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História

Uma luz no fim do túnel

História de: Francisco Edmisio da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2007

Sinopse

Casa em Nova Olinda, Ceará. Estudos na cidade grande. Vinda para São Paulo. Atletismo. Trabalho como chapa. Ingresso na transportadora. Perda do emprego. Compromisso com Deus. Experiência de dormir na rua. Distribuição de café na madrugada. Abertura da igreja do larguinho. Recebe pessoas em situação de rua para morar na sua casa. Doações. Viver pela fé. Trabalho de recuperação de adictos em drogas. Construção de alojamento em Guarulhos.

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História completa

Sou Francisco Edmísio da Silva, nasci em 17 de agosto de 1968, Nova Olinda, Ceará.

Meus pais trabalhavam na agricultura.

Nós éramos todos do sítio.

 O mais velho veio para São Paulo. Aí começou puxando, veio todo mundo.

 Na época que eu cheguei, sonhava em ser um atleta. Fui muitas vezes no Ceret, participei da São Silvestre. Eu não trabalhava, só estudava, dedicava minha vida só para treino, tanto futebol como atletismo.

 Eu quebrei o braço, fiquei muito tempo afastado. Quando regressei já não tinha mais aquela garra, aquele desejo.

 Comecei a trabalhar de chapa, fazendo carreto, e me virava.

 Nesse ínterim conheci uma transportadora e comecei a trabalhar nela.

 Houve uma recessão: “Vamos mandar os solteiros embora”.

 Em 1992, 1993 eu saí. Comecei a andar pelas ruas, procurar alguma coisa para trabalhar. Passei em frente a uma igreja cristã. Alguém me convidou e eu adentrei.

Nasceu um desejo dentro de mim muito grande, de trabalhar segundo aquela palavra que estava sendo falada. E aí eu fiz um compromisso com Deus, no desespero, que se Jesus abrisse uma porta de trabalho, e que fosse lá na Nestlé, que era o lugar que o meu coração queria eu ia procurar, conheceria melhor quem é Jesus. Fui para casa, no sábado de manhã nasceu um desejo dentro do meu coração de sair na rua, mas estava chovendo. Vou sair na rua na chuva? E eu saí. Desci lá pela Catumbi. Quando estou passando na frente da empresa vem me saindo um rapaz: “Ô, eu lembro de você, trabalhava aqui na transportadora. Olha eu peguei uma senha aqui na Nestlé para alguém, eu vou dar para você então.” Ele me deu aquela senha, eu “ponhei” no bolso, fiquei pensando no compromisso que eu tinha feito, que a coisa ia dar certo. Segunda-feira voltei, foi fácil fazer entrevista. E comecei fazer os exames.

Um dos compromissos que fiz com Deus, foi que com o fruto do meu suor eu ia servir ao pobre e ao necessitado. Como já estava trabalhando, comecei a perguntar para Jesus o que é que eu podia fazer. E um dia Deus me tirou da cama, frio, junho, julho, três horas da manhã. Estava uma garoa muito fria. Saí ali na Rua Passos, fui em direção ao Largo do Belém, tem um canteiro na esquina da Cotegipe. Tinha um rapaz, ex-detento. Uma voz falou dentro de mim, hoje sei que foi Deus: “Deita do lado dele” “Mas eu acabei de sair debaixo de um edredom.” E aquela voz pulsava dentro de mim. Deitei naquela grama molhadinha onde ele estava. Eu olhava para ele, comecei a me tremer e ele normal. Aquela voz dizia: “Agora você sabe o que é que é a vida de um mendigo de rua?” Eu dizia: “Sei por que larguei minha casa, minha família, e estou deitado aqui. Alguém pode passar, fazer alguma coisa contra mim. Agora sei o que é a vida de um mendigo de rua.” Levantei e fui para casa. O coração contristado.

“Eu preciso fazer alguma coisa por essas pessoas? Ah, Jesus, a única coisa que eu posso fazer a princípio é um cafezinho quente, pão, e sair de madrugada dando para eles.” E eu comecei a fazer café e saí todos os dias de madrugada.

