito, e não tem vontade própria. Sem dignidade, sem respeito e sem vontade própria, deixa de existir. São cadáveres ambulantes jogados em uma esquina. “Eu preciso fazer alguma coisa por essas pessoas. Que é que eu posso fazer a princípio? Ah, Jesus, a única coisa que eu posso fazer a princípio é fazer cafezinho quente, pão, e sair de madrugada e dando para eles.” “Mas por que não dá durante o dia?” “Ah, durante o dia não, durante o dia às vezes eles estão no farol, ou sobra alguma comida, alguém joga na rua eles comem. Durante a madrugada que está frio, que eles estão deitado, quem sabe um cafezinho quente pode ajudar.” E eu comecei a fazer café quente, café com leite, achocolatado, e saí todos os dias de madrugada. Todos os dias. Largo do Belém, Viaduto Guadalajara, Mooca, na Rua Dufon aqui no Tatuapé. Então eu ficava a madrugada inteira a pés, a minha Bíblia, assobiando, feliz. Com as sacolas na mão. Arrumei um linguajar: “São meus fregueses.” Eu já tinha a minha freguesia. “Eu tenho um freguês que está ali.” Eu chegava ele não estava, eu ia em outro freguês: “Você não viu o Fulano?” “Ah, aconteceu isso, isso, isso, ele saiu.” Então eu já tinha a minha comunidade feita. Aí eu não tinha assim uma igreja fixa para congregar. Quando foi um dia alguém me chamou para ir congregar lá na favelinha. Era um barraco de madeira, passava uns córregos de água. E eu ali naquele lugar eu vi muita simplicidade. E eu vi um alvo: pessoas carentes que precisavam de ajuda, e que estavam no centro daquela vocação que Deus tinha me chamado. Então eu comecei. Tive muita dificuldade, muita dificuldade. Nós, na época, enfrentamos um problema difícil. Nós tínhamos uma média, quando eu digo nós porque eu faço parte, eu faço parte disso, hoje eu sei que eu nasci para isso. Tínhamos uns setenta viciados. 

 

P/2 – Dentro da favela, você diz?

 

R – Não, de fora, que frequentavam o local. Playboy, carros bonitos, Mitsubishi importados, viciados em droga. Para a sociedade todo bonitinho, arrumadinho, mas na madrugada tinha a podridão e a sujeira das drogas. E houve muita dificuldade. Eu fui rejeitado completamente de adentrar nesse local. Achavam eles que eu seria delegado. Essa é a primeira impressão: “O cara é delegado. O cara quer se infiltrar para entender, para depois entregar.”

 

P/1 – Desculpa, eu não entendi. Esse lugar a que você se refere era onde?

 

R – Na favelinha, na Nelson Cruz.

P/1 – Ah, tá.

 

P/2 – Mas o pessoal que era playboy, tal, ia lá? Isso é que eu não entendi.

 

R – Vai. Não ia não, vai.

 

P/2 – Vai, para comprar drogas?

 

R – Para comprar drogas.

 

P/2 – Ah, tá.

 

P/1 – À noite, madrugada?

 

R – À noite. Ele não compra droga e vai fumar no apartamento cinco estrelas do pai e da mãe.

 

P/2 – Então fica fumando lá.

 

R – Fica fumando lá. Tudo que acontece de ruim, foi o pessoal da favela. Não foi o pessoal da favela, foi o pessoal que vai na favela. Quem? O pessoal de fora.

 

P/1 – Mas dentro da favela tem os passadores?

 

R – Como tem em todos os lugares. 

 

P/2 – Tá.

 

R – Saí essa semana à noite, fiquei assustado com uma coisa que eu já faço há tanto tempo e me assustei. Com Largo do Belém e etc. Um viciado em cada esquina vendendo droga, quatro horas da manhã. Mas aqui no Belém? Aqui no Belém, lá no Tatuapé, lá na Mooca, lá na Cracolândia, na Boca do Lixo, na República, tá tudo a mesma coisa. É só droga. Droga, sexo e roubo. A sociedade em si parece que, eu vejo assim, nós vivemos dentro de um balãozinho da sua casa, do seu trabalho, da sua família, da escola dos seus filhos. Fecha o portão, fecha uma porta, fecha mais um portão, solta o cachorro lá fora. Nós vivemos assim. Nós conhecemos muito pouco do que de fato é a cidade. Eu costumo dizer para mim mesmo: o mundo vive a noite. O mundão vive a noite. Porque houve uma barreira, uma dificuldade, houve uma necessidade de eu me entrosar com aquelas pessoas. Mas eu tinha que ser um deles para me entrosar com eles. Mas aí eu sou um cristão, não podia usar droga e não podia roubar. Eu comecei a atingir uma área deles: comida, roupa, frio, levava um cobertor, eu comecei a me infiltrar e arrumar amizade. E aí levei dois anos do começo da minha conversão como cristão com essas pessoas. Eu levei dois anos dentro de boca de droga, conhecendo do crack, da cocaína, como é que faz o bagulho, como é que aplica na veia. Fiquei conhecendo as reações. Depois daí já entrei direto para os terreiros de macumba para aprender a respeito de bruxaria, de feitiçaria. O porquê das coisas. Por que é que isso está assim, por que é que isso está assado. Tudo tem um fundamento. Eu comecei a aprender. Quando esse ínterim de aprender Deus me deu uma graça para eles entender que eu estava com o propósito de ajudá-los, e não de atrapalhá-los. E aí eu abri a igreja de madrugada, o larguinho nós abrimos ele de madrugada. A gente levava as pessoas para dentro da igreja: “Está muito frio? Vamos lá para dentro da igreja, toma um café quentinho.” “Mas é só um cafezinho.” mas era o único meio que nós tínhamos na época de ajudar e mostrar que o nosso objetivo não era atrapalhar, era ajudá-los. E foi se expandindo. Deus tem uma promessa que ele ia acabar com tudo, aqueles drogados na rua. E foi acabando. Nós fomos fazendo trabalho de conscientização. Eu fui conhecendo mãe e pais de jovens daqui do Belém, que moram em suas casas bonitas, seus apartamentos. Eles pegavam o folhetinho que eu entrego e levava para casa. Esqueciam lá no bolso, a mãe pegava. Depois ia se informar aonde que eles estavam acabavam chegando em mim. E nós íamos conhecendo os pais, as mães, fazendo um trabalho de conscientização. “Pouca conversa, pouco tempo de dialogar com seu filho? Você não tem tempo. O ladrão tem, a prostituta tem. O viciado tem tempo de dialogar o dia inteiro se ele quiser, mas você em casa não tem.” e nós fomos fazendo um trabalho de conscientização junto à família. Aqui em Belém, Mooca, Tatuapé. Junto à família, explicando o porquê dele estar lá. Eu falei assim: “Olha, eu fico duas horas sentado lá na igreja ouvindo o filho da senhora. A senhora fica ouvindo?” “Não, eu tenho que trabalhar, e depois tenho que isso, e depois tenho que aquilo. Eu tenho meus compromissos. Depois eu tenho que ver o jornal, tenho que ver aquilo.” “E o seu filho?” “Ah, a gente conversa no final de semana. Mas no final de semana ele não fica mais em casa.” “Eu estou tendo tempo de conversar com o filho da senhora.” Aí a gente fazendo esse trabalho de conscientização. Deus foi colocando a mão, a ponto de chegar dias nós não termos mais nenhuma pessoa. Depois nas madrugadas, eu costumo dizer assim: “Eu faço o trabalho da Rota, né?” (risos) Eu saio pelas ruas. De repente a gente encontra alguém pelo espírito de Deus, a gente sabe quem presta e quem não presta. Quantas vezes a gente não chegou aqui no Belém e a gente vê pessoas entrando em casa, em padaria, pizzaria, os moleque entrando estourando. Você chega, como você já conhece, você chama o pessoal, conversa, dá uma alimentação, aconselha, manda embora, liga para o dono para vim fechar o seu estabelecimento porque os caras iam roubar. Então um trabalho de conscientização. Conscientizando as pessoas. E aí veio aquela necessidade, além do trabalho de conscientização para os que têm, para os que têm casa, e os que não tem? O ladrão, o viciado em droga, cocaína nem tanto, crack, é assim, considerado na nossa linguagem no submundo, o demônio. Esse é chamado o crack. Ninguém quer um viciado dentro de casa, ninguém. Eu já estou há um bom tempo, eu nunca vi uma mãe, uma mãe amorosa, querer um viciado dentro de casa. Porque o viciado ele não estraga a si próprio, ele estraga com toda a família, e acaba com toda a vizinhança. Hoje, quantas vezes eu não já vi isso, ele rouba a aliança do casamento da mãe. Amanhã leva a correntinha. A mãe vai dormir com o pai, tira as correntinha coloca lá na vasilhinha da jóia, ele vai lá pega e troca por nada. E ele vai acabando. E ele vai destruindo a casa. Chega a ponto de desligar o feijão e roubar o botijão, por nas costas e trocar por uma pedra de crack. A mãe não aguenta. Quem aguenta isso dentro de casa? E joga ele na rua. E agora que ele está na rua? Desprezado pela família, odiado pela polícia, detestado pela sociedade, e programado pelos traficantes para cometer todo tipo de atrocidade. Você vai no farol, pára seu carro, se depara com um camarada desse. Você vai fazer o que com ele? Se ele falar para você: “É assalto.” Tende misericórdia, sai e dá tudo. Ele não tem nada para perder mais. Já perdeu tudo que ele tinha: dignidade. E não quer nem que seja chamado pelo sobrenome da família. Isso é uma coisa do ano 2000 e tanto? Não. É uma coisa que está acontecendo hoje na nossa cidade. 

 

P/2 – Mas aí você começou a fazer esse trabalho com o pessoal da rua, então?

 

R – Da rua.

 

P/2 – Fazendo o que?

 

R – Na época eu construí uma casinha, para casar. E um dia eu estava em uma madrugada encontrei um rapaz e ele disse: “Muito bem. Cafezinho, roupinha e tal. Você não teria coragem de me levar para a sua casa, eu sou um viciado.” Eu falei: “Ah, eu tenho sim. Vamos comigo.” Ele veio. Aí cada um foi para a sua casa, e ele ficou olhando para mim na rua. (risos) Falou: “Irmão, você é cristão hipócrita, você fala e não cumpre. Eu vou morar aonde?” Aí novamente aquela voz de Deus falou dentro de mim: “Ah, dá a tua casa para ele.” Eu coloquei ele para morar comigo. Com três dias depois nós tínhamos cinco pessoas semelhante a esse que pegamos aqui na Mooca, no Largo do Belém.  E eles não permitiam com que eu entrasse mais na minha própria casa. Porque, segundo eles, a casa agora era deles, e eles iam colocar um bar e abrir uma boca de droga. Dentro da minha própria casa. Me ameaçaram. Se eu tomasse alguma atitude me matariam. E como eles sabem que eu sei que eles matam, facilitou o lado deles. Então você não pode mais entrar, a casa é nossa. Novamente eu retornei aos pés de Jesus e disse: “Senhor, e aquela conversa que nós tivemos? Eu prometi que te serviria e faria esse trabalho, mas que o senhor era comigo.” E aí, no linguajar cristão, Deus me deu autoridade e eu fui lá e conversei não como homem com homem, mas com autoridade de Deus. E Deus novamente me deu as rédeas, o prumo da casa de volta.