Um dia alguém me chamou para ir congregar lá na favelinha. Era um barraco de madeira, passava uns córregos de água. Naquele lugar vi muita simplicidade e um alvo: pessoas carentes que precisavam de ajuda e estavam no centro daquela vocação que Deus tinha me chamado. Então eu comecei. Tive muita dificuldade. Na época, enfrentamos um problema difícil, tínhamos em média uns setenta viciados.

Houve uma barreira, uma necessidade de me entrosar com aquelas pessoas. Comecei a atingir uma área deles: comida, roupa, frio, levava um cobertor. Comecei a me infiltrar e arrumar amizade.

Aí abri a igreja de madrugada, o larguinho. A gente levava as pessoas para dentro: “Está muito frio? Vamos lá, toma um café quentinho.” Era o único meio que nós tínhamos de ajudar.

Na época construí uma casinha, para casar. Um dia, em uma madrugada encontrei um rapaz que disse: “Muito bem. Cafezinho, roupinha e tal. Você não teria coragem de me levar para a sua casa, eu sou um viciado.” Eu falei: “Ah, eu tenho sim. Vamos comigo.” Ele veio. Aí cada um foi para a sua casa, e ele ficou olhando para mim na rua. (risos) Falou: “Irmão, você é cristão hipócrita, você fala e não cumpre. Eu vou morar aonde?” Aí novamente aquela voz de Deus falou dentro de mim: “Dá a tua casa para ele.” Coloquei ele para morar comigo. Com três dias depois nós tínhamos cinco pessoas semelhantes a esse.  E eles não permitiam que eu entrasse mais na minha própria casa. Porque, segundo eles, a casa agora era deles, iam colocar um bar e abrir uma boca de droga. Me ameaçaram. Se eu tomasse alguma atitude me matariam. E como eles sabem que eu sei que eles matam, facilitou o lado deles. Novamente retornei aos pés de Jesus e disse: “Senhor, e aquela conversa que nós tivemos? Eu prometi que te serviria e faria esse trabalho, mas que o senhor era comigo.” E aí, no linguajar cristão, “Deus me deu autoridade” e eu fui lá e conversei não como homem. E Deus novamente me deu as rédeas, o prumo da casa.

E veio aquela dificuldade, como sustentar esse povo? É um trabalho que Deus deu para mim, eu não vou ficar pedindo nada para ninguém. E aí eu só chorava: “Jesus, como que eu vou sustentar cinco pessoas?”. Levei o mendigo para a minha casa. Ele vai precisar de um banho de uma hora na chegada, para tirar piolho, muquirana. Depois tenho que dar um barbeador, uma pasta e uma escova de dente, cortar o cabelo, dar um chinelo, uma calça, uma cueca e uma camisa. Tudo isso leva dinheiro.

Acabou arroz, feijão, mistura, sal, tudo. Põe todo mundo para ajoelhar, orar e pedir a Deus. E Deus usa as pessoas. Está na hora de colocar a panela no fogo. Coloca água na panela, “o arroz vai chegar, o feijão vai chegar”. Nós estamos lá orando, de repente alguém chega: “O irmão mora aqui? Uma voz falou dentro de mim e senti que tinha que vir trazer esse arroz.” E o feijão? “Quem falou com essa pessoa, vai falar com outra que vai trazer o feijão.” E nós temos sobrevivido dessa forma.

Nós compramos um terreno em Guarulhos, grande. Trezentos e quinze metros quadrados. Sem dinheiro. Por milagre. Para a recuperação de mais 100 pessoas. Eu estava em casa, um rapaz chegou, tocou a campainha já era madrugadão. Abri e ele falou: “Estou vindo de um prostíbulo, ia gastar um dinheiro. E uma voz ficou falando dentro de mim: 'vai a tal lugar e procura um irmão lá e dá uma oferta para ajudar na construção’.” Meteu a mão no bolso e me deu onze mil reais. Eu vivo de milagres.

Só estou aqui porque fui chamado. Então a gente só faz determinadas coisas e principalmente para Deus, se você foi chamado para fazer isso.

Eu não consigo assistir tudo isso de camarote. Eu preciso por a mão.

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