 

P/2 – Mas, exatamente, o que aconteceu? Você chegou lá e fez o que?

 

R – “Olha, eu estou aqui…” Vou usar nossa linguagem de cristão: “...eu estou aqui para dizer o seguinte: que as ordens da casa que Deus me deu é esta, e esta, e esta. Não fumar, não beber, não jogar, não brigar, não discutir. Não deixar a casa desarrumada, ir a igreja todos os dias. Porque Deus se agrada de misericórdia e não de sacrifício e acabou. E se alguém achar ruim e levantar a mão para bater em mim o meu Deus vai cortar a tua mão e acabou, pronto.”

 

P/2 – (risos)

 

R – Eu não sou preconceituoso não. Um negrão veio em cima, eu falei: “Você que sabe, foi Deus que mandou. A casa é de Deus. O nome da casa é Casa de Deus. A casa é de Deus, e eu sou filho de Deus. Você é filho das trevas e chega querendo tomar aquilo que não é seu.” Aí houve assim uma manifestação de Deus e todo mundo se acalmou. E nós começamos a fazer o trabalho. E veio aquela dificuldade, filha, como sustentar esse povo? É um trabalho que Deus deu para mim, eu não vou ficar pedindo nada para ninguém. E sustentar? Do jeito que nós estamos hoje? E aí eu só chorava: “Jesus, como que eu vou sustentar cinco pessoas? Eles comem tanto.” 

 

P/2 – (risos)

 

R – “Eles comem tanto... Cinco pessoas. É muito arroz, é muito feijão.” Aqui tá um mendigo, e eu cheguei tirei o mendigo e eu levei ele para a minha casa. Ele vai um banho de quarenta, cinquenta, uma hora na chegada. Para tirar piolho, muquirana. Depois eu tenho que dar para ele um barbeador. Depois eu tenho que dar para ele uma pasta e uma escova de dente. Depois eu tenho que cortar o cabelo dele. Depois eu tenho que dar um chinelo, uma calça, uma cueca e uma camisa. Tudo isso leva dinheiro. Tudo isso leva dinheiro. “Jesus, mas como?” E Deus um dia falou para mim assim: “Meu filho, quem sustenta um, sustenta dez. Você não aprendeu isso quando você era criança, que se dizia lá no sítio: 'Ahn, não vai poder mais ter um filho porque não pode sustentar.' aí o mais velho dizia: 'Mulher, quem sustenta um sustenta dois. Onde come um come três. Se houver amor dá até para quatro'.” Eu fui pegando essa linha de raciocínio. Deus falando comigo. Nós começamos a trazer as pessoas das ruas. Começamos a trazer. E nós chegamos a quinze pessoas. “Deus, quinze pessoas. Não vou nem fazer as conta dos gastos. Só orar.” E nós estamos no mundo da tecnologia, do computador (risos) mas Deus ainda faz milagre. Eu sou um milagre, eu vivo de milagre. Acabou tudo. Arroz, feijão, mistura, sal, tudo. “Nós vamos fazer o que? Pedir eu não vou pedir. Deus não me colocou para fazer uma coisa para mim estar pedindo as coisas para quem está trabalhando. Ele me deu o meu trabalho. E eu trabalho e sustento o fruto do meu suor, do meu dinheiro. Meu vale foi antes de ontem, me sobrou dois reais, das contas. E eu vou sobreviver até dia trinta, meu pagamento com o que? De milagres.” Põe todo mundo para ajoelhar, orar e pedir a Deus. E Deus usa as pessoas. Está na hora de colocar a panela no fogo. Coloca água na panela, o arroz vai chegar, o feijão vai chegar. Nós estamos lá orando, de repente alguém chega: “O irmão mora aqui?” “É.” “Olha, irmão, não sei, uma voz falou dentro de mim, eu senti que eu tinha que vir trazer esse arroz.” Aí entra o arroz, coloca um arroz, e o feijão? “Quem falou com essa vai falar com uma outra, e vai trazer também o feijão.” E nós temos sobrevivido dessa forma. Isso é um tipo de trabalho, esse é um tipo de trabalho que se houvesse uma conscientização de associação de bairro, de moradores, é um trabalho cristão, mas é um trabalho sem fins lucrativos, e sem nome de religião, nós limparíamos em um mês um bairro completo. Nós limparíamos um bairro, nós limparíamos uma cidade rapidinho. Como? Eles estão lá jogados porque não têm outra saída. Não têm outra solução. Ninguém dá apoio. É escárnio para a sociedade. E depois que está lá, como eu estava conversando com a Marina, aí vem a malandragem. Vem a malandragem, vem os truque, vem a pilantragem, para poder sobreviver. O camarada chega para mim na madrugada, nesta manhã fria diz: “Ó, irmão, o lance é o seguinte, a noite eu tomei todas e de repente eu não dormi. Eu tive que fumar uma pedra.” Eu jamais vou falar que o cara está errado, jamais vou falar que o cara está errado. Você já dormiu uma noite no relento, caindo uma garoa fria no seu rosto, sem você ter um a blusa e um cobertor? Você nunca dormiu. E se dormir sem droga, sem bebida, morre, em uma noite só. O frio mata. O desespero mata. A solidão interior mata, destrói. Então a única saída, no momento, mais barata e mais fácil é a bebida, o álcool e as drogas. O camarada, o moleque caiu dentro da Febem, ele não aprendeu um curso profissionalizante. Ele foi sendo alimentado daquilo que ele já sabia antes. Ele saiu de lá de dentro. Ele chega na padaria, o português vai falar assim: “Tira esse moleque, é ladrão.” E ele sai fora. Ele vai entrar no bar, o dono do bar: “Tira esse moleque.” Ele vai entrar na lanchonete, todo mundo bem arrumadinho, o dono da lanchonete já quer meter-lhe: “Ah, chuta esse moleque para fora.” Ele chega no farol, diz: “Tia, me dá um dinheirinho para mim comer.” “Vagabundo, vai trabalhar.” Você quer que ele faça o que, minha filha? Vai trabalhar aonde? O camarada com as documentações tudo arrumadinha, atestado de antecedente, não está arrumando emprego. Um moleque que saiu da Febem, um cara que saiu da Casa de Detenção vai arrumar? Quem vai dar emprego para um ex-detento do Pavilhão Nove? Puxa a ficha do cara só crime. Ele agora está na rua. Ele olhou para um lado e para outro e disse: “Ah, o lance é esse? Ah, vou ter que encostar alguém na parede, fazer o que? Morrer de fome, não. Morrer de fome eu não vou. Eu não vou.” Aí vem uma mentalidade obscura, negra, das trevas, que já emplaca na mente dele: “Você é bicho. Você é bicho. Você não tem família, a sociedade não lhe quer, todo mundo te detesta, você é animal.” Por que é que quando você abre o jornal diz: “O cara é um animal.” Ele foi treinado para ser um animal. Houve um treinamento para ele ser um animal. Ele é um bicho bruto. Ele está jogado às margens. Ninguém dá atenção para ele. Ninguém acolhe ele. Ninguém recebe ele. 

 

P/2 – Hoje nessa casa então ainda moram essas quinze pessoas?

 

R – Não. Nós chegamos a quarenta. 

 

P/2 – E o que eles fazem durante o dia? Como é que vocês acabam organizando tudo?

R – Quase todos eles trabalham. 

 

P/1 – Em que?

 

R – Quase todos eles que estão hoje nas ruas já tiveram uma profissão. Depois que há uma recuperação, uma libertação do passado obscuro, Deus abre as portas e todos eles voltam a trabalhar naquilo que trabalhavam antes. Eu tenho hoje moços, eu tenho bancários, moço que trabalha no banco. Programador, digitador de computador.

 

P/1 – Que estavam nas ruas?

 

R – Que estavam na rua. Eu tenho esse outro moço que eu estava falando ainda pouco, ele é manobrista. Olha a profissão de um ex-ladrão, hoje é manobrista de carro de madame. Podia pegar um BMW e ir embora, né? Deus fez isso. Hoje ele é manobrista. Trabalhava, último emprego dele agora, ele trabalhava de manobrista no shopping lá no Morumbi, Shopping Morumbi. Ele não podia pegar o BMW das madame e ir embora? Podia. Só que Deus transformou a vida dele, deu uma nova visão de vida para ele. Ele hoje trabalha e ganha honestamente. Eu tenho vendedores, tenho pedreiros, tenho eletricistas, eu tenho um pouquinho de cada.

 

P/2 – Sempre homem, então?

 

R – Sempre homem. Já trabalhei com mulheres, mas por falta de espaço. Nós estamos esperando em Deus e a promessa que nós vamos trabalhar com mulheres também. E aí Deus foi abrindo as portas. Tudo por fé, por vontade, desejo de fazer aquilo que é bom diante dos homens, diante de Deus, Deus prospera. E nós compramos, a Bíblia diz, em Isaías 55, sem dinheiro. Um terreno em Guarulhos, grande. Trezentos e quinze metros quadrados. Sem dinheiro. Por milagre. Para começar uma construção, para não ter mais quarenta, nós queríamos até o final deste ano, cem pessoas. E nós começamos uma construção sem dinheiro.

 

P/1 – Como é que funciona isso?

 

R – É interessante. Eu estava em casa, expliquei a explanação e o plano meu como homem diante de Deus. E, por fé, às vezes a gente pede fica sentado esperando. “Vou esperar que vai chegar sim, porque eu preciso. E eu não preciso para os meus deleites, eu preciso para aquilo que é bom.” Só um exemplo: um rapaz chegou, tocou a campainha já era madrugadão. Quando eu abri ele falou: “Ó, é o seguinte: essa mulher não é minha. Eu estou vindo de um prostíbulo.” Eu falei: “Tudo bem.” 

 

 

P/1 – Nós estávamos no milagre...

 

R – Da casa, isso.

 

P/1 – Da casa.

 

P/1 – O moço chegou lá em casa e falou: “Eu cheguei, estava em um prostíbulo com essa mulher, eu ia gastar um dinheiro. E uma voz ficou falando dentro de mim assim: 'vai em tal lugar e procura um irmão lá'.” Eu falei: “O irmão sou eu. Entra aí.” Que geralmente as pessoas me procuram muito de madrugada para receber oração. “Você quer receber uma oração, né?” Ele falou: “É, pode ser, mas é outra coisa. Você está fazendo uma construção, alguma coisa?” Eu falei: “Estou.” “Mas você tem dinheiro?” Eu falei: “Não tenho.” “Como é que você faz?” expliquei para ele. Ele disse: “Uma voz falou dentro de mim que eu deveria vim aqui e te dar uma oferta para te ajudar na construção.” “Amém.” Meteu a mão no bolso e me deu onze mil reais. Eu vivo de milagres. Hoje nós estamos com trezentos e quinze metros de laje embaixo e em cima, já funcionando. Para terminar esse ano, nós precisamos estar com, pelo menos, cento e cinquenta pessoas a menos nas ruas. Cento e cinquenta ladrões a menos, cento e cinquenta mendigos a menos. Você vai poder parar em cento e cinquenta faróis com menos uma pessoa para te pedir alguma coisa, talvez para te roubar. E hoje nós estamos construindo também em Santo Amaro. Fica perto de, na subida para Santos. No meio da mata onde passa a rodovia. Nós estamos fazendo ali barracões de madeira, enormes, para levar o povo. É ruim ficar na rua. É triste. É sujo. É nojento. As pessoas passa e cospe. As pessoas passa e joga lixo. As pessoas passa e toca fogo. E você não tem dignidade nenhuma. E alguém precisa fazer alguma coisa. “Fulano faz.” “Não, aí é o prefeito que tem que fazer.” “Aí é o governo que tem que fazer.” “Os deputados deveria parar de ficar roubando e fazer.” Mas eles não estão fazendo, e as vidas estão morrendo. Esses menino que sai da casa de detenção eles saem bicho. Os caras saem animal. Fazer um monte de cadeia, mas cadeia está sendo feita e não está resolvendo. Leva para dentro da cadeia ele não tem nenhuma atividade. Que atividade que ele tem dentro da cadeia? Nenhuma. Mente desocupada, na minha linguagem, é oficina do diabo. Só pensa o que não presta. Fica lá o dia inteiro deitado no sofá. Você só vai, você vai pensar um monte de coisa boa, depois você não tem dinheiro para colocar em prática. Aí vem pensamentos negativos, de arrumar de maneira ilícita. E alguém precisa fazer alguma coisa. Eu volto a dizer: se houvesse conscientização por parte da sociedade com relação a esse tipo de trabalho, nós poderíamos viver hoje em uma sociedade mais humana. Hoje, você já imaginou, você em uma avenida dessa aí você quebra o carro de madrugada? Pede a Deus para isso nunca acontecer. Vão te roubar, mas de tudo quanto é maneira. Por quê? Porque as ruas a noite está cheio. Durante o dia não, todo mundo está escondido na toca. Durante o dia está todo mundo no mocó. “Ah, eu sou bicho, bicho só sai à noite.” Bicho é treva, bicho é escuro. É a noite que os bicho age. Então eles começam sair à noite, e é justamente nessa parte que eu entro. Com a palavra de Deus, com a alimentação, com roupa, com conversa. No Brás, Parque Dom Pedro, Triunfo, Cracolândia, lá na Mauá, na São João, República, Santa Cecília, Sé. E aí a gente fica a noite inteira andando. Procurando essas pessoas. 

 

P/1 – Quantas pessoas cabem ali onde você tem uma casa, que é do lado?

 

R – Dezoito. Quantas temos? Quarenta.

 

P/1 – Naquela casa do lado?

 

R – Aí alguém chega e diz assim: “Ah, mas isso não está certo. Ficar amontoado um monte desse jeito. Tinha que ter conforto.” “Leva para tua casa e dá conforto, filho. É o que eu tenho. Eu só posso ficar com dezoito , mas me chega um sujo, fedido e diz: 'irmão, não tem onde dormir?'“ Eu digo: “Não tem.” “Eu fico escorado aqui no portão, segurando no portão, mas me deixa dormir com uma grade, para eu ter consciência dentro de mim que ninguém vai me matar durante a noite. Eu estou uma semana sem dormir, com medo.” “Entra meu filho.” E aí vamos colocando. E aí vamos produzindo. É uma fábrica, produção. Trouxe ele hoje, uma semana ele já está melhor “Vamos procurar sair, emprego”. “Vamos.” “Arrumou emprego? Está trabalhando? Arrumou o dinheiro? Arrumou, aluga. Volta para dentro da casa da família.” E nós começamos a produzir. Junho do mês passado nós produzimos quinze vidas. A cada dois dias uma vida. Tem mês que nós produzimos quatro, tem mês que produzimos seis. Tem mês que produz dez. Tem mês que produz um. Sai casado. Sai para dentro da casa. Um momento feliz é quando a família vem buscar. Quando a esposa vem pegar o esposo com as crianças. Ela chega, bate no portão, aquele sorriso bem alegre. Sai ele todo bonitinho e arrumadinho, com a Bíblia na mão, abraça a esposa, abraça as crianças, tchau. São momentos de alegria. (chora) Por isso que a gente faz. Saber que tão pouco que a gente tem nós podemos fazer alguém feliz. Nós podemos ajudar o outro. Sobrou cem gramas de arroz na sua casa, você pode ajudar. Se eu tivesse… (chora)... Se eu ganhasse na loteria, eu compraria uma fazenda e mandaria todo mundo para lá. Me perdoe se não der na loteria. Deus chamou cada um para ajudar com aquilo que tem. A Bíblia diz que uma mulher lá ela deu uma oferta de duas moedas que era tudo que ela tinha. Enquanto o outro deu um montão. Se eu tivesse hoje condições, não teria nenhum mendigo nessa cidade, ou em outras cidades. Mas o lugar que eu tenho hoje só vai comportar cem pessoas. Daqui mais um mês nós vamos fazer um local para mais vinte, que também Deus nos deu como milagre. E nós vamos crescendo, de acordo com que cresce a bandidagem na rua nós precisamos crescer paulatinamente para tirá-los. Para que seu filho possa viver dignamente. Se vocês soubessem a máquina de reuniões que é para entrar droga dentro de colégio onde seu filho estuda, terrível. Como que menina, com doze, treze anos elas são treinadas, treinadas, para se prostituir, para levar droga e estudar junto do teu filho, para transar com teu filho e passar droga para ele. “A polícia, não polícia não, deixa os meninos para lá.” Cuidar na nossa casa. Senta com teu filho e com a tua filha, conversa, explica. Ninguém está impune a isso. Ninguém, ninguém, ninguém. Ela está na porta do supermercado, ela está dentro do supermercado, ela está dentro do açougue, ela está em um bar, ela está na lanchonete, ela está na porta da igreja, ela está dentro do colégio, ela está em todos os lugares. Ela está na favela, ela está no Belém, misericórdia. O Brooklin então? Morumbi. Toda esquina. Toda esquina. E nós precisamos fazer alguma coisa. Eu não consigo assistir tudo isso de camarote. Eu preciso por a mão.

 

P/2 – Mas me conta agora então como é que é que você organiza a sua vida? Você trabalha de dia...

 

R – Trabalho, ah, é corrido. Eu entro agora às onze e quarenta e cinco, saio quinze para as nove. Quando eu saio de lá eu já corro direto em Guarulhos. Eu sou casado, tenho duas bonecas em casa. A minha esposa e a minha filha, linda, uma bonequinha. Mas Deus me deu uma companheira que tem esse mesmo espírito. Saio do serviço, vou a Guarulhos, faço trabalho na casa lá. Volto, passo na minha casa, pego a minha esposa, vamos para outra casa. Faz o trabalho lá. O trabalho que eu digo é servir a comida, dar uma palavra, fazer uma oração. Que eu faço questão de servir a comida na mão de cada um.

 

P/2 – Mas a sua esposa vai com a sua filha?

 

R – Juntos. Ela sai todas as noites que eu saio, as madrugadas inteiras por as ruas, ela sempre saiu comigo, junto. Nós procuramos dar um exemplo de casal, para que eles na rua possam ver que Deus não chamou só a mim, chamou também a minha esposa. Então enquanto você está dormindo eu estou acordado.

 

P/2 – Aí todo dia você faz isso?

 

R – É de acordo com a necessidade do povo. Eu sou um garçom. Se eles necessitam eu estou disponível para ajudá-los, para visitá-los. Para levá-los de volta para suas casa, para atendê-los da melhor maneira possível e dentro das condições que Deus tem me dado. Precisamos crescer, precisamos crescer com esse tipo de trabalho. Precisamos de conscientização das pessoas, dos pais. Que acha que meu filho estuda em um colégio particular. São justamente nos colégios particulares que entram aquelas moreninha, loirinha, doze, treze anos, que seu filho nunca transou. E ela começa a conversar com ele e ela dá uma aula de sexo para o menino. E ele diz que não quer nada, ela diz: “Você é bichona.” O menino para não aguentar bichona, transa com a menina. Só que nessa transa rola uma droga. Amanhã, depois, seu filho é um viciado. Só que a menina ela não fica mais de que seis meses dentro do colégio. Porque com seis mês o seu filho viciado ela já começa a roubar suas jóias. E a mãe vai saber o porquê da coisa: “Meu filho hoje é um viciado.” “Isso acontece com a filha da vizinha.” Não, com os nossos filhos. Com os nossos filhos. É que tem muitos aqui nesses bairros que os pais ainda não sabem. E a gente conhece caso em que um rapaz, ele hoje está na trinta e quatro do Sacomã, em seis meses contado - eu acompanhei toda a trajetória daquele menino - ele acabou dois carros zerado que ele tinha. Um carro zerado da esposa. Uma loja da esposa, aqui na Rua Belém. Ele trabalhava de representante de moda, ele quase quebrou o patrão. Pegou toda a mercadoria e trocou toda em droga. Depois ele se escondeu no viaduto daqui do Tatuapé. E o pai dele com problema no coração. Nós tínhamos que sair todas as madrugadas para atender aquele rapaz. Mas a família não ajudava no trabalho que a gente estava fazendo com ele. E ele acabou parando um táxi dez horas da manhã na Marginal, muito doido, cheio de droga. E abriu as quatro porta e cismou que aquele táxi estava levando droga. E ele foi pego, seis anos de cadeia. E ele vai sair de lá um bandido. Fui visitá-lo. Com uma bela de uma tatuagem de presídio. E ele vai encontrar você, você vai dizer: “Olha, você esteve na cadeia? Ahn, você era um viciado? Você que ia roubar?” E vai indo para a mente, vai indo para o cérebro, vai indo, vai indo, vai indo, e se não houver uma intervenção de Deus, um amor, ele vira bicho. 

 

P/1 – Só uma última coisa: aqueles catadores de papel, né, você, alguns são encaminhados para catar papel, como é que é?

 

R – Desenvolvemos esse trabalho. Nós catamos papéis nas ruas, lixo. Faz-se a reciclagem, para pôr aqueles que não tem nenhuma profissão para trabalhar e desenvolver alguma coisa. Até isso ficou difícil. Apareceu uma lei aí que não pode mais pegar esses papéis. Só Deus para nos ajudar.

 

P/1 – Não pode mais?

 

R – Apareceu uma lei da Limpurb que tem que se cadastrar, abrir firma e tal. Nós não temos condições de abrir firma, fazer essas coisas. Nós não temos dinheiro para isso. Nós precisamos de pegar o papel para sustentar o pobre e o necessitado. Mas eu quero que vocês entendam, que o negócio é meio dificultoso. É como se as portas fossem fechando, mas quando nós olhamos para uma vida recuperada, um moço ficou dez anos na Casa de Detenção, e ele agora está todo feliz, bonitinho, trabalhando, morando no seu lugarzinho, noivando, casando, a gente pula todas essas barreiras, passa por todas essas portas. E continua com a cabeça erguida, trabalhando e fazendo aquilo que Deus colocou nas nossas mãos. Isso é motivo de alegria, de felicidade, de contentamento. Saber que hoje nós podemos ser úteis para alguém. Fazer alguma coisa por alguém, fazer alguém feliz. Hoje eu tenho um monte de neto. Né? Eu os chamo meus filhos, eu trato como fosse meus filhos. Deus me chamou para isso. Minha roupa é a roupa dele, a minha comida é a comida dele. Minha esposa come junto, minha criança come junto, e com isso nós ganhamos respeito e autoridade dentro de casa, no bairro, para ter uma vida limpa, uma vida digna. Saber que tudo aquilo que a gente está fazendo não é em prol de dinheiro, que é o que se rola hoje, não é em prol de aparecer. Mas é em prol de tirar vidas e elas aparecerem novas para a sociedade, trabalhando. Tem sido uma luta, uma batalha, as noites. As críticas são muitas, o pessoal critica muito. Eu sou chamado de O Irmão Mendigo. Tem gente que diz que eu me pareço muito com eles, porque eu só vivo com eles. Sempre que você me procurar eu estou no meio deles. (risos) Você me ligou dez vezes e não conseguiu me achar. Porque eu estou sempre no meio deles. Dando banho, trocando uma roupa, se eu tiver um barbeador eu tiro a barba. Se eu não tiver o senhor me perdoe, eu não tiro. Tirei a minha já acabou o barbeador. “Não tem um sabonete cheiroso?” “Tem um sabãozinho de pedra, aí?” O outro irmão: “Dá um sabãozinho de pedra, vamos dar um banho nele, passar uma escovinha. E aí nós vamos fazendo. E por que tem tantos ainda na rua? Nós não temos ainda condições de trazê-los, mas vamos ter. Em nome de Jesus nós vamos ter condições de trazê-los, abrigá-los, fazer um retrocesso de vida. Deus limpar a mente e começar tudo de novo.

 

P/1 – A gente já está se encaminhando para o fim da entrevista, tem alguma coisa que você gostaria de acrescentar, que você não lembrou, enfim. 

 

R – (risos) São tantas coisas. Nós vivemos de tantos milagres, tantas maravilhas. O milagre da cura. Noventa por cento das pessoas que eu recolho em casa são aidéticos. Esses moços bonitos que estão arrumados aí. Aidéticos. Jesus cura. Eu não tenho dinheiro para comprar remédio. Não tenho tempo para ir para hospitais. Não tenho carro disponível para fazer isso. Jesus cura os aidéticos. Eu amo muito os aidéticos. Se Deus me desse condições eu queria pegar todos eles assim para mim. Para ver Jesus curar e libertar. Canceroso. Esse problema que se enfraquece os ossos. Porque ficou muito tempo deitado na sarjeta, todos eles vêm com essas doenças. Ninguém vem com atestado de pulmão cem por cento. Um desses moços que está conosco aí ele começou usar droga com dez anos. Chegou aos vinte e quatro usando drogas todos os dias e pico na veia. O cérebro dele não desenvolveu. Houve um atrofiamento na sua infância, juventude, adolescente, houve um atrofiamento. Em vez de ele aprender que ele tinha que amar ele aprendeu que ele tinha que usar uma arma mais potente para poder vencer. Então ele desenvolveu um lado negativo. E o lado social foi atrofiado. Agora nós começamos fazer um trabalho. Vamos trabalhar em cima do lado social para que o bem cubra o mal que já nasceu e criou e que está vivendo e reinando dentro de você. Nesse ínterim vem a cura de Deus. A cura da Aids, a cura do câncer. Está matando muita gente. Muita gente gastando fortuna com os aidéticos. E é tão simples, nós não gastamos nada. Nós só oramos e Jesus cura. Amém. Mais alguma coisa, que eu tenho tanta coisa. (risos) É uma benção, é bom, traz alegria, traz contentamento. Não é um trabalho religioso, eu não vejo assim. Eu vejo um trabalho informativo. Eu vejo um trabalho de resgate. Um trabalho onde um dia eu estava de madrugada embaixo do Viaduto da Sé, e vi um monte de maluco. Os caras malucos. Estava Jesus e eu. Só nós dois. Eu encostei na parede e falei: “Deus, só tem maluco.” O cara chegou para mim: “Aí mano... Tem muitas coisas que os caras… “...A mão para cima, compadre.” Acontece direto na minha vida. “Mão para cima por que, meu?” “É assalto.” “Assalto não, compadre. Você é da parte das trevas, eu sou da parte das luz. Eu tenho autoridade sobre você.” Esse milagre acontece direto comigo. Porque eu vivi muito nesse meio, e vivo muito. Então a gente conhece muito de arma. Setecentos e sessenta e cinco, como que elas funciona. Quarenta e cinco, a PT automática. As armas do Saddam Hussein. Tem muito no submundo das drogas. “Eu vou apertar.” “Você não vai apertar, louco. Se você apertar sai ao contrário. Porque eu estou fazendo uma coisa que Deus me vocacionou. Então se Deus me chamou para isso eu tenho autoridade. Eu tenho carteirinha assinada no céu para fazer isso aqui.” “É que é o seguinte, cara, nós somos os anjos da noite, das trevas.” Aí o Espírito de Deus falou dentro de mim: “E você é o anjo da luz.” Então eu vejo o trabalho assim. Aonde vai luz? Nas trevas. Onde se tem uma reunião que só se fala de matar, de roubar. Onde se reúnem pessoas de diferentes classes, desde um mandão até o aviãozinho - que é aquele que sai levando a droga de mão em mão - todos eles têm o mesmo projeto: destruir. “Passou no meio a gente destrói.” E, de repente, você entra no meio de uma reunião dessa, para dizer para todo mundo que a ordem não é destruir, é construir. Que a ordem não é matar, é viver. E aí vêm as barreiras. Mas Deus sempre abre uma porta onde não tem porta. Abriu o Mar Vermelho, Moisés passou. Tem abrido portas para mim assim andando no submundo do escuro, mocó? Não sei se você sabe o que é um mocó? Você chega em um mocó, você bate um código, Deus me deu graça, e eu chego nos locais e bato o código de bandido, de ladrão, de traficante e os caras me aceitam. 

 

P/1 – Você bate um código?

 

R – (risos) Tem que ter código, você não vai entrar em um mocó, pá. Chegar em um mocó, e aí, você vai entrando aí, mano?

 

P/1 – O que é um mocó?

 

R – Mocó é um esconderijo. A maioria deles é na terra, ou dentro de pilastra de viaduto, que só tem uma entrada e um túnel só. Então para entrar tem que ser de um em um. Se você não é truta, vai entrar de um em um, os caras vão matando. Então...

 

P/1 – Que é truta?

 

R – Se você não faz parte da mesma...

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – ...da mesma gangue, então você vai morrendo. Então você chega, bate o código. A maioria deles viaduto, os caras lança a corrente, você sobe pela corrente, e você se infiltra dentro de uma reunião dessa. Você começa a falar de Jesus, e Deus vai despertando um e outro, e a gente vai levando para casa, levando de volta para as famílias.

 

P/1 – Mas eles aceitam ouvir sobre Jesus?

 

R – É...

 

P/1 – Ou ficam revoltados?

 

R – Não, aceitam. Por se ouvir falar tanto do mal, quando se ouve falar o bem, ficam... E quando nós damos o testemunho do bem, nós mostramos o que o bem fez, as vidas recuperadas. Ninguém melhor do que meus filhos para fazer esse trabalho. Eu saio com um filho desse meu aí, ele conhece daqui, aqui é a Tiradentes, até o Alto da Lapa. Todas as bocadas de Rambo. E todo o submundo da malandragem.

 

P/1 – Agora, você vai acompanhado com eles que você já recuperou?

 

R – Vamos. Alguns vão.

 

P/1 – Que já conhecem os caminhos, os códigos.

 

R – Que já conhece as bocada. “Aí, mano, aqui funciona assim, assim, assim.” O cara entra. “Aí todo mundo: pá, mão pra cima.” Os cara: “Mão para cima? Não está lembrado de mim, compadre? Nós fomos parceiro.” “Ô, meu, o que aconteceu com você? Está, qual é que é meu? Pô, engravatado, mano? Com a Bíblia na mão?” Os caras: “Pô, é o seguinte...” Aí nós vamos começar a falar o que Jesus fez, o que Jesus transformou. E de repente nasce dentro dele uma, um desejo de também fazer parte, ou participar também. E aí vai aquele trabalho de conscientização. E graças a Deus tem muitas casas de recuperações hoje aqui em São Paulo. 

 

P/ – E eles vão sozinhos ou sempre você vai junto? Os que você já recuperou?

 

R – Sempre eu vou junto. Eu estou sempre com eles.

 

P/1 – Sempre?

 

R – É. 

 

P/1 – Quer dizer, eles ainda não podem ser soltos...

 

R – Podem, podem.

 

P/1 – ...como multiplicadores.

 

R – Podem. Já fazem, tem alguns que já faz trabalho de multiplicação.

 

P/1 – Sozinhos?

 

R – Já, faz trabalho de multiplicação já, entendeu? Volta, entendeu, eu tenho muita gente do Capão Redondo. 

 

P/1 – Que é brabo lá.

 

R – Capão Redondo é bicho, entendeu? Tem uns malucos lá que só sangue de Jesus. Os cara mata e mata legal. Os cara mata amarrando pelo pé e cortando devagarzinho. Então tem uns, chegou uns maluco em casa que foi fugitivo de lá, né? Foi um milagre de Deus, ele não entende porque a corda quebrou e ele fugiu. Então nós temos que ter um trabalho de preparação especial. E ele tem que sentir que ele está tendo uma chamada de Deus, e um mandado para ir lá. Para se um cara, de repente, por uma setecentos e sessenta e cinco e apertar, não funcionar. Quantas vezes isso não já aconteceu? Porque eu preciso ser mandado para poder ir. Eu só estou aqui porque fui chamado. Então a gente só faz determinadas coisas e principalmente para Deus, se você foi chamado para fazer isso. E nós fomos chamados para fazer assim uma limpeza nos locais, e a gente vai, faz as limpezas. E eu glorifico a Deus porque milhares de bocas de drogas já acabaram. E eu tenho muitas pessoas que como eu não tenho para onde colocar, às vezes eu envio para as casas de recuperações. Pessoas que tinham bocas de droga famosas. Que descolavam até dez pau por noite, e hoje não existe mais essas boca de droga. Essas pessoas hoje são cristãs. Estão em casas de recuperação. São obreiros, me ajudam. E isso é motivo de felicidade, alegria. Saber que nós estamos fazendo uma parcelazinha para ter uma sociedade justa e honesta. Sem pá, pá, pá, pá, que é o que você tem em toda esquina. Cada um dá o que tem, cada um ajuda como pode. Mas se houvesse uma conscientização, que não é colocando um policial em cada esquina que se vai resolver...

 

R – ...seria mais fácil de fazer tudo isso. Coloca um policial em cada esquina, construa uma cadeia em cada esquina também. Aí os que estão soltos vão ter que trabalhar para sustentar eles que estão lá dentro. Depois eles fazem uma rebelião, saem, pegam meio mundo, matam um monte. Adiantou nada. O que adianta é neutralizar, obstruir, acabar com o mal e nascer, aleluia! Uma nova pessoa. Pessoa voltada ao trabalho de conscientização diante da sociedade, diante de Deus. Devagarzinho a gente está indo. Estamos agora, vamos começar a funcionar em Guarulhos sem nenhumas condições. Não temos cama, não temos nada, mas temos uma coisa: Deus e boa vontade. Nós temos boa vontade. Nós precisamos em Guarulhos de cem camas, cem leitos.  Não temos. Mas Deus vai nos dar. Nós vamos pôr aquele povão ali para morar. Fazer um trabalho em um bairro assim, limpar todo mundo, levar todo mundo. Você vai poder andar a noite. Se você atrasar numa festinha e estiver sem carro você pode ir para a sua casa a pés, mal nenhum lhe sucederá. Amém?

 

P/1 – Amém.

 

P/2 – Amém.

 

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